A Solidão dos Números Primos
Mais do que um estado de isolamento, em que o sujeito experimenta sua própria companhia, a solidão é também uma espécie de liberdade truncada e inconstante, aberta às surpresas e acasos da vida, e por isso mesmo passível a tudo. Na maioria das vezes pensamos na solidão como algo triste, indesejado, uma condição humana causal de uma sociedade individualista que quer cada vez mais espaço e menos presença — até mesmo de si, por que não? Mas ela também pode ser, se encarada ou “tratada” como fase, uma saudável oportunidade de observar o mundo com um olhar distante e ainda assim muito íntimo, particular, em busca de algo que se está à procura, embora não se saiba bem o quê. Em alguns casos a solidão é escolha absoluta e consciente, e disso trata o romance do italiano Paolo Giordano, “A Solidão dos Números Primos” (Editora Rocco, 288 páginas, tradução de Y. A. Figueiredo).
Numa extremidade do romance está Mattia Balossino, um garoto que cresce com uma secreta parcela de solidão por causa de Michela, sua irmã gêmea mentalmente doente, da qual se envergonha. Aqui seu mundo solitário é autogerado a partir desta vergonha e do distanciamento que ele mesmo provoca com os colegas e conhecidos. Convidados para a festa de um colega de sala com o qual têm pouquíssimo contato, os irmãos Balossino se separam a caminho da festa. Mattia, preocupado com o possível comportamento de Michela, (“Ela vai deixar cair todas as batatas fritas no chão.”), deixa a irmã numa praça dizendo que voltará logo. Mas quando volta, a praça está vazia e escura, como fica seu coração por muitos anos seguintes. A narração avança um ano após o desaparecimento e mostra um Mattia ainda mais introspectivo, obscuro, marcado pelas cicatrizes de uma frustrada tentativa de suicídio.
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A editora Letra Selvagem, de Taubaté, por iniciativa de seu editor, Nicodemos Sena, acaba de relançar o romance “Deus de Caim”, do mato-grossensee Ricardo Guilherme Dicke, obra que foi um dos vencedores do prestigiado Prêmio Walmap (1967). Referendado por Jorge Amado, Guimarães Rosa e Antonio Olinto, integrantes do júri, que o consideraram uma revelação e um marco na literatura brasileira, o romance vem sendo objeto de redescoberta pelos ensaístas, críticos e estudantes, que atestam a grandiosidade e repudiam o injusto esquecimento a que foi relegado seu autor.
A biografia “Carla — Uma Vida Secreta” (Editora Flammarion), da jornalista Besma Lahouri, será publicada em outubro, mas já está provocando polêmica. Os advogados do presidente francês Nicolas Sarkozy estão examinando o texto. Entre seus aliados há quem queira pedir à Justiça que impeça a circulação do livro, que contém informações bombásticas sobre a cantora Carla Bruni, mulher do líder francês.
Quando lançado no Brasil, em 2008, o livro “Quem Pagou a Conta — A CIA na Guerra Fria da Cultura” (Record, 556 páginas, tradução de Vera Ribeiro), de Frances Stonor Saunders, formada em Oxford, ganhou resenhas elogiosas, mas nenhum comentário crítico. O motivo é o de sempre: teorias conspiratórias de esquerda são aceitas como verdades irretorquíveis nos cadernos culturais. O jornalista e escritor inglês George Orwell, morto aos 46 anos, em 1950, é uma das “vítimas” da autora. Ao contrário de biógrafos e ensaístas, Saunders acredita na história de Isaac Deutscher de que Orwell plagiou o romance “Nós”, do russo Yevgeny Zamyatin, que, perseguido pelo stalinismo, exilou-se na França. Ex-trotskista e eterno socialista, Deutscher escreveu que faltavam ao seu adversário “senso histórico e compreensão psicológica da vida política”. Sessenta quatro anos depois da morte de Orwell, sabemos que sua crítica ao totalitarismo, de esquerda (stalinismo) e de direita (nazi-fascismo), permanece pertinente. O romance “1984”, de 1948, persiste vivo, um perceptivo mapeamento histórico e psicológico, além de resistir como literatura, de uma sociedade totalitária. O herói ou ex-herói de Deutscher, Liev Trotski, era menos perspicaz do que o autor da novela “A Revolução dos Bichos”. Se a crítica do biógrafo de Trotski não resiste a um peteleco, outra crítica é mais grave. Orwell teria sido “dedo-duro”, segundo a versão apresentada por Saunders.
