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POR EM 03/11/2008 ÀS 10:45 PM

Abelardo Castillo: A mãe de Ernesto

publicado em


Se Ernesto se deu conta de que ela tinha voltado (como havia voltado), eu nunca o soube, porém o fato é que pouco depois foi viver em El Tala, e, durante todo aquele verão, só voltamos a vê-lo uma ou duas vezes. Dava trabalho encará-lo. Era com se a idéia que Júlio nos havia metido na cabeça – porque a idéia foi dele, de Júlio, e era uma idéia rara, perturbadora: suja – nos fez sentir culpados. Não que ninguém fosse puritano, não. Nessa idade, e num lugar como aquele, ninguém era puritano. Porém justamente por isso, porque não o éramos, porque não tínhamos nada de puros ou piedosos e no final das contas nos parecíamos bastante com quase todo o mundo, é que a idéia tinha algo que turvava.

Certa coisa inconfessável, cruel. Atrativa. Sobretudo, atrativa.

Foi há muito tempo. Ainda havia o Alabama, aquela estação de serviço que haviam construído na saída da cidade, ao lado da rodovia. O Alabama era uma espécie de restaurante inofensivo, inofensivo de dia, pelo menos, mas que ao redor da meia-noite se transformava em algo assim como um rudimentar clube noturno. Deixou de ser rudimentar quando ao turco se lhe ocorreu acrescentar uns quartos no primeiro piso e trazer mulheres. Uma mulher ele trouxe.

    __ Não!
    __ Sim. Uma mulher.
    __ De onde a trouxe?

Júlio assumiu essa atitude misteriosa, que tão bem conhecíamos – porque ele tinha um particular virtuosismo de gestos, palavras, inflexões, que o faziam raramente notório, e invejável –, e logo, em voz baixa, perguntou:

    __ Por onde anda Ernesto?
    __ No campo, eu disse. Nos verões Ernesto ia passar umas semanas em El Tala, e isto vinha acontecendo desde que seu pai, por causa daquilo que aconteceu com a mulher, já não quis regressar ao povoado. Eu disse que no campo e depois perguntei:

    __ Que você quer com o Ernesto?

Júlio puxou um cigarro. Sorria.

    __ Sabem quem é a mulher que o turco trouxe?

Aníbal e eu nos olhamos. Eu me recordava agora da mãe de Ernesto. Ninguém falou. Tinha-se ido fazia quatro anos, com uma dessas companhias teatrais que percorrem os povoados: libertina, disse dessa vez minha avó. Era uma mulher linda. Morena e ampla: eu me recordava.

    __ Sem-vergonha, não?

Houve um silêncio e foi então quando Júlio nos cravou aquela idéia entre os olhos. Ou, melhor dito, já a tínhamos.

    __ Se não fosse a mãe...

Não disse mais que isso.

Quem sabe. Talvez Ernesto se tenha dado conta, pois durante aquele verão só o vimos uma ou duas vezes (mais tarde, segundo dizem, o pai vendeu tudo e ninguém voltou a falar deles) e, nas poucas vezes que o vimos, dava trabalho encará-lo.

    __ Culpados de quê? Afinal das contas e uma mulher da vida, e faz três meses que está no Alabama.

E se esperamos até o turco trazer outra, vamos morrer de velhos.

Depois, ele, Júlio, acrescentava que era somente necessário conseguir um carro, ir, pagar e depois lhe contássemos, e que se não nos animávamos a acompanhá-lo pois buscava algum que não fosse tão lascivo, e Aníbal e eu não íamos deixar que nos dissesse isso.

    __ Porém é a mãe.
    __ A mãe. O que chama de mãe vocês? Uma porca também pare porquinhos.
    __ E os come.
    __ E o que isso tem a ver? Ernesto se criou conosco.

Eu disse algo sobre as vezes em que havíamos brincado juntos; depois fiquei pensando, e alguém, em voz alta, formulou exatamente o que eu estava pensando. Talvez tenha sido eu:

    __ Se recordam como era?

Claro que nos recordávamos. O argumento tinha a força de uma provocação, e também era uma provocação que ela houvesse voltado. E então, grosseiramente, tudo parecia mais fácil. Hoje acredito – quem sabe – que, se houvesse tratado de uma mulher qualquer, por acaso nem teríamos pensado seriamente em ir. Quem sabe. Dava um pouco de medo dizê-lo, porém, em segredo, ajudávamos a Júlio para que nos convencesse; porque o equívoco, o inconfessável, o monstruosamente atrativo em tudo isso, era, talvez, que se tratasse da mãe de um de nós.

