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POR EM 14/03/2010 ÀS 01:28 PM

Mérito e reparação: o que lembrar antes que oficializem o racismo no Brasil

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Operários, de Tarsila do Amaral

"Inventaram que responsabilizei os negros pela escravidão. É mentira. Apenas trouxe à luz o que está em qualquer estudo sobre o período: o tráfico de pessoas negras não começou com os europeus, mas entre os africanos; e era negra grande parte dos traficantes de negros"

"As diferenças entre um branco nórdico e um negro africano compreendem apenas uma fração de 0,005 do genoma humano. É a comprovação científica de que raça não existe ou só existe para os racistas"

"Os ongueiros querem que aceitemos a falácia de que a miscigenação ocorreu por estupro. Ou seja, todos os brasileiros que não forem de uma raça pura, segundo a tese racista dos militantes, tiveram sua origem em um crime sexual"


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POR EM 04/12/2009 ÀS 03:59 PM

O corpo sem pulso

publicado em

Yoko Ono e John LennonContra todas as indicações, Fernanda Young posou recentemente para a revista “Playboy”. As fotos mostram muito piercing, tatuagem e palavras escritas em punhos, braços e costas. Nada parece convencional porque se espera, neste tipo de publicação, a mulher fruta com inúmeras próteses para aumentar seios, quadris e lábios. O que aparece ali é muita insinuação de dor e mutilação. O corpo está modificado, não por roupas, mas por meio de intervenções e de inscrições. Pessoas famosas estão exibindo mais as partes cobertas por roupas. Algumas vão além. Fazem filmes de sexo explícito e são entrevistadas no talk show de Luciana Gimenez (uma espécie de Paul Johnson da televisão brasileira). Leila Lopes contou, certa vez, que não sentia nada em termos sexuais nas filmagens. Só muita dor física. Os homens tomam Viagra para manter a perfomance durante cinco horas na mesma posição. As mulheres passam Xilocaína nas partes íntimas.

Tudo vira performance. Vinte anos atrás, Cazuza descobriu que era soropositivo da "maldita", como dizia na época, a doença que pune a sexualidade, e apareceu na capa da revista “Veja” (a versão impressa do programa Super Pop). Um corpo magro, debilitado, rosto esquálido, para chocar e vender revista de lixo cultural. As reações foram imensas. A esfera pública acabou de mutilar o que restava do compositor. Câmeras viram biopoder. Annie Leibovitz fotografou a progressiva doença de sua parceira Susan Sontag. As dores, a perda de cabelo e, por fim, o cadáver. Fez o mesmo com os próprios pais, em seu envelhecimento, a flacidez dos braços. O que pareceria vulgaridade, tornou-se vida pelas lentes da fotógrafa. Foi ela quem convenceu John Lennon a posar nu, abraçado à mulher Yoko Ono, e no mesmo dia o beatle morreu com tiro disparado por um aloprado. O corpo morto de Lennon não apareceu mais. 


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POR EM 16/11/2009 ÀS 02:34 PM

Jornalistas raramente entendem o regime totalitário de Cuba

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Fidel CastroMesmo repórteres experimentados têm dificuldade para explicar o regime totalitário de Cuba. O correspondente do “El País” em Havana, Mauricio Vicent, publicou ótima reportagem sobre Fidel Castro no domingo, 8, mas, como muitos outros jornalistas, não interpreta com precisão o funcionamento do sistema comunista. Traduzo e comento alguns trechos de seu texto, expandindo aquilo que mostra e discute de modo superficial. Mauricio Vicent construiu sua longa reportagem, “Vida secreta de Fidel Castro”, baseado quase que exclusivamente em fontes anônimas, o que é natural, pois os cubanos, mesmo autoridades graduadas, temem dizer qualquer coisa a respeito do chefão; o que parece agradar pode desagradar. A intimidade e a saúde do Al Capone da esquerda são segredo de Estado. “Hoje”, diz uma fonte anônima, Fidel “verdadeiramente está fora do poder, dedicado às grandes estratégias e aos problemas mundiais”. Se está fora do poder, como aceita o repórter do principal jornal espanhol, como pode se dedicar “às grandes estratégias”? Elabora estratégias para quem? Para o regime do qual é tutor. Na “ausência” do imperador, Raúl Castro, o irmão Débil & Loide, é no máximo regente.

Embora não tenha conseguido entrar na casa de Fidel, Mauricio Vicent colheu informações detalhadas. “Punto Cero [Ponto Zero] é o nome para designar o lugar da residência de Fidel.” O chefão “aposentado” e sua mulher, Dalia Soto del Valle, com quem tem cinco filhos, moram numa casa de quatro quartos, com piscina (luxo em Cuba) e amplo jardim. Nas casas próximas moram filhos, noras e netos. O “sultão comunista” teme ser morto e é protegido 24 horas por dia. Paranoico, costuma dizer que é vigiado, até quando vai ao jardim, por satélites espiões americanos.


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POR EM 10/11/2009 ÀS 10:35 AM

Com o dedo na garganta

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F GullarEm 1975, no auge da ditadura militar brasileira, o poeta Ferreira Gullar estava na Argentina na situação de exilado. A capital Buenos Aires era mais uma parada na longa fuga que começou pela União Soviética e passou por Lima no Peru e Santiago do Chile. Sua família se esfacelara: a esposa e um dos dois filhos haviam retornado ao Rio de Janeiro. O outro filho desaparecera naquele ano, durante o exílio argentino, em mais um surto psicológico. Os filhos tinham grandes problemas emocionais agravados pelo uso de drogas. Criou-se o vazio na vida daquele intelectual, membro do Partido Comunista e um dos conhecidos representantes da classe média que decidira resistir aos militares.

O clima de “respiração artificial”, para usar uma expressão de Ricardo Piglia, se acentuara na Argentina, às vésperas de mais um golpe político que viria a se concretizar em 1976. “Surgem rumores de que exilados brasileiros estavam sendo seqüestrados em Buenos Aires e levados para o Brasil com ajuda da polícia argentina”, diz. Quando escreve esse relato mais de 20 anos depois, no livro de memórias “Rabo de Foguete” (1998), Gullar sabe que se trata da Operação Condor, na qual os países do Cone Sul atuaram em conjunto para identificar os opositores de um governo que estivessem refugiados em países vizinhos. Na época, a única sensação era a de pavor e necessidade de exprimir, em palavras, aquela situação irrespirável.


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POR EM 09/11/2009 ÀS 01:50 PM

O intelectual do século

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Sartre Existem poucas situações mais risíveis do que as infindáveis discussões entre dois pretensiosos donos da verdade. Podem ser muito divertidas, render diálogos dos mais irônicos, dignos de Woddy Allen. Lembro-me que há alguns anos meu amigo Alencar Arrais, dileto historiador, e eu discutimos durante dias quem teria sido o mais importante intelectual do século XX. Meu interlocutor defendia, concordando com um cânone publicado, creio eu, pela “Folha de São Paulo”, o nome do sociólogo alemão Max Weber. Eu não tinha dúvidas: o intelectual do século XX tinha sido o francês Jean-Paul Sartre. Sei muito bem que a produção de Weber é mais consistente, mas, ainda assim meus argumentos eram, em meu entender, indiscutíveis: além de sua vasta obra filosófica e artística, Sartre tinha a seu favor sua polêmica atuação política, a admirável petulância de recusar o Prêmio Nobel de Literatura e, talvez acima de tudo, o fato de ter sido um inexplicável símbolo sexual. O homem foi a práxis existencialista encarnada em carne, osso, óculos e cachimbo. Contudo, obviamente as discussões entre donos da verdade tradicionalmente não tem fim, como esta não teve. Foi apenas deixada de lado, vencida pela exaustão. Mas vai voltar. O lançamento do livro “O Século de Sartre – inquérito filosófico”, do filósofo francês Bernard-Henri Lévy, dá-me farta munição para reabrir a nossa insignificante polêmica pessoal. 
           
