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POR EM 22/06/2008 ÀS 05:02 PM

Eça de Queirós redescoberto

publicado em

Em vez de leitura fácil, o que se deveria fazer é ensinar aos jovens a ler livros difíceis. Porque, afinal, os fáceis lerão sem que ninguém os estimule. E, se não os lerem, também não vão perder nada

Por que ler Eça de Queirós (1844-1900), mais de um século depois de sua morte? Essa pergunta continua a ser feita hoje em dia nas escolas de ensino fundamental e médio por adeptos de um método pedagógico que se propõe a estimular os jovens à leitura. E não só Eça, mas boa parte dos autores clássicos portugueses e brasileiros. Esse método, que, ao que parece, faz muito sucesso, defende que se dêem livros de fácil leitura às crianças e aos adolescentes para que se habituem a ter um exemplar na mão por alguns minutos ou horas. 

O argumento é o mais risível possível: imaginam que, se a criança acabar por pensar que a literatura é algo divertido, pode se afeiçoar ao livro, embora o que as pesquisas têm constatado é que, hoje, os jovens passam muito mais tempo diante da Internet do que de um livro. É possível que sejam mais bem informados do que éramos há 40 ou 50 anos, mas, com certeza, são bem menos capazes de escrever um texto com coerência, objetividade e clareza do que éramos naquele tempo. Também é preciso avaliar a qualidade da informação que recebem pelo meio eletrônico.
 
É provável que este articulista venha a ser considerado um dinossauro da imprensa ou das letras, mas nem por isso vai deixar de escrever aqui que, em vez de leitura fácil, o que se deveria fazer é ensinar aos jovens a ler livros difíceis. Porque, afinal, os fáceis lerão sem que ninguém os estimule. E, se não os lerem, também não vão perder nada. Em outras palavras: é preciso ensiná-los a se interessar pela dificuldade, não pela facilidade. Portanto, em vez da leitura tosca de um desses esotéricos da vida, que leiam Eça de Queirós ou Machado de Assis (1839-1908). Ainda que por obrigação.
 
Com certeza, hão de argumentar que ler os clássicos pode ser tarefa muito aborrecida, pois, às vezes, é preciso ter um pesado dicionário à mão. Mas é aqui que entra em ação o bom professor. Se não for para explicar os clássicos ou estimular a leitura, enfim, ensinar, para que servirá o professor?
 
Foi para facilitar o trabalho do bom professor -- porque, certamente, o mau professor o que menos faz é ensinar, embora quase sempre se esconda atrás de uma personalidade extrovertida e espalhafatosa -- que Paulo Franchetti, professor titular do Departamento de Teoria Literária da Universidade de Campinas (Unicamp), e Leila Guenther, graduada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), prepararam uma nova edição de A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, que a Ateliê Editorial acaba de publicar.
 
Na apresentação que escreveu para esta obra, além de apresentar a história da produção e recepção da obra, Franchetti faz uma análise minuciosa e inovadora do romance. Já Leila Guenther procedeu a um extenso trabalho de anotação, relacionando preciosas indicações sobre os muitos instrumentos e inventos citados pelas personagens e incorporados ao dia-a-dia do nouveau rich Jacinto ao final do século XIX, bem como esclarecendo alguns vocábulos já em desuso no português falado hoje no Brasil, além de fornecer indicações sobre autores, pintores e personagens de livros que aparecem ao longo do romance. 
 
II 
 
Quando escreveu A Cidade e as Serras, Eça de Queirós já estava no fim de sua breve vida e, praticamente, consagrado como romancista, reconhecido e louvado por seus pares de Portugal e do Brasil, ainda que vivesse distante numa pequena casa dos Champs-Élysées em Paris, a uma época em que a Torre Eiffel já dominava amplamente o cenário da cidade-luz. Cuidava da revisão das provas tipográficas, mas não teve tempo de executar um trabalho que não se limitava a apurar frases ou eliminar hipotéticos erros de linguagem, mas sim fazer importantes ajustes, o que sempre o levava a modificar o manuscrito original. Àquela época, só diante do texto impresso é que o autor tinha uma visão mais completa de sua obra, o que o levava sempre a esses ajustes e, não raro, a acrescentar até capítulos inteiros.
 
No caso de A Cidade e as Serras, Eça de Queirós havia deixado o livro pronto até o capítulo IX. Com a morte repentina do autor, quem fez uma revisão radical na obra, a pedido da viúva, foi seu amigo Ramalho Ortigão (1836-1915), com quem colaborara em As Farpas, opúsculos de capa alaranjada que começaram a aparecer nas bancas e quiosques de Lisboa a 17 de junho de 1871.
 
Também o editor meteu-se a fazer cortes e adaptações, até que decidiu mandar de vez o livro à gráfica e colocá-lo, finalmente, nas livrarias, o que se deu em abril de 1901. Foi essa a versão que os contemporâneos de Eça conheceram, até que, em 1960, Helena Cidade Moura (1924), trabalhando com um autógrafo do autor, eliminou as contribuições de Ramalho Ortigão e as arbitrariedades cometidas por um editor nada ético.
 
Como observa Paulo Franchetti na apresentação, o trabalho de restauração preservaria até algumas inconsistências do manuscrito, como a troca de nomes de personagens e a falta de algumas palavras, esquecidas pelo autor no momento de passar para o papel o que lhe aflorava à mente.
 
Para Franchetti, que se deu ao trabalho de comparar as duas versões, a intervenção de Ramalho Ortigão também se mostrou desastrosa na medida em que tornou algumas frases menos precisas e o estilo menos coerente com a parte significativa do romance que havia sido revista pelo autor. 
 
III 
 
Portanto, esta não é a versão corrente do romance que ainda encontramos em livrarias. Nem é tampouco, claro, o livro que poderia ter sido se Eça tivesse tido tempo de revê-lo até o final. Mas é a versão que mais se aproxima dessa que teria sido a ideal.
 
Para quem ainda não o leu em nenhuma das duas versões, é preciso que se diga que o romance conta a história de Jacinto, jovem muito rico, de pais portugueses, que, nascido e vivendo em Paris, rodeia-se de tudo o que a civilização tinha de mais recente e promissor em termos de tecnologia e conhecimento. Enfim, um bon vivant, que não perdia uma festa de grã-finos e acompanhava durante o dia os seus muitos negócios espalhados pelo mundo.
 
Até que, um dia, entediado com tanto conforto, decide-se mudar para a zona rural, em busca de suas raízes, nas serras portuguesas. Surpreendido por um incidente de viagem, vê-se de repente sem o conforto e o aparato tecnológico a que se acostumara no berço da civilização. O resultado disso é um choque na vida de Jacinto: obrigado a colocar a mão na massa, como se diria hoje, acaba por descobrir a energia que tinha dentro de si. E vira Jacinto de Tormes.
 
Em outras palavras: o que Eça quis mostrar neste romance foi a supremacia da vida no campo em relação à vida na zona urbana, ainda que na principal cidade do mundo à época. Teria Eça, portanto, escrito um romance de tese que, segundo Massaud Moisés, constitui “uma narrativa que veicula uma doutrina, geralmente, explícita, tomada de empréstimo a uma forma de conhecimento não-estético, que o escritor encampa e luta por divulgar ou corporificar por meio de uma fabulação que lhe seja compatível” (São Paulo, Dicionário de Termos Literários, 14ª ed., Cultrix, 2004, pp. 405-406).
 
