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POR EM 11/07/2008 ÀS 12:00 PM

Os azares de Nazeno

publicado em

Quando Nazeno instalou seu pitidog naquele arrabalde de Munducaia, jamais podia imaginar que um empreendimento tão miúdo pudesse lhe trazer tamanhas dores de cabeça. 
 
Primeiramente foi o fiscal de postura do município que, sem compostura nenhuma, lhe extorquia o rico dinheirinho, toda semana, em suposta operação fiscalizatória.
 
Recorreu a um vereador representante do bairro e conseguiu os documentos que supostamente lhe faltavam e o fiscal achacador deu uma trégua. Mas o que ele não esperava é que o vereador passasse a ser uma pedra no seu sapato. Volta e meia mandava alguém pegar um balaio de cachorros-quentes, refrigerantes e latinhas de cerveja. E pagar que era bom, neca.

Mas o pior de tudo ainda estava por vir. Tomezinho, o chefe da boca-de-fumo da área, resolveu fazer ponto na porta de seu estabelecimento. Não bastasse o desconforto de ter um traficante azedando o ambiente, o malfeitor ainda resolveu cobrar dízimo pela proteção.
 
Por último, a ronda policial resolveu dar um bacolejo nos malas da região. Quando Tomezinho viu que o pau ia pegar, achou por bem dar uma de esquerdo. Enfiou-se no estabelecimento, guardou junto com os pertences de Nazeno os seus petrechos: uma pistola automática de uso exclusivo das forças armadas, buchas de maconha, pedras de craque, papelotes de cocaína, além de umas latinhas de merla.

E ainda ameaçou o proprietário: “Os meganhas não vão achar. Mas se achar é tudo seu.” Imediatamente avançou num sanduíche que estava saindo para outro cliente e começou a comer disfarçadamente.

O ardil de Tomezinho não vigorou. Um policial a paisano viu tudo e os fardados chegaram e não pegaram apenas a tranqueira. Primeiro algemaram o traficante, depois pegou as muambas sem maiores aborrecimentos ao comerciante.
 
Foi então que Tomezinho ameaçou Nazeno: “Uma classe de gente que não merece viver é cagueta. Quando eu sair você me paga.”
 
Nazeno é um cara do bem, mas medroso que péla. E maior que o medo em si é o medo de deixar o medo transparecer. Ante a ameaça não teve coragem de contar pra ninguém. Sofria sozinho. O medo vinha em ondas. Começava como uma dor de dente, descia pro queixo. Fazia o queixo bater. Descia depois para o intestino, para se esparramar por fim para todos os nervos do corpo. E tremia feito um maleitoso.

Mas o tempo amenizou aqueles surtos e ele quase esquecia que era um homem jurado de morte. Mas ontem a justiça relaxou a prisão de Tomezinho, o que foi o mesmo que assinar a sentença de morte de Nazeno. A mãe do comerciante, que inesperadamente veio lhe visitar, mal teve tempo de aparar o corpo, para que o filho morresse em seus braços, vitimado por cinco tiros a queima-bucha, desferidos pelo malfeitor.

 

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POR EM 24/06/2008 ÀS 12:06 PM

O automóvel

publicado em

Durante anos Alfredo Lisboa cuidou daquele automóvel negro, como se fosse algo profundamente seu. Durante anos não fizera outra coisa senão lavar, limpar e amar aquele carro daquela funerária de Balsas. Era um homem solitário, de pouca conversa. Andava sempre vestido de preto, embora não acreditando que a morte e seu enigma fossem apenas passagem para o outro lado da vida. Tinha suas crenças, sobretudo a de entender que a morte do ser humano era como a de qualquer outro animal, ou seja, quando se morre, acaba-se de vez. Tinha ele uma figura esquelética, corcunda, retraída e amarelada pelos linhos do Tempo, lembrando às vezes a de um sacerdote de um templo egípcio. Fumava muito e, de quando em quando, perdia-se por entre os uivos dos cães, as sombras e os açoites dos ventos noturnos, bebendo aqui e ali, de boteco em boteco. O que se sabia dele era que não tinha um parente sequer naquela cidade. Chegara ali numa jardineira antiga, ocre, GMC, como que fugindo de si mesmo, de algum trauma. Quem conta isso é o barbeiro Olício, tido por todos como confessionário, espécie de desabafo. Sabe-se que tivera sua família, mas a abandonara, a esposa lhe traíra com o jovem açougueiro Leônidas, e o filho, único por sinal, fora morar atrás das grades. Motivo: tráfico e estelionato. Agora, quase não tinha amigos.Tinha, no entanto, enquanto troca de palavras, apenas a presença do Dr. Elias Barreto, dono da única funerária daquelas bandas.
 
Quando pegou aquele emprego, fora por ser bom motorista, naturalmente pelo fato de que ninguém em Balsas tinha a ousadia de guiar aquele estranho Cadillac negro. Assim que alguém falecia, lá ia o Dr. Elias à casa de Ermidas, no outro lado do rio, solicitá-lo, por obséquio, que fosse dirigir aquele auto, levar o defunto à cova, à fome da terra.
 
Muitos diziam coisas sobre aquele automóvel. Até o lojista Anastácio, último a guiar o veículo, dizia que, numa noite, estacionado à porta de sua casa, quando dentro do mesmo, alguém soprou, às suas costas, na orelha sua, seguido, ainda, de uma gargalhada e um arroto. Em suma, havia muitas supertições acerca do Cadillac. Ele mesmo nunca vira nada. Sossegado guiava, sossegado falava, sossegado dormia nos fundos da funerária, junto aos ataúdes. O esquivo Alfredo era, na certa, uma espécie de sombra. Nunca tivera doença alguma que soubesse. Não tinha hábitos comuns, sequer freqüentava a casa das mulheres de vida “fácil”. Se gozava, se tinha prazer de orgasmo, talvez fosse lá no silêncio da funerária, atrás dos ataúdes, fumando seu cigarro-de-palha, masturbando-se, repensando na fazer de sua mulher e o jovem açougueiro.
 