“O Século de Sartre” não é uma mera biografia crítica sobre seu personagem título, vai muito além disso. É, sim, um verdadeiro inquérito filosófico sobre o impacto que o pensamento sartriano teve no século XX. É também uma proposta de redescoberta de seu pensamento. Apesar de Sartre nunca ter sido esquecido, tendo lugar cativo entre os gênios de todos os tempos, a decadência das utopias de esquerda que coincidentemente se seguiram a sua morte, ocorrida em 1980, relegou sua filosofia a desconfortável condição de peça de museu: fundamental como instrumento de análise de uma época, mas datada, ingênua e equivocada, quando fora de seu contexto histórico. Sartre que em vida foi uma longa coqueluche intelectual, uma moda que durou quarenta anos, depois de morto, ao contrário de alguns de seus contemporâneos, como Foucault e Camus, nunca entrou em moda. De certo modo, sua morte foi um alivio. Sartre fez barulho demais, incomodou demais, foi camaleônico demais ao longo de sua carreira para ser plenamente inteligível. O melhor seria mesmo deixá-lo no limbo de Dante, pensaram os sobreviventes.


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POR EM 06/11/2009 ÀS 11:18 PM

Da crítica exacerbada e da percepção estrábica

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homem_comprimidoEventos Pastelaria. Saborosos pastéis de vento e sopro, fritos na hora. Entre, prove, confira. Sinta no rosto o bafor ao sabor do nada dentro do pastel empapuçado. Mas então o nada não é o vento que há lá dentro? Opa! Ó paí ó! Não é este o assunto. Afasta de mim o homem do megafone, apregoando pastel de vento. Sai do meio, recheio! 

Antes de prosseguir, afixo o aviso aos navegantes do Nautilus, a lâmina prateada dos oceanos e do capitão Nemo — “Vinte mil léguas submarinas”, de Julio Verne —, bem como aos internautas da nave Bula, visitantes e colegas: o texto que se segue é longo, sujeito a mutucas e pernilongos. E o bafo quente por aqui é outro, quente que andou o tempo num entrevero de linhas cruzadas — bu(r)lesco episódio — em que os contendores iam de meros comentários ao tirocínio de seus talentos, que cada um os tem a seu tanto, alguns mais, outros menos; já outros, por certo, movidos por inconfessas idiossincrasias de foro íntimo, parece que um despeito próprio de mentes incultas, ou menos cultas. Uma gente pequena e complexada no rodapé de seu pobre intelecto; uma sombra esperneando-se na obscuridade da massa cinzenta. De alto ou mediano talento, e de outros nem tanto, o que às vezes falta é o mútuo respeito, equilibrado pela consideração dos limites — tanto intelectuais quanto morais —, ponderado pelo bom senso de cada um, aparadas as arestas das diferenças, sopesada a intempestividade, contido o explosivo temperamentalismo. 

À parte a crassa ignorância, que a essa não é mesmo de se respeitar — nem há como ela própria (com moela, galinha cega) se dar o devido respeito —, conquanto ser de se levar em conta por alguma tolerância, mas sendo de ressalvar-se, todavia, que também a tolerância tem limite; nem por isso partir para a barbárie verbal, que só faz rebaixar ainda mais o nível dos debates. A questão crucial é: como contornar a cega ignorâcia, que prescinde do aprendizado e persiste na burrice, na idiotice, primando pelo patético, pelo ridículo, apenas pelo prazer do espírito de contradição? Ó trevas! Haja sabedoria! Corolário do conhecimento. 


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POR EM 09/10/2009 ÀS 02:14 PM

A morte de Euclides da Cunha

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Euclides da Cunha fora deixado entrar na casa de Dilermando de Assis pelo aspirante da Marinha Dinorah de Assis, irmão mais moço do amante de Saninha. Inteiramente dominado por desvario — “Vim para matar ou morrer” —, revólver em punho, Euclides está defronte a Dilermando, no quarto deste. “O que é isto, doutor?”, o cadete pergunta assustadíssimo. “Corja de bandidos!” — é a resposta-exclamação do escritor. E atira contra Dilermando, “quase à queima roupa”. Ferido e despossuidor de arma naquele momento, o cadete tenta tomar a arma do agressor, avançando com a mão esquerda. Euclides recua e o agredido só consegue agarrar a manga do seu casaco. Recebe um seguro tiro e cai, atingido no peito e a sofrer dores horríveis, estonteado completamente. Dinorah, vendo o irmão ferido e caído, procura agarrar-se a Euclides e desarmá-lo. O escritor atira também contra ele. Dinorah, sem arma alguma, corre em direção ao seu quarto. Euclides acerta-lhe um tiro na coluna vertebral. No momento, Dinorah não sente consequências desse tiro. Nem mesmo por algum tempo. Tanto que daí a uma semana ainda participa de uma partida de futebol pelo seu clube, o Botafogo de Futebol e Regatas, pelo qual ainda vem a se sagrar campeão daí a poucos meses. Mas algum tempo depois começa a sentir hemiplegia. A lesão o inutiliza. Angustia-se. Entra em depressão profunda, suicida-se aos 32 anos, saltando no mar. Sobre esse fato, Dilermando irá registrar em famosa entrevista ao escritor Francisco de Assis Barbosa, publicada pela revista “Diretrizes” em 1941: “Vendo-me em perigo, tenta desarmar Euclides, que dispara contra meu irmão. Desarmado, este corre pelo corredor e ao aproximar-se da porta do seu quarto, Euclides acerta-lhe um disparo na coluna vertebral, inutilizando meu desventurado irmão pelo resto da sua vida” (Este resto de vida foram 12 anos culminados com o suicídio).

Euclides da Cunha escuta os gritos de Saninha e dos meninos (Sólon e o pequenino Luiz, de 2 anos e alguns meses estão com ela escondidos na despensa). Dilermando, caído, vê Dinorah também prostrado, enxerga Euclides e escuta Saninha e as crianças. Apanha o seu revolver e dá um tiro na direção oposta à que estava Euclides, só para amedrontá-lo, mas dando prova de se achar em condições de reagir. Euclides volta pelo corredor no rumo da sala de visitas mas, para surpresa de Dilermando, retoma o ataque. Outra vez para amedrontar o atacante, o cadete atira novamente contra a parede. Como o escritor continua a disparar, Dilermando tenta desarmá-lo com um tiro no punho. Não acerta direito porque Euclides levantara a mão, para alvejar Dilermando. Erra o alvo mas, mesmo assim, o disparo fere Euclides no pulso, sem lhe derrubar a arma. No início do corredor, junto à sala de visitas, Euclides, encostado à parede, atira contra o desafeto (campeão de tiro do Exército) e este grita para ele:

— Fuja, Dr. Euclides, pois não lhe quero matar!