De certa maneira, em A Cidade e as Serras, Eça retoma, com a ambigüidade e a ironia que marcam sua obra, um tema recorrente em seus romances: a oposição entre metrópole e província, entre tradição e modernidade, entre o tédio da vida moderna (ou do “excesso de civilização”) e as “vantagens” da vida simples do campo, o que, aliás, já era uma idéia comum entre os antigos (locus amoenus).
 
Em sua apresentação, o professor Franchetti, porém, expõe vários argumentos para rebater a idéia de que A Cidade e as Serras seja um romance de tese, embora a história que seu narrador (Zé Fernandes) apresenta seja uma exposição e comprovação de uma tese. Ou melhor: a tese exposta no romance não é defendida nem pelo narrador nem pelo autor.
 
Portanto, diz o crítico, o que dá graça ao livro é exatamente a dificuldade do narrador em sustentar a sua tese, “já que ele mesmo não se mostra, na maior parte do livro, convencido de que o percurso de Jacinto seja de fato um exemplo digno de imitação”. Aliás, como observa, Zé Fernandes até a sua última viagem a Paris não parece convencido de que o amigo teria feito a melhor opção, ao isolar-se no mundo rural.
 
Mais: Zé Fernandes, diz Franchetti, não é apenas uma testemunha da história e da mudança de hábitos de Jacinto, mas também uma personagem que se transforma sob o efeito da evolução que narra e acompanha de perto. 
 
IV 
 
Visto assim, este romance adquire novas nuances para quem já o leu em outros tempos e indica outros caminhos a quem vai percorrê-lo pela primeira vez. Até porque, como o leitor já deve ter percebido por experiência própria, cada obra tem um impacto sobre nós em função da época em que a lemos. Quantos livros que nos encantaram na juventude que, hoje, relidos, já não parecem carregar o mesmo fascínio?
 
Lembra Franchetti que, durante a ditadura salazarista, A Cidade e as Serras foi elevado à condição de obra-prima de Eça, com certeza porque fazia loas à vida saudável no campo, enquanto o Eça incômodo, socialista e revolucionário de As Farpas era deixado prudentemente de lado. Hoje, sabemos que há livros em que o autor se saiu melhor. Mas, de qualquer modo, vale a pena reler este romance que, entre outras coisas, induz o leitor a imaginar como seria a vida de Jacinto na casa de número 202 da Avenida Champs-Élysées neste começo de século XXI, cercado por tudo o que a tecnologia poder-lhe-ia oferecer. 

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POR EM 22/06/2008 ÀS 04:25 PM

Rubem Braga - Um Cigano Fazendeiro do Ar

publicado em


O maior cronista brasileiro ganhou uma biografia à sua altura: Rubem Braga — Um Cigano Fazendeiro do Ar (Editora Globo, 2007, 610 páginas), do jornalista Marco Antônio de Carvalho. O autor escreveu a biografia e morreu, aos 57 anos. Uma das histórias mais extraordinárias é a paixão desmedida de
Rubem Braga pela atriz Tonia Carrero (contada entre as páginas 324 e 335).

Em 1947, enviado a Paris como correspondente de O Globo, Rubem, com a mulher, Zora, e os amigos Carlos Reverbel e a mulher deste, Olga, mora no apartamento onde morreu Marcel Proust.

Em Paris, encontra-se com Tonia Carrero, que ainda não tinha fama alguma e era casada com o desenhista Carlos Thiré. Este "não a levava a sério como atriz". Rubem avaliava que "o maior talento da amiga era antes de tudo estético: a beleza".

Mariínha, como Tonia era conhecida, cantava fados tropicais e, sobretudo, encantava a platéia de amigos, como Aníbal Machado, Rubem e Vinícius de Morais.

Nos passeios pelas ruas de Paris, Rubem elogiava a beleza de Tonia, fazia graça — "tenho muita amizade pelo seu joelho esquerdo" — e, aos poucos, ia conquistando a futura atriz. O marido implicou e disse que não queria ela saísse mais com o jornalista e escritor. Tonia chorou "copiosamente". Irritado, Thiré perguntou: "Ele é tão importante assim?" Conta Marco Carvalho: "Solitária, triste, sem ter o que fazer em Paris, Mariínha [ou Maricota, como a chamava Rubem] passou a sair ainda mais com Braga, este sempre atento a um novo corte de cabelo, uma nova fivela, uma cor rosada na face. E, certa vez, subindo as escadas de Saint-Germain, descobriu que não queria mais permanecer casada". Mulher tem mais olho para o detalhe do que homem. Rubem tinha um olhar feminino, digamos, mas com segundas intenções.

Decidida a abandonar Thiré, Tonia passou a se encontrar com Rubem "num hotelzinho, em um velho casarão discreto. (...) Um dia a concierge chamou-o a um canto: ´Não perca nunca essa mulher. Ela é bonita demais´".

Como Rubem era mulherengo e casado, Tonia decidiu romper: “Acho que nosso caso tem que acabar”. O escritor ameaçou matar-se sob as rodas dos automóveis de Paris. Optou por segui-la, acompanhando-a no navio de volta ao Brasil. Insistiu no reatamento, mas Tonia jogou duro. "Vou me jogar no mar!", gritou Rubem.

No Rio de Janeiro, Rubem não saía do pé de Tonia. "Ele era um Maria-vai-com-as-outras: queria companhia de mulher bonita, mas não era de casar com nenhuma. Como Vinícius, vivia apaixonado, mas, ao contrário deste, não gostava de se casar e de conviver. Se Rubem quisesse, eu me casaria com ele. Mas ele nunca quis", garante Tonia. O biógrafo, elegante, não chama Rubem de idiota.

O escritor certamente tinha medo de ganhar chifres do segundo mais belo animal do mundo — o primeiro, segundo Jean Cocteau, era Ava Gardner. Rubem adorava cantar as mulheres dos amigos. Estranhamente, Tonia ressalva: "O grande amor de Rubem foi Bluma Wainer". Rubem teve um caso com Bluma, pondo chifres no jornalista e empresário Samuel Wainer, seu amigo e, depois, inimigo, mas, quando a garota engravidou, o cronista fugiu para o Rio Grande do Sul.

Tonia rompeu a promessa de que não reataria com Rubem. Voltaram a se encontrar numa garçonnière do Leblon, do jornalista e crítico literário Franklin de Oliveira. "Ali se encontraram algumas vezes, sem que ela se sentisse plena, segura e feliz com o caso que se reiniciava. Tanto que propôs a Rubem que parassem de se encontrar, que voltassem a ser os amigos de sempre. Ele não aceitou: ´Venha mais uma vez. Só mais uma vez´. E Tonia, novamente, cedeu. O milagre, então, aconteceu e, dessa vez, ela voltou para casa sabendo que aquele amor, ou fosse lá o nome que fosse, era sério e que estava enredada". Mas, logo depois, caiu fora.

Apaixonado, Rubem produziu seu "Soneto": "E quando nós saímos era a Lua/Era o vento caído e o mar sereno/Azul e cinza-azul anoitecendo/A tarde ruiva das amendoeiras//E respiramos, livres das ardências/Do sol, que nos levara à sombra cauta/Tangidos pelo canto das cigarras/Dentro e fora de nós exasperadas//Andamos em silêncio pela praia/Nos corpos leves e lavados ia/O sentimento do prazer cumprido//Se mágoa me ficou na despedida/Não fez mal que ficasse, nem doesse/Era bem doce, perto das antigas".

"Tonia", diz Marco Carvalho, "não sabia bem o que fazer com aquele sentimento. Sabia apenas que não queria se tornar amante de um homem casado, por quem sentia amizade, carinho, adoração. E, pouco depois e mais uma vez, se despediu".

