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POR EM 22/05/2009 ÀS 05:39 PM

Machado de Assis: tradutor ou recriador?

publicado em

Michel Massa rompe com alguns estereótipos em torno de Machado de Assis, como o de que dominava perfeitamente a língua inglesa, o alemão, o grego e o latim. Eis um livro importante não apenas para “machadianos”, mas também para todos os que se interessam pela história intelectual brasileira    

Jean-Michel Massa
Jean-Michel Massa, autor de "A juventude de Machado de Assis" e "Machado de Assis Tradutor"

Se Machado de Assis (1839-1908) é hoje, com certeza, o autor brasileiro mais discutido e analisado pela academia nacional, além de bastante estudado em universidades estrangeiras, é de lamentar que tenha sido necessário um período de quase quatro décadas para que “A Juventude de Machado de Assis (1839-1870): Ensaio de Biografia Intelectual” (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971), de Jean-Michel Massa, recebesse uma nova edição, embora as livrarias do País estejam abarrotadas de obras sem a menor importância e de conteúdo duvidoso, o que é um indicador da pujança de nosso mercado editorial – que se equivaleria ao mercado de língua espanhola em termos econômicos –, mas também da indigência cultural à que a população, de um modo geral, está relegada.
 
Se “A Juventude de Machado de Assis” chega agora em junho de 2009 às livrarias em lançamento da Editora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), é bom que o leitor saiba que, em 2008, a Crisálida Livraria e Editora, de Belo Horizonte, deu à estampa o ensaio “Machado de Assis Tradutor”, com tradução do editor Oséias Silas Ferraz, que constitui um complemento à tese de doutoramento que o professor Jean-Michel Massa defendeu em 1969 na Faculdade de Letras da Universidade de Poitiers, na França, e que resultou naquela monumental biografia.
 
Originalmente, essa tese complementar traz um apêndice com traduções (inéditas) de duas peças por Machado de Assis, “Os burgueses de Paris” e “Tributos da mocidade”, que, porém, não constam deste livro impresso. Ao lado de uma terceira peça traduzida, “Forca por forca”, essas duas peças, aliás, compõem “Três Peças Francesas Traduzidas por Machado de Assis”, com notas de Jean-Michel Massa, que, em lançamento da Crisálida, chega às livrarias juntamente que a segunda edição de “A juventude” (...). Feliz coincidência.
 
Organizador de “Dispersos de Machado de Assis” (1965) e de “Bibliographie Descriptive, Analytique et Critique de Machado de Assis” (1957-1958) e autor de numerosos artigos e ensaios sobre a produção machadiana, com destaque para “La bibliothèque de Machado de Assis”, em que identifica 718 obras que pertenceram ao acervo particular do escritor, Massa, 79 anos, é um grande estudioso da literatura brasileira dos séculos XIX e XX, com trabalhos sobre Manuel Antônio de Almeida (1831-1861), José de Alencar (1829-1877) e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), do qual traduziu “Reunião” (1983).

Em parceria com sua mulher, a professora Françoise Massa, também organizou o “Dictionnaire Encyclopedique de la Langue Portugaise”, do qual já foram publicados três volumes: um sobre a Guiné-Bissau, outro sobre São Tomé e Príncipe e um terceiro sobre Cabo Verde.
      
Apesar de todo esse currículo, o que tornou o nome do professor Massa um pouco mais conhecido entre nós foi que, por meio de suas pesquisas, acabou por provar que Machado de Assis não era o autor de “Queda Que as Mulheres Têm Para os Tolos”, como a crítica brasileira, contra todas as evidências, assegurou por muito tempo e até recentemente por desconhecimento da própria obra do estudioso francês, que saiu no Brasil em 1971, mas que hoje constitui livro difícil de encontrar.
 
Aliás, Machado de Assis nunca disse que era autor de “Queda” (...), pois na primeira edição da obra no Brasil, em 1861, pela Tipografia de F.de Paula Brito, consta na capa com todas as letras que se trata de “tradução do snr. Machado de Assis”. Mesmo assim, não foram poucos os que insistiram que Machado seria o verdadeiro autor do opúsculo, embora Massa já tivesse localizado o original num antigo catálogo de obras anônimas da Biblioteca Nacional de Paris atribuído ao belga Victor Hénaux.
 
Se alguma contribuição este historiador literário pode dar a essa discussão depois de ter estudado a fundo as obras de dois poetas setecentistas, é que no século XVIII e, provavelmente, no XIX, não havia ainda a consciência ou o consenso de que a tradução deveria ser o mais fiel possível ao original. Pelo contrário, o comum é que o tradutor tomasse muitas liberdades -- que hoje não seriam admitidas -- em relação ao texto original. Muitas vezes, alterava tanto o original de um poema ou um trecho de prosa que acabava sentindo que fizera outro texto. Outras vezes, anunciava que fizera determinado poema “à imitação de (...)”. Ou seja, inspirava-se num poema que quase sempre seria francês para escrever outro em português. 
 
Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), por exemplo, traduziu muito do francês – entre outros, Grecourt, Piron, Dorat, Logouvé, Chenier, Bernard, Fontanel, Delille, Castel, segundo José Agostinho de Macedo (1761-1831) -- e sempre com excessiva liberdade (aos menos para os olhos de hoje). Em alguns poemas, valeu-se do recurso “à imitação de (...)”, como no caso do poema em que deixou explícito que imitara o francês Évariste de Parny (1753-1814). Já em outros poemas permanecem dúvidas quanto à autoria. É o caso de “Cartas de Olinda a Alzira (ilustradas), Trabalho de Alto Mérito Literário, Filosófico, Científico e Moral Atribuído ao Grande Poeta Bocage” (Porto, s/d) em que não há uma mínima referência a Portugal, o que leva à suspeita de que seja uma tradução.
 
Para reforçar a suspeição, há um manuscrito na Biblioteca Nacional de Lisboa (Reservados, códice 10576, fls.81-112) que carrega o extenso título “Miscelânea Curiosa ou Colecção de diversas Poesias & vários Autores: a maior parte de Bocage, ou traduções originais; algumas de J.A.da C. (José Anastácio da Cunha) e outras por autores incertos e que não conheço; e juntas por José Câncio Ferreira de Lima em Coimbra (acabado e revisto em Março de 1825)”, no qual se lê que “Cartas de Olinda a Alzira” foram traduzidas por Bocage de Voltaire (1694-1778). O problema é que, até hoje, não apareceu o original que seria de Voltaire. E, portanto, o poema continua a ser aceito como da lavra de Bocage. 
   
Não se quer dizer que tenha sido esse o caso de Machado de Assis, mas é provável que o jovem tradutor, que na época tinha 20 anos de idade, tenha tomado algumas liberdades em relação ao texto de Hénaux, o que, certamente, ainda oferecerá panos para manga porque sempre haverá um crítico disposto a mostrar que haveria muito mais do escritor brasileiro naquela tradução do que do autor francês. Em outras palavras: quando traduzia, dentro de Machado de Assis, a veia do escritor seria mais forte que a do tradutor.

Aliás, é o que Massa conclui quando diz na Introdução para “Machado de Assis tradutor”: “(...) o confronto entre o ponto de partida (o texto original) e o ponto de chegada (a versão brasileira) é precioso para conhecer o nível lingüístico do tradutor-escritor que pode se metamorfosear em escritor-tradutor”. Mais adiante, ele reforça essa tese, quando se refere à peça “Hoje avental, amanhã luva”, estudada em “A Juventude de Machado de Assis”, ao afirmar que, “apesar da referência explícita a um texto estrangeiro, a contribuição de Machado de Assis é tamanha que temos diante de nós uma obra repensada senão reescrita”. Em outras palavras: estaríamos diante de uma co-autoria, uma adaptação ou uma recriação. Mas, segundo Massa, não seria esse o caso de “Queda” (...), que “é pura e simplesmente uma tradução, e nada mais que isso”.
 
Mas quem vier a ler “Queda” (...), que é um texto de poucas páginas, na versão machadiana, com certeza, não vai deixar de constatar que ali já haveria muito do Machado de Assis escritor, assim como a “Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos”. O professor Mauro Rosso, por exemplo, que promete lançar neste ano pela Editora PUC-Rio/Edições Loyola “Queda Que as Mulheres Têm Para os Tolos: Machado de Assis, o Subterfúgio, o Feminino, a Transcendência Literária”, defende que a obra de Hénaux serviu de inspiração a Machado para a escrita de sua primeira peça teatral, de seu primeiro romance e, por fim, de sua obra definitiva e consagradora, explicando que todos esses textos têm por modelo essa teoria amorosa, a de que as mulheres dariam preferência aos tolos (ou aos imbecis) do que aos homens de espírito (os intelectuais).
 
Rosso, mesmo depois da afirmação de Massa, ainda sustenta ser “Queda” uma criação original de Machado “inspirada” na obra “De L´amour Des Femmes Pour Les Sots”, de Hénaux, acrescentando que, em todos os textos do Machado mais amadurecido, haveria essa ideologia da ambigüidade, pois todos abordam a questão da escolha que a mulher deve fazer entre um homem de espírito e um homem sem juízo. Aliás, o reflexo da tese da "queda pelos tolos" na obra de Machado de Assis foi analisado pela Eliane Fernanda Cunha Ferreira em sua tese de doutoramento “Para Traduzir o Século XIX: Machado de Assis”, publicada pela Academia Brasileira de Letras/Annablume Editora em 2004.
   
Diz Massa na segunda parte de “Machado de Assis tradutor” que, se nos deixarmos levar pelas aparências, o escritor conheceria, além do francês, os idiomas inglês e italiano. Mas, na verdade, as traduções que fazia eram sempre a partir do francês. Aqui também Bocage serve como contraponto. O poeta setubalense sempre traduziu do francês, mas há um anúncio da Oficina do Arco do Cego num livro de 1801 que prometia traduções de Bocage de “edições dos poetas gregos”, embora não se saiba que tenha algum dia aprendido a língua grega. Tratava-se, obviamente, de um exagero, uma irresponsabilidade editorial que seria comum no século XIX.
 
No caso de Machado de Assis, Massa diz que o tradutor tinha também conhecimentos do espanhol, além de ler em inglês, o que não significa que estivesse em condições de se lançar à tarefa de traduzir textos em inglês. E mostra como exemplo a tradução que fez de “Oliver Twist”, de Charles Dickens (1812-1870), cuja versão brasileira segue passo a passo uma tradução francesa. Desempenhando uma atividade mal remunerada – aspecto que, aliás, no Brasil de hoje, não mudou muito –, o jovem Machado, aparentemente, assumia muito trabalho e, às vezes, traduzia a vôo de pássaro – na maioria, trabalhos encomendados, como peças teatrais. É ao estudo destes textos que Massa dedica um capítulo de sua tese complementar.
 
É de lembrar que o escritor começou a traduzir em 1857, aos 18 anos de idade, e sua atividade nesse campo continuou até 1894, provavelmente uma época da sua vida em que, funcionário público bem situado na carreira, já não precisaria dessa remuneração-extra para manter o orçamento doméstico. Seja como for, as traduções ocupam um período bastante longo em sua carreira, como assinala o mestre francês. Seriam 44 traduções, segundo a “Bibliografia” de José Galante de Sousa (1913-1986), mas, de acordo com Massa, o número chegaria a 46, pois o estudioso localizou ainda uma tradução integrada a uma crônica e uma peça inédita.

Para quem quiser conhecer “Queda” (...), na versão machadiana, é de lembrar que há no mercado duas edições recentes. Uma é aquela que a Crisálida publicou em 2003, à qual o editor e seu organizador, Oséias Silas Ferraz, juntou outros textos de Machado: “O ideal do crítico” (1865), “Literatura Brasileira – instinto de nacionalidade” (1873), “Elogio da vaidade” (1878), “Teoria do medalhão” (1882) e o poema “À Carolina” (1906), que o autor dedicou a sua companheira de toda a vida. De assinalar é que o editor preferiu manter a grafia da época.

A outra é a edição da Editora da Unicamp lançada no ano passado, com estabelecimento do texto de Ana Cláudia Suriani da Silva, apresentação de Élide Valarini Oliver e introdução crítico-filológica de Ana Cláudia Suriani da Silva e Eliane Fernanda Cunha Ferreira. Nesse livro, Ana Cláudia e Eliane Fernanda mostram quem foi Hénaux, “um belga, jurista de profissão, que provavelmente atuava em Liège, dado serem todas as suas outras publicações relativas a essa cidade”. Elas levantaram que “De l´amour” teve repercussão na época de sua publicação na Bélgica, “uma vez que existem pelo menos quatro edições da obra, duas tendo sido publicadas num intervalo de apenas um ano”.
 
Qualquer que seja a escolha, imprescindível é ao leitor conhecer também “Machado de Assis tradutor”, de Jean-Michel Massa, não só para saber pormenores a respeito de sua versão da obra de Hénaux, mas principalmente para constatar como funcionava o trabalho de tradução do bruxo do Cosme Velho, sua capacidade e aptidões. Depois disso, só nos restaria fazer aqui um fecho à imitação de “Dom Casmurro’. Vamos à segunda edição de “A Juventude de Machado de Assis”.
 


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POR EM 22/05/2009 ÀS 03:25 PM

Memórias russas de amor, arte e sangue

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Há dois se­nões edi­to­ri­ais. Stá­lin, mais uma vez, é gra­fa­do sem acen­to, por­que, co­mo o li­vro foi ver­ti­do do in­glês, o tra­du­tor (ou a edi­to­ra) age co­mo mu­ji­que, alie­na­da­men­te. O mes­mo ocor­re com o no­me do po­e­ta Púchkin, que, além de per­der o acen­to, ga­nhou a gra­fia tí­pi­ca da lín­gua in­gle­sa, “Pushkin”

O jor­na­lis­ta in­glês Owen Mat­thews é jo­vem e, em ter­mos de me­mó­ri­as, jo­vens têm pou­co o que con­tar, ex­ce­to no ca­so de Ke­ats, Büchner, Rim­baud e Ra­di­guet. Owen tem pou­co a ver com os qua­tro, au­to­res que mor­re­ram jo­vens mas nas­ce­ram ve­lhos.

En­tre­tan­to, sur­pre­en­den­te­men­te e tal­vez nem tan­to, Owen tem o que con­tar, e con­ta, com fer­vor, do­san­do emo­ção e ra­zão no mes­mo co­po de vi­da. Seu “A He­ran­ça de Stá­lin — Três Ge­ra­ções de Amor e Guer­ra” (Glo­bo, 366 pá­gi­nas, tra­du­ção de Max Altman) é um mag­ní­fi­co li­vro so­bre a vi­da.

Se con­tas­se ape­nas sua his­tó­ria, ain­da cur­ta, Owen te­ria es­cri­to um li­vro tal­vez bom, mas não tan­to. Co­mo sa­be que a his­tó­ria de um in­di­ví­duo é só de­le, mas de­pen­de do ca­di­nho de ou­tras vi­das, Owen re­la­ta a his­tó­ria do avô Bo­ris Bi­bikov e dos pa­is, a so­vi­é­ti­ca Lyud­mi­la (Mi­la) Bi­biko­va e o in­glês Mervyn Mat­thews. Bi­bikov foi as­sas­si­na­do pe­la po­lí­cia de Stá­lin, em 1937. Acu­sa­ção: trai­ção. Qual trai­ção? Ne­nhu­ma. Era co­mu­nis­ta, dos mais fi­éis.

Lê-se “A He­ran­ça de Stá­lin” co­mo se fos­se um ro­man­ce, de cer­ta for­ma é. Res­sal­va: o “san­gue” re­ve­la que, por mais ina­cre­di­tá­vel que se­ja, a um pas­so da fic­ção, a Uni­ão So­vi­é­ti­ca foi, ao la­do da Ale­ma­nha de Adolf Hit­ler e da Chi­na de Mao Tsé-tung, o pi­or pe­sa­de­lo do sé­cu­lo 20.

Há dois se­nões edi­to­ri­ais. Stá­lin, mais uma vez, é gra­fa­do sem acen­to, por­que, co­mo o li­vro foi ver­ti­do do in­glês, o tra­du­tor (ou a edi­to­ra) age co­mo mu­ji­que, alie­na­da­men­te. O mes­mo ocor­re com o no­me do po­e­ta Púchkin (o Car­los Drum­mond de An­dra­de dos rus­sos), que, além de per­der o acen­to, ga­nhou a gra­fia tí­pi­ca da lín­gua in­gle­sa, “Pushkin”.

Re­co­men­da-se que o lei­tor do li­vro de Owen, da equi­pe da “Newswe­ek” na Rús­sia, leia tam­bém o mag­ní­fi­co e do­lo­ro­so ro­man­ce “Ca­sa de En­con­tros” (Com­pa­nhia das Le­tras, 238 pá­gi­nas, tra­du­ção de Ru­bens Fi­guei­re­do), de Mar­tin Amis.

