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POR EM 25/08/2011 ÀS 08:30 PM

Só Freud para livrar Mino de obsessão com Civita

publicado em

 “A Sombra do Silêncio” é uma espécie de tudo é verdade segundo dom Mino Carta, o aristocrata do rancor

Mino Carta

Há duas, ou mais, leituras do romance à clef “A Sombra do Silêncio” (Francis, 224 páginas), do jornalista Mino Carta. A primeira, que tem vigorado, é patrocinada pela revista “CartaCapital”, de propriedade de Mino Carta, que vê o romance como uma obra de gênio, ombreando, sabe-se lá, com alguma história de Henry James ou Flaubert. É uma leitura equivocada porque Mino não faz literatura — é memorialista que talvez tenha receio de ser processado (ele diz que um ex-ministro da ditadura, depois senador na democracia, era homossexual. O economista já faleceu), ou, o que é mais crível, não tenha paciência para a pesquisa. Então, usando a forma do romance — mas não fazendo romance, como querem seus críticos favoráveis, que sempre notam sua alta cultura, o diálogo fino com a pintura e a música —, pode, além de atacar seus adversários, políticos, empresários e jornalistas, tornar as histórias mais elásticas. “A Sombra do Silêncio” é, de algum modo, uma espécie de tudo é verdade segundo dom Mino Carta, o aristocrata do rancor, o homem que ensina que se deve comer peixe só com garfo, sem o uso de faca. O “Gattopardo” patropi que quer ser Tomasi di Lampedusa.   Na verdade, ao pretender contar a história de seu amor por Core Mio (Angélica, a paixão de uma vida), Mino Carta faz, mais uma vez, memorialismo à clef. Então, no lugar da primeira leitura, oponho a minha: a histórica, entre outras. Mercúcio Parla, alter ego de Mino Carta, tem o hábito de satirizar os intelectuais, ele próprio intelectual (dos bons, sério, íntegro), embora tentando se mostrar apenas como jornalista. Ele atribui a Alberti/Claudio Abramo o seguinte: “E os intelectuais? Servem o poder, querendo ou não, mesmo porque o primogênito vira coronel e um dos irmãos Intelectual. A família é a mesma”. Mercúcio/Mino contrapõe: “Mas nem todos nascem abastados...”. Abramo replica: “Estes sonham em subir na vida, quando não dá para virar coronel, vale a pena ser Intelectual”. E nós, jornalistas, servimos a quem? Ao poder, é claro.


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POR EM 17/08/2011 ÀS 10:05 PM

Mino Carta vai reescrever o Evangelho

publicado em

Mino CartaQuem diz que o ego do jor­na­lis­ta e pin­tor Mi­no Car­ta, di­re­tor de re­da­ção da re­vis­ta “Car­ta­Ca­pi­tal”, é hi­per­tro­fi­a­do não po­de dei­xar de ser cha­ma­do de aman­te de re­dun­dân­cias. Mi­no Car­ta se acha o mais pu­ro dos ho­mens e, por ex­ten­são, o me­lhor jor­na­lis­ta do Bra­sil, qui­çá do mun­do — de­pois de Clau­dio Abra­mo, di­ria o ita­li­a­no-bra­si­lei­ro. É o que so­bres­sai do ro­man­ce “O Cas­te­lo de Âm­bar” (Re­cord, 400 pá­gi­nas). Es­tra­nhís­si­mo ro­man à clef. Sus­ten­tar que “O Cas­te­lo de Âm­bar” é ro­man­ce tal­vez se­ja mais uma go­za­ção de Mi­no Car­ta.

