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POR EM 28/06/2008 ÀS 07:39 PM

As fraquezas do criacionismo

publicado em

Cientistas estão sempre testando as forças e fraquezas de suas hipóteses. Esta é a natureza mesma de sua empreitada. Mas a evolução já não é mais uma hipótese. É uma teoria rigorosamente baseada em evidências abundantes


De agora em diante, por algum tempo, este espaço será dedicado a traduções [eventualmente comentadas] de textos que eu procurarei garimpar na net. Esta primeira diz respeito à incrível insistência da turma religiosa dos EUA em forçar, goela abaixo de estudantes, a teoria criacionista. É um editorial do The New York Times de sábado último. 
Link pro original.  

Quando o assunto é ciência, criacionistas tendem a lutar contra a realidade. Eles acreditam que a evolução por seleção natural é falsa e que a Terra tem apenas alguns poucos milhares de anos.
 
Acreditam também que os estudantes que aprendem uma visão criacionista da biologia – ou que aprendem a desconsiderar a visão darwinista – não estarão em desvantagem.

A comissão de educação do estado do Texas [estado da família Bush!!] está novamente considerando adotar um currículo de Ciências que ensina “forças e fraquezas” da evolução, estabelecendo um exemplo que vários outros estados podem vir a seguir. É a senha para ensinar criacionismo.

Tem a vantagem de soar mais equilibrado do que ensinar “design inteligente”, que as cortes têm banido consistentemente das aulas de ciências. Mas tem a desvantagem de ser um absurdo.

 O presidente da comissão, um dentista chamado Don McLeroy, advoga a abordagem das “forças e fraquezas”, assim como a quase maioria da comissão. O sistema acomoda o que o Dr. McLeroy chama de “dois sistemas de ciência, criacionista e naturalista”.

O problema é que um sistema de ciência criacionista não é ciência de forma alguma. Toda ciência é “naturalista”, na medida em que tenta compreender as leis da natureza e as características do universo em seus próprios termos, sem referência a um criador divino. Todo estudante que entender a realidade científica da vida precisará, mais cedo ou mais tarde, aceitar a verdade elegante da evolução, como ela própria evoluiu desde que foi postulada por Darwin. Se a visão criacionista prevalecer no Texas, os estudantes interessados em aprender como a ciência realmente funciona, e o que os cientistas realmente compreendem sobre a vida, terão primeiro que superar essa falha em sua educação.

Cientistas estão sempre testando as forças e fraquezas de suas hipóteses. Esta é a natureza mesma de sua empreitada. Mas a evolução já não é mais uma hipótese. É uma teoria rigorosamente baseada em evidências abundantes. As fraquezas que os criacionistas pretendem ensinar, como uma forma de refutar a evolução são elas próprias antiquadas, já há muito resolvidas. A fé religiosa por detrás do criacionismo tem seu lugar, em igrejas e cursos de estudos sociais. A ciência pertence às aulas de ciências.
 
[Ao leitor da Bula cuja fé religiosa é inabalável: Não se trata de questionar a existência de Deus. A evolução não é incompatível com Ele. Trata-se de refutar um delírio criado pelos homens que escreveram as bobagens do Velho Testamento.]

 

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POR EM 28/06/2008 ÀS 07:39 PM

A vingança dos Nerds

publicado em

Se maio de 68 dá a impressão de que a França se tornara um ringue no qual se enfrentavam o general De Gaulle e o anarquista Daniel Cohn-Bendit, três meses antes tínhamos a impressão de que o jogo era disputado entre De Gaulle e Langlois

Compreensivelmente, é pouco lembrado que um grupo de alguns milhares de cinéfilos formaram a vanguarda dos célebres distúrbios urbanos ocorridos em Paris, em maio de 1968. Considerando as imensas dimensões alcançadas pelo movimento, que chegou a englobar protestos contra a Guerra do Vietnã, pelos direitos das minorias, apoio às ditaduras socialistas de então e coisas do gênero, é ainda mais compreensível que convenientemente tenha caído no esquecimento o fato de que essa vanguarda não protestava contra o imperialismo cultural estadunidense. Pelo contrário, eles costumavam idolatrar sua produção cultural de massa. Cultuavam nomes como John Ford e Jerry Lewis, respectivamente o rei do faroeste e o rei da comédia maluca, dois gêneros essencialmente norte-americanos. Com o passar do tempo, Ford e Lewis converteram-se em clássicos acima de qualquer suspeita, porém, na época, mesmo nos Estados Unidos, não eram considerados mais do que entretenimento de fim de semana. 

Os franceses foram os primeiros a defender seriamente o cinema como arte de primeira grandeza. Um dos principais mentores desta concepção foi Henri Langlois, fundador da Cinemateca Francesa, que funcionava no porão do Palácio de Chaillot, em Paris. Toda uma geração de cinéfilos foi formada na cinemateca, recebendo influência direta de Langlois. Na década de 1950, alguns de seus pupilos passaram a escrever críticas na revista Cahiers du Cinéma e, posteriormente, tornaram-se cineastas, fundando o movimento da Nouvelle Vague. Destacaram-se no grupo François Truffaut, Claude Chabrol e Jean-Luc Godard.
 
Apesar de Godard ser mais celebrado, é provável que o mais preparado intelectualmente tenha sido Truffaut. Em 1982, ele escreveu o prefácio do livro L’Homme de la Cinemathèque, de Richard Roud, biografia de Langlois. Grande ensaísta e polemista virulento, Truffaut não se limitou a fazer apologia do biografado. Em momento algum demonstrou ressentimento, sendo inclusive simpático ao personagem, mas não pôde se furtar de traçar um perfil cru de Langlois. Descreveu-o como um tipo egocêntrico, supersticioso, vingativo e manipulador. Para Truffaut, “quando um velho amigo ou colaborador de Langlois deixava de lhe dar seu apoio ‘incondicional’, Henri, incapaz de aceitar a menor nuance numa amizade ou colaboração, logo o classificava entre seus inimigos, ao mesmo tempo em que continuava a falar dele sem ódio e dando quase sempre a mesma explicação: ‘essa briga é completamente normal, X sempre me viu como um pai e agora sente necessidade de matar o pai’”. Enfim, um francês típico, segundo o estereótipo. Mas, fosse como fosse, esse homem de difícil trato foi o marco zero de maio de 68.
 
A Cinemateca Francesa era patrocinada pelo governo. O velho general De Gaulle não via com bons olhos as excentricidades de seu administrador. Agravava a situação o fato dele realizar uma gestão incontestavelmente incompetente. Amante inveterado do cinema, Langlois não conseguia conceber seu trabalho como um serviço público. Via-o como o exercício de uma paixão pessoal. Tratava a Cinemateca Francesa como se fosse sua casa e os funcionários como seus empregados. Mas, obviamente, uma paixão pessoal não pode ser paga pelos contribuintes, nem aqui nem na França. Desentendimentos com alguns funcionários serviram de justificativa para sua demissão. Os círculos culturais franceses receberam a notícia como uma demonstração gratuita de autoritarismo por parte de De Gaulle.
 
Em 15 de fevereiro de 1968, cerca de três mil pessoas foram protestar em frente ao palácio Chaillot. Marcaram presença nomes importantes do cinema francês, como Michel Piccoli, Jean-Paul Belmondo Alain Resnais, Barbet Schroeder, Jean-Pierre Kalfon e Jean-Pierre Léaud. No Making Of do filme Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, que reproduz esse episódio, vemos o depoimento de Gilbert Adair, contando como os protestos se tornaram inesperadamente violentos: “foi incrível. Todos esses tipos certinhos, que eram os cinéfilos, seguravam cartazes que diziam ‘fims, pás flics’, ‘filmes, não tiras’, de repente havia esses robôs, esses caras com máscaras e cassetetes, armamento de choque e armas de impacto, e de repente atacaram”. Nerds que até recentemente só se preocupavam em discutir se Buster Keaton era mais engraçado do que Chaplin, começaram a jogar paus e pedras em autoridades policiais, bater a apanhar. Nos dias, semanas e meses que se seguiram, esparsamente de fevereiro a maio, às manifestações cresceram em tamanho e ferocidade. Não havia mais apenas cinéfilos e artistas de cinema no centro da ação. Todos os tipos de pessoas aderiram, incluindo estudantes da Sorbonne, desocupados dispostos a extravasar sua raiva e intelectuais de peso, como Sartre e Simone de Beauvoir. Os paus e pedras foram substituídos por coquetel molotov.
 
Significativamente, foi um dos principais cineastas da época quem melhor demonstrou a ironia da situação. Pier Paolo Pasolini, assim que soube das manifestações, publicou um poema no qual denunciava os estudantes burgueses que agrediam os representantes do proletariado que tinham como meio de sobrevivência vender sua força de trabalho servindo como policiais. A patrulha ideológica da esquerda européia condenou Pasolini. O cineasta, que naquele ano lançou Teorema, sua obra-prima de contestação à hipocrisia burguesa, não se importou muito. Ao mesmo tempo comunista, católico e homossexual, Pasolini estava mais do que acostumado com situações contraditórias.
 
Mas Pasolini tinha razão. De lado a lado, a violência tornou-se o mote principal das manifestações. O efeito suplantou a causa. A truculência da polícia contra manifestantes que, inicialmente, só queriam fazer barulho foi excessiva. Do mesmo modo, a violência latente dos manifestantes é inegável. Remetia a um desejo nostálgico de reviver a Comuna de Paris em pleno século XX. O fato é que, independentemente da pancadaria injustificável, a Revolução dos Costumes já estava em curso e era inevitável. Os Beatles já tinham fumado maconha dentro do Palácio de Buckingham. Para ver a Revolução Sexual em pleno curso bastava ir assistir uma aventura do agente 007 no cinema. O festival de Woodstock aconteceria no ano seguinte de qualquer modo. Afinal, quem precisa dos franceses para fazer rock?
 
Mas, depois de tudo, o que houve com Henri Langlois? Durante as manifestações, segundo Truffaut, “passava o tempo consultando as cartas ou indo a videntes, únicos capazes, segundo ele, de predizer o futuro da Cinemateca”. No mundo real, não foram as cartas de tarô que decidiram o futuro da instituição. Foram às centenas de cartas enviadas a Cahiers du Cinéma pelos mais diversos cineastas, de Rosselini a Kurosawa, ameaçando retirar seus filmes da Cinemateca Francesa, que fizerem De Gaulle ceder. Langlois foi readmitido. Permaneceu no trono até morrer, em 1976.
 
Em retrospectiva, Truffaut, um dos mais ativos aliados de Langlois durante a crise, observa que talvez os burocratas do governo francês não estivessem errados. Langlois era uma figura canônica e colocar-se contra ele exigia coragem. Em muitos quesitos, seus defeitos prevaleciam sobre suas qualidades. É provável que os filmes estivessem mais seguros em outras mãos. Mãos menos apaixonadas e mais profissionais. Mas, em 68, venceu a paixão. Truffaut admite que “devemos ter sido peremptórios, odiosos e um pouco terroristas, pois a militância, consciente ou não, não raro comporta boa dose de má-fé”.