Um dia, Alfredo Lisboa amanheceu frio, duro, amarelo feito açafrão, caído no fundo da funerária. E agora? Quem, uma vez que seu único irmão solicitara o corpo, iria levá-lo à sua antiga cidade, distante dali a uns quarenta quilômetros?, pensou Dr. Elias.
 
Apressado, Dr. Elias foi até o outro lado do rio. Lá chegando, soube que Ermidas viajara, não estava. A solução foi convocar dois amigos, Pedro e Thiago. Thiago era gay, mas corajoso. Pedro era tímido e sofria do coração, apesar de metido a macho.
 
O fúnebre automóvel avançou pela estrada barrenta rumo à cidade do irmão de Alfredo. Fazia um frio enorme. A noite descia escura e fechada. O vento zumbia nas copas das árvores. O silêncio cortava feito navalha. O ataúde, então semicerrado, com a tampa destravada, guardava o corpo de Alfredo. A noite já ia alta, quando aquela tampa do caixão rangeu e o velho Alfredo, que sem jamais saber que sofria de catalepsia, colocou a mão para fora do ataúde, afastando a mesma. Apático, sem compreender, bateu com a mão fechada no vidro transparente da cabina, aquele que fica atrás do motorista, dizendo meio fanhoso: “Que houve? Aonde vamos?” Num repente, Thiago largou a direção e saiu em desesperada carreira, enquanto Pedro, olhando atrás de si, estufou os olhos, começando a entrar em pânico, esticando-se todo, bufando, o coração uma mola propulsora, a boca entortando, e tic e toc e tac e fim.
 
O velho Alfredo nada pôde fazer senão sair do ataúde e colocar o corpo, ainda quente, morto, de Pedro, no interior do mesmo.O dia estava quase raiando, assim que aquele Cadillac negro entrou de volta na principal avenida de Balsas.

 

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POR EM 19/06/2008 ÀS 07:01 PM

Uma parede toda azul

publicado em

Criança o velho nunca tinha desenhado. Um pouco por causa de certo pudor inexplicável, seu pudor de velho, que desde sempre sentira, mas também porque criança não sabe dizer muita coisa além de criancices.

Então aconteceu ter acordado naquela manhã achando que estava na hora de conversar com alguma criança. Sua memória não o ajudaria muito - não vira uma só que fosse nas últimas décadas. Mesmo assim estava decidido a tentar ainda que não passasse de um esboço sem muitos detalhes, com traços bem simples e alguma delicadeza. Principalmente na voz. Retivera na memória, este tempo todo, a lembrança de algumas palavras ouvidas em voz infantil. Uma sonoridade que se aproximava da voz do flautim, quando as palavras eram proferidas aos borbotões da raiva, mas podia parecer de veludo, como o som da clarineta, sempre que estivesse na hora de dormir.

Levantou-se da mesa do café com muita esperança, apesar do corpo um tanto curvado. Tinha algumas idéias, que não queria extraviadas, por isso evitou sair ao quintal, onde costumavam enganchar-se nos galhos mais baixos dos maricás os melhores pensamentos que concebia. Urgia registrar as idéias que lhe afloraram à medida em que ia engolindo seu desjejum. Nem trocou de roupa, convencido de que nas dobras do próprio pijama escondiam-se recordações provavelmente indispensáveis.
  
A banqueta de três pernas estava no lugar de onde nunca saía, em frente à parede azul. A seu lado, quase muda, a caixa de giz à espera de novas criações. O velho, condescendente, olhou-as com olhar macio – suas companheiras de muito tempo. Ele mesmo, muitas vezes, confundira-se naquele cenário, por não saber onde ficavam seus limites, o recorte que o deveria fazer distinto do ambiente onde se movia.

Com calma resignada começou a limpar melhor a parede, onde não apareciam traços físicos de personagens anteriores, mas tão-somente manchas brancas do giz apagado. Depois de considerar com atenção o espaço vazio na parede, o espaço azul a ser preenchido, achou que estava tudo bem, sem, contudo, iniciar imediatamente sua obra. Era um tempo que não lhe fazia falta, um tempo indiferente que não chegava a ser um desperdício. Para os solitários bem treinados no exercício da solidão, o tempo é apenas uma invenção proposta por algum delírio.

Não era todo dia que o velho forjava suas criaturas na parede. Apenas quando sentia necessidade de conversar sentava-se na banqueta, aguçava o pensamento e começava a dar forma a seu companheiro. Tinha preferência por homens, pois com eles entendia-se bem, sem ser preciso explicações tortuosas. Às vezes criava mais de uma pessoa. A conversa animava-se, havia divergências, enfim, os assuntos voavam.

Na semana anterior, inventara de construir um casal. Então tivera de passar o dia inteiro na frente da parede, porque conversava uma hora com o marido, então tinha de dizer alguma coisa à esposa. Voltava ao marido, que reclamava das interrupções e assim o tempo foi passando, e só abandonou o parlatório no início da noite, quando apagou o casal para dormir.

Sua melhor criatura, ainda lembrava, tinha sido um homem de óculos com lentes bastante grossas e olhar cândido, um olhar minúsculo e brilhante. Ele se apresentou como um sábio antigo, filósofo cujos escritos foram queimados em Roma, num incêndio de proporções gigantescas. O mundo, disse-lhe o filósofo, o mundo teria sido outro, não fosse a desfaçatez daquele maluco. Deu conselhos com voz calma, enunciou alguns princípios pausados e luminosos, por fim despediu-se fechando os olhos antes de ser apagado.  

O velho sentia um pouco de ansiedade ao começar os primeiros traços de uma nova personagem por não saber de antemão a quem estava dando vida. Suas criaturas eram sempre surpresas para ele mesmo, que odiava ser surpreendido, amante como era de sua rotina. Quando sentia o giz tocar na superfície lisa da parede, sua mão estremecia com uma vibração tão sutil como aquela do corpo do passarinho, que um dia pretendera salvar no quintal, por baixo dos maricás.

