Poeta goiano quase desconhecido, nascido na antiga Vila Boa e que morreu há mais de 100 anos, em Franca, São Paulo, tem parte de sua obra resgatada em livro. O professor e juiz de direito Carlos Alberto Bastos de Matos, que morreu em 2004, vasculhou arquivos de cidades paulistas e mineiras e reconstituiu a atribulada biografia do poeta
Carlos Alberto B. Matos
“Eginio Venancio”.Este haveria de ser na verdade o nome de quem afinal se consagrou, após curta e atribulada existência, como o inspirado poeta “Ygino Rodrigues”.
Seu pai, Salvador José Venâncio, emigrado da Bahia para a cidade de Goiás, aí casou-se em 12 de maio de 1867 com Luiza Alves Barboza. Nasceu o poeta a 11 de janeiro de 1872, sendo seu padrinho Thomas Rodrigues da Fonseca. Há, pois, de ter sido do padrinho que Ygino herdou o sobrenome “Rodrigues”. E isto era, na época, costume comum entre gente simples.
Filho de família humilde, não foram certamente de muito conforto seus primeiros anos às margens do rio Vermelho, na antiga Villa Boa. Aliás, as próprias condições da então capital da província de Goiás eram, naqueles tempos, de todo desfavoráveis.
Um século mais tarde, traçando a biografia de quem já então era o patrono da cadeira nº 24 da Academia Goiana de Letras, Humberto Crispim Borges conta que Ygino, sob a proteção de seu padrinho Thomas Rodrigues da Fonseca, iniciou o estudo das primeiras letras em 1879. Em 1884, revelando inteligência incomum, ingressou no “Lyceu de Goiaz”, que concluiu em 1888. No ano seguinte assentou praça no 20º Batalhão da Infantaria, mas dois anos depois, em 1891, deixou as fileiras do Exército, passando a colaborar ativamente, em 1892 e 1893, na Gazeta de Goiás, do monsenhor Inácio Xavier da Silva. Também publicou poemas em O Goiás e no Jornal de Goiás. Em 1894, desgostoso, retirou-se da modorrenta Goiás. Sua mudança de Goiás deveu-se, certamente, a seu irrequieto espírito, a seus anseios de vôos altos noutros lugares. Havia de ter consciência de seus dotes de jornalista e de seu valor como poeta, que não haveriam de permanecer confinados nos limites estreitos da terra que o vira nascer.
Ei-lo então em Uberaba, acolhido por Quintiliano Jardim, diretor do” Lavoura e Comércio” e proprietário da Tipografia Jardim, onde é impresso o primeiro livro de Ygino, "Dinamites"( publicado em três volumes , era dedicado à memória de Floriano Peixoto, por quem ele tinha uma admiração fanática). Mais tarde, em 1908, já morto Ygino, o jornalista lembrava que ele lhe chegara do “Goiás tropical, trazendo o cérebro ardendo em fantasias e o coração aflorado de esperanças, fantasias, falenas doiradas que espalhava a mãos cheias numa prodigalidade nababesca por jornais e folhetos; esperanças, minaretes aurilavrados erguidos nos seus sonhos de poeta...”.
Irrequieto, Ygino segue para o Rio de Janeiro, onde trabalha como redator de O Nacional e onde, no ano de 1895, imprime "Pampeiros", em edição da Tipografia da Papelaria Ribeiro. Pouco depois, todavia, já está em São Paulo, tentando levar adiante um pequeno jornal, A Mogyana, de curta e intermitente vida.
Afinal, em meados de 1901, surge em Franca. E surge fulgurante, publicando no Sétimo Districto de 26 de maio dois sonetos que fazem imediata fama: "Flor de Maio" e este "Ato de Contrição":
Eu sei que Deus que é bom, que é Infinito,
Há de lenir-me o sofrimento, em breve,
E hei de ficar tão puro, como a neve,
Pelo perdão que peço-lhe contrito
Eu sei que Deus escuta a voz do aflito
E violar seu poder ninguém se atreve;
Minha alma subirá qual pena leve,
Pois eu creio em Jesus e no seu rito!
