Desenho de  Wendy MacNaughton
revista bula

compartilhe



últimos comentários

  • Eu encarei o propósito da listagem como um tipo de brincadeira, não levei á sério. Listar top 10, 20, 30 e agora 40 é uma coisa muito pessoal. O que é bonito, bom e gostoso ao meu ver pode ser uma mer ...

    6 horas atrás por Linkowski sobre 40 livros PARA MORRER antes de ler
  • Uma grande piada que soa como verdade? Ou uma pequena fração da realidade que serve como paródia? Por um ou por outro, ainda é mais divertido do que desventuras no Congresso ou nos Carandirus da vida. ...

    7 horas atrás por Luiz André sobre A pior coisa que já escrevi na vida
  • "Os nomes das personagens deste texto são fictícios. Qualquer semelhança é mera coincidência. " Aforismo de primeira...

    Cara! Parabéns! Seus textos são divertidíssimos, adoro esta revista, é um oásis ...

    7 horas atrás por Linkowski sobre A pior coisa que já escrevi na vida
  • Adorei o texto e destaco as transformações criativas e fonéticas de estrangeirismos para a língua portuguesa. Nem tão velada crítica de costumes. Parabéns! ...

    9 horas atrás por João Baptista de Alencastro sobre A pior coisa que já escrevi na vida

últimas no twitter

  • ?Alzheimer: conhecer novas pessoas todos os dias.? E outros 29 microcontos aqui: bit.ly/wdKMUt
    53 segundos atrás
  • Envie seu poema inédito, até 140 caracteres c/ espaços, até às 13h de segunda-feira. Para , 50 melhores serão publicados.
    5 horas atrás
  • 30 microcontos (de até 100 caracteres): http://t.co/42Zfymmm
    8 horas atrás
  • O escritor que influenciou Dostoiévski e Kafka: http://t.co/237ViD4Z
    8 horas atrás
  • O lado sombrio do ser humano: http://t.co/NLBkG9HG
    8 horas atrás

parceiros

  • twitter rank


sugestões de livros

  • e eventualmente nojentas de casais escatológicos

sugestões de filmes

contos

POR EM 20/05/2008 ÀS 11:31 PM

Um segredo

publicado em

Todos reunidos em volta da cama com seus olhos abertos resplandecentes de esperteza, todos fechando em círculo as saídas com seus corpos grandes, à espera. Um muro de músculos e hálitos plantado em sua volta. Eles sabiam de tudo. Então eles sabiam de tudo. Completaram suas idades, desde o início, sabendo de tudo, mas sem coragem de revelar que sabiam.

Lívia, de frio, encolhe-se por baixo do edredom e puxa o lençol para esconder o rosto. A luz, ah, esta luz a incomoda. A luz e os olhos que a vida toda se mantiveram mudos, enquanto espreitavam cada canto e seus segredos. Três pares de olhos amoitados ali mesmo, dentro de casa, da sua casa, a caverna que julgava ser indevassável.

Por que fingiam acreditar, se já sabiam, então, que não era verdade?

O desejo de sumir num desmaio está preso à língua como um frio, um frio grosso que a imobiliza. Não há mais o que dizer, e mesmo a confissão não a pode redimir ou salvar da vergonha. Seus filhos, então, podem fingir, mas é impossível não perceber acusação em seus olhos. E por que tanta luz, quem teve a idéia desta iluminação toda?

No quarto, no ar do quarto, respira-se o cheiro do suor que os lençóis absorveram enquanto a febre ainda renitia. Ninguém ousaria acusá-la, naquele entanto, com a morte em revoada silenciosa ali no pequeno espaço entre o céu e a terra. Antes embarcar naquele coche escuro e definitivo a sofrer as agruras da vergonha.

Beatriz, a sua Beatriz, principalmente ela, deve orgulhar-se, neste momento, da vitória. No transcorrer de seu crescimento, todos os dias, quantas e quantas palavras foram-se acumulando, que agora jazem inúteis no monturo das mentiras! Não foi o que disse o brilho de seus olhos pontiagudos tão logo ela chegou? Não, jamais poderá dirigir-lhe novamente qualquer palavra, pois tornaram-se todas suspeitas de inutilidade.  

O frio entra pelos interstícios abertos entre o edredom e o lençol. Lívia sente-se desprotegida, mesmo procurando prender com pés e pernas a orla de sua coberta. Ela se concentra na operação com muito método, prendendo primeiramente os panos com firmeza por baixo dos calcanhares; manobrando em seguida para que as pernas estiradas enrolem-se nas laterais, com cuidado para que não restem frinchas por onde possa passar o frio, e com ele a vida que o marido e os dois filhos trouxeram-lhe em oferta. Ela os quer fora, livres de seu contato e do suor que cheira mal. Pensa apenas em ficar só, seu corpo e suas culpas, para poder descansar.

Muitas vezes tivera de afastar as suspeitas sobre o comportamento de Armando. Ele, o mais quieto, quem mais examinava os cantos da casa, principalmente os cantos que luz nenhuma conseguia iluminar. Armando observava a teia de uma aranha como se estivesse pensando em lhe copiar o modelo. Atento. O último espaço de uma gaveta, a paisagem cheia de penumbra por trás da geladeira, a poeira acumulada por cima dos armários, de tudo tinha ciência, mas uma ciência calada que lhe vinha morrer no alto da garganta. Atrapalhava-se um pouco ao ser surpreendido em alguma empresa de que só ele tinha conhecimento. Mas isso por pouco tempo. Mudava de posto, escolhia atividade diferente, e nada se arrancava de suas descobertas.
  
Sua respiração úmida e quente é um barulho ritmado que o lençol abafa subindo e descendo. O ar, cada vez mais insuficiente. Pensa em mostrar o rosto debaixo de toda aquela iluminação, entretanto reluta, pois não quer suas lágrimas expostas como um pedido de piedade.