    __ No digas imundícies – me disse Aníbal.

Uma semana mais tarde, Júlio assegurou que nessa mesma noite conseguiria o automóvel. Aníbal e eu o esperávamos no bulevar.

    __ Não o devem lhe haver emprestado. __ Aníbal tinha a voz estranha, voz de indiferença. __ Não o vou esperar toda a noite; se dentro de dez minutos não vem, eu me vou.

    __ Como estará agora?
    __ Quem....a fulana?

Esteve a ponto de dizer: a mãe. Notei em sua cara. Disse a fulana. Dez minutos são longos, e então dá trabalho esquecer-se de quando íamos brincar com Ernesto, e ela, a mulher morena e ampla, nos perguntava se queríamos tomar leite. A mulher morena. Ampla.

    __ Isto é uma asquerosidade.
    __Tens medo – eu disse.
    __ Medo não; outra coisa.

Encolhi-me os ombros.

    __ Em geral, todas têm filhos. Mãe de algum ia ser.
    __ Não é o mesmo. A Ernesto o conhecemos.
    __ Disse que isso não era o pior. Dez minutos. O pior era que ela nos conhecia, e que ia nos olhar.

Sim. Não sei por quê, porém eu estava convencido de uma coisa: quando ela nos olhasse ia acontecer alguma coisa.

Aníbal tinha cara de assustado agora, e dez minutos são longos. Perguntou:

    __ E se nos desprezar?

Ia responder-lhe quando se me fez um nó no estômago: pela rua principal vinha o estrondo de um carro com o escapamento livre.

    __ É Júlio – dizemos os dois.

O automóvel buscou uma curva prepotente. Tudo nele era prepotente: os pneus, o escapamento. Infundia ânimos. A garrafa que trouxe também infundia ânimos.

    __ Roubei de meu velho.

Brilhavam-lhe os olhos. A Aníbal e a mim, depois dos primeiros tragos, também nos brilhavam os olhos. Tomamos pela Calle de los Paraísos, em direção à estrada. A ela também lhe brilhava os olhos quando éramos crianças, ou, quem sabe, agora me parecia que os havia visto brilhar. E se pintava, se pintava muito. A boca, sobretudo.

    __ Fumava, te recordas?

Todos estávamos pensando o mesmo, pois isto último não o havia dito eu, senão Aníbal; o que eu o disse foi que sim, que me recordava, e acrescentei que por algo se começa.

    __ Quanto falta?
    __ Dez minutos.

E os dez minutos voltaram a serem longos; porém agora eram longos exatamente ao revés. Não sei. Acaso era porque eu me recordava, todos nos recordávamos, daquela tarde quando ela estava limpando o piso, e era verão, e o decote abriu-se ao agachar-se, e nós nos havíamos dado cotoveladas.

Júlio apertou o acelerador.

    __ No final das contas, é um castigo – tua voz, Aníbal, não era convincente - : uma vingança em nome de Ernesto, para que não seja vagabundo.
    __ Quê castigo, nem castigo!
  
 Alguém, creio que fui eu, disse uma obscenidade bestial. Claro que fui eu. Os três rimos às gargalhadas, e Júlio acelerou mais.

    __ E se nos impedem de entrar?
    __ Estão mal da cabeça, vocês! Enquanto se faz a amizade, eu falo com o turco, ou armo um escândalo que lhes fecham a bodega por desconsideração com a clientela.
    
Nessa hora não havia muita gente no bar: algum viajante ou dois ou três caminhoneiros. Do povoado, ninguém. E, vá-se saber por quê, isso por último fez-me sentir audaz. Impune. Pisquei o olho à loirinha que estava atrás do balcão; Júlio, enquanto isso, falava com o turco. O turco nos olhou como se nos estudasse, e pela cara desafiante que mostrou Aníbal me dei conta de que ele também se sentia audaz. O turco disse então à lourinha:

    __ Leva-os para cima.
    
A loirinha subindo as escadas: me recordo de suas pernas. E de como movia as cadeiras ao subir. Também me recordo de que lhe disse uma indecência, e que a garota me contestou com outra coisa que (talvez pelo conhaque que tomamos no carro, ou pela genebra do balcão) nos causou muito riso. Depois estávamos numa sala pulcra, impessoal, quase reclusa, na qual havia uma mesa pequena: a salinha de espera de um dentista. Pensei acreditar que iam nos tirar um canino. Disse isso aos outros.
    
