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POR EM 17/12/2009 ÀS 10:43 PM

Feltrinelli: o editor que bancou Doutor Jivago

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Feltrinelli - Editor, Aristocrata e SubversivoA Editora Conrad lançou um livro importante, "Feltrinelli — Editor, Aristocrata e Subversivo", de Carlo Feltrinelli. A biografia não deve ser considerada suspeita porque foi escrita pelo filho de Feltrinelli; na maioria dos casos, ele publica as contradições do pai e as versões de outras pessoas. Se levasse cinema a sério, diria que a história de Feltrinelli merece um grande filme, no estilo do que Luchino Visconti fez com "O Gattopardo", romance do italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa. O que deve chamar mais a atenção é a história de Feltrinelli como “terrorista”, “amigo” de Fidel Castro e “milionário”. Ao tentar colocar uma bomba num local público, em 1972, Feltrinelli morre. A Europa ficou perplexa.

O que me interessa é a história de como publicou os romances "Doutor Jivago", do russo Boris Pasternak, na Itália, e "O Gattopardo" ("O Leopardo"). Poeta refinado, um clássico moderno, tradutor de Shakespeare, Pasternak escreveu "Doutor Jivago" para, de certo modo, se vingar dos comunistas que proibiam a publicação de seus textos. O romance, que transita com desenvoltura entre a prosa e a poesia (há uma bela tradução de Zoia Prestes, Editora Record. Os poemas foram traduzidos por Marco Lucchesi), é, em termos formais, uma volta ao romance russo do século 19 e, ao mesmo tempo, um modo de interferir, direta ou indiretamente — como a prosa de Dostoiévski (pioneiro na dissecação do terrorismo com "Os Demônios") e Tolstói —, na vida dos russos do século 20. Transformado num épico pelo cinema — o belo filme de David Lean —, "Doutor Jivago" comoveu gerações de socialistas, capitalistas e indivíduos politicamente independentes.


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POR EM 16/12/2009 ÀS 08:26 PM

O Motim do Bounty

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O Motim do BountyQuem gosta de histórias do mar não deve perder “O Motim do Bounty” (Companhia das Letras, 522 páginas), da historiadora e jornalista Caroline Alexander. O livro não cita o filme “O Grande Motim”, de Frank Lloyd, com Clark Gable (Fletcher Christian) e Charles Lawghton (capitão William Bligh) — no que faz muito bem. Porque o filme é um retrato distorcido do que aconteceu no Bounty. Em 1787, dois anos antes da Revolução Francesa, instigado por sir Joseph Banks, rico naturalista, o capitão (na época, tenente) Bligh dirigiu-se, para uma viagem de dois anos, ao Taiti. Mesmo contra a vontade do Almirantado, que se preparava para a guerra contra os franceses, Banks, com o apoio do governo inglês, deu apoio decisivo à viagem. Os marinheiros iriam ao Taiti para buscar e, depois, levar mudas de fruta-pão para as colônias do Caribe. O objetivo era baratear o custo da alimentação dos escravos.

No filme de Lloyd, Bligh é apresentado como carrasco. Caroline Alexander, na sua criteriosa pesquisa, mostra que o grande marinheiro Bligh era moderno, tinha vocação científica, fazia o possível para alimentar bem seus homens, cuidava da saúde deles e tinha horror a castigo físico, embora eventualmente mandasse chicotear os indisciplinados. Christian, no filme apresentado como herói, não era um oficial disciplinado. Ao chegar ao Taiti, com as mudas de fruta-pão no navio, Christian lidera uma rebelião. “O que causou o motim no Bounty?”, pergunta Caroline Alexander. “As seduções do Taiti [as belas mulheres], a língua ferina de Bligh — talvez. Mas mais convincentemente uma noite de muita bebida e o orgulho de um homem orgulhoso [Christian], um mau momento em certo amanhecer cinzento, um tropeço momentâneo e fatal no código de disciplina de um cavalheiro — e depois a torrente de consequências a serem suportadas pelo resto da vida.”


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POR EM 08/12/2009 ÀS 09:16 PM

O historiador que se tornou juiz

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Jango — Um Perfil (1945-1964)"Jango — Um Perfil (1945-1964)", do historiador Marco Antonio Villa (Editora Globo, 287 páginas), é excelente. Não é uma biografia de Jango, mas um estudo de sua participação política, com pitadas biográficas, do fim do Estado Novo à implantação da ditadura civil-militar de 64. Não há grandes revelações na obra, que, embora acadêmica no formato — trata-se de uma pesquisa rigorosa —, é escrita num estilo próximo do jornalismo. Mais: trata-se de uma pesquisa não só nos documentos, como Villa sugeriu numa entrevista, mas também em livros e jornais (que também são documentos). De certo modo, o livro é uma síntese da bibliografia. Neste texto, faço a opção por comentar alguns problemas.

