Fudeu, Idomeneo! parte - 2
Parte — 2
Cena 3 – Sala de refeições no castelo. Estão Idomeneo, Idamante, Ilia, Electra e o sujeito da praia recostados em divãs comendo uvas.
Fulano de tal do coro – Não é possível, o velho clichê das uvas e o divã.
Coro – Não enche o saco!
Sujeito da praia – Não, ele tem razão. (Dirigindo-se pro telão do coro) Qual é o seu nome mesmo?
Fulano de tal – Fulano de tal.
Coro – É isso mesmo. Você ouviu bem. O nome dele é Fulano de tal (repetindo cantando: O nome dele é Fulano de tal, o nome dele é Fulano de tal).
Fulano de tal – Dá pra parar?
Sujeito da praia – De toda forma, você tem razão, Fulano de tal, uvas ao divã é sacanagem.
Coro – Esquece.
Idomeneo – Chamem os filósofos.
Coro – Não, os filósofos não!
Idomeneo – Núbio, me traga um filósofo, por favor.
Núbio – Sim, senhor. É pra já (ia saindo, pára, pensa, volta). O senhor prefere um um neo-platônico ou um neo-kantiano?
Idomeneo – Hein?
Coro – Hein?
Núbio – Posso conseguir dois existencialistas pelo preço de um. Se bem que, a essa hora, não sei não. Devem estar todos se embebedando nalgum bistrô, indecisos entre entre escargots ou croissants para comer. Sabe como é, demoram um absurdo pra escolher.
Idomeneo (perdendo a paciência) – Traga-me Sócrates.
Núbio – O platônico da primeira fase, o platônico da segunda, o xenofôntico, ou...
Idomeneo (perdendo completamente a paciência) – Núbio...
Núbio – Sim, senhor. É pra já.
(Todos conversam amenidades e comem uvas. Em pouco tempo o núbio chega com Sócrates).
Sócrates (assustado, atropelando as palavras) – Juro por Zeus, não sei de nada. Só sei que nada sei. Não sei de coisa alguma. Nada é coisa alguma. Coisa alguma não é alguma coisa, portanto, não são a mesma coisa.
Todos – Hein?
Coro – Trazer Sócrates não foi uma boa idéia.
Idomeneo – Acalma-te, meu bom e nobre filósofo. Senta e come algumas uvas.
(Sócrates senta-se desajeitado num divã).
Idomeneo – Isso. Come umas uvas. Depois te arrumo uns rapazinhos pra comer também.
Sócrates (animando-se) – Mesmo?
Idomeneo – Fresquinhos, acabaram de chegar de Atenas.
Sócrates (animando-se mais) – Sério? Atenas?
Idomeneo – Tem minha palavra. Mando-te uns três ou quatro para uma boa orgia. Mas agora preciso muito da tua ajuda.
Sócrates – O que é?
Idomeneo – Joga uma luz em nossa ignorância.
Sócrates – Têm certeza de que precisam de um filósofo? Não seria mais o caso de um eletricista?
Idomeneo (puxando o Núbio de lado, cochichando) – Estás certo de que esse aí é o famoso Sócrates?
Sócrates – He, he. Bricaderinha. Estou ao vosso dispor, majestade.
Idomeneo – Ótimo. Pra começo de conversa vamos nos tratar por você mesmo, tá bom? Esse negócio da segunda pessoa dá uma confusão danada.
Sócrates (coçando a cabeça) – Segunda pessoa?
Coro – Aristófanes tinha razão!
Idomeneo – Sócrates, você acha que Deus existe mesmo?
Sócrates (engasgando com uma uva) – Puta merda! Não dava pra começar com algo mais light?
Coro – Estamos te sacando, oh Idomeneo. Sabemos onde quer chegar. (Depois cantando) Sabemos sim, sabemos! Sabemos onde Idomeneo quer chegar, sabemos sim, sabemos!
Idomeneo – Dá pra parar?
(O coro se cala)
Idomeneo – E então, filósofo?
Sócrates – Deus é alguma coisa. Alguma coisa é alguma coisa. Alguma coisa existe. Portanto, Deus existe.
Idomeneo – Hein?
Coro – Hein?
Sócrates – Vamos colocar nos seguintes termos. Se Ele existe e nós apostamos nisso, ganhamos duplamente. Se Ele não existe, mas apostamos que não, não perdemos, nem ganhamos. Mas se Ele existe e apostamos que não... Aí, meu amigo, sai da frente.
Coro – Isso é mesmo socrático?
