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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:23 PM

Lista de compras

publicado em

Entre os dias 19 e 30 de maio de 2008 foi perguntado a 200 estudantes de letras de 10 universidades: Quais eram os melhores livros, de autores brasileiros, em todos os tempos? Cada participante poderia indicar um número máximo de 10 livros, podendo inclusive, indicar mais de um livro de um mesmo autor. Participaram da pesquisa alunos do curso de letras da UFG, UNB, UCG, UEG, UNIP, UFRGS, UFRGS, UFRJ, USP. A pesquisa foi feita pelo Laboratório de Pesquisas de Opinião Pública e de Mercado e não tem valor científico.  

Macunaíma, de Mário de Andrade é o melhor livro da história da literatura brasileira

Listas
de “melhores livros de todos os tempos” não diferem radicalmente das quase sempre infames listas dos “melhores filmes de todos os tempos”. Para julgá-las é preciso ter em mente dois critérios básicos: as ausências óbvias e os absurdos ululantes. A lista de “melhores livros de autores brasileiros de todos os tempos” divulgada pelo Laboratório de Pesquisas de Opinião Pública e de Mercado não foge à regra. Apresenta sua previsível carga de ausências óbvias e absurdos ululantes, além de carregar em si a marca inegável do público opinante: estudantes de Letras.
           
A pergunta foi “quais os melhores livros de autores brasileiros de todos os tempos?”. Analisando o resultado final, ficamos imaginando que o Brasil só produziu ficcionistas e poetas de qualidade, nenhum ensaísta. Até onde entendo, a palavra “autor” indica quem escreve, não necessariamente quem produz literatura. Neste sentido, podemos indicar como “ausências óbvias” ensaios geniais como Casa-grande & Senzala e Visão do Paraíso. Ainda mais estranhamente, não foi classificado àquele que talvez seja o maior livro já escrito no Brasil, em qualquer gênero, Os Sertões: um ensaio que costuma ser classificado como alta literatura.
           
Aprofundando um pouco mais, a lista sugere, equivocadamente, que o Brasil é o país dos ficcionistas. Das dez obras mais votadas, nove são de ficção, sendo sete romances e dois volumes de contos. Apenas um livro é de poesia. E mesmo o único poeta lembrado é questionável. Será Ferreira Gullar superior a João Cabral de Melo Neto, Drummond ou Manuel Bandeira? Estranho! Gullar, um bom poeta, só poderia entrar numa lista de dez se a pergunta fosse “quais os maiores livros de escritores brasileiros vivos?”.
           
Não concordo com Macunaíma no primeiro lugar, mas é um resultado aceitável, dada a importância histórica do livro e, sobretudo, do autor. O que não acontece com a bizarrice que é termos A Paixão Segundo G.H. na frente de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Sem discutir os inegáveis méritos de Clarice Lispector, que merece estar na lista, seu imenso número de votos só pode ser explicado pela “moda Lispector” que tem acometido os leitores jovens nos últimos anos. Aliás, onde está Dom Casmurro? Os estudantes de letras se cansaram de discutir o enigma da Capitu e resolveram boicotar o melhor livro de Machado de Assis?
           
Acho que a grande surpresa é a presença de Ariano Suassuna, com O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta. E não deixa de ser curioso o fato do popularíssimo O Auto da Comparecida não ter sido lembrado. Provavelmente, os estudantes de Letras consultados não estavam no primeiro período.
           
Quais seriam os absurdos ululantes? Em minha humilde opinião, O Vampiro de Curitiba é o ponto baixo da lista. Também questiono a presença de Os Cavalinhos de Platiplanto. J. J. Veiga, apesar de não ser um bom romancista, escreveu contos seminais, como A Máquina Extraviada, mas não me parece que tenha lugar entre os dez brasileiros de todos os tempos. Rubem Fonseca ou Lima Barreto poderiam facilmente ocupar seu lugar. Mesmo em Goiás, considero Bernardo Élis superior.
           
Não tenho competência suficiente para julgar Catatau, de
Paulo Leminski. Passo a vez. Mas, me pergunto: onde estão Graciliano Ramos e Gerardo de Melo Mourão? E pergunto mais: onde está A Crônica da Casa Assassinada?
           
Talvez tudo se explique pelo fato da lista ter sido encomendada pelo Laboratório de
Pesquisas de Opinião Pública e de Mercado. As palavras-chave aqui são “opinião pública” e “mercado”. A mesma opinião pública que costuma apontar, por meio de pesquisas via Internet, Maradona melhor que Pelé e Ayrton Senna melhor que Schumacher. Ou seja: “não tem valor científico”. A segunda palavra-chave é “mercado”. Essa lista, portanto, pode ser traduzida como uma possível “lista de compras”. Neste caso, podemos ficar felizes pelo mago highlander Paulo Coelho não ter sido citado. Afinal, se os imortais da Academia o elegeram o que poderia impedir os acadêmicos mortais de seguir o exemplo?  
 

PESQUISA

Entre os dias 19 e 30 de maio de 2008 foi perguntado a 200 estudantes de letras de 10 universidades: Quais eram os melhores livros, de autores brasileiros, em todos os tempos? Cada participante poderia indicar um número máximo de 10 livros, podendo inclusive, indicar mais de um livro de um mesmo autor. Participaram da pesquisa alunos do curso de letras da UFG, UNB, UCG, UEG, UNIP, UFRGS, UFRGS, UFRJ, USP. A pesquisa foi feita pelo Laboratório de Pesquisas de Opinião Pública e de Mercado e não tem valor científico. 
 

1 - Macunaíma (1928) - Mário de Andrade -
134 citações
 
2 - Grande Sertão: Veredas (1956) - Guimarães Rosa -
123 citações 
 
3 - A Paixão Segundo G.H. (1964) - Clarice Lispector -
118 citações 
 
4 - Memórias póstumas de Brás Cubas (1880) - Machado de Assis -
99 citações 
 
5 - Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta (1971) - Ariano Suassuna - 
80 citações 
 
6 - O Tempo e o Vento (1949) - Érico Veríssimo -
77 citações 
 
7 - Poema Sujo (1976) - Ferreira Gullar -
61 citações 
 
8 - Catatau (1975) - Paulo Leminski - 
54 citações 
 
9 - Os Cavalinhos de Platiplanto (1959) - José J. Veiga - 
47 citações 
 
10 - O Vampiro de Curitiba (1965) - Dalton Trevisan - 
36 citações
  

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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:13 PM

Memórias da poeta russa Marina Tsvetáieva

publicado em
 
A Editora Martins Fontes é responsável por um lançamento espetacular: Vivendo Sob o Fogo (763 páginas), da escritora russa Marina Tsvetáieva, que, sob pressão do stalinismo, matou-se, aos 49 anos, em 1941.
 
Na verdade, Marina não escreveu nenhuma obra com o título de Vivendo Sob o Fogo. O livro, muito bem organizado pelo crítico Tzvetan Todorov, com tradução precisa e amorosa de Aurora Fornoni Bernardini, contém cartas e páginas dos diários da poeta. Há textos profundamente dramáticos, mas percebe-se a escritora atenta mesmo nos lamentos bem mais pessoais.
 
O livro não pôde ser trabalhado por Marina, pois morreu no auge do stalinismo, mas, o que poderia parecer defeito, acaba sendo virtude, pois temos a autora em carne viva falando de si, de familiares e da vida sob a ditadura comunista. “Não será exagero ver neste livro sua obra mais acabada”, escreve, no excelente prefácio, Todorov.
 
Como tenho dúvidas sobre o que disse Todorov, que me parece excessivamente empolgado com o material que organizou, sugiro aos leitores que consultem duas versões da poesia de Marina, feitas a partir do russo por tradutores competentes: Indícios Flutuante — Poemas (Editora Martins Fontes. 208 páginas, R$ 38,30), com tradução de Aurora Fornoni Bernardini, e Marina (Travessa dos Editores, 151 páginas, R$ 28), com tradução de Décio Pignatari.  
 
Um poema, duas traduções
 
A seguir, transcrevo o poema "À Vida", de Marina Tsvietáieva, com duas traduções, uma de Haroldo de Campos e a outra de Augusto de Campos. Os poemas foram extraídos do livro Poesia Russa Moderna e as duas traduções indicam como um poema pode ser recebido noutra línguas de várias formas.
 
À VIDA  
MARINA TSVIETÁIEVA
 
Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.
 
Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cabelo
Árabe — E abre a veia da vida.
 
[Poema de 1924, tradução de Haroldo de Campos]
 
À VIDA  
MARINA TSVIETÁIEVA
 
Não colherás no meu rosto sem ruga
 
A cor, violenta correnteza.
 
És caçadora — eu não sou presa.
 
És a perseguição — eu sou a fuga.
 
Não colherás viva minha alma!
Acossado, em pleno tropel,
Arqueia o pescoço e rasga
A veia com os dentes — o corcel.
 
Árabe.
 
[Tradução de Augusto de Campos]  
 
 
Boxe, a sétima arte
 
O diplomata Guillermo Rivera, ex-repórter do Jornal Opção, ao voltar de Rabat, capital do Marrocos, traduziu, no avião, um texto da revista "The Economist" sobre boxe. Discordo do texto ao apresentar Muhammad Ali como um homem do poder, pois o boxeador é muito mais do que isto tanto para o boxe quanto para a história dos Estados Unidos. Por certo esqueceram que foi preso por se recusar a lutar no Vietnã.
 

BOXE

Uma história cultural
 
 
Pugilistas e estetas não estão, necessariamente, em cantos opostos. Em uma história do esporte que remonta a Homero, Virgílio e outros fãs antigos de lutas, Kasia Boddy, uma palestrante de Inglês no University College de Londres, examina a estranha atração que o boxe exerce sobre os intelectuais. Ela nos fornece uma leitura prazerosa ao mesmo tempo em que explora como os lutadores profissionais estimulam a imaginação de escritores, artistas e intelectuais.
 
Alguns dos seguidores mais pretensiosos do esporte são intelectuais franceses. François Mauriac descreveu Georges Carpentier, um campeão mundial da categoria meio-pesado, como sendo "um desses Apollos graciosos, levemente arranhados pela picareta durante o processo de sua exumação", e "o tipo de homem honesto a quem Pascal quereria bem". Jean Cocteau era empresário de um boxeador profissional e, para ele, compôs rapsódias sobre sua "poesia ativa" e sua "sintaxe misteriosa". Jean Genet escreveu poemas para um "boxeador-gatuno" e uma "rosa musculosa".
 
Os equivalentes norte-americanos desses intelectuais são mais assertivos. Vários deles subiram aos ringues para tentar lutar, mesmo que fosse apenas para participar como sparrings. Rodolfo Valentino foi uma exceção que tentou uma luta verdadeira. O ídolo das matinês dos anos 20 ficou tão enfurecido de ter sido chamado de "esponja de pó-de-arroz" por um jornal de Chicago que desafiou o repórter a enfrentá-lo no ringue. Norman Mailer via o boxe como metáfora para suas ambições de se tornar o campeão da escrita mundial. T.S. Eliot teve aulas de boxe dadas por um ex-pugilista em um ginásio mais ou menos barra-pesada na Zona Sul de Boston. Wyndham Lewis surpreendeu-se quando entrou no estúdio parisiense de Ezra Pound e encontrou o poeta norte-americano usando luvas de boxe e treinando com um jovem esplendidamente em forma, que viria a ser Ernest Hemingway. Os celebrados estudos de Thomas Eakins incluem uma fotografia de jovens de punhos nus lutando em uma floresta que, para Boddy, evocava tanto o classicismo pastoril e o quadro "Déjeuner sur l´herbe", de Manet.
 
Alguns poucos boxeadores se confraternizavam com a intelligentsia. Gene Tunney contava com George Bernard Shaw, Sherwood Anderson e Thornton Wilder entre seus amigos e agregava às suas conversas palavras como "ineficaz" e "mudanças cosméticas". Muhammad Ali, de maneira mais típica, aceitava a admiração de seus fãs cultos com uma afeição embasbacada. Ele até posou para George Lois como capa da revista Esquire, em pose de São Sebastião, de Boticelli, até que se deu conta, repentinamente, de onde provinha o assunto. "Ei George", ele gritou, "esse cara é cristão!". A sessão de fotos teve de ser interrompida até que Ali tivesse consultado seu líder espiritual muçulmano para saber se as poses seriam apropriadas.
 
De maneira mais séria, Boddy explora as tensões étnicas no esporte, especialmente entre brancos e negros nos EUA. O racismo já foi escancarado. Quando Jack Johnson, o primeiro negro campeão mundial dos pesos pesados, entrou no ringue em Reno em 1910 para derrotar a mais recente "Esperança Branca", a banda tocou "All Coons Look Alike to Me" ("Todos os Crioulos Parecem Ser Iguais para Mim"). Menos de três décadas depois, as coisas haviam mudado de maneira evidente. Joe Louis, o "Bombardeador Marrom", contou com o apoio fanático de norte-americanos de todas as cores quando defendeu o mesmo título contra o alemão Max Schmeling, em uma luta rotulada como sendo uma competição entre a democracia e o nazismo.
 
O sucessor deles, Muhammad Ali, um radical que se tornou patriota, tornou-se por completo uma figura do establishment. Ele fez campanha para Ronald Reagan, na eleição presidencial de 1980, e em 1990 voou ao Iraque para tentar assegurar a libertação de reféns norte-americanos aprisionados por Saddam Hussein. O atual presidente George Bush tem sido um apreciador especial dos esforços do ex-campeão para persuadir muçulmanos dos EUA a apoiarem as guerras no Iraque e no Afeganistão e, em 2005, o condecorou com a Medalha Presidencial. Esse cara é, agora, um pilar da sociedade.

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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:12 PM

A guerra civil que gerou Barack Obama

publicado em


Sabe um livro pelo qual você não pagaria um centavo mas, lido, acaba sendo uma agradável surpresa? Pois é o caso de “História da Guerra Civil Americana” (M. Books Editora, tradução de Roger Maioli dos Santos, 224 páginas), do historiador John D. Wright. Com capa dura e jeitão de livro didático, com iconografia farta, passa a impressão, à primeira vista, de obra superficial. Lida, descobre-se que, se não é profunda, é muitíssimo interessante.
 
A Guerra Civil Americana (1861-1865), na qual pereceram 550 mil pessoas e, no final, o presidente Abraham Lincoln, primeiro presidente dos Estados Unidos assassinado, foi vencida pelo Norte, que subjugou o Sul. Mas o que não se diz é que, embora tenha vencido, o Norte perdeu a guerra durante boa parte do tempo para um Sul menor, com menos soldados, mas profundamente motivado (na defesa de seus interesses, entre eles a manutenção da escravidão). Wright ressalva que, embora vencendo algumas guerras, humilhando o poderio do Norte, inclusive em batalhas marítimas, os exércitos sulistas foram empurrados para dentro de seu território e, finalmente, derrotados pela riqueza e maior número de soldados do Norte.

A União (Norte) gastou 5 bilhões de dólares e a Confederação (Sul), “cerca de 3 bilhões”. Os Estados Unidos sempre gastaram muito com suas guerras.

Wright mostra que, até o início de 1864, o Norte não conseguia vencer a guerra por conta, em certa medida, de generais incompetentes e indecisos. Mas, como o presidente Abe Lincoln era extremamente decidido, foi demitindo-os e indicando generais corajosos e competentes, como Ulysses S. Grant e William Tecumseh Sherman (sobre os generais que cantavam vitórias de Pirro, Lincoln disse: “A galinha é a mais sábia das criaturas animais, pois só cacareja depois que o ovo está posto”). Grant adotou a tática de perder homens a rodo — chegou a ser chamado de açougueiro —, e não recuar, o que forçou os homens de Robert E. Lee a uma ação mais defensiva. “O general Meade pediu a Grant que considerasse uma manobra. ‘Ah!’, disse o general. ‘Eu nunca manobro’.” Lincoln disse sobre Grant: “Não posso me desfazer desse homem — ele luta!” O implacável Sherman era um tormento por onde passava, destruindo tudo. Ao introduzir “um elemento novo e perturbador na atividade bélica: a crença de que uma guerra pode ser vencida aterrorizando os civis que a apóiam”, foi chamado de o “Átila do Oeste”.

Os americanos têm o hábito de celebrar a cavalaria, sobretudo no cinema, como nos filmes do brilhante John Ford (o Sul tinha um general de nome John Ford), e com razão. A cavalaria, na guerra civil, foi bem utilizada pelos sulistas, especialmente na guerra de guerrilhas, para fustigar os ianques de Lincoln. Wright conta a história do esplêndido general Nathan Forrest Bedford, que impôs várias derrotas ao Norte. Os nortistas tiveram de aprender os segredos de Forrest — citado no romance “Sartoris”, de William Faulkner — para enfrentar, de igual para igual, a cavalaria confederada.

