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POR EM 23/06/2011 ÀS 01:31 PM

O novo livro de Joyce Carol Oates

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Joyce Carol OatesSe a poeta Emily Dickinson é a grande rival de Walt Whitman, no século 19, a prosadora Joyce Carol Oates, de 73 anos, é a principal rival de William Faulkner no século 20. (Ian McEwan é seu par inglês.) Joyce escreve literatura de qualidade (tida como sombria, quando, na verdade, sombrios são a vida e o mundo) e crítica literária. E escreveu um bom livro sobre boxe. Sua obra-prima, o romance “A Filha do Coveiro”, conta a história de sua avó Blanche Morgenstern. A autora tem o hábito de vasculhar os segredos de família e ficcionalizá-los. Agora, com “Memórias de uma Viúva” (inédito no Brasil), conta um drama pessoal — a morte do marido, o editor Raymond Smith, em 2008. “É o livro mais pessoal e impactante de Joyce Carol Oates, firme candidata ao Prêmio Nobel de Literatura”, diz a “Revista de Letras” do jornal “La Vanguardia”, de Barcelona. O livro contém “agudas reflexões e, às vezes, humor negro”. Sobretudo, “narra uma comovente história de amor, lírica, moral e implacável, como as que povoam suas novelas, e oferecem um inédito retrato de sua intimidade, até agora zelosamente protegida”. A “Revista de Letras” transcreve trecho da resenha de Ann Hulbert, publicada no suplemento “The New York Times Book Review”: o livro, diz a crítica, “hipnotizará e comoverá o leitor... Um livro mais dolorosamente auto revelador do que a Oates novelista ou crítica se atreveria a publicar”. Joyce ficou casada por 47 anos e 25 dias com Ray. Quando ele morreu, em 2008 — oito anos mais velho do que Joyce, Ray não se recuperou de uma pneumonia —, o mundo da escritora desmoronou. Ao se recompor, escreveu “Memórias de uma Viúva”. “La Vanguardia” publicou um capítulo do livro (a tradução para o espanhol é de María Luisa Rodríguez Tapia), do qual dou notícia e traduzo trechos.


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POR EM 30/05/2011 ÀS 05:34 PM

John Gray diz que ateus se tornaram evangélicos radicais

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Anatomia de John Gray Sou ateu. Ateu católico. Porque, embora ímpio, delicio-me com música de igreja (desde que de qualidade) e com os sermões (Antônio Vieira, afinal, era padre) — em geral, um mix do secular, a moralidade dos homens, com o religioso, a espetacularização de Deus, mas também o mistério da vida e da, digamos, alma. Agrada-me a pregação de um mundo melhor, por meio da paz, da harmonia (talvez impossível) entre os homens, contra a violência pregada pelos herdeiros do Iluminismo. Por isso sou contrário ao ateísmo militante, contra a pregação de que é possível mudar a “natureza” dos homens pela força, pela planificação, pela ciência. Como escreveu o bardo britânico, há mais entre o Céu e a Terra do que imagina a nossa vã filosofia. A religião, o místico, permite-nos navegar pelo incognoscível. As religiões seculares, como o marxismo, não têm dúvidas — só certezas. Em nome do “certo” (o paraíso) fizeram o errado: mataram milhões de seres humanos. Ióssif Stálin mandou assassinar cerca de 30 milhões. Mao Tsé-tung teria mandado matar 70 milhões. Historiadores dizem que a estatística pode estar subestimada. Hitler matou milhões — só judeus foram 6 milhões. O ateísmo está na moda, especialmente por conta de um vulgarizador científico, o zoólogo inglês Richard Dawkins, com o livro “Deus — Um Delírio”, e de um vulgarizador popular, o jornalista inglês Christopher Hitchens, com a obra “Deus Não É Grande”. Ultimamente, a demonização dos religiosos e da religião tem sido criticada, em geral de forma satírica, sobretudo nas entrevistas, pelo filósofo e crítico literário britânico Terry Eagleton. Antes dele, o filósofo britânico John Gray, talvez com mais precisão mas sem perder o matiz sardônico dos ingleses, examinou as ideias de Dawkins, Hitchens (ex-trotskista), Daniel Dennet, Martin Amis, Michel Onfray e Philip Pullman (“A Bússola de Ouro”). O livro “Anatomia de John Gray — Melhores Ensaios” (Record, 515 páginas, tradução de José Gradel) contém um de seus melhores textos, “Ateísmo evangélico, cristianismo secular” (até o título é expressivo).