Núbio (respondendo ao coro) – Deve ser de alguma fase mais posterior. Ou revisionista, sei lá.
Idomeneo – Sócrates, vê se não enrola. Não sou um daqueles sofistas bocós com os quais você está acostumado. Deus existe ou não existe?
Sócrates – Tá bom. Existe. Quer dizer. Existia. Morreu.
Coro – Sócrates matou Deus. Isso definitivamente não é socrático.
Idomeneo – Calem-se.
Sujeito da praia – Escuta aqui, majestade. Por que essa preocupação agora?
Idamante – Por que, papai?
Idomeneo – Nem queiram saber. (Para Sócrates, retomando o fio da meada) E se eu te dissesse que me encontrei com Ele?
Sócrates – Encontrou-se com Deus?
Idomeneo – Bem, quer dizer, com um de seus ministros, digamos.
Sócrates – Como assim?
Idomeneo – E se eu dissesse que estive cara-a-cara com a morte...
Sócrates – A morte é um ministro de Deus?
Coro – Oba! Agora a conversa vai ficar boa.
Idomeneo (irritado) – Nada disso. Não vamos conversar sobre morte. O que estou tentando dizer é que quase morri, mas fui salvo por Netuno.
Coro – Isso, Idomeneo, conta pra eles, vai. (Cantando): Fudeu, Idomeneo, fudeu! Fudeu, fudeu, fudeu, Idomeneo!
Idomeneo (ignorando o coro) – O que me diz, Sócrates?
Sócrates – O que quer que eu diga?
Idomeneo – Deixa eu ser mais claro. Estive com netuno, que salvou minha vida, em troca de uma promessa estúpida.
Sócrates – Cumpra a promessa.
Idomeneo – É sobre isso mesmo que quero lhe falar. Sabe o que é... É que foi uma promessinha estúpida, não merece atenção...
Coro (cantando) – Fudeu, fudeu, fudeu, Idomeneo!
Sócrates – Meu caro. Cumpra a promessa. Não ouviu o que eu disse sobre apostar antes? Em assuntos de religião temos de ser pragmáticos. E olha que eu nem considerava a canja de ter falado com um ministro de Deus, como você diz. Com os deuses não se brinca. Desgraças podem acontecer. Uma tragédia, sei lá.
Idomeneo, que estava de pé, empalidece e cai no colo do núbio. Ilia e Electra, até então alheias à conversa, vão em seu socorro.
Ilia – Majestade, o que foi majestade?
Idomeneo (deitando-se novamente no divã, ajudado pelo núbio) – Nada minha filha, não foi nada.
Coro (cantando) – Pois é, Idomeneo, fudeu. Fudeu, fudeu, fudeu, Idomeneo!
Cena 4 – Um cemitério. Idomeneo e o sujeito da praia. Estão de frente a um túmulo com lápide vistosa, de mármore branco, com algo escrito.
Sujeito – Majestade, por que quisestes que viéssemos até aqui?
Idomeneo (até então pensativo, lendo o epitáfio) – Hã? Ah, sim. Sabe o que é meu filho... Bem, pode me tratar por você. Podia ser meu filho...
Sujeito – Obrigado, majestade.
Idomeneo (lendo) – “Aqui jaz o homem mais feliz do mundo”.
Sujeito – Como?
Idomeneo – Leia esse epitáfio com atenção, meu rapaz.
(O sujeito lê).
Sujeito – Sim. E daí?
Idomeneo – Não acha interessante?
Sujeito – Engraçado.
Idomeneo – Ninguém sabe de quem é esse túmulo. Apenas o encontraram com essa lápide.
Sujeito – E?
Idomeneo – Não acha interessante?
Sujeito – Não sei.
Idomeneo – Pois pra mim é fascinante.
Sujeito – Fascinante?
Idomeneo – Tem um significado profundíssimo, não percebe?
Sujeito – Não.
Idomeneo – Quer dizer que a morte é um alívio.
Sujeito – Ou que a vida desse infeliz foi das mais miseráveis.
Coro – Sabemos onde está querendo chegar, Idomeneo. Mas fudeu, fudeu, fudeu,!
Idomeneo (irritado, fazendo sinal pro coro se calar) – Não acho que tenha sido isso. Saberíamos de quem é. Essa lápide foi posta aí para lembrar ao ser humano que a morte não nada, é uma coisinha à toa.
Coro – Idomeneo, Idomeneo...
Sujeito – A morte, uma coisinha de nada?! Mas como? A morte é o fim. Depois dela não há nada mais. Como pode ser uma coisinha de nada?