Finalmente, o que já vinha temendo desde que se formaram em barreira ao seu redor. Leonardo senta-se à beira da cama e uma de suas mãos enfia-se por baixo das cobertas à procura de Lívia. Ela encolhe-se mais, agarrando-se aos próprios ombros e enfiando o queixo entre os seios e a interseção dos braços em cruz. Violada a vida inteira em suas intimidades pela própria família, sem que o soubesse, não permitiria, agora, contato algum. A cama, Leonardo, a cama é meu último reduto. Não tente, meu pobre marido, dar prosseguimento a esta comédia. Por que a deixaram pensar estes anos todos que estava a salvo da bisbilhotice alheia? Que os filhos se fechassem mudos, ainda relevava. Chegava quase a entender. Ah, não, mas Leonardo, com seu ar sempre alheado de tudo, colhendo da vida apenas recortes e beiradas, Leonardo não pode ter o silêncio perdoado.

Ouve o cochicho dos filhos, percebe algumas sílabas isoladas e consegue apenas supor que seja ela mesma o assunto dos dois. Então se aflige ao concluir que não é mais do que um objeto familiar, um objeto neutro já, e em cuja presença não é preciso manter qualquer discrição. Sente raiva na garganta entupida de impotência e nas veias da garganta que se estufam de um sangue grosso de veneno. E por que não vão embora, não vão conversar sobre o que quiserem à beira de seu próprio túmulo?

 

leia mais...
POR EM 20/05/2008 ÀS 08:15 PM

Para que esses olhos arregalados?

publicado em

Arnóbio de Barros andava armado da cabeça aos pés: revólver amarrado à perna, outro na cintura, pistola junto ao peito. Maria de Fátima, sua mulher, devota de Nossa Senhora, rezava toda noite. Nenhum mal acontecesse ao delegado. No entanto, aconteceu. Ou quase se deu a desgraça. Homem assaltou loja. O comerciante tremeu e entregou dinheiro, relógio e outros bens. Os dois empregados não tugiram nem mugiram. O bandido fugiu. Para uns, usava máscara.
 
Quando se sentava atrás da mesa, Arnóbio pedia café, enquanto punha na gaveta as armas. Lambia as bordas da xícara e tirava os sapatos. Ligava para Fátima. Tudo em paz? E folheava autos. O crime da Rua Morgue. Não gostava de literatura, mas conhecia de nome alguns escritores. Predispunha-se a ler um ou outro, estimulado por colegas. Lesse O Processo, de Kafka. Não conseguia ir além da primeira página. Preferia alisar as armas, contar os projéteis, falar de crimes e castigos. Quando chegasse o retrato falado do bandido da luz vermelha queria ser o primeiro a vê-lo. Sim, senhor. Precisava ficar só e brunir as armas assinaladas com as letras AB. O ajudante, no entanto, deu meia-volta: o retrato do assaltante da loja... Arnóbio se irritava com frases compridas: trouxesse o retrato. Abrigou o revólver na gaveta e esperou a novidade. Passados dez segundos, o auxiliar abriu a porta e olhou para o governador aposto na parede, dois palmos acima da cabeça do delegado. Na xícara mosca lambia os lábios de Arnóbio. O governante parecia sorrir de tudo e de todos, das identificações, das informações, dos traços fisionômicos, dos bandidos, dos insetos, da polícia.
 
O delegado mandou o rapaz se retirar e abriu o envelope. Aquele rosto não lhe pareceu estranho. Voltou-se para o retrato do governador. Calçou os sapatos e se dirigiu à porta. Não o importunassem durante os próximos vinte minutos. Deu duas voltas na chave e retornou à cadeira. Pôs sobre a mesa o retrato falado: testa ampla, olhos arregalados, bigodinho preto, queixo redondo. Dirigiu-se ao banheiro e se postou diante do espelho. Se estivesse com uma das armas, daria um tiro naquela testa ampla.
 
Durante dias e meses Arnóbio dormiu mal, olhos fixos no retrato do assaltante da loja. E se arquivasse o inquérito? Fátima se retorcia na cama. Para que aqueles olhos arregalados? Para te ver melhor. Ela suspirava, como se rezasse a Nossa Senhora. Ele alisava o bigodinho, como se afagasse a pistola. Melhor incinerar os autos.
 
O tempo escorria pelos pés do delegado, abria e fechava a porta, trazia e retirava o ajudante. O tempo espantava as moscas da xícara, folheava autos, afagava armas. O tempo mantinha o sorriso do governador, apresentava retratos falados, comentava crimes desvendados e misteriosos. Até chegar o dia em que Arnóbio de Barros levou para casa os autos e o retrato falado do assaltante da loja e os queimou. Cortava o mal pela raiz. À noite, arregalou os olhos e viu a piedosa Maria de Fátima coberta de lençóis. Apalpou o queixo redondo, mirou as armas e abraçou com força a mulher.

 

leia mais...
POR EM 13/05/2008 ÀS 01:45 PM

Maracanãs

publicado em

No meio daquelas mulheres tão coloridas e belas demais para seus olhos turvos, a tontura o empurrou para os cantos, barata chutada com nojo. A alegria geral cresceu em ondas avassaladoras, afogando-o. Ele escapulia, cheio de culpa, fugindo dos olhos que o não olhavam. Pião perdendo a velocidade, prestes a rolar descontrolado, a ponta para todos os lados. Equilibrou-se, voltou à mesa. Suava, arfava. Iria embora, para a rua, a praia, os matos longínquos? Não, restava-lhe ver e sentir. E beber, por não lhe ser possível o amor de tantas mulheres. Mais uma cerveja. Já que pular também não podia. Acendeu um cigarro. De seu canto, veria tudo. Estaria, de certa forma, mais perto de todas as folionas. Daquelas calcinhas verdes e daquelas meias pretas, daqueles óculos vermelhos e daqueles penachos cinzas, que cantavam feito maracanãs fogosas à beira da lagoa. Rodopiavam e riam já dentro de seus olhos arregalados e famintos. Beleza demais para a sua feiúra de lobo solitário.
 