Mesmo casado, Rubem "exercia uma marcação individual e por zona, e exigia que os amigos avisassem assim que vissem Tonia solta ou assediada em algum bar ou restaurante: ´Era como um cão de guarda, possessivo e ciumento´".

Um dia, Tonia encantou-se pelo pintor platino-baiano Carybé e levou-o para sua casa. "Mas Tonia mal chegou a mostrar duas ou três belezas, enquanto bebericavam alguma coisa, quando ouviram batidas insistentes e nervosas na porta. Era Rubem. Silencioso e transtornado, ele nada disse. Carybé, por seu lado, levantou-se, despediu-se da mulher e saiu com o amigo, pedindo muitas desculpas — a ele. Um gesto inusitado: Carybé era temido pelos amigos por não respeitar a namorada de ninguém."

Certa vez, Rubem ligou para Tonia e ameaçou: "Abre a porta, senão eu vou me jogar no mar!" Não deu resultado. Então, o cronista foi para a porta do edifício e ficou andando na calçada, "caminhando para lá e para cá, bem visível, até que ela o recebesse".

A bela Tonia "abriu a porta. Rubem, trêmulo, desabou no choro, ela o acalmou — ´você está achando que eu nunca mais vou dar pra você?" —, conversaram um pouco, foram para a cama e, no dia seguinte, ela confirmou: ´Tá chato, Rubem. Não é mais a mesma coisa. Você tem que procurar outra mulher. Não quero ficar me encontrando assim, de vez em quando".

Decidida, Tonia não quis mais sair com Rubem. "E Rubem diria, durante anos, que no momento da separação, as mulheres são muito mais cruéis que os homens".

Mesmo admitindo que não teria mais Tonia em seus braços, Rubem continuou ciumento. "O tempo fez com que Rubem aceitasse a separação, mas seu sentimento de posse nunca desapareceu por completo: quase duas décadas depois, no Antonio´s, Tonia e Rubem conversavam calmamente — até que Paulo Pinho, casado com a atriz Djenane Machado, entrou e se dirigiu à mesa dos dois para dar um beijo na madrinha do seu casamento. Cumprimentou Rubem, sentou-se — e, a partir de então, este emudeceu, pediu sua conta e retirou-se, sem se despedir. E, mais tarde, quando revia Pinho, fingia que não o reconhecia."

Marco Carvalho conclui: "O fato é que Rubem, desde que conheceu Tonia Carrero e se envolveu com ela, nunca aceitou o fato de que a atriz não fosse sua mulher — ainda que, dubiamente, jamais propusesse a casar".

A versão de Tonia: "Uma vez, nos anos 1960, ele me levou ao aeroporto e me mostrou uma crônica linda, dizendo que tinha sido escrita pra mim. Eu nunca acreditei: ´Que nada, Rubem! Você escreve crônica pra todas as mulheres bonita que encontra! Pra mim, pra Lila Bôscoli, pra

Helena Sabino. Você adora mulher de amigo!´ Ele concordou: ´E eu vou me encantar com mulher de inimigo? Mulher de inimigo eu nem posso ver!´".


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POR EM 22/06/2008 ÀS 04:19 PM

Na estrada com detetives

publicado em

 

Com muito humor, ironia corrosiva e algum desespero, Roberto Bolaño faz o balanço de uma geração intelectual e discute a evolução da literatura na América Latina



Roberto Bolaño

 

 Adalto Alves 
   
Terminei de ler Os Detetives Selvagens, do chileno Roberto Bolaño. Uma pena. Estava muito bom. Esses livros grandes (mais de 600 páginas) costumam deixar saudade. A gente convive tempo demais com os personagens. Na hora da despedida, dá um nó na garganta. Bate uma vontade de que a história não acabe, de que ela continue pelo dobro de páginas. Principalmente quando, no fim, a vida dos personagens fica em aberto, como a nossa. Lembro que senti algo parecido em A Montanha Mágica, do Thomas Mann. Quando Hans Castorp desce do bendito sanatório é para lutar na guerra. Mann o abandona em pleno campo de batalha. Ficamos sem saber o que acontece com ele. Deve ter morrido. Mas quem pode afirmar que foi ali, naquele momento? Bolaño deixa seus personagens na estrada. Para onde eles vão? Como vão resolver suas pendengas? É como se ele dissesse: “daqui pra frente é com cada um de vocês, leitores. Quem quiser que continue”. Sacanagem. Mas a nossa vida é assim. A gente sabe que vai morrer. O que vamos fazer até a morte chegar é um mistério para todos. Temos o compromisso inadiável de escrever o roteiro de nossas vidas. Este é o sentido da frase de Sartre: “estamos condenados à liberdade”. O futuro é uma incerteza, uma página em branco que deve ser preenchida. Neste sentido, Os Detetives Selvagens é um romance existencialista. Os personagens estão meio à deriva. Eles não sabem exatamente o que fazer ou para onde ir, que direção imprimir à existência. O que não seria, assim, muito grave, se eles fossem europeus. Ser existencialista no velho mundo tem certo charme decadente. Duro é ser existencialista ou algo que o valha na América Latina. O charme deixa de ser decadente para se tornar suicida.    

Bolaño não fala muito em política e, a rigor, seus personagens têm preocupações estéticas, eminentemente literárias. Eles não estão muito interessados em derrubar a corja administrativa, mas em espezinhar o que consideram ser a corja poética do México. Uma profusão de nomes liderada, sem sombra de dúvidas, por Octávio Paz. Por que o grande teórico seria o alvo principal? Não vale a pena perder muito tempo à procura de respostas incisivas. O fato é que ele representa o status quo. Simples assim. Basta lembrar, em defesa da afirmação, que os principais personagens são jovens, muito jovens. Mesmo assim, os danados têm uma gama de leitura bastante extensa. Diga-se de passagem, de títulos que eles furtam em mega livrarias, o único esporte que praticam com imensa disciplina. Octávio é um símbolo a ser derrubado e substituído por uma nova (des) ordem, sem que isto signifique um projeto político, do modo como há um projeto de poder na carreira do professor Julio Matasanz, em Erec e Enide, último livro do espanhol Manuel Vázquez Montalbán, recentemente lançado no Brasil (pela Alfaguara). 

Não há projeto, mas apenas intenção, que não chega a ser sequer uma palavra de ordem. Os garotos não saberiam como derrubar Octávio e não saberiam o que colocar no seu lugar. Mas eles se rebelam, como se rebelam os garotos com alguma leitura. Criam um movimento. Eles se autodenominam poetas do realismo visceral. Ora, está na cara que Bolaño brinca com o clichê eternamente lançado sobre a literatura latino-americana como sua principal característica, o realismo mágico. O que seria o realismo visceral? Nenhuma explicação quanto ao tema. Podemos deduzir que se trata de agarrar a vida pelas entranhas. O movimento não tem sede, estatutos ou qualquer outro tipo de burocracia. Seus representantes são poetas que investem contra alvos flutuantes, que tampouco pertencem a outros movimentos definidos. Eles querem, presumo, se afirmar, na passagem para a vida adulta. O rito, em Bolaño, contraditoriamente, não pressupõe uma amostragem da produção criativa dos poetas. Todos eles escrevem, em maior ou menor escala, mas nem sempre o que escrevem é publicado e não nos é dado conhecer o que inventam. Não podemos, portanto, julgar a validade de suas propostas. O que seria, talvez, acadêmico demais para o gosto deles. Os real-visceralistas são antiacadêmicos, anti-teses, anti-monografias, anti-qualquer coisa que cheire a enquadramento hierárquico. Libertários, anárquicos ou expressões correlatas, de um esquerdismo de almanaque, seriam provavelmente recusados por eles. 