Idomeneo – A morte faz parte da vida.
Sujeito – Nada disso. Morte é o oposto da vida. São inimigas. Onde uma está, a outra não pode ficar. É como duas colunistas sociais de jornais concorrentes. Ou dois candidatos a prefeito na mesma solenidade. Ou dois torcedores fanáticos no mesmo lado do campo. Ou...
Idomeneo – Tá bem, tá bem. Já se fez entender, chega.
Sujeito – Pois então.
Coro – Então, Idomeneo, e agora?
Idomeneo – Acho que devemos ter uma atitude positiva em relação à morte, entende?
Sujeito – De que maneira?
Idomeneo – Assim como esse feliz morador desse túmulo.
Sujeito – Aposto que não tem ninguém aí.
Idomeneo – Como não?
Sujeito – Manda abrir. Vai ver, não tem ninguém.
Idomeneo – Abrir? Não podemos, seria profanar algo sagrado.
Sujeito – Que nada, você é rei. It´s good to be the king (imitando Mel Brooks). Pode pegar na bunda de todas as mulheres gostosas do reino e nem dar satisfação. Na verdade, pode comer todas as mulheres gostosas de Creta sem dar satisfação pra ninguém. Não é um tumulozinho que vai macular sua fama.
Idomeneo – E se eu abrir e provar pra você que há alguém aí e até está sorrindo?
Sujeito – Eu digo: parabéns.
Idomeneo – Vou mandar abrir pra te provar como a morte é coisinha de nada. Guardas! (Aparecem dois guardas). Abram a tampa desse túmulo.
(Com alguma dificuldade os dois guardas arrastam a tampa de mármore pro lado. Suspense (música de suspense)).
Idomeneo (finalmente podendo ver o que havia lá dentro) – Oh!
Sujeito – Oh!
Coro – Oh! (e cantando) Fudeu, Idomeneo. Fudeu, fudeu, fudeu, Idomeneo!
Cena 5 - A sauna novamente. Inicialmente vazia. Entram Ilia e Electra. Estão discutindo, quase brigando.
Electra – Vamos abrir o jogo, queridinha.
Ilia – Manda, sua cascavel.
Electra – Nossa, como ela mudou.
Ilia – Sou bobinha, mas não sou cega. Pensa que não percebo como você se insinua pra Idamante?
Electra – Que audácia.
Ilia – Então nega?
Electra – Não, minha querida, pelo contrário. Confirmo totalmente. Agora, é muita audácia a sua, imaginar que tem chance contra mim.
Ilia – Pois é muita audácia a sua imaginar que tem qualquer chance contra mim. Vê se se enxerga, velha.
Electra (avançando em direção a Ilia) – Olha aqui suazinha, sua putinha com cara de virgem, sua sonsa!
(Agarram-se pelos cabelos)
Ilia – Velha devassa!
Electra – Putinha enrustida!
Ilia – Sua arrombada!
Electra – Vulgarzinha!
(Rolam no chão por alguns instantes. Devagar, num crescendo, pode-se ouvir sons de vozes e gemidos vindos da sauna seca ao lado. Vão ficando mais e mais claros e audíveis).
Voz de Idamante (em falsete) – Mais fundo, mais fundo!
Voz de alguém – Porra, Idamante, essa sua vozinha indecisa entre soprano e mezzo....
(Ilia e Electra param de brigar pra ouvir).
Voz de Idamante – Não pára, não pára!
Voz de alguém – Não paro, não paro.
Voz de Idamante – Mais fundo!
Voz de alguém – Acabou, já foi tudo. Puta merda também, né! O que você é? Relaxado? São vinte centímetros de puro prazer.
Voz de Idamante (gemendo) – Ai, cala a boca que eu tô chegando!
Voz de alguém – Finalmente.
Voz de Idamante – Ai, ai, ai...
(Silêncio. Pouco depois sai o núbio, ajeitando a toga. Vê Ilia e Electra. Pigarreia. Pede licença e sai. Em seguida aparece Idamante, andando mancando, com as pernas abertas, como se tivesse cagado nas calças).
Idamante – Electra, Ilia, o que fazem por aqui?
Electra (ajeitando o cabelo) – Nada. Íamos fazer um pouco de sauna. Não quer se sentar com a gente? (Ela o convida pra se sentar só de sacanagem)
Idamante (distraído) – Claro (Senta-se, dói-lhe a bunda, levanta-se rápido). Ai! Pensando bem, por que não damos um passeio?
Ilia (novamente patetinha) – O que foi amor, está machucado? Mostra pra sua Iliazinha onde está doendo.
