Programa de leitura 2010
O que intelectuais, escritores, professores e jornalistas lerão em 2010
Ainda não fiz a programação total de livros que espero ler em 2010, até porque alguns previstos para consumo no ano passado continuam num canto da esperança de ser apreciados. Há, também, os lançamentos almejados para os próximos meses e os volumes que tento encontrar, mas continuam no original em outros idiomas e apenas “arranho” em Inglês e Espanhol. Na lista a seguir, que me foi pedida no Twitter, estão apenas os que comprei nesse recesso parlamentar, pois seguramente após a volta dos trabalhos no Senado vai ser difícil visitar demoradamente bibliotecas, livrarias e sebos. Outros aguardam há tempos ainda nas sacolas das lojas.
Fiz uns pequenos comentários sobre as obras que já comecei a ler ou nas quais dei uma folheada mais demorada. Até para não cansar o leitor, evitei citar os livros técnicos, principalmente de Direito, Antropologia e Sociologia. Eles, em geral maioria no rol de qualquer planejamento de congressista dedicado às atividades no Legislativo, são necessários para as argumentações em alguns projetos dos quais sou relator, autor ou de cuja apreciação desejo participar como debatedor. Vamos ver se, com alguma disciplina, será possível cumprir em 2010 o calendário de leitura que apresento. O de 2009, como já disse, ficou incompleto. Vou tentar.
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“Perseguido” pela ditadura civil-militar (as aspas tem explicação: fora a cassação, duríssima, óbvio, e uma prisão ligeira, Lacerda praticamente não foi incomodado pelos governos militares. Disse o diabo de Castello Branco, e nada), Lacerda correu mundo. Fez o que mais gostava de fazer: viajar. Numa dessas viagens, em 1968, conheceu a atriz Shirley MacLaine, por quem se apaixonou. “Foi durante a estada de Lacerda em Los Angeles, a serviço de ‘Realidade’, que ele e Shirley MacLaine se apaixonaram”, escreve o biógrafo oficial John Dulles. Alfredo Machado, dono da Editora Record, era muito brincalhão e gostava de irritar Lacerda: “Você reparou no tamanho dos punhos da Shirley? Se ela lhe der um soco, vai ser muito forte”. Lacerda ficou possesso, mas não respondeu. Depois de intensas juras de amor, Lacerda e McLaine se esqueceram. Mas, não fosse o amor pela família, Lacerda poderia ter sido tornado o marido brasileiro da irmã do ator Warren Beatty.
Na contracapa de “Lula do Brasil — A História Real, do Nordeste ao Planalto” (360 páginas, tradução de Paulo Schmidt e Bernardo Schmidt), o escritor Luiz Fernando Emediato, dono da Geração Editorial, que publicou a obra, escreve: “Os livros de Denise Paraná e o filme de Fábio Barreto contam a história emocionante e épica de Lula. O livro de Richard Bourne faz a mesma coisa — mas também a explica”. Concluída a leitura, constata-se que o livro é uma crônica da vida de Lula, da infância à Presidência da República, mas sem grandes revelações. Pode conter novidades para estrangeiros, mas para o leitor brasileiro minimamente informado é um repeteco do que Denise Paraná publicou na biografia oficial de Lula e do que saiu nos jornais e revistas. Há alguns erros na “pesquisa” de Bourne, que, se não comprometem todo o trabalho, indicam desleixo do professor-doutor da Universidade de Londres e da editora. Há informações interessantes, embora nada novas, como o fato de Lula ter sofrido depressão e ter sugerido que poderia desistir da disputa em 2002. Bourne mostra que Lula já “transferia” voto como metalúrgico. Na década de 1970, Jair Meneghelli não queria disputar a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, mas Lula o impôs. Meneghelli obteve 89% dos votos. Secundando o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, Bourne sustenta que Lula é uma estrela internacional, mas admite que teve “dificuldade em convencer editores” a publicar seu livro no exterior. O livro não é inteiramente ruim, mas, apesar de recolher algumas críticas, aproxima-se de uma hagiografia.
O romance “O Mestre e Margarida” (Alfaguara, 456 páginas), do escritor, dramaturgo e libretista ucraniano Mikhail Bulgákov, ganha sua primeira tradução patropi direta do russo — um trabalho de mestre de Zoia Prestes. A versão anterior (Nova Fronteira/Abril Cultural), a partir do inglês, é de Mário Salviano Silva. Neste texto, falo mais da tragédia do autor, narrada no excelente “O Diabo Solto em Moscou — A Vida do Senhor Bulgákov” (Edusp, 582 páginas), de Homero Freitas de Andrade. Há também traduções de contos e novelas a partir do original russo.
Inicialmente publicado em capítulos na revista americana “Rolling Stone” em 1996, o livro narra uma história ficcional de fortes manipulações de imagem por um programa de televisão, que investigava um “escândalo” no exército dos Estados Unidos. O enredo até pode ter sido inventado, mas suas características de detalhes são tão imensas que o leitor consegue visualizar-se sentado em seu sofá assistindo o programa “Dia & Noite”. Não foi à toa que Wolfe tornou-se o “pai” do New Journalism ou o criador do Jornalismo Literário (estilo de jornalismo que utiliza técnicas narrativas da literatura para abordar fatos informativos). Ele não apenas conta uma história, mas relata-a. Faz isto com uma imensidade de detalhes e com tanta naturalidade que aquele que lê torna-se envolvido na trama e passa a olhar os fatos do ponto de vista dos personagens.
Quem quiser entender a literatura de James Joyce deve ler a biografia “James Joyce”, de Richard Ellmann, e, talvez, “Homem Comum Enfim”, de Anthony Burgess. Para entender o romance “Três Tristes Tigres” (José Olympio, 517 páginas, tradução de Luís Carlos Cabral), de Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), pelo menos para rir com mais proveito de algumas histórias, deve-se ler os artigos e ensaios de “Mea Cuba” (Companhia das Letras, 518 páginas, tradução de Josely Vianna Baptista) — um guia não-guia de acesso aos “segredos” cubanos —, do mesmo autor.
O corpo de um desaparecido permanece no intervalo entre os vivos e os mortos. Sem a presença material, não pode ser definida sua morte. A ausência, por sua vez, não garante que ainda está vivo. Derrida nota que é essa a condição do fantasma, ideal para pensar a modernidade depois de tudo e o tempo fora dos eixos. Na América Latina, o sujeito que sumiu durante as ditaduras militares é o espectro político que ronda e assusta as sociedades dos países ainda reticentes em acertar as contas com o passado. Nem vivo, nem morto, ele vaga pelas narrativas com uma vitalidade sem igual. 
“Los Anos Rojos de Luis Buñuel”(Cátedra, 420 páginas), de Román Gubern e P. Hammond, provoca polêmica na Espanha. O livro prova que, ao contrário do que sempre disse, o cineasta filiou-se ao Partido Comunista Espanhol (PCE) em 1931. Não só. Buñuel se pôs, durante algum tempo, a serviço do brutal stalinismo soviético.
O que sabemos da Irlanda tem a ver com seus escritores notáveis, como Jonathan Swift, Wilde, Yeats, Shaw, Joyce e, recentemente, John Banville. Os políticos são lembrados, se são, apenas por especialistas em política internacional.