De leitores e leituras

Já me declarei avesso à contingência de preestabelecer e repassar “programa de leitura” a cada ano que se inicia. Até me pergunto em que, a fundo, isso possa interessar e ser útil a algum leitor, leigo que seja ou letrado em matéria literária. Alguma concreta curiosidade ou real interesse quanto a isso? Quem, realmente, quer saber o que estamos lendo, ou se interessa pelo que vamos ler? E para quê quer saber? Servirá, porventura, a algum parâmetro ou nobre propósito? Constituirá, aqui e agora ou algures, alguma espécie de farol, sinal indicativo, vetor valorativo, substancial roteiro de leitura?
Faço as perguntas, mas não dou respostas. Deem-nas, a nós, que recorremos a vós, hipotéticos leitores, doutores em letras ou meros curiosos, senão amantes verdadeiros da arte literária, que deixa de ser arte quanto equivocada e desastrosa, por conta de limitações autorais ou de parco talento. De mãos dadas a vaidade e a chatice de professar-se também escritor (“Eu também escrevo”), o diletantismo sem futuro, pífia e patética obra dos equivocados, iludidos na senda pedregosa da literatura. Deles há com insistentes pedidos de prefácio para obras chinfrins, ingênuas porquanto imaturas, quando não alienadas. E se, por isso mesmo, você até se condoer deles, se sentirá mal por algo que não vale a pena. Literatura não é por aí.
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Dentro do universo literário existe um fenômeno estranhíssimo, porém constante, de escritores com alta exigência literária, e com incrível capacidade de escrita, que se negam a escrever. Ou escrevem, e publicam, algumas poucas coisas e se calam para sempre. Ou, quando não se calam para sempre, ficam décadas num silêncio literário que agonia seus leitores e que deixam os críticos cismados. Esses escritores fazem parte do grupo que sofre da síndrome de bartleby.
A excelente biografia “Darwin — A Vida de um Evolucionista Atormentado”, de Adrian Desmond e James Moore, saiu com erros e a Geração Editorial encomendou uma revisão técnica, relançou o livro e fez as trocas com os leitores. Bastava levar a edição antiga às livrarias e proceder à troca. Infelizmente, a Editora Objetiva mostra-se menos responsável e decidiu, mesmo depois de dezenas de erros apontados por intelectuais baianos — e certamente há outros equívocos —, manter em circulação o livro “A Primavera do Dragão — A Juventude de Glauber Rocha”, do escritor e produtor musical Nelson Motta. A Objetiva informa que vai lançar nova edição corrigida, mas a primeira edição, verdadeiro lixo de triste figura, vai continuar nas livrarias. Quem comprou a edição eivada de falhas terá de jogá-la fora ou vendê-la em algum sebo desavisado. Os erros foram anotados e divulgados pelo repórter Claudio Leal, da “Terra Magazine”.
Bonitinha, mas ordinária. A expressão criada por Nelson Rodrigues nunca me soou tão sensata. No país da virilha que cobre a roupa, esse mero acessório, ou tapa-sexo, ou tapa-hipocrisia, a literatura segue o mesmo caminho: expõe-se até o último pelo pubiano, perturba a atenção do leitor com sua casca porque o miolo é podre ou, pior, oco. Naturalmente, esse campo dilemático do que é bom ou ruim, o quanto de consciência e inconsciência de si existe numa criação artística, não se encerra na literatura brasileira; ele é tão minado, perigoso, decisivo como a escolha de uma palavra, quanto a superestima de alguns escritores sobre seu próprio trabalho e se espalha insidiosamente como uma erva daninha pela literatura mundial. Todos podem escrever, alguns talentosos e/ou afortunados podem ser publicados, mas quantos são realmente bons? E como encontrá-los, quando são diamantes miúdos perdidos em pedras de carvão do tamanho da inépcia cultural de quem se considera escritor porque (acha que) sabe contar uma história? De quem se considera escritor porque monta uma cadeia de frases mal-escritas publicadas tão somente pela condescendência de um amigo influente? Depois de organizar e publicar duas controversas coletâneas de contos da chamada “Geração 90”, o mesmo grupo que surgiu fazendo “a nova literatura brasileira” na última década do século XX, o escritor (ou agitador de opiniões) Nelson de Oliveira acaba de fechar a trilogia de ficcionistas nacionais com o recente volume “Geração Zero Zero” (Língua Geral, 408 páginas).