Como não há espaço suficiente para estabelecer um debate mais amplo, sobretudo sobre as deficiências do livro (inclusive de revisão), discuto mais as conclusões do autor. Antes de comentar as páginas finais, aponto dois problemas. O primeiro: Villa diz que, ao se encontrar com Robert Kennedy, representante do presidente John Kennedy, “a postura de Jango foi sempre subserviente” (página 94). Estranhamente, para um historiador, aponta-se apenas uma fonte, claramente suspeita: o embaixador norte-americano Lincoln Gordon. É provável que, mais do que subserviente, Jango, no melhor estilo do político brasileiro, tenha se mostrado dissimulado, o que talvez tenha confundido Gordon.

 


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POR EM 08/12/2009 ÀS 08:43 PM

Brasilianista sugere que crítica ao golpe de 64 começou em Washington

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Apesar de Vocês Os Estados Unidos apoiaram o golpe civil-militar de 1964. Chegaram a preparar ajuda militar, por intermédio da Operação Brothers Sam, mas o sistema de defesa do governo do presidente João Goulart era tão frágil que o apoio americano não foi necessário. O brasilianista James N. Green, no livro “Apesar de Vocês — Oposição à Ditadura Brasileira nos Estados Unidos, 1964-1985” (Companhia das Letras, 582 páginas), tenta provar que, apesar do apoio do governo e da imprensa, intelectuais americanos criticaram o golpe e, na sequência, denunciaram torturas contra militantes da esquerda. Embora fossem minoria, chegaram a influenciar a posterior política de direitos humanos do governo.

Trata-se de uma pesquisa no geral rigorosa, mas de matiz esquerdista. Os militares são mais ou menos demonizados, enquanto a esquerda radical, que pretendia implantar outra ditadura, a do (na verdade, contra o) proletariado, é mostrada de modo quase angelical. Green não é adepto de que o golpe “começou” em Washington, mas sugere que, sem o apoio americano, que possibilitou a aglutinação das correntes militares, o golpe talvez não tivesse ocorrido ou teria demorado mais tempo. A crítica do golpe “começou” em Washington? Green não sustenta que começou, mas conta que a crítica organizou-se, em grande medida, nos Estados Unidos e, daí, ganhou o mundo.


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POR EM 05/12/2009 ÀS 08:43 PM

Maiakóvski: O Poeta da Revolucão

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Maiakóvski — O Poeta da RevolucãoA Editora Record lança, depois de longa demora, “Maiakóvski — O Poeta da Revolucão” (559 páginas), do russo Aleksandr Mikhailov, com prefácio de Alexei Bueno e tradução esmerada de Zoia Prestes. No prefácio, Bueno nota “a riqueza metafórica e rítmica da poesia de Vladímir Maiakóvski, sua mestria no uso de hipérboles, seu humor cáustico, seu virtuosismo no jogo de palavras”. Àquele leitor que não quer apenas saber os fatos da vida do poeta, que dizia detestar fofocas, recomendo três livros: “Poemas”, de Maiakóvski, com traduções de Boris Schnaiderman, Augusto e Haroldo de Campos, “Poesia Russa Moderna”, com traduções do mesmo trio, e “Antologia PoétiCa”, de Maiakóvski, com tradução de E. Carrera Guerra.
 
Maiakóvski matou-se, aos 36 anos, em 1930, quando Stálin, senhor do poder, havia expurgado adversários de peso como Liev Trotski e enquadrava aqueles que pensavam diferentemente da ortodoxia do partido. Por que Maiakóvski se matou, com um tiro no peito, se havia condenado o suicídio do poeta Sierguéi  Iessiênin, em 1925? Mikhailov escreve, com pertinência: “A pessoa que deixa voluntariamente a vida leva consigo o mistério de sua decisão. Nenhuma explicação (inclusive as de Maiakóvski) penetra na essência real da atitude tomada. Elas somente entreabrem a cortina sobre o segredo, mas o próprio segredo permanece escondido atrás do final triste da vida. (...) Encontramos os motivos, mas o segredo permanece em segredo”.


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POR EM 02/12/2009 ÀS 01:16 PM

Os Ditadores — A Rússia de Stálin e a Alemanha de Hitler

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Os Ditadores — A Rússia de Stálin e a Alemanha de HitlerCom atraso de cinco anos, a José Olympio lança o excelente “Os Ditadores — A Rússia de Stálin e a Alemanha de Hitler” (840 páginas, tradução de Marcos Santarrita), de Richard Overy. Ao lado do clássico “Hitler and Stalin: Parallel Lives”, de Alan Bullock, de 1991, o livro do historiador inglês é uma das análises comparativas mais percucientes a respeito dos ditadores.