__  Acreditei estar aqui para nos arrancar um canino.

Era impossível conter o riso, porém tratávamos de não fazer ruído. As coisas eram ditas em voz muito baixa.

    __ Como na missa – disse Júlio, e a todos voltou a parecer-nos notavelmente divertido; no entanto, nada foi tão gracioso quando Aníbal, tapando-se a boca e com uma espécie riso contido, acrescentou:
    __ Pensa só se de um desses quartos sai o padre!
    
Doía-me o estômago e eu tinha a garganta seca. De tanto rir, creio eu. Porém de repente ficamos todos sérios. O que estava dentro saiu. Era um homem baixo, rechonchudo; tinha um aspecto de porquinho. Um porquinho jubiloso. Mostrando com a cabeça o quarto, fez um gesto: mordeu os lábios e pôs os olhos em branco.
    
Depois, enquanto ouvíamos os passos do homem que descia, Júlio perguntou:

    __ Que aconteceu?

Nos encaramos. Até esse momento não se me havia ocorrido, ou não havia deixado que me ocorresse, que íamos ficar sós, separados – isto: separados – diante dela. Encolhi os ombros.
  
 __ Que sei eu. Qualquer um.
    
Pela porta meio aberta se ouvia o ruído da água saindo de uma torneira. Banheiro. Depois, um silêncio e uma luz que nos deu na cara; a porta acabava de abrir-se toda. Aí estava ela. Nós ficamos contemplando-a, fascinados. O déshabillé entreaberto e a tarde daquele verão, antes, quando ainda era a mãe de Ernesto e o vestido se separou de seu corpo e nos perguntava se queríamos tomar leite. Só que a mulher era loira agora. Loira e ampla. Sorria com um sorriso profissional; um sorriso vagamente infame.

    __ Bem?
  
Sua voz, inesperada, me sobressaltou: era a mesma. Algo, no entanto, havia mudado nela, na voz. A mulher voltou a sorrir e repetiu “bem”, e era como uma ordem; uma ordem pegajosa e quente. Talvez foi por isso que, os três juntos, nos pusemos de pé. Seu déshabillé, me recordo, era quase translúcido.
  
   __ Vou eu – murmurou Júlio, e se adiantou, resoluto.
    
Conseguiu dar dois passos: nada mais que dois. Porque ela então nos olhou de cheio, e ele, golpeado, se deteve. Deteve-se quem sabe por quê: de medo, ou de vergonha talvez, ou de asco. E aí terminou tudo. Porque ela nos contemplava e eu sabia que, quando nos olhasse, iria acontecer algo. Os três havíamos ficado imóveis, cravados no piso; e ao ver-nos assim, titubeantes, vá-se saber com que aspecto, o rosto dela foi-se transfigurando lenta, gradualmente, até adquirir uma expressão estranha e terrível. Sim. Porque a princípio, durante alguns segundo, foi perplexidade ou incompreensão. Depois nada. Depois pereceu ter entendido obscuramente algo, e nos olhou com medo, desgarrada, interrogante. Então o disse. Disse que havia acontecido algo a ele, a Ernesto.
    
Fechando o déshabillé o disse.        


Extraído de CUENTO COMPLETOS
EDITORA ALFAGUARA


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POR EM 03/11/2008 ÀS 10:19 PM

Você é escritor? Eu também!

publicado em

Em resumo, todo mundo tem uma história e todo mundo quer contá-la. Menos pessoas podem estar lendo, mas pra todo lado que se olha, tem alguém publicando algo  
 

O artigo abaixo saiu na edição do The New York Times Book Review de 27 de abril de 2008. O título original é “You´re an author? Me too!”.   Há poucas e pequenas observações minhas [entre colchetes] no meio da tradução. Agradeço correções significativas.  (Flávio Paranhos)   

Rachel Donadio
(escritora e editora do
NYT Books Review)

Já está bem estabelecido que os americanos estão lendo menos do que liam. Um relatório recente do National Endowment for the Arts (NEA) reportou que 53% dos americanos não leram nenhum livro no ano passado – um dado que deixou alertas todos aqueles que têm afeição por (ou interesse comercial em) livros. Mas mesmo que mais pessoas escolham a fantasmagoria das telas no lugar dos prazeres contemplativos das páginas, há um fenômeno paralelo espalhado pelo país: a grafomania coletiva.