O livro “A Maldição de Edgar” (Record, 396 páginas), de Marc Dugain, apresenta a versão de que o presidente americano John Kennedy foi assassinado por um complô que envolveu a CIA, exilados anticastristas e a Máfia. “Lee Harvey Oswald, preso e executado em Dallas, nunca matou Kennedy. Nunca participou ativamente de sua eliminação física. Esse cara estava sendo preparado como cobertura há longos meses”, escreve Dugain, baseado em supostos documentos deixados por Clyde Tolson, o segundo homem do FBI e amante de J. Edgar Hoover (o escritor Truman Capote a dupla de “Johnny and Clyde”). O FBI sabia que havia uma conspirata para matar Kennedy, mas nada fez, porque Hoover, além de considerar o presidente degenerado e fraco, não o tolerava porque tentou retirá-lo do comando da polícia federal norte-americana. Dugain afirma que o objetivo maior era reduzir a força de Bob Kennedy, o secretário (ministro) de Justiça de John, depois, em 1968, também assassinado.
José Saramago é do tipo que se alguém perguntar “você gosta de Saramago?”, as respostas serão dividas entre “Claro, ele é genial, um dos maiores escritores que eu já li na minha vida” e “Óbvio que não, comunista, ateu, sou mais o Lobo Antunes”. Não pertenço a nenhum dos dois grupos. Faço parte de um terceiro, bem raro, dos leitores que procuram a sensatez (sem modéstia alguma). Os que não gostam da obra de Saramago quase sempre alegam os mesmos motivos, ou usam argumentos assemelhados: não tenho como gostar de um escritor irregular, que apoiava ditaduras, que foi forjado por intelectuais de esquerda, que só ganhou o Nobel por causa de pressão e todo aquele blá, blá corriqueiro. Tenho percebido que na maioria das vezes, os que se dizem anti-saramaguianos usam os clássicos argumentos ad hominem para descredibilizar a obra. Acho isso de uma baixeza terrível, idiossincrasia de pessoa pretensamente cult. Mas se um leitor de bom senso for analisar o conjunto da obra do escritor lusitano, vai chegar a conclusões altamente positivas.
Caro Sammy,
Alberto Manguel é um crítico da estirpe de Harold Bloom, talvez com uma paixão menos militante. Embora conheça as principais teorias literárias, prefere, como Bloom, ler diretamente os livros que comenta. Há analistas que sabem tudo o que disseram teóricos e críticos mas não são leitores devotados de literatura. Pode-se dizer que alguns comentários de Manguel, argentino radicado na França e ex-secretário de Jorge Luis Borges (lia para o escritor portenho), são superficiais, mas quase sempre são deliciosos e, não raro, detalhistas. Seus artigos para o excelente suplemento literário “Babélia”, do “El País”, contêm novidades sobre o mundo literário, mesmo quando explora assuntos batidos. Na edição de 20 de agosto, escreveu uma resenha, “Em busca do sucesso por meio de um romance vergonhoso”, sobre o escritor e professor universitário norte-americano Percival Everett, de 55 anos. Não adianta procurar suas obras nas livrarias e sebos brasileiros (o Estante Virtual vende uma obra em inglês). No site da Livraria Cultura, de São Paulo, o leitor pode encomendar seus romances, mas em inglês. Companhia das Letras, Cosac Naify e Record não publicaram um livro de sua autoria. Na Casa del Libro, de Madri, é encontrado apenas um romance: “X” (Blackie Books, 358 páginas), recém-lançado na Espanha (em inglês pode ser encontrado o mesmo livro, com o título de “Erasure”). A Livraria Bertrand, de Portugal, vende cinco livros do autor — nenhum em português. Everett é um escritor desconhecido, exceto dos acadêmicos e daqueles que leem quase tudo, como Manguel. Na sua resenha, Manguel faz primeiro uma denúncia e, em seguida, a crítica literária.