Overy diz que “nem Hitler nem Estaline eram pessoas normais. Tanto quanto se pode perceber, não eram desequilibrados no sentido clínico, por muito tentador que seja presumir que as suas ações monstruosas teriam sido provocadas pela demência. Eram homens dotados de personalidades excepcionais e de uma extraordinária energia política. Em qualquer dos casos, o que os movia era a dedicação sem reservas a uma causa, para a qual, e por diferentes razões, se consideravam os executores históricos. Perante semelhante destino, os dois homens desenvolveram uma morbidez exagerada. Estaline tinha pavor tétrico da morte e à medida que envelhecia receava o que o seu desaparecimento significaria para a revolução que julgava proteger. Hitler também se deixou apoderar pelo medo de não viver o tempo suficiente. ‘Oprimido pelo terror do tempo’, observou Albert Krebs, dirigente do partido em Hamburgo, ‘pretende comprimir o desenvolvimento de um século no espaço de duas décadas’. Eram os dois impiedosos, oportunistas e flexíveis nas suas táticas, e as ações políticas centravam-se sem rodeios na sua sobrevivência pessoal. Ambos foram subestimados, quer por colegas quer por adversários, que não foram capazes de perceber que personalidades tão modestas e discretas, quando em repouso, disfarçavam um núcleo duro de ambições, de implacabilidade política. (...) A singularidade de objetivos e a vontade poderosa demonstradas pelos dois homens ao logo da década de 1920 não os guindou automaticamente à posição de autoridade absoluta que ocupavam nos anos 30. A ditadura não era uma inevitabilidade. Não se sabe bem quando terá Estaline entendido que o seu poder pessoal era um modo mais seguro de preservar a revolução do que uma liderança coletiva — talvez durante os últimos meses de vida de Lenine. (...) O ponto de partida, tanto para Estaline como para Hitler, foi o domínio dentro do seu próprio partido, para só depois virem a reivindicar o poder” (páginas 61 e 62).


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POR EM 26/11/2009 ÀS 07:00 PM

A maluquice de um hagiógrafo

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Ricardo AlexandreO jornalista Ricardo Alexandre não é trouxa nem louco, mas é, possivelmente, “aluado”. Porque só com muita coragem ou desfaçatez, ao estilo do presidente Lula, para dizer a diatribe a seguir: “Talvez Simonal seja continuamente redescoberto como o maior cantor da história do Brasil”. A maluquice, ou ataque de juveniilismo, está na página 335 da hagiografia “Nem Vem Que Não Tem — A Vida e O Veneno de Wilson Simonal” (Globo, 390 páginas).

No “Valor Econômico” de sexta-feira, 13, Zuza Homem de Mello, um crítico que realmente entende de música, defende o indefensável livro de Ricardo Alexandre. Zuza, como engenheiro de som, trabalhou em shows de Simonal, mas, mesmo defendendo o cantor e o hagiógrafo, não teve ânimo para dizer que se trata do “maior cantor da história do Brasil”. O livro, no todo, não é ruim, mas se torna inviável a partir da premissa de que Carmen Miranda, Orlando Silva, Elis Regina, João Gilberto, Nara Leão e Gal Costa são piores cantores do que Simonal.


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POR EM 24/11/2009 ÀS 05:43 PM

Literatura portuguesa: Trauma de 1974

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Lobo AntunesGilberto Freyre viajou pelas colônias portuguesas e notou semelhanças delas com a formação da sociedade brasileira, sintetizada no equilíbrio de contrários e na facilidade de adaptação do colonizador europeu nessas terras no novo mundo. O encanto foi enorme, e ele acabou formulando a utopia de império luso-tropical, sob o comando naquele momento, os anos 1940 e 1950, do ditador Antonio Salazar. Foi o encontro dos tradicionalismos de Portugal e do Brasil. Por sorte, a utopia delirante naufragou tal qual a uma jangada de pedra e o salazarismo morreu em abril de 1974.

A Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, rompeu com o liberalismo extremamente conservador, criado nos anos 1930, que transformou Portugal no país mais atrasado da Europa e detentor de colônias na África e na Ásia. Essa história está bem contada em “A Revolução dos Cravos”, de Lincoln Secco, e “O Império derrotado”, de Kenneth Maxvell. Os salazaristas perderam não apenas o controle do governo português, como também assistiram à onda de libertação nacional com a descolonização de países como Angola e Moçambique.