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POR EM 20/05/2011 ÀS 08:38 PM

O paraíso fiscal da igreja católica

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O jornalista italiano Gianluigi Nuzzi escreveu um livro, “Vaticano S.A” (Larousse, 303 páginas, tradução de Ciro Mioranza), que tende a provocar polêmica. No Brasil, ganhou um subtítulo chamativo: “O arquivo secreto que revela escândalos políticos e financeiros da maior instituição religiosa do mundo”. Trata-se, digamos assim, de “O Livro Negro do Vaticano”? Mais ou menos. O leitor desavisado pode pensar, à primeira vista, que se trata de um trabalho que tem o objetivo de demolir a Igreja Católica, em geral, ou, em particular, o (Banco do) Vaticano. Nada disso. A história é baseada no arquivo do monsenhor Renato Dardozzi, um dos homens de confiança do papa João Paulo 2º. Morto em 2003, Dardozzi deixou escrito: “Tornem públicos todos esses documentos para que todos saibam o que aconteceu”. As revelações, baseadas em mais de 4 mil documentos (alguns deles são arrolados no livro), baseia-se em elementos reunidos pela própria Santa Sé. É como se as principais autoridades do supremo poder religioso católico estivessem nos dizendo: a corrupção é dos homens, de poucos homens, mas não do Vaticano, do sistema católico. Conclui-se, pois, que Nuzzi, longe de manchar a reputação dos principais dirigentes da Igreja, contribui para limpar (parcialmente) sua imagem. Sugiro que se leia a investigação do notável repórter a partir deste comentário, e acrescento que, apesar da ressalva, a pesquisa é sensacional e mostra que o maior grupo religioso do Ocidente joga, em termos financeiros, pelas regras do mercado capitalista-liberal. A Igreja Católica é uma grande empresa religiosa e, ao mesmo tempo, econômico-financeira. Não pode ser dirigida sem dinheiro, daí o bispo americano Paul Marcinkus, secretário do Instituto Para as Obras Religiosas (IOR), mais conhecido como Banco do Vaticano, ter dito, de modo apropriado: “Pode-se viver neste mundo sem se preocupar com o dinheiro? Não se pode dirigir a Igreja com ave-marias”. Um de seus críticos poderia ressalvar: não se pode viver pregando uma coisa e fazendo outra. Apoiado pelo papa Paulo 6º, Marcinkus desenvolve uma política financeira agressiva. Em 1960, “a Igreja controla de 2% a 5% do mercado de ações”.


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POR EM 13/05/2011 ÀS 12:09 PM

Livro prova que filme O Poderoso Chefão não é ficção

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Don Michael Corleone O dinheiro da Máfia italiana pode ter origem ilegal — como propina e extorsão e o tráfico de cocaína e heroína. Mas parte do capital é lavado por empresas tidas como idôneas. Pode-se dizer que os negócios lícitos são alimentados pelos negócios ilícitos e vice-versa. Uns irrigam os outros. O filme “O Poderoso Chefão 3” (de Francis Ford Coppola) — inferior aos anteriores, mas, ainda assim, muito bom — retrata a história de Michael Corleone tentando limpar o capital e o nome de sua família. O mafioso tenta se tornar um empresário, poderoso e rico, aceito social e legalmente. Para “purificar” os negócios, cria a Fundação Vito Corleone, doa 100 milhões para obras de caridade da Igreja Católica e tenta comprar a Immobiliare. Um diretor do Banco do Vaticano diz que tem de cobrir um rombo de 700 milhões de dólares e Michael Corleone oferece 500 milhões, desde que a Immobiliare passe para seu controle. O religioso exige 600 milhões. O filho de don Vito Corleone paga, mas acaba por descobrir que foi ludibriado pelos homens do Santo Padre e que, como afirma, “a política e o crime são a mesma coisa”. A “máfia” não está apenas na máfia. Racionalista ao extremo, ao ser enganado por religiosos sagazes do mundo das finanças, o tio de Vincent Corleone (filho de Sonny Corleone), diz: “Quando pensei que estava fora eles me arrastam de volta”. Uma das figuras emblemáticas do filme é Luchesi, “um homem de dois mundos” — uma sugestão a Michael de que não há como sair dos dois mundos na área das grandes jogadas financeiras, ao contrário do que ele pensava. Pois o que parecia ficção literária e cinematográfica tem correspondência precisa na realidade. A Igreja Católica, por intermédio do Banco do Vaticano, lavou dinheiro da Máfia, pelo menos da Cosa Nostra — a milionária, violenta e vingativa organização siciliana comandada pelos chefões Salvatore Riina (mandou matar cerca de mil pessoas) e Bernardo Provenzano.