Mas quem privatizou a natureza, o sexo? Não, era tempo de brincar. Com certeza, milhares de homens mais tristes gritavam por detrás de máscaras. Umas até femininas. Criou coragem, bebeu um gole, ergueu-se. E correu para o meio do salão, esquecido de suas pobres cores. Cercou-se de passos e harmonias e gritou um grito de vencido. Tão próximo de tudo, perdeu a noção do sonho e mergulhou noutro. Mais antigo e terrível para o seu corpo raquítico de comedor de açúcar. Ao seu redor, já não bailavam mocinhas. Nem as aves do livro de zoologia. Eram guerreiras em pé de guerra. Amazonas.

Maracás medonhos matraqueavam no ar repleto de fumaça. Dentro das cuias, pedras preciosas em revolução. Fora, penas de guarás agitados, como numa tempestade. Guarás ferozes, brancos, pretos e vermelhos, que esvoaçavam ao seu redor. Abelhas mortíferas, a querer ferroá-lo, queimá-lo. Iria tombar feito um cobarde caraíba? Parou, como se fosse possível frear o medo que galopa dentro dos olhos.

Estranho, espécie de sonho. Ou o delírio de quem bebe para dormir? Voltaram as maracanãs enlouquecidas, rindo daquela cara de cera, múmia fugida da frigidez do tempo. Mergulhavam harmoniosamente no espelho das águas. Dois bandos a sapatear exatamente um nos pés do outro. Balé perfeito. Fascinado, não viu aproximarem-se dois imensos soldados. Agarraram-no pelos sovacos, como se o fossem depenar. As folionas reuniram-se numa só, caladas, estáticas.
 
Conduziram-no, espantado. Maestro daquela ópera. Vá embora, se não quiser ser jogado por cima do muro. Do rochedo que apaziguava o mar. Aquele jaguar a bufar lá fora. Deixou-se levar como um cordeiro para o horto. O mar gritava, o samba fugia, a lua rolava, o frio zunia. Caiu para sentar-se. E logo dormiu e teve um sonho. Quando o sol lhe queimou os olhos, um riso esquisito abria-lhe a boca de lado a lado.

 

leia mais...
POR EM 29/04/2008 ÀS 06:43 PM

Os óculos

publicado em

Entrou na cozinha com pernas atrasadas de tanta pressa e o suor alagando-lhe a testa, onde sentiu a explosão. Sua cabeça fez menção de voltar sozinha e sem óculos. Dedos trêmulos tatearam seu rosto à procura de sangue, mas assim no escuro era impossível distinguir a vida do esforço, tudo líquido e viscoso, uma coisa só. Então seus dedos nervosos descobriram a ausência dos óculos.

A porta aberta do armário? A porta aberta do armário. Que mais poderia estar com a altura de sua testa no caminho entre a porta da cozinha e a chave, além da porta do armário?

De lábios abertos e dentes cerrados, aspirava um ar com ruído fricativo para expressar a dor que vinha chegando. A mão esquerda, apalpando o ar vazio, obstinada, procurava obstáculos. Com a testa doendo, qualquer objeto era obstáculo, porque estava noite.
 
Deu o primeiro passo em alguma direção, mas parou temeroso porque não ver era causa de muita insegurança. Arrastou o pé de volta e descobriu satisfeito que o pé não tinha roçado sequer nos óculos. Chegou a pensar que essa era uma boa razão para ficar alegre, mas não teve tempo de usufruir da alegria apenas prometida porque olhou para baixo, onde supunha o piso, e olhou com todo esforço de seus olhos de pupilas redondas e azuladas sem ver nada além de grandes manchas leitosas mergulhadas em trevas densas. Só então percebeu suas pernas trêmulas, como atacadas por algum cansaço.

Seu olhar quase parado, inútil, não lhe concedia um conhecimento, a noção da distância entre a altura em que se mantinham seus pensamentos e o piso de ladrilho onde por certo estariam agora seus óculos. Mas que sei eu de distâncias?, pensou ele sob o peso do isolamento em que se via agora submerso. Como conhecer qualquer espaço sem conceber o infinito, a não-forma, a abertura para o inexistente?

Era turvo seu pensamento sobre as distâncias, porque sem luz não existem cores e sem elas deixam de existir as formas. A distância, não a distância abstrata que só existe como conceito, na mente, mas a distância concreta, individualizada é uma dádiva da visão.

Quando lhe bateu o arrependimento por ter começado a pensar, tentou concentrar-se nas pernas, que tremiam, contudo, tê-las apenas como constatação das duas mãos, era como se se tratasse de um objeto qualquer, vivo, mas alheio a seu próprio corpo. Então agachou-se até assegurar-se com as mãos espalmadas que não sentaria sobre seus óculos. E sentou-se com seu pequeno peso e sem medo no piso da cozinha.

Ao lembrar-se de que viera com pressa atrás da chave, voltou a ter pressa. Agora, entretanto, inutilmente, pois estava sentado sobre si mesmo no piso frio de ladrilho da cozinha. E sem noção exata do que havia em sua volta. Desde criança não via mais o mundo daquela altura em que agora mantinha os olhos, mas agachar-se também não lhe concedia um novo ponto de vista a respeito do mundo. Sentiu no peito o galope da pressa, mas conteve-se, exercitando seu autodomínio.

Numa fulguração da pressa, teve o relume, incerto e instantâneo, pensando que poderia guiar-se pela memória, e chegou a ver a mesa com suas cadeiras, no lado esquerdo e, vizinha dois passos, no lado oposto, a pia com a louça da véspera. Ao lado do bebedouro, pendurado na parede, o molho de chaves, que viera procurar, depois de ter descido até o térreo, acossado pelo atraso. Mas foi apenas um relume, como um suspiro que se interrompe no meio, pois ficou em dúvida sobre os pontos cardeais. A memória já não lhe informava em que posição estava seu corpo, que relação espacial ele mantinha com as quatro paredes da cozinha. Como saber se o fogão ficara-lhe às costas, como parecia, ou à frente, como poderia ser? Então resolveu desbravar o ladrilho todo com as mãos, confiando apenas no faro de seus dedos, que saberiam distinguir um par de óculos de qualquer outro tipo de objeto.