 

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POR EM 28/06/2008 ÀS 07:37 PM

Profissão: escritor

publicado em
Não é de hoje que se discute a literatura como profissão propriamente dita, que se converteria em fonte de renda e uma aposentadoria futura. O mito da inspiração, da genialidade que brota intuitivamente, já entrou em decadência há bastante tempo
 

Jonas Lopes
Publicado originalmente no Gymnopedies

Escritores registrados e com carteira assinada podem parecer um absurdo, produtos de uma atribulada trama de ficção científica, mas não estão muito longe de surgir às pencas Brasil afora. Está tramitando na Câmara um projeto de lei do deputado federal Antonio Carlos Pannunzio (PSDB-SP) que prevê a regulamentação da profissão do escritor. O projeto, registrado com o número 4641/98, foi aprovado na Comissão de Educação e Cultura da Câmara e, cerca de um mês atrás, rejeitado na Comissão de Trabalho, sob a alegação de que não existe uma profissão reconhecível de escritor. Agora deve ser encaminhado para a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania. Li o texto de Pannunzio, que é bem curto (é possível fazer o download
aqui), e pedi, por e-mail, a três escritores brasileiros importantes que o comentassem: Milton Hatoum (Órfãos do Eldorado, Companhia das Letras), Sérgio Rodrigues (As Sementes de Flowerville, Objetiva) eAntonio Fernando Borges (Memorial de Buenos Aires, Companhia das Letras). 

Sérgio Rodrigues diz que não sabe o que os “escritores de verdade” têm a ganhar com isso. “O que pseudo-escritores ganhariam, por outro lado, é bastante claro: ganhariam um crachá, um carimbo, um passaporte para privilégios, cargos, posições”, afirma. A lei de Pannunzio, além dos escritores de literatura propriamente dita, abarca aqueles que publicam regularmente artigos de natureza literária ou científica, além de tradutores de obras literárias ou científicas. E, mais polêmico, diz o projeto que é escritor quem "seja autor de trabalho literário ou científico, mesmo inédito, que haja merecido prêmio ou menção honrosa em concurso promovido de forma pública". Milton Hatoum não concorda com a abrangência da lei. “Há escritores e escritores. Nem todos os autores de livros são escritores. Livros de auto-ajuda nada têm a ver com literatura”. Irônico, Antonio Fernando Borges exemplifica: “Um estivador de cais e um halterofilista também vivem carregando seus ‘pesos’ e ninguém tentou rotulá-los e enfiá-los num mesmo saco”.
 

Não é de hoje que se discute a literatura como profissão propriamente dita, que se converteria em fonte de renda e uma aposentadoria futura. O mito da inspiração, da genialidade que brota intuitivamente, já entrou em decadência há bastante tempo. “Tenho certeza de que, para escrever num nível estético elevado, a menos que você seja o Rimbaud, é preciso mourejar mesmo, trabalhar feito um louco”, declara Rodrigues. Pois os três autores não se deixam levar pelo romantismo: defendem e ressaltam, sim, o trabalho necessário para criar um texto literário de qualidade; apenas discordam que ele precise ser registrado, tanto que todos têm ou tiveram trabalhos paralelos à escrita – Antonio tem dado cursos, Sérgio é jornalista e Milton foi professor universitário até não muito tempo atrás –, e todos buscam maneiras alternativas de viver da literatura (através de palestras, participando de debates etc). “Não me sinto um profissional da literatura”, diz Hatoum, “mesmo porque uma pessoa pode publicar apenas um livro e ser, de fato, um grande escritor. Só me dediquei inteiramente à literatura aos 48 anos de idade”. Para Sérgio, “alguns dos maiores entre nós são – e fazem questão de continuar sendo – amadores radicais”.

O projeto de lei prevê diversos deveres e direitos dos escritores, a maior parte deles básicos e óbvios, como o direito de proibir a republicação de textos ou “impedir a distribuição ou comercialização da sua obra” devido a “incidentes que lhe (...) prejudiquem o renome ou direito moral”. Há, entretanto, um artigo inusitado, que prevê a isenção de qualquer tributação a prêmios literários (e eles pagam cada vez melhor, vide o Portugal Telecom e o recente Prêmio São Paulo). O autor de As Sementes de Flowerville e do blog
Todoprosa vê nisso uma vantagem, “mas uma vantagem descabida, um privilégio injustificável”. Borges diz que o “controle social anda de mãos dadas, no Estado moderno, com a arrecadação progressiva e sufocante de impostos”.

Ainda quanto à essência governamental que possa existir no projeto, Rodrigues enxerga nele a “sanha reguladora e cartorial que é um traço marcante da cultura brasileira”, enquanto Borges reclama que “sob a capa do benefício social, o Estado vai cerceando as liberdades individuais”. Hatoum encerra a discussão: “não gosto de nenhum tipo de tutela”.
 
 

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POR EM 22/06/2008 ÀS 05:56 PM

Hagiografias

publicado em

À santificação ou execração da geração de 1970 se sucederiam outras. E mesmo o presente mais imediato passou a ter hagiógrafos à disposição


Flora Süssekind
O Globo Blogs

Talvez caiba uma observação sobre o título deste ensaio. Pois se o objeto fundamental de reflexão aqui é a obra de
Paulo Leminski
, em particular as diversas formas hagiográficas que foram trabalhadas por ele, tantos santos e referências sacras podem conduzir ao mesmo tempo a uma indagação sobre o exercício contemporâneo da crítica de cultura no Brasil. Não se trata, porém, de observação que diga respeito exclusivamente à cultura literária. Ao contrário, procurando detectar essas hagiografias num campo mais vasto, não é difícil, pensando, sobretudo, no panorama cultural recente, encontrá-las em diversas outras áreas.
Na crítica contemporânea de música popular, por exemplo. No modo como tem tratado, em especial, Chico Science, Ca­zuza, Cássia Eller, Renato Russo, convertidos, em geral, em quase mártires. Uma conversão que pode chegar por vezes a resultados reconfortantes como a ressurreição, quase trinta anos depois, de um grupo musical com formação quase idên­tica à original. Foi o que aconteceu com Os Mutantes em 2006, que, ressurectos, apareceram, como numa espécie de fantasmagoria sonora, tocando o repertório dos seus discos do tempo da Tropicália. Passando ao terreno das artes vi­suais, alguns de seus objetos de santificação são também de fácil detecção. Como Jorge Guinle Filho, Márcia X e Leonilson, na geração de artistas que se afirmou nos anos 1980. Na vida teatral brasileira, há, igualmente, um lamento persistente pela atriz Isabel Ribeiro, pelos atores Chiquinho Brandão e Felipe Pinheiro, pelo ator, performer e professor Luiz Roberto Galizia e pelos encenadores Márcio Vianna e Luiz Antô­nio Martinez Corrêa, para ficar em alguns exemplos apenas. Nada, porém, que alcance o grau de mitificação que envolve os mortos da área de música popular. Também no campo cine­matográfico, há algo semelhante quando o luto pela morte prematura de Glauber Rocha, Leon Hirszman ou Joaquim Pedro de Andrade, lembrando três nomes de importância incontestável, se transforma em barreira analítica. O mesmo acontecendo, no domínio das artes plásticas, com muito do que se tem escrito sobre Hélio Oiticica ou Lygia Clark. Ou em tentativas anacronizantes de recriação tal qual, fora de contexto, de obras, proposições ou formas de interação sugeridas pelo trabalho dos dois.

Privilegiei de propósito exemplos de vida breve, mortes pre­maturas, por vezes trágicas, pois este costuma ser fator preponderante nesses processos de canonização. O que se torna particularmente evidente quando se observa a fortuna crítica de escritores como Mário Faustino, Torquato Neto, Ana Cristina Cesar, Antônio Carlos de Brito (Cacaso), Paulo Leminski ou Caio Fernando Abreu. Não é perceptível somente uma dominância biográfica na bibliografia referente a esses autores. Há a construção freqüente (mesmo quando se produzem hagiografias malditas) de algo próximo às histórias de santos quando se toma qualquer um deles como objeto de estudo. São vidas impregnadas, a posteriori, de intencionalidade, são destinos nos quais se enxerga, nos mínimos detalhes, a marca da excepcionalidade (lembre-se a ligação telefônica errada, sempre citada, na qual uma vi­dente teria previsto a morte de Faustino). Eleitos cujas obras são vistas como de eleitos também. Nesse sentido a perspectiva crítica parece se deixar contaminar quase sempre por esse dado hagiolátrico inicial. O que é no mínimo desconfortável. E pode por vezes sugerir a reação inversa – a desconfiança de que só pode haver algo errado aí. O que é que permite a eles serem vistos como tão exemplares? Ainda mais quando se percebe que já há mais de uma geração de críticos ocupados na construção dessas hagiografias (precocemente nostálgicas) do tempo presente ou do passado recente.

Pois se o processo de canonização foi iniciado pelos contemporâneos imediatos desses autores, ele seria reforçado significativamente por uma parcela dos que vieram depois. O altar parecendo tomar, para os mais novos, o lugar de projetos próprios, de “motivos para quê” mais definidos. Leminski tinha o seu “anjo da vanguarda”, Cacaso retrabalhava, com a atenção voltada para o cotidiano em tempos de ditadura, o lirismo de Bandeira e o humor do poema-minuto modernista, Ana Cristina enformou essas tensões entre expressividade e rigor em micro-enredos, ficções biográficas e numa poesia-em-vozes, de ritmo e foco intencionalmente deambulatórios. Diante da situação hodierna de retorno estético ao poema-bem-feito, a um uso acrítico da métrica (lembre-se o dito oposto de Leminski: “O ritmo, não o metro”), a uma compreensão da poesia como demonstração de habilidade artesanal, não é de estranhar o recurso a esses mitos recentes como forma de resistência a uma atrofia de perspectivas. Uma resistência que, no entanto, não pode deixar de perder poder de fogo ao assumir aspecto estritamente hagiolátrico.

À santificação ou execração da geração de 1970 se sucederiam outras. E mesmo o presente mais imediato passou a ter hagiógrafos à disposição. Não há pré-requisitos unânimes agora, porém. Podem ser privilegiados traços estilísticos, comportamentais, regionais, políticos. Formas diversas de vitimização costumam interessar. Qualquer que seja ela, aliás, o importante é que o crítico se torne o garçon d’honneur de certo autor ou do grupo a que este se acha vinculado. Desde que caiba a este crítico a função de sumo sacerdote desse culto. De guardião de obras já reconhecidas a descobridor de talentos, de editor todo-poderoso a decifrador conclusivo das referências e dos significados mais secretos do texto que estiver em pauta. Mesmo que para isso deva abandonar de vez a crítica, tornando-se o divulgador de um autor individual (vivo ou morto), de uma inteira região, uma tendência, um lugar social, um grupo editorial ou uma faixa geracional ou migratória específica.
 
Questão de hora e lugar
 
Ana Cristina Cesar, Paulo Leminski e Cacaso, com todas as suas diferenças, se tornariam exemplares em meio às legendas áureas dos anos 1970. Uma verdadeira Santíssima Trindade. Internamente conflitante, porém. Basta lembrar do lamento de Leminski, depois de abandonar, de repente, um debate sobre poesia promovido pela revista Isto é, no qual, dentre outros escritores, estava presente Cacaso. Além de reclamar do “baixo nível da discussão” e bater em retirada, ainda acrescentaria depois, com endereço certo: “Nenhum lance de dados abolirá o Cacaso”. A morte, no entanto, parece tê-los auratizado e transformado (com diferentes graus de adoração, porém) em objeto de culto. Desse modo, talvez se pudesse transferir para o trio díspar a indagação de Roman Jakobson, depois do suicídio do poeta, sobre Maiakóvski: “Como escrever sobre sua poesia agora, quando a tônica já não é mais o ritmo, mas a morte do poeta, quando (...) a “tristeza aguda” não quer mais se transformar em “dor clara e consciente”?

Às vezes, contudo, nem se precisa de um desaparecimento trágico para chegar à canonização. As exigências para uma rápida santificação literária têm deixado de lado, nas últimas décadas, a experiência do luto e a lista de autores de classe média mortos antes do tempo. A auréola vem passando para autores cuja pobreza, exclusão social ou vinculação a espaço periférico justifique a priori tal operação. E produza, no mesmo processo, uma certidão pública de reconhecimento do agente intelectual de sua canonização. Mudam os santos, mantém-se, porém, lógica hagiográfica semelhante. E de efeito duplo: a santificação e a “tristeza aguda” de um são garantia de alcance para a voz do outro, do hagiólogo.
 