Se ti­ver um pou­co de pa­ci­ên­cia, e quem sa­be tem­po, de­ve-se ler “Gu­lag — Uma His­tó­ria dos Cam­pos de Pri­si­o­nei­ros So­vi­é­ti­cos” (Edio­u­ro, 749 pá­gi­nas, tra­du­ção de Má­rio Vi­le­la e Ibraí­ma Da­fon­te), de An­ne Ap­ple­baum, que ga­nhou o Prê­mio Pu­lit­zer de 2004. É, sem ti­rar nem pôr, o me­lhor li­vro, “o” li­vro, so­bre o Gu­lag. Os que fa­lam tão-so­men­te do so­fri­men­to dos ju­deus, do Ho­lo­caus­to, têm o de­ver de ler so­bre o Ho­lo­caus­to so­vi­é­ti­co des­cri­to pe­la com­pe­ten­te e ri­go­ro­sa Ap­ple­baum.

Por fa­lar em ju­deus, Stá­lin ma­tou mi­lha­res de ju­deus. Co­mo Hit­ler, Stá­lin ti­nha uma im­pli­cân­cia es­pe­ci­al com os ju­deus. Era uma de su­as pa­ra­nói­as.
 


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POR EM 15/05/2009 ÀS 06:44 PM

George Eliot e Nechama Tec viram homens no Brasil

publicado em

Des­con­fio que al­guns re­se­nhis­tas não le­em os li­vros que co­men­tam, tal­vez por ex­ces­so de tra­ba­lho ou, quem sa­be, pre­gui­ça. Mui­tos le­em o pre­fá­cio, a in­tro­du­ção ou o pos­fá­cio e es­cre­vem as re­se­nhas

George Eliot e Nechama Tec  

A in­gle­sa Ge­or­ge Eli­ot (1819-1880) é uma es­cri­to­ra tão po­de­ro­sa quan­to Vir­gi­nia Wo­olf. Por ter as­si­na­do seus li­vros com no­me mas­cu­li­no, Mary An­ne Evans é con­fun­di­da, so­bre­tu­do no Bra­sil, com ho­mem. Na tra­du­ção de um li­vro de en­sai­os de Go­re Vi­dal, Di­o­go Mai­nar­di (o er­ro de­ve ter si­do do re­vi­sor, pois Mai­nar­di co­nhe­ce bem li­te­ra­tu­ra) es­cre­ve: “Em­bo­ra um Ge­or­ge Eli­ot...”. Na se­ma­na re­tra­sa­da, li o mes­mo num jor­nal bra­si­lei­ro, não me lem­bro qual. Al­guns dos me­lho­res li­vros de Eli­ot fo­ram pu­bli­ca­dos no Bra­sil: “Middle­march — Um Es­tu­do da Vi­da Pro­vin­ci­a­na” (Re­cord, 882 pá­gi­nas), “Da­ni­el De­ron­da” (Paz e Ter­ra, 694 pá­gi­nas, tra­du­ção de Ma­ri­sis Ara­nha Ca­mar­go) e “O Mo­i­nho So­bre o Rio” (Cír­cu­lo do Li­vro, 554 pá­gi­nas, tra­du­ção de Gil­da Stu­art). Sua vi­da po­de ser co­nhe­ci­da na ex­ce­len­te bi­o­gra­fia “Ge­or­ge Eli­ot — A Voz de um Sé­cu­lo” (Re­cord, 877 pá­gi­nas, tra­du­ção de Laís Li­ra), de Fre­de­rick R. Karl. Sua vi­da da­ria li­te­ra­tu­ra, ali­ás, deu, por­que a bi­o­gra­fia é tão ri­ca quan­to um dos me­lho­res ro­man­ces de Eli­ot.

Des­con­fio que al­guns re­se­nhis­tas não le­em os li­vros que co­men­tam, tal­vez por ex­ces­so de tra­ba­lho ou, quem sa­be, pre­gui­ça. Mui­tos le­em o pre­fá­cio, a in­tro­du­ção ou o pos­fá­cio e es­cre­vem as re­se­nhas. Há pou­co, na “Fo­lha de S. Pau­lo”, Os­car Pi­la­gal­lo re­se­nhou, num tex­to de pou­cas li­nhas, “Eu­ro­pa na Guer­ra” (Re­cord), de Nor­man Da­vi­es, e “Stá­lin, os Na­zis­tas e o Oci­den­te” (La­rous­se), de Lau­ren­ce Re­es. De for­ma la­pi­dar, co­mo con­vém ao re­se­nhis­mo bra­si­lei­ro, diz que as du­as obras não con­têm na­da de no­vo. O que não é ver­da­de (os li­vros mu­dam o fo­co de in­ter­pre­ta­ção da guer­ra). Pi­la­gal­lo im­pli­ca com a va­lo­ri­za­ção da par­ti­ci­pa­ção da Uni­ão So­vi­é­ti­ca na Se­gun­da Guer­ra Mun­di­al, in­si­nu­an­do que, so­bre­tu­do Da­vi­es, des­va­lo­ri­za o front oci­den­tal. É fa­to que Da­vi­es re­va­lo­ri­za o front ori­en­tal, for­ne­cen­do da­dos que com­pro­vam sua te­se, o que Pi­la­gal­lo não men­ci­o­na, por­que se­não der­ru­ba­ria sua “te­se”, mas não des­con­si­de­ra a par­ti­ci­pa­ção de in­gles­es e ame­ri­ca­nos. Da­vi­es faz mui­to mais: va­lo­ri­za ca­na­den­ses, po­lo­nes­es, ucra­nia­nos, bi­e­lo-rus­sos, en­tre ou­tros po­vos. E faz um aler­ta: os rus­sos so­fre­ram na guer­ra, mas é pre­ci­so di­zer, no lu­gar de rus­sos, “so­vi­é­ti­cos”, por­que ou­tros po­vos, co­mo ucra­nia­nos e bi­e­lo-rus­sos, fo­ram, pro­por­ci­o­nal­men­te, mui­to mais agre­di­dos pe­los na­zis­tas ale­mã­es. Ao mes­mo tem­po em que re­gis­tram a atu­a­ção de­ci­si­va da URSS, Da­vi­es e Re­es apon­tam, com far­ta do­cu­men­ta­ção, os cri­mes do sta­li­nis­mo e, de cer­to mo­do, a omis­são dos prag­má­ti­cos Wins­ton Chur­chill e Franklin D. Ro­o­se­velt.

Er­ro es­pan­to­so foi co­me­ti­do pe­la re­vis­ta “Is­toÉ”. O re­pór­ter Ivan Clau­dio es­cre­veu: “Da­ni­el Cra­ig se des­piu do uni­for­me de es­pi­ão bri­tâ­ni­co pa­ra en­car­nar o re­fu­gi­a­do ju­deu Tu­via Man­del no fil­me ‘Um Ato de Li­ber­da­de’, de Edward Zwick. A his­tó­ria se ba­seia em fa­tos re­ais ocor­ri­dos du­ran­te a Se­gun­da Guer­ra Mun­di­al e nar­ra­dos em li­vro ho­mô­ni­mo pe­lo es­cri­tor Ne­cha­ma Tec”. “Um Ato de Li­ber­da­de” é ba­se­a­do no li­vro “De­fi­an­ce” (“Re­bel­dia”), tra­du­zi­do no Bra­sil, por con­ta do fil­me, co­mo “Um Ato de Li­ber­da­de — Os Guer­ri­lhei­ros de Bi­elski” (Edi­to­ra Re­cord, 402 pá­gi­nas, tra­du­ção de Di­nah Aze­ve­do). Cor­re­ção: Ne­cha­ma Tec é mu­lher, so­ci­ó­lo­ga e pro­fes­so­ra da Uni­ver­si­da­de de Con­nec­ti­cut.
 


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POR EM 15/05/2009 ÀS 06:22 PM

Historiador diz que participação do Brasil na Segunda Guerra não foi simbólica

publicado em

Bo­na­lu­me Ne­to acer­ta quan­do diz que Wil­li­am Wa­ack se­gue a ma­nia de al­guns bra­si­lei­ros: tu­do que vem do “es­tran­gei­ro” é ver­da­de in­con­tes­tá­vel 
 

William Waack
William Waack
 
O po­e­ta e jor­na­lis­ta Car­los Wil­li­an me pe­de uma lis­ta mí­ni­ma de li­vros so­bre a par­ti­ci­pa­ção do Bra­sil na Se­gun­da Guer­ra Mun­di­al.

O lei­tor, se ini­ci­an­te, de­ve co­me­çar pe­lo opús­cu­lo (mui­to bom) “Os Bra­si­lei­ros e a Se­gun­da Guer­ra Mun­di­al” (Jor­ge Za­har, 78 pá­gi­nas), do dou­tor em his­tó­ria pe­la USP Fran­cis­co Cé­sar Fer­raz. O his­to­ri­a­dor diz que, “em um ba­lan­ço so­bre a atu­a­ção da FEB [For­ça Ex­pe­di­cio­ná­ria Bra­si­lei­ra] em com­ba­te, seu de­sem­pe­nho po­de ser equi­pa­ra­do ao das me­lho­res uni­da­des ali­a­das en­vol­vi­das na fren­te ita­li­a­na” (pá­gi­na 65).

Cé­sar Fer­raz acres­cen­ta: “Pes­qui­sas his­tó­ri­cas sé­rias, com me­to­do­lo­gi­as ade­qua­das, e que ten­tam man­ter-se dis­tan­tes de pre­con­cei­tos, mos­tra­ram que, se a atu­a­ção bra­si­lei­ra não foi de­ci­si­va pa­ra a vi­tó­ria dos Ali­a­dos na Itá­lia — e ja­mais po­de­ria ser a de qual­quer di­vi­são de exér­ci­to iso­la­da, em meio a ou­tras 23 di­vi­sões no mes­mo Te­a­tro de Ope­ra­ções — tam­pou­co sua im­por­tân­cia foi nu­la. (...) É tam­bém um er­ro afir­mar que a par­ti­ci­pa­ção bra­si­lei­ra, com pou­co mais de 25 mil ho­mens, foi ‘sim­bó­li­ca’” (pá­gi­na 71).

“A Nos­sa Se­gun­da Guer­ra: Os Bra­si­lei­ros em Com­ba­te — 1942-1945” (Ex­pres­são e Cul­tu­ra, 224 pá­gi­nas), do jor­na­lis­ta Ri­car­do Bo­na­lu­me Ne­to, é uma obra sé­ria e equi­li­bra­da. Tra­ba­lho de re­pór­ter com vo­ca­ção pa­ra his­to­ri­a­dor. Não li, mas di­zem que é bom: “On­de Es­tão Nos­sos He­róis? — Uma Bre­ve His­tó­ria dos Bra­si­lei­ros na Se­gun­da Guer­ra”, de Ce­sar Cam­pi­a­ni Ma­xi­mi­a­no. O li­vro mais po­lê­mi­co é “As Du­as Fa­ces da Gló­ria — A FEB Vis­ta Pe­los Seus Ali­a­dos e Ini­mi­gos” (No­va Fron­tei­ra, 250 pá­gi­nas), de Wil­li­am Wa­ack. Com ba­se em do­cu­men­tos ale­mã­es e ame­ri­ca­nos, ten­ta des­mo­ra­li­zar a FEB. Bo­na­lu­me Ne­to acer­ta quan­do diz que Wa­ack se­gue a ma­nia de al­guns bra­si­lei­ros: tu­do que vem do “es­tran­gei­ro” é ver­da­de in­con­tes­tá­vel.

O dou­to­ra­do de Cé­sar Fer­raz não foi pu­bli­ca­do, mas pre­su­mo que sua pes­qui­sa se­ja ri­ca: “A Guer­ra Que Não Aca­bou: A Re­in­te­gra­ção So­ci­al dos Ve­te­ra­nos da For­ça Ex­pe­di­cio­ná­ria Bra­si­lei­ra, 1945-2000”. Ele a de­fen­deu na USP, um cen­tro de ex­ce­lên­cia aca­dê­mi­ca.

“O Bra­sil na II Gran­de Guer­ra” (Bi­bli­o­te­ca do Exér­ci­to), de Ma­no­el Tho­maz Cas­te­lo Bran­co, é, se­gun­do Bo­na­lu­me Ne­to, “uti­lís­si­mo pa­ra se acom­pa­nhar a cam­pa­nha”. Ou­tro li­vro elo­gi­a­do pe­lo jor­na­lis­ta é “A Ma­ri­nha do Bra­sil na Se­gun­da Guer­ra Mun­di­al” (Ca­pe­mi Edi­to­ra), de Ar­tur Os­car Sal­da­nha da Ga­ma. O his­to­ri­a­dor ame­ri­ca­no Frank McCann diz que “De­poi­men­tos de Ofi­ci­ais da Re­ser­va So­bre a FEB” (de 1949) é “um dos li­vros mais úte­is so­bre a FEB”. McCann, por si­nal, é um dos crí­ti­cos do li­vro exa­ge­ra­do de Wa­ack.

Bo­ris Schnai­der­man, o de­ca­no dos tra­du­to­res do rus­so no Bra­sil, lu­tou na guer­ra e es­cre­veu o ro­man­ce “Guer­ra em Sur­di­na” (Co­sac­naify, 246 pá­gi­nas). Schnai­der­man diz que o ro­man­ce “Mi­na R”, de Ro­ber­to de Mel­lo e Sou­za, é “bom, for­te”. Jo­a­quim Xa­vi­er da Sil­vei­ra es­cre­veu “Cru­zes Bran­cas — O Di­á­rio de um Pra­ci­nha” (Jo­sé Olympio, de 1947. Mi­nha edi­ção saiu pe­la Jo­sé Ál­va­ro, Edi­tor) e “A FEB Por um Sol­da­do” (No­va Fron­tei­ra, de 1989). O ma­re­chal Flo­ri­a­no de Li­ma Brayner deu sua ver­são em “A Ver­da­de So­bre a FEB” (Ci­vi­li­za­ção Bra­si­lei­ra, 1968). Um dos li­vros mais co­nhe­ci­dos é a “FEB Por Seu Co­man­dan­te”, do ma­re­chal J. B. Mas­ca­re­nhas de Mo­ra­es.

“Crô­ni­cas da Guer­ra na Itá­lia (Re­cord), de Ru­bem Bra­ga, não é tra­ba­lho de cor­res­pon­den­te de guer­ra tra­di­cio­nal, e sim de es­cri­tor, de cro­nis­ta aten­to à mi­nu­dên­cia que de­li­cia e co­mo­ve. Os jor­na­lis­tas Jo­el Sil­vei­ra, a Ví­bo­ra, e Thas­si­lo Mitke pu­bli­ca­ram “A Lu­ta dos Pra­ci­nhas” (Re­cord). Jo­el Sil­vei­ra es­cre­veu "O In­ver­no na Guer­ra" (Ob­je­ti­va, 176 pá­gi­nas).
 

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POR EM 08/05/2009 ÀS 04:11 PM

Menotti e a São Paulo dos anos 20

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Obra ajuda a resgatar do limbo um autor pouco estudado e até mal visto pela pesquisa acadêmica, talvez porque não só esteve ligado à oligarquia cafeeira, derrubada do poder pelo golpe civil-militar de 1930 a que chamam de Revolução de 30, como ainda acabou por se vincular a um grupo fascista nos anos 1930-1940

 
Brecheret, Di cavalcante, Menotti, Oswald, Hélio Selinger

Walter Benjamin (1892-1940) sempre considerou o cronista superior ao historiador clássico em sua capacidade de reter o tempo. Como diz o pensador alemão em “Magia e Técnica, Arte e Política” (São Paulo: Brasiliense, 1985, p.223), numa de suas famosas teses “Sobre o conceito de história”, seu último escrito, o cronista narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, levando em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história.

Se, para Benjamin, na acepção histórica o cronista é o narrador da História, não se pode dizer que contemporaneamente tenha perdido essa condição, pois ainda hoje sua produção constitui um reflexo da rápida transformação e da fugacidade da vida moderna. Aliás, até o início da era cristã, fazer crônica era fazer história, um registro de acontecimentos ordenados em seqüência cronológica, como se lê em Massaud Moisés (“A Criação Literária. Prosa II”, São Paulo: Cultrix, 19ª ed., 2005, p.101).

Por isso, Ana Claudia Veiga de Castro, arquiteta e urbanista formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), mestre pela mesma instituição e professora de História da Cidade na Escola da Cidade, de São Paulo-SP, embora não tenha citado Benjamin nas referências bibliográficas de seu trabalho, andou bem em exumar as crônicas que Menotti del Picchia (1892-1988) publicou no “Correio Paulistano” na década de 1920 para escrever a sua tese de mestrado que acaba de virar livro: “A São Paulo de Menotti del Picchia: Arquitetura, Arte e Cidade Nas Crônicas de um Modernista” (São Paulo: Alameda Casa Editorial, 2008).

