Pauta de esquerda trava entrevista de general
Geneton Moraes Neto é um entrevistador nada ortodoxo. Mas não conseguiu arrancar grandes confissões do general Leonidas Pires Gonçalves, de 89 anos, ministro do Exército no governo de José Sarney, na entrevista concedida ao canal Globo News. A ênfase do militar não o intimidou, mas a maioria das perguntas do jornalista parecia escrita por um militante da esquerda. Quando Geneton inquiriu sobre torturas e mortes de esquerdistas, Leonidas citou as mortes de inocentes, civis e militares, mas o jornalista não se interessou pelo assunto. O que é espantoso, pois, perspicaz, Geneton poderia ter obtido alguma informação nova a respeito. Não aproveitou a “deixa”, digamos assim. Porque só estava interessado nos mortos da esquerda. A esquerda também matou, e não necessariamente em confronto. O caso de Márcio Toledo Leite, não citado pelo general e por Geneton, é exemplar. Integrante da Ação Libertadora Nacional (ALN), Márcio comunicou aos aliados que iria abandonar a guerrilha, mas não sairia do Brasil. Apresentado como “traidor”, sem ter traído ninguém, Márcio foi assassinado pelos companheiros, liderados por Carlos Eugênio Sarmento da Paz, o Clemente. A confissão é do próprio Carlos Eugênio, hoje músico no Rio de Janeiro, nas memórias “Viagem à Luta Armada” (Civilização Brasileira, 228 páginas, 1996). O esquerdista Toledo Leite é outro Herzog, mas, como foi executado pela esquerda, Geneton e outros intelectuais de esquerda evitam citá-lo. A entrevista, anunciada com estardalhaço, não trouxe grandes revelações. Se tivesse consultado com mais atenção alguns livros, que poderiam subsidiá-lo na elaboração da pauta, Geneton certamente teria contribuído, de modo mais decisivo, para elucidar algumas questões nebulosas. Teve uma chance rara, mas não a aproveitou muito bem. Porque, como a maioria dos jornalistas, tratou o general Leonidas com preconceito. Não estou defendendo que deveria tratá-lo como servo, sem contestá-lo, e sim que deveria ter aproveitado a oportunidade para uma entrevista mais rica em informações inéditas.
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Apesar dos provincianismos, como elogios excessivos, produto do “amiguismo”, a nulidades literárias como José Sarney (“muito bom escritor”) e Paulo Coelho (“um grande escritor”), o livro “Antônio Olinto: 90 Anos de Paixão — Memórias Póstumas de um Imortal” (Editora de Cultura, 317 páginas), de João Lins de Albuquerque, contém histórias magníficas. João Lins esclarece que não se trata de uma biografia, nem, digo eu, de memórias clássicas. Trata-se de uma longa entrevista, com informações às vezes repetidas e ligeiramente contraditórias. Mas isto não importa, pois a obra é mesmo do balacobaco.
Um exercício de liberdade, na forma e no conteúdo. Assim pode ser definido o romance “Tanto Faz”, de Reinaldo Moraes, lançado em 1981 pela mítica coleção Cantadas Literárias, da Editora Brasiliense.
Em 1970, menino, vi a Copa de Pelé numa televisão preto e branco na casa do vizinho João Borges (na época poucas pessoas tinham aparelho de tevê). Chuviscos, a bola e os jogadores se confundiam. Mas as imagens da televisão, mais do que o jogo em si, mesmerizavam adultos e crianças. Todos pareciam ter os olhos vidrados, contemplando a tevê como se fosse um quadro de Van Gogh. Resultado: por conta de Pelé, de suas diabruras, tornei-me torcedor do Santos. A Copa de 70 vai completar 40 anos, mas não há a respeito da grande seleção de Gérson, Jairzinho (imagine: na época, eu avaliava que era melhor do que Pelé), Rivellino, Clodoaldo, Tostão e Pelé um livro equivalente à excelente biografia “Estrela Solitária — Um Brasileiro Chamado Garrincha” (Companhia das Letras, 536 páginas), de Ruy Castro. Há obras episódicas, algumas sobre jogadores, mas não uma obra detalhada. O jornalista Milton Leite, embora não tenha a pretensão de escrever a obra “definitiva” sobre a Copa de 70, produziu um livro que explica razoavelmente bem o sucesso da seleção de João Saldanha e Zagallo. “As Melhores Seleções Brasileiras de Todos os Tempos” (Contexto, 223 páginas) apresenta histórias e análises pertinentes. Uma decisão oportuna foi a inclusão da seleção de 1982, a do técnico Telê Santana, como uma das melhores, embora não tenha ganhado a copa. Com justiça, Leite diz que “a seleção que conquistou em definitivo a Taça Jules Rimet entrou para a história como o melhor time já montado na história dos mundiais”. Não tinha Garrincha e Vavá, mas tinha Pelé, Tostão, Gérson, Jairzinho e Rivellino.
Instigado por leitores, mais de 50, li “Honoráveis Bandidos — Um Retrato do Brasil na Era Sarney” (Geração Editorial, 207 páginas), do jornalista Palmério Dória, com apoio de Mylton Severiano.
Fico tentado a fornecer um guia de leitura do livro “Elza Soares — Cantando Para Não Enlouquecer” (Planeta, 383 páginas), do escritor José Louzeiro. No guia, privilegiaria os capítulos que discutem diretamente a artista e menos sua vida. Mas, se fizesse isto, contribuiria para privar o leitor de entender, de modo mais amplo, como uma favelada, sem nenhuma estrutura, se tornou uma cantora magnífica — espécie de Billie Holiday, pelo menos em sofrimento, dos trópicos.
“Formei-me em Letras e na bebida busco esquecer.” É assim, com ar deprimente, que começa “Os Espiões”, novo romance de Luis Fernando Veríssimo (Alfaguara, 142 páginas). Escrito de forma simples, direta, muitas vezes redundante e com algumas passagens repetitivas, o livro conta a história de um funcionário de uma pequena editora, mal-humorado e de ressaca nas segundas-feiras, com alguma boa-vontade nos dias restantes. Ele recebe exatamente numa terça-feira, em seu resquício de mau humor e dores de cabeça, o primeiro capítulo de um misterioso original com remetente de uma pequena e desconhecida cidade: Frondosa. É Ariadne quem assina o texto ausente de vírgulas, com graves erros gramaticais, texto este que desperta a curiosidade, o fascínio e até uma certa admiração exagerada — antes por parte do editor e depois de seus amigos e conhecidos de bar, porque tudo o que a misteriosa escritora quer com o romance é vingar-se do marido ciumento que, diz ela, matou seu amante. 