“O Cas­te­lo de Âm­bar” é o an­ti­rro­man­ce, não no sen­ti­do li­te­rá­rio, ao mo­do de “Fin­ne­gans Wake”, de Ja­mes Joyce, ou de “Aque­la Con­fu­são Lou­ca da Via Me­ru­la­na”, de Car­lo Emi­lio Gad­da, e sim no as­pec­to mais cru: não há li­te­ra­tu­ra ne­nhu­ma no li­vro — só fa­tos, co­zi­dos, é ver­da­de, co­mo quer a ma­lí­cia do au­tor. Mas o jor­na­lis­mo li­te­rá­rio de Mi­no Car­ta é pas­sio­nal: apre­sen­ta a sua ver­são com ên­fa­se e a dos ou­tros, os “ini­mi­gos”, em es­pa­ço mí­ni­mo. O ro­man­ce se­ria li­te­ra­tu­ra ou fu­zi­la­ria? Talvez vendeta. Se “O Cas­te­lo de Âm­bar” é es­tra­nho, por­que Mi­no Car­ta ten­ta trans­for­mar a re­a­li­da­de em fic­ção, pa­ra que a re­a­li­da­de se tor­ne ao olho do lei­tor ain­da mais cho­can­te, os re­sul­ta­dos são pí­fios. Mui­ta gen­te cer­ta­men­te vai bus­car em al­gu­ma re­por­ta­gem ou re­se­nha os no­mes ver­da­dei­ros por trás dos per­so­na­gens. So­bre­tu­do jor­na­lis­tas. O lei­tor co­mum ten­de a se dis­tan­ci­ar de uma obra que, ten­tan­do ser fic­ção, não é mais do que um re­tra­to, ab­so­lu­ta­men­te res­sen­ti­do, da re­a­li­da­de.


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POR EM 03/08/2011 ÀS 01:48 PM

Salinger odiaria

publicado em

Salinger: Uma VidaJerome David Salinger odiaria a biografia escrita por Kenneth Slawenski. Em primeiro lugar, ela representa o culto ao escritor, algo de que Salinger sempre foi esquivo. Até aí, “tudo bem”. Nem se fosse escrita por Seymour Glass, ele ficaria satisfeito. Em segundo lugar, “Salinger: Uma Vida” representa uma tentativa maníaca de entender a ficção de Salinger sob a ótica autobiográfica. O resultado é que todo texto salingeriano existe para ser analisado sob a luz da existência do escritor.

 Esta opção altamente discutível do biógrafo compromete a apreciação da obra do escritor, resvalando muitas vezes na idolatria do fã. Não à toa, Slawenski é o criador do site Dead Caulfields. Parece que estamos lendo um blog dedicado a J. D. Salinger, o grande herói de Kenneth Slawenski.

 A questão então é ver o que Slawenski tem a nos oferecer. Como nenhuma de suas análises prima por algum insight maravilhoso, somos condenados a análises e mais análises biográficas de sua obra. A jovem Oona O'Neill trocou Salinger por Charles Chaplin? Lá está o intrépido Slawenski descobrindo como isto se reflete na ficção de Salinger: Chaplin é desprezado pelo personagem principal de um conto do qual ninguém mais tem lembrança. E assim durante as cerca de 380 páginas da biografia, que não conta com índice onomástico.  Tudo isto tem lá seu interesse, mas antes de contribuir para o conhecimento da obra de Salinger, termina por amesquinhá-la. Este problema está enraizado no fetiche pela realidade, tão afeito ao gosto contemporâneo. A ascensão das vendas de biografias e de filmes “baseados em fatos reais” comprova o fato.


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POR EM 23/06/2011 ÀS 04:36 PM