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POR EM 06/09/2009 ÀS 10:44 AM

A morte de Euclides da Cunha

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A morte de Euclides da Cunha tem todos os elementos de um folhetim: traição, drama, suspense. Mas falar em uma “conspiração política” é uma hipótese esdrúxula em face da verdade histórica secularmente registrada. O primeiro ponto que deve ser assinalado para se explicar a morte de Euclides da Cunha é o que diz respeito aos caracteres patológicos da sua personalidade. O genial escritor era um doente

Euclides da Cunha

Matéria publicada no suplemento “Mais” da “Folha de São Paulo”, no dia 2 de agosto último,  salienta que durante muitos anos, até recentemente, biógrafos e críticos de Euclides da Cunha visaram em suas obras  a defesa da honra do autor de “Os Sertões”. Dessa preocupação haveria de resultar, naturalmente, o escamoteamento da verdade sobre como e por que aconteceu a morte do inditoso escritor.

Agora mesmo, no penúltimo domingo do agosto que terminou na última segunda-feira, pelo canal da “Globo News” foi apresentada reportagem em que se pretendeu,  por parte de dois pouco conhecidos   historiadores, criar nova versão relativa ao homicídio que vitimou  Euclides.  Pretendem  eles, contra todas as evidências jamais postas em dúvida de 15 de agosto de 1909 até hoje, transformar em crime político a dolorosa tragédia passional — inúmeras vezes considerada a maior ocorrida no Brasil do século XX — na qual, além da morte do escritor, se viram  alvejados gravemente  os irmãos Dilermando e Dinorah de Assis, este um jovem atleta do Botafogo, cuja lesão lhe acarretou hemiplegia e daí a quatro anos o suicídio. Tragédia que se desdobrou sete anos depois, quando Euclides da Cunha Filho (Quidinho), com vinte anos de idade,  tentou vingar a morte do pai e acabou morto por certeiro disparo de Dilermando de Assis. Que, pela segunda vez, matou para não morrer.

Um desses historiadores — Claude Rodrigues — diz  que “Euclides da Cunha teria sido assassinado por uma conspiração política”. O tempo verbal já por si afirma  ausência de argumentos para uma afirmação. Claude Rodrigues nenhum fato aponta  capaz de imprimir seriedade às suas especulações, de espantosa fragilidade em face da verdade histórica secularmente registrada. Vale repetir: ele não apresenta um só fato para espeque de hipótese tão esdrúxula.  Já a historiadora Maria Olívia limita-se a dizer, na entrevista ao mesmo programa da  “Globo News”,  que “algumas instituições ‘sacralizadass’  deram um jeito desse crime acontecer”. Que jeito foi esse ?  Que instituições “sacralizadas” eram essas?  O telespectador ficou sem informação alguma. O leitor verá pelos fatos colacionados a seguir que os dois “historiadores” foram,  infelizmente, in casu,   no mínimo inconsequentes. O que é lamentável, pois os telespectadores que até hoje não tiveram oportunidade de conhecer a história protagonizada por Euclides da Cunha pai e Euclides da Cunha Filho, Ana Emília Ribeiro da Cunha (Saninha), Dilermando de Assis e seu irmão Dinorah,  ao influxo das  especulações de dois intelectuais que se apresentam como estudiosos euclideanos — mas que com relação ao fim trágico dele suscitam versão absurda, inimiga dos fatos — poderão imaginar ou aceitar   uma hipótese destituída de qualquer fundamento, indigna de com ela se gastar tempo.

O primeiro ponto que deve ser assinalado para se explicar a morte de Euclides da Cunha é o que diz respeito aos caracteres  patológicos da sua personalidade. 

O genial escritor era um doente. E isto foi revelado convincente e insuspeitamente já sete dias depois da sua morte.  No dia 22 de agosto de 1909, o escritor Júlio Bueno, que foi seu amigo de estreita convivência na cidade mineira  de Campanha — onde Euclides morou de março de  1904 a meados de  1905, ao impacto ainda muito forte das  notícias  dos jornais cariocas sobre a Tragédia da Piedade, conta  em artigo publicado no jornal  local “O Muzambinho”:

“Conheci na intimidade o notável autor dos ‘Sertões’, na Campanha, quando ali estivera como engenheiro militar, encarregado da Santa Casa para quartel do 8º.Regimento de Cavalaria.

Já nessa época distante, uma neurastenia incipiente começava a perturbar a vida agitada do moço militar, cujos surtos intelectuais não tardavam a desabrochar. Aí, na quietude da cidade sul-mineira, lhe ocorre escrever ‘Os Sertões’, que o tinham de imortalizar. Entre os livros que lhe emprestei e que ele devorava numa grande ansiedade, um lhe fez grande mossa e talvez fosse o inspirador dos ‘Sertões’: é o livro de E. Liais, ‘Geologie, flore, faune et climats Du Bresil’.
 
Para provar que a neurastenia já  nessa ocasião começava a minar latente o organismo vibrátil de Euclides da Cunha, vou relatar uma feição característica do seu temperamento nervoso, de seu espírito agitado.

Vizinhávamos e era raro o dia em que não jogássemos uma inocente partida de inocente gamão.

Dentro em breve compreendi que tinha diante de mim um doente. A princípio, eu fazia o meu jogo, empenhado em ganhar a partida. Porém, como isto sucedesse  várias vezes seguidas, percebi que Euclides ficava exacerbado, trêmulo, terminando sempre por sair pisando forte e sem se despedir.

Uma vez que prendi suas távolas no canto extremo do tabuleiro, fechando todas as casas desse lado, o moço, transfigurado, levanta-se e me intima que deixasse uma aberta por onde pudessem sair as suas. Eu, com a maior calma, retorqui:

Mas, Dr. Euclides, isto não é permitido. Do contrário, perderia todo o interesse a batalha.

Bramou ele: — Eu não sou escravo de regrinhas de jogo, ouviu? Isto é mera convenção. Fica para nós estabelecido que não se deve bloquear o adversário, inutilizando-o, deixando-o na atitude vexatória de um inativo.

Compreendendo o que desejava o meu adversário, assenti na adoção de uma regra nova no mais velho dos jogos. Disse-lhe simplesmente, com a maior bonomia: — Seja assim.

Dr. Euclides ganhou a partida. Então, levantou-se muito ufano, muito radiante, dizendo-me: - Você vai aprender para jogar comigo. Fique sabendo que eu sou invencível no gamão.

Eu concordei com o caro amigo, não querendo extinguir aquela alegria...”

E Júlio Bueno, depois de registrar que, nesse tempo, 1985, conheceu a esposa de Euclides; e que esta “era uma verdadeira dona de casa”, assinala:

 “Exercia ela, felizmente para a felicidade do lar, um grande ascendente sobre o marido, aconselhando-o, advertindo-o, procurando arredá-lo das bancas de jogo, visto lhe conhecer o gênio arrebatado, o seu temperamento impulsivo.”