Criar uma criança, então, passou a ser uma pressão desafiadora. Podia dizer que inventava o mundo sem necessidade de abrir os olhos, mas não podia saber qual o resultado de tal aventura. Isso era o que o velho entendia por uma pressão.

Suas mãos estavam úmidas e ele as enxugou no jaleco sujo de giz. O suor umedecia-lhe também a raiz da barba cinza. Mas ele não cogitou de secar a pele do rosto, pois vinha chegando a imagem dos cabelos de uma criança e não podia perder tempo com o supérfluo. Era um cabelo castanho e liso, de um menino, de um menino com a idade das crianças. Uma idade em que se canta para chamar alegria.   

Gravado o primeiro traço na parede, o velho entrefechou o olho esquerdo, enrugado, para imaginar as dimensões. Jamais cometera uma desproporção. De suas mãos era impossível aceitar que saísse qualquer forma que não fosse perfeita. Aproximou-se um pouco da parede com as mãos trêmulas de carícia. Uns tantos gestos rápidos e retos, alguns ondulando curvas suaves e o esboço de uma cabeça estava pronto.

Passando pelo pescoço, relutou em lhe dar uma garganta por não saber o tipo de pigarro usado normalmente por uma criança. Então secou novamente a mão para não molhar o giz, para não ter dificuldade de apagá-lo mais tarde, quando fosse a hora de dormir. Enquanto não se resolvia sobre a garganta, dedicou-se a trabalhar nos olhos. E os fez com uma habilidade majestosa iguais aos seus próprios olhos, que via com freqüência no espelho. Usou sua própria imagem como modelo.

Um pouco mais e a fisionomia foi-se delineando: um ar de quem acaba de se descobrir muito cansado. Tentou corrigir o paradoxo, mas os retoques acentuavam cada vez mais os cantos caídos da boca e dos olhos. Parou de trabalhar, afastou-se para examinar melhor o que estava feito. Havia grossura de giz nos traços que se cruzavam. Mas não havia mais remédio, as formas dadas teimavam em não se desmanchar.

No desenho do corpo, um corpo infantil enroupado, não houve dificuldade. Apesar disso, quando chegou ao desconforto – agachado para desenhar os pés – por causa de uma vertigem, o velho sentou-se no chão, imóvel.

O menino pela primeira vez sorriu e cumprimentou seu autor com voz de flautim. Que sono, ele demorou-se dizendo. Então bocejou com amplitude e estirou os braços. Ao sair da parede, não encontrou mais o velho, que havia desaparecido, por isso tirou o jaleco sujo e foi dormir.   

 

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POR EM 17/06/2008 ÀS 11:45 AM

A ponte sobre o rio dos amantes

publicado em

Só podiam estar em lua-de-mel. Tantos beijos, afagos, enlevados um do outro. Ela, vista de onde eu me achava, parecia ter seus vinte anos e ser muito bonita. Ou talvez se tratasse de beleza artística, cosmética, aparente. Ele também se vestia da mais fina elegância e dava ares de galã de cinema.
 
Não, não devia ser verdade. Eu sonhava ou talvez filmavam por ali. De onde haviam surgido? Por que tão bem aparentados naquele ermo? Ora, só havia o rio, a ponte onde eles namoravam e a estrada de que a ponte fazia parte. E mais nada. Só eles e eu. Eles esquecidos do mundo, eu todo ouvidos e olhos. E, apesar disso, eles não notaram minha presença, enquanto eu não perdia um só gesto deles, um só movimento das mãos, dos olhos, dos lábios.
 
Nunca gostei desse tipo de indiscrição, nem mesmo quando fui criança. Se algum dia me pus a espiar casais, o fiz da maneira mais discreta possível. Aquele, porém, assim tão esquisito, ali naquela ponte, eu não podia deixar de ver, olhar, espreitar. Sobretudo quando se atracavam, se grudavam num interminável abraço/beijo. Nem pareciam dois, antes um só ser – figura arrancada às mitologias, novo hermafrodita.
 
Imaginei despregá-los. Talvez até me agradecessem o ato humanitário. Dei o primeiro passo e eles, como se percebessem meus movimentos e minhas intenções, se separaram tristemente, feito irmãos siameses contra cuja ligação a medicina se interpusesse. E se olharam com toda a profundeza que existe no olhar de quem se olha ao espelho. Em seguida, com a lentidão dos eternos, ele afagou o cabelo dela, e sorriram, como crianças. E balbuciou não sei que palavras mágicas, cabalísticas.
 
Eu só via seus lábios a se despregarem e a se juntarem. Ela apenas sorria, um ingênuo e magnífico sorriso.
 
Súbito ele enfiou as mãos nos bolsos, com sofreguidão, e deles retirou cigarros e fósforos. A luz se fez e a fumaça do fósforo e depois a do cigarro aceso fizeram com que ela levasse as mãos aos olhos e abaixasse a cabeça. Já não adiantava, porém, nenhum gesto, porque a primeira baforada inundava-lhe a cabeleira, provocando-lhe afobação. Inquieto e nervoso, ele abanou o ar com tamanha precipitação que conseguiu esbofeteá-la. Atingida pela pesada mão dele, sentiu-se tonta e cambaleou.
 
Mais nervoso, ele jogou ao rio o cigarro e amparou-a, enquanto parecia pedir perdões. Ela, no entanto, desprendeu-se dele e, chorando, correu ao longo da ponte, para encostar-se ao extremo da murada, os olhos mergulhados nas águas.
 
A princípio, ele se pôs a gesticular e falar, sem sair do lugar onde estava desde quando os avistei. A seguir, caminhou no rumo dela. Ao alcançá-la, agarrou-a pelos braços e virou-a para si. Ela ainda chorava e se puseram a falar com muitos gestos, como se se ofendessem. Ele apontava para o rio, e ela, cheia de pavor, arregalou os olhos para o precipício. E exaltou-se, a chorar, a bradar, enquanto ele se calava e debruçava sobre a murada. Depois ele retirou do bolso um lenço vermelho e o entregou a ela.
 