Sentado sobre os calcanhares, primeiro apalpou os joelhos, minucioso, os joelhos que mantinha colados ao piso frio. Depois de certificar-se de que estava pronto, lançou-se à aventura de esquadrinhar metodicamente cada centímetro daquele imenso campo invisível. Será isso a morte, esse imenso nada? ele perguntou-se num susto. Mas sua mão esbarrou em algo liso e duro, que lhe pareceu o pé da mesa, e a sensação, por um instante, garantiu-lhe a vida.

Sentou seu peso sobre os calcanhares para descansar e novamente seus dedos, ainda mais nervosos, foram perscrutar a testa e as faces, onde voltou a descobrir uma umidade viscosa, que talvez fosse sangue misturado ao suor. Limpou os dedos na calça e acalmou-se um pouco. Não saber a natureza da umidade já era o limiar de uma solução.

Quando se lançou, pouco depois, em uma direção ainda inexplorada e bateu com a cabeça no assento de uma cadeira, pela primeira vez teve vontade de chorar. Mas continuou, porque o sentido de urgência, impulso inicial, latejava em suas têmporas.

Seu atraso já era agravado por minutos em que ele estava perdido, sem saber quantos eram. Estar à beira do desespero confrangia-lhe o coração.

Na extensa e fria superfície do piso, além do pé da mesa e das pernas de uma cadeira, nada mais suas mãos conseguiam encontrar.

Arrastando-se em volta e por baixo da mesa, convenceu-se finalmente de que seu par de óculos voara para outro lado qualquer. Mas que lado? Mesmo sem muita certeza, quando iniciou a busca, tinha uma vaga idéia de como se distribuíam as paredes da cozinha pelos quatro pontos cardeais. Agora estava confuso, sem conseguir orientar-se com segurança. Quando bateu pela segunda vez com a cabeça no assento da cadeira, descobriu com raiva que andava em círculos, repetindo as áreas por onde já passara. Mas então é isso, indignou-se, a linha reta então é isso, não passa da ilusão do progresso?

Tirou a gravata com cuidado depois de esfregar as mãos novamente na calça. Mas, ao tirá-la teve o súbito pressentimento de que era um gesto inútil, pois nada mais poderia ser feito. Parou com a cabeça erguida e a testa enrugada, como se bastasse essa atitude para ter uma noção aproximada do tempo gasto na procura dos óculos. Desistiu de continuar tirando a roupa. O dia já andara mais do que a distância entre a porta e o armário: não existia mais atraso.

Resolveu então continuar sentado no piso frio para descansar. 

 

leia mais...
POR EM 29/04/2008 ÀS 07:39 AM

O egoísmo de Newton Appletree

publicado em

Não sei se nasci de outro ser, se surgi do nada, se me autocriei. Porque não tenho nenhuma história, porque sou único. Já vivi entre homens, macacos, pássaros, peixes, insetos e a nenhuma dessas espécies pertenço, apesar da aparência física com os primeiros. Repenso sempre a hipótese de ter sido o homem o meu criador. Mas com ele não me entendi.
 
Minha primeira amarga lembrança é a de uma prisão e, preso, eu só pensava em quem me poderia ter colocado ali. Revoltava-me viver cercado por quatro paredes, sozinho e sem qualquer comunicação com outros seres. Quem seriam meus carcereiros, os construtores da prisão? Onde estariam? Por que não me apareciam, até para zombarem de mim?
 
De tanto questionar minha situação, acabei discutindo minha origem. Eu deveria ter um criador. Não poderia subitamente ter surgido dentro de uma sala. Quem edificara aquelas paredes? Antes de minha existência já elas haviam sido inventadas. E seus inventores me seriam também anteriores. Possivelmente semelhantes a mim. E eu imaginei o homem. Para mais uma vez rebelar-me. Por que manterem-me preso? Arrombei uma porta e fugi. Nada ao redor me indicava a existência do tal homem. Nem de outro qualquer ser. E caminhei feito um desesperado. Queria encontrar vida, seres como eu ou mesmo diferentes de mim. De repente meu primeiro grande susto. Uma cidade se estendia diante de meus olhos e nas ruas seres semelhantes a mim iam e vinham. Seriam aqueles os meus criadores e inimigos? Aproximei-me devagar, com medo de ser posto novamente na prisão. Recostei-me a uma parede, todo olhos e ouvidos. Pronto a correr à primeira ameaça, reagir, enfrentar meus tiranos, matá-los, se preciso. No entanto, o primeiro que por mim passou sorriu-me, e era bela. Só podia ser a mulher de minha idealização primitiva. E eu me senti homem, por instantes. Porque um minuto depois passou por mim um homem e eu senti não ser ele meu semelhante. Alguma coisa me dizia ser ele diferente de mim, porque tudo nele semelhava o ser imaginado na prisão. E aquele ser era apenas meu criador e nunca meu semelhante.
 
Apesar disso, tranqüilizei-me. Se eles me quisessem mal, já teriam me agarrado e conduzido de volta à prisão. E todos me tratavam com cordialidade ou indiferença.
 
Decidi aventurar-me a andar entre eles, olhá-los de frente, ouvi-los, aprender-lhes os hábitos, conhecê-los de perto, enfim. Fiz curtas amizades e nenhum deles suspeitou de nada. Trataram-me como se homem eu fosse. Alguns me contaram pedaços de suas vidas, falaram-me de seus parentes e amigos, de suas atividades e eu concluí quase definitivamente que entre nós havia um grande fosso.
 
Todos tinham um passado, um nascimento, um pai e uma mãe, parentes, amigos, colegas, todo um complemento de si mesmos. Eu não tinha nada disso. Era só, único. A menos que sofresse de amnésia. Procurei um médico. Ele se estarreceu e eu tirei a conclusão definitiva de não ser homem.
 
Vivi dias de profunda tensão. Não entendia nada ou entendia tudo. Imaginava coisas que via logo a seguir. Nasci poliglota, o que me permitiu poder me comunicar facilmente com quaisquer homens. Quando perguntaram qual o meu estado civil, respondi: solteiro de nascença e para sempre. Meu interlocutor gargalhou, achou espirituosa a resposta. Eu senti tédio.
 