No final do livro, Wright diz que “muitos sulistas brancos se negaram a votar em republicanos durante mais de um século, até a eleição de Richard Nixon em 1968”. O historiador conta que os sulistas, de algum modo, continuam sendo perseguidos: “O nome ‘confederado’ foi eliminado de uma rua em Memphis e está sob ameaça num edifício da Universidade Vanderbilt. Os nomes de heróis confederados também estão desaparecendo: a Robert E. Lee High School, em Birmingham, Alabama, mudou seu nome em 2001 para Martin Luther King High School”. Com Barack Obama, Yale vai se chamar Spike Lee ou Frederick Douglass?

Lincoln disse que Deus havia dado “esta guerra terrível como a devida punição àqueles de quem a ofensa [da escravidão] proviera”. Lincoln, por ser “amigo” dos negros, era chamado de “o gorila original”. Faulkner sugere, em vários de seus livros, que a escravidão gerou as monstruosidades que descreve em seus romances. Era a grande maldição, o pecado original dos americanos, sobretudo dos sulistas. “Não se escapa ao Sul, ninguém se cura do seu passado”, diz Faulkner pela boca da personagem Quentin.

Lincoln, republicano, é uma espécie de bisavô de Barack Obama, democrata. Ao libertar os escravos, em 1865, a guerra de Lincoln gerou a possibilidade de, 143 depois, Obama ser presidente dos Estados Unidos. Lincoln e Faulkner certamente ficariam satisfeitos.?Mais Lincoln, quem sabe.

Seqüestro e Operação Condor

Minha penelopiana lista de leitura vai acabar me deixando louco (normais paranóicos somos nós todos). Espero que descubram o elixir da juventude (não basta capim novo, como dizia o expert Luiz Gonzaga), mas com prazo determinado. Gostaria de viver, com saúde, pelo menos 150 anos. Talvez 300 ou 350? Talvez seja muito. Bem, como não vou viver tanto, tenho sido seletivo com as leituras. Por exemplo, parei de ler os gibis do Homem-Aranha, que cheguei a colecionar — por que, não sei. Perdi interesse por livros sobre a ditadura civil-militar (1964-1985). A maioria se repete, numa condenação infindável à ditadura, mas sem revelações. Mas não vou deixar de ler "Operação Condor — O Seqüestro dos Uruguaios: Uma Reportagem dos Tempos da Ditadura" (L&PM, 472 páginas, 49 reais), do grande repórter Luiz Cláudio Cunha.

Luiz Cláudio relatou, há 30 anos, na revista "Veja", a história do seqüestro dos uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Díaz. Mais de um quarto de século depois, o jornalista reconta e amplia a história.

Memórias de Leandro Konder

Ao contrário do que certa direita prega, nem todo comunista é idiota. Stálin e Lênin eram comunistas, ditadores, cruéis, mas não eram néscios. Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho são comunistas, ou foram, sei lá, e são inteligentes. Olavo de Carvalho exagera nas críticas a Konder, um dos poucos comunistas abertos, ou seja, com vocação democrática. Konder não é profundo, não tem uma obra densa como a de Marilena Chauí, também exageradamente execrada, porque eventualmente diz algumas besteiras (como a defesa insensata do petismo e os ataques gratuitos a José Guilherme Merquior). Ele é um excelente vulgarizador e um crítico bem-humorado (e sempre reconheceu o valor intelectual de Merquior). Seu livro "Memórias de um Intelectual Comunista" (Civilização Brasileira, 264 páginas, 39 reais) acaba de entrar para minha lista de leituras. Konder tem o que contar e sabe contar.

Caxias ganha nova biografia

O Duque de Caxias talvez seja a Geni dos militares brasileiros. Todos jogam alguma coisa em Caxias. Até o Caxias virou sinônimo de cdf, de gente chata. Nos últimos anos, por conta do trabalho de historiadores sérios, como Francisco Doratioto, o papel de Caxias na história brasileira tem sido revisto, e favoravelmente. Adriana Barreto de Sousa lança "Duque de Caxias — O Homem Por Trás do Monumento" (Civilização Brasileira, 616 páginas, 75 reais). Apesar do preço, entra na lista de prioridades para 2009.

Banville e Philip Roth

John Banville é o Dostoiévski da Irlanda. Felizmente, não quis ser o novo James Joyce, ou o sub-Joyce. Atualizou Dostoiévski, com uma escrita mais leve e menos sombria. Falo, claro, de "O Livro das Provas", seu romance-resposta ao portento "Crime e Castigo", do colega russo. Dostô aprovaria, apontando o defeito do "moderninho demais". Banville aventura-se também pela crítica.

Banville resenhou o romance "Indignation", de Philip Roth, para o "Financial Times", e a "Folha de S. Paulo" republicou o comentário. "´Indignation´ é o melhor romance de Philip Roth desde ´O Avesso da Vida´. (...) Em seu novo romance, retomou a graça e sutileza de trabalhos anteriores e produziu uma obra-prima tardia", diz Banville. Um elogio e tanto.

Trotski era ucraniano, não era russo

Dois leitores enviam e-mail e dizem que Liev Trotski era ucraniano, não russo. Um jornalista, meu amigo há mais de 20 anos (estou ficando velho, mas não triste nem melancólico), diz mais: se pudesse, Trotski morderia uma de minhas orelhas, ao feitio de Mike Tyson atacando Evander Holyfield, por conta disso. Puxa: ainda bem que, ao contrário do "Diário da Manhã", nós, do Jornal Opção, não mantemos contato (nem imediato) com fenômenos do além-túmulo.

Não é a primeira vez que cometo o erro. Por quê? Talvez porque, como a Rússia era a República dominante, os outros povos que formaram a União Soviética e por isso se tornaram "soviéticos" (o que a maioria detestava) acabaram sendo conhecidos como "russos".

Não tenho errado sozinho, porém. A biografia "Trotsky" (com y), de Hedda Garza, diz que Liev Davidovitch Bronstein, o Trotski, nasceu em "Yanovka, Rússia". Pesquiso na internet e encontro a informação de que Yanovka fica na Ucrânia. Quem está certo? Eu e Garza estamos errados. 

Sartoris passou pelo Brasil

No romance "Sartoris", Faulkner conta a história da família do coronel John Sartoris. O protagonista meio não-protagonista é Bayard Sartoris, neto de Bayard Sartoris (filho de John Sartoris).

Depois da morte do irmão John Sartoris, Bayard praticamente enlouquece (não a loucura comum) e se torna destrutivo. Bebe demais. Dirige seu automóvel em alta velocidade. Acaba matando o avô num acidente. Em seguida, peregrina pelo mundo e, de repente, visita o Rio de Janeiro. O texto a respeito é quase-nada: "Em abril chegou um postal do Rio". Receberam o postal a tia Jenny, talvez o maior personagem feminino de Faulkner, e Narcissa Benbow, mulher de Bayard e mãe de seu filho.

Na introdução, Robert Cantwell escreve: "... a sua vaga viagem ao México e ao Brasil".

Philip Roth inspirou-se em "Memórias Póstumas de Brás Cubas" para escrever seu romance "Indignation". O que o agrada é a forma de um morto relatar a própria história. No caso de "Sartoris", o coronel John Sartoris está morto, já no início do livro, mas está presente (não como fantasma, e sim como memória e maldição) em toda a história. Não apenas neste livro. O coronel Sartoris reaparece em outras obras de Faulkner, como "Os Invencidos", "Absalão, Absalão!" e pelo menos num conto. 


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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:10 PM

500 mil exemplares, 500 erros em cada

publicado em
Edição descuidada não impede “Condenado a Falar” de vender meio milhão, mas autor quer o dobro, com 300 mil só em Goiás, o que seria um recorde inimaginável 




Nilson Gomes
 
 Jorge Kajuru tem diversos títulos e só não usa o de eleitor, mas nem suas previsões mais otimistas diriam que venderia tantos exemplares de Condenado a Falar em tão pouco tempo. Pelos cálculos do autor, foram 350 mil exemplares “em 65 dias, somente no interior paulista” — onde nasceu (em Cajuru, que lhe deu o nome artístico) e mora (em Ribeirão Preto, que chama de “minha aldeia” — ali apresenta um programa diário de 15 minutos no SBT local). Em Goiânia, no sábado, 26, Kajuru comemorou a venda do exemplar número 500 mil. O problema do livro, portanto, não é o mesmo dos goianos: o encalhe. Mas — que paradoxo — o problema do livro é o mesmo dos goianos: a edição descuidada, na qual sobram erros. Entre pequenas falhas gráficas, equívocos em nomes próprios e deslizes ortográficos, são mais de 500, culpa não necessariamente do autor, pois há uma revisora, Walkiria Lobo, responsável pela caça às agressões.
 
Condenado a Falar tem dois subtítulos, De A a Z e Pólvora Pura, além da recomendação “Impossível não ler”. A capa expõe tudo isso, mais dez vezes o nome do autor, que aparece amordaçado, como se estivesse condenado a calar, não a falar. Kajuru ficou sem poder usar sua maior arma, a palavra, em algumas oportunidades, todas narradas na obra: quando as TVs o demitiram ou se demitiu e quando sua rádio, a K do Brasil, era tirada do ar. Como o livro não tem censura e nele fala o que quer, o esparadrapo cruzado na boca é anacrônico. Para chegar ao milhão de exemplares, a meta que se impôs, será melhor corrigir as falhas. Nesta semana, Kajuru começa parceria com o jornal Diário da Manhã e seu objetivo declaro é vender 300 mil livros em Goiás, mil vezes mais que a média de escritores locais.
 
Uma tiragem tão avassaladora já na primeira edição, 350 mil exemplares, mostrava que Kajuru esperava o sucesso. Faltou procurar uma editora, não dessas que roubam o autor e passam a perna nos livreiros, esses que passam a perna nas editoras e nos autores. Uma editora para o óbvio: editar. Kajuru é muito talentoso no vídeo e nos microfones das rádios, mas carece de igual desenvoltura na comunicação impressa. O livro é prova inequívoca disso. O próprio Kajuru assina como editor e diz terem sido 12 as mãos que escreveram, as próprias e dos produtores Nathália Vieira, Ródnei Souza, Rodrigo De Brino, Simone Magalhães, Théo Campos, que seriam alcançados pelos direitos autorais, caso sobrasse alguma coisinha. Não é o caso, como se lê em texto nesta reportagem.
 
POUCA

Pouca novidade e nenhuma pólvora
 
Condenado a Falar tem 264 páginas, não necessariamente de novidades. A rigor, apenas 97 são de Kajuru e menos de 50 têm algo relacionado a ser condenado a falar ou pólvora pura. As demais reproduzem artigos de Kajuru na Folha de S. Paulo, entrevistas em que é o autor (como com Romário) ou personagem (como no Programa do Jô), recortes de jornais e revistas, gráficos e até poemas — sem dúvida, a fraqueza de Kajuru: o grande profissional de rádio e TV não precisava se submeter a isso. Em três poemas, oferecidos às apresentadoras de TV Hebe Camargo (“Ave Hebe”) e Adriane Galisteu (“Eterna Dri”) e às mães do próprio Kajuru e de Galisteu (“Ê mamãe”). Nem Geraldo Coelho Vaz e Kleber Adorno fariam igual.
 
Os momentos altos do livro, destacados pela imprensa do Brasil inteiro, seriam as definições de “celebridades”, na lista “De A a Z”, e as 27 “páginas negras”, assim chamadas por serem impressas em preto, com as letras vazadas em branco, no fim da obra. Não há tanta pólvora assim. As críticas maiores são às redes de TV Record (principalmente a seu dono, Edir Macedo) e Globo e à Confederação Brasileira de Futebol (e seu presidente, Ricardo Teixeira). Mas nenhuma novidade capaz de abalar a estrutura das emissoras ou da CBF, até porque são informações já exibidas pela própria Globo. A irritação de Kajuru é por ter se resumido a um Globo Repórter as denúncias contra a cartolagem, a começar do maior nome do setor, o de Teixeira.
 
Conforme se lê em texto nesta reportagem, o próprio rol “De A a Z” tem mais elogios que críticas, ou mais “opa!” que “epa!”, ou mais pirulito que bala. São 128 comentários favoráveis, 37 contrários e nos demais fica morde e sopra. Até quanto a Teixeira, da CBF, fica com um pé no muro. Critica: “Sempre conheci tudo a seu respeito. Inclusive, o preço”. Em seguida, reconhece méritos no chefão da CBF: “Não misturo. Gerenciando e tomando decisões na Seleção, acertou mais do que errou”. Conclui profetizando: “Na Copa de 2014, só ele (Teixeira) ganhará. Rachará com alguns”. Diz e repete que foi “buscar todas as informações das profundezas do inferno”. E, como as que aparecem no livro são mornas, pelo jeito as quentes continuam queimando na casa do capeta.
 
O drama de querer livro “mais barato do mundo”
 
No início, Jorge Kajuru divulgou que Condenado a Falar seria vendido a 1 real, insuficiente para as despesas mínimas. Os orçamentistas de quatro gráficas consultadas em Goiânia ficaram abismados com a quantidade pedida pelo repórter, mas calcularam em quanto ficariam cada exemplar se fossem encomendados 350 mil, nos mesmos moldes do livro de Kajuru. Os preços variaram de 5 a 7 reais cada. Portanto, impossível vender a qualquer tanto abaixo, a menos que houvesse patrocinador. Não há. Kajuru ocupa a quarta capa com propaganda de três grandes escritórios de advocacia, mas avisa no alto da página: “Publicidade gratuita”. No miolo, nada de anúncio, pagou ou não.
 
Ao participar de Nada Além da Verdade, apresentado por Silvio Santos no SBT, Kajuru disse que sua meta era ganhar 40 mil reais, que salvariam a única herança de sua família, uma casa em Cajuru. O programa, que Kajuru gravou em 17 de dezembro de 2007, tem máquinas americanas que detectariam se o examinado mente; falseou, sai. Kajuru teve de expor as vísceras. Admitiu, por exemplo, três coisas que o machão típico relutaria contar até a si próprio: já brochou (“Passei mais de ano que não levantava, porque diabético é assim”), teve experiência homossexual (“Mas não gostei”) e seu pênis é pequeno — “defeito” que consta também do livro, onde também diz precisar de “mais 10 cm”. Mas não mentiu e levou mais que o dobro do que almejava, 100 mil reais, o prêmio máximo. Para subsidiar apenas a primeira edição, precisaria vencer 13 vezes seguidas o Nada Além da Verdade. Supõe-se que quem, há quatro meses, não tinha 40 mil reais para salvar o patrimônio, não tem 1 milhão e 400 mil para gastar com livros para o populacho. Os 100 mil ganhos no Nada Além... foram usados, segundo Kajuru, para pagar “todas” as suas dívidas.
 
Sem dinheiro para subsidiar, o jeito foi se render a algo próximo. Então, Kajuru não está tendo lucro, mas também não está perdendo milhão de reais, até porque não tem. Quem o conhece sabe que, se tivesse dinheiro ou bens, ele torraria até o último centavo num projeto como o do livro. Em Condenado a Falar, ele diz que gostaria de ser rico para bancar duas publicações, a revista Caros Amigos e o jornal Lance!, ambos de grupos milionários. Trabalhei com Kajuru e vi seu desprendimento com dinheiro, que distribui sem medida a empregados, pedintes, mulheres, projetos furados.
 
O algo próximo ao preço idealizado de 1 real foi cinco vezes mais. Na capa, Kajuru separa o público comprador: o da “Faixa salarial baixa” e o da “Faixa salarial média/alta”. O primeiro compraria o livro a 2 reais (“Pelas mãos do Kajuru”), 3 (“nos pontos de venda anunciados na TV pelo Kajuru”) ou “no máximo a 5, dependendo da distância da cidade” de quem adquire. Ao segundo, oferece por 20 reais “o Kit Completo”, composto de Condenado a Falar, um DVD com imagens do trabalho de Kajuru, um “CD surpresa”, o livro Dossiê K, que provocou polêmica em Goiás em 2002. O leitor passa pela capa e na próxima página vê outras três opções de preço: 4 reais (cidades a mais de 200 km de Ribeirão Preto, onde mora o autor), 5 reais (mais de 500 km) e “nunca acima de 6 reais”. Com isso, planeja vender 1 milhão de livros em um ano, sendo 200 mil autografados: “Serei vendedor de meu próprio livro (...) levando até você o livro mais barato do mundo”.
 