Continua: “Era comandante do 8º. Regimento de Cavalaria o coronel Cristino Bittencourt, que, como o seu ilustre irmão, ministro da Guerra de Prudente, era verdadeiro tipo de oficial, devotado à disciplina mais rigorosa. Não ria nunca, mesmo com as mais elevadas patentes do Regimento.

Nas rodas oficiais e de civis, quando o coronel Cristino chegava, a conversa era mais sóbria, mais circunspecta, mais disciplinada. Euclides era o único que se rebelava contra aquela atmosfera de formalismo. Ele contava, com a maior ‘sans façon’, pilhérias picantes, que provocavam do tenente Arduino boas gargalhadas.  O próprio comandante desenrugava a fronte e sorria.

Em Campanha, Euclides da Cunha teve a prova da estima daquele povo generoso, que sabia aquilatar do valor do grande patriota. Lá está a praça que fica em frente à Santa Casa com o nome imortal de Euclides da Cunha.

Mas aquele grande espírito tinha uma falha; aquele imenso coração tinha um ponto; aquela alma adamantina, como um novo Gulinan, tinha uma jaça; aquele Himalaia de patriotismo, de dedicação para os fracos, para os oprimidos, para os pequeninos, para os infortunados, tinha uma caverna escura; como Aquiles, o herói de Homero, tinha um ponto vulnerável; aquele cultor apaixonado do dever tinha um senão: essa falha, esse ponto negro, essa jaça, essa caverna escura, esse ponto vulnerável, esse senão, era o abandono moral da companheira, daquela que, cheia de sustos, cheia de afeto, de carinho, de zelo, de dedicação, o aconselhava, o advertia, o arredava dos perigos, procurando cercá-lo de uma atmosfera de calma e de repouso. Porém, o grande homem, por uma fatalidade idiossincrásica, correspondia mal a essas disposições da esposa.”

E o culto amigo e companheiro de Euclides em Campanha conclui, sem que o seu importantíssimo depoimento, feito num jornalzinho do interior mineiro sete dias depois da Tragédia da Piedade, tenha sido jamais levado em conta pelos biógrafos de Euclides e por nenhum historiador:

“Daí a tragédia que durou tantos anos a ser representada, tendo o seu desfecho fatal na cena da Piedade, cena que nos enche de pavor e de imensa comiseração, mas que seria inevitável, fatal, dados os precedentes que a determinaram.”       
            
Sobre o comportamento de Euclides em relação à mulher e aos filhos há também o documento enormemente  expressivo que é esta carta do seu próprio pai, dirigida  a ele quatro anos antes da tragédia:               

“Não tens sido franco nem leal comigo. Temos estado juntos algumas vezes, eu aí estive ultimamente até retirei-me bem aborrecido e até hoje não conheço nada dos teus recursos. Sei apenas que tens quantia não pequena em um banco de Manaus, e, entretanto, se eu tivesse conhecimento pleno da tua vida, ser-me-ia fácil e até agradável dar uma direção vantajosa a esses recursos , pois, para isso, sobra-me experiência. Nada me disseste, eu compreendi somente que havia falta de confiança, mas,como esta não se impõe  a ninguém,  retirei-me daí apressadamente e contrariado, não só por isso, como também pela forma estranha como tratas tua mulher e filhos, sobretudo a Sólon, a quem mais estimo. Pensei que o trato que tens feito e sobretudo os meus conselhos tivessem modificado a tua maneira de viver, mas encontrei os mesmos destemperos, a mesma desordem de outrora.”

Eloi Pontes, autor de “A Vida Dramática de Euclides da Cunha”, livro provocador de indignada reação do  homem que matou o exponencial  narrador e intérprete da guerra de Canudos, reconhece  o lado mórbido do seu biografado:

“Os anos correm, mas a espécie de patofobia (em Euclides) nunca se enfraquece. Suas crises coincidem com as crises de fadiga moral, pessimismo e dúvidas de ordem econômica. Certo é pouco robusto. A dispepsia incoercível persegue-o a vida inteira, agrava-lhe os ímpetos de tristeza e mau humor. Os receios, que o atormentam, delatam mais que simples padecimentos orgânicos. Revelam descompassos psíquicos incuráveis.”

Tuberculoso, Euclides tem fortes crises de hemoptise.  Eis como descreve  seu quadro patológico em  carta a Domício da Gama:

“O haver dobrado o cabo melancólico  dos 40 não remove inteiramente o espantalho da tísica. A prova está em que somente hoje deixei de acordar com febre; e estou plenamente certo de que, se abandonar o regime que me  impuseram, não resistirei — tal o depauperamento e a miséria orgânica a que cheguei.”          

Quando Saninha (30 anos, três filhos)  e o jovem cadete (17 anos) Dilermando de Assis se conheceram, Euclides da Cunha se encontrava no Acre em missão delegada pelo ministério das Relações Exteriores, sendo ministro o Barão do Rio Branco. O escritor saíra do Rio a 4 de dezembro de 1904. Na região amazônica, ficara três meses em Manaus. Em abril  partira para o Acre, como chefe da Comissão do Alto Purus, encarregada de defender os interesses do Brasil em questão de limites com o Peru, objeto de negociação  diplomática.  Somente 1 ano e 1 mês  depois de sua partida, retorna ao Rio, a bordo do navio Tennyson. Saninha e Dilermando já se haviam apaixonado uma pelo outro desde setembro de 2005. O romance começara na Pensão Monnat, à rua Senador Vergueiro,  14, Rio de Janeiro.

Ausente o marido, Saninha morava com  duas tias de Dilermando de Assis — Angélica e Lucinda  Ratto naquela pensão. Vindo  de São Paulo, de onde retornava ao Rio  a fim de estudar na Escola Militar da Praia Vermelha, da qual no ano anterior fora expulso por participação na chamada revolta  do “Quebra Lampeões”, recentemente anistiado, passa na casa de hospedagem para fazer entrega de encomenda feita por  uma daquelas tias.  Ali revela onde está a residir. As mulheres, com a alegação de que ele deve morar  em local perto da Escola, convencem-no a  se hospedar  na Pensão Monnat. Aí acontece o que ele mesmo  assim descreve no seu livro “A Tragédia da Piedade”, publicado em 1950:

“Morando na Fortaleza de São João, em casa de meu padrinho, atendendo ao pedido por estas duas senhoras feito, concordei em ficar fazendo-lhes companhia no prédio onde haviam tomado cômodos, à Rua Senador Vergueiro, número 14. Já porque ficava mais próximo à Escola, aonde devia ir ter em breve, já porque me emancipava do rigoroso horário dos escaleres daquela praça de guerra, tal aceitação se impunha. Convinha-me, por isso.

Contava, então, dezessete anos e nenhum mal se me afigurava ir naquela decisão, pois via ali a casa de uma parente e de uma amiga de minha mãe, e nunca a de meu desconhecido, Dr. Euclides da Cunha, cujo nome nem ouvia falar. Jamais imaginara desse passo adviesse tanta desventura nem no que podia degenerar.