Nenhum de nós percebeu, por isso, a aproximação de um carro. Eu mesmo só alertei quando ouvi uma buzinada. Voltei-me para o intruso. Ao volante do automóvel uma mulher pedia desculpas (de se ter aproximado, de haver buzinado?) e dava marcha à ré.
 
Quando me virei de novo para o casal, isto é, para a ponte, já a mulher e o homem haviam desaparecido. Nem sobre a ponte nem ao longo da estrada havia nenhum sinal deles. Corri até a murada e ainda pude avistá-los a nadar contra a correnteza.

 

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POR EM 17/06/2008 ÀS 09:45 AM

Os mortais

publicado em

Chega um tempo em que as ervas medram, crescem como praga invadindo o quintal, o pátio, trepando, com fôlego, nos muros, nos vãos e caibros da casa; e é nesse tempo que as flores, e suas pétalas, murcham e mais parecem faces chupadas, secas em covos de melão, exalando, no pó do ar ferroso, seu aroma de pudim retraído, regado a louros de um sopro que, pastoso e ferido, aderna à lágrima dos arvoredos em chumaços de chapéus sombrios; chega um tempo em que o existir é o inexistir, em que o real, de tão real, real não nos parece, em que, em suma, em nossa porta ouve-se o soar do bater do punho de um espectro visível, cruel e insensível em seu modo, em sua troupe de arcanjos agônicos; e é nesse tempo, justamente nesse tempo, que a angústia nos toca, nos sangra, inaugurando em nós, a farsa do abandono, dos dias sem sol, sem chuva; e é por isso mesmo, nesse tempo, que a dor de estar ausente, embora apensa aos “slides” das horas, à vida em libélulas de som, nos visita, com sua legião grega e seus soldados precisos em suas lanças, em seus elmos, em suas cnêmides; e não nos é concebível a lâmpada de elidir o que de ruim nos é imposto, ainda mais e quando elas, as urtigas, povoam nosso corpo e em nós fazem vibrar a nênia de uma raça primitiva, oriunda, é certo, dos confins da Mongólia; e é aí, meu Deus, que o ser não sabe ser e, por ser o que já não sabe, passa ser a força e os elos da serpente do Nilo, a naja, talvez, ou a víbora que, por Marco Antônio, um dia mordeu Cleópatra. Chega um tempo em que a nossa casa é pura teia e nossos móveis, abandonados, frouxos no escuro de suas formas, encostam-se pelos cantos, e não há viv'alma que ali não pressinta o defluir da vida, do que pensa ou pensou; chega um tempo em que tudo é vácuo, e nada é explicado a nada; e fora, ou é, nesse tempo que se encontrava eu, Pedro, Ana , minha irmã, e Thiago, meu pai; e fora muito antes desse tempo que Maria, minha mãe, deixou de existir, se é que existir era estar ali, era estar aqui, era “nascer” para além do sol, do abstrato em que nossos olhos cabem; e fora, ainda, por esse tempo afora que meu pai, juntamente comigo e Ana, pôs-se a ruir na faúlha do que naqueles dias se alongava; e vendo ele que as teias, as traças, os escorpiões, a tudo cobriam, e sentido, no peito, o vazio se erguendo, se construindo, à sonata empírica dos bruxos, das sombras em estado grávido, entendeu que a nós fora dado o direito livre de escolha, entre existir e inexistir.
 
Crente, então, nessa fé, e diante de tamanho desespero, desceu conosco àquelas terras vermelhas, por dentro da mata vermelha, à espera de ali encontrar a grande fonte, ou seja, o verdadeiro sentido de existir; e ficamos, assim, vagando em círculo; e, quanto mais andávamos, mais a mente se nos apagava, se nos diluía. Vagamos durante vários dias até que, de repente, nos vimos debaixo da porta, da gigantesca porta que dava entrada para o vale, o fantástico vale de luz e ilusões, que mais parecia um pulmão se inflando, se aquecendo, num processo de inspiração e expiração.
 
À medida que avançávamos, à medida que o tempo chegado ficava para trás, em nós o coração se encantava, enraizava-se com sopro de flautins dourados. Com muito susto, assombro que aos deuses desperta, flagramo-nos no colo daquele reino, daquele vale enunciado em framboesas e alfazemas, onde, carregadas, as jabuticabeiras pendiam-se frouxas, sedosas, e as parreiras, enquanto verdes e molhadas, exsudavam em seu suor, em seus pêlos de cachos copuliformes, sensíveis, enfim, ao vento amaciando as têmporas, os figos, num estremecer de espumas oleosas; a luz, naquelas bandas, era dócil, tênue como a face de um deus; e era dela, de sua aura esmagada em ponches de maçã, do ventre de seus fios em marfim, que a Grande Mão se edificava e em salmos de sangue proclamava a aurora com sabor de pêssegos carnudos; e fora lá nesse tempo, muito longe do tempo chegado, que encontramos a fonte da magia ocidental, dos pífaros aguados em percucientes de brisa, a jorrar a água que deifica e fortalece a herança da alma na Terra; e fora dela, do esguicho de suas águas em arco-íris e, terminantemente, à poeira luminosa vazando as asas das crisálidas em festim, que bebemos, saciamos nossa sede; mas, como no espaço se concebia, se determinava, não nos era permissível assentar morada por lá, uma vez que, depois de estarmos alimentados, aquele vale se inchava, se inflava, feito balão, pressionando-nos, fazendo com que nos evadíssemos, fugíssemos de seu interior; então, depois de havermos matado nossa sede, reativado nossa força, a este tempo chegado voltamos; e, passado algum tempo, tudo dentro deste plano se nos voltava a violar, e nos fazia arder em lenhos de resinas incendiadas.
 
Dia-após-dia, retornávamos à fonte, logo que nos víamos de novo enfraquecidos. Como sempre, ela nos dava de beber, expelia do espírito de suas entranhas; e, assim, meu pai, naquele vale, erguia, primeiramente, suas mãos em forma de cuia e dela recebia o alento, enquanto eu também o seguia, acompanhado de perto por Ana; e vários dias ficamos voltando àquele reino de magia ocidental.
 