Em Goiânia, no sábado, 26, o livro foi vendido a 5 reais e quem se dispôs a enfrentar fila imensa recebeu autógrafo, tirou foto e conversou com Kajuru, que dá atenção a todos. Descontadas as despesas com passagens, hospedagem e alimentação do autor, mais o pessoal envolvido com a produção e as empresas de distribuição e venda, a conta ainda fecha. Kajuru continua tendo um prejuízo imenso. Ele já teve patrimônio razoável. Sua emissora, a Rádio K do Brasil, valia 8 milhões de reais. No capítulo “Um cala-boca milionário”, Kajuru conta que, em abril de 2000, recusou 3 milhões de reais por 49 por cento das ações da rádio, que seriam pagos por três empresários. Conta o nome de um deles, Rivas Resende, então diretor da Arisco e hoje dono da empresa Quick Logística. Em 2001, recusou quantia semelhante. Na página 55 e 63, reproduz partes dos contratos. Com semelhante quantia, bancaria mais livros a “preço acessível a qualquer cidadão”.
 
A realidade é outra. O patrimônio de Kajuru virou munha. Perdeu a rádio, que se à época valia 8 milhões, acabou dela saindo em 2003, sem um tostão e ainda dando graças a amigos por se livrar das dívidas. Atribui seu infortúnio a perseguição do então governador Marconi Perillo, um dos três personagens mais criticados do livro. Então, quem está bancando o déficit do livro? Seria possível que algum inimigo do trio ajudasse a subsidiar 1 milhão de exemplares de um livro que o detonasse? Seria. Se o autor fosse outro. Kajuru não se submeteria a isso. Quem já perdeu tanto (patrimônio, amigos, empregos, dinheiro) em nome da coerência, não se venderia.

O mapa dos erros
 
Há cinco erros na página 1 (numeração que não inclui a capa), inclusive um agudo no nome do pai de Kajuru: está “Zézinho”. Um de pontuação na 3 (sobra vírgula em “Assim como, o conteúdo”). Dois na 5 (pontuação e falta um “l” em julgará). O prefácio do ex-jogador Sócrates tem, no mínimo, onze erros: faltam cinco vírgulas (só as imprescindíveis) e hífen em “sem-número”; é impossível “gravar” sem pilha durante duas horas e não perceber; Kajuru não derrubou o então governador Maguito Vilela nem deixou irado o atual governador de Goiás, Alcides Rodrigues; confunde “nestes” com “nesses”; maiúscula desnecessária na assinatura: “Dr. Sócrates Brasileiro, Ex-craque”. No texto chamado “Por Rosana Zaidan” passaram sete erros fora esse de ter como título o nome da autora — ressalte-se a qualidade do texto, que tem boas frases, como: “Até hoje, Kajuru amarga crueldades, mas consegue transformar restos em iguarias”. Portanto, 26 erros até agora.
 
O texto “Por Alfredo Orlando” tem um erro interessante: conta que Kajuru, ao chegar à capital paulista, em 1978, era “um menino de calças curtas”. Kajuru já contava 18 anos e um sujeito maior de idade não usa calça curta nem em filme do Mazaropi. Como de Jeca Tatu Jorge Kajuru só tem a rima, subentende-se que houve uma licença poética, termo em nome do qual se comete bastante besteira. O material escrito por Emanuel Carneiro tem dois erros: está sem título, abaixo da reprodução de um anúncio; sobra vírgula na assinatura. Na página 15, há dois erros, um de vírgula, outro em Goiás, que está com agudo no “i”. Na 16, sete erros, inclusive no título: “Palavaras”, com um “a” a mais. Um oitavo erro é que o título é sobre nada, numa falha de edição. E assim por diante, há erros médios e pequenos em toda página escrita por Kajuru.
 
Alguns textos são repetidos em mais de uma página. O que ocupa a página 5 inteira está também na 179 e de novo toma toda a 211, inclusive com os mesmos erros. O da 27 é o mesmo da 229. Kajuru diz várias vezes, na capa e em muitos outros lugares, que seu livro Dossiê K foi “preso”. Não. Foi censurado, foi perseguido. No rigor do palavreado jurídico, que é o adequado ao caso, o livro não foi preso, mas apreendido. Como os textos de Kajuru são fiéis à linguagem oral, que utiliza no rádio e na TV, não se pode chamar de erros os diversos entraves provocados com o idioma e com regras de redação. Em vez de somados no quadro das falhas, devem ser creditados ao estilo vencedor de Kajuru. Portanto, não entraram na conta dos 500 erros.
 
Quase todos os erros de Kajuru poderiam ter sido evitados com uma leitura mais ou menos atenta. Centenas de descuidos com a pontuação, por exemplo, podem ser eliminados em poucos minutos, quando for preparada a próxima tiragem. Levará 1 segundo para colocar a vírgula que falta à página 28: “Meu 1º livro, agora pode ser lido na íntegra”. Basta o logotipo da Nike depois de “agora”. Não é apenas um sinal gráfico, é um símbolo que compromete o entendimento da frase. Uma vírgula intrometida aqui, a falta dela acolá, ponto usado nitidamente como recurso para evitar erro maior não são sinais de analfabetismo, mas de relaxo. É impossível um conjunto de doze mãos (e, claro, meia dúzia de cérebros) não esfregar ao menos uma unha para tirar a vírgula do mais clássico erro de pontuação, a separação entre sujeito e verbo em “Juca, foi o 1º a defendê-lo”. O escorregão toma proporções maiores porque está no alto de uma página ímpar, como chamada da reprodução de um artigo de Juca Kfouri, jornalista conceituado que deu vida a duas revistas, Placar (inventada por ele) e Playboy (recauchutada por ele).
 
Outro erro comum é a falta de preposições, conjunções e demais elementos de ligação, além de um apagão nas classes gramaticais por atacado. Às vezes, na dúvida, substitui por ponto. Outras, simplesmente pula. Coisa simples de resolver, mas que compromete: um comunicador famoso e admirado como Kajuru fica associado a gargalos no uso de uma ferramenta vital em sua profissão, o idioma. Kajuru sabe usar bem a língua (e aqui a referência é unicamente à portuguesa), mas quem digitou para ele ou corrigiu teve “brancos” terríveis. Repito, tudo fácil de resolver. O que custa, na página 32, digitar um “d” e um “e” antes de “ombudsman” em “... fazendo o papel ombudsman de verdade”? Mas, enquanto alguém não digita, está lá o erro. Encontrei 41 lapsos parecidos.
 
O uso de maiúsculas é uma fonte absurda de tropeços. Dependendo da regra que se adota, pois não há critério no livro, são mais de 200 erros. Considerei menos de 40, por não somar como erros algo como o “S”, o “T” e o “V” em “Relatório Sintético por Tipo de Veículo”. Mas somei o “G” maiúsculo em “... mídia oficial do Governo, desde 1994” porque há a mesma palavra, com o mesmo sentido, com minúscula. Não uniformiza nomes próprios (polícia civil na página 66 e Polícia Civil na página seguinte), cargos (Secretário, Porta-voz, Governador...) nem horários, que grafa de três maneiras diferentes: “nove e meia da manhã” (página 38), “20 horas e 30 minutos” (página 39), “por volta das 10h30 da noite” (página 66). Aí não há erro, apenas falta de critério. Mas os erros se sucedem. Um carimbo de “gravado” acrescenta cinco, pois não tem o agudo em “Áudio”.
 
O desmazelo na checagem de nomes próprios potencializa o volume de erros. O atual prefeito de Goiânia, Iris Rezende, aparece nas páginas 32, 36, 37, 38, 39 e 106 com o nome acentuado. É um erro minúsculo, menor que o agudo desnecessário, mas é um erro, que acaba multiplicado por 12, o número de vezes em que o nome Iris (o político, não a parte anatômica) aparece incorreto. O pequeno trecho “... pesquisa do Ibope, comandada em Goiás, pela afiliada da Rede Globo, Organização Jaime Câmara, que dava a Íris...” (página 36) tem três erros e é vitrine dos parágrafos anteriores: erra na pontuação (vírgula após Goiás), erra na informação (a afiliada da Globo a que se refere é a TV Anhangüera; OJC é o conglomerado que inclui outras afiliadas da Globo, gráficas, jornais, rádios...), erra no nome de Iris. E vai juntando erros aos 500.
 
A precisão nas datas também influencia. Dá a vitória de Marconi Perillo para governador de Goiás em 1998 no dia 6 de outubro. Foi em dois dias antes no primeiro turno e três semanas depois no segundo. Fora dados do gênero, a revisora Walkiria Lobo poderia ter aconselhado Kajuru a obediência aos pronomes. Assim, talvez se inspirasse e desse linearidade à personificação. Num mesmo fim de página, a 103, o autor mistura tudo. Refere-se a si mesmo como “disse ao Kajuru” e, duas linhas depois, volta a ser o narrador, mandando recado: “Caro amigo, te adoro baixinho (...) Você já sabia (...) Vai te catar, Romário!”. O velho problema da pontuação (“te adoro, baixinho) e do pronome (“Você” e “te”). Lobo não notou a falta de espaço entre palavras, de unidade gráfica nas páginas, de critério no tamanho das fontes. Foi omissa também ao corrigir a digitação, principalmente a degravação de entrevistas e nomes como “impeachment” (página 151). Sobram erros nas aspas (há entre aspas e outras vezes assinados textos do próprio autor, como se fosse alguém estranho), que seriam banidos se a revisora fosse caprichosa. Se tivesse editor, certamente diria a Kajuru para... Bom, no mínimo haveria edição, que Kajuru não fez pelo simples motivo de que não é a sua área, ele a assumiu por outro motivo simples: baratear o livro. Se tivesse editor, o melhor texto do livro, o que ocupa as páginas 223 e 224, não estaria sem título, com tanto erro e numa letrinha impossível de ler sem óculos.
 
A lista “De A a Z” tem 316 pequenas falhas, principalmente de maiúsculas indevidas, nomes errados, pontuação incorreta. Há erros também em textos de outros autores, como no do jornalista Luiz Carlos Bordoni: “... prova cabal do Brasil provincial que vivemos”. Sem o “em” entre “provincial” e “que”, disse que vivemos “o” Brasil e não “no” Brasil. No contexto, está errado. Entre falhas que só um chato como o resenhista nota e problemas relevantes, o leitor anotou quantos erros? Pode recontar: são mais de 500. Em seu favor, diga-se que são mil vezes menos que o de exemplares vendidos.
 
Marketing pessoal vende um bom “produto”  
 
Jorge Kajuru é craque no marketing pessoal. Nos lugares em que atua, seja um programa de TV ou a administração de uma rádio, cria-se o “Mundo K”, que gira ao redor de Kajuru. Como ele não tem privacidade, conta tudo a seu público, também revela inconfidências, dá furo com segredos. Seus telespectadores sofrem e riem com ele. Sabem sobre o casamento desfeito (culpa por isso, e por uma teia de vicissitudes, o senador Marconi Perillo quando governador), sobre a veneração à mãe, Maria José. Seus ouvintes o compreendem em tudo, não o questionam, apenas o seguem. Nos tempos em que a Rádio K do Brasil era suspensa, muitos ficavam com o rádio sintonizado no 730, ligado, gastando energia, à espera da volta do som. Por isso, mesmo for do ar, o prefixo de Kajuru liderava a audiência, porque quando o pesquisador do Serpes perguntava “em que emissora seu rádio está ligado”, a resposta era a K do Brasil.
 
O sucesso, claro, não reside apenas na autopropaganda. Kajuru tem conteúdo, por isso sua fama resiste à embalagem: “gordo, feio”, conforme se apresenta nos programas de TV, agora também quase cego, mas sempre querido pelo público do veículo mais exigente quanto a visual, a TV. Apesar de a TV ter lhe dado a notoriedade que o faz lotar shoppings em tardes de autógrafos num Estado em que quase ninguém lê livros, sua multiplicidade de talentos aparece mais no rádio. Entre seus feitos em Goiás está a ressurreição do AM, que sequer existia em grande parte dos aparelhos. Com a K do Brasil, as lojas passaram a vender rádios com AM, produto antes a caminho do lixão.
 
Marketing pessoal só funciona com essa equação. Kajuru vende um produto que o consumidor encontra no vasilhame. Então, o fato de Condenado a Falar tem 801 vezes o nome do autor, sendo nove apenas na primeira capa, não é o que faz vender 500 mil exemplares. Para encontrar 801 vezes o nome do autor em um livro, só se for numa autobiografia de mil páginas. Condenado... tem menos de 10 por cento disso em textos do autor e ainda assim parece normal haver seu nome 801 vezes, porque quem o conhece do rádio e da TV se familiarizou com o singular majestático, com o falar de si como se fosse outra pessoa, com a grandiloqüência, os exageros, os sentimentos expostos, os sofrimentos divididos.
 
A fama de polêmico e as brigas que compra com caciques deram a Kajuru uma aura de nervoso, como se estivesse sempre pronto a explodir. É o contrário. Trata-se de uma pessoa dócil, que se preocupa com quem está por perto. Fui seu comandado no jornalismo da Rádio K e por várias vezes o vi (para usar um verbo que no livro ele emprega à exaustão) se solidarizar com quem sequer conhecia. Com os empregados, era generoso a ponto de se prejudicar. Quando a rádio estava às portas da falência, fruto do enfrentamento com o governo do Estado, Kajuru sofria ao conviver com os pagamentos em atraso. Usando novamente um recurso empregado no livro, o tom confessional, conto um episódio particular. Quando soube que eu ia me casar, no auge da crise da rádio, Kajuru me procurou: “Você não vendeu sua quota e deve estar precisando de dinheiro. Vou lhe dar uma das minhas. Escolhe a que você quiser”. Eu tinha outros dois empregos. Dispensei a ajuda. Mas não me esqueci da oferta.
 
Também peça do marketing de Kajuru é o estímulo à divergência. Também não é só marketing. Sua equipe no jornalismo em Goiânia tinha do direitista assumido (coisa rara) Rosenwal Ferreira ao esquerdista radical Martiniano Cavalcante. Ele havia acompanhado minha campanha em favor de Marconi Perillo para governador e a defesa que eu fazia de suas ações para enterrar o PMDB e, mesmo sendo vítima do governo, me mantinha em seu programa de maior audiência, o K entre nós na Hora da Verdade. Talvez inspirado no chefe, mesmo governista ajudei a derrubar oito integrantes do governo com denúncias documentadas — nunca deixei de apresentar na rádio as provas que conseguia. Vai ser difícil compor outra equipe como aquela, num ambiente como aquele, sob comando de um mestre daquele nível.
 
Kajuru é o divisor de águas no rádio goiano. Antes dele, as equipes esportivas sobreviviam com patrocínio mirrado, a maioria de empresas de cartolas do futebol. Kajuru deu um soco em tudo isso e foi tanto sopro de independência que virou furacão. Multiplicou por muitos o número de ouvintes de rádio, dando sobrevida a um veículo então moribundo. Quando Kajuru voltou para São Paulo, Goiás voltou a ser aquele Estado do a favor, com o rádio ocupado a maior parte do tempo e dos prefixos com programas religiosos, distribuição de acepipes, vitrola para tocar música que nem quem pediu quer ouvir. Deixou muitos discípulos, inclusive este que vos escreve, tão kajurete que redige uma crítica desse tamanho sobre um sujeito que admira tanto. Crítica, nesse caso, 100 por cento merecida, pois o livro está muito aquém do patamar que Kajuru alcançou no rádio e na TV.
 
Excesso de falhas torna lista entediante
 
Na chamada grande imprensa, o que mais repercutiu de Condenado a Falar foi a lista “De A a Z”, mas há tanto erro que vira um tédio conviver com tamanho volume de falhas. Rebatiza mais da metade dos que define. O piloto Ayrton Senna aparece com uma reta, a do “i”, no lugar da encruzilhada do “y”. O dirigente esportivo Afonso Della Mônica surge grafado como na história em quadrinhos, mas não leva coelhadas por ter um chapeuzinho sobre o “o”, inexistente na certidão de nascimento. O canal de esportes da TV paga SporTV muda de gênero e vira feminino. Se os canais da Globo se transformam em travestis, o mesmo não ocorre com o fenômeno Ronaldo. Quando Kajuru editou o livro, em fevereiro passado, o Fenômeno ainda não havia se envolvido com os travestis no Rio nem Casagrande internado com drogas (um furo de Placar, a revista cuja morte Kajuru decreta na lista).
 
Passam de três centenas os erros, de A a Z, de todos os tamanhos, principalmente nos nomes dos envolvidos. Nada que não possa ser revertido na próxima edição, quando já terão sido vendidos 500 mil livros, mas se salvarão os próximos 500 mil. Faltou apenas conferir. Não precisaria, para isso, nem pagar revisor. Uma hora de consulta ao Google bastaria.
 