Embora ao final do século XIX e no decorrer do século XX já não tivesse a intenção de historiar, como em seus primórdios, a crônica, ainda que fugaz e transitória como o jornal e a revista que a publicam, constitui nas mãos do pesquisador um material de interesse para pensar a cidade, pois atua como uma forma de preservação do tempo e da memória, “um meio de representação temporal dos eventos passados, um registro da vida escoada”, como disse David Arrigucci Jr. em “Enigma e Comentário. Ensaios Sobre Literatura e Experiência”  (São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p.51).

Dessa maneira, a partir das crônicas de Menotti del Picchia, Ana Claudia compõe um panorama dos diversos mundos de uma São Paulo que começa a se tornar metrópole, dentro de um trabalho multidisciplinar de pesquisa sobre o Modernismo e a modernização brasileira, que engloba arquitetura, jornalismo, arte, literatura e história. Ao mesmo tempo, ajuda a resgatar do limbo um autor pouco estudado e até mal visto pela pesquisa acadêmica, talvez porque não só esteve ligado à oligarquia cafeeira, derrubada do poder pelo golpe civil-militar de 1930 a que chamam de Revolução de 30, como ainda acabou por se vincular a um grupo fascista nos anos 1930-1940.

Como o livro se refere só de passagem a esse período, é preciso lembrar que, antes de ingressar no “Correio Paulistano”, em São Paulo, o jovem advogado Menotti del Picchia dirigiu a redação de “A Tribuna”, de Santos, de 1918 a 1919, época em que escreveu vários artigos defendendo a repressão policial às reivindicações dos trabalhadores da Companhia Docas e da Companhia City, empresa de capital canadense que movimentava o serviço de bondes na cidade. Essa repressão, aliás, era comandada pelo delegado regional Ibrahim Nobre (1890-1970), também poeta, que haveria de se destacar na história de São Paulo como um dos ícones da Revolução Constitucionalista de 1932, que exigiu do governo Vargas a devolução do estado de direito ao País. 

 Da mesma época, era o médico e poeta Martins Fontes (1884-1937) que, embora tivesse no plano político um comportamento revolucionário, de apoio às causas operárias, que contrariava os interesses de sua classe social, era na poesia um parnasiano, fiel até o fim à memória de seu amigo Olavo Bilac (1865-1918). Sua poesia seria desqualificada na “Revista Klaxon” (nº 8-9, 1922-1923) por Mario de Andrade (1893-1945), corifeu do movimento modernista, que considerou o seu livro “Arlequinada”  “uma porção de alexandrinos fragílimos”. E talvez por isso condenada ao ostracismo.

Já Menotti del Picchia, colaborador de “Klaxon” e um dos mais aguerridos combatentes na fase pré-revolucionária modernista e nos anos subseqüentes a 1922, tem até hoje o seu nome ligado ao Modernismo, embora, tal como Martins Fontes, tenha uma obra nitidamente vinculada à belle époque, naquilo que prolonga o Simbolismo e suas mutações. Nada disso, é claro, desqualifica a obra de Menotti del Picchia, que teve a sua importância, mas que hoje afigura-se como extremamente datada.

Com o cuidado próprio dos bons pesquisadores, Ana Claudia percorreu cerca de 1700 crônicas que Menotti del Picchia escreveu quase diariamente de 18 de setembro de 1919 a 24 de outubro de 1930, assinadas com o pseudônimo Helios sob a rubrica “Crônica Social”, procurando encontrar aqui e ali imagens de um momento de aceleração histórica em que a “cidade moderna” começava a aflorar, embora São Paulo seja hoje, com seu gigantismo e problemas sociais, um exemplo de tudo o que não deve ser uma cidade moderna.  Mas isto é outra discussão.

Ana Claudia lembra que o “Correio Paulistano”, porta-voz oficial do Partido Republicano Paulista, a principal força política do período, que representava os interesses dos oligarcas do café, era lido por parcela expressiva da população letrada, dividindo a preferência com “O Estado de S.Paulo”, que sobrevive até hoje. E as crônicas de Menotti del Picchia refletiam a construção de uma imagem de cidade que se queria moderna, mas que se revela “muitas vezes ambígua e contraditória”.

Na primeira parte do livro, Ana Claudia fez uma breve biografia de Menotti del Picchia, percorrendo sua trajetória, desde o nascimento em São Paulo, filho de um italiano da região da Toscana que viera para o Brasil não para trabalhar na lavoura, como tantos italianos contemporâneos, mas para atuar nas cidades como artesão especializado em construções, uma espécie de arquiteto sem diploma, construtor e mestre-de-obras. Depois de participar da construção do Teatro Municipal de São Paulo, seu pai transfere-se para o interior do Estado em busca de oportunidades de trabalho, a uma época em que os barões do café não só construíam grandes residências como algumas cidades tratavam de erguer seus teatros municipais.

Alfabetizado, o pai de Menotti assinava revistas estrangeiras, o que, com certeza, deve ter despertado a veia intelectual do filho. Vivendo parte de sua infância em cidades do interior, Menotti volta a São Paulo para cursar Direito na famosa Faculdade do Largo de São Francisco, onde se formou em 1913. Um ano antes, casara-se com uma namorada de infância, filha de uma tradicional família de Itapira, cidade de uma região enriquecida com o auge do café. Formado, voltou a Itapira para cuidar da fazenda da família da mulher, mas, em 1918, termina a sua carreira como fazendeiro, ao perder a safra de café depois de “uma chuva de pedra”. É, então, que decide ganhar a vida atuando como advogado e jornalista. Primeiro, em Santos, dirigindo “A Tribuna” e, depois, em São Paulo.

Na segunda parte, a partir das crônicas publicadas no “Correio Paulistano”, a pesquisadora recupera personagens que se tornam usuários privilegiados dos novos equipamentos e dos novos meios de transporte da cidade juntamente com outros que parecem pertencer a um mundo anterior, o do século XIX, que na visão do cronista mostram-se condenados a desaparecer.

Já a terceira parte concentra a discussão da imagem da cidade de São Paulo através de sua materialidade e arquitetura.  As crônicas escolhidas, segundo a estudiosa, ganham interesse porque resgatam uma discussão típica da época, em torno de uma “raça paulista”, do lugar de São Paulo e do lugar do imigrante. É dessa época, ressalte-se, a construção do mito do bandeirante por historiadores paulistas, que pouco tem a ver com os verdadeiros “aventureiros paulistas” que emergem dos documentos do século XVIII, a partir até mesmo da indumentária que vestiam.
 
Resgata a autora que Menotti del Picchia discutia a necessidade de São Paulo ter edificações mais condizentes com o desenvolvimento contemporâneo e, comparando a cidade com a capital da República, dizia que lhe faltavam imponentes palácios para dar ao visitante a noção da grandeza do Estado.
 
Tudo isso foi resultado de um contexto em que São Paulo procurava assumir-se não só como o Estado-líder da Federação, mas também como a região fundadora da nação brasileira. Portanto, não bastava apenas construir a cidade nova apagando os vestígios do passado, mas era preciso reconstruir um passado do ponto de vista épico, reinventando-o inclusive. Foi o que fez Menotti del Picchia, assumindo como cronista papel semelhante ao dos historiadores paulistas da época.
 
Como se depreende do livro de Ana Claudia, Menotti também se deixou influenciar pelas idéias do ucraniano Gregori Warchavchik (1896-1972), especialmente depois de visitar, em 1928, a casa que este mandara levantar na Rua Mello Alves, a que considerou “uma pequena maravilha”. Warchavchik defendia a beleza e a arquitetura de seu tempo como a beleza da máquina, da indústria e da objetividade, tendo conquistado a adesão de muitos jovens arquitetos para a nova concepção que se dizia modernista. Warchavchik dizia que não mais havia sentido em buscar no passado inspiração para a arquitetura do presente, como faziam então os tradicionalistas, mas sim pensar a nova arquitetura como um reflexo dos novos princípios e das necessidades do “espírito do tempo”, como observa a autora.
 
Com a chegada ao Brasil do arquiteto franco-suíço Le Corbusier (1887-1965) ao final década de 1920, a discussão sobre uma nova arquitetura ganha maior ênfase. E Warchavchik sai fortalecido em sua pregação. É a partir daí que surge a arquitetura modernista brasileira, de que Lucio Costa (1902-1908) e Oscar Niemayer (1907) seriam os maiores expoentes.
 
Mas a respeito de Warchavchik, chegado ao Brasil em 1923, ainda há muito a se descobrir e desmitificar, a partir de um depoimento que o arquiteto João Batista Artigas Vilanova (1915-1985) deu em 1983 à arquiteta Christina Bezerra de Mello Jucá, professora da Universidade de Brasília (UnB), considerando-o “moralmente meio suspeito”, pois não tinha “capacidade nenhuma para desenhar” e que “sempre contratava alguém para fazer as coisas para ele, mas para fazer tudo”.
 
É provável que tenha sido um grande falastrão e não mereça tudo o que se lhe é atribuído na concepção da arquitetura moderna no Brasil – e que também tenha levado não só Menotti del Picchia como muitos outros intelectuais modernistas no bico. Mas isso só um novo trabalho de pesquisa deverá mostrar.
 


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POR EM 08/05/2009 ÀS 01:54 PM

Historiador inglês discute a literatura transnacional sobre a Segunda Guerra Mundial

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Davies discute a produção literária que enfoca a Segunda Guerra Mundial, mas não do ponto de vista estético, e sim a respeito de como apresentaram o assunto


Norman Davies 

O crítico de cinema Herondes Cezar talvez tenha razão: Norman Davies possivelmente entende muito de história e pouco de cinema. Talvez o mesmo ocorra com suas interpretações literárias. No capítulo final do livro “A Europa na Guerra: Uma Vitória Nada Simples — 1939-1945” (Record, 599 páginas), Davies discute a produção literária que enfoca a Segunda Guerra Mundial, mas não do ponto de vista estético, e sim a respeito de como apresentaram o assunto.

A tese de que poucos poetas discutiram a Segunda Guerra é, na visão de Davies, uma percepção anglo-americana. O historiador nota que os Aliados ignoram inclusive os bardos soldados. Ele cita como exemplo o poeta e soldado inglês Keith Douglas, morto por um mosteiro aos 24 anos, e cita seu poema “Actors Waiting in the Wings”. Li, é fraco. “Alamein to Zem-Zem” é apontado, por Davies, como tendo “momentos brilhantes”, mas nem parte do poema é transcrito.

Alexander Soljenitsin provou, com o “Arquipélago Gulag”, que estava à frente dos historiadores, documentando a devastação do povo e da intelligentsia soviética pelo stalinismo. Foi massacrado pelos críticos literários de esquerda, que, como de hábito, não fizeram autocrítica, quando, abertos os arquivos soviéticos, descobriu-se que “era tudo verdade”. Em “Noites Prussianas” escreveu um épico russo sobre a Segunda Guerra, no entendimento de Davies. Kamil Baczynski, morto aos 23 anos, em 1944, durante o Levante de Varsóvia (poloneses atacaram os nazistas e foram destroçados), é apontado por Davies como um grande talento.

T. S. Eliot tratou a Segunda Guerra episodicamente, em “Quatro Quartetos”. Dylan Thomas roçou o assunto. George Orwell “estava bem adiante de seu tempo ao notar as semelhanças totalitárias entre o inimigo nazistas e o aliado soviético”. No “Tribune”, onde foi editor, Orwell criticou os crimes soviéticos durante o Levante de Varsóvia. Há um trecho de “A Revolução dos Bichos”, de 1945, que, na opinião de Davies, diz tudo: “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que outros”. Trata-se de uma crítica corrosiva ao stalinismo, à sua burocracia assassina e totalitária. Em 1949, Orwell publicou seu retrato final do totalitarismo, o romance “1984”. Era a ficção dando conta, com felicidade, da abrangência da era totalitária.

Davies nota que outros grandes escritores ingleses voltaram-se para entender a guerra, a partir de focos diferentes. Em “Fim de Caso” (que rendeu dois filmes), de 1951, Graham Greene “enfoca os romances notoriamente frágeis do período da guerra”. Evelyn Waugh (um autor notável, mas subestimado, possivelmente por não ser de esquerda) publicou a trilogia “A Espada da Honra”, entre 1952 e 1961. Davies diz que é “semi-satírica”. Não entendo o “semi”, porque a obra, apesar dos cuidados com o registro histórico, é mesmo satírica. Lawrence Durrell, em “O Quarteto de Alexandria”, quatro volumes densos (publicados no Brasil com ótima tradução), “conduziu ‘uma investigação do amor moderno’ no sórdido ambiente do fim do Egito imperial”.

Para Davies, a maior surpresa, em termos qualitativos, é o romance “Senhor das Moscas”, de 1954, de William Golding. O Nobel de Literatura empregou “sua pena ácida para recontar a velha história de homens presos em uma ilha deserta” e ofereceu “sua convicção quanto à selvageria subjacente da natureza humana. Sua convicção de que a selvageria ficava logo abaixo da superfície da civilização obviamente havia sido alimentada pelas observações do autor durante a guerra”. Golding foi tenente da Marinha Real.

Por ser mais historiador do que especialista em literatura, Davies resgata do anonimato um autor do segundo ou do terceiro time. Nicholas Monsarrat, autor do romance “Mar Cruel” (publicado, pela Editora Mérito, na década de 1950), foi oficial naval. Davies diz que Monsarrat procurou “tornar a ficção realista mais real do que a história” e sustenta que é um dos “melhores” livros sobre a guerra. O livro conta a história dos tripulantes dos navios Compass Rose e Saltash, que circularam, sob intenso perigo, pelo Atlântico Norte. Davies diz que o filme extraído do romance é “soberbo”.

Norman Lewis é destacado como um dos melhores autores que escreveram sobre a guerra. “Graham Greene definiu-o como ‘incomparável’, e alguns críticos classificaram-no como ‘o escritor dos escritores’.” Lewis, que serviu no Corpo de Inteligência britânico na Itália em 1943-1945, publicou “The Honoured Society”, em 1964, e “Nápoles 1944”, em 1978.

O existencialismo é, segundo Davies, produto da guerra. Ele diz, irônico, que a guerra gerou também “muita pose marxista”. Albert Camus, talvez o maior escritor francês do século 20, depois de Proust e ao lado de Gide, escreveu “O Estrangeiro”, de 1942, durante a guerra, “A Peste”, de 1946, e “O Homem Revoltado”, de 1951. Camus “era profundamente obcecado com o absurdo da condição humana e talvez por isso fosse menos abertamente político. Sartre não via contradição entre ser um comunista de carteirinha e filosofar sobre a liberdade”.

Escritores americanos também usaram a guerra como fonte. Norman Mailer publicou “Os Nus e os Mortos”, de 1948. Joseph Heller escreveu “Ardil 22”, de 1961. Kurt Vonnegut, prisioneiro de guerra, é autor de “Matadouro 5”.

Os alemães escreveram sobre a guerra, mas, no geral, fugiram do tema. Davies cita, como uma tentativa de “conciliar-se com o passado”, de Bernhard Schlink, o romance “O Leitor”, de 1995. (Curiosamente, ignora a prosa complexa de Thomas Bernhard.) O historiador arrola também Henrich Boll (“O Anjo Silencioso”, de 1992) e Günter Grass (“O Tambor”, de 1959, e “Passo de Caranguejo”, de 2002).

Se a literatura reproduziu bem a desnazificação, criticando asperamente os crimes de Hitler e acólitos, continuou, senão escondendo, pelo menos omitindo os crimes do stalinismo. Davies diz que, na Alemanha, prefere-se, mais recentemente, a autofragelação. “A moda de sentir culpa foi encorajada, mesmo entre jovens que não eram nascidos na época de Hitler, e radicais esquerdistas ganharam proeminência entre os árbitros dos gostos literário e intelectual. Um ex-policial do serviço de segurança stalinista, Marcel Reich-Ranicki (nascido em 1920), pôde tornar-se um influente crítico literário.” Aqui, digamos, reside um dos problemas de Davies: não ficamos sabendo se a crítica de Ranicki tem qualidade, e sim que foi policial. O historiador afirma que a prosa de Jürgen Habermas é “impenetrável” e que o filósofo, “neomarxista”, é propenso à polêmica. E daí? Davies é, não raro, extremamente sintéticos e impreciso.