Como Funciona a Ficção

publicado em

James WoodSe a ficção fosse uma pedra preciosa, sua lapidação seria o cuidado técnico do escritor, acompanhada de uma revisão supervisionada por olhos de águia, cortes precisos feitos pela navalha da concisão e um ritmo geométrico — relação harmoniosa entre a forma e a durabilidade sonora da palavra (corpo) e a concavidade de seu contexto (leito). O leito da palavra é o não-lugar onde ela poderia ser eternizada por estar no lugar perfeito, conforme a harmonia narrativa onde foi depositada adequadamente. Um corpo depende do outro (uma palavra dependendo da próxima) e o leito depende da harmonia desses corpos. Então surge a ficção que encanta, a pedra brilhante adornando uma joia: o livro. Sendo um topázio amarelo, tende a criar a atmosfera amanteigada dos vestidos das damas de Jane Austen; um lápis-lazúli, o mistério marinho eivado de finas rugas peroladas dos tensos enredos de Ian McEwan; um rubi, a inocência ígnea dos lábios nervosos da Lo-Li-Ta de Nabokov. Colocadas sob variadas luzes, as pedras revelam brilhos e tons igualmente variados. Essas luzes são os diferentes olhares dos leitores sobre a joia-livro: todas as interpretações derramadas no leito da compreensão. O olho do leitor é luz sobre o livro, algumas vezes anestesicamente mais fraca, outras, cirurgicamente intensa e precisa. Quebre a pedra, estoure seu núcleo, separe os reagentes e veja o produto desmanchado: cada pedaço tem um formato, um tamanho, um papel na beleza do todo. Cada pedaço permitiu a existência do produto e foi um artifício, uma maneira, um caminho, consciente ou inconsciente, para o escritor, esse ser que cria e recria a partir da corrosão de suas pedras, ter sua joia.


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POR EM 23/06/2011 ÀS 01:52 PM

Triângulo Rosa — Um Homossexual no Campo de Concentração Nazista

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Triângulo Rosa — Um Homossexual no Campo de Concentração NazistaNo clássico “O Holocausto — História dos Judeus da Europa na Segunda Guerra Mundial” (Hucitec, 1022 páginas), do historiador inglês Martin Gilbert, há referências aos ciganos e homossexuais mortos nos campos de concentração e extermínio dos nazistas de Adolf Hitler, ainda que escassas. “Em pouco mais de quatro meses, mais de 30 mil pessoas tinham sido mortas em Mauthausen [campo de concentração alemão], ou tinham morrido de inanição e doença. Judeus e ciganos formaram os maiores grupos dos mortos, mas outros grupos também tinham sido selecionados pelos nazistas: homossexuais, testemunhas de Jeová, prisioneiros de guerra espanhóis”, revela Gilbert. “Dos assassinados” — Gilbert não está citando só Mauthausen —, entre 1939 e 1945, “cerca de um quarto de milhão eram ciganos, dezenas de milhares de homossexuais e dezenas de milhares de ‘deficientes mentais’.” É pouca informação, mas Gilbert pode alegar, com razão, que seu foco são os judeus. Por isso o livro “Triângulo Rosa — Um Homossexual no Campo de Concentração Nazista” (Mescla Editorial, 182 páginas, tradução de Angela Cristina Salgueiro Marques), de Jean-Luc Schwab e Rudolf Brazda (o texto é exclusivo de Schwab), tem grande importância. É o resgate da história do alemão (“tchecoslovaco, por ascendência”) Rudolf Brazda. Ainda vivo, com 98 anos, Brazda foi preso no campo de concentração de Buchenwald, na Alemanha, porque havia cometido o crime de ser homossexual. Não se pretendia tão-somente purificar a raça alemã. O governo nazista trabalhava para mudar comportamentos tidos como desviantes e, quando não conseguia, prendia ou matava as pessoas.


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POR EM 23/06/2011 ÀS 01:31 PM