Condenado a Falar é ocupado por goianos do jornalismo (como Batista Custódio e Luiz Carlos Bordoni), da política (porrete em Marconi Perillo, muro para Iris Rezende, elogios a Ronaldo Caiado, referências a Jorcelino Braga), do empresariado (Rivas Resende, Odilon Valter Santos, Paulo Panarello Neto). A maioria aparece em reproduções de reportagens das revistas Veja (de que Kajuru diz ter sido fonte em matéria contra Marconi) e IstoÉ (que Kajuru chama de IstoFoi). Na lista, diz que Batista Custódio é do Diário da Manhã, mas poderia ser do New York Times, o jornal mais influente do mundo, e que “sabe escrever como mais uns três gênios”, mas não nomina o trio de texto perfeito. Como na maioria das definições, cutuca Batista: “Uma pena vê-lo vendendo mais opiniões do que espaços para poder sobreviver”.
 
Mesmo os goianos com os quais conviveu muito, fazendo até parte da família, são rebatizados. O dono do Goiás Esporte Clube, Hailé Pinheiro, cujo primeiro nome aparece com agudo em quase todo lugar, no livro tem um circunspecto circunflexo. Kajuru define Pinheiro com uma palavra: “Honesto”. Emitido por Kajuru, é um elogio e tanto, pois raramente destina o termo a alguém, muito menos para dirigentes de clubes de futebol. Iris (com agudo) Rezende (com “s”) é definido como “inimigo previsível. Politicamente, um zero. À direita”. Tem muito significado. Ou nenhum.
 
O maior inimigo de Kajuru em Goiás, o senador Marconi Perillo, é assim descrito: “Por algumas vezes eu tive vontade de matá-lo. Passou. Jorge Luís Borges tinha razão, ‘o esquecimento é a única vingança e o único perdão’. Marconis e os Miltons da imprensa: Borges foi ponta esquerda do Bangu!”. Os marconistas vão dizer que falta vírgula depois de “vezes”, o nome do escritor está grafado com um agudo a mais e falta hífen entre ponta e esquerda, além de sobrar “os” antes de Miltons, certamente, uma referência a seu maior inimigo na crônica esportiva, Milton Neves, responsável por 10 por cento dos mais de cem processos abertos contra Kajuru. 
 
NILSON GOMES é jornalista. 

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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:05 PM

Li­vro re­ve­la que ex-pre­si­den­te do Co­mi­tê Olím­pi­co In­ter­na­ci­o­nal foi agen­te da KGB

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A cor­rup­ção de Stá­lin era mo­ral (era perverso, sádico e pragmático) e te­ria mor­ri­do po­bre (se­gun­do os au­to­res do li­vro, pro­va­vel­men­te en­ve­ne­na­do). Pu­tin e seu gru­po, pe­lo con­trá­rio, são mi­li­o­ná­rios, me­du­lar­men­te cor­rup­tos e adep­tos da boa vi­da em tem­po in­te­gral. A no­va No­menkla­tu­ra ex­tor­que em­pre­sá­rios e o pró­prio Es­ta­do

"A Era dos As­sas­si­nos - A No­va KGB e o Fe­nô­me­no Vla­dí­mir Pu­tin" (Re­cord, tra­du­ção de Mar­ce­lo Schild, 391 pá­gi­nas), dos his­to­ri­a­do­res Yu­ri Felshtinsky e Vla­dí­mir Pri­bi­lovski, é um livro rico em revelações. Du­ran­te o de­ba­te en­tre os can­di­da­tos a pre­si­den­te dos Es­ta­dos Uni­dos, o re­pu­bli­ca­no John McCain dis­se: "Eu vi nos olhos de Pu­tin três le­tras: KGB". Quem não se in­te­res­sa pe­la his­tó­ria da Rús­sia po­de pen­sar que se tra­ta ape­nas de uma boa fra­se de efei­to. De­pois da lei­tu­ra de "A Era dos As­sas­si­nos", o lei­tor con­clu­i­rá que McCain re­su­miu a his­tó­ria do li­vro, ou se­ja, a his­tó­ria re­cen­te da Rús­sia.

Os his­to­ri­a­do­res mos­tram, com uma in­fi­ni­da­de de in­for­ma­ções, que a Kon­to­ra, co­mo é co­nhe­ci­da a KGB (o no­vo no­me é FSB, Ser­vi­ço de Se­gu­ran­ça Fe­de­ral da Rús­sia), fi­nal­men­te con­se­guiu con­quis­tar o po­der na Rús­sia. É a pri­mei­ra vez, na his­tó­ria do pa­ís, que a cor­po­ra­ção, a po­lí­cia se­cre­ta, de­tém o con­tro­le po­lí­ti­co e man­da na eco­no­mia. Opo­si­to­res, se­jam po­lí­ti­cos ou em­pre­sá­rios, são bru­tal­men­te as­sas­si­na­dos e as in­ves­ti­ga­ções dão em na­da. Cer­ca de 50 em­pre­sá­rios e ban­quei­ros fo­ram as­sas­si­na­dos des­de que Pu­tin as­su­miu o po­der. Sob Stá­lin, a KGB, com ou­tro no­me, era for­te, mas não tão for­te quan­to ago­ra. Um dos mé­ri­tos do li­vro é mos­trar que Pu­tin go­ver­na sob con­tro­le da KGB. Sua re­la­ti­va au­to­no­mia po­de ser com­pro­va­da ape­nas num cam­po: o gos­to ex­tre­ma­do e vai­do­so por es­por­tes.

Pu­tin (ou a KGB) não tem ad­ver­sá­rios, tem ini­mi­gos e, por is­so, eli­mi­na-os de mo­do im­pla­cá­vel. Al­guns são mor­tos a ti­ros; ou­tros, en­ve­ne­na­dos. A jor­na­lis­ta An­na Po­litkovskaya, que in­ves­ti­gou a fun­do a guer­ra da Tchet­chê­nia e des­mas­ca­rou as men­ti­ras de Pu­tin, foi as­sas­si­na­da. Os ali­a­dos de Pu­tin sa­bi­am que o pre­si­den­te (ho­je, pri­mei­ro-mi­nis­tro, mas man­dan­do no pre­si­den­te Dmi­tri Med­ve­dev, por­que es­te não de­sa­fia a Kon­to­ra) de­tes­ta­va Po­litkovskaya. Re­sul­ta­do: se uni­ram e, no dia 7 de ou­tu­bro de 2006, da­ta do ani­ver­sá­rio de Pu­tin, ma­ta­ram a bri­lhan­te e co­ra­jo­sa re­pór­ter. Tu­do in­di­ca que os man­dan­tes do cri­me são a FSB, Ram­zan Ka­di­rov e Umar Dja­brai­lov.

O ex-te­nen­te-co­ro­nel Ale­xan­der Lit­vi­nenko co­me­teu um cri­me gra­ve do pon­to de vis­ta da KGB: traiu-a. Os trai­do­res são as­sas­si­na­dos pe­la Kon­to­ra, em ge­ral de mo­do cru­el. Lit­vi­nenko ou­sou de­nun­ci­ar que a cor­po­ra­ção es­ta­va se pre­pa­ran­do pa­ra ma­tar o oli­gar­ca Bo­ris Be­re­zovski (o bilionário que tentou mandar no time do Corinthians). Foi pre­so e, pa­ra não mor­rer, exi­lou-se na In­gla­ter­ra. Acre­di­tou que es­ta­va sal­vo. A KGB lo­ca­li­zou-o e o en­ve­ne­nou com Po­lô­nio-210, ve­ne­no ra­dia­ti­vo letal.

Sa­be-se que ou­tros jor­na­lis­tas, in­te­lec­tu­ais, po­lí­ti­cos e em­pre­sá­rios vão mor­rer. Bas­ta se co­lo­carem em opo­si­ção a al­gu­ma de­ci­são do go­ver­no da KGB. A mí­dia é ho­je qua­se que in­tei­ra­men­te con­tro­la­da pe­lo go­ver­no de Pu­tin-Med­ve­dev. A Kon­to­ra mu­dou a le­gis­la­ção e a mí­dia, quan­do não es­tá sob cen­su­ra, é in­tei­ra­men­te con­tro­la­da pe­la cor­po­ra­ção.

Há ou­tro as­pec­to pou­co dis­cu­ti­do a res­pei­to de Pu­tin. A cor­rup­ção de Stá­lin era mo­ral (era perverso, sádico e pragmático) e te­ria mor­ri­do po­bre (se­gun­do os au­to­res do li­vro, pro­va­vel­men­te en­ve­ne­na­do). Pu­tin e seu gru­po, pe­lo con­trá­rio, são mi­li­o­ná­rios, me­du­lar­men­te cor­rup­tos e adep­tos da boa vi­da em tem­po in­te­gral. A no­va No­menkla­tu­ra ex­tor­que em­pre­sá­rios e o pró­prio Es­ta­do. A es­quer­da bra­si­lei­ra, que fa­la tan­to em pri­va­ta­ria, de­ve­ria ler a his­tó­ria de co­mo Pu­tin pri­va­ti­za es­ta­tais ou de co­mo es­ta­tais pri­va­ti­za­das são retomadas de em­pre­sá­rios. Não há se­gu­ran­ça ju­rí­di­ca al­gu­ma e quem re­cla­ma mor­re ou tem de sa­ir do pa­ís.

A de­te­rio­ra­ção mo­ral che­gou a tal pon­to que o gru­po de Pu­tin é acu­sa­do até mes­mo de en­vol­vi­men­to com o trá­fi­co de co­ca­í­na. "As prin­ci­pa­is ro­tas de en­tra­da de co­ca­í­na na Eu­ro­pa", se­gun­do os au­to­res do li­vro, pas­sam pe­la Rús­sia. Eles re­ve­lam que 1.092 qui­los de co­ca­í­na, pro­ve­ni­en­tes da Co­lôm­bia, de­sa­pa­re­ce­ram nas mãos da KGB. Os tra­fi­can­tes de dro­gas rus­sos man­têm re­la­ções cor­dia­is com os ali­a­dos de Pu­tin. São pro­te­gi­dos.

As olim­pía­das de in­ver­no de 2014 se­rão re­a­li­za­das em So­chi e os ali­a­dos de Pu­tin se tor­na­ram pro­pri­e­tá­rios dos me­lho­res ne­gó­ci­os da re­gi­ão. Co­mo Pu­tin con­ven­ceu o ex-pre­si­den­te do Co­mi­tê Olím­pi­co In­ter­na­ci­o­nal, o es­pa­nhol Juan An­to­nio Sa­ma­ranch, a apo­i­ar So­chi pa­ra se­de das olim­pía­das?

Felshtinsky e Pri­bi­lo­viski re­ve­lam que, quan­do em­bai­xa­dor da Es­pa­nha na ex­tin­ta Uni­ão So­vi­é­ti­ca, Sa­ma­ranch ti­nha o há­bi­to de com­prar an­ti­gui­da­des, atividade considerada ilegal, e, por is­so, foi in­ves­ti­ga­do pe­la KGB. Agen­tes da Kon­to­ra "ofe­re­ce­ram du­as op­ções a Sa­ma­ranch: ele po­de­ria ser com­pro­me­ti­do atra­vés de pu­bli­ca­ções de ar­ti­gos na im­pren­sa so­vi­é­ti­ca e es­tran­gei­ra de­ta­lhan­do su­as ati­vi­da­des ile­gais, o que, sem dú­vi­da, en­cer­ra­ria sua car­rei­ra di­plo­má­ti­ca, ou po­de­ria co­la­bo­rar com a KGB co­mo agen­te se­cre­to. Sa­ma­ranch es­co­lheu a se­gun­da op­ção".

Sa­ma­ranch foi elei­to pre­si­den­te do COI, em gran­de par­te, por ter ob­ti­do o apoio da KGB, que in­flu­en­ciou os paí­ses do Les­te Eu­ro­peu. Mais tar­de, o "agen­te" es­pa­nhol re­tri­bu­iu o fa­vor, ago­ra pa­ra Pu­tin, e ve­tou ou­tros paí­ses e con­ce­deu à Rús­sia o di­rei­to de se­di­ar as olim­pía­das de in­ver­so de 2014.

Os au­to­res do li­vro ava­li­zam a te­se de que Lê­nin e sua mu­lher fo­ram en­ve­ne­na­dos a man­­do de Stá­lin. Leia abaixo sobre a o crueza com que Putin tratou um de seus inimigos, Iuri Shutov.
 
O caso do inimigo de Putin

O texto a seguir foi extraído do livro "A Era dos Assassinos - A Nova KGB e o Fenômeno Vladímir Putin" (Editora Record), de Yuri Felshtinsky e Vladímir Pribilovski. O título do capítulo é "Iuri Shutov" (páginas 256, 257, 258, 259 e 260).

Ao contrário da descrição do hábito do presidente Putin de não se esquecer dos amigos, devemos comentar sobre como ele lida com os inimigos. Quando Putin se decide a "pôr fim em alguém", ele não descansa até atingir o objetivo.

Quando Putin começou a trabalhar para Sobtchak, em 1990, Sobtchak tinha pessoas trabalhando para ele que, segundo Putin, "desde então, conquistaram notoriedade e prestaram maus serviços a Sobtchak". Putin referia-se acima de tudo a Iuri Shutov, um executivo e político de caráter duvidoso que era o conselheiro extra-oficial do presidente da Lensovet, Sobtchak, durante a primavera e o outono de 1990 (oficialmente, Shutov serviu de conselheiro para Sobtchak por apenas alguns dias, de 5 a 12 de novembro de 1990).

No período soviético, o pequeno burocrata Shutov fora acusado de tentar incendiar a câmara de deputados de Leningrado (Smolny) visando destruir provas de seus delitos financeiros. Ele foi posto na prisão. Durante a Perestróica de Gorbatchev, Shutov foi perdoado e, em seguida, exonerado. Obviamente, ele não pretendera incendiar o Smolny. Depois que Sobtchak o acolheu e o expulsou vergonhosamente mais tarde (aparentemente, sob aconselhamento de Putin), Shutov começou a reunir provas incriminatórias contra Sobtchak e seu círculo mais próximo. Era um período difícil, todos quebravam as leis e havia uma profusão de provas incriminatórias a serem reunidas. Mais tarde, parte do material reunido por Shutov entrou em seu panfleto em forma de livro, "O coração de Sobtchak (Sobchachie serdtse, um trocadilho com o título do famoso romance de Mikhail Bulgakov, Sobachie serdtse, "O coração de um cachorro") e em sua continuação, "Os delitos de Sobtchak, ou Como Todos Foram Roubados" (Sobchachya prokhindiada, ili kak vsekh obokrali). A intenção era a de que os livros fossem as duas primeiras partes de uma trilogia intitulada "Roubo".

Para escrever os livros, Shutov foi ajudado por Mark Grigoriev, um jornalista profissional que publicara certa vez um artigo na revista Ogonyok sobre a tentativa de "incendiar" o Smolny, que contribuíra fortemente para o perdão e a exoneração de Shutov. O escritório de Shutov ficava no Hotel Leningrado. Shutov alugou um quarto para seu co-autor no mesmo hotel, e os dois escritores trabalharam em paz no livro - que, obviamente, não poderia trazer alegrias a Sobtchak.

Em fevereiro de 1991, houve um incêndio no hotel que resultou na morte de Mark Grigoriev. Isso não intimidou Shutov, que prosseguiu obstinadamente com o trabalho que iniciara. De algum modo, ele obtivera uma gravação de uma conversa casual entre Sobtchak e um residente da inteligência francesa na Rússia. Sobtchak pediu que Putin interviesse e impedisse a publicação da conversa. E Putin, utilizando o Diretório Regional de Leningrado para o Combate ao Crime Organizado (Rubop), organizou uma batida no apartamento de Shutov e confiscou a fita com a gravação.

A batida e a busca foram conduzidas de modo ilegal e não-oficial. Na noite de 6 de outubro de 1991, Shutov entrou no próprio apartamento e encontrou ladrões no interior. Quando fugiram da cena do crime, os criminosos quebraram o crânio de Shutov com um martelo. Quando, vários meses depois, em março de 1992, Shutov recebeu a visita de oficiais do governo com um mandado de busca oficial e uma ordem de prisão (por organizar um atentado contra a vida do presidente do Azerbaijáo, Abulfaz Eltcibei, o que era tão verossímil quanto a acusação anterior de tentar incendiar o Smolny), Shutov reconheceu um deles, Dmitri Milin, como um dos ladrões que lhe fraturara o crânio. Acabou sendo descoberto que o segundo "ladrão" era um colega de Milin, Dmitri Shakhanov. Os dois eram oficiais de alto escalão da Rubop de Leningrado. Depois de passar um ano e meio em uma prisão pré-julgamento, Shutov foi inicialmente libertado com a condição de não deixar o país e, em 1996, foi plenamente absolvido por uma decisão da corte do distrito de Vyborgsky, de São Petersburgo.