Sofri vexames quando me perguntaram nome, data de nascimento, nacionalidade, grau de instrução, profissão, simpatias políticas, etc. “Chamo-me Newton Appletree, nasci em 30 de janeiro de 1945, em New York , formei-me em engenharia e adoro democracia.”
 
Eu tinha medo de ser julgado um bandido foragido da prisão. Ou um espião russo.
 
Quando li os livros de Deniken, temi ser um deus, um extraterreno enviado à Terra em missão especial e que dela me houvesse esquecido. Temi sobretudo ser visto e tratado como tal.
 
Assustou-me depois ser uma espécie de deus, um ser eterno.
 
Deve ser horrível a eternidade. A intemporalidade. Uma das primeiras coisas que me preocuparam foi o tempo. Contar meu tempo de existência. Com isso passei a temer o fim, a desintegração, a morte, o não-ser mais.
 
Pelo aspecto físico, terei uns trinta anos de idade, mas, como não nasci, talvez tenha apenas um ano, se contar minha existência a partir do momento em que me conscientizei de mim. Certamente já me gastei alguma coisa, algumas partículas já se foram de mim. Meu funcionamento, meu mecanismo (a alma, o espírito, a psique dos homens ou dos outros seres animados da natureza terrena) já devem andar defeituosos.
 
Os homens, meus criadores, são meu deus, segundo sua linguagem, que foi a que me deram. Mas de mim não nascerá nada físico, material, orgânico. Não deixarei descendentes, nem trago ascendentes. Sou simplesmente uma criatura humana. Não disponho de meios para descobrir por quem e como fui criado. Para quê? Certamente para servir aos meus criadores, como escravo. Mas eles estão enganados – não serei escravo. Não aceito a finalidade para que fui criado. Viverei só e para mim mesmo somente...

 

leia mais...
POR EM 22/04/2008 ÀS 07:59 AM

As luvas de vulpino

publicado em

Quando desapareceu das ruas (e seu passo pesado e cadenciado de autômato deixou de ser medido com os olhos até dos mais velhos), a criançada nem percebeu, mas já brincava mais sossegada. Recolheram-no as autoridades da nova segurança, psiquiatras, algum padre caridoso, damas unidas da beneficência.
 
O passo medido, cronometrado do velho Vulpino costumava fazer mexerem-se milimetricamente as pupilas de todos – parentes de desaparecidos, gerentes bancários, mocinhas caseiras. O mundo inteiro da cidade se hipnotizava por onde aquele homem calado passava, pedra a pedra pisada e repisada.
 
Uns achavam-no soberbo em sua musculatura de touro, e berravam por dentro. De noite, em sonhos sangrentos, choravam. Cada banana esmagada ao pisar de Vulpino virava pasta para o escorregão de vacas, bois e bezerros. Vaiavam-nos seus vizinhos, risonhos.
 
Muitos comparavam suas pernas grossas e seu calção preto a craques mitológicos de seleções e times imbatíveis. Mais adiante, no entanto, todos, ao mesmo tempo, cuspiam e escarravam recordações de copas, campeonatos e vitórias. E brigavam como nas eras de brigas.
 
Havia quem pensasse em vestir camiseta qualquer, de portuário, carregador de fardos, como aquela de Vulpino. Mas pensava duas vezes e não saía da beira da fantasia. O touro mudo podia se ofender. Perceber ironias, heresias no imitador. E acordar, enfurecer-se.
 
O nome Vulpino seria obra de intelectuais ou de seus pais. Dele mesmo ou do folclore. Não escondia qualquer razão e tanto podia ter sido Getulino como Mussolino. Porém os mais medrosos viviam de olho no latim, às escondidas.
 
O pobre homem, no entanto, não fazia mal a ninguém. Não espancava cachorros, não olhava para crianças, não falava a desconhecidos. E até um dia se disse incompreendido, desprezado, esquecido, apesar de tudo o que fizera, a vida inteira dedicada ao trabalho. Assim mesmo, sentia-se bem e realizado. Daí seu passo cadenciado, seu silêncio, seu orgulho.
 
Nunca contou um só capítulo de sua epopéia, porém os mortos, se pudessem falar ou escrever, teriam incontáveis histórias para atormentá-lo.
 
Esses mortos viveram instantes terríveis nas mãos de Vulpino. Seus punhos de aço, escondidos por grossas e invejadas luvas, quebraram ossos como se quebram ovos, sangraram peitos como se sangram porcos, fizeram gemer por noites e dias as vozes de muitos presos.
 
Tudo isso, porém, é apenas passado. E nem os mais velhos se lembram dos tempos áureos de Vulpino.

 

leia mais...
POR EM 08/04/2008 ÀS 10:19 AM

A guerra dos bárbaros

publicado em


Descalça, Tereza esfregava um pé no outro. A barra da saia ora descia até os joelhos, ora subia até o princípio das coxas. A mão direita alisava o pano. As unhas pintadas se confundiam com as bolinhas vermelhas que ornavam o fundo azul do tecido. Pequenina aranha passeava entre uma das pernas da mesa e a parte inferior da tábua. Na parte superior, um livro aberto, e sobre ele a outra mão da moça. “Sujeito é o ser a respeito do qual”(...) Tentou cobrir todas as letras, espalmando a mão sobre o livro. “Sujeito oculto”. Olhou para a rua. Um chapéu, uma cabeça, um pescoço apareceram e desapareceram num relance. Tudo brilhava, como se caísse uma chuva de estilhaços do Sol. A menina fechou o livro e abriu um caderno. “Tive um sonho horrível ontem”.

O rosto de Ruggero brilhava, suado. E parecia mais bonito assim. Os raios do sol tingiam de amarelo pedaços do chão coberto de folhas secas. Talvez, debaixo delas, cobras preparassem botes. Pisassem com leveza, como se voassem. E por que não voarem? Ruggero já havia voado, num filme. Tereza pouco ia ao cinema. Tudo uma porcaria, no dizer de seu pai. Coitado, as onças já o teriam comido. Seu Joaquim surgiu, então, montado num cavalo. Por onde tinha andado? Ruggero agachava-se, catava mangas no chão e se punha a chupá-las. Muito doces. Joaquim aproximava-se de sua filha e segredava: ele vai morrer envenenado. As mangas encerravam veneno de cobra. O italiano estirava-se no chão, a gritar.