Um dia, não me lembro quando, sei que corria no céu uma fumaça escrita em cuneiforme, retornamos à fonte; mas ela, em sua sabedoria transcendental, não mais verteu de sua água a meu pai.
 
Depois de levantar as mãos em cuia, muitas e muitas vezes, ele, enfraquecido e estonteado, recuou comigo e minha irmã àquele tempo chegado.
 
Noutro dia, pela mesma hora,volvemo-nos a essa fonte; no entanto, nada de água, alento, para meu pai; jorrou ela apenas para mim e Ana; mais enfraquecido, meu pai retrocedeu a este tempo chegado; e, ocorridos os dias, mirou-se ele no espelho empoeirado da sala sufocada de ervas; porém, sua imagem não se refletiu; abatido, destituído de energia alguma que pudesse faze-lo resistente, olhou para nós com olhos de sabão em pó, empacotados e brancos, indo, em seguida, em direção à porta, ao tampo-de-abertura deste tempo chegado; como quem é apagado pela borracha da mão se achando no erro, desapareceu, esquivou-se entre as sebes do lugar, e nunca mais o vimos!
 
Uma semana depois, quando Ana e eu (ao voltarmos daquela fonte ocidental) estávamos sentados à porta da casa tomada por ervas, uma pomba luminosa veio e pousou no parapeito da janela ardida em feixes, em aros de estanho vil, e, ali, como se nos conhecesse há muitos anos (e seus olhos muito se assemelhavam aos de meu pai), ficou a nos observar, vigiando, atenta, nossos gestos, nossos movimentos; era bastante suave seu ruflar, bater de asas e, no seu vôo de luzes, preocupou em estar sempre perto de nós; mas os fluídos emitidos de sua aura, do eixo de seu ser, não lhe premeditavam que em si Sat era sadia, que em si Ananda ainda era leve, frágil como casca de ovo.
 
Chega um tempo em que a desolação é total, em que nunca sabemos se já estamos, ou estamos, em que nos vem o pensar de onde viemos e até quando iremos; e fora por este tempo, e devido a ele somente, que íamos todos os dias àquela fonte ocidental, numa eternidade que só o Céu e a Terra hão de provar; e, por não compreendermos este fato, ansiávamos o ápice da existência, mesmo que fosse por um segundo, mesmo que nos fosse árduo o instante de admitirmos que não estarmos vivendo e, por imaginarmos assim, dessa maneira tal, é que fomos à fonte, naquele meio-dia de setembro, com o intento de lá sorvemos o alento; para nossa tristeza, nossa desilusão, ela não mais jorrou para Ana e, como espectadores do Infinito, postamo-nos ante ela estáticos, e mudos, na persistência, ou espera, do ato de Ana, de sua mão pênsil em forma de cuia; a fonte naquele dia jorrou apenas para mim; desencantados, retornamos à tarde a este tempo chegado.
 
Voltamos, noutro dia, à fonte, àquele mundo de fascínio e encanto, mal o sol surgira; no entanto, ela, a fonte, jamais jorrou para Ana; e não me era possível ceder de meu alento, ou seja, do que ela me ofertava, à minha irmã, pois o que me era dado era dado rapidamente, e, rapidamente, eu deveria bebê-lo; não havia tempo para ceder a ela; e Ana, então, uma semana após, quando esgotada na sala da casa em ervas, mirou-se no espelho em que meu pai antes se mirara, e sua imagem também sequer se refletiu; sentindo-se abatida, feito um elefante que, pressentindo a morte, a vida, chegando, caminha no rumo de seu cemitério, ela desapareceu, sumiu na névoa, no calor das tabocas ardendo.
 
Vencidos os dias, outra pomba, voando em tênues raios de luz, pousou no parapeito das janelas em ervas, e ali permaneceu, o coração pulsando na pele iluminada do peito; eram, agora, duas pombas em luz sutil; e uma delas, se estou certo, tinha o perfil igual ao de Ana; aquilo me fez pensar no que era existir.
 
Chega um tempo em que tempo é de repensar, e é deste tempo que ora falo; a quem interessar, deixo escrito no pano de algodão branco da mesa: há dias vou àquela fonte ocidental, e ela até hoje nunca me negou seu alento e em mim, por mais que eu não queira, Ananda é forte, vibra como lírios no campo, enquanto Sat se me soa ininterruptamente; por mais que eu procure, não compreendo ainda o que é existir, sobretudo porque Thiago e Ana já não se fazem mais presentes, e a solidão, por cá, é abismo, ferrete imóvel no ar, entre os vãos dos caibros; e nada é mais triste do que não ter alguém pra conversar, dizer alguma coisa, a não ser aquelas duas pombas, sobre o parapeito da janela, que não sei se são ou se realmente são; e o pior de tudo é ter, ainda, a amarga certeza de que aquela fonte ocidental jamais me negará seu alento!

 

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POR EM 11/06/2008 ÀS 10:32 PM

Toc

publicado em

O balde d'água estava encostado no canto da sala de jantar. As orquídeas, emurchecidas e arroxeadas, então no colo do vaso tosco e postado sobre a mesa de ébano, exalavam um cheiro peculiar a morte. O relógio da parede, com seu pêndulo e seus algarismos romanos, executava um acorde de tempo e sonolência, ou seja, ruminava as horas.
 
E Roque estava ali, coxo e capenga como sempre. Limpava a sala. Esfregava. Esfregava o rodo contra o assoalho, num coxear insistente. Eram Roque e o toc, toc e o Roque. Roque, tocando seu rodo, rodava pela sala adentro. Era bobo e babava. Tinha uma perna besta, abobalhada como ele mesmo. Seu semblante denotava uma estupidez bem maior do que o maior e o maior dos mistérios.
 
Naquela manhã de maio, cinzenta e fria, eu me postara, naquele canto da sala, a observá-lo. Parecia não existir. Era como um ente, um gnomo. Como pode? Como? O bobo nem está morto nem está vivo: é um susto no tempo (...).
 