Arranca-me, Senhor, deste planeta
Onde arrasto duríssima grilheta,
Onde, em seis lustros, quase não vivi!...
Dá-me forças no transe derradeiro,
Como as tiveste embaixo do madeiro...
Dá-me coragem pra subir a Ti!
O poeta, desde aí, desde maio de 1901, não mais abandona Franca. Em agosto publica a brochura "Faíscas"; apenas dois meses após, em outubro, vem a lume "Flores do Deserto, ambos editados pela Tipografia Espírita de Franca. Seus versos, políticos, líricos ou satíricos, são continuamente divulgados nos jornais da terra. Mas, ao mesmo tempo, Ygino envolve-se em confusões e arranja alguns inimigos que cultiva com visível prazer. Assim, é preso na cidade de Amparo porque, muito ébrio, queria por força que o delegado de polícia, Dr. João Guedes, comprasse um seu livro de poesias. Logo a seguir abre dura campanha contra a Santa Casa e principalmente contra seu zelador, Domingos, a quem acusa de "esmurrar os doentes" e até de "lhes negar água". Meses depois é surrado, a vassouradas, pela cozinheira Gregória, num restaurante da rua da Estação.
Parece que, sobranceiro, Ygino não se abala. E, com a pena satírica que de quando em quando brandia, continua a golpear um e outro. Todavia, prossegue encantando os francanos com líricos poemas que os jornais estampavam a toda semana. Embevecida, a cidade lê certa manhã, para memória até nossos dias, uns versos que - segundo se diz – teriam sido escritos de um jato, em mesa de botequim, a pedido de uma jovem, Joaninha, filha do dono do bar e que possuía na face uma delicada pinta preta:
A pinta preta que tu tens no rosto
É uma pinta mimosa e tão pequena,
Que te dá mais encanto e mais amena
Graça, qual nuvem leve em céu de agosto.
Faz um soldado abandonar seu posto,
Faz queimar-se na luz uma falena,
Invejam os anjos da mansão serena
A pinta preta que tu tens no rosto.
E eu imagino até, bela menina,
Que Deus de ti, um dia, enamorou-se
E chorou de pesar e de desgosto...
Chorou... e a branca lágrima divina,
Gota do céu, caindo, transformou-se
Na pinta preta que tu tens no rosto...
Entretanto, fazendo editar em São Paulo, nas oficinas gráficas Rosenhaim e Meyer, "Aerólitos"(livrinho de 25 páginas dedicado a Santos Dumont) e publicando em Franca outro festejado livro de poesia, "Trinos e Trenos", Ygino não deixa de dar asas às turbulências de seu espírito. A bengaladas, agride-o Elias Mota na rua do Comércio: Ygino, no inquérito, atribui isto a "boatos que correm na cidade a respeito de seu casamento com a mãe" de Elias Mota, mas desconversa, dizendo que não tem "a menor participação neste assunto". O agressor, no entanto, confirma que o móvel é realmente esse e que ele, de fato, se opõe ao matrimônio porque o poeta, "um homem que constantemente acha-se em estado de embriaguez", não está "na altura" de receber sua mãe.
Põe-se como feroz inimigo do Intendente municipal, o jornalista Álvaro Abranches Lopes, d'O Francano. Nesse período, certamente, já sofria a doença dos pulmões, agravada pela vida desregrada e pelo álcool.
E, ao meio desse turbilhão, casa-se com uma rica viúva, Maria Thereza Espíndola, bem mais velha que ele: era a sogra de Álvaro Abranches; era a mãe de Elias Mota...
Não há notícia de que o casamento, que não lhe deu filhos, tivesse trazido sossego à alma do poeta. Ygino continua a se crer um incompreendido – e, ante a dor da fria indiferença de que se supõe cercado, lamenta em tristes versos sua orfandade que "nenhum prazer (...) aquece". Mas, a isto, diz que reage:
Vingo-me, desprezando essa horda à toa,
Bebendo pinga, seja ruim ou boa,
Que não bebe por gosto quem padece
(“Dor e desprezo", Tribuna da Franca, 19.1.1904.