A convivência acarretando a intimidade; a falta de experiência ou  malícia permitindo a aproximação mais íntima; a vida não mais de enclausurado abrindo novos horizontes; as leituras em comum despertando fantasia; a puberdade despertando encantos; os espetáculos inviscerando devaneios; a coincidência de predileções desportivas trazendo o embevecimento; o retiro facilitando o império da natureza; a ausência de um conselho protetor que advertisse do curso da idolatria prestes a converter-se em paixão e tantas outras circunstâncias, já materiais, já morais, ora de maior, ora de menor monta, que seria ocioso enumerar, tudo concorreu para o despertar de novos sentimentos. E assim, nessa ebriez incontível, imperceptivelmente se consumou o meu crime. Porque é só onde vejo a transgressão à Lei: no ter amado, aos dezessete anos, uma mulher casada cujo marido não conhecia e se achava ausente, em paragens longínquas, sem mesmo ser lembrado, sequer por inanimada fotografia. Era a fatalidade, tinha de ser assim, tal havia de suceder de setembro a outubro de 1905.”                       

Desse texto sem dúvida bem escrito em que Dilermando de Assis sintetiza com perfeição as circunstâncias que envolveram Saninha e ele, ausentes  estão  apenas a energia, a vitalidade, o garbo do jovem alto e atlético, a  “insanidade da adolescência” de que fala Ruy Castro sobre Herman Melville em breve ensaio, a propósito de “Moby Dick”; e a atração por ele, Dilermando,  exercida sobre uma mulher  bonita e intelectualmente prendada, carente de afeto e de sexo.  

Resultou tudo isso num romance imensamente tórrido e numa tragédia esquiliana, em que a realidade parece superar  a  ficção.                             

Euclides da Cunha retorna, l ano e 1 mês depois de sua partida, de sua missão na Amazônia, a 5 de janeiro de 1906, a bordo do navio Tennyson.  No cais do porto da cidade do Rio envia telegrama a sua mulher, avisando de sua chegada e solicitando que ela ali o vá encontrar. Pormenor interessante: a mensagem telegráfica é endereçada ao dono (Sr. Fonseca) de um armazém do qual, naqueles 13 meses, se abastecera, para alimentação da família, a mulher do escritor. 

Saninha, surpreendida, pois não sabia do regresso do marido, não vai ao cais. Pede que Dilermando vá. O cadete faz a recepção, causa, naturalmente, de estranheza para Euclides, a quem é apresentado como “filho da sua comadre Angélica”.  Em casa, Saninha entrega uma carta a Euclides, propondo-lhe a separação e dizendo-lhe  que quer se divorciar, pois em sua ausência o havia traído. Euclides pergunta se ela havia profanado o seu corpo.  Ela responde que traira “apenas espiritualmente”. Euclides diz que se assim fora —  “apenas espiritualmente” — a perdoava. Não se justificava o divórcio.

Mas Saninha está grávida. Euclides suspeita ter ela cometido adultério. Suas relações sexuais  com ela eram muito recentes. Passa a  tratá-la com rispidez.

Dilermando, percebendo desconfiança de Euclides, escreve-lhe carta em que procura desfazer as suspeitas. Euclides da Cunha, também por carta, responde desta forma ao jovem cadete:

“Dilermando, não querendo demorar a resposta à sua carta de ontem, escrevo-lhe neste papel, certo de que me desculpará. A minha resposta é simples: há grande, absoluto engano no que imagina. A questão é muito outra — e você é inteiramente estranho a ela. Veja o inconveniente de se tirarem deduções de atos e palavras isoladas. Além disso, apesar de aborrecido por um sem número de contrariedades, julgo que não o trato mal. Na sua idade nunca se é um homem baixo. Não creia que lhe houvesse feito tal injustiça. A minha casa continua aberta sempre aos que são dignos e bons. Não poderá fechar-se para você. Quando souber a razão do meu aborrecimento, avaliará a injustiça que fez a si próprio e a mim. Até sábado. Estude, seja sempre o mesmo rapaz de nobres sentimentos, e disponha dos poucos préstimos do am, crdo, obr,  Euclides da Cunha.”

Dilermando, em entrevista à revista “Diretrizes”, mais de 30 anos após a Tragédia da Piedade, confessa  que “era uma bela lição de moral que eu recebia. Fiquei profundamente chocado com essa carta. Senti que não andava bem. Mas que fazer naquela contingência? Tinha que ficar calado, do contrário seria pior.”

A professora Walnice Nogueira Galvão registra, em “Crônica de Uma Tragédia Inesquecível” (livro de 2007 que contém todo os autos do processo sobre a Tragédia da Piedade),  sobre essa carta de Euclides, haver lhe afirmado o jurista  Osvaldo Gallotti  constituir-se ela num documento que o “espírito científico”  impunha constar da epistolografia de Euclides. Por que imposição do “espírito científico”? Porque atesta a instabilidade e a fragilidade psíquicas do autor de “Os Sertões”, eis que eram notórias suas suspeitas sobre as relações dela com Dilermando, desconfianças demonstradas principalmente perante este, que por esse motivo escrevera aquela carta ao escritor.                              

Seis meses depois do regresso de Euclides nasce a criança que ganhará o nome Mauro e morrerá daí a apenas sete dias. De debilidade congênita, afirma o laudo médico. De inanição, dirá mais tarde Saninha, consequente do impedimento, por parte de Euclides, de se alimentar o recém-nascido, conforme afirmação da filha Judith no livro “Anna de Assis — História de um Trágico Amor”,  texto de Jefferson Ribeiro de Andrade.

Meses depois, o nascimento de um menino louro, olhos azuis, que ganha o nome de Luis.

Euclides da Cunha recebe em  casa visita do casal Coelho Neto. O famoso escritor é um dos seus maiores amigos. Euclides, mostrando ao casal os cabelos louros da criança: “É como uma espiga de milho no meio de um cafezal.”

Saninha propõe vezes repetidas a separação. Euclides não aceita. “Essa mulher me domina!” —  exclama um dia.

Até que no dia 13 de agosto de 1909 — data da última aula de Euclides no Colégio Pedro II, na cadeira de Lógica que disputara com o filósofo Farias Brito, em concurso  no qual este obtivera  o primeiro lugar, sendo, no entanto, preterido em favor do autor de “Contrastes e Confrontos”, segundo colocado  — Saninha sai de casa e vai para a de Dilermando e Dinorah, situada no bairro da Piedade, na Estrada Real de Santa Cruz.

Euclides da Cunha decide buscá-la. Não sabe onde ela está. Na procura, é informado do seu paradeiro.  Um primo fornece-lhe um revólver. Na casa número 14 da Estrada Real de Santa Cruz, onde estão Dilermando, Dinorah, Saninha e os filhos Sólon e Luis, após ter sido permitida (por Dinorah) sua entrada, Euclides aponta a arma para Dilermando e, inteiramente desvairado, como um louco, exclama: — Vim para matar ou morrer. 
                           
 


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POR EM 22/08/2009 ÀS 11:42 AM

“Katyn”, de Andrzej Wajda e “Homicídio” de David Mamet

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Fidelidades dilaceradas em "Katyn” e "Homicídio" e um pequeno regresso a "O Leitor"

 


Um grupo de refugiados aproxima-se do meio de uma larga ponte sobre um rio qualquer da Polônia. É setembro de 1939. No sentido contrário caminha um outro grupo de refugiados. Inevitavelmente se cruzarão. Muitos deles se conhecem. São vizinhos, são parentes, amigos. Querem se prevenir uns aos outros, alertar sobre a fera que de ambos os lados os acossa. Qual decisão tomar? Retroceder? Avançar? Pressionados de um lado pela invasão nazista, de outro pelos soviéticos —  naquele momento ainda aliados. Que rumo tomar? Para onde ir?