Escritores africanos têm se destacado no mercado editorial da língua portuguesa e de outras línguas, e um deles é Ondjaki, escritor angolano premiado, finalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2010 e membro da União dos Escritores Angolanos. “E se Amanhã o Medo” (Língua Geral, 120 páginas), seu último livro publicado no Brasil, traz vinte breves contos que podem ser vistos como uma pequena amostra de um grande talento.
O livro “El Exilio de Hitler” (Ediciones Absalón, 493 páginas), do jornalista argentino Abel Basti, de 54 anos, sustenta que o líder nazista e sua mulher, Eva Braun, não se mataram. “Fugiram” para Barcelona, onde passaram alguns dias, e depois foram para a Argentina, onde Hitler "morreu", nos anos 60.
Se me pedissem um resumo de “2666”, com suas 852 páginas, eu responderia citando Carlos Fate: “2666” é sobre “a variedade interminável de formas com que destroçamos a nós mesmos”. Ou ainda: “Um retrato do mundo industrial do Terceiro Mundo, um ‘aide-mémoire’ da situação atual do México, uma panorâmica da fronteira, uma narrativa policial de primeira magnitude, porra”. É um resumo bastante incompleto, por isso aponto abaixo alguns aspectos do livro de Roberto Bolaño — acredite no hype! — que se relacionam às falas de Fate.
Publicado em 1851, “Moby Dick”, de Herman Melville, é um clássico. O romance é produto da imaginação do escritor americano — discípulo que rivaliza com Shakespeare — e, ao mesmo tempo, baseado em fatos reais. Muitos leitores certamente avaliam que o espírito vingativo de Moby Dick, um cachalote gigantesco, é uma invenção literária de Melville. A baleia do livro parece ter sentimentos, como a capacidade de ser vingativa, de perseguir o seu perseguidor, o obcecado capitão Ahab, que parece mais selvagem do que seu oponente marítimo. A história é baseada num acontecimento real, de 1820, que, sem a cobertura da recriação poderosa da literatura, teria se tornado um rodapé na história náutica. Baleias atacam barcos de curiosos que aparentemente as agridem, talvez pela proximidade excessiva e ameaçadora. Na edição de 22 de julho do jornal espanhol “El País”, Lali Cambra relatou, na matéria “O ataque da baleia”, como um mamífero de 40 toneladas atingiu e destruiu parcialmente o barco Intrepid, na costa atlântica da Cidade do Cabo.
Livro de jornalista sobre jornalismo e jornalistas invariavelmente é desinteressante. Ficamos sabendo, em geral, da parte rósea da profissão, que estimula tantos garotos a prestarem vestibular para o curso de Jornalismo. Nas obras cor-de-rosa, os jornalistas contam que falaram com as eminências de seu tempo, contam maravilhas sobre suas viagens e, para atrair mais leitores, uma pitada de sexo é inescapável. Experiências próprias e de gente famosa. Não é o ocorre com o livro “O Repórter e o Poder” (Editora Alegro, 271 páginas), as memórias de José Carlos Bardawil. Trata-se, na verdade, de uma longa entrevista, não muito bem editada (e com vários erros), feita por Luciano Suassuna (diretor de Jornalismo do portal iG). O livro não tem nada de chato e pode ser lido de uma sentada. Conta uma história, digamos, quase cruenta de parte da imprensa brasileira. Bardawil morreu ainda novo, aos 54 anos, vítima de câncer. Suas memórias têm um tom de mágoa, de ajuste de contas. Percebe-se, também, que o jornalista transforma fatos irrelevantes em fatos decisivos. Como obra de maledicências, não deixa de ser muito interessante, lembrando, quem sabe, Humberto de Campos. 