Os detetives selvagens buscam, na verdade, referências de uma poeta que fez parte de um grupo chamado realismo visceral. Sim, eles não são originais na escolha do nome. E agem por conta própria, sem nenhum propósito maior, a não ser descobrir o paradeiro de Cesárea Tinajero. Nesta investigação ociosa, o leitor acompanha os desdobramentos das vidas de Garcia Madero, Ulises Lima e Arturo Belano. Mais do que membros-fundadores dos real-visceralistas, representantes de uma geração que vira as costas para o ideário do pós-modernismo, da globalização, do liberalismo ou como queira chamar o ideário que identifica os vencedores na sociedade capitalista como aqueles que possuem as contas bancárias mais gordas, as propriedades mais vastas ou o dia-a-dia regido pelas responsabilidades advindas de um império financeiro. Os detetives selvagens não são executivos, não querem ser executivos e não sentem raiva de quem é executivo. Assim como não são comunistas, zapatistas, marxistas, guerrilheiros ou o raio que o parta em alguma facção maoísta. Não é isto que está em jogo, embora muitas leituras possíveis permaneçam reptícias, para quem quiser ler.         

Do mesmo modo que Bolaño parece desenhar uma biografia e uma geografia de sonho para seus andarilhos (“... como são falsos a maioria dos detalhes desta narrativa, concebida unicamente pelo prazer, pelo gosto de iludir”, dirá Georges Perec ao final de A Coleção Particular), num desassombro que poderíamos chamar de borgeano (talvez para brincar de realismo mágico), a constatação de que boa parte dos personagens é miserável, sem posses, fodida e mal paga atrela-se mais a uma espécie de condição particular de escolha do que a uma contingência material inapelável. Não se culpa o destino por nada. Aliás, faz-se o destino, apesar das circunstâncias. Nada impede que fulano e beltrano, a geração dos três patetas audazes, larguem o conforto esporádico e a família para atravessar fronteiras e oceanos, conforme salientou Allen Ginsberg no poema Uivo, “em busca de uma dose violenta de qualquer coisa”. E ainda que corra à boca pequena que Lima e Arturo não passam de solenes vagabundos que sobrevivem do tráfico de drogas, eles viajam por motivos mais nobres: um amor, uma paixão, uma experiência e até por ameaça. Sem luxo, sem excesso, sem garantia de nada. Para dar vazão a um desejo, e todo mundo sabe, desde Os Provérbios do Inferno, de William Blake, que é “melhor matar uma criança no berço que acalentar desejos insatisfeitos”. E, claro, para seguir as pistas de Tinajero.        

Pistas para entender seu romance, Bolaño dispara às pampas na segunda parte do livro, quando ele adquire o efeito de um canto coral. Se Mexicanos Perdidos no México e Os Desertos de Sonora são narrados por Madero, que logo nas primeiras linhas diz: “fui cordialmente convidado a fazer parte do realismo visceral. Claro que aceitei. Não houve cerimônia de iniciação. Melhor assim”, a segunda parte, que dá nome ao livro, é revestida por um sem número de depoimentos variados. São contos e mini-contos dispersos, soltos, aleatórios, alguns em seqüência episódica, outros como pontos de vista diferentes sobre o mesmo assunto, cheios de arestas, que levam a pensar num quebra-cabeça. O mosaico é composto de peças hilárias, surpreendentes, dramáticas. O tênue fio condutor é que todo mundo mais ou menos se conhece, se freqüenta, se perde, se reencontra e toca o barco da vida, do jeito que dá, por águas turvas. 

E se, na primeira parte, as peças-chaves são apresentadas ao leitor, na segunda, Bolaño assume todas as personalidades que sua imaginação permite conceber, sem freios, num efeito delirante. Na terceira, finalmente, o romance ganha os ares do mistério policialesco, com direito a uma explosão de violência. Porém, é ali nos desertos de Sonora que Os Detetives Selvagens paga seu tributo pop a uma tradição do gênero on the road. Depois de dizer que seus personagens são tão inconseqüentes quanto poderiam ser profundos e eruditos, Bolaño revela que, no fundo, ele queria mesmo era revitalizar o cenário beatnik. Quer saber? Da minha modesta posição no mundo, eu bato palmas em pé.   

 Os Detetives Selvagens


Trechos de Os Detetives Selvagens

Acordei em casa de Catalina O’Hara. Enquanto tomava o café da manhã, bem cedinho (María não estava, o resto da casa dormia), com Catalina e seu filhinho Davy, que ela precisava levar para o berçário, lembrei-me de que na noite anterior, quando só restávamos uns poucos, Ernesto San Epifanio dissera que existia literatura heterossexual, homossexual e bissexual. Os romances, geralmente, eram heterossexuais, já a poesia era absolutamente homossexual, os contos, deduzo, eram bissexuais, mas isso ele não disse.

Dentro do imenso oceano da poesia, [San Epifanio] distinguia várias correntes: bichonas, bichas, bicharocas, bichas-loucas, bonecas, borboletas, ninfos e bâmbis. Walt Whitman, por exemplo, era um poeta bichona. Pablo Neruda, um poeta bicha. William Blake era uma bichona, sem sombra de dúvida, e Octavio Paz, bicha. Borges era bâmbi, quer dizer, de repente podia ser bichona e de repente simplesmente assexuado. Rubén Dario era uma bicha-louca, na verdade a rainha e o paradigma de todas as bichas-loucas (...) Uma louca, segundo San Epifanio, estava mais próxima do hospício florido e das alucinações em carne viva, enquanto as bichonas e as bichas vagavam sincopadamente da Ética à Estética, e vice-versa. Cernuda, o querido Cernuda, era um ninfo e, em ocasiões de grande amargura, um poeta bichona, enquanto Guillén, Aleixandre e Alberti podia ser considerados bicharoca, boneca e bicha, respectivamente. Os poetas tipo Carlos Pellicer eram, via de regra, bonecas, enquanto poetas como Tablada, Novo, Renato Leduc eram bicharocas. (...)

O panorama poético, afinal de contas, era basicamente a luta (subterrânea), o resultado da pugna entre poetas bichonas e poetas bichas para se apropriarem da palavra. As bicharocas, segundo San Epifanio, eram poetas bichonas no sangue, que por fraqueza ou comodidade acatavam --se bem que nem sempre-- os parâmetros estéticos e vitais das bichas. [Na Itália], bichas feito Ungaretti, Montale e Quasimodo [rivalizam com] um poeta bichona feito Leopardi (...) Com Pavese não me meto, era uma bicha-louca triste, exemplar único em sua espécie, nem me meto com  Dino Campana, que come em mesa à parte, a mesa das bichas-loucas terminais.  


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POR EM 12/06/2008 ÀS 02:51 PM

Era uma vez

publicado em

John Lukacs não é apenas um historiador. É um grande contador de histórias (“O duelo Churchill x Hitler”; “Junho de 1941 – Hitler e Stálin”; “Churchill – Visionário. Estadista. Historiador”) e, às vezes, proseador de histórias sobre histórias, como em “O Hitler da História”.

Lukacs é elegante, quase pedante, chegando mesmo a forçar o texto para inserir frases e expressões de efeito como: “(...) lembra a conhecida criada irlandesa que, questionada pelos vizinhos se as fofocas sobre a jovem viúva do final da vila eram verdadeiras, respondeu: ‘Não são verdades, mas suficientemente verdadeiras’” (Junho de 1941).