Em 2007, a impressionante quantidade de 400.000 livros foi publicada nos EUA, cem mil a mais do que em 2006, de acordo com o rastreador dessa indústria, Bowker, que atribui o significativo aumento ao número de livros impressos “por demanda” e reimpressões de títulos esgotados. Cursos universitários de escrita criativa estão prosperando, assim como conferências de escritores, oferecendo aos autores aspirantes uma chance de discutir seu trabalho. O rastreador de blog Technorati estima que 175.000 novos blogs são criados a cada dia no mundo (com alguns poucos blogueiros sortudos conseguindo contratos para publicar seus livros). E o relatório do NEA encontrou que 7% dos adultos pesquisados – 15 milhões de pessoas – faziam algum tipo de escrita criativa para “engrandecimento pessoal”.
           
Em resumo, todo mundo tem uma história e todo mundo quer contá-la. Menos pessoas podem estar lendo, mas pra todo lado que se olha, tem algum americano publicando algo.
           
“Como publicar tem se tornado menos caro, o desejo de escrever tem se materializado na oportunidade de publicar”, disse Gabriel Zaid, um crítico mexicano e autor de “So many books: Reading and publishing in na age of abundance”, uma reflexão sobre a vida literária num mundo cheio de livros. Hoje, acrescenta ele, “todo mundo pode se dar o luxo de pregar no deserto”.
           
Aqui no NYT Book Review, dúzias de livros com edição do próprio autor nos chegam a cada semana – poesia, coleções, livros infantis, memórias, manuais de auto-ajuda, títulos religiosos. “The Chronicles of a Hip Hop Legend: Paths of Grand Wizardry” é um dos que recebemos recentemente, assim como uma monografia técnica sobre a morte de Napoleão, completa com quadros sobre o possível envenenamento por arsênico; um guia ilustrado religioso, “Hell: For Those Dying to Get There”; e “Disney Your Way”, que sugere itinerários para passear pela Disney. Há memórias de sobreviventes do Holocausto, pessoas lutando contra distúrbios alimentares e novelas como “September Sun”, na qual “persuadido pelo poder afrodisíaco do sexo, Michael aprende amargamente que a Lei de Murphy sempre vigora”.
           
E os números sugerem que virão por aí mais livros. IUniverse, uma companhia que publica edições custeadas pelo autor, fundada em 1999, cresceu 30% ao ano nos últimos anos. Produz atualmente 500 títulos por mês e tem 36.000 títulos em seu catálogo [PQP!!!], informa a vice-presidente da Authors Solutions (que comprou a iUniverse), Susan Driscoll. Enquanto alguns são meros livros de distribuição em palestras, a maioria são de cidadãos comuns que querem ver seu trabalho impresso. Tais pessoas costumam pertencer a ambos os extremos dos limites de idade. “À medida que envelhecem, essas pessoas têm mais tempo e dinheiro e algo a dizer”, diz Driscoll, enquanto seus netos são impulsionados pela “necessidade de fama”. “Podem não ser ávidos leitores, mas certamente são ávidos escritores”, ela completa. Não que alguém esteja prestando atenção. Driscoll informa que a maioria dos autores que usa a iUniverse vende menos do que 200 livros.
           
Outras companhias que publicam livros independents relatam crescimento semelhante. Xlibris, que imprime por demanda, tem 20.000 títulos, por mais de 18.000 autores [PQP!!!], diz Noel Flowers, porta-voz da companhia. Ela é “não-seletiva” ao escolher os manuscritos, embora faça uma filtragem para “conteúdo ofensivo ou inapropriado”. Os mais vendidos da Xlibris incluem “Demonstrating to Win!”, um manual de computação (15.600 cópias vendidas, não incluídas as compradas pelo próprio autor) e “The Morning Comes and Also the Night”, listado na categoria “religião/Bíblia/profecias” (10.500 cópias vendidas).
           