Meses após o casamento, inicia-se longa contenda entre Álvaro Abranches e Ygino, a respeito da tutela dos filhos menores de Maria Thereza, e da herança de um sobrado, no qual a filha mais nova, Sabina, teria parte.
Quintiliano Jardim, em visita a Franca, reencontra Ygino "muito magro, o rosto socavado, coberto de um livor esverdeado e os olhos com um brilho sinistro". Viu-o "tomando aguardente aos copos (...), longe dos fregueses, num canto, solitário e abandonado das gentes – como sempre ébrio, bastante ébrio e falando cavernosamente, arrastando as palavras". Não se reconheceram de pronto: do boêmio, a tuberculose "devastara horrivelmente o corpo, e transformação acentuada se fizera em sua fisionomia". Só a custo o chegante, que há dez anos fora seu editor, deu-se a conhecer àquele freguês de "casaco ensebado, puído nos cotovelos". O boêmio, continua ele, "levantou-se então, cambaleante, arrastando cadeiras, quebrando copos, e veio para mim abrindo os braços esqueléticos e compridos" para, logo a seguir, "com aquela sem-cerimônia que lhe afugentava os amigos" pedir ao jornalista um dinheiro: - "Passa-me uma de cinco aí, é para o vício".
Sobre esse Ygino, boêmio desmiolado, escreveu seu amigo Ricardo Paranhos, do jornal Goyaz e Minas, que "se o tico-tico lhe almoçasse o juízo" é bem certo "que o modesto e sóbrio animalzinho ficaria em jejum". É o mesmo Ricardo Paranhos quem noticia a publicação de mais um trabalho de Ygino: "Versos Diversos”. Segundo Paranhos, "o mimoso livrinho (...) prima, não só pela confecção typographica, que não póde ser mais caprichosa e artistica, como pelas preciosidades que enfeixa." (Cidade da Franca, 15.6.1905).
É de 1904 um poema em que Ygino traça a autobiografia poética:
Hoje
Aos doze anos amei e fui traído,
Aos quinze comecei de poeta o fado;
Chego aos dezoito... e fiz-me então soldado...
Aos vinte e três já era um foragido.
E do destino sempre perseguido,
Vivendo sempre a amar sem ser amado,
Agora aos trinta e dois eis-me chegado
E inda não sei p’ra que fui eu nascido!
E se do amor jamais banhou-me a espuma,
Fortuna nunca achei em parte alguma...
Não tenho amigos, nem do 'arame' a luz!...
E contudo o meu nome faz estrondo!
Serei muito feliz inda transpondo
Os trinta e três, a idade de Jesus!
A saúde, no entanto, a essa altura já dava mostras de que fugia do maltratado corpo do poeta. Várias notas nos jornais referem-se aos longos padecimentos pulmonares de Ygino.
Afinal, na fria e chuvosa tarde de 4 de julho de 1907, uma enorme multidão leva, da Santa Casa para o cemitério da Saudade, os restos mortais do desditoso poeta de 35 anos. A Banda do Grêmio executa a marcha fúnebre, composta por seu diretor para aquela ocasião. A Estudantina Francana comparece, trazendo seu estandarte com o sinal de luto. Uma "rica coroa" depositada sobre o caixão tinha os dizeres: "Recordação do Povo da Franca". É a Franca que se despede de Ygino Rodrigues, por certo recordando, comovida, sua "Última Súplica":
Quando, cansado da mundana lida,
Meus frios ossos entregar à terra,
Na sepultura que meu corpo encerra
Não quero pompas, ouropéis da vida!
Nem mesmo uma elegia dolorida,
Triste como um luar prateando a serra,
Não vá dos vermes perturbar a guerra
Sobre meu corpo na final jazida!
Escuta, ó Tu que foste meu querido
Amor, escuta o último pedido
Que venho te fazer, banhado em pranto:
Por mim ergue uma prece à Divindade,
Planta no meu sepulcro uma saudade,
Não te esqueças de mim que te amei tanto!
(O Francano, 5.7.1902).
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