Ele tem a percepção que a História (com H maiúsculo) é muito mais o resultado da visão, arrogância, capricho ou teimosia dos líderes do que de disputas entre esquemas ou sistemas de poder: “(...) a derrota final [de Hitler] pode ter sido predestinada por sua arrogância. Mas também, a arrogância é defeito mais de caráter do que de visão, e Hitler não era cego” (O Hitler da História).
 
Em O Duelo ele faz uma análise pouco convencional: “[eu tenho] um fraco pela cognomologia – isto é, pela misteriosa maneira por que o nome de uma pessoa se torna uma representação de seu caráter... o nome e o som de Hitler era enérgico, direto, decidido e frio. Possuía um tom cortante e gélido, e não só devido ao que passamos a associar a ele....Já Churchill...sua rabugice o torna humano e jocoso, em vez de clerical. A rabugice se dissolve, de forma afável na segunda sílaba. Essa sílaba final nada tem de indiferente. É curta, brilhante, o som primaveril de um córrego. O som do nome completo é tanto sério quanto jocoso: Churchill.”      
Mas há um livro duvidoso de Lukacs. Trata-se de “O fim de uma Era”. Nele, este húngaro naturalizado americano, se esforça para mostrar que a época iniciada 500 anos atrás já se esgotou. Ele chama este período da História de Era Européia, pois foi quando o Velho Continente expandiu-se geográfica e culturalmente pelo mundo e então, tivemos as Eras do Estado, do Dinheiro, da Indústria, da Família, da Privacidade, da Educação, entre outras. Todas estas, aliás, com fórmulas atualmente esgotadas, e que agora começam a ser engolidas por uma nova Era Global, difícil de ser ainda sentida em sua plenitude, mas muito presente nos sinais característicos de fim dos tempos que se aproximam.
De certa forma, aceito sua tese no geral, por exemplo, quando diz que aquilo que as pessoas pensam e acreditam é que determinam a organização material da sociedade e não o contrário, como as atuais “escolas” da história social (ou mesmo ambiental) nos tentam demonstrar com seus esquematismos de lutas de poder para implantação de impérios. Até aí, morreu o Neves. Mas quando Lukacs começa a falar de Darwin, Einstein e Freud, o resultado é desapontador.
Sobre as opiniões dele à cerca de Freud, este que vos escreve não dirá nada, pois a tradutora (Vera Ribeiro) já fez na página 120 numa nota de rodapé: “(...) O autor não parece ter-se aprofundado muito na teorização freudiana, mas como ele mesmo diz, essas questões não são de sua alçada”.
Mas ele acha que a teoria darwiniana é apenas teoria. Não é! Há outros exemplos, mas o mais famoso é o do casal Grant que viveu 30 anos nas Ilhas Galápagos, registrando todos os tentilhões que nasciam e, então foi capaz de quantificar as pequenas modificações entre os indivíduos, mostrar as vantagens evolutivas delas e constatá-las nas gerações seguintes (O bico do tentilhão, J. Weiner). Evolução e seleção natural são fatos.
Ele não concorda com a idéia de que as características adquiridas por um ser humano durante sua vida não podem ser herdadas e diz que a falha essencial do darwinismo é negar que exista alguma diferença fundamental, por mínima que seja em termos físicos, entre os humanos e os outros seres vivos.
Bem, o Sr. Lukacs não explica, mas será que ele acredita mesmo que Edinho adquiriu as características de seu pai Pelé, de treinar incessante e permanentemente? Não basta ter herdado parte do talento (desperdiçado por ele mesmo)? Lamarck foi um grande cientista mas mesmo na época dele ninguém acreditava muito em caracteres adquiridos e a história da girafa esticando pescoço. Também nunca vi ninguém dizer que não exista uma diferença mínima entre um homem e um chimpanzé. É claro, as bases nitrogenadas do DNA tem mesma forma, etc... mas cada espécie tem seu próprio desenvolvimento. Elementar meu caro, Lukacs.
Há uma frase que Lukacs gosta de usar em seus livros e que neste caso, cabe como uma luva para ele mesmo. É aquela na qual Sheridan diz a um colega da Câmara dos Comuns: “Ele disse coisas verdadeiras e novas, mas, infelizmente, o que era verdadeiro não era novo, e o que era novo não era verdadeiro”.

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POR EM 20/05/2008 ÀS 11:42 AM

1808: O ano que não terminou

publicado em

Na lista de best-sellers há algum tempo, “1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil” do jornalista Laurentino Gomes (Editora Planeta), é delicioso e fácil de ler.
 
Neste artigo, destaco alguns trechos mostrando que ainda estamos dormindo no berço esplêndido dos costumes, vícios e manias daquela época. Entre parênteses o número da página do livro de L. Gomes, pra confirmação da veracidade de minha leitura dinâmica.
 
Em 1807 Portugal era muito atrasado e pobre. Tinha pouca gente, dependia de escravos e das veias abertas das colônias. Os portugueses não gostavam do tal progresso e só queriam saber de ir à missa. É sério! Dez por cento dos portugas eram padres, freiras ou simpatizantes (p. 58). Só os sortudos dos cassinos, os herdeiros (p.60) e os vendedores de velas e terços ficavam ricos. O território da nação portuguesa só se agüentava por que a corte puxava o saco da Inglaterra (p.65-66).
 
Entre 10 e 15 mil pessoas vieram pro Brasil junto com D.João VI, fugindo das tropas de Napoleão, que chegaram depois pregadas e famélicas à Lisboa (p. 306). Mesmo o pobre exército brancaleone e lusitano, venceria fácil, fácil.
 
A viagem foi terrível (p.97). Gente demais nos barcos, que eles até pareciam os aeroportos no Brasil, no final de 2006. Coisa de terceiro mundo! D. João raspou os cofres quando saiu de Portugal (p. 75) e depois, quando voltou pra lá (p.321). Pelo menos no quesito limpeza de cofres ele foi um rei asseado.
 
Antes de chegar ao Rio de Janeiro, o navio de D. João passou por Salvador que tinha uma paisagem linda de longe, mas quando se chegava perto era um horror com suas “casas repugnantemente sujas” (p.115). Na Bahia, o príncipe regente abriu os portos para os ingleses (os americanos da época) e participou de inúmeras festas e celebrações, mesmo sem Ivete Sangalo. Também não se menciona se ACM já estava por lá. Devia estar, como ainda hoje....
 
Em 1808, o Brasil ainda era um território com poucas cidades espalhadas no meio da mata. Por exemplo, a vila de Itu a 100 km de São Paulo era conhecida como a boca do sertão (p. 122). Tenho um amigo da capital paulista que acha que depois da longínqua Osasco, tudo é Mato Grosso. Paulistano é chato.
 
Se existissem em 1808, os telejornais mostrariam que a saúde no Brasil se encontrava em estado de penúria e que havia problemas com a qualidade do atendimento médico (p.123 e 166). Porém ninguém falava de dengue ou febre amarela....
 
Florianópolis era a cidade que “proporcionava agradável retiro a aposentados (...) que tendo assegurado sua independência, procuram apenas lazeres para desfrutá-la” (p.127). Concordo com gênero, número e grau com este viajante de 200 anos atrás.
 
O coração econômico da colônia pulsava entre MG, SP e RJ (p. 129). Um economista que vivesse duzentos anos, diria que o Brasil é um grande tédio.
 