Quanto a Antônio Carlos de Brito, sua morte precoce, em 1987, foi de causa natural, um infarto do miocárdio. O que não barrou a nota quase hagiográfica nos textos de balanço de sua atuação. “Que anjos e pedrarias/ para erguer um altar?”, se poderia perguntar ecoando o poeta no seu “Madrigal para Cecília Meireles”. Lembre-se, nessa linha, no Jornal do Brasil, para ficar em comentários muito citados, o obituário assinado por Wilson Coutinho, texto significativamente intitulado “O som de um anjo”: “Aos 43 anos, Cacaso conservava o rosto juvenil, redondo, mantendo ainda os cabelos longos, a barba por fazer e as sandálias de couro”. Descrição cuja ênfase no despojamento de cunho angelical, na figura meio franciscana e num aspecto juvenil, atemporal, encontraria correspondência crítica em “Pensando em Cacaso”, nota de Roberto Schwarz publicada na revista Novos Estudos Cebrap n. 22, de outubro de 1988, na qual chama a atenção, dentre outros aspectos, para as sandálias usadas com meias, os óculos de John Lennon, a sacola de couro, o paletó sobre camiseta, portados regularmente pelo poeta, que vão se associando, ao longo do texto, a um forte apego à infância (“a vida pra sempre colecionada no álbum de figurinhas”), a “certa informalidade de menino” e a um desejo persistente de “liberdade de espírito”.

Prefigurações dessa angelografia já se acham disseminadas em momentos diversos da obra poética de Cacaso, nas quais ecoam tanto o anjo torto drummondiano quantos os muitos anjos de Manuel Bandeira. E isso já desde os poemas dos anos 1960, alguns anteriores até ao seu primeiro livro. Como “Confidência a Vila Rica”, de 1963: “Vou ser um anjo de gravata / num dia de quarta feira”. Em “Banquete”, de 1966, texto incluído em A palavra cerzida, há o seguinte trecho: “(...) Um anjo me atravessa: sou Deus / e me reparto / na gravidade desta mesa: // Meus dias cegos no tempo”. Em “Poemas brancos”, da mesma época, o anjo, dotado de poderes verdadeiramente demoníacos, se mostraria capaz de transportar, de fato, o sujeito de volta ao passado: “Ó anjo anunciador, levai-me ao passado / onde desmancharei a vida futura, onde serei sinistro como / o coito / dos girassóis”.

Em “Cinema mudo”, do livro Grupo escolar, já do começo da década de 1970, há, dentro do poema, um pequeníssimo auto-retrato do poeta como querubim: “Livre na sua memória escolho a forma / que mais me convém: querubim / gaivotas blindadas / suave o tempo suspende a engrenagem”. Angelização recorrente que seria convertida, numa de suas letras mais conhecidas, em eixo exemplar para a exposição da lógica dual, da oposição entre dentro e fora, passado e presente, que parecem acompanhar essas autofigurações e a constituição da perspectiva lírica em seus poemas. Cito, então, apenas para rememoração, um trecho da canção “Dentro de mim mora um anjo”, parceria de Cacaso com Suely Costa: “(...) Dentro de mim mora um anjo / montado sobre um cavalo / que ele sangra de espora / ele é meu lado de dentro / eu sou seu lado de fora / Quem me vê assim cantando / não sabe nada de mim (...)”.

As aparições de anjos podem por vezes ganhar, em sua obra, aspecto francamente brincalhão. Como muitas das referências prosaizadoras do poeta a aspectos da cultura religiosa. Para mencionar apenas algumas delas, dentre as que já se encontram expressas em títulos de poemas, lembre-se de “Santa Ceia”, “Juízo Final”, “A palavra do Senhor”, “Dente por dente”, “Arca de Noé”, “Vacas magras”. Mas há outras manipulações, mais alegorizantes, dessa religiosidade. É o que acontece em “Jogos florais I”, onde um milagre de Cristo é acoplado ao desenvolvimentismo e ao “milagre econômico” do período militar. Aí a água nem chega a virar vinho, já passando direto ao vinagre. O novo milagre, queimando etapas, ainda mostra poder transformador. Nele, porém, a mudança é para pior: “Ficou moderno o Brasil / ficou moderno o milagre: / a água já não vira vinho, / vira direto vinagre”.

Por vezes a politização é praticamente instantânea. Vide “Obra aberta”: “Quando eu era criancinha / O anjo bom me protegia / Contra os golpes de ar. /Como conviver agora com / Os golpes? Militar?”. Neste caso, a referência ao anjo se faz presente apenas para que se restrinja de imediato a sua capacidade de proteção. Pois, se eficazes contra os golpes de ar, agora que se trata de outro tipo de golpe, de um golpe militar, parecem ficar sem função. E, em vez de escudos de proteção, sugere-se, via homofonia, a hipótese de um confronto direto: de alguma forma de militância. Resposta diversa, intencionalmente nada heróica, daria Paulo Leminski numa de suas “ideolágrimas”: “casa com cachorro brabo / meu anjo da guarda / abana o rabo”. É interessante registrar, porém, que, com maior ou menor auto-ironia, via cooptação (“abana o rabo”) ou potencial resistência (“Militar?”), essa angelização aponta nos dois casos, sem maiores disfarces, para os impasses da vida cultural no contexto brasileiro do período dos governos militares. Quase como se não fosse mesmo possível existir intelectualmente naquele momento sem, de algum modo, incorporar modelos hagiográficos, sem uma simpatia explícita pelos mártires e santos, pelas experiências corporais dolorosas, a ponto de se mostrarem por vezes imperiosas as invasões de monstros e anjos nas obras, além de recorrentes as figurações sacras ou martirológios do artista.

Não é à toa, então, diante dessa situação de impotência (golpes, cachorros brabos), que se passe de um anjo bom, agora inútil, a um outro, maligno, ameaçador. “Um diabo habita o branco do olho da página”, avisa-se em “Sortes e cortes”, de Paulo Leminski. “Ainda hoje confio na chegada do capeta”, anuncia-se no último verso de “Desencontro marcado”, de Cacaso, texto já dos anos 1980, sobre uma visita satânica aguardada e temida por uma “consciência infantil” tão cheia de culpas que parecia “tocar trombeta” na escuridão. Já numa canção como “Se porém fosse portanto”, parceria de Cacaso com Francis Hime, o tom sacro se ameniza e um santo vai puxando outro, numa cadeia de impossíveis “se”: “se pudim fosse polenta / se São Bento fosse santo / dona Benta fosse benta / e o capeta sacrossanto / se a dezena fosse um cento / se cutia fosse anta / se São Bento fosse bento / e dona Benta fosse santa”. E há, ainda, o “São Tancredo” do lamento em homenagem a Tancredo Neves, cuja morte, sem chegar a ser empossado o primeiro presidente civil do país desde o Golpe de 1964, provocaria imensa comoção, e uma sucessão de elegias fúnebres de todo tipo.
 
Um Presidente Doutor / Nosso Doutor Presidente / Seu dia consagrador / É dia de grande ausente”, conta o poema “Presidente” de Cacaso. Nele o poeta se exercita como hagiógrafo e transforma o “Tancredo Tancredinho Tancredão”, do começo do lamento fúnebre, no “São Tancredo/ De São João”. Exercício que, com contornos menos grandiosos, estaria presente no poema sobre a morte de Renato Landim (“Uma desgraça pelada/ um toque de serafim?”), incluído em Mar de Mineiro, de 1982, e na canção “Surdina”, feita em parceria com Maurício Tapajós.Nela há um canto funéreo, em forma de lista, que vai do pianista Francisco Tenório Jr., desaparecido na Argentina em 1976, a Elis Regina, morta em 1982, Vinícius de Moraes, morto em 1980, Clara Nunes e Ana Cristina Cesar, as duas últimas falecidas em 1983, cabendo aí à morte reunir “a melhor prata da casa / o ouro melhor da mina”, e afinar “o coro que desafina”.

“Se desse tempo eu falava / do salto da Ana Cristina”: é assim que se encerra “Surdina”, incluindo na lista lutuosa o suicídio da poeta. E sublinhando, assim sem falar, essa morte. A morte sublinhando, por sua vez, a “melhor prata”, o “melhor ouro”. O que parece prefigurar o sentido de boa parte das leituras estritamente biográficas da obra de Ana Cristina Cesar, nas quais a morte prematura vira critério valorativo e se projeta sobre seus mais ínfimos aspectos, quase pré-determinando uma linha lutuosa de apreciação. Talvez valesse a pena verificar, nesse sentido, quantos dos artigos e das teses sobre a sua poesia contêm suicídio, salto, melancolia, paixão, morte ou expressões semelhantes já no título, indicando inequívoca preferência por uma patologização temática.
 
Pois no caso da morte de Leminski e Ana Cristina, houve (de modo distinto, é claro) intencionalidade. Houve o suicídio de Ana, em 1983, e a morte de Leminski, por cirrose hepática, em 1989, apressada por sua dificuldade em manter a abstinência alcoólica. Escolhas que, de fato, ajudaram a referendar certo martirológio como modo favorito de leitura da vida e da obra dos dois. Uma dor mais secreta, no caso de Ana. E uma agonia pública, no de Leminski. Apesar de um texto como “Malditos, marginais, hereges”, por exemplo, funcionar como recusa antecipada desse tipo de hagiografia por parte de Ana Cristina Cesar, sua morte voluntária seria invocada, de modo recorrente, como chave oposta e preferencial de leitura. “As dádivas dos anjos são inaproveitáveis: / Os anjos não compreendem os homens”, lê-se na versão da Lira dos Cinqüent’anos de “Belo Belo”, de Bandeira, poema particularmente caro à poeta (vide “21 de fevereiro”em A teus pés). E, no entanto, uma angelolatria vigorosa acompanhou de perto a crescente repercussão post-mortem de sua obra. Não é sem ironia, aliás, com relação a esse gosto pronunciado pela perspectiva martirológica, que o título escolhido para a biografia da escritora publicada em 1996 por Ítalo Moriconi seria O sangue de uma poeta.

Ana Cristina Cesar não criou para si, fisicamente, como Cacaso, uma persona pública de aspecto tão regular, uma imago exemplar, atemporal, estudadamente franciscana, e, no entanto, tão presa à sua geração, quanto era a dele. Pois a visão hoje de qualquer retrato de Cacaso possibilita sua imediata remissão aos anos 1970. E, no entanto, não deixa de impressionar essa inalterabilidade, essa autototemização, ao longo de duas décadas. “Fictício retorno à simetria”? Com relação a Ana Cristina, basta observar as fotos mais divulgadas. Mudam o tipo de traje, de cabelo, às vezes mais curto, ou mais longo, os óculos de grau ora escuros, ora de aro fino, com lentes transparentes. Mesmo havendo, em meio à sua fortuna iconográfica, um número restrito de retratos privilegiados, e mesmo sendo possível datar os modelos dos óculos, a época de certas roupas, ou os cortes de cabelo, não é ao desejo de manutenção de uma auto-representação sempre idêntica que essas imagens parecem atender.