Os escritores soviéticos não tiveram refresco durante e depois da guerra. Stálin, no lugar de afrouxar o controle, continuou a caça às bruxas (Stálin, como se sabe, mandou prender Óssip Mandelstam porque o poeta escreveu que ele tinha bigodes de barata). “Um ‘delego’ muito limitado aconteceu após o ‘discurso secreto’ de Khruschov em 1956. Mas, em essência, duzentos milhões de cidadãos soviéticos e um conjunto de nações cativas foram mantidos por meio século em camisa de força mental e física.”

Escrever sobre a participação da União Soviética na guerra só com “triunfalismo”. “As críticas ao Grande Stálin ou ao alto-comando soviético eram proibidas.” Ilia Ehrenburg (1891-1967) rompeu o cerco, no entendimento de Davies (que não nota, por outro lado, que Ehrenburg, na França, articulou um movimento para destruir o dissidente Victor Serge), e publicou “A Queda de Paris”, em 1941, “A Tempestade”, em 1948, e “O Degelo”, em 1954. O escritor apresentou temas tabus, como o Holocausto e o Pacto Nazi-Soviético. Davies diz que Ehrenburg era importante para o stalinismo, como propagandista do sistema — “Ehrenburg vale por várias divisões”, disse Molotov —, e por isso sobreviveu. Entre seus feitos estavam os apelos para os soviéticos matarem alemães e, durante a Guerra Fria, atacarem americanos. Era um stalinista ao qual permitia-se arranhar, bem levemente, o stalinismo. Era o rebelde consentido.

Um escritor mais consistente, como Vassili (ou Vasily) Grossman (1905-1964), que Davies conta ter sido protegido de Ehrenburg, foi perseguido pelo stalinismo. Por seu imenso talento, ganhou o cargo de correspondente do jornal “Krasnaia Zviezda”, e escreveu livros ditos ortodoxos por Davies, como “Povo Imortal”, de 1942, e “Stalingrado”, de 1943, “e até mesmo se safou com uma obra testemunhal sobre o Holocausto, ‘O Inferno de Treblinka’”, de 1944. Quando decidiu ousar, dotando sua obra de um matiz mais crítico, o regime endureceu. “Na Causa Justa”, de 1954, sobre Stalingrado, depois de oito anos censurado, foi publicado, mas com mutilações. A obra-prima de Grossman, “Vida e Destino”, de 1960, ficou sob censura durante 20 anos. Mikhail Suslov, principal ideólogo soviético, disse que “a obra só seria impressa depois de 250 anos”. Surpreende que Davies, quase sempre atento, não cite o excelente “Um Escritor na Guerra” (Objetiva, 495 páginas, tradução de Bruno Casotti), livro que recolhe as reportagens de guerra de Grossman. A obra foi editada e traduzida do russo para o inglês pelo historiador inglês Antony Beevor e pela bióloga e jornalista russa Luba Vinogradova.

Judeus, Ehrenburg — Davies o apresenta quase que como “rebelde”, o que nunca foi — e Grossman recolheram farto material para escreverem um Livro Negro sobre o destino dos judeus soviéticos. Davies garante que os dois queriam comparar o Holocausto nazista com o sofrimento dos judeus russos. “Mas, à mente soviética, a própria idéia de criminalidade soviética, quanto mais de comparações com a criminalidade nazista, era uma abominação.”

Ievguêni Ievtushênko, nascido em 1933, teve a sorte de escrever e, portanto, publicar depois da morte de Stálin. Publicado em 1958, o longo poema “Bábi Iár” (uso a grafia com acentos, não a de Davies. Vitor Paolozzi não põe acentos porque traduziu o livro do inglês) é visto, por Davies, “como um ato de grande coragem”. Porque Stálin havia falecido, intoxicado pela paranóia, cinco anos antes, mas o stalinismo (seus seguidores), como notou o próprio Ievtushênko, no célebre poema “Os herdeiros de Stálin”, permanecia vivo.

Transcrevo o trecho inicial do longo poema “Bábi Iár”, na tradução de Lauro Machado Coelho (“Poesia Soviética”, Editora Algol, 654 páginas): “Em Bábi Iár não há monumento./Uma rocha escarpada, apenas, como a lápide mais rude./Tenho medo./Hoje, sinto-me tão velho/Quanto todo o povo judeu./Vejo-me como um antigo israelita./Perambulo pelas estradas do antigo Egito/E, na cruz, morro torturado:/Até hoje carrego nas mãos a marca dos pregos./Parece que eu sou o próprio Dreyfus.”

O objetivo de Ievtushênko, com o poema, “não era divulgar o massacre de 1941 [o de Katyn], mas sim lamentar a recusa das autoridades soviéticas em permitir a discussão da história judaica em geral. (...) Ele falou dos pogroms czaristas: ‘Eu vejo a mim mesmo como um menino em Belostok,/E sangue corre pelo chão//Eu sou odiado como um judeu/E é por isso que digo que sou russo’”.

Alexander Soljenitsin, citado antes, foi, segundo Davies, “o pugilista literário que desferiu os golpes mais potentes. Um veterano da guerra e um russo profundamente patriota, ele ficou indignado pelos seus anos perdidos no Gulag e encheu-se de determinação em mostrar ao mundo a realidade das repressões soviéticas — que não pararam durante a guerra, como muitos ocidentais pensavam, e que prosseguiam. Seu primeiro meio escolhido foi a ficção. O romance ‘Um Dia na Vida de Ivan Denissovitch’ (1962), que foi apenas o começo, causou uma sensação. ‘Pavilhão dos Cancerosos’ (1968) e ‘O Primeiro Círculo’ prosseguiram no tema das reações humanas a dificuldades extremas. Por esse motivo, foi expulso da União dos Escritores Soviéticos. Mas isso foi um mero prelúdio à erupção vulcânica que viria com sua abrupta deportação da URSS”.

Enquanto os soviéticos tentavam escrever sobre a guerra, num estilo enviezado, para tentar escapar da censura — que não acabou com a morte de Stálin, em 1953 —, no mundo democrático viu-se uma enxurrada de livros, a maioria sem qualidade. Davies diz que a produção excessiva “atesta o poder da Segunda Guerra Mundial na imaginação popular, ou seja, o impacto contínuo do mais memorável dos eventos passados sobre a consciência atual”.

Os espiões, com suas histórias fabulosas, ganharam dezenas de livros (faltou citar um livro sobre Kim Philby, o espião dos espiões). Alguns dos melhores foram escritos por Graham Greene (“O Ministério do Medo”, de 1943) e John Le Carré. Davies cita um autor que não conheço, Alan Furst (nascido em 1941, autor de “Dark Star”, de 1991, e “Red Gold”, de 1999. A Record publicou “No Reino das Sombras”), que “tem um toque invejável e uma sensibilidade para o lado exótico do Leste Europeu”. O historiador diz que a “alohistória”, ou história alternativa, “parece ter surgido da ficção científica”. “E se a Operação Leão-Marinho tivesse dado certo?” — é o que perguntam Len Deighton (“Bomber”, de 1970, e “SS-GB — A Grã-Bretanha Ocupada pelos Nazistas”, de 1978) e Robert Harris (“Pátria Amada”, de 1992, e “Enigma”, de 1995).

Davies diz que alguns prosadores, depois de enfocarem as ações dos vitoriosos Aliados (a guerra naval, a guerra aérea e o deserto ocidental), mudaram o rumo de seus livros. “Nos anos 1970 e 1980, o Holocausto tornou-se uma grande preocupação, após longa negligência. Como no campo da história, seu tratamento ficcional caracterizou-se por uma profunda compaixão pela tragédia judaica e muitas liberdades tomadas em relação à ambiência.” Leon Uris (“Mila 18”, de 1961) e William Styron (“A Escolha de Sofia”, de 1979) se tornaram peças-chaves do debate universitário nos Estados Unidos. Filmes semidocumentários, como “Shoah”, de 1986, de Claude Lanzmann, “foram arquitetados para promover o efeito desejado”. Outros livros sobre o Holocausto: “A Noite” (1958), de Elie Wiesel; “O Pássaro Pintado” (1965), de Jerzy Kosinski; “O Planeta do Sr. Sammler” (1970); “É Isto um Homem?” (1947) e “Se Não Agora, Quando? (1982), de Primo Levi; “A Seta do Tempo” (1991), de Martin Amis.

Aos poucos, de forma lenta e segura, “a Frente Oriental impôs-se com justiça como um tópico dominante”. Dizer que Stálin é um monstro, tudo bem, mas não se pode deixar de admitir que os soviéticos lutaram bravamente e foram decisivos na Segunda Guerra Mundial. Os dois temas, os crimes do stalinismo e a face guerreira dos soviéticos, chegaram ao palco da história e da literatura. “O choque de duas tiranias titânicas, que se encontram no núcleo da Segunda Guerra Mundial, podia finalmente tomar o palco central. A pura escala do sofrimento exigia nada menos do que isso.”

Davies cita como exemplo de prosa de qualidade, que combina a apresentação da Frente Oriental com o Gulag, o livro “Siege”, de 2001, do americano Russ Schneider. O escritor (e historiador) Schneider escreve sobre “as tribulações de três fictícios soldados alemães no cenário real da Batalha de Velikie Luki, em 1942. Mas o livro começa e acaba não no campo de batalha, e sim no maior campo de concentração da Europa”. Trecho do livro: “Vorkuta fica bem embaixo dos montes Urais. Fica não nas partes remotas da Sibéria, mas na porta da Sibéria... Tudo era indescritível... O Gulag está em todas as partes e todas as partes são a Rússia. Há rios de morte e longas distâncias de trilhos colocados, metro por metro, sobre os ossos de homens...” Schneider também escreveu “Demyansk”, de 1995.

Sven Hassel é autor de “Morte nas Estepes” (1976). Seus livros podem ser encontrados no site www.estantevirtual.com.br. A Livraria Cultura (www.livrariacultura.com.br) disponibiliza suas obras em inglês, português (edições de Portugal) e espanhol.

Quando romancistas constroem laços entre o maior teatro de ação militar e os maiores órgãos de repressão civil, eles estão penetrando nas áreas mais cruciais da Segunda Guerra Mundial na Europa”, escreve Davies.

É difícil entender a omissão de Davies a respeito da poesia de Anna Akhmátova, uma das principais e mais altivas vítimas do stalinismo.
 


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POR EM 08/05/2009 ÀS 01:20 PM

A honestidade como ficção

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A corrupção está, e essa é a verdade, por toda parte. Particularmente em agosto de 1954, está nas forças armadas mas também na imprensa, na imprensa mas também na indústria, na indústria mas também no governo, neste mas também na oposição. Não é um problema do parlamento e do governo, mas de toda a sociedade

Rubem Fonseca

Na madrugada de 24 de agosto de 1954, o então presidente da República, Getúlio Vargas, sacramentou com o próprio sangue a fama de raposa política. Houve uma crise institucional no país, e quando ninguém mais imaginava uma saída e se acreditou que a oposição enfim chegaria ao poder, Vargas conseguiu, uma vez ainda, e de forma trágica, surpreender seus golpistas. Para compensar o cadáver do major da aeronáutica Rubens Florentino Vaz e desequilibrar o jogo em favor já não de seu governo, mas de um estrategista excepcional, o presidente tomou a corajosa decisão de fazer de si próprio outro mártir. Matou-se com um tiro no peito. Tal como deve ter previsto a raposa, sobreveio a comoção de seus “filhos” e o ódio das ruas contra seus inimigos do presidente, o mais popular da história do Brasil até aquele ano. Vargas virou a mesa. Mais do que isso, virou fantasma. A União Democrática Nacional dançou pela segunda vez: perdeu a oportunidade de dar o golpe, fracassaria uma segunda vez nas eleições de 1954 e finalmente naufragaria no barco furado de Jânio Quadros, em 1961.

A União Democrática Nacional foi um excrescência da burguesia urbana brasileira, em meados do século XX. Tinha um grave problema de índole: o golpismo. Era um partido conservador, mas definido ideologicamente como liberal e profundamente antipopular. Nunca na história do Brasil os moralistas foram tão imorais, os honestos tão corruptos e os homens de bem tão malignos como no caso desse partido. Em retrospecto: a UDN surgiu em 1943 para se opor ao Estado Novo; depois de 1965 seus quadros transferiram-se para a Arena, um dos dois partidos artificiais criados pelos milicos (o outro foi o MDB). Em 1979, com a reforma partidária de Golbery do Couto e Silva e Petrônio Portella, a Arena recebeu o nome de PDS, de cujo ventre sairia, em 1985, o PFL, conhecido pelos eleitores contemporâneos como DEM. Um sensacional mutismo de epiderme. Vê-se pelo exemplo que nomes de partido não querem dizer quase nada, no Brasil: os democratas costumam ser autoritários, os nacionalistas tantas vezes entreguistas e os pretensos revolucionários não passam de golpistas.

Tenhamos apreço pela verdade, todavia: a UDN não foi uma voz isolada do golpismo, no Brasil. O golpismo é uma tradição mais antiga da república brasileira, sendo inaugurada precisamente a 3 de novembro de 1891 pelo gabinete Lucena, na última etapa do malfadado governo de Deodoro da Fonseca, o mesmo que instituiu o novo regime. O golpismo é também, infelizmente, uma tradição e uma mácula das forças armadas do nosso país, em particular do exército, cuja tutela sobre os civis encerrou-se há apenas 24 anos. É uma longa e tumultuada história, protagonizada entre outros pelo próprio Getúlio Vargas. O ex-presidente acendeu ao poder depois de um golpe, a chamada Revolução de 1930, sendo derrubado em 1945 também por um golpe, orquestrado pelo general Góis Monteiro, seu ex-ministro da Guerra. Rasgar constituições sempre foi uma tradição tupininquim. O desrespeito à lei, de modo geral, é próprio da cultura nacional: saia à rua durante uma hora e possivelmente testemunhará alguma infração e, se brincar, algum crime flagrante. É um mal da nossa sociedade, da qual a política é apenas o reflexo. Costumo dizer: os políticos são o bode-expiatório do mau-caratismo – mal ubíquo.

Creio que “Agosto”, romance de Rubem Fonseca, confirma essa tese. Não digo que ela corresponda à reflexão principal do livro, mas com certeza é a que lhe torna um romance bem brasileiro, tipicamente nacional. O desrespeito à lei foi talvez o pretexto para a criação de um belo personagem, Alberto Mattos, o protagonista do romance. De sua parte fictícia, pelo menos. “Agosto” é um romance histórico (e também policial) escrito por um autor contemporâneo, e narra duas histórias em paralelo à maneira tradicional, com começo, meio e fim. São as histórias de dois assassinatos: um fictício, em torno da morte do empresário Paulo Machado Gomes Aguiar, o outro real, sobre o atentado que vitimou o major Vaz. E suponho que haja dois vasos comunicantes principais entre uma narrativa e outra: o primeiro Gregório Fortunato, personagem real, e o segundo Vítor Freitas, fictício. Gregório é um dos três suspeitos pelo assassinato de Aguiar e, na verdade, apenas o desastrado capanga de Getúlio. Freitas, senador, o elemento que faz a ponte entre o governo e esquemas de corrupção empresariais. De um lado a ficção, de outro a história, no meio a amálgama.

A parte histórica de “Agosto” é quase uma reportagem jornalística, no estilo de exposição. É uma narrativa impessoal, objetiva, salvo quando cruza com a ficção, a mais das vezes em presença do casal Pedro Lomagno e Luciana Aguiar e do dito senador pernambucano. Homem do PSD, partido do presidente, Vítor Freitas lembra nossos parlamentares atuais, pois está se linchando para a fidelidade ideológico-partidária: é um oportunista, o político-padrão do Brasil, até hoje, que utiliza da delegação popular para se enriquecer no cargo. Não vale uma pitada de fumo.

Já Fortunato é figura indignada, disposta a matar em nome do chefe abandonado pela canalha, que se locupleta às custas do seu governo. Foi talvez o negro mais poderoso em toda a República e provavelmente da história do Brasil, até recentemente. Apesar de analfabeto, foi o elo de ligação entre o Catete e uma série de interesses escusos de grande monta, exercendo o tráfico de influência, além de suas funções ordinárias. Na versão de Rubem Fonseca, o Anjo Negro fala de igual para igual com empresários que negociam altas bagatelas em troca de favores oficiais, entre eles o todo-poderoso Euvaldo Lodi, capitão das indústrias de São Paulo e suspeito de encomendar o assassinato de Carlos Lacerda. O que impressiona é outra coisa: é o fato do homem não ter sido nenhum ministro de Estado, presidente de estatal ou algo que o valha, para justificar seu enorme poder e prestígio. Era apenas um reles capitão da polícia, chefe daquilo que os romanos chamariam de Guarda Pretoriana. Nada mais (ou nada menos?).