O Correio Braziliense, primeiro jornal brasileiro, era impresso em Londres para fugir à censura (p. 135), mas já recebia um jabá da coroa pra maneirar nas críticas. No futuro D.Pedro I, nomearia o proprietário, Hipólito José da Costa, como agente diplomático do Brasil na Inglaterra. Hipólito, então, tornou-se o primeiro Chateaubriand do país! Não tenho certeza se usava a cartola ou se presenteara a rainha com um colar que nunca foi pago. Este país tem cada uma (aliás, aquele livro do Fernando Moraes é demais, não?).
 
A família real era um “povinho feio”! D. João era gordo e seboso. Carlota Joaquina e suas filhas eram ossudas e chegaram carecas para diminuir os piolhos durante a viagem. No outro dia as peruas da high society tupiniquim cortaram os cabelos bem curtos, pensando ser a última moda na Europa (p.145). Te contei não menina?
 
A corte era arrogante, prepotente e caloteira (p.149). Os impostos aumentaram tremendamente para sustentar estes parasitas. E assim, o príncipe regente poderia ter sido galantemente nomeado: D. João, o Leão do Imposto de Renda.
 
“A limpeza do Rio de Janeiro era confiada aos urubus” (p.157) e mesmo as famílias mais ricas tinham péssimos hábitos.
 
D. João era o que foi mostrado no filme da Carla Camurati: doente, depressivo, feio, medroso, relutante e ainda colocava gordurosas coxas de frango nos bolsos da casaca real (p.169). Provavelmente tinha um caso homossexual com seu camareiro (era sem imaginação, também). Já Carlota Joaquina era golpista, conspiradora, queria ela mesma dominar o reino, depois tentou emplacar um dos seus filhos, mas sempre sem sucesso (p.179). É provável que não fosse promíscua como no filme que leva seu nome, pois era muito feia para encontrar amantes.
 
A corrupção corria solta na corte  com “burocratas” enriquecendo rapidamente (p.191). Caixa dois e recursos não contabilizados eram moda e até motivo de piada, música e poesia (p.195). Era fácil comprar títulos de nobreza. D. João os vendia à qualquer um que doasse dinheiro à ele (p. 200). Isto é a cara do nosso país, né não?
 
Esta é para os amigos da Revista Bula. Nos freqüentes relatos dos viajantes fala-se muito sobre o analfabetismo e a falta de cultura geral do Brasil. Um deles, profético, escreveu: “O Brasil não é lugar de literatura” (p.269).
 
E apesar de tudo os historiadores acham que se D.João não viesse ao Brasil, o país hoje não existiria, dando lugar a inúmeros pequenos países na região (p.327). Teria sido melhor? Impossível responder. Seria pior? Parece difícil, mas da mesma maneira como nada é tão bom que não possa melhorar, nada é tão ruim que não possa piorar.

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POR EM 06/04/2008 ÀS 03:57 PM

O Poeta malogrado

publicado em


Poeta goiano quase desconhecido, nascido na antiga Vila Boa e que morreu há mais de 100 anos, em Franca, São Paulo, tem parte de sua obra resgatada em livro. O professor e juiz de direito Carlos Alberto Bastos de Matos, que morreu em 2004, vasculhou arquivos de cidades paulistas e mineiras e reconstituiu a atribulada biografia do poeta 



Carlos Alberto B. Matos
 
“Eginio Venancio”.Este haveria de ser na verdade o nome de quem afinal se consagrou, após curta e atribulada existência, como o inspirado poeta “Ygino Rodrigues”.

Seu pai, Salvador José Venâncio, emigrado da Bahia para a cidade de Goiás, aí casou-se em 12 de maio de 1867 com Luiza Alves Barboza. Nasceu o poeta a 11 de janeiro de 1872, sendo seu padrinho Thomas Rodrigues da Fonseca. Há, pois, de ter sido do padrinho que Ygino herdou o sobrenome “Rodrigues”. E isto era, na época, costume comum entre gente simples.

Filho de família humilde, não foram certamente de muito conforto seus primeiros anos às margens do rio Vermelho, na antiga Villa Boa. Aliás, as próprias condições da então capital da província de Goiás eram, naqueles tempos, de todo desfavoráveis.

Um século mais tarde, traçando a biografia de quem já então era o patrono da cadeira nº 24 da Academia Goiana de Letras, Humberto Crispim Borges conta que Ygino, sob a proteção de seu padrinho Thomas Rodrigues da Fonseca, iniciou o estudo das primeiras letras em 1879. Em 1884, revelando inteligência incomum, ingressou no “Lyceu de Goiaz”, que concluiu em 1888. No ano seguinte assentou praça no 20º Batalhão da Infantaria, mas dois anos depois, em 1891, deixou as fileiras do Exército, passando a colaborar ativamente, em 1892 e 1893, na Gazeta de Goiás, do monsenhor Inácio Xavier da Silva. Também publicou poemas
em O Goiás e no Jornal de Goiás. Em 1894, desgostoso, retirou-se da modorrenta Goiás. Sua mudança de Goiás deveu-se, certamente, a seu irrequieto espírito, a seus anseios de vôos altos noutros lugares. Havia de ter consciência de seus dotes de jornalista e de seu valor como poeta, que não haveriam de permanecer confinados nos limites estreitos da terra que o vira nascer.

Ei-lo então em Uberaba, acolhido por Quintiliano Jardim, diretor do” Lavoura e Comércio” e proprietário da Tipografia Jardim, onde é impresso o primeiro livro de Ygino, "Dinamites"( publicado em três volumes , era dedicado à memória de Floriano Peixoto, por quem ele tinha uma admiração fanática). Mais tarde, em 1908, já morto Ygino, o jornalista lembrava que ele lhe chegara do “Goiás tropical, trazendo o cérebro ardendo em fantasias e o coração aflorado de esperanças, fantasias, falenas doiradas que espalhava a mãos cheias numa prodigalidade nababesca por jornais e folhetos; esperanças, minaretes aurilavrados erguidos nos seus sonhos de poeta...”.

Irrequieto, Ygino segue para o Rio de Janeiro, onde trabalha como redator de O Nacional e onde, no ano de 1895, imprime "Pampeiros", em edição da Tipografia da Papelaria Ribeiro. Pouco depois, todavia, já está
em São Paulo, tentando levar adiante um pequeno jornal, A Mogyana, de curta e intermitente vida. 

Afinal, em meados de 1901, surge em Franca. E surge fulgurante, publicando no Sétimo Districto de 26 de maio dois sonetos que fazem imediata fama: "Flor de Maio" e este "Ato de Contrição":
 
Eu sei que Deus que é bom, que é Infinito,
Há de lenir-me o sofrimento, em breve,
E hei de ficar tão puro, como a neve,
Pelo perdão que peço-lhe contrito
 
Eu sei que Deus escuta a voz do aflito
E violar seu poder ninguém se atreve;
Minha alma subirá qual pena leve,
Pois eu creio em Jesus e no seu rito!
 
Arranca-me, Senhor, deste planeta
Onde arrasto duríssima grilheta,
Onde, em seis lustros, quase não vivi!...
 
Dá-me forças no transe derradeiro,
Como as tiveste embaixo do madeiro...
Dá-me coragem pra subir a Ti! 