Quanto às referências religiosas, na poesia de Ana Cristina, também não se manifestam exclusivamente como ecos remotos de fantasias infantis ou de um país de formação predominantemente cristã. No seu caso, é importante lembrar a vinculação estreita de sua família, em especial do seu pai, à Igreja Presbiteriana e ao Movimento Ecumênico, e da própria poeta, quando menina, a atividades ligadas ao Instituto Metodista Bennett e à Comunidade Cristã de Ipanema, assim como a viagem de estudos, realizada por ela, em programa da juventude cristã, para a Richmond School for Girls, em Londres, em 1969. Não faltam, então, volta e meia, nos seus escritos, estocadas diretas direcionadas a essa presença religiosa tão forte em sua formação. É exemplar, nesse sentido, o “presépio anfíbio na privada”, do seu “Conto de Natal”. Assim como o poema “16 de junho”, no qual gestos e sensações banais, olhos pintados de lilás, peitos empedrados, frio nos pés, se imbricam a expressões ligadas ao culto cristão, como “Amém, mamãe”, “Vinde, meninos, vinde a Jesus”, “Eu sou o caminho, a verdade, a vida”, “A Bíblia e o Hinário no colinho”, “A benção final amém”. Não faltam, igualmente, ao longo de sua obra breve, algumas figuras de anjos e santos e ênfases, aqui e ali, na dor física, na mortificação. Por vezes se divisa até mesmo um “Deus na Antecâmara”, como no poema com este título, de 1969.

Os anjos que irrompem nos seus poemas, no entanto, só muito raramente estão lá apenas como aparições ou ícones sacros. “No flanco do motor vinha um anjo encouraçado”, lê-se em “Atrás dos Olhos das Meninas Sérias”. Não é à toa que os nomeia, em geral, de acordo com alguma função determinada: “anjo que registra”, “anjo / que extermina / a dor”, “anjo da morte”. Fazendo questão de revelar, ainda, quando as fontes angelográficas não são propriamente sagradas, como na referência (em poema de A teus pés) ao “Anjo Exterminador”, de Buñuel, ou (ainda em “Atrás dos Olhos das Meninas Sérias”) às “Charlie’s Angels” do seriado de televisão “As Panteras”.

Por vezes, contudo, anjos e santos se encontram exatamente onde seria de se esperar: em templos, catedrais. Como em “Protuberância”: “(...) Uma lâmpada queimada me contempla / Eu dentro do templo chuto o tempo / Uma palavra me delineia / VORAZ / E em breve a sombra se dilui, / Se perde o anjo”. Ou em “Encontro de Assombrar na Catedral”: “Frente a frente, derramando enfim todas as / palavras, dizemos, com os olhos, do silêncio que / não é mudez. / E não toma medo desta alta compadecida / passional, desta crueldade intensa de santa que te / toma as duas mãos”. No primeiro poema, mais do que no templo, é na indefinição que parecem habitar os anjos. Cabendo à palavra – voraz – a transformação de uma zona de sombra em sujeito. No segundo poema, ao contrário, é de um silêncio intenso, mas derramado, repleto de palavras, que surge a imagem da santa, e que se realiza a aproximação passional na catedral. O lugar e as figuras sacras parecendo, paradoxalmente, ressaltar o caráter físico desse encontro, e de um sujeito cuja presença (ávida, cruel) se define exatamente por formas diversas de intensidade.

E não é de estranhar que o traço característico dessa santa dentro da catedral seja especificamente a crueldade. “Os santos, claro, são cruéis”, afirma Leminski, falando de Trotski. Pela “integridade do seu sacrifício”, pela auto-entrega “para livrar outros da dor”, pelo “resgate da dor”, como diz na biografia de Bashô. Na poesia de Ana Cristina se não há tantas figurações do sujeito como anjo ou santo quanto em Cacaso ou Leminski, não faltam, porém, as sobreposições entre dor e criação, as imagens violentas, dolorosas que, em meio a ninharias, relatos pela metade, em meio a notações lacunares, breves, soltas, irrompem, às vezes de modo quase imperceptível, nos poemas.
 
“Eu penso / a dor visível do poema”, lê-se num texto dos anos 1970, incluído em Inéditos e Dispersos. O “corpo dói”, “dói a culpa intrusa”, “ai que outra dor súbita”, pois, por vezes, “é outra / outra a dor que dói”, e é com as “tetas da dor” que se amamenta nossa fome, é o “pulso que melhor souber sangrar” que se impõe em “Flores do Mais”. Bofetada de estalo, baque de fuzil, estilete pontiagudo, punhal, som de serras de afiar facas, fúria, farpas, garras afiadas, lâmina cortante, a faca nas costelas da aeromoça, degolar, atemorizar, ambulâncias, sirenes, pássaros que gemem, barril de pólvora plantado sobre a torre de marfim, asas batendo freneticamente, caça, caça: há quase sempre alguma violência potencial plantada ali, tensionando de dentro os textos. Como “indicação seca do presente”, é claro. Mas também como meio de a palavra virar carne, matéria. Nem que para isso se tivesse que flertar abertamente com o agônico, e fazer de alguma forma de dor uma contraparte irônica da escrita. De uma “poética quebrada pelo meio”. Processo sintetizado belamente por Ana Cristina Cesar em texto bastante conhecido de Cenas de abril (1979): “olho muito tempo o corpo de um poema / até perder de vista o que não seja corpo / e sentir separado dentre os dentes / um filete de sangue / nas gengivas”.
 
“A crueldade é seu diadema”, diz uma das vozes em “Sexta-feira da Paixão”. É, sobretudo, no corpo do poema, porém, que essa crueldade, mais uma vez santa, deixaria sua marca. No esfacelamento – em falas, referências, inconclusões – do texto e de seu sujeito: “cacos sem peso”, “vidros soltos”, “dividir o corpo em heterônimos”. Na tensão entre, de um lado, registros do banal, diários, conversas, chás, postais, e, de outro, sugestões quase sempre meio imperceptíveis de imagens dolorosas e instrumentos ou ecos brutais. Apesar das altas compadecidas passionais que percorrem alguns textos, a imolação se opera na escrita, no lírico convertido em lição de anatomia, na auto-exposição esfacelada (aspas, quebras, travessões) da própria matéria, de suas vozes e deambulações.
 
Já os anjos, santos e demônios de Cacaso não atuam sobre a estrutura do poema. Mantêm-se coesos em sua concisão humorística, política ou nostálgica, funcionando as aparições como registro prosaico de um imaginário religioso popular, e possível indício de uma inversão, de uma resistência figural à demonização, pelos governos militares, de todo e qualquer esforço de resistência à época. Na obra de Leminski, essas trilhas hagiográficas exerceriam função mais abrangente, e atuariam como princípio ativo, todo-poderoso, no seu processo de composição e na constituição de sua identidade intelectual. Como em Ana Cristina Cesar e Cacaso, no entanto, há também, evidentemente, uma reapropriação interessada, política, de um imaginário devoto invocado à saciedade pelo empresariado, pela ala conservadora da Igreja católica e pela classe média que serviram de base de apoio e ratificação ao golpe militar de 1964. Uma reapropriação que encontraria respaldo não só nas facções mais libertárias do pensamento religioso, mas, igualmente, nos relatos sobre a prática da tortura e os assassinatos envolvendo desaparecidos e presos políticos no país. Histórias cujos detalhes cruentos as aproximam indisfarçavelmente das lições contidas nas coletâneas hagiográficas, colocando martírios e santificações na ordem do dia.

O modo de a escrita literária, a produção artística e a hagio­grafias se associarem, nesse momento, não foi, porém, como já se observou aqui, sempre idêntico. Houve as compilações de testemunhos diretos de tortura, e os relatos de ações de resistência, houve as recriações ficcionais mais ou menos rea­listas de episódios similares, e os elogios genéricos à marginalidade (hagiografias heréticas), houve desarmes irônicos, iconoclastas, desse imaginário devoto, e houve enfrentamentos de outra ordem, nos quais o dado hagiológico converteu-se, por vezes, para além de condutas exemplares e martírios de domínio público, em parte capital da experiência artística. Lembrem-se, nessa linha, obras como o filme “Os Inconfidentes” (1972), de Joaquim Pedro de Andrade, ou, nas artes visuais, as “Trouxas ensangüentadas”, de Arthur Barrio, de 1969, que lembravam pedaços de corpos embrulhados e desovados ao léu pelo espaço urbano, ou “Tiradentes: totem-monumento ao preso político”, de Cildo Meireles, na qual se ateava fogo a dez galinhas vivas amarradas a um poste, e encharcadas de gasolina, e se assistia a esse verdadeiro martírio durante a exposição “Do Corpo à Terra”, realizada no Parque Municipal de Belo Horizonte, em 1970. E seria este o contexto de um livro como o Catatau, de Leminski. É, pois, em diálogo constante com hagiografias diversas que talvez se possa compreender não só o processo de composição do seu travelling monológico, do romance-idéia (como ele mesmo o definiu) no qual trabalhou durante quase nove anos, mas também das biografias que escreveu, durante os anos 1980, para a Editora Brasiliense, assim como a forma quase oracular de alguns de seu textos, sua autofiguração monástica freqüente, ou mesmo seu gosto pelo apostolado, por uma intensa exposição pública, mesmo quando a cirrose já se encontrava em estágio avançado. 


 

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POR EM 22/06/2008 ÀS 05:35 PM

Melville e seu monstro branco

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Herman Melville
nasceu em Nova Iorque em agosto de 1819. É, com justiça, um dos maiores nomes da literatura norte-americana no século XIX, o cara que concebeu Moby Dick, a baleia. Ele também inventou uma frase instigante, logo no primeiro capítulo de seu maior livro, assim traduzida por Péricles Eugênio da Silva Ramos: “a parte aquosa do mundo”. Eu a li e não a esqueci mais: “a parte aquosa do mundo”...

Dos romances que conheço (não são muitos, é verdade, mas são quase todos clássicos), nenhum tem uma introdução tão marcante quanto este. A mim me pareceu, de imediato, que seria possível um paralelo entre o norte-americano e, no Brasil, o Guimarães Rosa de Grande Sertão: Veredas. Afinal, convém saber se “a parte aquosa do mundo” não seria uma destas tantas metáforas que, como “sertão”, designam a dimensão metafísica, sobrenatural, da realidade. Podemos acreditar que o oceano de Melville não passa do sertão rosiano. Como neste, trata-se de uma geografia misteriosa, só que freqüentada não por jagunços mas por baleeiros, montados não em cavalos mas em navios e povoada igualmente por lendas. De sua parte, este e aquele também muito se parecem: “o baleeiro é envolvido por influências tendentes a fazer que sua fantasia partureje portentos”. Ismael, o narrador de Melville, é, de algum modo, Riobaldo. As duas histórias são fantásticas, são igualmente fabulosas. Ambas referem-se diretamente às mesmas questões: Deus, o diabo, o mal. Sabe-se lá o que é Moby Dick, essa coisa cheia de sinônimos negativos e assombrosos: monstro, ser descomunal, ser maligno, assassino, ser solitário e, pasmem, inteligente.  

Mas não são apenas estes. Dois há que nos incomodam particularmente: Ismael diz que um dos atributos de Moby Dick é a ubiqüidade. Outro, que é imortal. Com efeito, já não se fala de um ser de carne e osso; já não se fala aqui do grande cetáceo que povoa os mares de “verdade”, mas de um ser imaginário que povoa e atormenta o espírito dos homens. Não admira que logo passamos a suspeitar que Moby Dick é muito mais do que uma simples baleia. Será a morte, talvez? O mar já não é, de sua parte, esse mar azul e exterior que entra pelos nossos olhos, mas as invisíveis profundezas da alma:
 
“os ocultos caminhos do cachalote, quando abaixo da superfície, permanecem, em grande parte, inexplicáveis para seus perseguidores” (grifo meu) 
 
Leio abaixo da superfície como além da matéria. Mais importante: que saibamos, o único ser dotado daqueles atributos (ubiqüidade e eternidade) - é Deus! Então, será que é contra Deus que investe o celerado capitão Acab? Talvez sim – a religião americana, ao tempo, tinha visões assustadoras, capazes de tornar Deus terrivelmente mal -, talvez não. As citações que introduzem o romance indicariam outra coisa, particularmente aquelas que procuram responder a esta dúvida do ponto de vista da fé cristã. Melville cita o Gênesis, Jó, Jonas e Isaias, os quais dão a entender que não se trata de Deus, mas de uma criatura criada por ele. Em Isaias, Melville quis que o Leviatã do profeta correspondesse ao cachalote branco, e tal Leviatã é o dragão que Deus subjugará ao fio da espada. Moby Dick, portanto, seria Satã (o mal, o capiroto, o Hermógenes de Rosa).  