Na parede alguns rabiscos a lápis. Certamente obra dos irmãos de Tereza. Coisa de bárbaros. Há quantos dias os estrangeiros se encontravam na cidade? Se ainda não haviam realizado nada, pelo menos a apatia do povo andava sumida. Uns até exageravam na euforia. Aqui e ali apareciam crianças fantasiadas de índios. Como se fosse carnaval. Muitos, porém, não acreditavam na palavra dos estranhos. Filme coisa nenhuma. No mínimo, espionavam. E deviam ser russos ou americanos. Falavam italiano e português para engabelar todo mundo.

Tereza riu e brincou com a caneta. Na janela da casa defronte da sua, meio corpo de Dona Gal vasculhava a rua. Talvez houvesse muita gente na praça. Abriu o caderno. “Sentei-me no banco da praça, para descansar ou pensar”. Súbito surgiram meninos a gritar. Logo após, os carros dos italianos. Todos sorridentes. Iam para os sítios, o meio da serra. Há dias haviam chegado, em grande alvoroço. Pareciam gente de circo. A meninada até se enganou e alegrou. No entanto, a notícia imediatamente se espalhou. Nada de circo; tratava-se do pessoal do filme. Que filme?

A moça deu um salto. Voou até o quarto, abriu o guarda-roupa, uma gaveta, meteu as mãos entre livros e cadernos. Cantarolava. Fez tudo ao contrário, até sentar-se à mesa de estudos. Abriu o caderno buscado. E foram aparecendo rostos bonitos e famosos: Burt Lancaster, Anthony Quinn, Yul Brynner. Como os achava maravilhosos, embora nunca os tivesse visto em movimento. E Ruggero Vasari? Por que as revistas não estampavam o rosto dele? Passou outras folhas: Brigitte Bardot, Sophia Loren, Claudia Cardinale. Ah! ainda seria atriz. Primeiro iria embora daquela porcaria de cidadezinha. Conheceria astros e estrelas. Sua mãe choraria muito. Seu pai diria “não”, esbravejaria e seria capaz de amaldiçoá-la para o resto da vida.

Abandonou o álbum e retornou ao diário. Moscas voaram e novamente pousaram na mesa. “O filme se chamará A Guerra dos Bárbaros. Distribuíram folhetos. Precisam de centenas de figurantes. Como se fossem índios de verdade. Basta vestirem tanga e se pintarem de jenipapo e urucu. Muita gente aqui tem mesmo cara de índio. E eu nem imaginava que aqui tivesse vivido índio. Muito menos sabia dessa guerra. Os folhetos trazem informações novas para mim. E, certamente, para quase todos nós. Essa guerra teve início em 1687. Os nativos do Nordeste se levantaram contra os brancos. Por isso nos documentos da época o movimento foi também denominado Levante Geral dos Tapuias. Eu não quero ser apenas figurante. Só me interessa papel importante. Ao lado de Ruggero”.

Tereza viu de novo Dona Gal à janela. Parecia sorrir. Coçou a coxa. Um homem cumprimentou a mulher e sumiu. A moça abriu o livro: “Sujeito determinado”.

Fantasiado de índio, um rapazote chegou à porta, esbaforido. “Menina, chame sua mãe, depressa”. Tereza assustou-se. “Seu Joaquim esfaqueou um homem no mercado”. A mocinha se levantou: “Mamãe, mamãe”. O visitante suava e tremia. “Parece que morreu. Discussão por causa dos estrangeiros, do filme”. A mulher chegou coberta de espumas. “O delegado prendeu Seu Joaquim”.

Um enxame de moscas levantou vôo, feito um bando de bárbaros.

 


leia mais...
POR EM 25/03/2008 ÀS 11:15 AM

O primeiro homem

publicado em


Quando Leão morreu, até papai, que tinha um coração de pedra, chorou. Inconformada, amaldiçoei todos os carros do mundo. Logo, porém, me conformei, porque a morte do bichinho me foi favorável: voltei a ser a menininha da casa. Todo o recente passado ressurgiu mais caloroso ainda, na forma de mimos, chocolates, passeios ao zoológico. 

Apesar disso, eu vivia suplicando a papai que arranjasse outro cãozinho. Ele se afobava, dizia um não áspero, dava desgosto ver um animal de estimação, criado quase como filho, ser atropelado por esses malucos. Eu cuido bem dele, tranco o portão, não o deixo sair para o meio da rua, eu insistia.
 
No meu aniversário seguinte, minha grande alegria: um cachorrinho de presente, com fitinha e tudo, comprado por não sei quanto. Taí o moleque, disse papai, cheio de sorrisos e abraços. Vinha com bafo de bebida, olhos brilhantes, mãos pesadas, outro, a boca entupida de sins.
 
Em verdade, o velho era louco por cães e já não resistia ver a casa vazia, sem um latido. Durante toda a festa me abraçou e beijou mais duas ou três vezes e o novo hóspede só faltou não largar mais. Como se fosse pai pela primeira vez.
 
É esse o nome dele? perguntei, irritada, a certa altura dos carinhos. Moloque é mais bonito, apressou-se mamãe a propor, ignorante do que dizia, eu soube depois. Batizei-o ali mesmo, com guaraná. E não o larguei mais, toda dedicada a banhá-lo, mimá-lo, beijá-lo, como o fazia com as bonecas já esquecidas a um canto. Ele me olhava bem no fundo dos olhos e parecia querer dizer alguma carícia, botava a linguazinha para fora, cheirava-me toda, mordia-me, carinhoso.
 
Passava da hora habitual de dormir, quando fui para meu quarto, sonolenta e cansada, e lá foi ele a me seguir. Mamãe, porém, não permitiu que dormisse sequer ao lado da cama, quanto mais junto a mim. Onde já se viu isso, menina? Ou você não estudou higiene? E fez um sermão daqueles, como se não estivesse sido dele a iniciativa.
 