Margarida me contara seu sonho. O vulto surgira, dizia ela, unicórnio e loucura revestidos de negra túnica, fogo, língua ardente queimando o espaço, à procura de seu corpo, no meio do vento e do campo anuviado. Margarida me confiara. O campo, segundo o sonho, bem como o ar, recendiam a flor, e se moldavam nas ondas da névoa, ao bafor empírico e plástico. Ela me dissera. O sonho acontecera justamente um dia depois que o bobo lhe ofertara aquele ramalhete de margaridas. Com a baba escorrendo pelo canto da boca, hálito afumado comendo o beiço, ele chegara, como a dizer “margaridas para Margarida”, dando a entender o seu desejo.
 
Margarida confirmara. O bobo surgira, monstrengo de negra túnica, expondo uma gana de quem muito deseja. Ele a possuíra durante o sonho: incubo?
 
Estávamos à porta do hotel. O frio nos tocava levemente na tarde baça. Margarida nada sabia sobre o bobo. Não sabia de onde viera, por que viera, nem como viera. Um dia apareceu por aqui, falava. Chegando, ajeitou-se neste hotel – andrajos e bobeira solitária. Já acostumamos com a sua figura esquisita e seu idiotismo, dizia.
 
Eu estava de passagem. Era caixeiro-viajante. Não entendo o motivo, mas, naqueles dias, momentos em que passei na cidade de Caldas, ele se me afeiçoara, grudara a mim. De vez em quando, punha-se resmungando para o meu lado, exprimindo sílabas desconexas, como se estivesse roncando, ganindo. Sacudia, balouçava os ombros, baba escorrendo no canto da boca, quando me chamava a atenção.
 
Algo que nunca me saiu da cabeça era aquele seu jeito e costume de dizer-me, numa convulsão estúpida, que, se morresse, voltaria para ver-me. “Eu volto”, repetia, continuamente, com sorriso lacônico. Era quase incompreensível. Às altas horas da noite, estando em meu quarto, eu o escutava arrastando os móveis, manquejando na escuridão do sótão. Claudicava. Era toc, toc, toc.
 
Eles se foram na madrugada de sábado, em direção àquela pescaria. Eram quatro: três irmãos e o bobo. “Eu volto”, disse-me antes de sair. Levaram canoa, material suficiente, para um bom momento às margens do Corumbá. “Eu volto”.
 
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Toc. Toc. Toc. Ei, Roque? Roque? Novamente toc. Ah, você está aí, hein? Levantei-me da cama. A luz do quarto permanecera desligada O coxear no sótão cessara. Sentado na cama, ouvidos e olhos atentos, fiquei alerta. Ei, Roque? Você não está pescando? Ei?!
 
O hotel era só silêncio. De repente, o manquejar desceu, pelo corredor, em sentido ao meu quarto. Toc. Toc. Toc. Era o bobo? A porta estava encostada. O manquejar achegou-se. Ei, Roque? É você, hein? Eu refletia. Ela se abriu. A luz frágil, tênue, pôs-se no vão, enquanto uma lufada fria, violando a luz suave, assoviou por entre a porta.
 
Os corpos foram encontrados. Todos os irmãos. Fazia quase uma semana que haviam ido. A canoa virara. Os corpos foram encontrados, menos o do Roque.”Eu volto”.
 
Depois de uma semana, após o acidente, ele aparecera. Estava imundo, maltrapilho. Ao retornar. Deixou-me encabulado e pensativo. Morrera ou não? Telebulia ?
 
A chuva fina, e fresca, caía sobre a cidade. Eu já estava de saída. O menino chegou gritando: “Ei, o bobo voltou! Ele está aqui!”
 
Deparei-me com ele no corredor do hotel. Fedia.Com os olhos assustados, sorriso lacônico no beiço (havia um quê em seu interior), disse-me, ganindo e revirando a cabeça, ao sibilo do infustamento das palavras: “Eu volto”.

 

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POR EM 11/06/2008 ÀS 09:52 PM

Quatro contos de um parágrafo

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1.Traição
Quando a música entrou pelos ouvidos de João, ele foi instantaneamente arremessado de volta no tempo. Por alguns segundos fechou os olhos e sentiu um aperto no coração. Foi como se despertasse e sentisse o corpo, de novo. E de quem se lembrou? Dela, de Maria, que foi sua namorada quando a música fazia sucesso. Lembrou da festa onde marcaram encontro e dançaram coladinhos, ao som dessa mesma canção. Não tinham compromissos; eram livres e jovens João e Maria, estavam apaixonados um pelo outro, e no fim da noite deram um longo beijo de capitulação. O amor era um conjunto de sensações físicas inenarráveis, e que desapareceram... Ao abrir os olhos, em silêncio, teve João a estranha sensação de que traia a esposa (ao seu lado) com Maria. Olhou para esta de soslaio, mais perplexo que envergonhado - até porque a esposa e Maria eram a mesma mulher, separada por uma década.
 
2. Pernas
A porta de seu escritório dava para o corredor que saia na sala, de onde podia enxergar frontalmente a televisão. Começaram lá a abordar um assunto de seu interesse, fazendo-o pausar a leitura dos contos “horrorosos” de Uma outra vida, de John Updike. Levantou-se e deu alguns passos em direção à sala, quando descortinou, por trás do sofá que se interpunha entre ele e o cômodo, duas pernas nuas e estendidas, escoradas num nível inferior da estante. Eram as pernas de Lídia, a esposa, que se acomodara no chão entre as almofadas. Do ângulo em que estava, já indiferente ao noticiário, ele as surpreendeu de ponta-cabeça, douradas pela luz amarela do ambiente. Parou e pôs-se a admirá-las sem que a mulher o percebesse, não podendo dela divisar o tronco e a cabeça, escondidos pelo móvel. Enxergava só o fantástico par de pernas, em tesoura, pousadas ali como uma borboleta. Por um instante julgou que contemplava as pernas mais bonitas do mundo. Parece até que elas o aguardavam, prontas para o amor, sucedendo-lhe um princípio de ereção. Não era uma fantasia que tivesse, mas a cena imprevista fê-lo imaginar um caso proibido, numa alcova de motel: eram pernas de Lívia...
 