Muita coisa chama atenção nesse livro, mas, como não é o caso de avançarmos muito, aqui, façamos ao menos uma observação, que se relaciona à linguagem, propriamente. À linguagem, pois, que insinua tantas coisas estranhas e nos deixa em suspensão, ante a esfinge de si mesma. O temperamento romântico de Melville reforçou em mim a impressão, captada fortemente em Grande Sertão, de que o romance pode ser o domínio da metáfora, tanto quanto a poesia. Não porque se torne lírico, propriamente, mas ainda que narre uma história aparentemente objetiva, aparentemente insuspeita. Conta-se que Moby Dick, à época do lançamento e depois, foi encarado pelos críticos de plantão como livro de entretenimento, quase um Julio Verne! Podemos imaginar quantos não o leram despretensiosamente, não enxergado nele algo além de uma aventura real num mar de verdade à procura de um cachalote de carne e osso por um bando de marinheiros brutos e tresloucados. Sem dúvida, é um livro que diverte, mas é preciso ser raso demais para não ser incomodado pela narração feérica, atravessada de simbolismos, do marujo Ismael. Por isso, mais do que qualquer outra coisa, perturba: é mais apavorante do que Tubarão, de Steven Spielberg:
 
“ao verem o cachalote, todos os peixes (inclusive os tubarões) “tomam-se dos mais vivos terrores” e “freqüentemente”, na precipitação de sua fuga, arremessam-se contra os rochedos com tal violência que morrem instantaneamente”.” (Cap.XLI) 

Esse monstro fantástico incomoda porque obviamente é uma grande matáfora, não um simples jogo de metonímia, figura característica da narrativa. O branco que o reveste é objeto de uma memorável e horripilante sugestão simbólica: é o que enxergamos quando não vemos cor. É a substância perene, entranhada, que resiste sob o aspecto visível da natureza, por baixo da fina e delicada camada de tons que nos comunicam apenas a superfície do mundo. O branco é profundo, denso, numa palavra - além. Branco é, pois, o cachalote de Acab.

Não é possível ler Moby Dick sem ler coisas que querem necessariamente dizer outras, exatamente como num poema. Ou seja, há aqui uma clara transposição de sentidos, em termos mesmo de comparação.

O problema é que um dia vieram os críticos, os especialistas, e dividiram ambos os domínios – o da prosa e o da poesia – sei lá se para efeitos didáticos, pois tinham a presunção de fazer ciência. Para seu desespero intelectual, cada vez que se lê algo fabuloso como Moby Dick, vemos como é inútil ou infundado seu esforço. O monstro branco e fabuloso de Melville destrói não apenas barcos e homens, mas inclusive essa ilusão dos críticos, esse devaneio científico em compartimentar coisas inseparáveis. É o triunfo da arte sobre a ciência. 


 

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POR EM 22/06/2008 ÀS 05:19 PM

O mundo de Joseph Conrad

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O Coração das Trevas é um livro inóspito em mais de um sentido. Além da oposição luz e trevas, há também um limite claramente demarcado entre homem e natureza




Em 1902 apareceu um livro e tanto, O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, o polonês que, segundo Otto Maria Carpeaux, decidiu tornar-se membro desta outra elite inglesa: a dos marinheiros. A classificação é pertinente. Depois de ler sua novela pela segunda vez, me parece que o escritor realmente não ficaria à vontade num figurino de grande burguês. O Coração das Trevas foi publicado na época eduardiana, mas contextualiza-se numa era que descende da da rainha Vitória e extrapola a de Eduardo VII: o imperialismo, que tem início por volta de 1870 e declina em 1914.

As primeiras páginas do livro lembram que um dia o país anglo-saxão foi também uma terra de bárbaros, então dominada pelos romanos. Ao começar dessa forma, Conrad naturalmente nos adverte sobre certas ilusões imperiais, ao registrar que o país que adotou foi, algum dia, o Congo de outra “metrópole”, chamado Britânia e conquistado por Claudio. Roma desapareceu depois de 500 anos na condição de potência mundial, e o agora Império Britânico também desapareceria, parece profetizar. A propósito, cada vez mais os impérios duram menos tempo, desde então. O mundo demorava gerações para mudar na Antigüidade, muda muito rápido em nossa época, o que a princípio é péssimo para qualquer tipo de dominação, quanto mais as que dependem do tempo. De sorte que no futuro parece haver apenas duas alternativas, aliás repugnates: ou a volta do totalitarismo – numa tentativa desesperada de manter a estabilidade sob a ameaça de ritmos cada vez mais alucinantes de informação - ou um conjunto de forças antagônicas, em pé de igualdade e numa disputa perpétua (salvo o concurso de uma hecatombe).

Porém, mais importante que a aceleração do tempo é a relatividade da história: a civilização se confunde com a barbárie e vice versa, depende apenas das circunstâncias. A sociedade imperialista, tão fina e requintada, deu provas suficientes de barbaridade para Joseph Conrad, que a tornou coadjuvante em sua novela, cujo cenário vem a ser um dos tantos países vilipendiados da África. Coadjuvante sim: não tenhamos a ingenuidade de imaginar que o que mais importa em O Coração das Trevas seja a crítica severa ao empreendimento britânico. Essa crítica, circunscrita a uma conjuntura, é apenas o pano de fundo para questões de abrangência universal e bastante conhecidas, como o sofrimento humano e a morte.

Eric J. Hobsbawm, o eminente historiador inglês, diz que a partir de 1876 o mundo conheceu um novo tipo de império, o colonial, representado pelas potencias industriais da Europa. Somente a Grã-Bretanha – a maior dessas potências - aumentou seu território em cerca de dez milhões de quilômetros quadrado, área que compreende todo o Brasil mais a metade da Argentina. Dentro do sistema colonial, as nações principalmente da África, Ásia e Oceania tornaram-se fornecedoras de matérias-primas indispensáveis à expansão industrial, o principal pilar de uma economia, na expressão do próprio Hobsbawm, já “globalizada” (cf. A era dos impérios). O marfim, matéria-prima que justifica a empresa dos aventureiros conradianos no Congo, não constituia um desses produtos essenciais – entre eles o ferro, o cobre e a borracha – mas servia ao consumo de luxo, com aplicação variada. Teclas de piano, bolas de bilhar, broches e anéis, entre outros, eram feitos de marfim e representavam portanto a cosmética da sociedade vitoriana. Só que isso custou milhares de vidas. A civilização, depositária de valores humanitários e sinônimo por vezes de superioridade moral, curiosamente não ligava para o preço pago em função de suas frivolidades. 

A visão que Conrad tem do empreendimento britânico não é nada lisonjeira: poderiam, se quisessem, acusá-lo de inimigo dos interesses reais. Pela boca de Marlow – narrador indireto, à sombra do silencioso protagonista Kurtz -, ele profere que o Congo parecia “fazer parte de uma sórdida farsa representada num cenário sinistro.” Talvez não acreditasse na moral puritana – representada por uma mulher - de que “é o trabalhador que dignifica o trabalho”. Para o escritor, isso não tem nenhuma realidade: o que impulsionou o imperialismo foi, pura e simplesmente, o comércio, cujo traço mais característico terá sido a destruição e a morte “mediante contratos perfeitamente legais”. Não há, aliás, como essa leitura perder sua atualidade. A descrição daqueles trabalhadores escravizados – feixes espectrais de ossos - é de uma humanidade pungente, ao passo que o Conrad não tergiversa em denegrir o colonialismo na pessoa do contador-chefe da companhia exploradora. Trata-se, segundo ele, de “um manequim de loja (...) em meio à grande desmoralização”; da feição fria e calculista do mundo civilizado, moralmente injustificável. O ideal que impulsionava essa gente cobiçosa “era tão elevado, do ponto de vista moral, quanto ao de um ladrão ao arrombar um cofre.” Então, de repente, a palavra civilização adquire um novo e incômodo sentido: é o mesmo que ladroagem, para dizer pouco. Conrad desmistifica a civilização. Combate o colonialismo. Denuncia o imperialismo.

No aprendizado da história descobrimos que é fácil ser anacrônico. Julgar os homens do passado com o olhar do presente é um anacronismo, de modo que muita coisa se justifica, se torna aceita, em função de um olhar que se exime de fazer julgamentos. Muito bem - só não aprendemos que esse cuidado não pode ser cego ou tapado. Por exemplo, podemos às vezes cair na armadilha de que, no século XIX como na Antiguidade, um homem tratar o outro como escravo era normal. Seria normal, também, o escravo se ver como escravo, como objeto. Será mesmo? Conrad não concordaria, e nos autoriza julgar a situação pelo seu ponto de vista. Ele, que viveu durante o apogeu do Império Britânico, se sentiu “dominado pelo horror” ao testemunhar a flagelação causado pelo imperialismo: ele próprio esteve na África em suas viagens, podendo-se dizer que O coração das trevas não é pura ficção – resulta antes de tudo de uma experiência pessoal do autor. Portanto não é anacrônico condenar esse passado de horror e reafirmar que sim: foi um crime terrível! Muitos homens daquela época não achavam a escravidão normal, embora comum, e Conrad era um desses nobres cavalheiros.

Oquei, mas não poderíamos esperar, por isso, que Conrad militasse necessariamente num partido progressista, de transformação social – ou de qualquer outra espécie. O coração da trevas transcende a realidade material e portanto histórica, e é aí que esse crítico contumaz se revela para nós em sua totalidade. Lança-nos em outro território, mais difuso e enigmático; um território de contrastes barrocos que opõe dois extremos. Estamos falando de algo que não desperta muita credibilidade entre os céticos, principlamente numa época tão marcada pela descrença como a nossa: a realidade do bem e do mal. Começamos a suspeitar, então, que aquele “inimigo dos interesses reais” britânicos não representava, por assim dizer, uma ameça real, política.  Conrad era suceptível ao dualismo, e isso não tem a ver com a impressão que a sociedade primitiva e explorada causava nos europeus: seus componentes diabólicos aos olhos alienígenas – manifestos em rituais animistas – são relativos, são julgamentos morais de uma civilização sobre outra. Importa dizer, o quadro pintado pelo escritor não é esquemático, como se, por outro lado, a sociedade européia é que representasse o elemento negativo em jogo. Marlow e Kurtz o desmentiria, pois encarnam a crítica dessa sociedade, que supõe ter a “missão” de levar o progresso aos lugares mais remotos do mundo, ainda que, contraditoriamente, às custas da banalização do mal. Ambos encarnam o germe de uma força cósmica no interior de outra, exatamente como propõe o simbolismo do Yin e Yang, da filosofia chinesa.

A oposição entre luz e sombra é uma das características de O coração das trevas, com inegável tendência ao predomínio da escuridão (é claro que, em tese, o equilíbrio é perpétuo). Nesse jogo oscilante de claro/escuro, o oposto de civilização – portanto o explorado - não significa necessariamente o lado negativo da questão, tampouco civilização simboliza o positivo. Os invasores são pintados, a exemplo daquele tio e sobrinho que aparecem na história, tanto quanto um certo capitão sueco que deixa Marlow em sua Companhia, como criaturas amargas, malvadas, movidas entre si por intrigas, calúnias e ambições desmedidas e inconseqüentes. Um deles até teria morrido, segundo esse último capitão, porque talvez não tenha sido capaz de “suportar o sol”, dando a entender que fossem ministros das trevas, fáceis de serem fulminados em contato com a luz. Em contrapartida, por um momento as coisas só pareceram claras a Marlow quando este surpreende um grupo de remadores negros e escravizados, confessando que era “um conforto poder contemplá-los.” Fugaz instante de compreensão, de sentido, em meio ao mistério opressivo de tudo.