De maneira geral, as grandes livrarias não gostam muito de ter em seus catálogos livros independentes. Mas estão de olho nesse mercado. iUniverse tem uma “aliança estratégica” com a Barnes & Noble, que de vez em quando considera estocar títulos independentes para algumas filiais, informa Driscoll. A Amazon.com tem o BookSurge, uma operação de impressão por demanda, que produz e distribui livros por tão pouco quanto U$3,50 por cópia.

A [rede de livrarias] Borders recentemente abriu um programa de impressão por demanda, a companhia Lulu. Autores aspirantes podem pagar 299 dólares pela formatação, impressão e um código ISBN, podem optar pelo pacote “Premium”, pelo qual um editor avaliará a estrutura, esquema e documentação, além de gramática básica, pontuação e grafia. O site da Borders informa que autores independentes podem até ter leituras de suas obras em filiais de suas lojas, mas o principal ainda não é possível. “Não é possível comprar um espaço nas estantes mesmo hoje”, diz um porta-voz da Borders.

A lista do programa de livros independentes da Borders encontra-se sob a rubrica “Borders Lifestyles”, como se escrever fosse um hobby, como golfe, em vez de um dom ou habilidade. Mas para aqueles à procura de um treinamento formal, há centenas de programas de escrita criativa, oferecendo o título de Master of Fine Arts (M.F.A.) ou outras credenciais. A Association of Writers and Writing Programs representava 13 programas quando foi fundada em 1967. Agora inclui 465 cursos completos, e aulas de escrita criativa são oferecidas na maioria dos 2.400 Departamentos de Inglês das universidades americanas.

Desde os anos 60 os programas de escrita criativa têm ajudado a “democratizar” o pool de talentos, promovendo “o encorajamento de mulheres e várias pessoas de diferentes classes sociais e raças a contar suas histórias e escrever seus poemas”, diz David Fenza, o diretor executivo da organização. Ele discorda daqueles que pensam que uma super-oferta de livros esteja afastando os leitores. “Alguns têm dito que toda essa nova atividade literária está substituindo as grandes obras e portanto afastando seus potenciais leitores”, diz Fenza. “Programas de escrita criativa têm suas falhas, mas eles ainda funcionam como advogados da leitura”.

Mark McGurl, um professor associado de inglês na Universidade da Califórnia em Los Angeles e autor de um livro a ser publicado em breve sobre o impacto dos programas de escrita criativa na literatura americana pós-guerra, concorda que tais programas têm ajudado a expandir o universo literário. “A literatura americana nunca foi tão profunda e forte quanto agora”, diz McGurl. Apesar disso, ele acrescenta, “pode-se colocar a questão de forma mais pessimista: dadas as muitas distrações da vida moderna, temos agora mais grandes escritores trabalhando nos EUA do que temos a inclinação ou tempo para lê-los.”

Companhias de livros independentes podem até produzir livros por menos de cinco dólares, mas quanto toda essa produção custa aos leitores? Em “So Many Books” Zaid escreve que “se um livro custa dez dólares e leva duas horas pra ser lido, para um trabalhador com salário mínimo o tempo gasto custa tanto quanto o livro”. Mas para alguém que recebe entre 50 e 500 dólares por hora, “o custo de comprar e ler um livro fica entre 100 e 1000 dólares”, isso sem contar o tempo gasto em achar o livro. [Raciocínio idiota, sinto cheiro de enxofre Stanley-fishiano aqui]

No fim das contas, entretanto, Zaid não está preocupado com a proliferação dos livros, embora ele não pense que todos deveriam se arriscar a escrever. “Sobre escritores aspirantes, André Gide costumava dizer: ‘Découragez! Découragez!’” (desencoragem-se!), lembra Zaid. “A implicação disso é que os escritores com real vocação não seriam desencorajados, e os outros poupariam seu tempo. Claro, alguns medíocres nunca ficam desencorajados, e alguns escritores em potencial seriam perdidos. Mas há tanto talento por aí que podemos nos dar o luxo de perder alguns”.

Certamente. Há muito barulho por aí. E, no meio disso, alguma música.   