O poeta, desde aí, desde maio de 1901, não mais abandona Franca. Em agosto publica a brochura "Faíscas"; apenas dois meses após, em outubro, vem a lume "Flores do Deserto, ambos editados pela Tipografia Espírita de Franca. Seus versos, políticos, líricos ou satíricos, são continuamente divulgados nos jornais da terra. Mas, ao mesmo tempo, Ygino envolve-se em confusões e arranja alguns inimigos que cultiva com visível prazer. Assim, é preso na cidade de Amparo porque, muito ébrio, queria por força que o delegado de polícia, Dr. João Guedes, comprasse um seu livro de poesias. Logo a seguir abre dura campanha contra a Santa Casa e principalmente contra seu zelador, Domingos, a quem acusa de "esmurrar os doentes" e até de "lhes negar água". Meses depois é surrado, a vassouradas, pela cozinheira Gregória, num restaurante da rua da Estação.

Parece que, sobranceiro, Ygino não se abala. E, com a pena satírica que de quando em quando brandia, continua a golpear um e outro. Todavia, prossegue encantando os francanos com líricos poemas que os jornais estampavam a toda semana. Embevecida, a cidade lê certa manhã, para memória até nossos dias, uns versos que - segundo se diz – teriam sido escritos de um jato, em mesa de botequim, a pedido de uma jovem, Joaninha, filha do dono do bar e que possuía na face uma delicada pinta preta:
 
                            A pinta preta que tu tens no rosto
                            É uma pinta mimosa e tão pequena,
                            Que te dá mais encanto e mais amena
                            Graça, qual nuvem leve em céu de agosto.
 
                            Faz um soldado abandonar seu posto,
                            Faz queimar-se na luz uma falena,
                            Invejam os anjos da mansão serena
                            A pinta preta que tu tens no rosto.
 
                            E eu imagino até, bela menina,
                            Que Deus de ti, um dia, enamorou-se
                            E chorou de pesar e de desgosto...
 
                            Chorou... e a branca lágrima divina,
                            Gota do céu, caindo, transformou-se
                            Na pinta preta que tu tens no rosto... 

Entretanto, fazendo editar
em São Paulo, nas oficinas gráficas Rosenhaim e Meyer, "Aerólitos"(livrinho de 25 páginas dedicado a Santos Dumont) e publicando em Franca outro festejado livro de poesia, "Trinos e Trenos", Ygino não deixa de dar asas às turbulências de seu espírito. A bengaladas, agride-o Elias Mota na rua do Comércio: Ygino, no inquérito, atribui isto a "boatos que correm na cidade a respeito de seu casamento com a mãe" de Elias Mota, mas desconversa, dizendo que não tem "a menor participação neste assunto". O agressor, no entanto, confirma que o móvel é realmente esse e que ele, de fato, se opõe ao matrimônio porque o poeta, "um homem que constantemente acha-se em estado de embriaguez", não está "na altura" de receber sua mãe.

Põe-se como feroz inimigo do Intendente municipal, o jornalista Álvaro Abranches Lopes, d'O Francano. Nesse período, certamente, já sofria a doença dos pulmões, agravada pela vida desregrada e pelo álcool.

E, ao meio desse turbilhão, casa-se com uma rica viúva, Maria Thereza Espíndola, bem mais velha que ele: era a sogra de Álvaro Abranches; era a mãe de Elias Mota...

Não há notícia de que o casamento, que não lhe deu filhos, tivesse trazido sossego à alma do poeta. Ygino continua a se crer um incompreendido – e, ante a dor da fria indiferença de que se supõe cercado, lamenta em tristes versos sua orfandade que "nenhum prazer (...) aquece". Mas, a isto, diz que reage:
 
Vingo-me, desprezando essa horda à toa,
Bebendo pinga, seja ruim ou boa,
  Que não bebe por gosto quem padece

              (“Dor e desprezo", Tribuna da Franca, 19.1.1904. 

Meses após o casamento, inicia-se longa contenda entre Álvaro Abranches e Ygino, a respeito da tutela dos filhos menores de Maria Thereza, e da herança de um sobrado, no qual a filha mais nova, Sabina, teria parte.

Quintiliano Jardim, em visita a Franca, reencontra Ygino "muito magro, o rosto socavado, coberto de um livor esverdeado e os olhos com um brilho sinistro". Viu-o "tomando aguardente aos copos (...), longe dos fregueses, num canto, solitário e abandonado das gentes – como sempre ébrio, bastante ébrio e falando cavernosamente, arrastando as palavras". Não se reconheceram de pronto: do boêmio, a tuberculose "devastara horrivelmente o corpo, e transformação acentuada se fizera em sua fisionomia". Só a custo o chegante, que há dez anos fora seu editor, deu-se a conhecer àquele freguês de "casaco ensebado, puído nos cotovelos". O boêmio, continua ele, "levantou-se então, cambaleante, arrastando cadeiras, quebrando copos, e veio para mim abrindo os braços esqueléticos e compridos" para, logo a seguir, "com aquela sem-cerimônia que lhe afugentava os amigos" pedir ao jornalista um dinheiro: - "Passa-me uma de cinco aí, é para o vício".
 

Sobre esse Ygino, boêmio desmiolado, escreveu seu amigo Ricardo Paranhos, do jornal Goyaz e Minas, que "se o tico-tico lhe almoçasse o juízo" é bem certo "que o modesto e sóbrio animalzinho ficaria em jejum". É o mesmo Ricardo Paranhos quem noticia a publicação de mais um trabalho de Ygino: "Versos Diversos”. Segundo Paranhos, "o mimoso livrinho (...) prima, não só pela confecção typographica, que não póde ser mais caprichosa e artistica, como pelas preciosidades que enfeixa." (Cidade da Franca, 15.6.1905).

É de 1904 um poema
em que Ygino traça a autobiografia poética:
 
Hoje
 
Aos doze anos amei e fui traído,
Aos quinze comecei de poeta o fado;
Chego aos dezoito... e fiz-me então soldado...
Aos vinte e três já era um foragido.
 
E do destino sempre perseguido,
Vivendo sempre a amar sem ser amado,
Agora aos trinta e dois eis-me chegado
E inda não sei p’ra que fui eu nascido!
 
E se do amor jamais banhou-me a espuma,
Fortuna nunca achei em parte alguma...
Não tenho amigos, nem do 'arame' a luz!...
 
E contudo o meu nome faz estrondo!
Serei muito feliz inda transpondo
Os trinta e três, a idade de Jesus!
 

A saúde, no entanto, a essa altura já dava mostras de que fugia do maltratado corpo do poeta. Várias notas nos jornais referem-se aos longos padecimentos pulmonares de Ygino.

Afinal, na fria e chuvosa tarde de 4 de julho de 1907, uma enorme multidão leva, da Santa Casa para o cemitério da Saudade, os restos mortais do desditoso poeta de 35 anos. A Banda do Grêmio executa a marcha fúnebre, composta por seu diretor para aquela ocasião. A Estudantina Francana comparece, trazendo seu estandarte com o sinal de luto. Uma "rica coroa" depositada sobre o caixão tinha os dizeres: "Recordação do Povo da Franca". É a Franca que se despede de Ygino Rodrigues, por certo recordando, comovida, sua "Última Súplica":
 
Quando, cansado da mundana lida,
Meus frios ossos entregar à terra,
Na sepultura que meu corpo encerra
Não quero pompas, ouropéis da vida!
 
Nem mesmo uma elegia dolorida,
Triste como um luar prateando a serra,
Não vá dos vermes perturbar a guerra
Sobre meu corpo na final jazida!
 
Escuta, ó Tu que foste meu querido
Amor, escuta o último pedido
Que venho te fazer, banhado em pranto:
 
Por mim ergue uma prece à Divindade,
Planta no meu sepulcro uma saudade,
Não te esqueças de mim que te amei tanto!
(O Francano, 5.7.1902).  