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POR EM 25/04/2011 ÀS 11:09 AM

A inclassificável obra-prima de Macedonio Fernández

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“Este vai ser o romance que mais vezes terá sido jogado com violência no chão, e outras recolhido com avidez. Que outro autor poderia se vangloriar disso?” A pergunta instiga e confunde, influenciando o leitor com a dualidade inerente de quem quer provocar e causar reações diversas. Também poderia estar facilmente na abertura desta resenha sem as aspas, como se fossem minhas as palavras de quem as escreveu, transformando o livro num consequente alvo de críticas impiedosas. A declaração nada tem de desonesta ou apelativa: com “Museu do Romance da Eterna” (266 páginas, Cosac Naify, tradução de Gênese Andrade) o leitor pode oscilar entre um caso de amor inopinado e outro de ódio gerado pelo enfado. Contudo, mais do que jogar com a sensibilidade do leitor, a forma de atingi-lo prova por si mesma seu feito artístico.
A declaração faz parte de um dos 59 prólogos do romance escrito por Macedonio Fernández, principal figura da literatura moderna argentina e influência decisiva para Jorge Luis Borges e Julio Cortázar. Cada prólogo, como que numa contagem progressiva para o romance propriamente dito, tem suas características, e todos convergem para dois pontos: o olhar metafísico de Macedonio e a teoria do romance — seu e de outros. A preparação para o romance é construída, destruída e reconstruída diversas vezes, entre teorias, filosofias, análises literárias, críticas, conversas com o leitor, colocando seus personagens como seres sencientes, ausentes ou presentes, que concordam ou discordam das decisões do autor: “pois meus personagens são todos ligeiríssimos: no instante em que deixo de escrever, eles deixam de fazer; se eu não trabalho, fica tudo parado”. Loucura? Não. Criatividade funda, experimentada, cozida, mastigada, testada para trincar os dentes mais sensíveis. O romance, tão aguardado, tão postergado, chega quando a crença nele já começava a se desfazer e então se torna lugar: uma estância de 100 hectares chamada “O Romance”, para onde vai um homem que ficou viúvo e onde moram os personagens que discutem seus papéis no valezinho de nome ambíguo. Depois de fluir continuamente por neologismos e teorias estéticas, plásticas, o autor desemboca num jogo entre personagens conscientes de seus papéis na ficção, o leitor diante desses personagens, a voz narrativa como Deus de toda a criação exposta, e entre introduções e diálogos que esbarram num caráter mais cênico, como se estivéssemos diante de uma Dogville de marionetes, conhecemos este viúvo, criador de um mundo onde a morte não existe e Eterna, sua amada esposa, pode ser, então, eternizada.
Claro que escrever o difícil e inventivo não se atreve a significar escrever de forma apática ou irrefletida. Macedonio começou a criação de “Museu do Romance da Eterna” em 1904, e por 48 anos escreveu e reescreveu até a morte esta que seria sua obra-prima, sem nunca tê-la visto publicada. “Fiz o que pude para que na cerzidura de múltiplas passagens de minha prosa romanesca, que arrasta consigo infatigáveis remendos de revisão, não se percebam as costuras; e me orgulho de confessar o que ninguém descobriria, porque se algum livro custou trabalho foi este, e creio que toda arte é trabalho, e muito árduo”, registrou o autor no prólogo 5. Mais tarde enfatiza: “Repito: pretendo fazer o primeiro romance genuinamente artístico. E também o último dos pseudorromances: o meu fará último o que o preceda, pois não se insistirá mais neles.” O autor que escreveu “abomino todo realismo” prova o quanto pode ser livre com sua criação ao mesmo tempo em que se amarra às contínuas lapidações de um texto que cresce, avoluma e deforma à medida que a vida passa e o amadurecimento estilístico, moderno e cheio de bons riscos, altera significativamente seus valores e sentidos.
Para entender Macedonio, é preciso dialogar com a possibilidade da morte e com o próprio autor já morto, através de seu olhar mais claro sobre as peças principais do romance, os personagens: “Nossos personagens são uma ‘população heterogênea’ de pretendentes, ignorados, aludidos e efetivos personagens do romance; ainda há os personagens variáveis de figuração e outros atuando com nomes diferentes. E de sobra o personagem da não existência. E há, do lado de fora, o personagem que sonha com o romance e o personagem com quem o romance sonha.”
O projeto gráfico do livro, criado por Elaine Ramos, é outro grandioso atrativo desta edição da Cosac Naify. O objeto já evoca, visualmente, toda a radicalidade da literatura de Macedonio Fernández. Como que rascunhos espalhados e aparentemente empilhados sem cuidado, as folhas não são refiladas na lateral direita e tem diferentes tamanhos; os prólogos não têm paginação e são emoldurados como quadros de aviso que antecipam a chegada do romance; capa, quarta capa e contracapas são preenchidas pelo texto do livro, além de toda a parte externa ser coberta por um papel especial permeável às marcas do tempo, sujeito ao envelhecimento, ao aspecto de manuseado, de coisa íntima, como são os manuscritos de todo escritor que preza por sua desorganização criativa.
Ler Macedonio Fernández, sobretudo “Museu do Romance da Eterna”, é ler a natureza da inventividade, da possibilidade que a linguagem, ou metalinguagem, carrega. É preciso um distanciamento, um olhar livre dos preconceitos concebidos por boa parte da literatura e pelo mercado editorial, com seus autores já embutidos em classes cheias de regras tanto estilísticas quanto comportamentais. O autor adverte: “Quero que o leitor saiba sempre que está lendo um romance, e não vendo um viver, não presenciando ‘vida’”. A despeito dessas palavras, a vida está tanto no livro quanto fora dele, assim como na leitura e na presença do leitor que, às vezes, também precisa se fazer de personagem.

