Fudeu, Idomeneo!
10/04/2008 | Por em

  
                        Creta, logo depois da guerra de Tróia.
 
                        Personagens
 
 
                        Idomeneo – rei de Creta, retorna vencedor da guerra de Tróia
                        Idamante – filho adolescente de Idomeneo (deve ser feito por uma mezo-soprano)
                        Ilia – princesa troiana, patetinha.
                        Electra – filha de Agamêmnon, refugiada em Creta, puta velha (mas conservada)
                        Um sujeito
                        Alguns soldados, alguns rapazes atenienses
                        O coro (gravado em vídeo, exposto em telão)
                        E as participações especiais de Sócrates e um núbio musculoso

           
            (Luzes apagadas. Barulho de tempestade marítima. Pessoas gritando, pedindo clemência e coisas do tipo. Uma voz se destaca. É Idomeneo).
           
            Voz de Idomeneo – Oh, deuses, tende piedade. Piedade, meu Zeus, piedade, Netuno. Piedade! Piedade, eu não quero morrer. Piedade!
 
            Coro (ainda não visto, só as vozes) – Pietá, Numi, pietá! (Pode ser a ária toda ou só um pedaço dela)
 
            (Num crescendo, sobrepondo-se gradativamente ao “Pietá”, um barulho infernal, do mar, dos trovões, dos marinheiros gritando desesperados. Depois vai ficando mais distante, pra que se ouça a voz de Netuno).
 
            Netuno – Quem me chama?
            Idomeneo – Eu.
 
            (Nesse momento acende-se o foco sobre Idomeneo, que está abraçado ao mastro* do navio, o resto permanece escuro. Vê-se Idomeneo, mas não Netuno). *Se o diretor quiser apimentar pode ser alguma coisa fálica (mas não descarada, estilizada).
 
            Netuno – Eu quem?
            Idomeneo – Eu, oh grande Zeus.
            Netuno (irritado) – Não sou Zeus.
            Idomeneo – Quem sois, então?
            Netuno (ainda irritado) – Pra começo de conversa, será que dá pra parar com a segunda do plural? Que coisa mais aborrecida.
            Idomeneo (dando-se conta de que autoridade se trava) – Oh, sim, Netuno, grande Netuno. Mil desculpas.
            Coro – Pietá, Numi, pietá!
            Netuno – Será que dá pra parar com isso, que coisa mais melodramática.
 
            (O coro se cala)
 
            Netuno – Agradecido.
            Idomeneo – O senhor...
            Netuno – Você.
            Idomeneo – Sim?
            Netuno – Sim o quê?
            Idomeneo – Vós não me chamastes?
            Netuno (voltando a se irritar) – Está querendo me sacanear?
            Idomeneo (caindo a ficha) – Desculpe, mil perdões, senhor!
            Netuno – Você.
            Idomeneo – Sim?
            Netuno (irado) – Escute aqui, seu velhote grego comedor de rapazolas, já sentiu o peso de um de meus raios na bunda?
            Idomeneo – Mas senhor...
            Netuno – Você.
            Idomeneo – S...
            Netuno (absolutamente emputecido) – Você! É pra me chamar de você, seu pateta descerebrado!
            Idomeneo (caindo a ficha de novo) – Ah, sim, claro. Você, claro, claro. Muito obrigado pela deferência.
            Netuno – Não é deferência, imbecil. É que sou um deus ilustrado.
            Idomeneo – E faz muito bem, muitíssimo bem.
            Netuno – Pare de me puxar o saco e diga logo o que quer.
 
            (Durante todo esse diálogo, vez por outra, o barulho da tempestade e dos marinheiros desesperados aumenta e é ouvido).
 