O novo livro de Joyce Carol Oates

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Joyce Carol OatesSe a poeta Emily Dickinson é a grande rival de Walt Whitman, no século 19, a prosadora Joyce Carol Oates, de 73 anos, é a principal rival de William Faulkner no século 20. (Ian McEwan é seu par inglês.) Joyce escreve literatura de qualidade (tida como sombria, quando, na verdade, sombrios são a vida e o mundo) e crítica literária. E escreveu um bom livro sobre boxe. Sua obra-prima, o romance “A Filha do Coveiro”, conta a história de sua avó Blanche Morgenstern. A autora tem o hábito de vasculhar os segredos de família e ficcionalizá-los. Agora, com “Memórias de uma Viúva” (inédito no Brasil), conta um drama pessoal — a morte do marido, o editor Raymond Smith, em 2008. “É o livro mais pessoal e impactante de Joyce Carol Oates, firme candidata ao Prêmio Nobel de Literatura”, diz a “Revista de Letras” do jornal “La Vanguardia”, de Barcelona. O livro contém “agudas reflexões e, às vezes, humor negro”. Sobretudo, “narra uma comovente história de amor, lírica, moral e implacável, como as que povoam suas novelas, e oferecem um inédito retrato de sua intimidade, até agora zelosamente protegida”. A “Revista de Letras” transcreve trecho da resenha de Ann Hulbert, publicada no suplemento “The New York Times Book Review”: o livro, diz a crítica, “hipnotizará e comoverá o leitor... Um livro mais dolorosamente auto revelador do que a Oates novelista ou crítica se atreveria a publicar”. Joyce ficou casada por 47 anos e 25 dias com Ray. Quando ele morreu, em 2008 — oito anos mais velho do que Joyce, Ray não se recuperou de uma pneumonia —, o mundo da escritora desmoronou. Ao se recompor, escreveu “Memórias de uma Viúva”. “La Vanguardia” publicou um capítulo do livro (a tradução para o espanhol é de María Luisa Rodríguez Tapia), do qual dou notícia e traduzo trechos.


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POR EM 30/05/2011 ÀS 05:34 PM

John Gray diz que ateus se tornaram evangélicos radicais

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Anatomia de John Gray Sou ateu. Ateu católico. Porque, embora ímpio, delicio-me com música de igreja (desde que de qualidade) e com os sermões (Antônio Vieira, afinal, era padre) — em geral, um mix do secular, a moralidade dos homens, com o religioso, a espetacularização de Deus, mas também o mistério da vida e da, digamos, alma. Agrada-me a pregação de um mundo melhor, por meio da paz, da harmonia (talvez impossível) entre os homens, contra a violência pregada pelos herdeiros do Iluminismo. Por isso sou contrário ao ateísmo militante, contra a pregação de que é possível mudar a “natureza” dos homens pela força, pela planificação, pela ciência. Como escreveu o bardo britânico, há mais entre o Céu e a Terra do que imagina a nossa vã filosofia. A religião, o místico, permite-nos navegar pelo incognoscível. As religiões seculares, como o marxismo, não têm dúvidas — só certezas. Em nome do “certo” (o paraíso) fizeram o errado: mataram milhões de seres humanos. Ióssif Stálin mandou assassinar cerca de 30 milhões. Mao Tsé-tung teria mandado matar 70 milhões. Historiadores dizem que a estatística pode estar subestimada. Hitler matou milhões — só judeus foram 6 milhões. O ateísmo está na moda, especialmente por conta de um vulgarizador científico, o zoólogo inglês Richard Dawkins, com o livro “Deus — Um Delírio”, e de um vulgarizador popular, o jornalista inglês Christopher Hitchens, com a obra “Deus Não É Grande”. Ultimamente, a demonização dos religiosos e da religião tem sido criticada, em geral de forma satírica, sobretudo nas entrevistas, pelo filósofo e crítico literário britânico Terry Eagleton. Antes dele, o filósofo britânico John Gray, talvez com mais precisão mas sem perder o matiz sardônico dos ingleses, examinou as ideias de Dawkins, Hitchens (ex-trotskista), Daniel Dennet, Martin Amis, Michel Onfray e Philip Pullman (“A Bússola de Ouro”). O livro “Anatomia de John Gray — Melhores Ensaios” (Record, 515 páginas, tradução de José Gradel) contém um de seus melhores textos, “Ateísmo evangélico, cristianismo secular” (até o título é expressivo).