Gregório fez com Getúlio uma dupla invulgar, unida por uma cumplicidade levada às últimas consequências. É um caso a ser investigado: enquanto personagem é digno de uma biografia, padrão Fernando Morais. É pena que ele, diretamente, apareça pouco em “Agosto”, assim como o seu chefe, que se manifesta nove vezes apenas, e nem sempre com a palavra. O presidente é quase uma sombra, da qual temos não obstante consciência da triste agonia. “Agosto” é uma via-crucis sem alarde:
 
“Dentro, no modesto quarto, vestido com um pijama de listas, sentado na cama com os ombros curvados, os pés a alguns centímetros do assoalho, estava o homem que ele [Gregório Fortunato] protegia, um velho insone, pensativo, alquebrado, de nome Getúlio Vargas.”

Detalhe sórdido, este: “os pés a alguns centímetros do assoalho”. É evidente, no romance, a simpatia de Fonseca por Getúlio; simpatia esta corroborada pelo comissário Mattos, que odeia todos os canalhas e não poderia gostar da UDN. Mas o presidente, sobretudo nessa cena, vê-se transformado numa figura ligeiramente medíocre, num pirilampo de comicidade em meio a uma tragédia. A situação do governo Vargas era de fato periclitante: pela primeira vez, em 24 anos, o chão fugia dos pés do nanico líder da Revolução de 30. O fim chega para todos, e era o seu que beirava.

Há um ditado que diz que todo dragão dá origem a um São Jorge, que o mata. Não direi, para não incorrer numa inversão infamante, que o jornalista Carlos Lacerda é São Jorge, muito menos que Getúlio seja o dragão, mas o fato é que este justificou a vida daquele e acabou mesmo morto. Lacerda era o encarniçado e retórico porta-voz da UDN: “Agosto” é um “mar de lama”, conforme a máxima consagrada de nosso Lucio Sergio Catilina. Mas o que está em questão não é apenas um governo, embora assim pareça. O que está em questão é que o mar de lama consome a sociedade inteira. Rubem Fonseca não tem a ilusão da maioria de que todos os males do Brasil estejam na capital da República. A corrupção está, e essa é a verdade, por toda parte. Particularmente em agosto de 1954, está nas forças armadas mas também na imprensa, na imprensa mas também na indústria, na indústria mas também no governo, neste mas também na oposição. Um dos fundamentos desse estado de coisas – certamente não o único – é o desprezo dos homens pelas regras, do cidadão pela polis e pela res publica. Não é um problema do parlamento e do governo mas de toda a sociedade. Não só em 54 como em toda a história passada e quiçá futura.

“Agosto” faz lembrar o Brasil atual, aquele que culpa o Senado mas esquece que o Senado vai além do 81 senadores da República: o Senado é também – inacreditável! – os 7.000 servidores da casa, segundo números da revista Veja do dia primeiro de abril. Parte considerável desses servidores ocupa cargos políticos, é conivente, farta de mordomias e pronta a dizer, na primeira oportunidade: “os políticos não prestam!”, como se essa maioria de falsos moralistas prestasse. Não presta. Sarney é um reflexo de Agaciel, não o contrário, pelo amor de Deus! É cômodo e ilusório pensar que o Brasil vai mudar a partir de Brasília: mas, é óbvio que a raiz não está na copa.
 


O que há de ficção em “Agosto” mescla dois estilos diferentes: uma narrativa direta, marchetada por gírias e coloquialismos, alternada com diálogos dramáticos quase sem a intervenção onisciente do autor. Se cabe falar na “pós-modernidade” do livro, o fundamento certamente será encontrado não na estrutura romanesca, mas na linguagem, na adoção desse estilo híbrido, aprofundado e generalizado nas obras da geração atual de escritores, da qual aliás, no Brasil, Rubem Fonseca é reconhecidamente um dos mestres.

Pois bem. Do “mar de lama” que é a vida nacional, só escapa um cidadão – acredito que o termo “cidadão” enaltece nosso herói -, e seu nome é Mattos, comissário de polícia e fiel cumpridor da lei, tão fiel nesse propósito que logo se prova quixotescamente desajustado. Eis, acaso, como o enxerga Rosalvo, seu assistente policial:

“Na verdade, Rosalvo tinha medo do comissário. Estava certo de que Mattos não regulava bem, as caretas que fazia, a greve maluca que tentara promover, aquela coisa de sair desarmado nas diligências, e principalmente a mania de não levar grana do bicho – porra, o cara andava de lotação, nem automóvel tinha e desprezava o levado dos banqueiros! Era preciso tomar cuidado com o homem.”

Reparem: Mattos é obra de ficção. Ao contrário, o mundo está cheio de figurinhas como Rosalvo, como o capitão Ranildo e o Major Fraga, tipos vulgares que pululam o universo ficcional de Rubem Fonseca e a realidade. Para as pessoas desse naipe, é “preciso tomar cuidado com” a honestidade. Aliás, leia “Agosto” e chegue a uma conclusão terrível: esse mundo não foi feito para as pessoas honestas. Todo honesto é um pária, uma aberração que perturba a ordem natural das coisas. Paradoxalmente, as instituições humanas são sucetíveis ao contágio da corrupção e infensas às regras. A lei – essa camisa-de-força para conter a fera que Hobbes viu no homem - parece não ter serventia ou sentido: é uma extravagância. A lei é um artifício platônico: desceu das esferas ideais para tentar conter nosso impulso desagregador.

Numa dada circunstância, o comissário Mattos, após cumprir a lei num caso ordinário, leva o romancista ao seguinte questionamento: “Ele cumpriu a lei. Tornara o mundo melhor?” Provavelmente não, mas essa negativa não visa afrouxar a correção das pessoas de bem: o mundo não melhora, em boa medida, porque a lei que temos, a despeito de sua reconhecida imperfeição, não é cumprida democraticamente por todos. Mattos é um dos poucos que tenta ser fiel às suas prescrições, e seguindo-lhe os passos aprendemos que devemos fazer a nossa parte, independentemente dos outros. No romance de Fonseca, nem mesmo a instituição policial serve à lei, coadunando com a contravenção, o lenocínio e a corrupção. Em “Agosto” como na realidade, a banda podre da polícia existe e pratica a extorsão, a violência arbitrária, o abuso de poder e o assassinato: perturbador é que, no romance pelo menos, essa banda é a instituição quase inteira. Será assim na realidade?

A questão é que o aparelho de repressão do Estado é regido pelos mesmos instintos cegos que orientam o comportamento social geral. É por tal motivo que o mar de lama está não apenas nos sistemas de dominação mais explícitos ou grandiosos: a lama vasa para as relações privadas e familiares, até chegar ao indivíduo, uma porção deles, transformada em ratos e gatunos. O indivíduo, afinal de contas, é o problema essencial, não só em agosto de 54 quanto em qualquer tempo.

Trata-se de ontologia, em último caso. A visão que Rubem Fonseca tem do bicho homem é terrível e nada edificante – em que está longe de ser original, entre os escritores. A diferença sensível está no tratamento: esse bicho, quando você tenta ressumá-lo, abstraí-lo, revela-se literalmente uma excrescência pestilenta. Apesar de toda arrogância pueril, somos feitos de fezes, urina, suor, saliva, esperma, sangue e sei lá que outros fluídos nauseabundos. O que mais importa nessa constituição é o ser sensível, a matéria, o que não deixa de ser uma fatalidade. Esse, pelo menos, é o retrato que o naturalista tardio Rubem Fonseca pinta do homem. E não é só em “Agosto”: leia os onze contos perturbadores de “Os prisioneiros” – primeira coletânea do autor - e chegará à mesma conclusão.

Talvez a figura mais humana e até mais comovente dessa história é uma personagem menor: a prostituta Salete. Salete não é exatamente namorada de Mattos, por boas razões um solitário até o fim, mas em torno de cuja hospitalidade e bom coração giram as pessoas que prestam: sua ex Alice, o velho Emílio e a própria Salete, que é alguém com quem ele trepa e se solidariza. O drama da moça é igual ao de muita gente, não apenas os pobres e discriminados pela cor quanto os infelizes que padecem uma vaidade excruciante. Sua ignorância a absolve – e a nós – da consciência terrível que martiriza o pobre comissário. Só ela nos faz rir nessa história absurda. Só ela quer saber de dar e de receber amor: Salete é Eros perambulando por esse reino de Tanatos, sumamente representado pelo casal Pedro Lomagno e Luciana Gomes Aguiar. A high society é um luxo só, em compensação... Quanta vaidade, luxúria, assassinato, corrupção de menores, ultraje ao pudor, traição. O dinheiro pode dar alguma dignidade, mas não melhora o homem. Apesar do brilho, estamos aqui diante de criaturas taciturnas, egoístas, desvairadas e repugnantes.

Rubem Fonseca, se não acredita no homem em geral, acredita que algumas pessoas em particular podem ser boas e movidas por sentimentos dignos. Surpreendentemente, o bicho homem não é apenas carne e fluidos biológicos: também pode ter valores, princípios morais, espírito quem sabe. Pode apesar de tudo conhecer a ética, a generosidade, a sensibilidade e a compaixão. O arquétipo Mattos chega a ser idealista, no afã de libertar os presos e repensar o sistema prisional. Mas Fonseca, já um naturalista espiritualizado, não demonstra otimismo por isso: seu herói se fode e é fodido, e termina fuzilado junto com Salete pelo tipo comum – aliás, o tipo comum da pior espécie, aquele em nome do qual, apesar de tudo, Mattos lutaria por justiça. Não o fez em nome de outro criminoso, Turco Velho? Faria em nome de Chicão, vulgo de Francisco Albergaria (o “F” do anel encontrado na cena do crime fictício, no edifício Deauville). Por ironia, quem acaba com o Mattos e Salete é o mesmo Chicão, assassino procurado pelo comissário desde as primeiras páginas. E assim assistimos à desforra da mediocridade contra a nobreza, do crime contra a lei, dos maus contra os bons.

O funcionamento normal do mundo é vil. “Agosto” se parece demais com o nosso mundo.
 


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POR EM 01/05/2009 ÀS 07:21 PM

Um guia seguro da literatura portuguesa

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Di­vi­di­da em 17 ca­pí­tu­los a obra abran­ge to­do o es­pec­tro da­qui­lo que se po­de en­ten­der por Li­te­ra­tu­ra Por­tu­gue­sa. Um ba­lan­ço da pro­du­ção lu­sa atra­vés dos tem­pos. Es­cri­ta de ma­nei­ra di­re­ta e sem aca­de­mi­cis­mos, é obra de fá­cil lei­tu­ra que es­tá tam­bém à dis­po­si­ção do gran­de pú­bli­co 
 



Mui­to mais sub­stan­cio­sa e acres­ci­da de mais de 200 pá­gi­nas — as­sim es­tá a 35ª edi­ção, re­vis­ta e atu­a­li­za­da, de “A Li­te­ra­tu­ra Por­tu­gue­sa”, do pro­fes­sor Mas­saud Moi­sés, guia se­gu­ro que des­de 1960 tem aju­da­do a for­mar ge­ra­ções de es­tu­dan­tes de le­tras, ho­je trans­for­ma­dos em pro­fes­so­res re­no­ma­dos na área. Me­lhor do que pa­la­vras, as su­ces­si­vas edi­ções des­te li­vro são a com­pro­va­ção ine­quí­vo­ca da sua im­por­tân­cia co­mo um ro­tei­ro ou um ma­nu­al eru­di­to das obras de­ci­si­vas e dos prin­ci­pa­is mo­men­tos da his­tó­ria li­te­rá­ria de Por­tu­gal.

Di­vi­di­da em 17 ca­pí­tu­los — eram dez na 29ª edi­ção, de 1997, já en­tão re­vis­ta e au­men­ta­da —, es­ta obra abran­ge to­do o es­pec­tro da­qui­lo que se po­de en­ten­der por Li­te­ra­tu­ra Por­tu­gue­sa, des­de quan­do o tro­va­dor Paio So­a­res de Ta­vei­rós com­pôs uma can­ti­ga ce­le­bri­za­da co­mo “can­ti­ga de gar­vaia”, em 1198 ou 1189, en­de­re­ça­da a Ma­ria Pa­is Ri­bei­ro, tam­bém cha­ma­da “A Ri­bei­ri­nha”, fa­vo­ri­ta de D.San­cho I (1154-1211), se­gun­do rei de Por­tu­gal, à épo­ca do Tro­va­do­ris­mo. A par­tir daí, pas­sa pe­lo Hu­ma­nis­mo, Clas­si­cis­mo, Bar­ro­co e Ar­ca­dis­mo, Ro­man­tis­mo, che­gan­do ao Re­a­lis­mo, Sim­bo­lis­mo e Mo­der­nis­mo.

Ali­ás, nes­ta no­va edi­ção, o Mo­der­nis­mo (1915-Atu­a­li­da­de) é a par­te que mais cres­ceu, abran­gen­do to­das as ten­dên­cias do sé­cu­lo XX, co­mo o Or­fis­mo (1915-1927), o Pre­sen­cis­mo (1917-1940), o Ne­or­re­a­lis­mo (1940-1974) e o Sur­re­a­lis­mo (1947-1974), até as Ten­dên­cias Con­tem­po­râ­ne­as (de 1950 até os di­as atu­ais). Sem dei­xar de la­do uma fa­se que de­no­mi­na In­ter­reg­no em que es­tão in­cluí­das a po­e­sia de Flor­be­la Es­pan­ca (1894-1930) e a pro­sa de Aqui­li­no Ri­bei­ro (1885-1963), que, de cer­to mo­do, es­ca­pa­ram às in­flu­ên­cias dos mo­vi­men­tos em vo­ga nas pri­mei­ras dé­ca­das do sé­cu­lo an­te­ri­or.

Des­sa ma­nei­ra, além de au­to­res re­ve­la­dos nas úl­ti­mas dé­ca­das, ou­tros ga­nha­ram mais es­pa­ço, en­quan­to al­guns per­de­ram o re­le­vo al­can­ça­do em de­ter­mi­na­do pe­rí­o­do, “gra­ças à pers­pec­ti­va que os acon­te­ci­men­tos mais re­cen­tes sus­ci­ta­ram”, co­mo diz o au­tor em no­ta à 35ª edi­ção.

His­to­ri­a­dor das idei­as — ve­ja-se o li­vro “As Es­té­ti­cas Li­te­rá­ri­as em Por­tu­gal”, três vo­lu­mes (Lis­boa, Edi­to­ri­al Ca­mi­nho, 1997, 2000 e 2002) —, Moi­sés de­te­ve-se, es­pe­ci­al­men­te, nas ten­dên­cias que mo­vi­men­ta­ram o sé­cu­lo XX por­tu­guês, em­bo­ra tam­bém te­nha fei­to im­por­tan­tes in­clu­sões em ou­tras épo­cas, sem­pre ten­do em vis­ta o equi­lí­brio in­ter­no do pa­no­ra­ma que ali se pre­ten­de ofe­re­cer.

En­tre os pre­sen­cis­tas — aque­les li­ga­dos à re­vis­ta “Pre­sen­ça”, que cir­cu­lou de 1927 a 1940, nas­ci­da em Coim­bra por ini­ci­a­ti­va dos en­tão es­tu­dan­tes Jo­sé Ré­gio (1901-1969), Jo­ão Gas­par Si­mões (1903-1978) e Bran­qui­nho da Fon­se­ca (1905-1974) —, in­clu­iu, des­ta vez, To­maz de Fi­guei­re­do (1902-1970), ro­man­cis­ta e po­e­ta de mui­tos mé­ri­tos, mas que só ago­ra co­me­ça a ser de­vi­da­men­te va­lo­ri­za­do. Em­bo­ra não per­ten­ces­se ao gru­po da re­vis­ta “Pre­sen­ça”, Fi­guei­re­do, em seus po­e­mas, fez não só nu­me­ro­sas re­fe­rên­cias aos adep­tos e co­la­bo­ra­do­res da pu­bli­ca­ção co­mo ain­da re­tra­tou a ge­ra­ção coim­brã de seu tem­po no ro­man­ce “Nó Ce­go” (1950).

Pa­ra cor­ro­bo­rar o que se dis­se aci­ma, é de as­si­na­lar que, em de­zem­bro de 2007, a Uni­ver­si­da­de de Avei­ro, por ini­ci­a­ti­va do pro­fes­sor An­tó­nio Ma­nu­el Fer­rei­ra, pu­bli­cou, na aber­tu­ra da co­le­ção Vol­tar a Ler, “To­maz de Fi­guei­re­do”, co­le­tâ­nea de dez en­sai­os so­bre a obra des­se au­tor, en­tre os qua­is se des­ta­cam tex­tos de J. Cân­di­do Mar­tins, Mó­ni­ca Ser­pa Ca­bral, Jo­ão Bi­got­te Cho­rão, Jo­sé Car­los Se­a­bra Pe­rei­ra e do pró­prio Fer­rei­ra (or­ga­ni­za­dor).