Nos dois primeiros panfletos anti-Sobtchak (publicados, respectivamente, em 1992 e em 1993), o vingativo Shutov não mencionou uma única vez o nome de Putin. Mas, em 1998, Shutov tornou-se deputado da assembléia legislativa da São Petersburgo e começou a acreditar que agora estava realmente protegido pela imunidade parlamentar, à qual tinha direito por conta de sua posição. Através do jornal Novy Peterburg, o qual patrocinava e onde escrevia uma coluna intitulada "Todos os Homens do Rei", Shutov lançou o rumor de que o novo diretor da FSB, Vladimir Putin, fora chamado de volta da Alemanha Oriental durante o período que passara lá como oficial da inteligência internacional por ofensas traidoras contra a Rússia: "Durante os quase cinco anos em que prestou serviço na Alemanha Oriental, o capitão Putin da KGB não conquistou resultados visíveis. Contudo, foi observado entrando em contato não-sancionado com um membro da rede de agentes inimiga. Depois disso, foi enviado imediatamente para a União Soviética, aonde chegou em um automóvel GAZ-24 Volga usado, comprado na Alemanha Ocidental, com três tapetes produzidos na Alemanha."

No mesmo artigo, Shutov apresentou a própria interpretação do relacionamento entre Putin e Sobtchak, quando Putin era supervisor da KCB na Universidade Estadual de Leningrado e Sobtchak era professor na faculdade de direito da universidade. Segundo Shutov, Sobtchak era um agente freelancer e informante de Putin. Putin "precisava coletar informações para a KGB, trabalhar com agentes empregados pela universidade e recrutar novos informantes... O professor Sobtchak acabou preso na rede de interesses da KGB e informava de bom grado ao assistente pró-reitor, Putin, sobre toda a gama de assuntos que o interessavam. Posteriormente, em 1990, um pequeno fichário contendo os relatórios originais deste informante, escrito à mão, chamado na terminologia burocrática da KGB de ´pasta de trabalho do agente, tornou-se um argumento muito forte em apoio à nomeação de Putin como conselheiro do presidente da câmara de deputados da cidade de Leningrado, Sobtchak".

Os leitores do "Novy Peterburg" nunca descobriram se o que Shutov escrevera era verdade. A resposta de Putin, que na época era diretor da FSB, veio menos de dois meses depois da publicação do controverso artigo de Shutov. Em fevereiro de 1999, por decisão da corte, Shutov perdeu a imunidade parlamentar e foi preso sob suspeita de organizar uma série de crimes graves, incluindo o assassinato de um oficial proeminente da cidade, Mikail Manevitch, em São Petersburgo, em 1997, e o assassinato de uma ativista democrata proeminente, Galina Starovitova, em 1998. Para atacar Shutov, Putin chegou a utilizar o famoso repórter oficial da televisão Mikhail Leontiev, que apareceu no Canal Um da televisão russa exigindo punição para o "bandido e malfeitor".

No entanto, em novembro de 1999, a corte do distrito de Kuybyshev de São Petersburgo alterou as restrições pré-julgamento para uma promessa de não deixar o país e determinou que Shutov fosse libertado da prisão. Shutov foi libertado diretamente do tribunal, mas, alguns minutos depois, homens mascarados e armados invadiram o local. Houve uma briga, durante a qual diversas pessoas ficaram feridas, incluindo um operador de câmera da televisão, cujo braço foi quebrado, e o próprio Shutov, que levou várias coronhadas e socos na cabeça e acabou desmaiando. Segundo Shutov, os homens mascarados levaram-no para o prédio da promotoria municipal e o espancaram. Por causa do espancamento, Shutov perdeu metade da audição e um olho. Médicos independentes não tiveram permissão para entrar na promotoria, enquanto os especialistas médicos do governo diagnosticaram que o acusado estava com a saúde perfeita. No entanto, vários dias depois, foi realizada uma audiência na corte a pedido dos advogados de Shutov, e os paramédicos ambulanciais que haviam sido convocados para a audiência entregaram um relatório médico exigindo a hospitalização imediata de Shutov. Mas, em vez de ser hospitalizado, Shutov foi enviado para a prisão pré-julgamento de São Petersburgo, sendo transferido depois de algum tempo para a prisão de Vyborg.

Inicialmente não estava claro quem organizara a abdução de Shutov do tribunal. Posteriormente, a promotoria municipal de São Petersburgo assumiu a responsabilidade pela ação. A unidade de forças especiais (OMON) que invadira o tribunal fora enviada de Moscou para realizar a operação.

Ativistas de direitos humanos e democratas adotaram uma posição fraca e hesitante em relação ao "caso Shutov", pois as visões antiliberais e antiocidentais de Shutov eram inegáveis e ele provavelmente tinha conexões com o mundo do crime. Apesar do perdão do tribunal e da determinação da Suprema Corte Russa da ilegalidade de Shutov ser mantido preso, apesar da reeleição de Shutov para o parlamento da cidade em 2002, o inimigo pessoal de Putin passou sete (!) anos sendo transferido entre diferentes prisões pré-julgamento sem ser condenado, sendo finalmente condenado à prisão perpétua em fevereiro de 2006 por organizar uma série de assassinatos por contrato de executivos (as acusações de ter assassinado Manevitch e Starovoitova foram retiradas).

Nunca foi descoberto quem matou Manevitch e Starovoitova. Staravoitova foi morta na entrada do prédio onde morava. O assassinato de Manevitch foi executado de modo altamente profissional. O assassino atirou no topo de um prédio alto com um rifle de mira telescópica em um carro que parara em um sinal de trânsito. As balas atravessaram o teto do veículo. A mulher de Manevitch estava com ele no carro no momento do assassinato, mas não foi ferida. Investigadores criminais desenvolveram diversas teorias possíveis em relação ao incidente. Eles também descobriram como Manevitch conhecera quem seria sua futura esposa. Um certo agente da FSB pedira a uma jovem mensageira que pegasse um trem para Moscou e entregasse uma bolsa lacrada a um homem que a encontraria na estação Leningradsky. No trem, um jovem chamado Mikhail sentou-se ao lado da jovem. Eles passaram toda a noite conversando e trocaram números de telefone. Em Moscou, quando desceu do trem, a jovem foi realmente recebida por um homem. Ele pegou a bolsa, afastou-se um pouco e, acreditando que não estava mais sendo visto, jogou a bolsa em uma lata de lixo sem nem abri-la.

O jovem do trem era Mikhail Manevitch. A jovem era sua futura esposa. O agente da FSB que pedira a ela para entregar a bolsa era Vladimir Putin. Só se pode imaginar quem foi "agente" de quem neste incidente e quem foi o "objeto".


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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:03 PM

A poesia de Rio do Sono

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A
poesia de Rio de Sono é original e forte. Constitui a primeira manifestação significativa da poesia denominada de modernista em Goiás. Poesia de lirismo e simplicidade, ternura por tudo o que existe, uma captação da essência amarga da vida, da essência alegre da vida
 
José Godoy Garcia

Alaor Barbosa

Rio do Sono
, o primeiro livro de poesia de José Godoy Garcia, foi editado há 31 anos pela Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, da Prefeitura de Goiânia. Apesar de tanto tempo passado, pouca gente o conhece fora de Goiás, e mesmo em Goiás.

Até hoje os livros publicados em Goiás não têm conseguido atravessar as fronteiras de Goiás e jazem escondidos numa espécie de ineditismo às avessas – situação de humildade muito própria dos goianos. Que-dirá em 1948, quando Goiânia ainda era uma capital sem nenhuma expressão e importância e Goiás mal deixava de ser uma terra remota e ignorada. Conta Machado de Assis, em uma das suas crônicas, que na sua época um grupo de escritores pensou em organizar uma expedição para viajar ao sertão a fim de ver se Goiás existia mesmo…

Sempre foi muito pobre e atrasada, a literatura de Goiás. Por causa do atraso econômico e do isolamento geográfico, a produção intelectual dos goianos foi até há pouco tempo muito escassa, chinfrim, imitativa e retardatária. Os movimentos da criação literária e transformação cultural chegaram sempre com muito atraso a Goiás. No tempo da colônia quase nada se produziu. Após a Independência, o que se fez tem pouca importância e significação. Goiás tem sido uma região periférica. O arcadismo de Minas e do Rio, o neoclassicismo da época da mineração, por exemplo, se manifestou em Goiás, porém com um atraso grande no tempo e trazido por um poeta talvez mineiro, talvez carioca, Bartolomeu Antônio Cordovil. O romantismo já morria em São Paulo e no Rio de Janeiro quando Félix de Bulhões o praticou em Goiás; e já morrera fazia muito tempo, quando Joaquim Bonifácio de Siqueira ainda continuava — fiel — a exercê-lo. E o Modernismo da década de 1920 só chegou a Goiás vinte anos depois, com Bernardo Élis, José Godoy Garcia e outros.

A geração de escritores e poetas que em Goiás superou o romantismo e o parnasiano apareceu, de fato, em redor de 1940.

A situação cultural de Goiás, na época do aparecimento do Rio do Sono, apresentava poucos pontos de contato com a dos centros culturais maiores São Paulo e Rio de Janeiro. Goiânia vivia um tempo diferente. Um tempo anterior. Os escritores e poetas que começaram a atuar em Goiânia, depois de 1930 e principalmente entre 1940 e 1950, enfrentaram a tarefa de superar um meio estacionado na atmosfera cultural do fim do século passado — um misto de romantismo e parnasianismo, castroalvismo e bilaquismo.

A poesia de Rio de Sono é original e forte. Constitui a primeira manifestação significativa da poesia denominada de modernista em Goiás. Poesia de lirismo e simplicidade, ternura por tudo o que existe, uma captação da essência amarga da vida, da essência alegre da vida. Aqui e ali, um tom de brincadeira e malícia, próprio dos poetas do 1922 paulista. Eis uma amostra, tirada do poema “Evocação de Maria Elvira”:
 
Um dia Maria Elvira me chamou no quintal de sua casa,
subiu no pé de manga,
apanhou manga
e jogou uma especialmente
para mim.
 
Joga, Maria Elvira ! ( A calcinha dela estava suja.)
      
Mas a poesia de Rio do Sono é séria diante da vida.

O autor inscreveu sob o título uma advertência: “Este livro foi escrito numa época em que não havia liberdade”. Refere-se à época da ditadura de Getúlio Vargas. Vem depois uma dedicatória: “Este livro é para MÁRIO DE ANDRADE, que morreu, mas há de ficar para sempre como lembrança de um homem; dedicado também aos outros homens, com exceção de Hitler, Mussolini, e Franco.”

A advertência e a dedicatória produzem uma impressão enganosa sobre o livro. Pensa-se que se vai ler um livro de poesia panfletária. Mas não é isso que acontece. Ao contrário. Na maioria dos poemas, Rio do Sono é repassado de lirismo, amor ao próximo, caridade, dó. Poesia toda compreensão e ternura humana, anseio de bondade, deseja de solidariedade. Poesia rica de observações psicológicas verdadeiras, essa espécie de verdades óbvias que a gente é quase tentado a consideração como a essência da poesia.
Aqui uma amostra:
 
A humildade dos homens que tiram retratos,
as mãos caídas,
o rosto firme, a roupa nova.
 
A humildade dos que devem,
A humildade dos que precisam de emprego,
a humildade dos que não esperam mais nada da vida,
acham que tudo é uma bobagem,
tiveram grandes decepções.
 
O poema termina assim:
 
Dentro, bem dentro de nós todos,
a mesma angústia, essa percepção que não se define
ao contacto das mãos, mas resiste ao vento, às chuvas,
aos dissabores e, principalmente,
aos inumeráveis equívocos a que sempre
estamos sujeitos...
 

Olhando a paisagem, o poeta vai definindo-a é um largo de cemitério. O poema se intitula “Paisagem gozada”:
 
O largo do cemitério é triste.
Você se lembra do velho Egídio?
Ele está dormindo nesta hora de sol quente.
No largo do cemitério da vida pára
quando os homens passam:
parece que os mortos, de dia, passeiam ali.
Pôr isso o largo é triste.
Ele é enorme e sofre do destino amargo de largo de cemitério.
 

O poeta e a noite. Vista e sentida, a noite provoca idéias, suscita sentimentos, relaciona-se como poeta:
 
A noite é uma mulher.
A noite quieta tem uivos
de cachorra doente.
A noite é como o silêncio
de um animal sofrendo.
A noite é pura como as mulheres
que andam à cata de homens.
A noite é a mesma criança sem rumo
como as que pedem esmolas instruídas pelos pais.
A noite é uma mulher
morta em desastre quando levava comida
para o marido operário...
A noite é um brinquedo de criança no lixo.
 

O poeta de Rio do Sono lembra aquela auto-definição de Carlos Drummond de Andrade:
 
Poeta do finito e da matéria
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas.
 

As lágrimas de Godoy Garcia não são fáceis, embora a piedade esteja no fundo da sua dureza. O poeta se afirma humano:
 
Gosto de todos.
Mesmo aos que consideramos inimigos;
para esses tenho as minhas reservas
nunca, porém, o meu ódio.
Sou daqui,
deste mundo.
 

Poeta do humano, “daqui, deste mundo”. Daí falar de preferência de crianças, bêbados, prostitutas, párias, arruinados, heróis anônimos, gente humilde. Sempre sem retórica e sem ênfase. Com versos diretos e curtos. Imagens substantivas e nuas.

No poema “Mulher do Povo”, a mulher é Rosa, o que lembra Drummond:
 
Rosa tinha um rosto
de menina.
Rosa tinha os seios
de moça
Rosa tinha os olhos
de uma prostituta.
Rosa tinha formas
de um irmão.
 
E no fim:
 
Rosa é pura e não sabe negar
quando
homens no beco se atiram contra ela
fedendo a suor
ou mesmo quando chove muito
que o barro toma conta do corpo
e eles fedem a roupa molhada, com mistura de barro
e suor.
Ela é pura como todas as puras
e em verdade ela é mulher boa e pura
como as que se entregam aos viciados em troca do
bem-estar deles
ou mesmo para servir a um amigo em horas penosas de
sua vida.
Rosa, a mulher do povo...
 

Em “A Rua dos Homens” o poeta afirma que a matéria do seu canto à a vida da rua:
 
Eu sou o poeta
desta pobre vida que está aqui na rua.
Eu sou o poeta sem muito recurso
mas faço versos assim mesmo:
alma da multidão que está na rua.
 
Explica a rua e repete:
 
Eu sou o poeta pequeno destas ruas
e me orgulho disso; poeta deste mundo
que não aprendeu direito nem aprenderá
jamais as regras de trânsito.
Poeta destas velhas e pobres ruas,
que às vezes sobem tortas
e às vezes descem retas, profundas na noite.
 

Poema duro quanto à significação e perfeito na estrutura e ritmo é “Os párias”:
 
Caiu um olho.
O homem ficou sem ele.
Caiu um dente.
O homem ficou sem ele.
Caiu a filha.
O homem passou vergonha.
Caiu a vergonha.
Vai pedir dinheiro emprestado no bordel.
 

“Os párias” é famoso em Goiás. Porém, mais famoso é o poema “Espécie de balada da moça de Goiatuba”, que está para a literatura de Goiás como o poema da pedra no caminho, de Drummond, está para a literatura brasileira. É um poema popularizado. O seu ritmo e simplicidade, malícia e amoralidade já se incorporaram ao patrimônio poético dos goianos. Tal como o nome de Drummond lembra “pedra no caminho”, José de Alencar a “virgem dos lábios de mel”, Monteiro Lobato, Jeca Tatu — assim o poema da moça de Goiatuba se liga a Godoy Garcia como algo de característico.
 
Em Goiatuba
tem uma moça
que o coração
grande ela tem
Em Goiatuba
tem uma moça
que coração
grande ela tem.
A moça de lá
é só chamar vem.
 

Assim começa o poema; e com variação pequena, termina assim. É o poema clássico e típico não só da poesia de Godoy, mas da poesia moderna de Goiás. Afonso Félix de Souza e Jesus Jayme fizeram paródias desse poema, o que lhe demonstra a enorme força expressional.

Também caracteristicamente godoiano e já famoso é o poema “Tudo tem seu tempo”, captação extra e expressão perfeita das características da cidade pequena brasileira:
 
Tudo tem seu tempo na pequena cidade.
Tempo de casamento.
É uma fartura
de casamento.
As mocinhas novas enjeitam
as velhas se entregam.
 

Embora original, a poesia de Rio do Sono lembra a de alguns outros poetas contemporâneos. Pôr isso se pode afirmar que é uma poesia de seu tempo. Poesia que reflete um tipo de sensibilidade e interesse peculiar à época em que foi elaborada. O lirismo simples tem uma ressonância de Manuel Bandeira. Um certo sentimento amargo do mundo sugere Drummond. A dose de malícia e, como dizer?, ironia também evoca Drummond e Bandeira. E como não pensar em Drummond, o do “Canto ao homem do povo Charlie Chaplin”, quando se lê o “Canto ao poeta irmão de Harlem”?
 