Outra cena, a seguinte talvez, não me lembro. A mulher vai ao encontro do marido, oficial do exército polonês, refém dos soviéticos a poucos quilômetros dali com milhares de companheiros de farda. Pede que ele venha, que partam juntos dali, que ele precisa protegê-la e à filha deles. —  Você jurou a mim... perante Deus. Até que a morte nos separe, você esqueceu? Voltando-se na direção dos outros o homem responde: — Jurei a eles também.  O que fazer, então? Qual direção tomar? Uma ou outra fidelidade se verá dilacerada.

Estas são as cenas iniciais de “Katyn”, o filme de Andrzej Wajda acerca do massacre de mais de dez mil oficiais do exército polonês aprisionados pelo exército de Stalin, no início da II Grande Guerra. (Aqui no Rio esteve em exibição durante uns poucos dias num pequeno cinema escondido do grande público. Agora saiu em DVD.)

No entanto, há diferenças entre um e outro exército, como da mesma forma há diferenças entre os campos de concentração nazistas e o Gulag soviético, ao contrário do que parte significativa dos historiadores gosta de afirmar. É o que faz, por exemplo, a francesa Annete Becker no de resto excelente “História do Corpo —  As Mutações do Olhar. O Século XX”, no capítulo “Extermínios —O corpo e os campos de concentração”. Não que não fosse tanto ou mais abominável o Gulag que Auschwitz-Birkenau —  lembre-se que os campos stalinistas ajudaram a exterminar, além de vidas, a esperança de uma sociedade não-capitalista. Apenas eram fundamentalmente distintos, tanto nos métodos quanto nos propósitos —  como aponta Anne Applebaum em “Gulag —  Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos”. Nada há de inocente na ignorância de fatos do conhecimento como estes —  e também a sra. Appletbaun comete lá as suas inocências.
 
Um diálogo em “Katyn” 


A mulher de um dos oficiais poloneses executados conversa num parque com um dos sobreviventes quando uma dupla de oficiais russos passa por eles e o homem se levanta para bater continência. Ela vira-se para ele e diz:

—  Você cumprimenta os assassinos como se fossem vencedores.

— Não faz diferença se são soviéticos ou alemães. Ninguém ressuscitará os mortos. Temos que sobreviver, perdoar. Temos que viver.

—  Você é igual a eles. Pode pensar diferente mas é igual. O que importa pensar diferente?”

Duas mulheres polonesas na Polônia pós-guerra, ocupada pelos soviéticos. Uma delas trabalha na Universidade sob o novo regime. É a outra quem diz:

— Você encontrou um lugar nesse novo mundo, enquanto eu estou naquele onde Piotr (morto na luta contra a ocupação) está. Se tiver que escolher, eu fico com ele.

—  Você escolhe os mortos...
—  Não, eu escolho os assassinados, não os assassinos.

Aqui novamente do que se trata é de fazer escolhas, às quais não se deveria nunca abdicar.
 
Música dissonante
 
Às vezes pode valer a pena ceder ao culto televisivo das espetaculosas aberturas e festas de encerramento dos grandes aglomeramentos esportivos tipo Olimpíadas, etc. Um estupendo mau gosto, vazio e desinteressante que atrai a atenção e amesquinha a emoção de milhões de telespectadores. Além de disputarem-se medalhas, disputa-se intermitentemente o agigantamento da grandiloqüência do show, ad eternum.

Por uma espécie de acidente de um desses dias modorrentos assistia a abertura ou encerramento de uns tais Jogos de Inverno (solenemente narrada pelo locutor). Era o início da última década do século XX, 1992, para ser exato.

Alguma coisa prestava no show, imiscuindo-se contra o emburrecimento. Ao invés de amontoados concêntricos e repetitivos, movimentos de harmonia assimétrica, música dissonante, lúdica, percussiva —  na TV! Circense. Uma mecânica lindamente endoidecida, robótica inconclusa e quebrada rompendo as evoluções tradicionais de começo, meio e fim que correm atrás de um ápice catártico.

Múltiplas danças fragmentárias, incontáveis polifonias instrumentais e harmônicas. A deliciosa tentação da irregularidade torta e aparelhos geométricos quase-não-geométricos, engraçados jogos de equilíbrio e desequilíbrio.

Um palhaço escala uma espiral metálica de cabeça para baixo, o vértice voltado para o espaço, a boca querendo engolir a terra.
 
A Floresta Negra
 
Entretanto, da floresta formam-se filas na direção dos holofotes do stadium. A engenharia das câmaras e da transmissão televisiva exige um centro focal. O círculo opressivo e repetitivo que engole a polifonia devora como um funil implacável para que todos finalmente possam se enlaçar fraternalmente e destruir a fragmentação democrática e discêntrica. Vitória do folclore e do apelo demagógico onde se dissolve a intenção derivativa da coreografia: retorno da festança boçal natalina infantil familial circular.

A tocha no meio das evoluções que parecem querer escapar da prisão, lançar-se para fora do círculo e da própria ideia de círculo —a tocha se apaga e a roda é agora centro, circo morto, palco onde se desfaz e concentra-se apesar da música ainda mais atonal (quase) se confundindo com os estouros da encenação pirotécnica.

Confraternização universal, afirma o locutor, universalizante: o stadium se move, mistura atletas, bailarinos, público e a democracia torna-se demagogia, uma grande quermesse, festejo fantasiado de celebração dionisíaca legitimando a disputa cronometrada e concêntrica. Esvaziamento. Buraco negro. Apologia do esporte como cerimônia unificadora.

Reunificada, a Alemanha, de novo grande potência, detém a maioria das medalhas.
 
O Danúbio
 
 E o Danúbio [1]  que é azul e muito mais que azul, policromático, Donau, Dunaj, Duna, Dunay, Dunárea, Dunáv, Dunárea de novo nas grafias de um mapa Michelin, até desembocar no Mar Negro três mil quilômetros após uma nascente controvertida na Floresta Negra. A psicopatia da Grande Alemanha que volta e meia quer submeter a Mitteleuropa, “Hofmannstahl, Musil, Freud, Richard Wagner, Kafka, Holderlin, literatura húngara, austríaca... As terras dos Nibelungos, de Mefistófeles, do Conde Vlad Dracul, da música, da construção e destruição permanentes...” (do livro “Danúbio”, do triestino Cláudio Magris). Os laços comunais, as grandes Repúblicas autoritárias se compõem tendo como base a coerção e a lealdade dos cidadãos. Mas são tantas e muitas vezes tão dilacerantes essas lealdades!