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POR EM 20/05/2011 ÀS 08:38 PM

O paraíso fiscal da igreja católica

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O jornalista italiano Gianluigi Nuzzi escreveu um livro, “Vaticano S.A” (Larousse, 303 páginas, tradução de Ciro Mioranza), que tende a provocar polêmica. No Brasil, ganhou um subtítulo chamativo: “O arquivo secreto que revela escândalos políticos e financeiros da maior instituição religiosa do mundo”. Trata-se, digamos assim, de “O Livro Negro do Vaticano”? Mais ou menos. O leitor desavisado pode pensar, à primeira vista, que se trata de um trabalho que tem o objetivo de demolir a Igreja Católica, em geral, ou, em particular, o (Banco do) Vaticano. Nada disso. A história é baseada no arquivo do monsenhor Renato Dardozzi, um dos homens de confiança do papa João Paulo 2º. Morto em 2003, Dardozzi deixou escrito: “Tornem públicos todos esses documentos para que todos saibam o que aconteceu”. As revelações, baseadas em mais de 4 mil documentos (alguns deles são arrolados no livro), baseia-se em elementos reunidos pela própria Santa Sé. É como se as principais autoridades do supremo poder religioso católico estivessem nos dizendo: a corrupção é dos homens, de poucos homens, mas não do Vaticano, do sistema católico. Conclui-se, pois, que Nuzzi, longe de manchar a reputação dos principais dirigentes da Igreja, contribui para limpar (parcialmente) sua imagem. Sugiro que se leia a investigação do notável repórter a partir deste comentário, e acrescento que, apesar da ressalva, a pesquisa é sensacional e mostra que o maior grupo religioso do Ocidente joga, em termos financeiros, pelas regras do mercado capitalista-liberal. A Igreja Católica é uma grande empresa religiosa e, ao mesmo tempo, econômico-financeira. Não pode ser dirigida sem dinheiro, daí o bispo americano Paul Marcinkus, secretário do Instituto Para as Obras Religiosas (IOR), mais conhecido como Banco do Vaticano, ter dito, de modo apropriado: “Pode-se viver neste mundo sem se preocupar com o dinheiro? Não se pode dirigir a Igreja com ave-marias”. Um de seus críticos poderia ressalvar: não se pode viver pregando uma coisa e fazendo outra. Apoiado pelo papa Paulo 6º, Marcinkus desenvolve uma política financeira agressiva. Em 1960, “a Igreja controla de 2% a 5% do mercado de ações”.


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POR EM 13/05/2011 ÀS 12:09 PM

Livro prova que filme O Poderoso Chefão não é ficção

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Don Michael Corleone O dinheiro da Máfia italiana pode ter origem ilegal — como propina e extorsão e o tráfico de cocaína e heroína. Mas parte do capital é lavado por empresas tidas como idôneas. Pode-se dizer que os negócios lícitos são alimentados pelos negócios ilícitos e vice-versa. Uns irrigam os outros. O filme “O Poderoso Chefão 3” (de Francis Ford Coppola) — inferior aos anteriores, mas, ainda assim, muito bom — retrata a história de Michael Corleone tentando limpar o capital e o nome de sua família. O mafioso tenta se tornar um empresário, poderoso e rico, aceito social e legalmente. Para “purificar” os negócios, cria a Fundação Vito Corleone, doa 100 milhões para obras de caridade da Igreja Católica e tenta comprar a Immobiliare. Um diretor do Banco do Vaticano diz que tem de cobrir um rombo de 700 milhões de dólares e Michael Corleone oferece 500 milhões, desde que a Immobiliare passe para seu controle. O religioso exige 600 milhões. O filho de don Vito Corleone paga, mas acaba por descobrir que foi ludibriado pelos homens do Santo Padre e que, como afirma, “a política e o crime são a mesma coisa”. A “máfia” não está apenas na máfia. Racionalista ao extremo, ao ser enganado por religiosos sagazes do mundo das finanças, o tio de Vincent Corleone (filho de Sonny Corleone), diz: “Quando pensei que estava fora eles me arrastam de volta”. Uma das figuras emblemáticas do filme é Luchesi, “um homem de dois mundos” — uma sugestão a Michael de que não há como sair dos dois mundos na área das grandes jogadas financeiras, ao contrário do que ele pensava. Pois o que parecia ficção literária e cinematográfica tem correspondência precisa na realidade. A Igreja Católica, por intermédio do Banco do Vaticano, lavou dinheiro da Máfia, pelo menos da Cosa Nostra — a milionária, violenta e vingativa organização siciliana comandada pelos chefões Salvatore Riina (mandou matar cerca de mil pessoas) e Bernardo Provenzano.