Li, Langston Hughes,
eu li o teu poema “O negro fala dos rios”
E perante todos, neste instante de lutas, (não quero o silêncio, que é forma de luta de covardes),
eu quero falar de negros,
muito me comove falar dos negros.
 

O poeta Godoy Garcia abre a camisa ao peito e se diz filho remoto de Espanha. E canta:
 
A tua cantiga é de paz, Langston Hughes,
é canto de guerra.
 

Hughes está longe — nos Estados Unidos – e a mensagem a ele terá de percorrer uma distância enorme:
 
                                            Eu te quero afirmar que esta mensagem por sim mesma
é a mais simples acenação que um homem pobre colocado no sertão
do Brasil te pode fazer.
 
O poeta clama pela união dos homens — união e eficiência na luta:
 
                                 É preciso que suportemos os fantasmas porque senão
jamais eles serão destruídos,
de nada vale a batalha individual dos matadores de baratas,
será preciso uma desinfecção geral, poeta.
 
No poema “Menino Sozinho”, o quadro é de pintura e fábula:
 
Não há mão: há um toco de mão
Vem do campo onde ele mora montado em seu cavalo,
Vem no trote mole, desenhado curvas através das moradas, pedindo a sua esmola.
De longe, quando avista os meninos brincando no largo,
ele já apressa a marcha, depois fica ali parado,
esquecido, olhando os meninos.
 

O menino faz um intervalo curto e prudente na faina de mendigar, e se vai.
 
Quando volta, de longe ainda volve os olhos e observa
a garotada que vai pela noite a dentro,
despreocupada, como multidão de pássaros
no céu limpo e azul.
 

O poeta atravessa uma época difícil, dura: o mundo sofre, o mundo geme: uma guerra assola e calcina o mundo, desfigura a terra, a boa terra dos homens — a guerra destrói as cidade e as plantações dos homens. A época é de crueldade lá fora, lá longe: os nazista dominaram a Alemanha e cresceram para cima do resto da Europa, cresceram para a Violência organizada cientificamente. O poeta mora afastado do teatro da violência: está em Goiás, e somente sabe da Violência organizada cientificamente. O poeta mora afastado do teatro da violência: está em Goiás, somente sabe da Violência porque os jornais contam, o rádio noticia, as informações circular e chegam até este interior longínquo do Brasil. O poeta é contra a Violência. Quando a França caiu, o poeta gravou o momento amargo:
 
Eu escrevo o meu verso no escuro.
Ele traz o mesmo som do escuro.
Ele conserva minha alma.
Sei que a mão traça no rude papel as palavras mais rudes
trágicas palavras sem pontuação
nos caminhos certos.
Há uma chaga negra que desce,
entra pela pauta:
são as palavras que se consomem
ante a treva do papel.
Sei que este é o meu verso mais puro
Como a troca de olhar no momento exato da morte,
meu verso fixou este momento, esta insônia, estse pensamentos e estas quatro horas da manhã, silenciosas e trágicas.
 
O poema “Verdade” tem um tom de fábula imemorial e perene:
 
A criança foi buscar o mar
e trouxe o mar, brincando.
 

O mar foi então arrumado nas covas já preparadas; a lua foi trazida; houve conseqüências:
 
O mar estava fazendo as pazes com as novas terras
e olhava para as crianças com muita gratidão porque
até o próprio mar não acreditava
e agora ele dava graças por estar gozando da nova vida.
 
O lirismo de Godoy Garcia tem muita força:
 
Quando uma moça dorme
é ver coelinho dormindo
a gente pensa muita coisa
e ri dos pensamentos...
 
Outra amostra:
 
Quando as noites mais claras
são misericórdia para os que amam,
quando nós nos conhecemos intimamente,
quando são límpidas as noites, irmã,
a vida se torna generosa como o nascer
de broto na hora estranha da madrugada.
Quando as noites são tristes e velhas,
a resignação e a dignidade de todos
repousam no silêncio selvagem
das almas desesperadas.
Oh, irmã, nós dois caminharemos tristes, nós dois seremos como cegos unidos,
sem esquecer que tão logo seja possível
lutarmos pela vida, pelos homens, irmã.
 

A poesia de Rio do Sono é íntima das coisas perenes — o ar, a madrugada, a manhã, a noite, a mocidade, a velhice, o amor, a morte, a água, o mar, os rios, a coragem, a dignidade, a luta, a bondade, o tempo... É uma poesia do brilho de orvalho da verdade mais corriqueira e simples. Poesia de poucas imagens e metáforas, ordena-se como uma seqüência — em ritmo quase de prosa — de verdades coordenadas com energia e concisão: beleza concentrada. O verso mais simples é um achado revelador, uma informação inaugural, que surpreende e entusiasma. É a voz de um poeta sentidor do mundo, espiador do mundo, compreensivo e amoroso a todas as coisas. Poesia de sentimento sertanejo, sim, mas de expressão universal. Uma voz de Goiás no mundo.

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POR EM 08/12/2008 ÀS 05:51 PM

Memórias de um Vampiro

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Há uma solidão dos criminosos e assassinos, que pode ser a mesma de artistas e intelectuais. Daí existirem, na realidade como na arte, pessoas que cometem crimes bárbaros, como atos de terrorismo, seqüestro, tortura e morte de pessoas, em nome de Deus, da pátria, da liberdade. Outros fazem porque sofrem a terrível solidão de não serem ou de não se sentirem amados
 
                 
O personagem do romance A Confissão, de Flavio Carneiro, lembra em muito Raskolnikov, personagem de Crime e Castigo, bem como o narrador de Memórias de Um Homem do Subsolo, de F. Dostoiévski. Como Raskolnikov, o estudante assassino de Crime e Castigo, o personagem de A Confissão parece sofrer de um “excesso de consciência”, se é que a consciência possa ser excessiva. Mas sabemos: crimes coletivos como guerras de extermínio, holocausto e genocídio são cometidos em nome da boa consciência.
                       
O personagem sem nome de Flavio Carneiro é um homem do subsolo (embora seja adepto de freqüentar bibliotecas, mas por motivos pouco nobres). É um vampiro em busca de do sentido da vida através da subjugação e exercício de poder como instrumentos de prazer. Como Raskolnikov, e alguém que, em nome da sobrevivência dele mesmo, se coloca acima da moral e das leis. Os dois surgem como grandes ressentidos sociais. São protótipos da criatura humana que não consegue nem quer fazer nada, mas nutre ódio mortal pelos que fazem e conseguem atingir seus objetivos.
                       
Raskolnikov comete duplo assassinato. O personagem sem nome de Flavio perpetra um seqüestro. Sua narração é labiríntica, em que o aparente desfecho é abertura para outra história de um outsider (estrangeiro em si mesmo) buscando entender ou justificar seu ato criminoso.  Se Raskolnikov, dilacerado por idéias e ideais de viver em uma sociedade perfeita, de onde os fracos e os incapazes são alijados (vistos como aleijados), o personagem de Flavio vive de livros, ou melhor, de roubá-los. Ou seja: freqüenta bibliotecas não para enriquecer os miolos, mas para tirar a Biafra da barriga. Vende o miolo dos livros (com capa e tudo) para comprar o miolo do pão. Sua história configura a metáfora da violência gratuita como expressão de ressentimento social.  
                       
O homem do subsolo pode ser o ressentido impotente, que em seu diário, faz um relato de seu ódio e fracasso. O homem que seqüestra a madame para obrigá-la a escutar a história de sua vida, feita só de miséria, não quer apenas falar de si. Antes, deseja que ela também fale. Só assim pode ser espelho através do qual ele mesmo pode se ver. À vítima cabe dar uma escuta forçada ou constrangida, porque não escolhida. O seqüestrador quer mostrar à mulher que tem um Si-Mesmo, é uma pessoa, não um fantasma humano, rato famélico, que tem de fuçar lixeiras para não morrer de fome. Ou que, para almoçar, tem que vender algum livro que roubou no dia anterior, ou no mesmo dia. O faminto fanático por cardápios de restaurantes e nucas de mulheres. O medo que sente da vida é o medo que impõe às suas vítimas.
                       
Em uma alquimia delituosa, faz a arte da literatura se transformar em comida de sobrevivência. Muitos escritores também tiveram que passar por isto: vender o miolo da cabeça para roubar o miolo do pão. Lima Barreto passou fome. Em seu diário íntimo, registra: “Uma semana sem comer carne. Hoje comi uma empadinha. Que felicidade!”. Como Julien Sorel, o seqüestrador de A Confissão é o homem desafortunado e infeliz, em guerra com a sociedade. Raskolnikov mata a velha agiota e sua empregada em nome do ideal de uma sociedade culta e socialista. O personagem de A Confissão seqüestra para ser escutado. Ele comete o crime julgando-se com todo o direito de perpetrá-lo, uma vez que vive em uma sociedade que tudo perdoa, menos o fracasso.
                        
A fala-monólogo de A Confissão busca colocar no mesmo balaio a culpa de vítimas e perpetradores, uma vez que tudo está conectado, tudo vive em relação, como o personagem mesmo alega, na tentativa de explicar ou defender o seu ato. Sua vida e suas idéias guardam estreita relação com o
flaneur de Baudelaire – para não falar com o homem do subterrâneo, de Dostoiévski: “Andar a esmo pela cidade me dava uma sensação parecida com alegria, eu me sentia bem ao caminhar a esmo, perambular pelas ruas, olhar vitrines, pessoas, cartazes, às vezes pelo simples prazer físico de andar até os músculos doerem...”.
                       
“ (...) meu prazer maior, no entanto, ainda não disse, era ler cardápios de restaurantes”. Isto faz lembrar a crônica “Os olhos dos pobres”, de Charles Baudelaire, em seu
Pequenos Poemas em Prosa. Nela vemos que os olhos dos pobres, postos nos que comem, fazem com que estes, comensais, se sintam em profunda culpa, e até percam o apetite. São olhos acusadores. Em A Confissão, temos a gentileza de um seqüestrador que é ladrão e leitor de livros. Em solidão e miséria na cidade grande, comete um crime para ter um ouvido à mercê de sua fala caudalosa. Alguém por quem se apaixonou, não pela beleza, mas pelo refinamento social.
                       
Este é um criminoso que se permite querer ter modos e sentimentos delicados. Preocupa-se com a dor que deve estar sentindo o marido da mulher que seqüestrou. Afinal, ela tem família, filhos. Ele, o seqüestrador, tem palavras de alguém de gosto refinado – ao menos até a transformação que o levou a cometer o seqüestro: o momento epifânico em que se soube capaz de degustar um bom vinho, sentindo sua qualidade no paladar que ele achava que não possuía. Delicado, porém precavido: toma todos os cuidados para que sua vítima não possa fugir. Elas, em vez de se debaterem ou buscar uma fuga, ou ao menos gritar por socorro, parecem sucumbir à sua lábia, talvez possuídas pela síndrome de Estocolmo.
                       
Ele é um vampiro de sensações, emoções e sentimentos, e não quer apenas falar – também quer escutar sua vítima. Em sua fala, o homem fala do prazer que tem em estar em uma sala de cinema, como que devolvido ao útero, à proteção da caverna. Relata o horror que sente, terminada a sessão, em sair de novo à realidade, tendo de “conviver com gente de verdade, com carros, ruas desertas, mansões, madrugada, seqüestros”. Mesmo sendo uma pessoa que não vende seu tempo para ninguém, já que é desempregado crônico e opcional, não quer perder tempo... sabe o valor do tempo. E quem conhece o valor do tempo também sabe o valor do silêncio.
                       
O faminto vê como carrasco o churrasqueiro, a brandir seu enorme espeto de carnes sanguinolentas. Ver isto lhe dói como um soco no estômago. Como no poema “As bocas do tempo”, de
Brasigóis Felício: “Cronos nos come em tudo o que comemos/ comemos tempo a role/ com farinha e azeite dendê/ em tempo de roer e de ser corroídos/ o consumidor é consumido/ Quando a barriga ronca, e dana a gemer/ é Cronos querendo comer/ Comer carnes e legumes/ devorar usos e costumes. / Comemos porque sofremos/ou quando estamos infelizes/ Afinal, é preciso arrancar da precisão/a Biafra de não nos sentirmos vivos ”.
                       
O personagem fala de sua ojeriza ao trabalho. Define o fato como opção filosófica. Ele vê com desprezo as pessoas que vendem as horas de seu tempo para ganhar dinheiro. Ele mesmo só faz isto quando está nas últimas. Prefere viver de bicos, como quem aceita e prefere existir em eterno risco. Em verdade, — defende-se — tinha uma certa ética em seu “trabalho”. Não se considera um ladrão, no sentido comum da palavra, mas apenas alguém que, em nome da extrema necessidade, contribui para que os livros mudem de endereço. O que pode ser uma vantagem para eles, os livros, pois que, sendo postos a circular, podem encontrar novos leitores, indo parar em sebos nauseabundos. Só assim podem sair da solidão das bibliotecas de luxo, onde ninguém vai.
                       
Meticuloso, em seu ofício, o personagem mantinha uma caderneta, onde anotava os lugares de onde surrupiava os exemplares – assim fazendo certa justiça em seu ofício de transferidor de livros. A tristeza que sentiu ao constatar que não era um somellier, um enólogo, capaz de reconhecer a cepa de um vinho, saber até mesmo ano de safra e o lugar e temperatura onde foi colhido. Como
Lima Barreto, que em sua fome crônica, enfrentando o preconceito, certo dia desabafou: “É triste não ser branco!”, ele também poderia ter dito: “É triste não ter bom gosto!”.  Naquela noite, diz à seqüestrada “tive a constatação cruel, de que não tinha paladar, de que estava fadado a gostar para sempre de vinhos vagabundos, servidos em canecas engorduradas. Por isto bebia com raiva”. Como certos ricos que, por mais dinheiro que juntem, jamais terão refinamento e classe – ao dirigir seus automóveis de luxo, sempre serão vistos como motoristas.
                       
Agnes, aficcionada pelo vampirismo, entrega-se a ele, mesmo sabendo que será a próxima vítima. Assim se faz cúmplice do homicídio que irá sofrer. Do ressentimento como motivação de atos criminosos: Fala o seqüestrador: “Desnecessário dizer que nutria uma profunda, total, insuportável inveja de quem tinha aquilo que eu jamais conseguiria ter... invejava com todas as minhas forças as pessoas que sabiam saborear vinhos finos...”. Vemos, aí, o fator inveja como gerador de feroz ressentimento (pg.9). Logo adiante, á pg. 18, de novo a coincidência com o conteúdo da crônica “Os olhos dos pobres”, de Baudelaire. O personagem se vê de fora do restaurante, vendo os felizes apaniguados da sorte, a se empanturrarem, lá dentro, sob o conforto do ar refrigerado.
                       
É mais que sabido: os olhos dos ricos são seletivos, fazem de tudo para não enxergar o mundo deplorável dos sem-tudo. Passam por eles e não vêem, quando são abordados, nos semáforos, fecham os vidros, negam até responder aos pedidos, é como se fossem invisíveis as pessoas que as abordam. E são, mesmo. Como ficou provado em uma tese de doutorado, sobre a invisibilidade das pessoas que desempenham trabalhos humildes. Um servidor de uma universidade, conhecido por todos, fez uma experiência.

Passou a circular pelos corredores da instituição com uniforme de zelador. Embora muito conhecido como varredor de lixo nunca mais foi visto. Tornou-se invisível: “Nós nos olhamos por segundos, segundos apenas, e a senhora certamente não reparou no meu olhar de súplica, certamente nem notou, olhou simplesmente como se olha uma mancha na parede, um gato na calçada, uma bicicleta atravessando a rua, e depois esquece que viu a rachadura, a bicicleta, voltando a fazer o que fazia antes, sem se lembrar de nenhum registro do que viu”.
                       
O narrador/personagem quer, através dos menores gestos, adentrar o pensamento e sentimentos da mulher que mantém prisioneira. Vive no engano de pensar que o pensamento é o único instrumento capaz de veicular a verdade: “Eu queria saber o que a senhora estava pensando naquele momento ou, mais ainda, o que estava sentindo depois de ter depositado o copo sobre a mesa, de ter bebido o vinho; eu queria muito uma coisa, a senhora já quis muito uma coisa, muito mesmo, uma coisa?”. Eis um trecho de sua fala a revelar o quanto é impositiva a ditadura do querer, e o sofrimento inútil do querer muito, do muito desejar ter ou realizar alguma coisa: a decepção, quando a coisa chega, (ou se nem chega|) é inevitável. Assim como no mito da medusa, assim que um desejo é alcançado, logo outro se levanta, coercitivo, ditatorial... 
                       