Magris escreve que em “18 de outubro de 1944 aconteciam os solenes funerais do marechal de campo Rommel”, em Ulm, quase na nascente do Danúbio. Rommel comete suicídio após a condenação pelo envolvimento na “conjuração de 20 de julho” para assassinar Hitler (verOs Nazistas Estão de Volta”). Magris afirma que sua “educação não lhe permitia distinguir claramente entre seu país e o regime que o pervertia e o traía. Aquela educação alemã para o respeito e a fidelidade que é por si mesma um grande valor, a lealdade para os que estão ao lado e para com a palavra dada, mas que está tão profundamente arraigada que não se consegue arrancá-la nem quando o torrão natal se tornou um pântano podre”. Rommel suicida “dilacerado pela cisão alemã entre fidelidade à pátria e fidelidade à humanidade”.
 
México – 1968
 
Em 1968, os conflitos raciais nos EUA se intrometem atrevidos contra a corporação da fraternidade encenada e o atleta tem que escolher entre duas fidelidades: a obrigatória à bandeira do seu país ou à sua raça e aos parceiros de infortúnio. Quando ergue o punho cerrado e declara sua escolha, sua opção de fidelidade. A nação está em guerra porque a nação são múltiplas nações.
 
Gold, um judeu sem casa  

A primeira fotografia de “Homicídio” de David Mamet mostra a linha de uma escada. Quando se inicia o movimento da câmara forma-se uma dicotomia: enquanto o olhar desce acompanhando a linha diagonal homens encapuzados e armados sobem os degraus. Subir e descer são ambos movimentos lentos e harmônicos, um parece estar amarrado ao outro por uma linha escondida no set de filmagem flagrando as direções opostas ou dissonantes. Mais conflituosa será a trajetória do detetive Gold, um judeu sem casa (é na delegacia que ele troca de camisa, lava o rosto...) na polícia de Nova York.

Até o momento em que acidentalmente se depara com o assassinato de uma velha senhora judia os problemas de Gold são estritamente funcionais. Antes, quando um prisioneiro que fuzilara a mulher e três filhos pergunta se ele não quer resolver o problema do mal, Gold responde: —  Não. Se resolver, perco meu emprego.

Gold pertence a uma corporação e deve lealdade a ela. Ele, o parceiro e sua equipe estão trabalhando numa importante investigação para a municipalidade, envolvendo questões raciais numa cidade cujo prefeito é negro. A comunidade exige que ele a represente. Gold, no entanto, é afastado do inquérito porque os parentes da mulher assassinada, ricos judeus, exigem que ele, um judeu, investigue o crime.

O chefe imediato do detetive garante: —  O judeu quer gente sua para cuidar do caso.

—  Gente dele?! Eu pensei que eu fosse gente sua, Lou, responde Gold.

Ele não tem casa, mulher, filhos, raça. Deve lealdade unicamente ao grupo com o qual trabalha: sua comunidade são seus parceiros de cotidiano e ofício. Pelo menos até ali. A partir daquela exigência, será ele quem vai se dilacerar no enfrentamento das fidelidades.

Quando, por acaso, investigando o novo caso, encontra-se com um rabino na biblioteca judaica que lhe exibe um texto em hebraico, Gold diz, encabulado: —  Não sei ler... —  Mas você não é judeu? —  Não sei ler. —  É judeu e não sabe ler hebraico? Que tipo de judeu é você?!, repreende o religioso. Mas o detetive quer tornar-se parte do seu povo e está disposto a fazer sacrifícios para isto. Retira e esconde o distintivo e sob o manto da noite explode um aparelho nazista. Os líderes judeus, no entanto, exigem que ele lhes entregue um documento probatório, evidência legal encontrada na cena do crime. —  Não posso. Sou um policial. —  E sua lealdade?!, perguntam, irritados.

Lealdade com quem ou o que, afinal?

Gold, preso ao ataque contra a loja nazista perde a hora marcada pelo seu grupo de trabalho e o parceiro é morto na ação para a qual o aguardavam. Ferido logo depois, ele conversa com o negro que deveria prender e gostaria de matar porque tirou a vida do parceiro (à mãe do criminoso, no entanto, Gold prometera prendê-lo impedindo que fosse morto):

—  Randolph, foi sua mãe que o entregou.
—  Você é um merda.  
—  Certo. Eu sou um merdinha. Tudo é merda. Matei meu colega e sua mãe te entregou.

—  Não morra mentindo.
— Olhe, sua mãe te entregou, cara (mostra alguma prova do fato). Olhe!
—  Meu Deus! Deus me ajude...”, geme Randolph.

Quanto ao detetive Gold nada, Deus, seu povo, a corporação, ninguém pode dar fim à sua abismal solidão no centro da tempestade de fidelidades fracassadas e antagônicas.
Lealdade, ele a deveria a quem?

Quando se recupera do ferimento dias depois, é o chefe quem lhe comunica:  —  Você não é mais da Homicídios. Você está fora.

É isso. Ele está só. Exilado da humanidade.
 
Regressando a “O Leitor”
 
(Detalhe de “O Leitor”, livro e filme: o que estudam os alunos secundaristas na Alemanha pós-guerra? Latim, grego. Homero. Por que o ensino passou a prescindir de matérias como essas? Terá algo a ver com as novas necessidades das novas técnicas e da hiper-especialização do processo produtivo? Estamos, então, junto com o progresso técnico, caminhando para trás, nos estupidificando? Ou não é de se supor que deixar de ler Homero e latim e grego no secundário seja um passo atrás?)

Entretanto, ler Homero ou aprender latim e grego clássico talvez não nos salve da vileza, não nos exima de cometer atrocidades contra nosso semelhante (basta que os classifiquemos como diferentes, não-semelhantes, não tão belos ou não tão amarelos ou vermelhos ou). É possível, então, que nada nos garanta que não sejamos capazes daquilo que Hanna foi capaz — simplesmente porque aquele era o seu trabalho ou, menos que isso, sua função naquele instante.
 
Diálogo entre juiz e ré
 
O juiz interroga Hanna:

—  Por que não destrancaram as portas?
—  Não podíamos.
—  Não podiam por quê?
—  Éramos guardas. Nossa tarefa era vigiar as prisioneiras. Não podíamos deixá-las escapar.”

Note-se a singeleza da resposta: não podiam porque o trabalho delas era manter presas as prisioneiras.

Em algum momento Hanna vira-se para o juiz e interroga:

— O que você faria?

Hanna, na verdade, nos interroga, a cada um de nós. E não tratamos nós de cumprir bem nossas tarefas e deveres funcionais (profissionais), sejam eles quais forem? Frente ao quê, cabe perguntar: que natureza de ética é esta (típica do mundo próspero, embora não originária dele) que conduz as ações da nossa sobrevivência?
 
 
 
[1] Para o qual também escorrem os esgotos de Viena através de galerias fantasmáticas onde fidelidades se dissolvem em “O Terceiro Homem”.