 

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POR EM 02/11/2008 ÀS 10:37 PM

Horácio Quiroga: A almofada de penas

publicado em

Perdeu logo a noção das coisas. Nos dias finais delirou sem cessar a meia-voz. As luzes continuavam funebremente acesas no quarto e na sala. No silêncio agônico da casa, não se ouvia mais que o delírio monótono que saía da cama
 

Sua lua-de-mel foi um longo calafrio. Loira, angelical e tímida, o estilo duro do marido gelou suas sonhadas criancices de noiva. Ela o amava muito, no entanto, embora às vezes sentisse um ligeiro estremecimento quando, voltando de noite juntos pela rua, lançava um olhar furtivo ao alto Jordão, mudo já fazia uma hora. Ele, de sua parte, amava-a profundamente, sem deixá-la saber.
   
Durante três meses – haviam-se casado em abril -, viveram uma felicidade especial. Sem dúvida ela havia desejado menos severidade nesse rígido céu de amor; mais expansiva e incauta ternura; porém o impassível semblante de seu marido a continha sempre.
  
A casa que habitavam influía um pouco em seus estremecimentos. A brancura do pátio silencioso – frisos, colunas e estátuas de mármore – produzia uma outonal impressão de palácio encantado.

Dentro, o brilho glacial do estuque, sem o mais leve risco nas altas paredes, reforçava aquela sensação de frio desagradável. Ao cruzar de um cômodo a outro, os passos ecoavam em toda a casa, como se um longo abandono houvesse sensibilizado sua ressonância.

Nesse singular ninho de amor, Alicia passou todo o outono. Tinha escolhido, porém, por jogar um véu sobre seus antigos sonhos, e ainda estava dormindo na casa hostil sem querer pensar em nada até que chegava seu marido.
  
Não é raro que emagrecesse. Teve um ataque de gripe que se arrastou insidiosamente dia após dia;  Alicia não se recuperava nunca. Ao fim de uma tarde, conseguiu sair ao jardim apoiada ao braço do marido. Olhava indiferente a um e outro lado. De repente Jordão, com funda ternura, passou-lhe muito lentamente a mão pela cabeça, e Alicia rompeu em seguida em soluços, e o abraçou. Chorou longamente, todo seu espanto calado, redobrando o pranto à mais leve carícia de Jordão. Logo os soluços foram se acalmando, mas ainda ficou escondida no seu ombro, sem mover-se nem pronunciar uma palavra.

Foi esse o último dia que Alicia esteve de pé. No dia seguinte amanheceu desacordada. O médico de Jordão examinou-a com profunda atenção, ordenando-lhe calma e descanso absolutos.

    - Não sei – disse a Jordão na porta da rua. – Tem uma grande debilidade que não sei explicar. E sem vômitos, sem nada... Se amanhã acordar como hoje, me chame em seguida.

No dia seguinte, Alicia amanheceu pior. Houve consulta. Constatou-se uma anemia agudíssima, completamente inexplicável. Alicia não sofreu mais desmaios, porém ia visivelmente andando para a morte. Todo o dia o quarto ficou com as luzes acesas e em pleno silêncio. Passavam-se as horas sem que se ouvisse o menor ruído.  Alicia cochilava. Jordão vivia quase que definitivamente na sala, também com a luz acesa. Andava sem parar de um extremo a outro, com incansável obstinação. O tapete afogava o ruído de seus passos. De vez em quando entrava no quarto e prosseguia seu mudo vaivém ao longo da cama, detendo-se um momento em cada extremo para olhar sua mulher.

De repente, Alicia começou a ter alucinações, confusas e flutuantes a princípio, e que desceram depois até o chão. A jovem, com os olhos muito abertos, nada fazia senão olhar o tapete de um a outro lado da cama. Uma noite ficou com os olhos muito fixos. Um instante abriu a boca para gritar, e suas narinas e lábios se molharam de suor.

    - Jordão! Jordão! – exclamou, rígida de espanto, sem deixar de olhar o tapete.

Jordão correu para o quarto e, ao vê-lo aparecer, Alicia lançou um brado de horror.

    - Sou  eu, Alicia, sou eu.

Alicia o contemplou com o olhar extraviado, olhou o tapete, voltou a olhá-lo, e depois de um longo tempo de estupefata confrontação, voltou a si. Sorriu e tomou entre as suas a mão de seu marido, acariciando-a por meia hora, tremendo.

Entre suas alucinações mais teimosas, houve um antropóide apoiado no tapete sobre os dedos, que tinha fixado nela os olhos.