            Idomeneo – Peço vossa... Desculpe. Imploro sua clemência, oh sapientíssimo deus dos mares.
            Netuno – Quer se safar dessa?
            Idomeneo – Apreciaria muito, se fosse possível.
            Netuno – E se eu dissesse que toda sua tripulação perecerá?
            Idomeneo – Eu diria “que pena”.
            Netuno – Só isso?
            Idomeneo – Talvez “que lástima” fosse mais apropriado?
            Netuno (suspirando) – Deixe-me recolocar a questão: o que você faria?
            Idomeneo (procurando a resposta certa) – Ahn... Deixe ver... choraria?
            Netuno (entre irritado e surpreso) – Será possível que seja tão imbecil!?
            Idomeneo – Desculpe-me, mas não consigo acompanhar sua enorme sapiência.
            Netuno – Ai, Cristo.
            Idomeneo – Cristo, quem é Cristo?
            Netuno – Deixa pra lá. É concorrência. Mas onde estávamos mesmo? Ah, sim. Você quer se safar dessa tempestade e está se lixando pra sua tripulação, certo?
            Idomeneo – Basicamente, assim, em linhas gerais, bem... é isso aí.
            Netuno – Você está com sorte. Estamos entediados no Olimpo e precisamos de uma tragédia nova pra chacoalhar o ambiente. Não agüentamos mais ver Sísifo se fuder. Desculpe, eu nunca consigo evitar esse trocadilho.
            Idomeneo (impaciente) – Mas o senhor dizia, quer dizer, você dizia...
            Netuno – Dizia que vou poupá-lo, meu caro Idomeneo. Apesar de você ser uma das criaturas humanas mais desprezíveis que tive a oportunidade de conhecer. Mas tem uma condição.
            Idomeneo (infantil) – O que é? O que é? Diga! Diga logo o que é, vai.
            Netuno – Você terá de sacrificar a primeira pessoa que encontrar na praia.
            Idomeneo (mais que rápido) – Fechado!
            Netuno – Você me dá nojo. Mas, enfim, alea jacta est.
            Idomeneo – Não entendi. Isso é grego clássico? Andei faltando umas aulas, sabe? E essa tal de guerra de Tróia ocupou todo meu tempo ocioso...
            Netuno – Ai, Cristo!
            Idomeneo – Quem?
 
            (Apaga-se o foco em Idomeneo. Escuridão total. Gritos desesperados, trovões, tempestade marítima, acompanhado das vozes do coro – Pietá, Numi, pietá. Depois calmaria. Lentamente acendem-se as luzes de todo o palco. O cenário é uma praia. É dia. Idomeneo está deitado de bruços, desacordado. Em pouco tempo aparece um sujeito caminhando pela praia assobiando. Distraído, não vê Idomeneo deitado, esbarra e cai sobre ele).
 
            Idomeneo (acordando) – Ei, o que foi isso?
            Sujeito – Desculpe-me, senhor, vinha caminhando distraído e...
            Idomeneo (acordando de vez, levantando-se) – Estou vivo! Vivo!
            Sujeito (confuso, sentando-se, batendo a areia da roupa) – Estava passando mal?
            Idomeneo – Não, é que... É uma longa história, sabe? Depois te conto.
            Sujeito (percebendo finalmente de quem se tratava) – Mas peraí, o senhor não é Idomeneo, nosso rei?
            Idomeneo (não escondendo o orgulho) – Em pessoa.
            Sujeito – Pensávamos que estivesse morto.
            Idomeneo – Na guerra? Ninguém aqui sabe que ganhamos a guerra?
            Sujeito – Todo mundo sabe disso. É que ontem , com aquela tempestade toda... Dava pra ver os navios todos emborcando, afundando. Dizem que não sobrou ninguém.
            Idomeneo (satisfeito) – Como pode ver, sobrou sim... Eu.
            Sujeito – Fico feliz pelo senhor.
 
            (Nesse momento entra Idamante, esbaforido, acompanhado de dois guardas reais).
 
            Idamante (com voz de mezzo-soprano) – Papai, papai, o senhor está bem? Pensei que estivesse morto.
            Idomeneo (entre feliz e contrariado) – Meu filho! Mas será que até hoje você não engrossou a voz? Já era tempo, né. Ô adolescência demorada.
            Idamante (abraçando Idomeneo) – Oh, papai, que medo eu tive quando vi o senhor deitado aqui na praia.
            Idomeneo – Peraí. Você me viu aqui na praia?
            Idamante – Sim, papai, há coisa de uns quinze minutos. Daí fiquei com medo e fui buscar esses dois musculosos guardas pra me ajudar.
            Idomeneo – Quinze minutos? (virando-se pro sujeito) E você, está aqui desde quando?
            Sujeito – Acabei de chegar.
            Idomeneo – Seja mais específico. Tem uns dez, uns vinte minutos?
            Sujeito – Nem cinco.
            Idomeneo – Porra!
 