Electra (sarcástica) – É. Mostra pra ela.
Coro – Mostra pra ela onde está doendo, Idamante! (cantando) Se fudeu, se fudeu, se fudeu, Idamante se fudeu!
Idamante – Vão indo pro jardim do palácio, que eu encontro vocês daqui a pouco (sai, apressado, mas andando como quem está cagado).
(Ilia e Electra ajeitam os cabelos e a roupa e saem também).
Cena 6 – Os soldados jogam dados
Soldado 1 – A vida é engraçada.
Soldado 2 – O que é?
Soldado 1- Me ocorreu o seguinte.
Soldado 2 - Joga mais, fala menos.
Soldado 1 – Já imaginou que nossa vida é exatamente isso aqui?
Soldado 2 – Isso quê?
Soldado 1 - Isso.
Soldado 2 – Sei. Joga logo, vai.
Soldado 1 – Não, é sério. Nossa vida é como um jogo de dados.
Coro – Agora ele vai ser profundo. Um soldado com cérebro, só faltava essa. É uma tragédia!
Soldado 1 (pro coro, enquanto isso soldado 2 continua olhando pros dados, alheio ao diálogo) – Exatamente.
Coro – Exatamente o quê?
Soldado 1 - Isso.
Coro – Já se vê que clareza não é o seu forte.
Soldado 1 – Nossa vida é uma tragédia. Estamos vivendo uma tragédia.
Coro – Não brinca! Daqui a pouco você vai dizer que isso aqui é uma ópera séria.
Soldado 1 (ignorando a provocação) – Os dados são jogados e tanto pode dar um como seis.
Coro – Uau!
Soldado 1 – Se der um eu me fodo. Se der seis, ele se fode.
Coro – Mas que diabo de jogo é esse?
Soldado 1 – O jogo da vida.
Coro – Desenvolva.
Soldado 1 – Imaginem que Zeus está nesse exato momento jogando meus dados. Os dados de minha fortuna. Se der um, eu morro. Se der seis, eu vivo.
Coro – Zeus tem mais o que fazer do que se preocupar com insignificâncias.
Soldado 1 – Zeus zela por nós.
Coro – O que espera? Que uma máquina desça do nada e te salve?
Soldado 1 – Seria legal. Seria simpático.
Soldado 2 (jogando os dados) – Um! Deu um! Se fudeu! Se fudeu!
Soldado 1 – Mas são dois dados, não tem como dar um.
Coro – Fudeu, fudeu, fudeu, o soldado se fudeu!
Soldado 1 – Ei, peraí!
Soldado 2 – Peraí, nada, vai baixando as calças!
(As luzes se apagam. Pode-se ainda ouvir o soldado 1: “Peraí, calma, vai com jeito, calma, calma. Ai....)
Cena 7 – O jardim do palácio. Ilia confessa seu amor.
Ilia – Idamante.
Idamante (distraído cheirando uma flor) – Sim?
Ilia – Sabe o que é...
Idamante – Sim?
Ilia – Não posso mais conter essa chama que arde dentro de mim.
Coro – Putz!
Ilia (ignorando o coro) – Idamante.
Idamante – Sim?
Ilia (perdendo a paciência) – Será que dá pra parar de cheirar a porra dessa flor?
Idamante (assustado) – Nossa, o que foi?
Ilia (recompondo-se) – Ida... Posso te chamar de Ida?
Idamante – Claro que não. Que idéia!
Ilia – Ida, meu diamante.
Coro – Putz!
Ilia (olhando de soslaio, irritada, pro coro, depois carinhosa, pra Idamante) – Idamante, meu diamante, eu te amo.
Idamante – Como é que é?
Ilia (fingindo vergonha) – Pois é. Confessei. Tirei um peso de meu coração.
Idamante – Pois por mim você pode colocar outra vez, gracinha. Meu coração pertence a outra pessoa.
(Electra entra).
Coro – Electra!
Idamante – Que Electra que nada.
(Entra o núbio).
Coro – O núbio!
Idamante – Que núbio que nada.
(Entram os dois rapazes atenienses).
Coro – Os rapazes atenienses!
Idamante – Que nada.
Coro – Os soldados? Sócrates? Estamos ficando sem opções aqui.
Idamante – Meu coração pertence a ...
(Apagam-se as luzes. Música – pode ser a abertura do Idomeneo, por alguns minutos. Aliás, desde o início, entre uma cena e outra, pode-se tocar a abertura do Idomeneo por algum tempo).