Os médicos voltaram inutilmente. Havia ali diante deles uma vida que se acabava, esvaindo-se dia após dia, hora após hora, sem se saber absolutamente o porquê. Na última consulta, Alicia jazia em estupor, enquanto eles lhe tomavam o pulso, passando um a outro a munheca inerte. Observaram-na um longo tempo em silêncio e foram para a sala.

     - Pst ... – encolheu-se de ombros desalentado o médico da cabeceira. – É um caso inexplicável... Pouco há para se fazer...

    - Só isso que me faltava! – resmungou Jordão, tamborilando bruscamente sobre a mesa.

Alicia foi se extinguindo no delírio da anemia, agravado de tarde, porém atenuado ao amanhecer.

Durante o dia sua enfermidade não avançava, porém a cada manhã amanhecia mais lívida, quase em síncope. Parecia que somente de noite a vida se lhe fugia em novas asas de sangue. Tinha sempre ao acordar a sensação de estar caída na cama com um milhão de quilos por cima. Desde o terceiro dia essa sensação de desmoronamento não a abandonou mais. Mal podia mover a cabeça. Não quis que tocassem na sua cama, nem que arrumassem a almofada. Seus terrores crepusculares avançavam agora em forma de monstros que se arrastavam até a cama, e subiam com dificuldade pela colcha.

Perdeu logo a noção das coisas. Nos dias finais delirou sem cessar a meia-voz. As luzes continuavam funebremente acesas no quarto e na sala. No silêncio agônico da casa, não se ouvia mais que o delírio monótono que saía da cama, e o surdo rumor dos eternos passos de Jordão.

Alicia morreu, finalmente. A empregada,  quando entrou depois para desfazer a cama, vazia já, olhou por um momento com estranheza para a almofada.

    - Senhor! – chamou Jordão com voz baixa. – Na almofada há manchas que parecem de sangue.

Jordão se aproximou rapidamente e curvou-se sobre a almofada. Efetivamente, sobre a fronha, em ambos os lados do côncavo que havia deixado a cabeça da Alicia, viam-se manchinhas escuras.

    - Parecem picadas – murmurou a empregada, depois de um tempo de imóvel observação.

    - Levante-a à luz – disse-lhe Jordão.

A empregada a ergueu; porém em seguida a deixou cair, e ficou observando-a, pálido e tremendo. Sem saber por quê, Jordão sentiu que os pêlos se lhe eriçavam.

    - Que aconteceu? – perguntou com a voz áspera.

    - Pesa muito – articulou a empregada, sem deixar de tremer.

Jordão levantou-a; pesava extraordinariamente. Saíram com ela, e sobre a mesa da sala Jordão cortou a fronha e a capa. A plumas superiores voaram, e a empregada deu um grito de horror com toda a boca aberta, levando as mãos crispadas às bandós. Sobre o fundo, entre as penas, movendo lentamente as patas aveludadas, havia um animal monstruoso, uma bola vivente e viscosa. Estava tão inchado, que mal aparecia sua boca.

Noite após noite, desde que Alicia havia caído de cama, ele havia aplicado sigilosamente sua boca – sua tromba, melhor dito – às têmporas dela, chupando-lhe o sangue. A picada era quase imperceptível. A remoção diária da almofada tinha impedido sem dúvida seu desenvolvimento; porém desde que a jovem não conseguiu mais se mexer, a sucção foi vertiginosa. Em apenas cinco dias e cinco noites, o monstro tinha esvaziado Alicia.

Estes parasitas de aves, pequenos em seu habitat, chegam a adquirir em certas condições proporções enormes. O sangue humano parece ser-lhes particularmente favorável, e não é raro encontrá-los em almofadas de penas.     


Publicado em TODOS LOS CUENTOSHoracio Quiroga
Editora: ALLCA XX/SCIPIONE CULTURAL


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POR EM 29/09/2008 ÀS 07:29 PM

Tradução: Pequeno café, de Paul Valéry

publicado em




Pequeno café obscuro, solidário, secreto, paraíso de pureza e de pensamentos.

Asilo de pedra oca de uma bela palidez contendo espelhos, fazes bem ao viajante, forno de sombra e de frescor, curvatura em berço muito doce...

Há somente eu dentro dessa gruta. Eu e os “Débats” sobre uma mesa de fundo.