3. O momento da criação
O escritor solitário finalmente conhecia o mar. Era uma manhã carregada, as nuvens ameaçavam precipitar. Mas a praia estava limpíssima e tudo o que ouvia, de muito distante, era apenas o compassado bater das ondas. Descalçou os pés e os colocou pela primeira vez na areia gelada e macia, que sensação! Avançou até aonde a água alcançava seu peito nu e tomou seu primeiro banho oceânico. Mergulhar, não quis. De retorno à praia, sentou-se, respirou fundo e admirou longamente a paisagem matinal. Estava entediado, apesar de tudo. Não tinha ninguém, o escritor. Fez uma concha com a mão e a enfiou na areia branca como se fosse um menino. Ergueu uma porção e lançou em direção à água que vinha e refluía desde a madrugada dos tempos. Notou em seguida que os dedos ficaram salpicados pelos pequenos grãos, que procurou limpar na vaga que retornava outra vez. Porém, tão minúsculos eram esses grãos que de todo não saíam da pele, pegajosos. Perlustrou um deles, insignificante, sobre seu imenso, descomunal polegar. Averiguou-o, sem mais o que fazer. Súbito, teve a inspiração! Ia escrever sua primeira história. Foi quando uma gota da tempestade que vinha caiu em seu rosto e ele prontamente recolheu as roupas e voltou para dentro. Ali, foi primeiro à torneira, lavou direito as mãos – tinha mania de assepsia - e pôs-se ao trabalho inebriante.
 
4.Anedota russa
Mickael Vasiliev Boutachévitch-Petrachevski: era este o nome do conspirador-mor. Dizem que não era excepcionalmente capaz, mas fazia coisas indesejadas. Deixava-se, como Baltasar Bustos, influenciar por livros proibidos. As idéias da França escapavam pelos dedos e chegavam tanto na Argentina como na Rússia, onde um rei se incomodava, cheio de motivos. Numa daquelas sextas, o círculo de Petrachevski contou com a presença de um novo integrante, cujo nome não sabemos e não conviria celebrizar. Era o delator: que se perca. Os rebeldes foram todos descobertos, passando os próximos oito meses na prisão. Era improvável que fossem inocentados. O mais certo é que restavam duas possibilidades, ambas terríveis: serem enviados à Sibéria, onde praticariam trabalhos forçados, ou serem simplesmente fuzilados. A agonia tomou conta daqueles homens, amigos dos servos e inimigos da servidão. Após o trânsito do processo, conheceram finalmente a sentença: o infeliz Petrachevski e seus sequazes seriam mesmo mortos. Um frio ruim atravessou suas entranhas, ao receberem a notícia. Tal-e-qual os césares de Roma, os de São Petersburgo também ofereciam circo ao povo, de forma que os condenados foram conduzidos à Praça Semenóvski. Era um circo ameaçador, na verdade: o povo assistia ao espetáculo e voltava para casa com medo. O quarto condenado, confuso e desesperado, vê três de seus colegas serem amarrados ao poste de execução. Em seguida levam-no também, não há rufar de tambores nem toque de recolher armas - há apenas um estampido seco, uma carga fatal no coração. O genial Ordinov desaparece aos 30 anos de idade, parabéns ao rei pela merda que fez!

 

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POR EM 11/06/2008 ÀS 09:45 PM

Teoria da desfiadura

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Eles vão chegar, mais hora, menos hora. Ofegantes, embravecidos, cientes de me poderem pegar e matar. Porém não me pegarão nem me matarão. E voltarão decepcionados, porque eu sei o que sou e fui.
 
Um dia, eu tinha doze anos e o tempo não passava nunca, aquela pintura desbotada diante de mim. Na lama, afundavam-se meus pés, feito bichos medrosos. Ao meu redor tudo se expandia e eu nem olhava com pena de minha pequenez. Todo dia esse sempre estar só, muito triste. Acocorava-me ao pé da bananeira pensa, a olhar, distraído, para as minhocas que se contorciam no charco do quintal. Minha mãe não chorava, mas espantava as galinhas, os urubus e o sol para não se lembrar dos gritos de meu pai. E aguava o chão de manhã e de tarde, com medo da seca.
 
Nesse perseguir, com os olhos, as minhocas, eu tive uma idéia.
 
Eu era a meada de lã do sapatinho inconcluso. Novelo colorido no colo de minha mãe. Se puxasse a ponta do fio, me desenrolava todo, me desfiava. Mamãe me chamava aos gritos, afobada, vasculhava o quintal. Fugiu, o capeta. Trepou no muro, feriu-se nos cacos de vidro, foi-se embora. Louca e muda, me encontrava estirado ao longo do chão, enrolado nas bananeiras apodrecidas, sujo de lama, feito um porco, confundido com as minhocas.
 
Puxei a pequenina ponta, forcei, primeiro com as pontas dos dedos, depois com a mão fechada, senti que conseguia, a ponta crescia, eu me desfiava, tudo escurecia e eu me perdia num quintal esquisito, sombrio, e o medo me agarrava pelas canelas e me arrastava para os pés de Nosso Senhor.
 
Cresci. A idéia se enroscou em mim, feito cobra. Por que não desfazer a meada, com dor, sacrifício, intensidade? Acreditei ser necessário difundi-la, por mais absurda que parecesse a muitos. A vez de descobrir meus semelhantes, fazê-los aprendizes, doutriná-los. Alguns poucos ouviram e abaixaram as cabeças. Falei e falei. Discutimos e elaboramos novas idéias, um programa de lutas e objetivos. Criava-se o embrião do grupo.
 
Três anos após, registramos o partido e concorremos às eleições. Lutamos nos palanques apedrejados e incendiados pelas turbas. Gritamos nas mesas dos bares. Hasteamos bandeiras que causavam risos fabulosos. Propusemos a criação de entidades públicas de defesa dos direitos de nossos adeptos e apresentamos projetos de lei que reformulassem todo o sistema educacional, dando aos estudantes uma noção exata do direito de desfiar o novelo.
 