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POR EM 25/04/2011 ÀS 11:09 AM

A inclassificável obra-prima de Macedonio Fernández

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“Este vai ser o romance que mais vezes terá sido jogado com violência no chão, e outras recolhido com avidez. Que outro autor poderia se vangloriar disso?” A pergunta instiga e confunde, influenciando o leitor com a dualidade inerente de quem quer provocar e causar reações diversas. Também poderia estar facilmente na abertura desta resenha sem as aspas, como se fossem minhas as palavras de quem as escreveu, transformando o livro num consequente alvo de críticas impiedosas. A declaração nada tem de desonesta ou apelativa: com “Museu do Romance da Eterna” (266 páginas, Cosac Naify, tradução de Gênese Andrade) o leitor pode oscilar entre um caso de amor inopinado e outro de ódio gerado pelo enfado. Contudo, mais do que jogar com a sensibilidade do leitor, a forma de atingi-lo prova por si mesma seu feito artístico.
A declaração faz parte de um dos 59 prólogos do romance escrito por Macedonio Fernández, principal figura da literatura moderna argentina e influência decisiva para Jorge Luis Borges e Julio Cortázar. Cada prólogo, como que numa contagem progressiva para o romance propriamente dito, tem suas características, e todos convergem para dois pontos: o olhar metafísico de Macedonio e a teoria do romance — seu e de outros. A preparação para o romance é construída, destruída e reconstruída diversas vezes, entre teorias, filosofias, análises literárias, críticas, conversas com o leitor, colocando seus personagens como seres sencientes, ausentes ou presentes, que concordam ou discordam das decisões do autor: “pois meus personagens são todos ligeiríssimos: no instante em que deixo de escrever, eles deixam de fazer; se eu não trabalho, fica tudo parado”. Loucura? Não. Criatividade funda, experimentada, cozida, mastigada, testada para trincar os dentes mais sensíveis. O romance, tão aguardado, tão postergado, chega quando a crença nele já começava a se desfazer e então se torna lugar: uma estância de 100 hectares chamada “O Romance”, para onde vai um homem que ficou viúvo e onde moram os personagens que discutem seus papéis no valezinho de nome ambíguo. Depois de fluir continuamente por neologismos e teorias estéticas, plásticas, o autor desemboca num jogo entre personagens conscientes de seus papéis na ficção, o leitor diante desses personagens, a voz narrativa como Deus de toda a criação exposta, e entre introduções e diálogos que esbarram num caráter mais cênico, como se estivéssemos diante de uma Dogville de marionetes, conhecemos este viúvo, criador de um mundo onde a morte não existe e Eterna, sua amada esposa, pode ser, então, eternizada.
Claro que escrever o difícil e inventivo não se atreve a significar escrever de forma apática ou irrefletida. Macedonio começou a criação de “Museu do Romance da Eterna” em 1904, e por 48 anos escreveu e reescreveu até a morte esta que seria sua obra-prima, sem nunca tê-la visto publicada. “Fiz o que pude para que na cerzidura de múltiplas passagens de minha prosa romanesca, que arrasta consigo infatigáveis remendos de revisão, não se percebam as costuras; e me orgulho de confessar o que ninguém descobriria, porque se algum livro custou trabalho foi este, e creio que toda arte é trabalho, e muito árduo”, registrou o autor no prólogo 5. Mais tarde enfatiza: “Repito: pretendo fazer o primeiro romance genuinamente artístico. E também o último dos pseudorromances: o meu fará último o que o preceda, pois não se insistirá mais neles.” O autor que escreveu “abomino todo realismo” prova o quanto pode ser livre com sua criação ao mesmo tempo em que se amarra às contínuas lapidações de um texto que cresce, avoluma e deforma à medida que a vida passa e o amadurecimento estilístico, moderno e cheio de bons riscos, altera significativamente seus valores e sentidos.
Para entender Macedonio, é preciso dialogar com a possibilidade da morte e com o próprio autor já morto, através de seu olhar mais claro sobre as peças principais do romance, os personagens: “Nossos personagens são uma ‘população heterogênea’ de pretendentes, ignorados, aludidos e efetivos personagens do romance; ainda há os personagens variáveis de figuração e outros atuando com nomes diferentes. E de sobra o personagem da não existência. E há, do lado de fora, o personagem que sonha com o romance e o personagem com quem o romance sonha.”
O projeto gráfico do livro, criado por Elaine Ramos, é outro grandioso atrativo desta edição da Cosac Naify. O objeto já evoca, visualmente, toda a radicalidade da literatura de Macedonio Fernández. Como que rascunhos espalhados e aparentemente empilhados sem cuidado, as folhas não são refiladas na lateral direita e tem diferentes tamanhos; os prólogos não têm paginação e são emoldurados como quadros de aviso que antecipam a chegada do romance; capa, quarta capa e contracapas são preenchidas pelo texto do livro, além de toda a parte externa ser coberta por um papel especial permeável às marcas do tempo, sujeito ao envelhecimento, ao aspecto de manuseado, de coisa íntima, como são os manuscritos de todo escritor que preza por sua desorganização criativa.
Ler Macedonio Fernández, sobretudo “Museu do Romance da Eterna”, é ler a natureza da inventividade, da possibilidade que a linguagem, ou metalinguagem, carrega. É preciso um distanciamento, um olhar livre dos preconceitos concebidos por boa parte da literatura e pelo mercado editorial, com seus autores já embutidos em classes cheias de regras tanto estilísticas quanto comportamentais. O autor adverte: “Quero que o leitor saiba sempre que está lendo um romance, e não vendo um viver, não presenciando ‘vida’”. A despeito dessas palavras, a vida está tanto no livro quanto fora dele, assim como na leitura e na presença do leitor que, às vezes, também precisa se fazer de personagem.