De forma que o bem e o mal, para Conrad, se superpõem aos valores culturais como forças imanentes da natureza, do cosmo – a imagem simbólica da floresta -, a despeito da sociedade e do lugar. É certo, qualquer sociedade pode manifestá-los, de sorte que impregnam o tecido da existência, constituindo talvez o que há de fatalidade na visão do escritor.

O narrador (não mais onisciente) faz uma declaração importante, dizendo que para Marlow “o significado de um episódio não estava no seu interior, como um caroço, e sim do lado de fora envolvendo a história”. Interpretamos tal declaração no sentido de que ao protagonista a psicologia conta menos que a metafísica. Por tabela, talvez se possa aplicar a mesma lógica ao autor do romance, Joseph Conrad. Para Conrad – e mesmo para o leitor desse livro, penso eu – o peso da reflexão metafísica em O coração das trevas conta mais que a composição dos caracteres. Ou seja, mais do que surpreendidos por conflitos interiores, reparamos que a nota dominante no livro é o mistério do mundo à nossa volta, o insondável e inquietante enigma da vida. Em outro argumento, a certa altura do relato, diz Marlow: “do lado de fora da cerca, a selva silenciosa que rodeava a minúscula clareira [onde ficava um posto comercial] me fazia pensar em algo poderoso e invencível, como o Mal ou a Verdade, a aguardar pacientemente o fim daquela invasão.” Portanto, é como se o objeto do livro fosse uma tentativa de sondar os meandros da realidade transcendente, o universo que nos contém, sem naturalmente chegar a lugar nenhum. A selva é esse mundo exterior, denso e impenetrável, e do qual não alcançamos o significado último – do qual, aliás, podemos ser facilmente expelidos!   

O coração das trevas
é um livro inóspito em mais de um sentido. Além da oposição luz e trevas, há também um limite claramente demarcado entre homem e natureza (ou universo), simbolizada pela floresta. A floresta é perpassada por um silêncio e uma quietude perturbadores, de modo que Marlow tem a sensação de os exploradores que sejam minúsculos invasores – micro-organismos, para usar uma referência cara ao cientificismo predominante, na época - observados por um meio-ambiente imensuravelmente grande e poderoso. Mas o que Conrad quer dizer reiteradas vezes com “silêncio” e “quitetude”? Possivelmente, que o mundo não se revela, que é mesmo inescrutável, a despeito de nossas desesperadas tentativas de sondagem. Como o Deus de Isaac Singer, cala-se imperturbável e cruelmente ante a angústia humana. O homem aliás é apenas aquele germe que adoece o corpo – o ambiente em que se manifesta -, e transforma o cenário em terra arrasada, em desolação, despovoamento e violência, e do qual o Congo expoliado é apenas um exemplo dissecado. Compreende-se perfeitamente porque T.S. Eliot se entusiasmou com esse livro, a ponto de citá-lo originalmente na epígrafe de The waste land (a omissão final deve-se a Ezra Pound).

Conrad engrossa as tintas de sua pintura ao aderir aos adjetivos. Mas, afinal, sem adjetivos não há subjetividade, e a subjetividade é fundamental à arte conradiana, repleta de símbolos e sugestões. A atmosfera do livro é lúgubre, fantasmagórica, simbólica. Pode não ser uma tendência observável em outras obras do autor, mas a intromissão do fantástico parece se fazer, aqui, naquela representação que não se pode ignorar das Parcas, as duas (embora não três) irmãs que tricotam no escritório onde Marlow efetiva sua contratação, na primeira parte do livro. Trata-se flagrantemente de uma irrealidade, de uma sombria invasão de outro mundo neste mundo. Conrad, além de fatalista, acredita no destino: eis a explicação, talvez, de porque Marlow singra as águas plácidas do Tâmisa convertido em Buda. A ascesse do personagem pode até ser um anelo do próprio escritor, afinal descrente de qualquer alternativa que não seja espiritual para esse plano.

À parte a crítica que se faça a este mundo, sua condição, conforme Conrad, independe dos homens, e se nada pode alterar seu destino, não há porque no lugar de um Buda dispor de um revolucionário. Conclusão: o inimigo do Estado, em O coração das trevas, não nos oferta nenhum consolo ou perspectiva. Por outras palavras, sua resposta ao nosso drama é estranha à ação e flerta com a quietude de um monge na sagrada posição do lótus.    


 

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POR EM 03/06/2008 ÀS 06:33 PM

Borges, o poeta

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Talvez todos nós nos lembremos de um escritor, quando chamados a buscar na memória aquele que primeiro nos impressionou, na vida. O nome que tenho em mente é o de Jorge Luis Borges, que sempre imagino ter lido antes de qualquer outro. Foi, também, o que me ficou como parâmetro de boa, de grande literatura; a descoberta desse mundo mágico, fantástico, dos livros. Durante um bom tempo, achei que ninguém no mundo escrevia melhor do que ele, talvez porque me identificasse com seu estilo, tão característico, e com problemas metafísicos (nessa mesma época, estava lendo Schopenhauer). Naturalmente, descobri que há autores tão bons e até melhores do que Borges, mas me recordo dele com maior carinho do que de qualquer outro. Foi meu primeiro clássico, criador de contos antológicos como Avelino Arredondo e o horripilante There are more things, do olvidado Livro de Areia.

Sempre ouvimos falar de Jorge Luis Borges, o grande ficcionista argentino, como autor de contos fantásticos. Foi como se celebrizou, ao lançar a coletânea Ficções, em 1944, onde se encontra o famosíssimo Pierre Menard, autor o Quixote. Como contista, Borges é amplamente devedor de Kafka, embora sempre se fale de sua formação literária como especificamente inglesa. Além de contos, relatos e ensaios memoráveis, Borges foi também um notável poeta – e começou como poeta -, um meticuloso artesão da palavra, sendo portanto curioso que nos reportemos a ele sem nos lembrarmos desse fato. Teve, nesse particular, a mesma sorte que Machado de Assis. O brasileiro, na coletânea Ocidentais, escreveu poemas tão bons quanto Álvares de Azevedo (salvo engano, de acordo com José Guilherme Merquior,
em De Anchieta a Euclides), e ninguém parece saber disso, senão os críticos. É um erro, imagino, esquecer de um escritor a parte menos célebre de sua produção, pois aí do mesmo modo podemos encontrar várias relíquias. Para entender: fosse apenas poeta, arrisco a dizer que Borges seria já um dos primeiros nomes das letras hispânicas e quiçá do mundo.

Borges tinha perceptivelmente uma angústia terrível em relação ao tempo. Era obcecado por este tema. Rio e Areia são figuras marcantes em sua obra poética, e boa parte de sua poesia é uma variação dessa obsessão, que conduz à certeza da própria aniquilação:
 
Dos ciclos toda a areia é sempre a mesma
pois é infinita a fábula da areia;
e sob as tuas ditas e desditas
a eternidade incólume se abisma.
 
(...)
Não vou salvar-me eu, fortuita coisa
de tempo, que é matéria degradável.
 
De outro poema, não por acaso chamado Heráclito:
 
Que rio é este
pelo qual corre o Ganges?
Que rio é este, cuja nascente é inconcebível?
Que rio é este
que arrasta espadas e mitologias? 

São imagens fortes e precisas, alguns dos versos mais belos que há escritos sobre o tempo e a corrosão de nossas vidas. Na coletânea O fazedor, temos alguns poemas que revelam um Borges cultor das formas tradicionais de composição, lembrando-nos nosso Manuel Bandeira, que, embora modernista, não desamparou os esquemas métricos cultivados no passado. Vemos isso no poema Arte poética, revelador de um artista cujo credo último foi a arte, onde se resguardou do mundo e de suas mazelas corruptíveis:
 
Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Humilde e verde. A arte é essa Ítaca
De um eterno verdor, não de prodígios.
 
... reiterado nesses versos de exímio sonestista, em homenagem a Camões:
 
Quero saber se aquém dessa ribeira
Última compreendeste humildemente
Que quanto foi perdido, o Ocidente
E o Oriente, a têmpera e a bandeira,
Perduraria (alheio a toda humana
Mudança) em tua Eneida lusitana. 

Borges, ao contrário de outro gigante latino-americano, Octavio Paz, não foi homem de ação, como bem lembrou o crítico uruguaio Emir Rodriguez Monegal (cf: A poética de Borges). Era um cético, que parecia não acreditar que pudéssemos ser os responsáveis pelo nosso próprio destino, traçado pelos deuses ou por Deus. Não dava muito importância à história e a peleja humana, exceto como mistérios de nossa condição. Daí seu conceito de que “A história universal talvez seja a história da diferente entonação de algumas metáforas.” (A esfera de Pascal). Não é à-toa que outro tema eleito por sua poesia seja o destino, que nos conduz ao seu bel prazer sem que possamos oferecer-lhe resistência; sem que possamos fazer nada. Borges não parecia acreditar, de jeito nenhum, no livre arbítrio. O passado, e não o futuro, é que era o tempo em que acreditava – se é que este discípulo dos empiristas acreditava
em algum. Eis um encadeamento revelador dessa convicção:
 
                         É de ferro teu destino
como juiz.
 
do poema Labirinto, e dois versos no mesmo diapasão de outro, Xadrez:
 
Que Deus atrás de Deus o ardil começa
De pó e tempo e sonhos e de agonias? 

Platônico, nada nele é real ou tem sentido por si mesmo: tudo é símbolo; tudo remete a outra coisa, tudo é reflexo, projeção, espelho de outra realidade, uma supra-realidade, provavelmente melhor do que esta, desbotada e melancólica. Dizia que queria morrer completamente. Não, não era otimista, mas tinha o poder de encantar, de tocar o que há de mais nobre em nossa sensibilidade. Dizem que O golem é seu melhor texto lírico – cujo teor é cabalístico -, mas, de todos os poemas de Borges que conheço, o que mais me emociona é Outro poema dos dons, que diz assim, entre outras coisas:
 
Graças quero dar ao divino
labirinto dos afetos e das causas
(...)
pelo rosto de Helena e a perseverança de Ulisses
pelo amor que nos deixa ver os outros
como os vê a divindade
(...)
pelo mistério da rosa
que pródiga cor e que não a vê... 

Embora refratário à história e à luta – se tanto, desenhava indivíduos armados ou bandoleiros, como os irmãos Iberra e como Jacinto Chiclana – e tenha feito de si um lírico, Borges é o nosso Homero, digo, o Homero da latinidade americana. Como sabemos, também foi cego, e prodigou-nos imagens de sonhos e de rara beleza. Ele certamente teria muito orgulho em ser identificado como poeta, mesmo que ficasse só como autor de ficção. Poeta é certamente o título mais honroso que se dá a um artista (não só escritores), síntese – ou símbolo - do próprio trabalho artístico, que consiste
em criar. Borges foi um, no mais pleno sentido da palavra.

Privilegiados os que leram sua poesia.