Perdi o sono por instantes, zangada com a injustiça de mamãe, e fiquei a ouvir o coitadinho ganir. Parecia um choro de dor. Penalizada, imaginei que o deixariam dormir no sofá da sala, pelo menos. Papai não iria obrigá-lo a passar a noite ao relento. E quando todos estivessem sonhando, ele voltaria para junto de mim e teria minha cama onde pudesse repousar da viagem, do batismo e da festa. Para tanto, deixei a porta do quarto entreaberta.
 
Ainda não dormia, as imagens conscientes misturando-se às do sonho em formação, quando ouvi uma leve pancada na porta. Não me mexi nem abri os olhos. Preferi acreditar que aquilo fizesse parte do que eu engendrava no cérebro: Moleque saltava para a cama, cheirava-me o rosto, puxava os lençóis, metia-se entre meus braços, à cata de calor...
 
Com pouco, senti um corpinho macio roçar-me os pés, cheirá-los, lambê-los. Arrepiei-me toda, sensível com sou ao mais delicado toque. Tentava abrir os olhos, mover-me, mas não conseguia, entorpecida. Não que passasse por minha cabeça tratar-se de uma pessoa humana. Não, eu tinha certeza de que ali estava o Moleque. Sobretudo porque entre eu e ele não havia nada. O danado conseguira meter-se não só debaixo do lençol, mas ia varando, pouco a pouco, a roupinha frouxa que eu vestia. Alcançou-me as pernas, a seguir, e eu mais me arrepiei. E foi escalando meu corpo, à procura de carnes mais macias, de um travesseiro onde pudesse dormir sem se torturar. E chegou às coxas e lá se concentrou por não sei quanto tempo.
 
Garanto que ainda não dormia, mas forças não tinha para reagir, retirá-lo dali, colocá-lo ao meu lado ou até deitá-lo fora da cama. Mesmo quando seus dentinhos me desceram as calcinhas.
 
Foi uma operação tão perfeita, carinhosa, doce que não pensei em outra coisa senão em sua inocência. Ora, ele, de certo, achava que eu me sentiria melhor nua. Ou o tecido lhe era áspero, desagradável, quem sabe?
 
Eu ainda não tinha pêlos na vulva e aquela língua morna lambendo-me a pele fez-me estremecer.
 
Em verdade, eu gostava de passar a mão sobre essa parte do corpo quando me deitava para dormir. Uma sensação tão boa que eu logo pegava no sono. Também durante o asseio eu costumava fazer isso, mas pensava em pecado, ficava triste e terminava arrependida.
 
Mas o pior aconteceu na casa do vizinho. Eu ia sempre lá brincar com uma coleguinha que tinha um irmão. Brincávamos os três, de tudo, boneca, esconde-esconde, manja, carrinho. E ele andava sempre me chamando para os quartos escuros, tirava minha calcinha, alisava minha pequena boceta, encostava a piroca e dizia que era meu marido. Mas nunca enfiou nada, só fazia pegar, cheirar, coisa sem importância.
 
Voltando àquela noite, depois das primeiras lambidas, abri, instintivamente, as pernas, doida para que aquela língua penetrasse em mim. Digo doida, mas não agia conscientemente. Para mim estava sonhando. Seria uma espécie de limpeza, já que durante toda a festa eu havia bebido muito guaraná, urinado várias vezes e não me lavara, apesar das constantes advertências de mamãe.
 
Mas, estranhamente, ele parou de me lamber e deitou-se sobre minha barriga. Encostou a cabecinha perto de meus peitos, estirou as mãos, como se me abraçasse, e a piroca, dura, forçava a entrada de minha já inflamada bocetinha. Vai e vem, senti dor e prazer misturados, não sei se gritei, se gemi, se chorei. A coisa entrava com força, dilacerando, rasgando, queimando minhas entranhas. E eu morria de gozo, de um prazer nunca sentido.
 
De manhã, sangue nas pernas, na cama, nos lençóis, uma dor enorme no pé da barriga e nada de Moleque.
 
Se você não quiser acreditar em minha história, pior para mim, mas juro que você é o primeiro homem.

 

leia mais...
POR EM 18/03/2008 ÀS 09:57 AM

O calendário de Júnio McAbana

publicado em


Nas andanças que fazia dentro da cachola, Júnio McAbana matutou um novo calendário, que fizesse frente aos existentes e privilegiasse as minorias, os exóticos e outros seres estrambóticos. Cismou com a mesmice desse calendário gregoriano, que para ele a única coisa interessante que trazia era o 29 de fevereiro, isso mesmo de quatro em quatro anos. Para começar, a semana seria de dez dias, sendo cinco dedicados ao trabalho e cinco ao lazer. Assim sendo, o fim de semana seria de cinco dias.

Segundo esse novo calendário, o ano seria de dez meses, cada mês com 40 dias e o primeiro ano começaria a ser contado a partir de 15 de março de 2010. No horóscopo, um mês seria dedicado a um bicho e o outro a um pé de pau ou à sua fruta. O primeiro seria o mês do Calango; o segundo, o mês da Cagaita; o terceiro, do Carrapato; o quarto, mês do Carrapicho; o quinto, mês do Piolho; o sexto; da Mama-cadela; o sétimo, mês da Sanguessuga; o oitavo, do Puçá; o nono, da Barata; e o décimo, mês do Araticum.

No calendário de Júnio McAbana, no 24 do mês Um seria comemorado o Dia do Viado, um feriado nacional, onde se realizariam as paradas gays, pela manhã, e à noite seriam rezadas missas e realizados cultos protestantes. O carnaval seria do dia 35 ao dia 40 do mês Dois. Dia 20 do mês seguinte seria comemorado o Dia da Esbórnia; dez dias depois seria o Dia do Feladaputa, com um desfile cívico de todos os árbitros e bandeirinhas de futebol e todos os demais fdps do ramo e dos outros ramos.

No Natal, dia 25 do mês Dez, seria comemorado, na verdade, o Dia de São Herodes. Em dez do mês Sete seria o Dia dos Ladrões, cinco dias depois o Dia dos Maconheiros, Cachaceiros e Drogados. No mês seguinte, no quinto dia útil da segunda dezena, seria comemorado o Dia da Corrupção, um feriado nacional da mais pudica devoção, com palanques e desfiles de todos os gêneros. O mês Nove seria dedicado todo ele aos cornos, prostitutas, tarados e pistoleiras, com a realização de um grande festival de cerveja, danças típicas, muito axé, samba, maracatu e o escambau.