En­tre ou­tros po­e­tas li­ga­dos aos ide­ais pre­sen­cis­tas, tam­bém fo­ram acres­cen­ta­das re­fe­rên­cias a Sa­ul Di­as (1902-1983), ir­mão de Jo­sé Ré­gio, Al­ber­to de Ser­pa (1906-1992), Car­los Quei­rós (1907-1949) e Ed­mun­do de Bet­ten­court (1899-1973). No âm­bi­to da fic­ção, foi lem­bra­da a ati­vi­da­de de ro­man­cis­ta e con­tis­ta de Jo­ão Gas­par Si­mões, que se des­ta­cou — com jus­ta ra­zão — mais co­mo crí­ti­co, en­sa­ís­ta e au­tor de uma ex­ten­sa bi­o­gra­fia de Fer­nan­do Pes­soa (1888-1935).

Na par­te de­di­ca­da ao Ne­or­re­a­lis­mo, além de man­ter o des­ta­que da­do a no­mes emi­nen­tes do mo­vi­men­to, co­mo Fer­rei­ra de Cas­tro (1898-1974), Al­ves Re­dol (1911-1969), Fer­nan­do Na­mo­ra (1919-1989), Ma­nu­el da Fon­se­ca (1911-1993), Car­los de Oli­vei­ra (1921-1981) e Ver­gí­lio Fer­rei­ra (1916-1996), Moi­sés con­ce­deu mai­or es­pa­ço à obra de Jo­a­quim So­ei­ro Pe­rei­ra Go­mes (1909-1949), au­tor de “Es­tei­ros” (1941), ro­man­ce que se po­de co­lo­car ao la­do de “Gai­béus” (1939), de Al­ves Re­dol, co­mo um dos in­tro­du­to­res do mo­vi­men­to em Por­tu­gal, as­si­na­lan­do nas obras de am­bos a im­por­tân­cia do im­pac­to da fic­ção do bra­si­lei­ro Jor­ge Ama­do (1912-2001), que se po­de sen­tir tam­bém em Fau­re Ro­sa (1912-1985), Ma­nu­el Fer­rei­ra (1917-1992), Ale­xan­dre Ca­bral (1917-1996), Ale­xan­dre Pi­nhei­ro Tor­res (1923-1999) e ou­tros.

É de no­tar, po­rém, que nem to­dos es­ses au­to­res fi­ca­ram pre­sos às idei­as dos pri­mei­ros dou­tri­na­do­res do Ne­or­re­a­lis­mo, fun­da­das no ma­te­ri­a­lis­mo di­a­lé­ti­co, pois se ajus­ta­ram às con­quis­tas li­te­rá­ri­as e ex­tra-li­te­rá­ri­as que se afir­ma­ram ao lon­go da se­gun­da me­ta­de do sé­cu­lo XX, ou se­ja, àqui­lo que Eduar­do Lou­ren­ço de­fi­niu, em “Sen­ti­do e For­ma da Po­e­sia Neo-Re­a­lis­ta” (1968), co­mo “se­gun­da va­ga ne­or­re­a­lis­ta”, que se deu a par­tir de 1950, es­pe­ci­al­men­te com o len­to de­clí­nio da he­ge­mo­nia mar­xis­ta na an­ti­ga Uni­ão So­vi­é­ti­ca.

Na par­te de­di­ca­da ao Sur­re­a­lis­mo, além de re­che­ar as bi­o­gra­fi­as e ana­li­sar al­gu­mas obras de An­tó­nio Pe­dro (1909-1966), An­tó­nio Ma­ria Lis­boa (1928) e Ale­xan­dre O´Neill (1928-1986), o his­to­ri­a­dor li­te­rá­rio acres­cen­tou mai­o­res re­fe­rên­cias a um no­me que ha­via pas­sa­do qua­se des­per­ce­bi­do em edi­ções an­te­rio­res, Na­tá­lia Cor­rea (1923-1993), e des­ta­cou ou­tros me­nos re­no­ma­dos, co­mo Hen­ri­que Ras­ques Pe­rei­ra (1930), Ar­tur do Cru­zei­ro Sei­xas (1921), An­tó­nio Jo­sé For­te (1931-1988), Fer­nan­do Al­ves dos San­tos (1928-1992) e Isa­bel Meyrel­les (1929),

Di­vi­di­da sob os tí­tu­los Ten­dên­cias Con­tem­po­râ­ne­as I (1950-1970) e II (Ge­ra­ção de 70), a par­te fi­nal de “A Li­te­ra­tu­ra Por­tu­gue­sa” foi, ob­via­men­te, a que mais cres­ceu, em ra­zão de atu­a­li­za­ções à que o au­tor se en­tre­gou com vi­a­gens se­gui­das a Por­tu­gal e a co­la­bo­ra­ção ul­tra­ma­ri­na de ami­gos fi­éis co­mo o em­bai­xa­dor Adri­a­no de Car­va­lho, o es­cri­tor Lu­ís Ama­ro e o di­re­tor cul­tu­ral da Edi­to­ri­al Ca­mi­nho, de Lis­boa, Ze­fe­ri­no Co­e­lho.

Em Ten­dên­cias Con­tem­po­râ­ne­as I, o au­tor acres­cen­tou mi­ni­bi­o­gra­fi­as dos po­e­tas Rui Ci­nat­ti (1915-1986), Jo­sé Blanc Por­tu­gal (1914-2000), To­maz Kim (1915-1967) e An­tó­nio Ra­mos Ro­sa (1924), pre­ce­den­do a ou­tros que es­tre­a­ram na dé­ca­da de 50, co­mo Ra­ul de Car­va­lho (1920-1984), Se­bas­ti­ão da Ga­ma (1924-1952), Al­ba­no Mar­tins (1930), Fer­nan­do Gui­ma­rã­es (1928), Fer­nan­do Eche­var­ria (1929), Al­ber­to de La­cer­da (1928-2007), Lu­ís Ama­ro (1923), Jo­sé Ter­ra (1928) e Hél­der Ma­ce­do (1935), além de bre­ves re­fe­rên­cias a al­guns no­mes, en­tre os qua­is se des­ta­ca o de Jo­sé Au­gus­to Se­a­bra (1937-2004), que, por cer­to, há de me­re­cer mai­or es­pa­ço nu­ma pró­xi­ma edi­ção.

En­tre os que es­tre­a­ram na dé­ca­da de 60, des­ta­cam-se os no­mes de Lui­za Ne­to Jor­ge (1939-1989), Fi­a­ma Has­se Pa­is Bran­dão (1938-2007), Gas­tão Cruz (1941), Ma­ria Te­re­sa Hor­ta (1937) e Ca­si­mi­ro de Bri­to (1938), in­cluí­dos no gru­po Po­e­sia 61, sur­gi­do em Fa­ro e que te­ve em Gas­tão Cruz o seu dou­tri­na­dor.

De­pois de Po­e­sia 61, vem a po­e­sia ex­pe­ri­men­tal que tam­bém ga­nhou mai­or (e me­re­ci­do) es­pa­ço nes­ta 35ª edi­ção, com des­ta­que pa­ra fi­gu­ras co­mo E.M. de Me­lo e Cas­tro (1932), Ana Ha­therly (1929) e Sa­let­te Ta­va­res (1922-1994). Si­mul­ta­ne­a­men­te às cor­ren­tes de van­guar­da, Moi­sés não dei­xou de as­si­na­lar a pre­sen­ça nos anos 60 de uma no­va on­da ne­or­re­a­lis­ta, re­u­nin­do no­mes bem co­nhe­ci­dos co­mo Fer­nan­do de As­sis Pa­che­co (1937-1995), Jo­sé Car­los de Vas­con­ce­los (1940) e Ma­nu­el Ale­gre (1936).

Den­tro do que de­no­mi­na ou­tras ver­ten­tes po­é­ti­cas, o au­tor, além de man­ter des­ta­que pa­ra Jo­sé Go­mes Pe­rei­ra (1900-1985), Jor­ge de Se­na (1919-1978), So­fia de Me­lo Breyner An­der­sen (1919-2004), Eu­gê­nio de An­dra­de (1923-2005) e Her­ber­to Hél­der (1930), in­clu­iu Da­vid Mou­rão-Fer­rei­ra (1927-1996), An­tô­nio Ma­nu­el Cou­to Vi­a­na (1923), Pe­dro Ta­men (1934), An­tô­nio Ge­de­ão, pseu­dô­ni­mo de Rô­mu­lo de Car­va­lho (1906-1997), Rui Be­lo (1933-1978) e Jo­ão Rui de Sou­sa (1928), em­bo­ra ou­tros no­mes tam­bém me­re­ces­sem re­fe­rên­cia.

Por fim, em Ten­dên­cias Con­tem­po­râ­ne­as II, que abran­ge a ge­ra­ção de 70, o acrés­ci­mo de no­vos no­mes foi sub­stan­cio­so, de 26 pá­gi­nas, o que in­di­ca que as três úl­ti­mas dé­ca­das do sé­cu­lo XX per­mi­ti­ram o sur­gi­men­to de uma plêi­a­de de po­e­tas ins­pi­ra­dos, pro­va­vel­men­te em fun­ção dos ares de li­ber­da­de po­lí­ti­ca tra­zi­dos pe­la re­vo­lu­ção de abril de 1974, que pôs fim a um re­gi­me fas­cis­ta que du­ra­va des­de os anos 20.

En­tre os mui­tos no­mes de po­e­tas lem­bra­dos, des­ta­cam-se os de Jo­a­quim Ma­nu­el Ma­ga­lhã­es (1945), Jo­ão Mi­guel Fer­nan­des Jor­ge (1943), An­tô­nio Osó­rio (1933), Ar­man­do Sil­va Car­va­lho (1938), Vas­co Gra­ça Mou­ra (1942), Jo­sé Agos­ti­nho Ba­ra­ta (1948), An­tô­nio Fran­co Ale­xan­dre (1944), Ma­nu­el An­tô­nio Pi­na (1943), Hel­der Mou­ra Pe­rei­ra (1949), Lu­iz Mi­guel Na­va (1957-1995), Al Ber­to (1948-1997), Ana Lu­í­sa Ama­ral (1956), Lu­ís Fi­li­pe Cas­tro Men­des (1950), Jo­sé Jor­ge Le­tria (1951) e, en­tre os mais jo­vens, Pau­lo Tei­xei­ra (1962), Fran­cis­co Jo­sé Vi­e­gas (1962) e Pe­dro Me­xia (1972).

En­tre es­ses, um no­me que, sem dú­vi­da, des­ta­ca-se é o de Vas­co Gra­ça Mou­ra, po­e­ta não só eru­di­to co­mo es­tu­di­o­so das for­mas da po­e­sia — e não ape­nas in­tui­ti­vo co­mo tan­tos — que tran­si­ta com fa­ci­li­da­de pe­las for­mas fi­xas de lon­ga du­ra­ção, co­mo a sex­ti­na e o so­ne­to, tra­di­cio­nal e à in­gle­sa, co­mo pra­ti­ca as ar­tes da in­ter­tex­tu­a­li­da­de, di­a­lo­gan­do com po­e­tas ca­no­ni­za­dos co­mo Ca­mões (c.1524-1580), Dan­te (1265-1321), Shakes­pe­a­re (1564-1616) e, por que não?, Jor­ge Lu­ís Bor­ges (1899-1986), além de ser ro­man­cis­ta de pri­mei­ra qua­li­da­de e au­tor de en­sai­os e pe­ças de te­a­tro.

A úl­ti­ma se­ção da par­te de­di­ca­da a Ten­dên­cias Con­tem­po­râ­ne­as II es­tá re­ser­va­da à pro­sa com a atu­a­li­za­ção das re­fe­rên­cias de no­mes já con­sa­gra­dos, co­mo Lu­ís For­jaz Tri­guei­ros (1915-2001), Do­min­gos Mon­tei­ro (1903-1980), Jo­ão de Araú­jo Cor­reia (1899-1985), Jo­a­quim Pa­ço d´Ar­cos (1908-1979), Ur­ba­no Ta­va­res Ro­dri­gues (1923), Jo­sé Car­do­so Pi­res (1925-1999), Au­gus­to Abe­lai­ra (1926-2003), Ru­bem A. (1920-1975), Al­mei­da Fa­ria (1943), Ál­va­ro Guer­ra (1936-2002) e Nu­no Bra­gan­ça (1929-1985), aos qua­is fo­ram acres­ci­dos An­tô­nio Re­bor­dão Na­var­ro (1933), Jo­ão de Me­lo (1949), An­tô­nio Al­ça­da Bap­tis­ta (1927), Má­rio de Car­va­lho (1944), Pau­lo Cas­ti­lho (1944) e Gon­ça­lo M.Ta­va­res (1970).

De Au­gus­to Abe­lai­ra, é de lem­brar que seu tra­ba­lho tam­bém tem si­do res­ga­ta­do nos úl­ti­mos tem­pos por es­tu­di­o­sos uni­ver­si­tá­rios por­tu­gues­es e bra­si­lei­ros, co­mo pro­va a co­le­tâ­nea de 15 en­sai­os que le­va o seu no­me, or­ga­ni­za­da por Pau­lo Ale­xan­dre Pe­rei­ra e lan­ça­da em de­zem­bro de 2008 pe­la Uni­ver­si­da­de de Avei­ro co­mo se­gun­do li­vro da co­le­ção Vol­tar a Ler.

En­tre as pro­sa­do­ras, além das co­nhe­ci­das Agus­ti­na Bes­sa Lu­ís (1922), Ma­ria Ju­di­te de Car­va­lho (1921-1998), Yve­te K. Cen­te­no (1940), Ma­ria Isa­bel Bar­re­no (1939) e Ma­ria Ve­lho da Cos­ta (1938), há a in­clu­são de ou­tras es­cri­to­ras que apa­re­ce­ram nos anos 60, co­mo Ma­ria On­di­na Bra­ga (1932-2003), Ol­ga Gon­çal­ves (1929-2004), Wan­da Ra­mos (1948-1998) e Eduar­da Dio­ní­sio (1946).

Pa­ra quem sen­tiu a fal­ta de Jo­sé Sa­ra­ma­go (1922), é de as­si­na­lar que a re­fe­rên­cia ao Prê­mio No­bel de 1998 es­tá na par­te re­ser­va­da à fic­ção pós-25 de abril, mui­to mais de­sen­vol­vi­da nes­ta 35ª edi­ção. Aqui apa­re­cem ain­da An­tô­nio Lo­bo An­tu­nes (1942), Má­rio Cláu­dio (1941), Di­nis Ma­cha­do (1930), Bap­tis­ta-Bas­tos (1934), An­tô­nio Me­ga Fer­rei­ra (1949), Fer­nan­do Cam­pos (1924) e ou­tros. En­tre as fic­cio­nis­tas, Lí­dia Jor­ge (1946), Te­o­lin­da Ger­são (1940), Ma­ria Ga­bri­e­la Llan­sol (1931), Cla­ra Pin­to Cor­reia (1960), Lu­í­sa Cos­ta Go­mes (1954), Inês Pe­dro­sa (1962) e ou­tras tan­tas.

En­cer­ran­do o vo­lu­me, há ain­da uma se­ção re­ser­va­da à ati­vi­da­de cê­ni­ca em que apa­re­cem ci­ta­ções de pe­ças es­cri­tas por mui­tos ro­man­cis­tas, além da­que­les que fo­ram tão so­men­te dra­ma­tur­gos. En­fim, tra­ta-se de um ba­lan­ço da pro­du­ção lu­sa atra­vés dos tem­pos in­dis­pen­sá­vel ao es­tu­di­o­so de Li­te­ra­tu­ra Por­tu­gue­sa, não só por­que ri­go­ro­sa­men­te re­vis­to e atu­a­li­za­do co­mo por ofe­re­cer in­ter­pre­ta­ções ab­so­lu­ta­men­te se­gu­ras de quem, de fa­to, co­nhe­ce a fun­do to­das as obras de que tra­ta. Es­cri­ta de ma­nei­ra di­re­ta e sem aca­de­mi­cis­mos, é obra de fá­cil lei­tu­ra que es­tá tam­bém à dis­po­si­ção do gran­de pú­bli­co.