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POR EM 23/11/2009 ÀS 11:27 PM

Púchkin: o Dom Casmurro da Rússia

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O Botão de PúchkinHá uma preciosidade no mercado: “O Botão de Púchkin” (o título, aparentemente medonho, tem explicação, que não vou revelar), de Serena Vitale (Editora Record, 416 páginas). O livro da scholar italiana não é uma biografia de Púchkin (optei por manter o acento, como fazem Boris Schnaiderman e Paulo Bezerra, tradutores do russo do primeiro time), maior poeta russo, e, sim, um relato de seus últimos dias.  Púchkin morreu em duelo com o francês Georges Charles d’Anthès, em 1837, aos 37 anos. O poeta bateu-se com d’Anthès porque cartas anônimas distribuídas a vários de seus amigos revelaram que o cavaleiro da guarda russa tinha um caso, ou quase, com sua mulher, Natália Puchkina. 

Para evitar o duelo, d’Anthès casou-se com uma irmã de Natália, Ekaterina. Púchkin desistiu de bater-se com o oficial, mas, acreditando que as cartas anônimas haviam sido escritas pelo embaixador holandês Jacob van Heeckeren, pai adotivo (e, talvez, amante) de d’Anthès, decidiu desafiá-lo.  D’Anthès assumiu as dores do pai-amante e decidiu aceitar a disputa. Ele atirou primeiro e feriu mortalmente Púchkin. Este também atirou, mas d’Anthès saiu praticamente ileso. Voltou para a França, onde morreu, senador e rico, em 1895.  Serena Vitale é uma pesquisadora infatigável, mas, ao contrário de muitos acadêmicos, escreve muitíssimo bem, o que significa que seu texto é preciso, sem muletas como “em última instância” e “no bojo”. “Botão de Púchkin” é livro acadêmico, em termos de pesquisa exaustiva, mas escrito quase como um romance policial. Trata-se de uma investigação policial, judicial e históri(c)a de primeira grandeza. Não se trata de um exame da obra do poeta. 


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POR EM 21/11/2009 ÀS 04:27 PM

Geneton Moraes Neto entrevista espião que articulou assassinato de Trotski

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Dossiê Moscou, de Geneton Moraes Neto“Dossiê Moscou” (Geração Editorial, 234 páginas), de Geneton Moraes Neto, parece, à primeira vista, apenas mais um livro de reportagens. Não é. Trata-se, isto sim, de um excelente livro de história, de um pesquisador que é repórter, vazado num tom delicioso, nada acadêmico, mas fadado a contribuir com as pesquisas sobre a extinta União Soviética. Neste texto detenho-me não no núcleo do livro, mas numa história, digamos, periférica: Geneton entrevistou o espião que articulou o assassinato de Trotski — o “stalinista renitente” Pavel Sudoplatov. A entrevista, por escrito, mesmo sem possibilidade de o jornalista retrucar e reposicionar uma questão, é muito boa. 

O primeiro contato de Geneton foi com Anatoli Sudoplatov, filho de Pavel. “O filho do agente da KGB [prefiro do KGB — o “K” significa comitê] que armou o plano para matar o então dissidente Leon Trotski se irrita comigo porque insisto em perguntar se ele não ficava chocado ao saber do envolvimento do pai em assassinatos políticos. Não, não ficara. O filho do homem estranha meu espanto. Por que diabos ele ficaria chocado? Aquilo era uma guerra ideológica. Não havia lugar para sentimentalismos inocentes”, escreve Geneton. 

Sabe-se que o articulador principal da morte de Trotski foi Beria (o mesmo que deixou Stálin morrer como um porco, mas caiu em desgraça logo depois), imediato do poderoso chefão Stálin. A fonte de Geneton não é apenas a entrevista, muito curta, de Pavel Sudoplatov; ele cita a biografia de Trotski (inédita em português) escrita pelo historiador Dmitri Volkogonov (autor da biografia “Stálin — Triunfo e Tragédia”, publicada pela Nova Fronteira). A informação relevante é que o dirigente do KGB “recebeu pessoalmente de Stálin a ordem para executar a Operação Trotski”. Isto mostra a importância de Pavel e que Stálin articulava os assassinatos em nível bem pessoal. Pavel foi levado a Stálin por Beria. “Se o fiel [Jaime Ramón] Mercader [del Rio Hernandez] foi a face visível de um dos mais famosos atentados políticos do século, Pavel Sudoplatov foi a mão invisível. O nome Sudoplatov ficou na sombra até a derrocada do regime comunista. Somente aí começou a ser citado em jornais de Moscou. O mistério começou a se desfazer quando o nome de Sudoplatov foi citado em dezenove páginas na biografia de Trotski escrita por Dmitri Volkogonov”, conta Geneton. 


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