O mês Três teria uma data dedicada ao Dia de São Cão, onde o ponto máximo era o megashow televisivo do conjunto “Capetas em Delírio”, o mais popular e que parava o País no horário nobre das 8 horas da noite. Outro dia também muito interessante desse mês seria o Dia de São Nunca. A festa aconteceria de tarde.

O feriado mais importante, no entanto, no Calendário de McAbana, não seria o Dia de São Cèsare Apóstolo, nem o de Santo Anhanguera Bandeirante von Rusember’Gue e muito menos o Dia de Santa Periquita do Bigode Loiro, mas, sim, o Dia dos Escalafobéticos Ululantes do Vigésimo Dia. Nesse dia, feriadíssimo de festa, tudo estaria ou seria invertido: a esquerda passava a ser direita, o certo viraria errado, o inferno seria o céu, as mulheres virariam homens ...

 


leia mais...
POR EM 11/03/2008 ÀS 01:42 PM

A arca

publicado em


De longe, avistei a aglomeração, e a curiosidade me arrastou para ela. Talvez algum mágico estivesse a encantar a pequena multidão. Podia tratar-se de comício, também. Avancei mais curioso, atento aos aplausos e modos daquela gente. Não, ninguém engabelava ninguém, e todos vestiam trapos sujos. Um cheiro de lixo mandou-me dar meia volta e volver. Porém meus olhos queriam inventar o mágico ou o político, e me grudaram às costas do último molambudo.

– Morreu galego? 

O bruto fez ouvidos de mercador. Refiz a pergunta, de trás para frente, a rir de mim mesmo. Você me respondeu? Nem ele. Como podia estar muito distraído, toquei-lhe o braço, com ira. Não se virou, mas desfiou um metro de porcarias. Só depois virou a cabeça para trás e me fitou demoradamente. Dei um passo para a esquerda e postei-me às costas de um que bodejava e erguia os braços. Que diabo! Um terceiro, cheio de rugas e cãs, não parava de rir. Mais outro olhou-me. De seus olhos vermelhos escorria muita água. Aquilo já me assustava e perturbava. Não, não me amedrontava. Ora, nenhum daqueles coitados parecia ofensivo. E menos eu compreendia onde me achava. Claro, diante de uma casa em formato de ar-ca, metido no meio de um magote de mazelentos. E no interior da tal arca? Saí a pedir licença a um e outro, a abrir alas, até al-cançar a porta. O porteiro sorriu-me e convidou-me a entrar. Que alívio! Pacatos e inteligentes frequentadores de exposições fuma-vam e parolavam, requintadas senhoras furoavam intrigas entre si, bisonhos críticos parodiavam-se, risonhos e educados todos, bem vestidos e corados, alvos e adornados.

Dirigi-me a um gorducho de cara e jeito de sabido e indaguei o significado daquela multidão lá fora. Ele não me soube dar resposta, encenou uma exposição de motivos sobre o que acontecia do lado onde se achava. Ouvi por três vezes a palavra tranquilidade. Como eu lhe virasse o rosto, indicou-me um respeitável senhor sentado a um birô. Parti no rumo do venerando homem e repeti a pergunta. Para quê? Ele se enfureceu. Porém, antes de me agredir, levantou-se, como se despertasse de um sonho bom, e se disse sentir-se obrigado a ir chamar a polícia. E pôs-se a andar de um lado para outro. “Ora, são os mazelentos de segunda, terceira e quarta categorias que desejavam ser expostos. Impossível! Não adianta esse protesto absurdo. A exposição é de mazelas de primeira ordem, conforme o senhor pode ver.” E apontou para as quatro paredes. Só então percebi as peças expostas. A arca havia sido construída especi-almente para a exposição. Relacionou os nomes das mazelas principais, representadas ali por figuras humanas. Agradeci as informações e juntei-me aos demais frequentadores. Remirei-os. Diante das peças expostas, trocavam opiniões. Uma lustrosa senhora, diante de um homem vestido de chagas, suspirava: “Maravilhoso! Maravilhoso! Maravilhoso!” Tentei ser polido e voltei-me para a exposição em si. Pernetas, manetas, coxos, cegos, leprosos, anões, gigantes, deformados compunham a galeria de mazelentos. Não seriam estátuas, manequins de gesso, plástico, bronze? Só então relacionei os protestos da multidão do lado de fora à explicação do diretor da Exposição. Sim, o chagado se retorcia. Logo, a amostra se constituía de seres vivos. Cheguei a deixar transparecer minha emoção. “Ah! estão vivos?” Um prestimoso senhor tratou de me ensinar que “logicamente, pois é a Primeira Exposição de Mazelas. De nada valeriam elas, se não fossem em seres humanos.” Procurei atenuar minha ignorância. Aqueles pedestais, as poses, a rigidez das figuras, tudo dava a impressão de estarmos diante de imagens, como as de museus, igrejas, jardins. O homem deixou-me a falar só, e eu terminei fugindo dos o-lhos do outro – o exposto.
 
Adiante, outro mazelento sorria para uma criança, que o admira-va. Ria e fazia trejeitos, caretas, mungangos. O rico menino encabulou-se e dirigiu-se ao pai: “Olhe, ele está rindo para mim.” Ao que o pai respondeu, asperamente: “É um mentecapto. Não se preocupe.” Noutro estande, um hermafrodita servia de motivo à briga de dois intelectuais a discutirem deuses e deusas. Para meu espanto, falavam ora em latim, ora em grego. E se maculavam disso e daquilo, entre risinhos e citações épicas, piscadelas e expressões vulgares: cachorro da moléstia, filho de uma égua, cabra da peste.
 
Eu, mal entendedor, tratei de pular fora daquilo, antes do dilúvio.

 

leia mais...
 < 1 2 3 4 5 6 > 
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2009 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — editorial@revistabula.com


renovatio