Pro­fes­sor ti­tu­lar da Uni­ver­si­da­de de São Pau­lo, Mas­saud Moi­sés foi pro­fes­sor vi­si­tan­te nas uni­ver­si­da­des de Wis­con­sin, In­di­a­na, Val­der­bilt, Te­xas, Ca­li­fór­nia e San­ti­a­go de Com­pos­te­la. Al­guns dos seus li­vros, con­sa­gra­dos à te­o­ria li­te­rá­ria e às li­te­ra­tu­ras em ver­ná­cu­lo, cons­ti­tu­em re­fe­rên­cia obri­ga­tó­ria pa­ra es­tu­dan­tes e es­tu­di­o­sos des­tas ma­té­rias co­mo evi­den­ci­am as su­ces­si­vas edi­ções que têm me­re­ci­do “A Cri­a­ção Li­te­rá­ria — Pro­sa 1 e 2”, “A Cri­a­ção Li­te­rá­ria — Po­e­sia”, “A Aná­li­se Li­te­rá­ria”, “Di­ci­o­ná­rio de Ter­mos Li­te­rá­rios”, “A Li­te­ra­tu­ra Por­tu­gue­sa Atra­vés Dos Tex­tos” e “O Pe­que­no Di­ci­o­ná­rio de Li­te­ra­tu­ra Bra­si­lei­ra”, to­dos pu­bli­ca­dos pe­la Cul­trix.
 

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POR EM 01/05/2009 ÀS 05:43 PM

As lições de André Midani

publicado em

Testemunha ocular do Dia D, desertor da Guerra na Argélia, confeiteiro em Paris, executivo da Odeon, Phonogram e WEA. A autobiografia de André Midani é mais do que um depoimento de quem desde a década de 50 observa sob um ângulo privilegiado os bastidores do mercado musical brasileiro

André Midani

Um espectro tem rondado, há muito tempo, a canção brasileira: é a onipresença de André Midani. “Música, Ídolos e Poder — do Vinil ao Download", lançado recentemente pela Editora Nova Fronteira, é dos livros essenciais para qualquer apaixonado por música brasileira; nele, em linguagem das mais simples, sem perder profundidade, o famoso executivo de algumas das maiores gravadoras do Brasil e do mundo conta em primeiríssima pessoa as experiências por que passou — do desembarque das tropas aliadas na França, no final da Segunda Guerra Mundial, à organização do Ano do Brasil no mesmo país, em 2005, passando por momentos relevantes da canção brasileira e latino-americana nos últimos cinqüenta anos. Ao final do texto, fiquei com a impressão de que acabava de ler uma obra de ficção, tal era a riqueza e a densidade das experiências relatadas por Midani.

Há figuras na indústria fonográfica que costumam ser demonizadas, sobretudo a dos executivos das grandes gravadoras. André Midani é certamente uma exceção nesse universo — homem de espírito sensível e libertário, tinha uma capacidade única de dar voz e ouvidos aos músicos no universo corporativo. Muitos deles não tinham nem podiam ter a visão ampla do mercado de música no Brasil — daí a importância do relato e das ações de Midani. Atribui-se a ele, por exemplo, uma frase polêmica, em plenos anos 70 — a de que o futuro da música brasileira estava no rock, o que lhe rendeu um “pito” de Vinicius de Morais, relatado no livro. A história demonstrou que Midani estava certo – e o mercado da canção brasileira, de fato, na década de oitenta, virou de cabeça para baixo graças àquele gênero.

Não são poucas as passagens do texto, em que esse natural da Síria, radicado na França — mas que se considera um “vira-lata” como todos os brasileiros — demonstra uma capacidade de análise que parece faltar a muitos de nós. Para Midani, por exemplo, a estratégia de investir apenas nos hits e não nos artistas é um dos equívocos que levou à crise atual da indústria fonográfica. Em outras palavras: investir no artista é dar-lhe liberdade de criação, de modo que construa uma carreira e, conseqüentemente, um público fiel, que renderá os tão almejados “lucros aos acionistas” e, mais importante, o meio de vida para o músico, sem que este precise fazer concessões estéticas absurdas que lhe comprometam a integridade artística.

O leitor imaginará que, na teoria, o que está escrito acima é muito bonito, mas que não tem aplicabilidade prática — e é aí que se equivoca. Para Midani, o fracasso retumbante de “Araçá Azul”, o mais difícil disco de Caetano Veloso (“quatrocentas mil cópias colocadas nas lojas e quatrocentos mil discos espetacularmente devolvidos”), é parte do processo criativo que resulta no enorme êxito de “Jóia”, do mesmo Caetano, mais tarde. Em outras palavras: o processo criativo é, antes de tudo, processo — afinal, nem todos os artistas do mundo estreiam com obras-primas e sucessos de venda. Na nossa literatura, o exemplo mais flagrante talvez seja o de Machado de Assis, cujos quatro primeiros romances podem ser considerados laboratórios, experiências para que se alcance a maturidade das “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Rigorosamente na mesma medida, o primeiro álbum da banda Sepultura — “Morbid Visions” — é apenas uma imagem bastante imperfeita do que surgiria no “Chaos AD”  e nos outros trabalhos. Mas este disco não existiria sem aquele. Então aprendamos com o mestre: a criação de arte também é processo — o problema é que a lógica do mercado, afoita pelo próximo sucesso, afoga a maioria das possibilidades de evolução dos artistas. Se não estourarem no primeiro trabalho, estão fora; se estouraram nos primeiros dois ou três, têm poucas chances de brilhar de novo — e estão fora também, porque o “mercado” exige algo novo. Ora, leitor, interrompamos essa lógica cruel — o “mercado” somos nós: paremos um pouco de querer ouvir a última canção gravada no planeta — seja ela ligada à cambaleante, mas ainda milionária, indústria fonográfica, ou ao mais independente dos universos — e ouçamos mais de uma vez as canções que aguçaram-nos a sensibilidade.

Midani demonstra que é mesmo um visionário, tendo proposto, em 1975, uma espécie de modelo do viria a ser a indústria independente de música: ao perceber que a chegada de gravadoras estrangeiras ameaçava a existência da Phonogram brasileira, que dirigia, Midani tentou preservar seus grandes nomes apresentando-lhes contratos em que eles “passariam a ser proprietários de seus discos futuros, transformando-se em pequenas gravadoras independentes. Assim, a partir daquele momento construiriam paulatinamente um acervo importante de sua inteira propriedade. Em troca, a Phonogram garantia a permanência deles, por meio de um contrato de distribuição de longo período”. Desse modo, segundo ele, os artistas poderiam, dentro de alguns anos, ser os donos de boa parte dos próprios masters. Mas lamenta que aqueles com quem estabeleceu o tal contrato tenham vendido, dois ou três anos depois, os masters de volta para as gravadoras e retornado ao modelo clássico de contrato.

Uma outra proposta revolucionária foi a abertura de uma companhia de discos completamente brasileira cuja composição de capital fosse a seguinte: 40% de investidores; 35% de artistas que assinassem com a gravadora; 25% do próprio André Midani. Não é arriscado dizer que, com um bom acordo de acionistas, a companhia teria tudo para dar certo — mas não deu porque os eventuais investidores não acreditavam que seria confiável aplicar capital numa empresa de discos cujo retorno estaria “à mercê da criatividade de artistas reputados por sua loucura e imprevisibilidade”. Aprendamos ainda mais com o mestre: transformar o artista em proprietário de sua obra e da companhia, além de remunerá-lo de forma mais justa, fugindo em alguma medida à mais-valia das majors, aproximaria o músico do universo administrativo — o que poderia, também, sem dúvida, ser uma experiência interessante. Pense o leitor no seguinte: não é difícil dizer que as grandes companhias tolhem o processo criativo dos artistas — e elas tolhem mesmo, porque têm os olhos apenas nos lucros; transformar os artistas em sócios seria, também, de certa forma co-responsabilizá-los por eventuais perdas financeiras. Seria, no mínimo, didático e salutar para todos. Estariam (estarão) os músicos prontos para essa responsabilidade?

Tenho para mim que sim: o florescimento da indústria independente, até onde posso enxergar, tem fomentado entre as novas bandas — e as mais anciãs também – uma consciência maior a respeito do mercado de música e dos próprios patrimônios musicais, o que era quase impossível no passado. Quando capitaneou a WEA no Brasil, o mesmo Midani chegou a propor que um representante dos músicos fizesse parte do conselho diretivo da empresa, outra ideia que não deu certo porque o eleito dos músicos — Chico Anysio! — não se interessou em assumir o posto. Trapalhadas — dos próprios músicos, que não se organizaram para eleger alguém que os representasse de fato — à parte, fica definitivamente registrada aqui a capacidade inovadora de André Midani em levar às mãos dos artistas o poder de decisão. Ficou aí perdida uma chance preciosa, que poderia ter contribuído, e muito, para antecipar a independência dos nossos músicos.

A leitura da autobiografia de André Midani é indispensável para a reflexão a respeito dos rumos que a canção brasileira tomou desde a década de cinqüenta. Mas é ainda mais importante porque deixa evidente que não basta aos profissionais da canção observá-la como produto — é preciso, antes de tudo, pensá-la e respeitá-la como obra de arte, exatamente como fez André Midani.
 

Leia um trecho de "Música, Ídolos e Poder — do Vinil ao Download"

 "Música para veados"

Na mesma época, Caymmi veio nos visitar — a mim e a Aloysio — no estúdio e, no meio da conversa, nos contou a história de um jovem baiano recém-chegado ao Rio, de grande talento e de uma musicalidade muito original, que ele gostaria de nos apresentar. O encontro foi marcado para o sábado seguinte, no apartamento de Aloysio e Daisy. Caymmi chegou com um rapaz que achei ainda mais tímido do que a turma da bossa nova. Poucas foram as palavras pronunciadas naquela noite e, começando com “Bim bom” , muitas foram as músicas cantadas pelo jovem João Gilberto. Em poucas palavras, levamos um susto! Era algo totalmente revolucionário! A beleza do canto, a incrível qualidade harmônica do violão e o conceito rítmico revolucionário do João nos impressionaram tanto que decidimos contratar imediatamente aquele personagem que a Bahia nos mandava e que Caymmi nos recomendava.

Muitas das músicas tinham sido escritas por Tom Jobim, que até aquele momento eu identificava como o companheiro de uma cantora da Rádio Nacional chamada Violeta Cavalcanti, contratada da Odeon na esperança de desbancar a Emilinha Borba e a Marlene. O Tom sempre andava na sombra dela; eu ficava muito perplexo ao ver um rapaz tão bonito e tão fino parecendo um gigolô!

Durante a semana seguinte, falei longamente com Aloysio sobre o plano de lançar artistas e compositores novos para atender ao mercado jovem, e decidimos abrigar João Gilberto, Tom Jobim e a turma da bossa nova, tendo como foco direto de promoção a juventude de classe média.

O preconceito da classe média em relação aos músicos, compositores, cantores e cantoras era enorme, e deixava antever algumas das dificuldades que iríamos encontrar. Um belo exemplo se apresentou quando Nara Leão, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal e eu entramos num fim de tarde no apartamento do dr. Jairo, pai da Nara. Ele lia o jornal quando a filha, com a voz que a gente recorda sempre como tão intimista e suave, lhe disse:

— Pai, eu vou ser cantora!

Dr. Jairo abaixou o jornal, tirou os óculos, olhou-a durante alguns segundos e respondeu:

— Quer dizer, minha filha, que você vai ser puta?!

Tornando a levantar o jornal, prosseguiu placidamente com a leitura. E olha que dr. Jairo era um homem liberal para os padrões da época, também pai de Danuza Leão, conhecida por seu comportamento sofisticado, às vezes extravagante, casada com Samuel Wainer, dono do jornal “Última Hora”.

A falta de salas de espetáculo adequadas foi o primeiro obstáculo para o lançamento do movimento. Os locais disponíveis, os célebres “inferninhos”, eram, em geral, promíscuos. E os outros eram bares da alta sociedade carioca, dos quais o Sacha’s era o mais conhecido, onde se badalava mais do que se escutava. Os meninos começaram, então, a tocar nos colégios, nas escolas, nas universidades e nas tardes musicais da Escola Naval, aos domingos.

O sucesso das apresentações nos deixou confiantes, Bôscoli e eu, de que encontraríamos a mesma receptividade quando os primeiros discos chegassem à imprensa, e, principalmente, às emissoras de rádio. Essa esperança desabou no momento em que apresentei a canção “Chega de saudade” , interpretada por João Gilberto, ao departamento de vendas e divulgação da Odeon em 1958. Cheguei com o disco de acetato em São Paulo, contei toda a história que cercava o lançamento, cujo ponto central seria a abertura de um novo mercado dirigido para a juventude, e coloquei o disco na vitrola. Todos ouviram num silêncio que achei muito promissor, até o momento em que Gurzoni, o importante gerente de vendas e elemento decisivo para o futuro sucesso do empreendimento, pegou o disco e proclamou a frase já célebre:

— Isto é música para veados!!!

E jogou o acetato no chão.
 

Rogério Duarte, é professor de literatura, pesquisador de rock em língua portuguesa, colaborador da revista virtual Mundo Mundano (www.mundomundano.com.br) e autor dos blogs Identidade Musical (www.identidademusical.com.br/blog), A Métrica do Grito (http://ametricadogrito.blogspot.com) e Restos e Fragmentos de Mim (http://restosefragmentos.blogspot.com).
 


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POR EM 01/05/2009 ÀS 10:35 AM

A Segunda Guerra Mundial e o trabalho controverso dos historiadores

publicado em

Se os historiadores têm dificuldade de lidar com fatos ocorridos há certo tempo, com documentação em geral farta, imagine o trabalho dos jornalistas no dia-a-dia. Os jornalistas, acreditando numa objetividade impossível, avaliam que traduzem a realidade à risca, quando, na verdade, fazem um recorte superficial, muitas vezes contestado no dia seguinte, da realidade

Lidar com a história da Segunda Guerra Mundial, depois de 64 anos de seu fim, parece fácil, mas não é, diz Norman Davies, no livro “Europa na guerra — 1939-1945” (Record, 599 páginas). Observe-se que apenas na década de 1990 os historiadores tiveram oportunidade de examinar os arquivos de guerra do NKVD e o Ministério do Exterior soviético. “Entretanto”, nota Davies, “imensas lacunas persistem, especialmente com respeito ao Ministério da Defesa soviético e aos Arquivos do Troféu. Adolf Hitler morreu em abril de 1945. Seu crânio só foi localizado (numa caixa de sapatos) nos arquivos do NKVD em 1992 e o arquivo completo do NKVD sobre Hitler só foi liberado em 2002. O primeiro guia com base em arquivos do sistema de campos de concentração soviético só foi publicado em 1998. Enquanto isso, o mundo acostumou-se à ideia de que só os nazistas tinham campos de concentração durante a guerra”.

Mas as imensas dificuldades com alguns arquivos não impediram uma enxurrada de livros. Davies faz um rastreamento do que há de mais interessante e, infelizmente, muito não foi traduzido para o português. As memórias de Winston Churchill, ainda que idiossincráticas, foram vertidas. Há também os relatos de De Gaulle, Albert Speer, Jukov (o general que Stálin não conseguiu matar, porque o Exército reagiu), Goebbels. “Relatos pessoais do Holocausto, como o diário de Anne Frank, somam número muito maior do que as narrativas vindas do Gulag”, ressalta Davies.

Milovan Djilas, entre os comunistas, deu o “testemunho mais chocante”, segundo Davies, sobre os bastidores do regime de Stálin. Ele apontou, em primeira mão, o surgimento de uma “nova classe”, no clássico “A Nova Classe”. O regime stalinista era gerido “por uma brutal e ditatorial ‘Classe Nova’ de puxa-sacos do partido” (comunista).

Em 1951, seis anos depois do fim da guerra, Alan Bullock, de Oxford, pôs nas livrarias o livro “Hitler — Estudo de uma Tirania”. O historiador teve “acesso privilegiado a arquivos alemães”. “Na época, cinco anos antes do ‘degelo’, Stálin estava vivo e ninguém ainda concebera um estudo sobre a tirania stalinista.”

Depois da obra de Bullock, esgotada no Brasil, saíram livros de Joachim Fest, autor de uma biografia clássica de Hitler (publicada pela Nova Fronteira), Michael Burleigh, Richard Evans e Ian Kershaw (o mais completo biógrafo do líder nazista). “O mais interessante é que vários dos biógrafos de Hitler também foram atraídos por Stálin. O duelo épicos dos dois homens durante a Segunda Guerra Mundial é um tema central, sem o qual pode haver muito mal-entendidos a respeito de ambos.” Em 1991, Bullock lançou “Hitler and Stálin: Parallel Lives” (pode ser encontrado nos sites da Livraria Cultura e do Estante Virtual).

“Mais recentemente, Richard Overy agarrou o touro pelos chifres com mais firmeza. Ninguém sugeriu que os dois tiranos [Hitler e Stálin] fossem idênticos. Mas ambos eram tiranos vis. E não faz sentido argumentar que Stálin era de algum modo menos tirano porque tinha combatido o tirano Hitler”, critica Davies.