Nas frases seguintes, novamente a questão do tempo é colocada – sua efemeridade e urgência, uma vez sabendo que o tempo nos salva ou nos mata: “Então vai me compreender, eu queria muito uma coisa, e logo a senhora desviou o seu olhar e voltou a segurar a taça, e a levou outra vez aos lábios, bebendo no máximo um gole de vinho, sem pressa, lentamente, como se o tempo não fosse precioso, como se nem existisse o tempo. Neste momento falei baixinho: me ensina, por favor!”.

Aí vai colocada a solidão e a exclusão dos estrangeiros, dos exilados de sua pátria e da felicidade, bem como a dos miseráveis, que têm de se contentar com a humildade de tirar retratos ao lado dos políticos. Como nos diz o poeta
José Godoy Garcia: “A humildade da prostituta que vai ao cinema, senta-se ao lado da mocinha, e se sente imunda”. Ou, tamanha é a solidão humana, que vem nos dizer o poeta Carlos Drummond de Andrade: “Chega um tempo em que não se diz mais/ meu Deus/ tempo de absoluta depuração./ Chega um tempo em que não se diz mais: meu amor/ porque o amor resultou inútil./ E os olhos não choram/ as mãos tecem apenas o rude trabalho/ o coração está seco”.
                       
Vemos, à página 20 de A Confissão, espécie de epifania a brotar da mente do personagem, em prece-pedido para ser ensinado a ter classe. Mas é uma prece tímida, envergonhada, uma vez que confessa à mulher seqüestrada: “Ninguém ouviu, mas nem por isto deixou de ser uma prece, que nunca mais repeti, em momento algum, para ninguém, nem para mim, foi só aquela vez”. A fala agônica, quase sem respiro, como de alguém tem de desabafar, e o faz com agonia, temendo nunca mais ser capaz de fazê-lo. Neste momento epifânico da prosa do personagem de Flavio Carneiro vemos a raiva reprimida do ressentido social a transformar-se em êxtase e submissão à elegância e classe da mulher. Em ato falho, aponta para o ressentimento que nega, pois o vê como um sentimento inferior: “Não, foi simplesmente uma verdade que atravessou o meu futuro”.
                       
Sim, não há como negar: há verdades e revelações que atravessam o futuro, podendo inclusive transformar nossa compreensão do passado. E a verdade que atravessou o futuro do personagem, a partir de seu presente conflitado, é esta: “Um dia vou matar essa mulher”. Aqui vemos respingos de um niilista, um revoltado, excluído social, do tipo Raskolnikov – assassino real ou em potencial, capaz de racionalizar, e até de tornar romântico e libertário o seu gesto insano. Gesto desesperado e visceral, de alguém que se acha com direito a aprisionar ou matar pessoas que considere inúteis ou imprestáveis à sociedade. Seqüestrar e matar, em nome de um ideal, uma crença, uma paixão – eis o direito que a si mesmo concede o revoltado, o fanático, o revolucionário radical.
                       
Em lugar da raiva, a idolatria, a revelar o quanto as emoções podem misturar-se, serem filhas e irmãs umas das outras. Não há nada mais perto do amor de apego, do amor equivocado, do que o ódio. “Quem sou eu para me julgar:” – eis a pergunta que se faz o seqüestrador, que assim se coloca acima de todo julgamento – acima das leis, portanto. Em sua visão, se ninguém pode julgar ninguém, todo ato é lícito, por mais bárbaro ou insano que seja. Um sentimento de solidão ou onipotência a ecoar a frase impactante deNietzsche: “Depois que Deus morreu tudo é permitido!”. 
                       
O outsider cujo prazer é confessar-se e falar de seu vício apropria-se das emoções e sensações de suas vítimas. Em sua inconsistência de Ser, julga poder tornar-se inteiro (ou ele-mesmo) apropriando-se do requinte e do refinamento das mulheres que aprisiona em sua teia. A fala do seqüestrador é um elogio ao poder das sensações (sensacionismo). Exalta momentos de sensação pura: “Então precisava ser algo muito importante o que me fazia apagar do pensamento todas essas coisas desagradáveis, para dizer o mínimo, e eu não queria admitir que esse algo eram dois centímetros de uma mulher que eu jamais vira antes”. Para o fetichista, ou o sensacionista, a coisa, objeto ou corpo que move e alucina e move o seu desejo até a loucura é a coisa mais importante deste mundo. Nada pode superar o frenesi que tal visão (ou alucinação) provoca: “Aqueles dois centímetros”, para o fetichista, podem se tornar mais vastos que toda a Cordilheira dos Andes, ou ser mais alto do que os Himalaias, mais extensa do que os Canyons dos Estados Unidos...
                       
Na página 22: “Sua naturalidade me comoveu; me comoveu tanto que cheguei a sentir uma ternura imensa, como nunca sentira antes”. A ternura antes da violência... estranha mistura, a lembrar, de maneira invertida, os versos de
Mario Faustino: “Não conseguiu firmar o nobre pacto/entre a dor do mundo e a alma pura/tanta violência, mas tanta ternura/”. A questão trágica, em que se debate o nosso tempo trágico e tecnocrático é a reprodução endêmica da violência, sem um mínimo de ternura que venha a tornar humanas as cidades, suas casas e ruas.
                       
“Talvez o ato de escovar os dentes me desse a ilusão de ter jantado” (pg. 24). Imagem que remete a lembrança à imagem de Carlitos, em um filme de Chaplin: lambendo os cadarços e os pregos de uma bota, como se fossem espinhas de peixe. No mesmo filme, ele, o eterno gauche, imagina uma gigantesca galinha, que ele e o outro faminto tentam agarrar em vão. Também em A Confissão, temos a cena patética doauto-engano: mas o escovar os dentes (com muita pasta) para anestesiar o estômago, e ter a ilusão de ter jantado, não abafa nem esconde os roncos da Biafra da barriga vazia de pão e de esperança.
                       
É certo que neste mundo cão, em que o homem se transformou em lobo do próprio homem, como em uma fotografia famosa, de um abutre a esperar que um menino africano morra, para fazer dele seu almoço, os humanos não têm a mesma consideração: não esperam que as pessoas morram, para começar a devorá-las. Hoje se tornou ato totalmente normal, comer pessoas vivas, com vísceras e tripas (ou dividi-las em muitos pedaços,
como o assassino esquartejador Mohammed de Goiânia). Não antes de devorar suas almas, que são a primeira vitalidade a ser consumida. O “não gostar de viajar de graça”, aludido á pg. 24, sinaliza o outsider (estrangeiro em sua casa ou pátria), a tentar preservar um mínimo de dignidade e auto-estima.
                       
Nos começos do capítulo o protagonista se revela flaneur, dandi sem dinheiro, sem lenço e sem documento: “o sol nas bancas de revistas/ me enche de alegria e preguiça/ quem lê tanta notícia.../”. Assim vai o flaneur, pelas ruas da cidade, “nada no bolso ou nas mãos”, como na canção de Caetano Veloso. “Andar à toa pela cidade me dava uma sensação parecida com alegria. Eu me sentia bem, ao caminhar a esmo, perambular pelas ruas, olhar vitrines, pessoas, cartazes.../”. O simples prazer mental e físico de andar pelas ruas até os músculos doerem é atitude típica do flaneur, vagamundo requintado e pobre, nas ruas trepidantes da metrópole. 

E enquanto anda, vai sabendo de notícias repetidas, a lembrar a vertigem e o absurdo de um mundo que se despedaça. De fato, há notícias demais na aldeia global, vidas de todas as mídias, e todas parecidas ou repetidas. Assim, se uma pessoa quiser economizar tempo, basta saber de uma para ver que já sabe de todas. Segue o protagonista: “Depois de chegar no meu quarto, na pensão, tirar a calça e sapatos no chão, colocar os pés para cima, encostados na parede, e ficar deitado, olhando o teto, sem fazer nada, sentindo o pequeno conforto de estar vivo”. Aqui temos o vivente urbanóide que se contenta com o mínimo essencial á sobrevivência. Sendo um misantropo ou AS (anti-social), diz que evitava as pessoas, como se fosse um bicho do mato. Em sua busca para recuperar um tempo que não foi vivido (portanto, não pode ser perdido) ele segue nos trilhos do conhecido – como todas as outras pessoas, faz um esforço inútil e absurdo, como o cachorro a tentar abocanhar o próprio rabo.

Ele sabe, no entanto, que “As coisas estão interligadas, sabemos disto, não sabemos?” (Pg. 36). Assim, só revendo o antes do antes podemos reconhecer o que veio depois, mas que veio de muita coisa mais – que o devir, quando vem, já é presente, e não mais mera miragem da mente. Estranha teoria do seqüestrador: “Se alguém morre, todos, os vivos, e os que já morreram, têm uma parcela de culpa naquela morte”. E como, em seu entender, todos são culpados por tudo de ruim que acontece no mundo, não há inocência em nenhuma parte da terra habitada pelo Homem. Com este raciocínio, o seqüestrador transfere à mulher a culpa pelo crime de que é vítima.

Em sua autodefesa, alega não existirem motivos para o temerem, como se diz que devemos temer o Homem de um livro só. Ele é homem de muitos livros, portanto, tão inocente e sem periculosidade quanto as pessoas de livro nenhum. Pois se o perigo destes é a ignorância, perigosos, de fato, são os que se tornam fanáticos do único livro que adoram! Ele, no entanto, diz pertencer a outra galeria: a do homem de muitos livros, mas estes não o pertencem, nem por eles é pertencido. Sua relação com os livros que rouba é de total desapego, pois sabe que “o futuro é só desvios”. Ele parece saber do princípio da incerteza – talvez tenha lido um aforismo de Heráclito, para quem nesta vida tudo muda, só a mudança não muda.

Mede o valor de um livro que rouba pelo número de refeições (ou dias de aluguel) que pode pagar. E parece não estar distante de preocupações éticas: roubar dinheiro que está dentro de um livro raro é pior do que roubar o próprio livro, deixando o dinheiro dentro de uma obra medíocre? Ao menos este seria um roubo ético, e culturalmente correto... em sinal de reverência e respeito à literatura é que o fez hesitar em roubar não só o dinheiro, mas também o livro raro, em que estava escondido. O personagem adota a estratégia do pânico: imaginar o pior que lhe aconteceria o que de pior pode acontecer a uma pessoa – assim, se escapasse do que imaginara, já estaria no lucro.

Em seguida, fala dos medos mais comuns, reais ou imaginados, que a mente humana cria, em seu vício de construir o inferno interior em que quase todos vivem. A transformação crucial por que passa dá-se quando sente a alegria de se descobrir um ser dotado de paladar capaz de sentir o valor das comidas e bebidas requintadas. O êxtase de ter dinheiro no bolso, (coisa que não sentem os que sempre o têm com fartura – Pg. 51): “Era como se eu tivesse deixado a lata de lixo de um passado que de modo algum me agradava, como se a pensão, a fome, o dono do sebo, o velho meu vizinho e todas as aporrinhações do mundo fizessem agora parte da vida de outra pessoa”. 

Mais adiante, intrigado sobre a circunstância misteriosa da morte de Emma, admite ter consigo uma força mortal e mortífera, que leva as pessoas à morte, tão logo tenham com ele uma relação íntima: “Mas, raciocine comigo: se Agnes sabia de tudo, sabia também que ter uma relação sexual comigo significava a sua morte”. Aqui fala o que se sabe vampiro da energia anímica das pessoas com quem se relaciona: “(...) não sabia o que havia acontecido entre mim e Emma, de onde viera aquela minha capacidade, vá lá, de sugar de uma mulher o que ela possuía de mais valioso para mim”. Vampiro consciente de sua força destrutiva, suga das mulheres por quem se apaixona, suga o que há de mais precioso para si: a energia da vida, que no entanto não sabe cultivar nem conservar.  

Seu engano é supor que possa se encontrar a partir de seu desencontro essencial. Não alcançará a unidade por meio da fragmentação de sua mente atormentada. Sendo interiormente um tumulto incoerente, não reidrata sua alma mumificada ao vampirizar suas vítimas. A morte que a que as destina não lhe devolve a vida que já não vibra em si. No final de seu longo monólogo o outsider (estrangeiro em si mesmo) desiste de ser ou parecer herói. Percebe a inutilidade e mesmo a impossibilidade disto. Volta a aceitar-se como homem comum e sem hábitos requintados. O que equivale a dizer que renuncia a idealizar e romantizar a vida, até as raias do delírio e da loucura. Renuncia à ansiedade que o fazia querer alguém que não ele mesmo. Ao fazê-lo, renuncia também ao medo, que sabe ser o caos em si – inferno atualizado. Como o Coringa, do filme Batman, poderia dizer: “O que não nos mata nos torna estranhos”. 


 

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POR EM 08/12/2008 ÀS 05:50 PM

Rus­so Stá­lin ma­ni­pu­lou a Guer­ra Ci­vil Es­pa­nho­la

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Em 2006, a Edi­to­ra Re­cord lan­çou En­ter­rar os Mor­tos — Uma His­tó­ria So­bre Ami­za­des, Si­lên­cios e Men­ti­ras na Guer­ra Ci­vil Es­pa­nho­la (254 pá­gi­nas), do jor­na­lis­ta e es­cri­tor Ig­ná­cio Mar­ti­nez de Pi­són. O li­vro con­ta a his­tó­ria de Jo­sé Ro­bles Pa­zos, in­te­lec­tu­al re­pu­bli­ca­no que foi as­sas­si­na­to pe­la po­lí­cia se­cre­ta da Uni­ão So­vi­é­ti­ca du­ran­te a Guer­ra Ci­vil Es­pa­nho­la, e re­gis­tra a ten­sa re­la­ção en­tre os ami­gos e, de­pois, ini­mi­gos John Dos Pas­sos e Er­nest He­mingway. Dos Pas­sos apa­re­ce co­mo um ho­mem de­cen­te e He­mingway co­mo ca­na­lha po­lí­ti­co ca­paz de tu­do pa­ra man­ter sua fa­ma e agra­dar os so­vi­é­ti­cos.

Dois anos de­pois, a Edi­to­ra Di­fel lan­ça O Pon­to de Rup­tu­ra — He­mingway, John Dos Pas­sos e o As­sas­si­na­to de Jo­sé Ro­bles (352 pá­gi­nas), do es­cri­tor Step­hen Koch. Tão bom quan­to o li­vro de Pi­són, o tra­ba­lho de Koch mos­tra, mais uma vez, a ca­na­lhi­ce po­lí­ti­ca (e pes­so­al) de He­mingway, a gran­de­za de Dos Pas­sos e co­mo o rus­so Stá­lin ma­ni­pu­lou a Fren­te Po­pu­lar e li­qui­dou seus su­pos­tos ad­ver­sá­rios.

Koch re­ve­la que Stá­lin usou a guer­ra ci­vil pa­ra ne­go­ci­ar o pac­to de não-agres­são com Hit­ler e com ob­je­ti­vo de jo­gar o lí­der na­zis­ta con­tra as de­mo­cra­cias oci­den­tais. O di­ta­dor acer­tou na mos­ca. Hit­ler agre­diu pri­mei­ro as de­mo­cra­cias e só mais tar­de ata­cou a Uni­ão So­vi­é­ti­ca.

Koch tal­vez fa­lhe ape­nas num pon­to: ao acre­di­tar que Dos Pas­sos era to­tal­men­te in­gê­nuo. Não era ca­na­lha, co­mo He­mingway, mas tam­bém não era ne­nhum ino­cen­te. O es­cri­tor exa­ge­ra ao apos­tar na ge­ni­a­li­da­de li­te­rá­ria de Dos Pas­sos.

A tra­du­ção de Pe­dro Jor­gen­sen Jr. me­re­ce, na pró­xi­ma edi­ção, uma re­vi­são mais cri­te­ri­o­sa.

 

Resgate histórico da música brasileira


Livro que entrou para minha lista penelopiana (desconfio que vou viver 300 anos), como prioridade: Uma História da Música Brasileira — Das Origens à Modernidade (Editora 34, 504 páginas. O preço, como sempre, é abusivo: 64 reais), de Jairo Severiano. Ruy Castro disse a Luiz Fernando Viana, da "Folha de S. Paulo": "Não dou dois passos sem consultar o Jairo. Ele é garantia de exatidão, não dá palpite. Se não sabe, pede dez minutos ou uma hora e meia, pesquisa e te dá a resposta certa".

A resenha de Luiz Fernando Viana recorta trecho do livro do nada ortodoxo Severiano: "O que de mais importante aconteceu no samba nos últimos anos da Época de Ouro [1929-45] foi o aparecimento de Geraldo Pereira", autor de "Falsa Baiana".

Sobre a estrela baiana-universal, Jairo Severiano é quase fã: "João Gilberto é um sujeito aloprado que interrompeu a suave transição que ocorria entre o tradicional e o moderno com um corte, escandalizando os tradicionalistas. Foi traumático, mas ali a música brasileira se modernizou".