            Coro (em vídeo, projetado num dos cantos do palco, telão grande) (cantando) – Fudeu Idomeneo, fudeu! Fudeu, fudeu, fudeu! Idomeneo.
           
            Idomeneo (dirigindo-se ao coro) – Calma lá. Tecnicamente, quem chegou primeiro foi o sujeito.
            Coro (cantando) – Fudeu, Idomeneo, fudeu! Fudeu, fudeu, fudeu! Idomeneo.
            Idomeneo – Nada disso. O sujeito me encontrou. Quer dizer, eu encontrei primeiro o sujeito. Netuno disse que seria quem eu encontrasse primeiro.
           
            (O vídeo do coro destaca um dos integrantes, que faz uma pose idiota enquanto aparecem as legendas explicativas: “Fulano de tal, biólogo especialista em ornitorrincos, semântica e semiótica.”)
 
            Fulano de tal – Desculpe, meu caro Idomeneo, mas o significado aqui está claro. Claríssimo, se me permite o arroubo. Netuno referia-se a encontros em sua forma genérica. É irrelevante para a questão que você estivesse dormindo quando seu filho adolescente o encontrou. Portanto, é ele, seu filho (coro: Fudeu, Idomeneo, fudeu!) quem primeiro o encontrou. Terá de matá-lo (coro, arrematando: Fudeu, fudeu, fudeu, Idomeneo!).
            Sicrano (outro do coro em destaque, com a legenda: “Sicrano, chef de cozinha e especialista em mitologia grega, com doutorado na Sorbonne e linha de pesquisa em escargots e outras gosmas) – É uma tragédia!
            Coro (cantando) – Fudeu, Idomeneo, fudeu! Fudeu, fudeu, fudeu! Idomeneo.
 
            (Enquanto isso, Idamante, os dois guardas e o sujeito permaneciam num dos cantos, menos iluminados - porém não escuros - e conversando).
 
            Idamante (separando-se do grupo e aproximando-se de Idomeneo) – Papai, podemos ir embora?
            Idomeneo (pensativo, remoendo as palavras do coro) – Hein?
            Idamante (a voz de mezzo-soprano sai pior do que de costume) – Vamos embora, papai.
            Idomeneo (despertado pela irritação com a voz do menino) – Ah, sim, está bem.
           
            (Saem os dois, mas logo voltam)
 
            Idomeneo (chamando o sujeito) – Meu bom homem.
            Sujeito – Sim?
            Idomeneo – Venha conosco, faço questão de o ter entre nossos convidados para a ceia.
            Sujeito – Não, obrigado. Estou de dieta, preciso caminhar mais, e esses banquetes e orgias, sabe como é...
            Idomeneo (fazendo sinal para que os dois guardas reais acompanhem o sujeito) – Já disse, faço questão. Deixe a dieta pra depois.
            Sujeito (sendo levado pelo braço, praticamente arrastado pelos dois brutamontes) – Tudo bem, tudo bem, já que insiste.
 
            (Apagam-se todas as luzes. Fim da cena um)
 
            Cena 2 – Uma sauna. Por enquanto estão nela apenas duas belas mulheres, semi-nuas. A mais velha é Electra. A mais nova é Ilia.
 
            Ilia (desconfortável, procurando o que dizer) – Calor, não?
            Electra (sem acreditar na patetice da observação) – Estamos numa... sauna. Dããã.
            Ilia (patetinha, sem ligar pra provocação) – Ah é. Ainda assim, que calor infernal faz em Creta, né?
            Electra (suspirando profundamente) – Putz.
 
            (Alguns segundos de constrangimento, silêncio, mudam de lugar, cruzam e descruzam as pernas. Electra não esconde sua antipatia. Ilia, sua patetice).
 
            Ilia – Você acha que Idamante vai demorar?
            Electra (interessada) – Por quê? Ele disse que vinha?
            Ilia – Ficamos de nos encontrar aqui.
            Electra – Aqui mesmo, na sauna?
            Ilia – Aham.
            Electra (a quem esse aham infantil irritava profundamente) – Sabia que dá mais trabalho dizer “aham” do que “sim”?
            Ilia (a quem escapava por completo a relevância da observação) – Aham.
            Electra (contendo-se) – Minha filha... Não, deixa pra lá. Vamos ao que interessa. Quer dizer que Idamante disse que vinha?
            Ilia – Aha...
            Electra – Não precisa responder, querida. Foi uma pergunta retórica.
            Ilia – Uma pergunta como?
            Electra – Deixa pra lá. (Pensando alto). Interessante... Ele não me disse nada. Insisti que viéssemos pra sauna mista fazer bobaginha.
            Ilia – Hein?
            Electra – Nada.
 