 

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POR EM 30/05/2008 ÀS 12:23 PM

Entre o mito e o merecimento

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Engajado contemporaneamente do ponto de vista político na época – produziu a única poesia homossexual de qualidade do Brasil, que transcende, justamente por isso, sua temática homossexual, quando confronta sexo com alta literatura, questionando-a
 
Roberto Piva

Régis Bonvicino
http://sibila.com.br

Estranhos sinais de Saturno, de Roberto Piva, reúne o livro Ciclones, de 1997, o livro inédito Estranhos sinais de Saturno (1997-9), manifestos de várias datas, e um compact disc, contendo gravações de poemas lidos pelo autor – interessantes. Há um prefácio de Alcir Pécora, talvez o melhor crítico literário em atividade no país, em razão de sua capacidade de análise e clareza ao escrever, e um posfácio de David Arrigucci. A locução “estranhos sinais de Saturno” é, em si, redundante, porque qualquer sinal de Saturno é estranho. Como a poesia é equívoca, leio “estranhos sinais soturnos”, o que, igualmente e de certo modo, é rebarbativo. Piva – que é um mito vivo, intocável – dedica seus poemas a um número grande de amigos, como José Celso Martinez Correa, Maria Rita Kehl e outros. São poucos os poemas que não trazem epígrafe erudita, altamente literária. E o livro vem – reitero, pela relevância institucional – com o endosso de um professor da Unicamp e outro da usp, lançado por uma editora de renome.
 
Começo a refletir, em conseqüência, sobre a afirmação inicial de Arrigucci: “desde 1963, a poesia de Roberto Piva bateu como um ciclone para desarrumar a paisagem paulistana e instaurar seu mundo delirante”. Esse “mundo delirante” só pode existir, pois, nos poemas. Não é o que ocorre, em parte. De longe, Ciclones é muito melhor do que Estranhos sinais de Saturno, o livro até agora inédito, e do que os manifestos (estão mais bem realizados nos próprios poemas). Noto que Piva, poeta superior a 95% dos que aí estão, tem fé na palavra e, digamos, muita fé na contra-religião, representada pelo xamanismo. Não se esqueça que xamãs são caciques, ou seja, chefes, detentores de segredos e não só mágicos, salvadores da humanidade – o que se choca, em termos, com sua poesia, que se pretende libertária. Talvez a graça de sua presença e poemas resida nessas contradições tão veementes de uma pessoa doce.
 
Verifico algumas características gerais nos dois livros em pauta: seus poemas são frases com começo, meio e fim, sem rupturas sintáticas “delirantes”, “ciclópicas”; dou um exemplo: “antes/ de desaparecer/ no/ túnel/ das nuvens/ chega o vento/ a caixa do céu/ se abre/ a estrela/ no olho às/ vezes/ é o/ coração que bate/ estou sozinho/ no topo dos hemisférios”. E são compostos com versos livres comuns – quase prosaicos, feitos poesia pelos cortes, algumas vezes arbitrários. Um segundo traço comum: a abstração; dou exemplo: “não há tempo/ a perder/ o efeito eletrônico/ passeia pelos jardins/ do Desterro/ como uma gota de Sombra/ sorrisos de diamantes de outrora/ com seus Anúbis”. Outra: a glosa, ao “falar” bastante, e o tempo todo, das virtudes de seus poetas eleitos. Exemplo: “Walt Whitman/ objeto voador identificado/ sozinho no estreito de Behring/ sempre em vertentes de luta/ esgrimindo com o/ Alecrim do Campo/ nas costas tostadas da montanha”. O bonito verso “esgrimindo com o Alecrim do Campo” se enfraquece no conjunto. O canto iv de Estranhos sinais de Saturno inicia-se com um verso digno do Haroldo de Campos de “Glande de cristal/ desoculta/ ramagem de signos”; leia-se Piva: “a vítrea libação das páginas de poesia/ ilumina as escadas do êxtase/ no corrimão afrodisíaco/ onde você aparece com sua tatuagem/ de dragão de olhos azuis”. Pergunto: que tempestade violenta de vento (ciclone) há em usar a palavra “libação” (sei que o poema está em Estranhos sinais de Saturno)?; que desarrumação isso provoca? Imaginem se uma poetisa escrevesse esses versos para um homem.
 
Piva é um idealizador da figura do poeta, do poder da palavra do poeta, ou melhor, um nostálgico do poder do verbo poético (o que pode ser um mérito), ao mirar-se no xamã – o que me traz à tona matéria do jornal espanhol El País (24 de janeiro de 2008), que relata que dois indígenas costarriquenses mataram um xamã, para que ele parasse de lhes importunar com besteiras. Um deles explicou: “Vivia ameaçando as pessoas. A comunidade estava cansada das maldições que lançava”. Dou esse exemplo para mostrar a mistificação que se faz em torno de qualquer xamã, seja ideal ou real. Além disso, como anotei, o xamã é o chefe incomum, o cacique, ao qual os índios devem, obnóxios, seguir, em razão de seus poderes “curativos”. Estou mais para John Lennon, quando diz: “Não acredito em Mágica/ no I-Ching/ no Tarô/ na Bíblia”. Mera questão de temperamento. Testemunho guerras sangrentas em nome de “religiões” de todos os tipos, inclusive xamânicas.
 
Prefiro guardar comigo o Piva mais despojado e violento – menos abstrato, que aparece em poemas como “esqueleto de lua/ o tempo/ tambor tão frágil/ vomitando a noite”. Ou ainda: “o amor/ grita na minha garganta/ a serpente/ o gavião/ o jaguar/ me vêem/ como seu Duplo”. Todavia, há tópicas que me desagradam, como a epígrafe (mais uma!) de Georges Bataille, que diz: “A verdadeira poesia se encontra fora das leis”. Existe então uma poesia verdadeira e outra falsa? Dane-se o dito imbecil de Bataille! E, diga-se, Piva pretende criar suas “leis” poéticas, no caso xamânicas, como todo poeta. Gosto muito do “Poema vertigem”: “Eu sou a orgia com o/ garoto loiro e sua namorada/ de vagina colorida/ (ele vestia a calcinha dela/ & dançava como Shiva”. Foi esse Piva que – pioneiro, engajado contemporaneamente do ponto de vista político na época – produziu a única poesia homossexual de qualidade do Brasil, que transcende, justamente por isso, sua temática homossexual, quando confronta sexo com alta literatura, questionando-a. Daí vem o merecimento e o mito.
 
Régis Bonvicino é poeta, diretor da revista eletrônica Sibila http://sibila.com.br
 
 

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POR EM 06/05/2008 ÀS 11:00 AM

O Brasil Visceral de Euclides

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A literatura brasileira tem, como a de qualquer outro país, livros grandiosos, seus clássicos dos clássicos, talvez três ou quatro de cada gênero, se tanto. São livros de consenso praticamente universal, que não dependem apenas de gosto e submetem, com sua autoridade, as tão festejadas listas pessoais. Os sertões, de Euclides da Cunha, é certamente um desses livros.

Imagino que se por algum motivo justifica classificá-lo entre as interpretações originais do Brasil, este motivo há de ser a exposição, pioneira, da face trágica de nossa nacionalidade, sem nenhuma economia ou pudor. Euclides abriu a cortina com que nossas elites procuravam encobrir algumas verdades incômodas acerca da realidade brasileira. Nenhuma outra interpretação nacional foi, nem de perto, tão enfática neste sentido. Pelo menos Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre – tão diversos noutros aspectos, embora partilhando o historicismo - preferiram tematizar nossa docilidade pouco afeita à idéia de conflito, de ruptura social, revelando um imaginário bastante eficaz: nos ofereceram, ao contrário de Euclides, um brasileiro de espírito muito mais cômico que trágico, pelo qual ainda nutrimos um indisfarçável orgulho. O eminente historiador paulista reconheceu que a propensão afetuosa vinculada a esta mentalidade é normalmente falsa e indesejada, tendo sido causa do conflito entre público e privado, no Brasil.

Sérgio Buarque e Gilberto Freyre, este com nostalgia, aquele com ânsia, fizeram um discurso de conciliação nacional, só não batendo sua fórmula política, pois um era conservador e o outro liberal-democrata. Já em Euclides não há conciliação possível: os fortes hão de debelar os fracos, inevitavelmente, porque esta é uma lei natural. Foi assim que se dedicou, na virada do século XIX para o XX, a uma questão política instigante e nunca antes dissecada: a violência. Os sertões é de tal modo enfático sobre esta questão que não há nele uma só nota de bom humor: ali a presença humana em nenhum momento altera o tom geral de gravidade, só amplificado pelo meio ambiente infernal da caatinga. É incapaz, por isso, de refletir os mais divulgados ingredientes do ethos nacional, pelo menos de acordo com aqueles que terão sido nossos dois maiores mitólogos no século XX, os quais só fizeram realçá-lo no panorama do ensaio social brasileiro. Não significa que Euclides tenha se enganado: significa apenas que se oferece como contraste proveitoso a leituras mais condescendentes sobre a formação de nosso caráter.

O que fez Os sertões de mais importante foi revelar que nós, brasileiros, somos trágicos como qualquer outra sociedade belicosa, sem a ilusão de que somos pacíficos por natureza. Um inventário das guerras ocorridas neste país, muitas das quais desferidas contra a própria gente brasileira – índios, negros e mestiços – prova-o incontestavelmente. Contando os silvícolas dizimados, é provável que superemos o milhão de mortos em conflitos diretos, em conseqüência da ação truculenta do Estado, desde a criação do Governo-geral, em 1549. Foi por isso significativo que Euclides da Cunha tenha criado a imagem crucial da “Tróia de taipa”, alusão que enforma a resistência homérica de um povo contra a vilania de seu agressor, aqui simbolizado pelo horripilante “minotauro de seis mil estômagos”, que é o modo com que, a certa altura do terceiro capítulo, A luta, descreveu o nosso exército. Os militares, é bom que se diga, foram apenas a ponta de lança de um corpo político e social carcomido pela situação de profunda desigualdade, como diria o autor, gravíssima!
 
Devassar Os sertões é descobrir que, além de doces e hospitaleiros, nossa têmpera é também cruel e intolerante; portanto, que somos mais complexos do que normalmente imaginamos. É claro que o livro reflete uma época, quando o país se meteu em várias guerras nas suas províncias e fora de suas fronteiras. Estamos nos reportando à Guerra do Paraguai e aos combates no norte e nordeste do país que inspirariam Caio Prado Jr. a escrever, nos anos 30, outro retrato pioneiro de um país conflagrado, A evolução política do Brasil. O tempo passou, mas o conflito social denunciado por estes dois clássicos extravasou o Império e avançou República adentro, permanecendo sob diferentes formas: o inimaginável “minotauro de seis mil estômagos” serve de metáfora desta última forma de governo, desde sua proclamação até datas recentes ou mesmo atuais. O registro jornalístico dos conflitos agrários e da guerra civil desencadeada nas grandes metrópoles brasileiras, hoje, não é senão a transfiguração do drama perpetuado pelo correspondente Euclides da Cunha, há mais de um século.

Na reincidência continuada de fatos semelhantes em brutalidade, todos relacionados ao espaço público no Brasil, enxergamos a persistência da mesma causa secular: a incapacidade do Estado brasileiro em promover mudanças estruturais capazes de aniquilar o fosso que divide a mesma nação em duas metades em permanente tensão. É verdade que as coisas melhoraram nas últimas décadas, mas ainda somos um país de excluídos. Num determinado momento, a tensão existente no país, ainda colonial, foi entre reinóis e mazombos, e nela flagramos os primeiros indícios de coesão e espírito de nacionalidade, maturado pela guerra em pleno século XVII. Mas, uma vez declarada nossa independência política, as desavenças passaram a ser entre os próprios filhos da terra, cindidos principalmente pelas diferenças econômicas. É certo que, como bom naturalista, Euclides enxergou uma motivação fatalista e datada: a raça.