História da Máfia


Não adquiri, pois ainda não vi nas livrarias, mas não deixarei de ler  O Traidor — A Verdadeira História da Máfia Americana (Editora Larousse do Brasil), de Jimmy Breslin. A não ser que o título em inglês seja outro, o autor é corajoso ao pretender escrever a história "verdadeira da Máfia" em apenas 200 páginas.

O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, teve a inteligência de exibir a Máfia de modo glamuroso, o que permitiu que fosse mais bem examinada e, portanto, entendida. Claro, a Máfia é um pouco pior do que mostra o filme, mas a arte — se cinema for arte — não tem o objetivo de reproduzir a realidade, e sim de iluminá-la. E o filme o faz de modo magistral. Em termos de Máfia, O Poderoso Chefão é o fim da história.

Revista Granta

Li o primeiro volume da Granta em português, com histórias de autores norte-americanos, e não concordei com a crítica. Os textos, no geral, são fracos e nada reveladora do talento de seus autores. Aqui e ali, laivos de criatividade.

Agora a segunda edição em português contém textos de autores estrangeiros e brasileiros.

Entre os estrangeiros estão Edmund White, Paul Theroux, Ismail Kadaré, Amitav Ghosh, James Fenton e Geoff Dyer. Os brasileiros são: Ignácio Loyola Brandão (um autor subestimado, no entanto, muito melhor do que Chico Buarque), Ricardo Lísias, Arnaldo Jabor (que conta sua paixão pelo LSD), Lourenço Mutarelli e Carlos Diegues.

Romance palestino

Não li, mas está na minha lista — não sei para quando — o romance Porta do Sol (Editora Record, 504 páginas, tradução de Safa Abou Chahla Jubran), do palestino Elias Khoury.

O escritor brasileiro Milton Hatoum, crítico eventualmente certeiro, diz que se trata de um grande romance.
 
Boa no­tí­cia de Ian McEwan

Ian McEwan leu, no fes­ti­val li­te­rá­rio de Hay, no Pa­ís de Ga­les, tre­cho de seu no­vo ro­man­ce, que de­ve ser pu­bli­ca­do da­qui a dois anos, se­gun­do no­tí­cia di­vul­ga­da pe­la Reu­ters.

"O li­vro, que ain­da não tem tí­tu­lo, con­ta a his­tó­ria do pre­mi­a­do com o No­bel Mi­cha­el Be­ard e su­as ten­ta­ti­vas de sal­var o mun­do da de­vas­ta­ção am­bien­tal", diz o tex­to tran­scri­to pe­lo UOL.

 


Bi­o­gra­fia do mi­to Pau­lo Co­e­lho


O li­vro O Ma­go (Edi­to­ra Pla­ne­ta, 652 pá­gi­nas), de Fer­nan­do Mo­ra­is, con­ta a his­tó­ria da vi­da de Pau­lo Co­e­lho, que se tor­nou mai­or e mais in­te­res­san­te do que qual­quer um de seus li­vros.

O li­vro re­la­ta que Co­e­lho man­te­ve re­la­ções ho­mos­se­xu­ais, in­cen­ti­vou uma de su­as mu­lhe­res a se ma­tar e te­ria ar­ti­cu­la­do um pac­to com o Di­a­bo.

Um jor­na­lis­ta da Fo­lha de S. Pau­lo acer­tou quan­do es­cre­veu que o la­do "su­jo" de Co­e­lho não o pre­ju­di­ca mais, pois aju­da a com­por e am­pli­ar o mi­to do es­cri­tor vi­vo que mais ven­de li­vros no mun­do.

De­ta­lhe: Mo­ra­is es­cre­ve mui­to me­lhor do que Co­e­lho e, com a bi­o­gra­fia, tor­nou-o um per­so­na­gem in­te­res­san­tís­si­mo. De­pois da qua­se-ha­gi­o­gra­fia, Co­e­lho se­rá mais res­pei­ta­do pe­los in­te­lec­tu­ais? É pro­vá­vel.

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POR EM 08/12/2008 ÀS 03:50 PM

O jovem Stálin ganha livro

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A gran­de apos­ta da Com­pa­nhia das Le­tras pa­ra es­te mês é o lan­ça­men­to do li­vro O Jo­vem Stá­lin (568 pá­gi­nas, 56 pi­las), do his­to­ri­a­dor bri­tâ­ni­co Si­mon Se­bag Mon­te­fio­re.

Au­tor de Stá­lin — O Czar Ver­me­lho, Mon­te­fio­re, pes­qui­sa­dor es­cru­pu­lo­so, tem a vir­tu­de de não de­mo­ni­zar Stá­lin, que, va­le di­zer, não pre­ci­sa ser de­mo­ni­za­do pa­ra pa­re­cer o que é, um mons­tro po­lí­ti­co.

Na mi­nha imo­des­ta opi­ni­ão, a úni­ca fa­lha de Mon­te­fio­re é que, no afã de es­cla­re­cer quem é Stá­lin, pa­ra além dos ró­tu­los, aca­bou por trans­for­má-lo pra­ti­ca­men­te num in­te­lec­tu­al. Ler mui­tos li­vros não trans­for­ma al­guém ne­ces­sa­ria­men­te num in­te­lec­tu­al re­fi­na­do. É o ca­so do di­ta­dor rus­so. Mas, se não era um in­te­lec­tu­al da es­tir­pe de Marx e mes­mo de Lê­nin, Stá­lin era mes­mo um gran­de po­lí­ti­co, mai­or do que os dois, por­que te­ve tem­po pa­ra exer­cer seu "ta­len­to".

A clás­si­ca nar­ra­ti­va de Adam Ulam so­bre os bol­che­vi­ques

Na dé­ca­da de 1980, li, com pra­zer, Os Bol­che­vi­ques — His­tó­ria Po­lí­ti­ca, In­te­lec­tu­al e Bi­o­grá­fi­ca da Re­vo­lu­ção Rus­sa e de Seus Lí­de­res (ca­lha­ma­ço de 674 pá­gi­nas edi­ta­do, em 1976, pe­la No­va Fron­tei­ra), do pro­fes­sor de Har­vard
Adam B. Ulam. Em­pres­tei meu exem­plar pa­ra uma pro­fes­so­ra e, in­fe­liz­men­te, os dois su­mi­ram do ma­pa.

O tex­to ori­gi­nal de Adam Ulam foi pu­bli­ca­do, nos Es­ta­dos Uni­dos, há 43 anos. Os crí­ti­cos aten­tos vão di­zer, é cla­ro, que o li­vro es­tá, em al­guns as­pec­tos, datado. Têm ra­zão. Sur­gi­ram obras atu­a­li­za­das, de­pois da aber­tu­ra dos ar­qui­vos soviéticos, de au­to­res co­mo Si­mon Se­bag Mon­te­fio­re, Ro­bert Ser­vi­ce, Ri­chard Pi­pes,
Mos­he Lewin (au­tor do ex­ce­len­te O Sé­cu­lo So­vi­é­ti­co, Edi­to­ra Re­cord, 50 re­ais) e Or­lan­do Fi­ges (au­tor do se­mi­nal A Tra­gé­dia de um Po­vo — A Re­vo­lu­ção Rus­sa 1891-1924, Edi­to­ra Re­cord, 1106 pá­gi­nas, ex­tor­si­vos 109 re­ais). Mes­mo as­sim, tra­ta-se de uma gran­de obra his­tó­rica, com sa­bor de crô­ni­ca, de nar­ra­ti­va à Gib­bon. É um clás­si­co no qual apren­di mui­to, qua­se tu­do, so­bre a Re­vo­lu­ção Rus­sa, a que pro­me­teu o Céu na Ter­ra, mas deu ape­nas o In­fer­no aos rus­sos e ou­tros po­vos sa­té­li­tes. Ge­rou um cza­ris­mo com o mais cru­el de to­dos os cza­res, Stá­lin.

Na se­ma­na pas­sa­da, Lú­cio e An­dros, do se­bo Pá­gi­nas An­ti­gas, lo­ca­li­za­ram, pe­lo si­te
Es­tan­te Vir­tu­al
, um exem­plar e o ad­qui­ri­ram pa­ra mim. Re­li cer­ca de 100 pá­gi­nas. É uma ma­ra­vi­lha a pro­sa pre­ci­sa e ilu­mi­na­da de Adam Ulam.



As lou­cu­ras do czar co­mu­nis­ta


Não li, mas en­trou pa­ra mi­nha pe­ne­lo­pi­a­na lis­ta A Lou­cu­ra de Stá­lin (Edi­to­ra Di­fel, tra­du­ção de J. A. Guei­ros, 350 pá­gi­nas), do his­to­ri­a­dor
Cons­tan­ti­ne Ples­hakov. Leia a si­nop­se da Li­vra­ria Cul­tu­ra (ou da edi­to­ra): "Ba­se­an­do-se em do­cu­men­tos aber­tos re­cen­te­men­te, o es­cri­tor e his­to­ri­a­dor rus­so Cons­tan­ti­ne Ples­hakov nar­ra a his­tó­ria se­cre­ta da in­va­são da Uni­ão So­vi­é­ti­ca pe­lo exér­ci­to ale­mão du­ran­te a Se­gun­da Guer­ra Mun­di­al. A Lou­cu­ra de Stálin re­ve­la o que acon­te­ceu du­ran­te os dez di­as ini­ciais des­sa in­va­são, mos­tran­do co­mo Stá­lin mas­sa­crou seus pró­prios sol­da­dos pa­ra se man­ter no po­der. Ples­hakov re­tra­ta o lí­der rus­so, o te­mi­do dés­po­ta, co­mo um ser vul­ne­rá­vel e iner­te que, num mo­men­to de­ci­si­vo, dei­xou seu pa­ís sem li­de­ran­ça. Em ju­lho de 1941, Adolf Hit­ler es­te­ve mui­to per­to de ven­cer a guer­ra. O di­ta­dor ale­mão, ig­no­ran­do o pac­to de não-agres­são, lan­çou um vi­o­len­to ata­que em três fren­tes con­tra a Uni­ão So­vi­é­ti­ca, e, em 72 ho­ras, su­as tro­pas já es­ta­vam pres­tes a al­can­çar Mos­cou. Re­cu­san­do-se a acre­di­tar que os ale­mã­es ata­ca­ri­am pri­mei­ro, ape­sar das inú­me­ras ad­ver­tên­cias, Stá­lin im­pe­diu qual­quer ação de seus ge­ne­ra­is nos pri­mei­ros e cru­ci­ais mo­men­tos da in­va­são. En­quan­to Hit­ler avan­ça­va so­bre o ter­ri­tó­rio so­vi­é­ti­co, Stá­lin aban­do­nou o exér­ci­to. Os re­sul­ta­dos fo­ram a mor­te de um em ca­da seis sol­da­dos nos pri­mei­ros di­as de lu­ta, a for­ça aé­rea pra­ti­ca­men­te ani­qui­la­da an­tes mes­mo de le­van­tar vôo e cen­te­nas de mi­lha­res de so­vi­é­ti­cos mor­tos du­ran­te a fu­ga pa­ra o in­te­ri­or. Em su­ma, o es­for­ço do Exér­ci­to Ver­me­lho pa­ra re­cu­pe­rar os ter­ri­tó­rios per­di­dos em me­nos de du­as se­ma­nas cus­tou mais de dez mi­lhões de vi­das so­vi­é­ti­cas".



Di­á­rio de um Ano Ru­im, do mago Coetzee

J. M. Co­et­zee, au­tor da obra-pri­ma De­son­ra, tal­vez me­lhor por­que me­nos in­ven­ti­vo e me­nos pre­ten­si­o­so, lan­ça Di­á­rio de um Ano Ru­im (Com­pa­nhia das Le­tras, 248 pá­gi­nas, 41 pi­las).

O no­vo ro­man­ce de Co­et­zee tra­fe­ga en­tre a li­te­ra­tu­ra e o en­saio. Tra­ta-se de um ro­man­ce en­sa­ís­ti­co ou de um en­saio li­te­rá­rio. Al­go as­sim. Con­fes­so, po­rém, que o Co­et­zee que me agra­da mais é o de De­son­ra, o es­cri­tor-es­cri­tor, não o es­cri­tor-en­sa­ís­ta.


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POR EM 08/12/2008 ÀS 02:53 PM

A Vida Louca de Porfírio Rubirosa

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A Vida Louca de Porfírio Rubirosa: O Último Playboy (Editora Record, tradução de Adriana Lisboa, que confunde "guitarra" com "violão"), de Shawn Levy, cita dois playboys brasileiros.

Na página 90, Levy conta que Flor de Oro, filha do ditador Rafael Leônidas Trujillo, da República Dominicana, foi casada com "um barão brasileiro da mineração", depois de se separar do escroque Rubi.

Na página 146, ao listar playboys famosos, Levy escreve: "Francisco Pignatari [1916-1977], um milionário brasileiro da mineração, flertou com uma ex-rainha do Irã e algumas atrizes famosas e se casou com uma princesa [Ira de Furstenberg] — e tudo isso apesar de ser conhecido como Baby. (...) Jorge [Jorginho, como nós, brasileiros, íntimos de todo mundo, o chamamos] Guinle, também do Brasil, herdou uma fortuna do ramo dos hotéis e dilapidou-a — se isso se pode chamar de dilapidar — andando atrás de mulheres como Jayne Mansfield e Janet Leigh e Hedy Lamarr e Verônica Lake e Anita Ekberg". A lista nem se compara à de Rubirosa (lista mínima, acrescente-se): Flor de Oro, Danielle Darrieux, Doris Duke (bilionária), Barbara Hutton (a bilionária ex de Cary Grant), Gene Tierney, Dolores Del Rio, Veronica Lake, Amália Rodrigues (sim, a cantora de fados), condessa Nicola-Gambi, rainha Alexandra (da Iugoslávia), Marianne O`Brian, Zsa Zsa Gabor (a Rubi de saias), Eartha Kitt, Rita Hayworth, Ava Gardner, imperatriz Soraia (do Irã), Katherine Dunham.

Em Los Angeles, Rubi decidiu entrar para o cinema e foi orientado nada mais nada menos do que por Michael Tchekhov, sobrinho do contista e dramaturgo russo Anton Tchekhov.

Por que Rubi, um playboy malandríssimo ("Trabalhar? É impossível para mim trabalhar. Simplesmente não tenho tempo."), seduziu tantas mulheres, ricas, remediadas, pobres, bonitas, simpáticas e feias? Primeiro, devido ao charme, confirmado pela investigação criteriosa de Levy. Segundo, seu priapismo era proverbial. Terceiro, o gigantismo de seu pênis atraía as mulheres. Truman Capote “viu” 28 centímetros. Doris Duke, ex-mulher de Rubi, citada pelo sobrinho Pony Duke, falava em "15 centímetros de circunferência... bem parecido com a extremidade de um taco de beisebol". Chegaram a publicar em jornal: "Parece Yul Brynner de gola rulê preta". Algumas mulheres ficavam machucadas depois dos "exercícios" de amor.

Eufrásia está na moda

Quem leu a biografia Joaquim Nabuco, de Angela Alonso, conheceu um pouco da magnífica história da investidora Eufrásia Teixeira Leite. Nascida em Vassouras, em 1850, morou em Paris e morreu, no Rio de Janeiro, aos 80 anos. Riquíssima, foi uma das paixões de Quincas o Belo, como era conhecido o charmoso político e playboy intelectual. Conta-se que, interessado no dinheiro da milionária e também apaixonado, Nabuco quis se casar. Eufrásia queria-o como amante, mas não como marido. Continuaram amigos e amantes.

O livro de Alonso é generoso ao relatar a história de Eufrásia, mas não é detalhado. Quem quiser conhecê-la um pouco mais, inclusive a história de que torrou seu dinheiro com filantropia, deve consultar a reportagem "Os órfãos de Eufrásia", de Marcos Sá Corrêa, publicada pela revista Piauí.

 A batalha de Creta

A Editora Record lança Creta — Batalha e Resistência na Segunda Guerra Mundial 1941/ 1945, mais uma obra-prima de Antony Beevor. Leio, na contracapa, as loas (sei que, provavelmente, justas — dada a qualidade do historiador britânico) ao autor.O Financial Times escreveu: "Este livro lúcido está destinado a tornar-se obra de referência sobre o assunto".

Adquiri um exemplar e, por enquanto, folheei. Verifico que Beevor, mais uma vez, mostra-se aquele infatigável e sensível contador de histórias. É um dos poucos historiadores que unem bem o ofício de contador de histórias e analista privilegiado das guerras. É isento? Não. Os piores historiadores são os que se dizem isentos, porque não o são. Como ser isento, para ficar em dois exemplos, em relação às monstruosidades de Hitler e Stálin? O que não se pode permitir é que a mente, turvada pelo passional, obscureça o entendimento dos fatos. Objetividade é quase uma ficção, mas não é ficção inteiramente. Portanto, é bem-vinda.
 


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