Logo depois da guerra, os historiadores alemães evitaram estudar o período nazista. O tema ficou na “geladeira durante muitos anos”. Gerhard Ritter, uma das exceções, procurou negar a “relação” entre Hitler e os grandes homens da história alemã. Fritz Fischer argumentou, no livro “Griff nach der Weltmacht”, de 1961, “que a Alemanha vinha seguindo uma ‘Sonderweg’, ou ‘trilha especial’, desde o Império”.

A partir de 1960, dois temas começaram a tomar conta dos debates, o Holocausto judaico e o histórico criminoso de Stálin. Lucy Dawidowicz, Raul Hilberg, Yehuda Bauer e Martin Gilbert “colocaram a tese principal sobre o genocídio nazista de cerca de 6 milhões de judeus, a maioria da Polônia ocupada pelos alemães, acima de qualquer suspeita”.

Para Davies, “o tema dos crimes de Stálin veio à cena como resultado direto do não tão secreto discurso de Khruschov em fevereiro de 1956, do subseqüente ‘degelo’ na cultura soviética e da brutal repressão do levante húngaro. (...) A percepção se fortaleceu com os escritos de Soljenitsin, as investigações históricas de Robert Conquest e a onda seguinte de opressão soviética na Tchecoslováquia”.

Apesar das evidências dos crimes do stalinismo, que não acabaram com a morte de Stálin, e “até os anos 1990, obras criticando a URSS eram rotuladas como ‘controversas’ ou ‘anti-soviéticas’ e, consequentemente, não exatamente confiáveis”.

No campo da história militar, John Keegan foi pioneiro com “A Face da Batalha”, de 1976. Keegan examinou o trabalho dos soldados, na linha de frente. Seguiram-se “Pegasus Bridge” (1984) e “Band of Brothers” (1992), “O Dia D” (1994) e “Soldados e Cidadãos” (1997), de Stephen Ambrose. O defeito básico de Ambrose é o americocentrismo. Os soldados americanos eram “tudo”.

Como “a história evolui por meio de controvérsias”, é preciso citar o célebre “A Segunda Guerra Mundial” (1963), de A. J. P. Taylor. O historiador inglês sustentava que Hitler, “nos anos 1930, não trabalhava com um cronograma planejado de agressão. Em vez disso, Taylor defendia a tese de que Hitler gostava de correr riscos, era um blefador e um oportunista. (...) Nos anos 1960, a demonização de Hitler estava bem avançada, e a idéia de que o Führer não seguiu o diabólico plano que delineara em ‘Mein Kampf’ foi vista por muitos com um insulto”.

Depois da controvérsia provocada por A. J. P. Taylor, surgiu outra. Alguns historiadores sugeriram que a Segunda Guerra Mundial era decorrente da Primeira Guerra Mundial, das rivalidades (“profundamente enraizadas”) entre as potências europeias, e não das ambições de Hitler e aliados. No livro “A Última Guerra Europeia” (não se sabe o motivo do tradutor pôr os títulos em inglês para livros traduzidos), de 1976, John Lukacs postulou que o nacionalismo havia sido superado e que o essencial era entender as rivalidades entre as superpotências.

Dez anos depois, no livro “Der Europäische Bürgerkireg, 1917-1945”, o historiador alemão Ernst Nolte “sustentou que algumas das técnicas e práticas políticas dos nazistas foram copiadas das da União Soviética”. Davies percebe que Nolte estava conectando comunismo e fascismo ao totalitarismo. Ele estava dizendo que “comunismo e fascismo tinham muito em comum, especialmente suas aspirações a controle total”. Em tese, Nolte seguia o pensamento da filósofa Hannah Arendt, que provocou irritação, mesmo em círculos judaicos, com seu livro “Origens do Totalitarismo” (1951).

No seu livro, Arendt ressaltou “a singularidade do Holocausto e o papel dos comunistas judeus”. Notou também uma espécie de “irmandade” entre os totalitarismos comunista e nazista (não deixa de ser curioso que Hitler e Stálin tinham uma imensa curiosidade um sobre o outro e, claro, foram parceiros durante algum tempo). Mais tarde, em 1963, a filósofa lançou outro livro igualmente polêmico “Eichmann em Jerusalém — Um Relato Sobre a Banalidade do Mal”. Num artigo, “O passado que não irá morrer”, de 1986, Nolte irritou ainda mais a esquerda. Ele disse que “o fascismo” era “uma ‘reação defensiva’ ao comunismo”.

O historiador Andreas Hilgrüber, no livro “Zweierlei Untergang” (“Ruína Dupla”), de 1986, sugeriu “que a Alemanha havia sido vitimada duas vezes — uma pela derrota militar e outra pelas expulsões” (dos alemães do leste, entre 1945-1947). Foi atacado pelo filósofo Jürgen Habermas (tratado como confuso e radical por Davies). Os adversários de Hilgrüber não aceitaram a tese de que o sofrimento dos alemães, expulsos do leste, podia ser comparado ao Holocausto. Por que não falar das duas mil mulheres estupradas pelos soldados russos e das dezenas de milhares de civis alemães que foram queimados e mortos nos bombardeios dos Aliados, principalmente ingleses e, em seguida, soviéticos?

Por trás do debate, havia, nota Davies, a tese de que os alemães, por meio do governo nazista, eram responsáveis pelo maior sofrimento ocorrido durante a guerra. Esquecia-se do sofrimento, digamos massacre, dos soviéticos nos campos de concentração, o Gulag. Porque, em tese, o governo soviético, de Stálin e pós-Stálin, representava o Bem, enquanto o nazismo representava o Mal. Com a derrocada do comunismo, e as consequentes denúncias, agora plenamente documentadas pelos arquivos soviéticos, se pôde entender, em toda a sua extensão, os crimes do stalinismo. Davies não diz isto, mas eu assinalo: se os soviéticos não reclamavam, e não denunciavam o Gulag e os expurgos, apesar de serem bem conhecidos — Robert Conquest foi um dos pioneiros a denunciá-los, documentada e analiticamente, no livro “O Grande Terror — Os Expurgos de Stálin” (Expressão e Cultura, 600 páginas, tradução de Henrique Benevides, 1968. Publicado no Brasil em 1970) —, a situação, teoricamente, não era tão ruim assim. Ninguém supera a esquerda em propaganda política — nem mesmo o nazista Joseph Goebbels. A direta, excluindo Goebbels, sempre foi superada, em propaganda, pela esquerda. A esquerda é o “Bem” e não se condena o “Bem”, mesmo quando este, para além das aparências, não é nada “Bem”, e sim é, sobretudo, o “Mal”. Quando quer, a esquerda manipula, com mestria, o maniqueísmo. Quando julga necessário, critica o maniqueísmo. Por que os crimes do comunismo não são internalizados como crimes contra a humanidade iguais aos do nazismo? Em regra, porque a propaganda comunista foi e, apesar da abertura dos arquivos soviéticos (e outros), continua sendo muito eficiente. Enfrentar a esquerda, o “Bem”, é quase impossível. A pessoa, ainda que seja um intelectual sólido, como Robert Conquest, pode ser execrada pelo resto de seus dias. Então, o silêncio, ou neutralidade do muro, é um dos caminhos protetores das carreiras intelectuais e acadêmicas.

Entretanto, “nos anos 1990, quando vozes russas se juntaram às persistentes condenações do sistema soviético, a maioria de seus antigos defensores perdeu o ímpeto. A publicação, em 1997, de ‘O Livro Negro do Comunismo’, compilado por uma equipe de desiludidos comunistas franceses e europeus do Leste, mostrou-se irrefutável. A partir daí, os crimes soviéticos figuraram na agenda ao lado dos crimes nazistas”. (Vale acrescentar que, mesmo no Brasil, vozes se levantaram para criticar o livro como produto de um trabalho sistemático da direita — omitindo-se, é claro, que os autores eram egressos da esquerda, e de uma esquerda profundamente respeitável, não contaminada pelo direitismo militante. Basta citar, como exemplo, o seriíssimo François Furet. Chegaram a produzir um livro negro do capitalismo, nos quais crimes que ocorreram antes de o capitalismo se tornar o modo de produção dominante foram arrolados como “crimes do capitalismo”.)

O historiador Tony Judt, citado por Davies, escreveu no “New York Times”: “O mito dos bem-intencionados fundadores — o bom czar Lênin traído por seus diabólicos herdeiros — foi enterrado de uma vez por todas. Ninguém poderá mais alegar ignorância ou incerteza a respeito da natureza criminosa do comunismo e aqueles que começaram a esquecer serão forçados a se lembrar novamente”. Judt comenta, no jornal americano, o surgimento do “Livro Negro do Comunismo” (que, depois, teve uma sequência, muito boa, porém pouco divulgada).

Doze anos após o colapso da União Soviética, a historiografia sobre os acontecimentos do Leste europeu renasceu com vigor, sobretudo porque os historiadores passaram a ter acesso aos documentos de arquivos que permaneceram décadas fechados aos pesquisadores. Davies relata que vários livros instigantes foram publicados — os principais, felizmente, traduzidos no Brasil. Dmitri Volkogonov (o general soviético, informadíssimo, escreveu uma biografia, em dois volumes, de Stálin e, depois, um livro sobre todos os líderes que governaram a União Soviética. Ele mostrou a mediocridade dos governantes, com exceções que confirmam a regra), Robert Service (sua biografia de Stálin não foi publicada no Brasil; saiu, entre nós, a biografia “Lênin — A Biografia Definitiva”, eivada de erros de tradução e um título absurdo. Service jamais disse que sua biografia era “definitiva”, afinal é um historiador do primeiro time) e Simon Sebag Montefiore publicaram livros desmitificados sobre Stálin e sua gangue. O livro “Stálin — A Corte do Czar Vermelho”, de Montefiore, não resta dúvida, é muito bom. Mas fica-se com a impressão de que o historiador, consciencioso, superestima Stálin como intelectual, aparentemente, porque o ditador leu muitos livros. No afã de compreender, de superar a demonização, é provável que Montefiore tenha cristalizado uma impressão razoavelmente positiva de Stálin, ainda que o monstro apareça com toda a sua fúria no livro. Trata-se, muito mais, de uma impressão de leitor. Talvez o que fica mesmo é a “presença” monstruosa de Stálin, muitíssimo bem descrita pelo historiador britânico. O modo como o ditador operava o sistema stalinista, transformando os aliados em peões suspeitos, aterrorizando-os, é descrito com mestria. Para uma visão mais nuançada, que ressalta os muitos equívocos políticos e estratégicos do ditador soviético, convém ler “Stálin, os Nazistas e o Ocidente — A Segunda Guerra Mundial Entre Quatro Paredes” (Larousse, 568 páginas), o brilhante livro de Laurence Rees. O historiador observa que, a partir de certo momento, Stálin começou a manipular, aí, sim, com rara habilidade, o inglês Winston Churchill e o americano Franklin D. Roosevelt, que, precisando do aliado do Leste, cederam em vários pontos, como no caso da Polônia. O livro de Rees não é citado por Davies, talvez porque seja tão recente quanto o seu livro.

Davies nota que “Stalingrado”, de Antony Beevor, o brilhante historiador inglês, é um relato notável. Um retrato equilibrado do heroísmo soviético, mas também da violência do governo de Stálin. Davies faz justiça a um dos mais importantes livros publicados nos últimos anos, “Gulag — Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos” (Ediouro, 2004, 749 páginas, tradução de Mário Vilela e Ibraíma Dafonte), de Anne Applebaum. Trata-se, escreve Davies, de “um soberbo estudo condenatório sobre o Gulag, que deixa sem argumentos todos os céticos e negadores”. Mesmo assim, como notei antes, há quem não consiga perceber tais crimes como tão monstruosos quanto os crimes do nazismo. O livro de Applebaum, um soco na cara dos que não querem perceber a barbárie stalinista (assim como não querem perceber que Che Guevara era um político sanguinário e não um rebelde romântico), é uma obra-prima sobre a tragédia soviética.

“Os mecanismos do NKVD [antiga KGB] podem agora ser documentados. (...) As vítimas do comunismo soviético podem agora ter a mesma dignidade e reconhecimento que as vítimas do nazismo há muito possuem”, anota Davies. Ou será que a esquerda vai dizer, agora, que uns são mais vítimas do que outros? É bem possível que, mesmo livros sérios, continuem tratados como “propaganda capitalista” ou da direita.

Nos Estados Unidos, segundo Davies, a argumentação patriótica — fruto, em parte, dos livros do historiador Stephen Ambrose (no geral, fascinantes) e, segundo o historiador, também da cinematografia de Steven Spielberg (entre outros) — começa a ceder. Os EUA de Franklin D. Roosevelt, afinal, admitem os americanos (muitos deles, pelo menos), não venceram a guerra sozinhos — como prova Davies, no seu notável livro, embora tenham sido decisivos na sua finalização, demoraram muito a participar dos combates e participaram de poucos combates verdadeiramente decisivos. Tornaram-se decisivos, isto sim, em decorrência da história que se escreveu sobre eles. Os americanos não têm o hábito de discutir a cruenta batalha de Kursk, uma das mais decisivas, senão a mais decisiva, da guerra.

A idéia de que os soldados e generais americanos decidiram a guerra, algo romântica, no entendimento de Davies, foi ampliada, depois de Ambrose, por Tom Brockaw, no livro “The Greatest Generation”, de 1998. Um pouco antes, em 1975, o americano Paul Fussell, criticou o romantismo interessado (a tese é mais ou menos a seguinte: os Estados Unidos merecem dominar o mundo, pois o salvaram de Hitler) de seus compatriotas. “A parte aliada da guerra de 1939-1945 foi higienizada e romanceada pelos sentimentais, pelos patriotas tolos, pelos ignorantes e pelos sanguinários a ponto de se desfigurar”, escreveu Fussel, no livro “Wartime and Behavior”, de 1989. Os americanos tendem a excluir, a omitir ou a reduzir o peso da violenta e decisiva guerra no território soviético. Morreram na guerra 27 milhões de soviéticos, 400 mil americanos e 400 mil ingleses. Os números dizem tudo. Os soviéticos foram usados como bucha de canhão por Stálin, diretamente, e, indiretamente, pelos demais Aliados. Antes os soviéticos, certamente pensaram os estadistas democratas, do que os ingleses e os americanos. Davies nota também que vários povos, como poloneses, lutaram na Grã-Bretanha contra os ataques alemães. Mas persiste o mito de que os ingleses lutaram sozinhos. Sem os soviéticos, como os Aliados teriam se virado? Talvez vencessem a guerra, mas os sacrifícios humanos teriam sido muito maiores entre ingleses, americanos e outros aliados.

No fim de seu ensaio (sim, é um ensaio, ainda que preso a um texto mais amplo) sobre o trabalho dos historiadores, Davies diz que “a tarefa de compor uma estrutura concisa e exata da história da Segunda Guerra Mundial parece estar ficando mais viável”. Ele cita que os primeiros a tentar uma síntese foram os ingleses A. J. P. Taylor, John Ray e R. A. C. Parker. Em 1994, Gerhard Weinberg (americano de origem alemã), no livro “A World At Armas: A Global History of World War II”, combinou “uma perspectiva americana com a eficácia germânica”.

Davies diz que um livro muito elogiado é “Total War”, de 1972, de Peter Calvocoressi, Guy Wint e John Pritchard. A edição mais recente saiu com o título de “The Penguin History of the Second World War”. Davies ressalva: “Mesmo assim, a perspectiva continua decididamente anglo-americana, para não dizer churchilliana. A parte devotada ao período do Pacto Nazi-Soviético ainda tem o título ‘As Guerras de Hitler’. Na parte da derrota do Reich, ‘A Vitória da URSS’ ocupa apenas um entre 25 capítulos. Semelhantes ênfases não refletem adequadamente a realidade histórica. Se isso é o melhor que os historiadores podem fazer, eles têm que continuar ‘tentando, tentando e tentando de novo’”.

Se os historiadores têm dificuldade de lidar com fatos ocorridos há certo tempo, com documentação em geral farta, imagine o trabalho dos jornalistas no dia-a-dia. Os jornalistas, acreditando numa objetividade impossível, avaliam que traduzem a realidade à risca, quando, na verdade, fazem um recorte superficial, muitas vezes contestado no dia seguinte, da realidade. Davies mostra que, com o trabalho dos historiadores, por incrível que possa parecer, não é muito diferente. Mas deveria ser.

Um detalhe às vezes negligenciado pelos historiadores, mas não por Davies: grande parte da documentação sobre a Segunda Guerra Mundial está na internet. O historiador fornece vários sites. Consultei alguns e é um verdadeiro maná. Mas, claro, os livros, como os de Davies e Laurence Rees, ainda são as melhores fontes.
 


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