Um gênio em roupas escuras, grosseiramente pintado de barba quase azulada... Ele se entedia tanto de sua solidão! Pega um banco para mim. Ele me traria qualquer coisa. Compreendo que vive num mundo imaginário.

Sinto-me um cliente abstrato, essência de cliente.

Vem, e embalsama o ar! - Fumo e perfume, amargo chocolate a evocar biscoitos tostados!...

Daqui a pouco, após muitos cigarros, desejaremos pedir a esse vago pensador gordo e mal barbeado, um desses glace au citron* que queimam de frio os lábios e a língua...

Livre enfim dos museus!

As coleções, contrárias ao espírito; o harém para o amor.

Estamos cansados das disputas dessas damas sultanas. A soma de todas essas belezas é absurda, fatigante. Uma reunião de objetos excepcionais, uma multidão de singulares só pode agradar aos marchands, seduzir os insensíveis que se julgam sensíveis, e as pessoas crédulas. Um olho espiritual não veria nenhum visitante nas galerias, mas adjetivos errantes. Ao fim de tudo, o objetivo dos artistas, o único objetivo, se reduz a obter um epíteto...

Esse chocolate tem um gosto severo que convém a esse lugar vazio e agrada a meu humor. Uma colherada, - um pensamento - uma baforada, - um gole de água gelada, - e essa sequência de julgamentos:

Os museus são odiosos para os artistas.

Eles os adentram somente para sofrer, ou espionar, roubar segredos militares.

Se sentem prazer, é devido à atrocidade de seus desprezos.

Pintar os horríveis sofrimentos da inveja artista.

Michelangelo, houvesse ousado, teria envenenado.

Ciúmes que ele tem de Leonardo. O que isso implica.

Lionardo não era cioso a não ser de suas idéias.

Um homem de talento, diante de mim maravilhado, ao tomar conhecimento da morte ou da demência, - não sei mais, - de um escritor mais conhecido e mais recompensado que ele, permite-se dizer vivamente: Tanto melhor... É chegada a minha vez.

Ousamos escrever as histórias das letras ou da arte sem dizer uma palavra de coisas como tais, sem aprofundar. A arte é tão quanto o amor. A arte e o amor são criminosos em potência, - ou não existem.

Tudo que vem dos deuses causa o inferno nos homens.

Esse café é deveras delicioso. Vemos daqui o calor vibrante sobre as pedras da rua. Eu passo a mão acariciando a carafe** gelada. - Uma trintena de moscas suspensas por seu movimento no espaço criam um sistema planetário e um movimento estatístico indiferente.

Aqui o espírito abatido pelas obras-primas ama a existência, se enleva, e avalia. Tudo que os homens fizeram, fazem e farão, soa para ele como esse barulho local e circunscrito do formigamento alado de trinta insetos. O corpo soergue imperceptivelmente os ombros. O próprio soerguimento, que condena os humanos, é bastante mal recebido. É impossível para a justiça que há em mim, não ver a necessidade de meu sentimento.

- As flores da florista aninhada sob a grande porta do palácio que está à frente dispensam as mensagens e os devaneios de amor. O que não ocorrerá jamais, o que não pode ser, embalsama, tem um perfume.

Eu desenho figuras geométricas no mármore do guéridon*** onde a ponta do lápis é tão feliz, tão livre.

- E de que me serve a necessidade de meu sentimento? Ela te serve muito, meu amigo.

Ela faz desse sentimento o que ele é,- o que são todos os sentimentos. Todo sentimento é o saldo de uma conta da qual o detalhe se perdeu. Impossível se obter uma declaração desses débitos e desses créditos. Encontraríamos aí operações que remontam ao ano mil; outras ao macaco ou ao castor. O pecado original é uma integral, sem dúvida.

Vamos, distrações, frescores, espírito, cessem de dominar!

Um pouco mais de fumaça com gelo; inalemos no ar o odor dos limões amorosos. Paguemos e partamos.


___________
*(N. do T.) Creme gelado ou sorbet de limão.
**(N. do T.) Garrafa, em árabe, no original.
***(N. do T.) Uma pequena mesa de centro, geralmente circular ou oval. Peça do mobiliário francês.

Esta tradução é dedicada à Monica, que ama os lugares, as coisas e as sensações estéticas. 

 


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