 


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POR EM 01/08/2009 ÀS 11:59 AM

Mais que um mero conto de fadas

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Thomas Mann: o autor completo, consistente, tecnicamente perfeito e dotado do mais refinado tom irônico e percepção crítica da realidade. Como ele mesmo queria: um Goethe moderno

Thomas Mann

“Sua Alteza Real”, segundo romance de Thomas Mann, parece estranho a qualquer um de seus leitores mais familiarizados. O criador de “Morte em Veneza” é conhecido como um autor de decadência e realismo simbólico, mestre do uso das alegorias para analisar e dar forma a um mundo doente, não apenas nas subjetividades psicológicas, mas igualmente em suas nuances sócio-históricas. Seus principais romances (“Montanha Mágica”, “Doutor Fausto” e a tetralogia “José e Seus Irmãos” — para mim a sua grande e verdadeira obra-prima), sempre com personagens densos, grandes descrições e digressões, contrasta muito com esse “Sua Alteza Real”, que se serve de personagens simples, arquetípicos e unidimensionais. Seu formato é o de conto de fada, e dessa forma foi recebido pela crítica de sua época. O próprio Mann, na velhice, disse se tratar apenas de uma história despretensiosa, mas mesmo assim com algum charme, e sentenciou: “mas os alemães não querem saber de charme”. Ele se ressentiu com a recepção morna, para não dizer pálida, da critica à época da publicação. O problema maior estava em seu livro precedente, nada mais que o grandioso “Os Buddenbrooks”, sua estréia apoteótica, obra que lhe rendeu — a contragosto do germânico, haja vista o fato de que já havia lançado “A Montanha Mágica” — o Prêmio Nobel de Literatura. O desfecho feliz, esperançoso do romance, para muitos foi uma descida ao mundo do otimismo depois da densidade do primeiro livro.
 
Pois bem, trata-se da história do príncipe Klaus Heinrich, de um pequeno grão ducado alemão. Seu nascimento alimenta a lenda de que haveria um nobre que faria, com uma só mão mais que qualquer outro fez por aquelas terras. Klaus nasce com uma das mãos defeituosas, raquítica, que por toda sua vida tentaria esconder. Depois de a diegese do romance apresentar toda a educação moral e intelectual de Klaus e seu conseqüente crescimento e amadurecimento em mais da metade de suas 350 páginas, nas quais também o irmão mais velho de Klaus lhe passa os deveres reais — já que ele era o líder carismático e amado pelo povo, e não o mais velho —, o ducado recebe a visita de um pequeno clã multimilionário norte americano, composto pelo patriarca Spoelmann, que herdara a fortuna do pai — um grande homem de negócios de sangue mestiço —; e Imma, sua filha. Vinham com o pretexto de estarem atrás das águas medicinais do lugar: o velho bilionário queria alívio para as cólicas renais insuportáveis, por isso se instalariam na cidade. Pleiteiam e compram o Castelo Velho, uma das residências reais, vendida a fim de cobrir dívidas e despesas de um reino empobrecido e em franca decadência. Irmãos de Klaus sentem-se ofendidos: são burgueses adquirindo residência real, mas que, com o poder financeiro, poderiam reerguer o Castelo e devolver-lhe os ares de realeza. A recepção à família de estrangeiros que compram a propriedade cria a situação chave para que Klaus encante-se por Imma. O tom romântico ganha força, a narrativa, um curso fantasioso. Klaus tenta de todo modo se aproximar de Imma, a doença do pai da moça é providencial à narrativa: o velho, acamado, não poderia impedir os passeios de cavalo na companhia do jovem príncipe. Paralelamente, o reino passa por graves dificuldades financeiras, e o rumo que a relação de ambos toma, sempre definida pelo amor, é o do natural casamento. Quanto mais se agrava a crise do ducado, mais próximos estão os dois personagens. Quando Klaus é obrigado a sair do reino de fantasia de uma vida aristocrática, em pleno fim do século XIX, para tomar providências quanto à tensão financeira que atinge situação limite, os burburinhos a respeito de seu romance com a burguesa milionária coadunam-se, junto à corte e à população — que amava o carismático Klaus —, com a lenda de que o príncipe de uma só mão salvaria o estado. Assim, o casamento passa a ser a redenção desse ducado empobrecido e à beira de um colapso. Spoelmann empresta dinheiro em condições paternais, as dívidas são saudadas e a prosperidade, junto do amor, triunfa com o casal saudado na cerimônia matrimonial, como heróis de um mundo quebradiço.
 
A fragilidade da trama esconde, bem ao gosto manniano, uma mordaz crítica ao espírito e ao ócio aristocrático (no plano sócio-histórico) e a possibilidade de transmutar a vida de aparência e futilidade em uma vida constituída em experiências verazes sedimentadas pela profundidade do amor (no plano subjetivo e psicológico).

Para além da visão santificada sobre o gênio de Thomas Mann, não há como perceber a sua acidez ao fazer com que o irmão mais velho do príncipe entregue o lugar que lhe era de direito ao irmão mais novo porque o povo não o tinha escolhido como rei, e sim ao caçula, tal como acontecera em sua família com relação ao grande escritor Heinrich Mann, primogênito da família (autor do brilhante “O Anjo Azul”), cuja famosa biografia tem o curioso título de “O Irmão”. Outra referência clara é a origem mestiça de Imma: a mãe de Mann, Julia, era brasileira e também trazia consigo os traços da mestiçagem em seu sangue, e mais ainda, a própria família do escritor passara por uma decadência financeira que marcara a vida dos jovens filhos do Sr. Mann, muito bem transposta e transformada em “Os Buddenbrooks”, e nessas situações chegara à vida do autor Kátia, com quem se casaria e levaria sua vida burguesa.

Personagens alegóricas surgem no romance, e a partir delas podemos detectar a ironia ácida de Mann contra a vida de aparência, meramente representativa que tem essas figuras ocas. O grande tema que o livro traz é o da farsa, do “teatro social” para o qual nos aponta Richard Sennett em seu “O Declínio do Homem Público”, e que só pode ser vencido se atacado com coisas verdadeiras, como o amor, por exemplo, ou uma grande crise financeira (sanada por um golpe do destino amoroso de dois jovens, por que não?). O mundo velho, “ancien regime”, só trazia de si uma aparência de beleza. O castelo no qual moraria o casal seria reconstruído com o dinheiro burguês americano, e do velho, só viria a aparência, o ornamento. Diz o narrador: “Ao grande canteiro central, diante da rampa de acesso, seria transplantada a roseira do Castelo Velho, e lá, já não rodeada de muros mofados, mas com ar, sol e adubo gordo, agora veriam que rosas ela produziriam refutando as mentiras populares, se fosse suficientemente obstinada e petulante.”

Thomas Mann, mesmo em seu conto de fada, é ainda Thomas Mann, o autor completo, consistente, tecnicamente perfeito e dotado do mais refinado tom irônico e percepção crítica da realidade. Como ele mesmo queria: um Goethe moderno. Um escritor que não consegue deixar de olhar, já que sua maldição, como ele mesmo sugere em sua novela “Tonio Kröger”, é essa, a de transformar a experiência em linguagem, sem abrir concessões.

Sua obsessão por sua arte encontra espaço em seu conto de fadas, quando Klaus, visitado por um poeta, o vê dissertar sobre a vida de um homem de letras, que é mais feita de contemplação que de vivência, ou no mínimo, de uma vivência contemplativa, como fez Rosa no sertão de Minas. Diz o poeta ao príncipe maneta: “... eu tenho de poupar, controlar-me, medroso e avarento, por motivos higiênicos. Pois é de higiene que gente como eu precisa em primeiro lugar... ela é nossa moral. Mas nada é mais anti-higiênico que a vida...”
 


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