Museu do Romance da Eterna“Este vai ser o romance que mais vezes terá sido jogado com violência no chão, e outras recolhido com avidez. Que outro autor poderia se vangloriar disso?” A pergunta instiga e confunde, influenciando o leitor com a dualidade inerente de quem quer provocar e causar reações diversas. Também poderia estar facilmente na abertura desta resenha sem as aspas, como se fossem minhas as palavras de quem as escreveu, transformando o livro num consequente alvo de críticas impiedosas. A declaração nada tem de desonesta ou apelativa: com “Museu do Romance da Eterna” (266 páginas, Cosac Naify, tradução de Gênese Andrade) o leitor pode oscilar entre um caso de amor inopinado e outro de ódio gerado pelo enfado. Contudo, mais do que jogar com a sensibilidade do leitor, a forma de atingi-lo prova por si mesma seu feito artístico.

A declaração faz parte de um dos 59 prólogos do romance escrito por Macedonio Fernández, principal figura da literatura moderna argentina e influência decisiva para Jorge Luis Borges e Julio Cortázar. Cada prólogo, como que numa contagem progressiva para o romance propriamente dito, tem suas características, e todos convergem para dois pontos: o olhar metafísico de Macedonio e a teoria do romance — seu e de outros. A preparação para o romance é construída, destruída e reconstruída diversas vezes, entre teorias, filosofias, análises literárias, críticas, conversas com o leitor, colocando seus personagens como seres sencientes, ausentes ou presentes, que concordam ou discordam das decisões do autor: “pois meus personagens são todos ligeiríssimos: no instante em que deixo de escrever, eles deixam de fazer; se eu não trabalho, fica tudo parado”. Loucura? Não. Criatividade funda, experimentada, cozida, mastigada, testada para trincar os dentes mais sensíveis.


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POR EM 19/04/2011 ÀS 06:58 PM

As Entrevistas da Paris Review

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As Entrevistas da Paris ReviewO volume 1 da série “As Entrevistas da Paris Review” (Companhia das Letras, 459 páginas) contém ótimas e razoáveis entrevistas. Algumas são divertidas, inteligentes e instrutivas e poucas exatamente o oposto. São entrevistados Jorge Luis Borges, Hemingway, Faulkner, Truman Capote, Billy Wilder (diretor de cinema), Primo Levi, Louis-Ferdinand Céline, Doris Lessing, Manuel Puig, Amós (na capa, saiu sem acento) Oz, Javier Marías, Ian McEwan e Paul Auster. Fiquemos com três entrevistas — do americano Capote, do inglês McEwan e do espanhol Javier Marías. Não são conversas ortodoxas, frias.