Museu do Romance da Eterna“Este vai ser o romance que mais vezes terá sido jogado com violência no chão, e outras recolhido com avidez. Que outro autor poderia se vangloriar disso?” A pergunta instiga e confunde, influenciando o leitor com a dualidade inerente de quem quer provocar e causar reações diversas. Também poderia estar facilmente na abertura desta resenha sem as aspas, como se fossem minhas as palavras de quem as escreveu, transformando o livro num consequente alvo de críticas impiedosas. A declaração nada tem de desonesta ou apelativa: com “Museu do Romance da Eterna” (266 páginas, Cosac Naify, tradução de Gênese Andrade) o leitor pode oscilar entre um caso de amor inopinado e outro de ódio gerado pelo enfado. Contudo, mais do que jogar com a sensibilidade do leitor, a forma de atingi-lo prova por si mesma seu feito artístico.

A declaração faz parte de um dos 59 prólogos do romance escrito por Macedonio Fernández, principal figura da literatura moderna argentina e influência decisiva para Jorge Luis Borges e Julio Cortázar. Cada prólogo, como que numa contagem progressiva para o romance propriamente dito, tem suas características, e todos convergem para dois pontos: o olhar metafísico de Macedonio e a teoria do romance — seu e de outros. A preparação para o romance é construída, destruída e reconstruída diversas vezes, entre teorias, filosofias, análises literárias, críticas, conversas com o leitor, colocando seus personagens como seres sencientes, ausentes ou presentes, que concordam ou discordam das decisões do autor: “pois meus personagens são todos ligeiríssimos: no instante em que deixo de escrever, eles deixam de fazer; se eu não trabalho, fica tudo parado”. Loucura? Não. Criatividade funda, experimentada, cozida, mastigada, testada para trincar os dentes mais sensíveis.


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