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POR EM 26/03/2008 ÀS 06:01 PM

Preparando-se para Os Demônios

publicado em

Foi em abril de 1849 que Dostoiévski e outras 27 pessoas foram presas acusadas de conspiração contra o czar Nicolau I da Rússia. Sim, ele tinha lá sua culpa, pois um ano antes, o aclamado autor de Gente Pobre (1846), passara a se reunir na casa de Petrachévski para discutir temas censurados na imprensa russa: as recentes transformações liberais da Europa, a eficácia de alguns sistemas socialistas e o fim da servidão dos camponeses, este último, o assunto preferido de Dostoiévski.
 
A eloqüência usada por Dostoiévski, quando se referia às “intoleráveis injustiças contra o povo russo”, fez com que Spechniev, também membro do círculo de Petrachévski, o convidasse para outras reuniões com o objetivo de organizar ações mais práticas na luta contra o autoritarismo. Dostoiévski empolgou-se com a fala, o cavalheirismo e o dinheiro emprestado de Spechniev, a quem chamou uma vez de “meu Mefistóteles”, e passou a integrar um grupo seleto para discutir tais “atitudes”. Foram presos três meses depois.
 
Em 16 de novembro do mesmo ano, Dostoiévski e outros 14 foram condenados à execução por um pelotão de fuzilamento. Porém, apelando à clemência do czar, a pena foi transformada em 8 anos de trabalhos forçados, mas não sem um capricho do magnânimo Nicolau I: que se procedesse à simulação da execução e apenas depois os prisioneiros seriam informados do perdão imperial.
 
Aí a história é mais conhecida: na manhã de 22 de dezembro os prisioneiros foram retirados de suas celas e levados à Praça Semenóvski (São Petersburgo) cercada por tropas militares e uma multidão silenciosa. A alegria do reencontro com os “bons companheiros”, depois de exatos oito meses isolados, foi substituída pela incredulidade, naquele dia frio com neve aos joelhos, ao ouvirem a sentença de fuzilamento. Enquanto tinham que vestir a própria mortalha, um padre pedia-lhes que se arrependessem, mas ninguém lhe deu bola se limitando a beijar o crucifixo que o sacerdote oferecia (incluindo os ateus de carteirinha).
 
Três deles – Petrachévski, Monbelli e Grigóriev - foram então amarrados aos postes, ao mesmo tempo em que o pelotão de fuzilamento preparava-se. Pode parecer inacreditável, mas um dos que esperava na fila - Lvov - parece realmente ter gritado: “Ô Monbelli, segura bem alto suas pernas, senão chegarás gripado ao reino dos céus”. Não se sabe se alguém riu.
 
Depois de um minuto interminável, o pelotão recebeu ordem para baixar armas. Se o oficial da guarda czarista, fosse um similar de Lvov diria algo como: “Brincadeirinha! Vai todo mundo quebrar gelo na Sibéria”. Avisados da comutação da pena, uma espada foi quebrada na cabeça de cada um dos prisioneiros, simbolizando a exclusão da vida civil, e os grilhões foram colocados em seus pés, representando o passaporte pra Sibéria.
 
Grigóriev não suportou esta experiência e sucumbiu à um torpor mental até sua morte anos depois. Dostoiévski imortalizou o dia “mais feliz de sua existência”, palavras dele que se sentia lisonjeado com a dádiva da vida, quando descreveu os sentimentos de um condenado, momentos antes da execução, em seu romance O Idiota (1868). Esta experiência, juntamente com os anos de exílio, fez nascer pra valer um dos mais importantes romancistas da humanidade (senão o principal).
 
O conhecimento das idéias socialistas e das pessoas que atuavam nestes círculos, geralmente letrados, ateus, niilistas ou revolucionários, bem como um caso de “queima de arquivo” numa organização clandestina em 1869, foram a base de seu romance-panfleto Os Demônios de 1871. Falarei dele semana que vem e de sua premonição aos feitos terroristas da época atual. 

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POR EM 18/03/2008 ÀS 01:25 PM

O homem sem qualidades

publicado em

por Marcelo Backes

Em agosto de 1913, momento em que a ação do romance principia, Ulrich - o homem sem qualidades - tem 32 anos. Ele faz três grandes tentativas de se tornar um homem importante. A primeira delas é na condição de oficial, a segunda no papel de engenheiro (vide a carreira do próprio Musil) e a terceira como matemático, exatamente as três profissões dominantes - e mais características - do século 20. Os três ofícios são essencialmente masculinos e revelam o semblante de uma época regida pelo militarismo, pela técnica e pelo cálculo que, juntos, acabariam desmascarando o imenso potencial autodestrutivo da humanidade. Depois das três grandes tentativas, Ulrich reconhece que o possível significa, para ele, muito mais do que o real, sempre estereotipado, medíocre e esquemático.

Ulrich - cujo sobrenome é omitido "em consideração a seu pai" -, chegou a se chamar Aquiles, mais tarde Anders (o diferente), e mesmo o título do romance de Musil mudou várias vezes antes da publicação, passando de O espião a O salvador (Der Erlöser) e As gêmeas, títulos que assim como aquele que acabou se impondo dizem muito sobre o romance. O relato acerca da busca "desencantada" de Ulrich lembra a velha busca - ainda sagrada - do Santo Graal. Ulrich quer compreender o "motivo e o mecanismo secreto" de uma realidade que desmorona e para isso se retira à passividade de uma postura apenas contemplativa, que marca também a postura do autor e a postura do romance.

Ulrich se sente um homem sem qualidades porque o mundo contemporâneo inverteu os princípios do humanismo e colocou a matéria no centro da realidade moderna. Na verdade, Ulrich via em si todas as qualidades e capacidades privilegiadas por sua época - exceto a de ganhar dinheiro, da qual também não necessitava -, mas foi obrigado a constatar que a possibilidade de aplicá-las já havia lhe escapado às mãos. "Surgiu um mundo de qualidades sem homem, de vivências sem aquele que as vive" e, assim, o personagem se vê confrontado com as contradições centrais do universo contemporâneo: a luta entre causalidade e analogia, entre crença na ciência e pessimismo cultural, entre lógica e sentimento, em suma. No fim, o que resta é a impossibilidade de perpetuar a reconciliação entre eu e mundo, de consumar a "entrada no paraíso", a ataraxia de Schopenhauer, a placidez ausente de vontade e busca da vita contemplativa.

Todos os personagens de O homem sem qualidades apenas são importantes na medida em que se relacionam com Ulrich, na medida em que são, inclusive, superfícies nas quais ele mesmo se espelha. Todos eles não deixam de configurar, de certo modo, possibilidades e aptidões do próprio Ulrich. Mesmo o assassino de prostitutas Moosbrugger, o símbolo central do descalabro em que se encontra o mundo, é um espelho no qual Ulrich se vê refletido, já que os delírios do homicida não deixam de ser variações extremas das experiências de Ulrich em relação àquela que chama de "outra condição" (anderer Zustand), de sua busca incansável da liberdade do disparate e da vivência original, paradisíaca. Na segunda parte do romance, aliás, Ulrich passa a vivenciar cada vez mais situações de enlevo quase sobrenatural, em que já não logra mais distinguir os limites espaciais e temporais do mundo que o envolve. Mais tarde Ulrich inclusive tenta a "outra condição" junto com Agathe, sua irmã, a "duplicação assombreada de si mesmo na natureza oposta". O amor mítico-incestuoso entre os dois constitui uma das mais belas e dolorosas histórias de amor da literatura universal.


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