Capote revela que, mesmo escrevendo muito, lia em média cinco livros por semana. “Um romance de tamanho normal me toma cerca de duas horas.” Sobre autores que tornaram sua literatura possível, afirma: “... nunca notei nenhuma influência literária direta, embora vários críticos tenham me informado de que meus primeiros trabalhos são tributários de Faulkner, [Eudora] Welty e [Carson] McCullers. É possível. Sou um grande admirador dos três; e também de Katherine Anne Porter”. Poe, Dickens e Stevenson são considerados “ilegíveis”. Entusiasmos constantes: Flaubert, Turguêniev, Tchekhov, Jane Austen, [Henry] James, E. M. Forster, Maupassant, Rilke, Proust, Shaw, Willa Cather. Inclui, depois, James Agee. O entrevistador quer saber se, quando começa a escrever, o “livro já está inteiramente organizado” na mente de Truman Capote (autor de “A Sangue Frio” e “Bonequinha de Luxo”), ou se vai descobrir os eixos da história ao escrever. Capote responde: “Ambas as coisas. Tenho invariavelmente a impressão de que todo o arco de uma história, seu começo, seu meio e seu fim, ocorre à minha mente de maneira simultânea — que vejo tudo num relance. Mas, ao longo da elaboração, da escrita, acontecem mil surpresas. Graças a Deus, porque a surpresa, a virada, a frase que surge do nada, no momento certo, é o dividendo inesperado, aquele empurrãozinho que faz um escritor seguir em frente”.


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POR EM 09/04/2011 ÀS 02:33 PM

O escritor que fez a cabeça de Kafka

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Robert WalserO corrosivo escritor austríaco Thomas Bernhard certamente “preferia” ser herdeiro de filósofos como Schopenhauer e, quem sabe, Nietzsche. Embora sua prosa seja esmagadora, sem concessões, é possível que um de seus pais — inconfesso — seja o suíço Robert Walser. A ironia indireta do romance “Jakob von Gunten — Um Diário” (Relógio D’Água, 161 páginas, tradução de Isabel Castro Silva) é mais, digamos, “sutil” do que os petardos virulentos de Bernhard. Mesmo assim, há certo parentesco, sobretudo na distância que ambos guardam da vida e do pensamento tradicionais. A diferença é que um é indireto e o outro é direto. Walser morreu, “louco” (há quem duvide disto, incluindo o próprio autor, que, perguntado porque não continuava escrevendo no hospício, redarguiu: ‘Eu estou aqui para ser louco, não para escrever”), aos 78 anos, em 1956. Ele era o autor preferido do tcheco Franz Kafka, que, como o suíço e o búlgaro Elias Canetti, escrevia em alemão.

No Brasil, Walser é pouco conhecido e, como somos surrealistas, a fortuna crítica chegou primeiro, com textos de Walter Benjamin, Zé Pedro Antunes, Marcelo Backes, J. M. Coetzee e Elias Canetti. Em 2003, o romance “O Ajudante” saiu pela Editora Arx, com tradução e apresentação de Zé Pedro Antunes. Portugal saiu na frente e publicou outros livros de Walser, como “Jacob von Gunten”, de 1909, seu principal romance. A obra sai agora no Brasil, sob chancela da Companhia das Letras (152 páginas), com tradução de Sergio Tellaroli.

O ensaio “Robert Walser” (inserto no livro “Magia e Técnica, Arte e Política”, Brasiliense, 253 páginas, tradução de Sergio Paulo Rouanet), escrito em 1929, de Walter Benjamin, tem apenas quatro páginas, mas certamente é o ponto de partida das críticas posteriores. “Walser nos confronta com uma selva linguística aparentemente desprovida de toda intenção e, no entanto, atraente e até fascinante, uma obra displicente que contém todas as formas, da graciosa à amarga”, escreveu Benjamin.


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POR EM 09/04/2011 ÀS 01:26 PM

Mecanismos Internos, de J. M. Coetzee

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J. M. Coetzee Primeira coletânea do Nobel sul-africano J. M. Coetzee publicada no Brasil, “Mecanismos Internos: Ensaios sobre Literatura (2000-2005)” é um conjunto irregular. São 21 ensaios, a maioria deles escritos originalmente para a “New York Review of Books”. Muitas vezes a preocupação jornalística causa cansaço, com textos que funcionariam melhor como introdução a alguns autores.

Em quase um terço dos ensaios, Coetzee discute a questão da tradução, avaliando se ela faz jus ao original, onde melhora e onde piora o texto. Fluente em inglês, alemão e holandês, ele fala com autoridade sobre o assunto. Neste sentido, o ensaio sobre Paul Celan é exemplar. Algumas passagens da tradução em português soam estranhamente floreadas, além da ocorrência de um “boquiabrir-se”, inimaginável em seus textos ficcionais.