            (Entram dois musculosos e seminus atenienses).
 
            Electra (não escondendo a excitação) – Olha lá, menina, que tesão!
            Ilia (estava distraída com a própria toga, como um cachorrinho que se distrai com a própria cauda) – Hein?
            Electra (perdendo a paciência) – Mas será possível? (Dirigindo-se aos rapazes) Olá, vocês são novos por aqui?
            Um deles – Somos atenienses. Estamos a passeio.
            O outro – Somos turistas.
            Electra – E estão gostando?
            Os dois – Pra falar a verdade, é meio paradão aqui em Creta, né?
            Electra – Têm razão. Têm toda razão. Mas quem sabe podemos dar um jeito nisso? (Para Ilia) A que horas mesmo Idamante disse que viria?
            Ilia – Ele não marcou. Disse que daria um passeio na praia, depois viria.
            Electra (calculando) – Sei... Faz seguinte, querida, eu vou ali dentro na sauna seca um instante com os rapazes, se Idamante chegar, você dá uma batidinha na porta, tá meu amor?
            Ilia (nem de longe desconfiando) – Tá.
 
            (Electra pega os rapazes pelas mãos e os leva até a outra sauna. Será uma espécie de vidro fosco que só deixa ver as sombras. Primeiro eles jogam as togas longe, depois Electra fica entre os dois e se agacha, um a pega por trás, enquanto ela cai de boca no outro. Daí a uns instantes, eles trocam de posição e um deles fica no meio, sendo pego por trás pelo outro e caindo de boca em Electra. Depois trocam de novo e é Electra que está pegando um por trás, que cai de boca no outro. Ilia se distrai com os cabelos).
 
            Idamante (entrando apressado, ofegante) – Ilia, Ilia, você não sabe da maior, papai está vivo! Papai está vivo!
 
            (Na sauna ao lado ouvem-se gritos de clímax)
 
            Idamante – O que foi isso?
            Ilia – Ah, é mesmo. Electra...
            Electra (entrando ofegante também e arrumando a toga e os cabelos desgrenhados) – Idamante, você aqui? Que surpresa! O que disse sobre seu pai?
            Idamante – Papai está vivo, Electra! Vivo!
 
            Coro – Sim, vivo, e a que preço! (Cantam a ária Qual nuovo terrore, depois arrematam: Fudeu, Idamante, fudeu! Fudeu, fudeu, fudeu, Idamante!)
 
            (Os dois rapazes atenienses saem enfim da outra sauna. Chamam a atenção de Idamante)
 
            Idamante (para Electra) – Quem são os rapazes?
            Electra (fazendo-se de desentendida) – Quem? Ah, esses. Não sei.
            Idamante (perdendo o interesse, lembrando-se da grande notícia) – Papai está vivo, Electra (isso sai totalmente em falsete).
            Electra (irritada) – Que bom, minha criança, que bom. Vamos comemorar, então? Que tal darmos um pulinho, só nós dois, naquela sauna seca ali?
            Idamante (já saindo) – Agora não, Electra. Papai nos quer a todos pro almoço. Já está servido. Vamos?
            Electra (conformando-se) – Vamos.
           
            (Saem todos)
           
            Coro – Pobre Idamante, que não sabe o que o espera.
                        Quantas vidas serão necessárias pra manter acesa a chama da quimera?
                        Um nobre diamante, jóia rara da coroa, deixará de existir
                        E tudo isso pra tragédia persistir.
            Fulano de tal do coro – Peraí. “Manter acesa a chama da quimera”? Isso não faz sentido!
            Coro – A vida não faz sentido, fulano.
            Fulano de tal – Tá. Mas nem por isso precisamos cantar qualquer porcaria.
            Coro – Porcaria, porcaria, porcaria!
            Fulano de tal – Piedade!
            Coro – Pietá, Numi, pietá!

             ( Continua )


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