De qualquer modo, o que se quebra a partir de Os sertões é, então, a idéia de que constituímos um povo pacífico. A noção enganosa foi parcialmente herdada da formação positivista de nossas classes dominantes. Essa formação, de acordo com Octavio Ianni, “reitera a idéia do caráter ‘não-violento’ da história brasileira”, desdobrando-se no lema ordem e progresso, vindo a reincidir tardiamente, com espantoso vigor, no Golpe Militar de 64 (cf, do autor, O ciclo da revolução burguesa). De forma que a idéia, a priori simpática, é pertinente sobretudo como força de legitimação: só quando as elites atentam contra o Estado de Direito – se preciso contra setores sociais descontentes -, a violência parece aceitável e até necessária, e assim tem sido desde quando nos entendemos por República. Da mesma forma com que escamoteamos um racismo amiúde comunicado por piadinhas de mau gosto, somos capazes de velar nossa veia turbulenta, predisposta a burlar as instituições ou a acometer-se contra nossa própria irmandade. Com Euclides, o que passou a acusar a nossa boa consciência foi saber que a violência que praticamos era (e continua sendo) praticada entre irmãos, filhos de uma pátria amiúde madrasta, e isso garante sua atualidade.

José Murilo de Carvalho (em Os bestializados) pode observar que, já nos começos da República, a idéia de Pátria também identificava-se com os elementos afetivos e familiares, refratários àquela racionalidade que reclama o espaço público tão aspirado por Sérgio Buarque de Holanda, desvirtuando um ideário de pretensões universalizantes. Inaugurada pelos mesmos sentimentos personalistas de outrora, esta res publica não poderia, tão cedo, constituir-se num agregado de cidadãos, a implicar direitos e deveres mútuos. Teoricamente, manifestá-los-ia exemplarmente um ente abstrato, o Estado Nacional Brasileiro, capaz de prover os anseios legítimos da sociedade como um todo. Não foi possível, pois a formalidade jurídica sob a qual procurou assentar-se, a carta constitucional de 1891, tampouco resistiu aos imperativos de um caráter deformado, em que ausentava as mínimas noções de cidadania. Daí, podemos supor, a mania que tivemos (tomara, no passado) de rasgar constituições.   

Todos concordam que o que Euclides nos legou, em boa medida, foi uma peça de acusação, mas este caráter não resume Os sertões, livro suficientemente controverso para permitir conclusões unilaterais. Concordamos com Alfredo Bosi: 
“Os sertões são um livro de ciência e de paixão, de análise e de protesto: eis o paradoxo que assistiu à gênese daquelas páginas em que alternam a certeza do fim das “raças retrógradas” e a denúncia do crime que a carnificina de Canudos representou.” 

O tensionamento captado por essas palavras diz respeito à certeza de extermínio implicar num julgamento cientificamente conservador que eram as convicções do próprio Euclides; o que, paradoxalmente, resulta numa denúncia digna de qualquer consideração política de cunho revolucionário.

Euclides da Cunha foi homem de convicções positivistas, e sempre que pensamos no Positivismo como doutrina social e política se nos impõe uma história de tumultos. Enquanto ideologia catalisadora de algumas das mais importantes forças sociais que atuaram no Brasil, da segunda metade do século XIX ao século XX, o Positivismo até sustentou causas progressistas favoráveis a uma parcela da classe trabalhadora urbana, mas também se deixou levar por métodos extremos, e sua concepção de poder jamais logrou expressões verdadeiramente democráticas. De índole tutelar e autoritária, extravasou os limites da República da Espada e contaminou a ordem civil inaugurada por Prudente de Morais, chefe oligárquico responsável pelo mais traumático dos massacres da história brasileira: essa Guerra de Canudos. O extermínio de uma comunidade de cinco mil almas expôs às claras o nosso belicismo, bem como a incapacidade do regime republicano, mesmo quando de extração liberal, em incorporar à nação as classes humildes, problema crônico do novo regime no seu nascedouro.  

É por isso surpreendente que Euclides não corrobore a noção de “sociedade pacífica”, de acordo com uma das matrizes ideológicas predominantes na elite intelectual, política e militar brasileira, e da qual participa essencialmente. Pelo contrário: prefere enxergar essa mesma sociedade de forma crítica e não encomiástica. A literatura – e aqui pensamos a obra euclidiana em termos literários quanto científicos – nem sempre está ai para fazer exaltações: para isso existem as instituições religiosas, familiares, morais etc; mecanismos poderosos de criação e legitimação de modelos a serem seguidos. O artista, e tal foi Euclides da Cunha, não existe para cumprir este papel: seu sentido está na capacidade, que lhe é inata, de perceber as contradições do organismo social, suas anomalias ocultas, os desajustes individuais e coletivos que nela emergem por todos os lados, enfim, tudo aquilo que problematiza as relações que nos cercam.

Ao proceder à narração de um acontecimento traumático de nossa história, Euclides cumpriu bem este objetivo e tornou-se um dos primeiros intelectuais não só a problematizar como a se preocupar com o tema do povo brasileiro. Tão importante quanto ele foi outro autor íntimo do positivismo, Capistrano de Abreu. Seu livro, Capítulos de história colonial, surgiu logo depois de Os sertões, em 1907; nele, o historiador detalha a ocupação da extensa faixa litorânea e do sertão brasileiro, até os confins da região amazônica, revelando os conflitos, resistências e verdadeiras hecatombes provocadas pelo conquistador no contato com os silvícolas - tupiniquins e tupinambás -, sujeitos ao alvitre de portugueses, bandeirantes e jesuítas, infestando a terra com métodos hoje tidos como violentos quando praticados pelos excluídos.  

Como outro grande nome de nossas letras – Capistrano de Abreu - Euclides demonstra é que nem toda a intelligentsia instruída pelo Positivismo serviu aos propósitos oficiais nem participou de uma concepção de Estado que privilegiasse a violência como mecanismo apropriado de resolução dos seus conflitos internos, preferindo denunciá-la. Capistrano, de sangue indígena, não tinha particularmente nenhum interesse de vindicar as teses positivistas: “Por um ato de vontade e de contorcionismo teórico, nega-se o destino prefixado pelos cientificistas europeus, que afirmam a impossibilidade de uma nação civilizada nos trópicos e ainda por cima miscigenada.”(Cf.: José Carlos Reis, As identidades do Brasil) Isso fará, de acordo com os seus críticos, com que se afaste da matriz original de seu pensamento e realize sua melhor obra sob a guarita do historicismo, modelo que lhe permitiu enxergar a singularidade do processo brasileiro.

A inovação historiográfica germinada por Capítulos de história colonial só de forma mais problemática pode ser entrevista em Os sertões. Problemática porque Euclides, ora acusando a República, ora denegrindo a mestiçagem, denuncia ainda um olhar indeciso sobre a situação do homem sertanejo, embora seja estilisticamente muito enfático. Felizmente, este conflito não o leva a abdicar de uma análise muito pessoal que acaba, de uma forma ou de outra, redimindo os pretensos “inimigos” da República perante a consciência nacional. A despeito de seus preconceitos de formação – aquele amálgama de evolucionismo, naturalismo e positivismo -, quando Euclides atua como denunciante das instituições republicanas, pelo erro que cometem de análise da realidade social brasileira, e, conseqüentemente, pelo massacre que daí advém – oficialmente um ato “cívico e nacionalista” -, acaba enxergando seu país, como depois Capistrano, das vísceras para a epiderme. Foi assim que conseguiu, no limite, dividir opiniões até entre o pensamento marxista.
 
 
 

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POR EM 19/04/2008 ÀS 06:17 PM

A direita radical

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O mundo realmente dá muitas voltas. No livro “América na encruzilhada”, nada menos do que Francis Fukuyama chama de leninista a visão do governo dos Estados Unidos. Ele disse estar perplexo com o projeto de seus compatriotas de comandar uma reforma social, de alto a baixo, no Iraque a partir da guerra de 2003. Tão críticos em relação à idéia de vanguarda política dos soviéticos, diz o autor do Fim da História, os políticos norte-americanos ficaram seduzidos pela missão de corrigir os rumos da sociedade iraquiana. A visão de Fukuyama é reveladora no momento de radicalização do pensamento conservador que se imagina reformista e inovador.

No mercado global de corações e mentes, o ativismo reacionário pode ser visto em figuras como Nicholas Sarkozy e até nos liberais brasileiros. Ambos querem liderar uma transformação social e corrigir os excessos do modelo estatal. Não basta o mercado indicar para onde devemos caminhar – de preferência ao sabor do vento e da maré. Há um radicalismo que remonta ao ativismo dos comunistas. O presidente francês sonha em exterminar os sonhos de Maio de 68. Acabar com a experiência comunista do Leste Europeu foi apenas a primeira etapa para o fechamento total de qualquer possibilidade de mudança. Chegou a hora da verdadeira solução final.

Recentemente, Alan Badiou analisou na revista “New Left Review” que Sarkozy pretende, na verdade, abolir do mundo a “hipótese comunista”. Para o filósofo francês, ele quer apagar do imaginário toda e qualquer noção de justiça social e eqüidade. Chega ao cúmulo de ver totalitarismo em programas de redução de pobreza – uma idéia liberal por excelência. Estamos diante de um “projeto” (que é expressão tão cara a Sartre) de revolução cultural e faxina ideológica. Foi com a mesma disposição que os republicanos iniciaram sua revolução particular nos anos Ronald Reagan (1980-1988) e completaram a obra em George W. Bush (2000-2008).
 
A militância conservadora não vê limites para agir. Na década de 1990, a partir do laboratório da prefeitura de Nova York, os Estados Unidos combinaram o corte nos gastos sociais e o aperto na repressão à criminalidade. Acirra-se a disputa por serviços públicos, e depois chamam a polícia. Um dos mentores da conhecida política “tolerância zero” foi Charles Murray, capaz de formular a incrível tese da “curva do sino”. Segundo ele, negros têm QI menor por fatores hereditários e assim possuem desempenho escolar pior. Em suma, de nada adianta uma compensação para quem já nasce prejudicado. São radicais sem limites e que não brincam em serviço.

O capítulo brasileiro desse movimento começou nos anos 1990, após o fim do muro de Berlim e a consciência de que o país falira. Antes demonizado, o economista Roberto Campos foi resgatado e transformado em pensador. Não sobreviveu para ver a catástrofe econômica de suas receitas. É curioso porque Campos segue a tradição dos autoritários (Francisco Campos, Tobias Barreto, Oliveira Vianna) que se empenharam na construção do Estado brasileiro. Os novos liberais (os economistas do Planto Real e os intelectuais midiáticos) escolheram o desmanche do aparato estatal e apostam suas fichas na “gramática do mercado”.

O empenho é de um militante operário do começo do século XX – daí mais uma semelhança com o comunismo que tanto repudiam. Também há disposição de pregar nas páginas de jornais, de revistas e no ciberespaço. A violência simbólica é a mesma de um guerrilheiro da luta armada dos anos 1960. Mas, ao invés de defender uma idéia de povo e pegar em armas, buscam a doutrinação pela liberdade, livre iniciativa e promessa de felicidade do mercado. E é claro: a extinção da hipótese comunista. A síntese encontra-se nos artigos de um Denis Rosenfield, um Ali Kamel, um Demétrio Magnoli ou um Eduardo Giannetti da Fonseca.

A munição vem de uma retórica truculenta e militante, mas que se diz ao mesmo tempo democrática. Para usar a classificação de Albert O. Hirschman, poderíamos falar até de uma “retórica da intransigência” dos liberais brasileiros. Hirschman nota que os neoconservadores recorreram a partir da década de 1980 a um mecanismo de três teses para combater idéias de esquerda: perversidade, futilidade e ameaça. É possível aplicar esse método no programa bolsa família ou na reforma agrária. Os novos conservadores dirão sempre: ela trará resultados contrários ao proposto (perversidade), não adianta nada (futilidade) e provoca conflito social (ameaça).

A direita radical repete erros que acusa na esquerda revolucionária. E quem diz isso são pessoas como Francis Fukuyama.
 
 

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