A apuração é minuciosa. Talvez fruto da atividade acadêmica, Coetzee domina o autor e a bibliografia sobre o qual discute — como no primoroso ensaio sobre Walter Benjamin —, apresentando-se sempre seguro, com paciência até para discussões sobre gêneros. Ele toma o cuidado de relacionar não apenas as obras dentro da carreira do escritor, mas compará-las com as de outros, ampliando os conhecimentos do leitor.


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POR EM 23/03/2011 ÀS 10:12 AM

Katherine Mansfield preferia Proust a Joyce

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Katherine MansfieldO Estante Virtual, que reúne os principais sebos do país, permite-nos acesso a obras raras, ou quase raras, por preços quase sempre acessíveis. Adquiri há pouco um livro encantador, “Cartas de Katherine Mansfield” (Portugália, 550 páginas, tradução de Manuela Porto e introdução de João Gaspar Simões), de 1944. Julieta Cupertino, uma de suas melhores tradutoras brasileiras, pôs em português “Diário e Cartas” (Revan). A Cosacnaify lançou “Contos”, numa edição muito bem cuidada e traduzida. Erico Verissimo está entre seus tradutores. Clarice Lispector foi devidamente influenciada pela amiga de Virginia Woolf. As cartas resultam da cabeça de um ser humano raríssimo e extremamente perceptivo. Nascida na Nova Zelândia, em 1889, Katherine Mansfield morreu em 1923, na França, com apenas 34 anos. Pioneiramente, fala de “angústia da influência” (conceito ampliado por Harold Bloom), ao examinar a literatura de um amigo e notar que “repetia” Tchekhov, uma de suas paixões. 

Katherine Mansfield leu “Ulisses”, de James Joyce, na época de seu lançamento (morreu um ano depois). Apesar de sua resistência à linguagem inventiva e desbocada do escritor irlandês, sente que se trata de uma obra grandiosa, difícil, e não esconde seu preconceito (ou estranhamento), ressaltando que é uma falha de leitora. Proust e Tchekhov eram duas de suas maiores paixões. 


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POR EM 15/03/2011 ÀS 09:58 AM

Gay é pai das denúncias do WikiLeaks

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Bradley ManningTodo mundo sabe quem é o australiano Julian Assange, o criador do WikiLeaks, mas poucos sabem quem é o americano Bradley Manning. Aos 22 anos, Manning foi enviado para o Iraque como soldado especializado em informática. Era atípico: tem 1,57m e pesava 47 quilos. Gay assumido, foi expulso de casa pelo pai e, para sobreviver, decidiu entrar para o Exército. “Ele estava lá por seu talento para manipular computadores. Na função de analista de inteligência, Manning passava longos dias na sala de informática da base [militar], examinando cuidadosamente informações confidenciais”, contam os repórteres David Leigh e Luke Harding, do The Guardian. “Ele ficara impressionado com a falta de segurança. A porta era trancada com uma fechadura de código de cinco dígitos, mas bastava dar um empurrão e era possível entrar.”

Na base militar, as coisas não funcionavam como tradicionalmente se pensa sobre o establishment americano. Manning escreveu: “Servidores ruins, registros ruins, segurança física ruim, contrainteligência ruim, análise de sinal negligente... Uma perfeita tempestade”. A negligência “alimentava oportunidades”. Para o soldado, “essas oportunidades se apresentaram sob forma de dois laptops militares, cada um deles com acesso privilegiado a segredos de Estado norte-americanos. (...) Espanta o fato de que um soldado raso pudesse ter acesso aparentemente irrestrito a essa enorme fonte de material confidencial. E que pudesse fazê-lo praticamente sem supervisão ou salvaguardas, no interior da base, é mais impressionante ainda. Ele passava horas examinando documentos e vídeos altamente confidenciais, usando fones de ouvido e fingindo cantar Lady Gaga. Quanto mais lia, mais alarmado e perturbado ficava, chocado com o que considerava duplicidade e corrupção oficiais do próprio país. Tratava-se de vídeos que mostravam o ataque aéreo de um helicóptero equipado com metralhadoras a civis desarmados no Iraque, relatos de mortes de civis e acidentes causados por ‘fogo amigo’ no Afeganistão. E havia uma quantidade gigantesca de telegramas diplomáticos revelando segredos de todo o mundo, do Vaticano ao Paquistão”.


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