É minha a frase que se tornou célebre e serviu de estopim para a guerra contra nós desencadeada: “Enquanto somos capazes de dar a vida pelos nossos ideais, vocês são capazes de tirar a vida dos outros pelos vossos.” No mesmo dia nosso partido foi posto na ilegalidade e uma grande onda de perseguição se abateu sobre nós. Os que não conseguiram fugir para o exterior se viram imediatamente presos e executados.
 
Agora eles virão me buscar, ávidos de sangue em suas mãos assassinas, ofegantes e embravecidos, cientes de me poderem pegar e matar. Porém eu não serei jamais capturado e morto, eu o prometo em memória de meus companheiros massacrados pela intolerância, em fidelidade à minha primeira idéia, lá no quintal de minha velha casa, às meadas e minhocas que me ensinaram lições inesquecíveis. Eu juro: não me deixarei matarem. Serei realmente, como sempre fui, um suicida. Agora, agora mesmo.

 

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POR EM 09/06/2008 ÀS 07:04 PM

O aventureiro Franco Ornelas

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Franco Ornelas deixa monumental biografia de aventuras. Nas amorosas então era exímio. Seu negócio era variar de mulher. Ele se apaixonava perdidamente à primeira vista. Bastava que a mulher tivesse o mínimo de apelo físico e o máximo potencial de perigo. Mas uma só acolhida da mulher em seu tálamo, ou que na alcova dela fosse rolar, já era o de que precisava para enjoar definitivamente.

Dessas aventuras de alcova sobreviveu a várias emboscadas, a tiros no peito a facadas de maridos furiosos. Cada cicatriz era um troféu, que tinha orgulho e prazer em exibir na roda aos amigos.

Mas suas aventuras não se resumiam a essas, não. Ainda jovem foi piloto de moto e se apresentava no globo da morte de um circo. Segundo consta, depois que ele deixou a função, o circo nunca mais arranjou piloto tão arrojado. Tinha um número que ele fazia a sete metros de altura, sem rede, por fora, em cima do globo. A bola rodando e ele compensando o giro da bola no acelerador da moto. Depois saltava fazendo pirueta sobre uma rampa. E nuca se machucou nessas loucuras.

Foi pára-quedista ousado. Saltava de avião e deixava para puxar a presilha no último instante. Tirava o fôlego da platéia. Dizem até que foi o primeiro brasileiro a saltar de prédio e nos despenhadeiros na Chapada Diamantina.

Teve um período em que chegou a trabalhar em Hollyood, como stuntman, nas cenas de desmantelo. Naqueles tempos, românticos do cinema em que as cenas de perigo eram feitas, não por computador, mas por malucos de carne e osso, lá estava Franco Ornelas, vendendo sua coragem e sua habilidade para dar realismo às cenas. Nessa época ele teria unido suas habilidades de acrobata com  as de aventureiro de alcova. Dizem que pegou as divas mais cobiçadas dos anos sessenta. E não duvido, porque de fato ele era um sujeito bem apessoado e de lábia escorreita. E o que era mais importante, dedicava-se quase que à atividade com muito afinco.

O que Franco Ornelas jamais poderia prever é que depois de sobreviver a tantas aventuras radicais, sua vida fosse ter um fim tão ordinariamente trágico.

Ocorreu que, com as campanhas de combate ao mosquito transmissor da dengue, ele quis contratar um biscateiro para limpas as calhas de sua casa. O camaradinha pediu duzentos reais para o serviço que faria em poucas horas. Foi aí que o nosso aventureiro, já velho e com a barriga protuberante, resolveu ele próprio subir no telhado e executar o serviço.

Uma telha úmida se rompeu com seu peso e o fez desequilibrar. Ainda tentou uma manobra dos seus bons tempos de stuntman, deitando sobre o telhado em busca de alguma coisa pra se agarrar. Em vão. Tudo o que ele agarrou desceu com ele e madurou na calçada. O socorro veio rápido. A ambulância subiu a 85 abrindo fendas no engarrafamento a golpe de sirene. Mas dentro do veículo o nosso Homem de Plástico, como foi chamado um dia, já estava abrindo fendas no além com suas braçadas de aventureiro.  

 

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POR EM 09/06/2008 ÀS 06:43 PM

À sombra das sibipirunas

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Hoje meu sono promete ser muito bom. Leve, não porque esteja muito próximo da vigília, mas porque devo sonhar com aquela brisa azul que me lambe a face, faceira, e foge nas alegres cores de seu par de asas quase transparentes.

 
Continuo fazendo heroicamente minha caminhada diária sempre que posso e sei que posso menos do que seria necessário. Uma hora batidinha no relógio. O homem já foi à Lua e até hoje não inventou uma pílula que substitua essas caminhadas! Espero que o Dr. Alcyr Barbin Filho, meu cardiologista e algoz, pois foi ele quem me prescreveu esta tortura, não seja muito afeiçoado a crônicas. Ele não me imagina um rebelde. Hoje eu podia e fui caminhar. À sombra das sibipirunas, como já avisei lá no alto. E as sibipirunas me protegiam do restinho de sol existente.
 
Tinha percorrido pouco mais da metade de meu trajeto quando vi. Lá estava o menino de shortinho e sem camisa, com a franja espessa a esconder-lhe os olhos. Ele tinha o braço direito um pouco levantado, e na mão, no polegar de sua mão, uma cigarra, que ele mostrava com orgulho a dois amigos. Uma cigarra dessas grandes, maior do que a mão dele. Então ele alçou a mão direita como se estivesse dando um impulso, e a cigarra abriu suas asas imensas e sumiu na copa de uma árvore. Uma sibipiruna com uns restos de flores amarelas. Os três meninos pularam de alegria, gritando e batendo palmas.
 
Se a cigarra voltou para o polegar do menino, se não voltou, não sei. Nem importa saber. Porque quando não se sabe, se tem o direito de imaginar. E o que sei é que houve um momento em que uma cigarra e um menino se encontraram num canteiro de avenida. Para a cigarra, o menino pode ter representado um gigante benfazejo com um dedo polegar muito apropriado a alguns instantes de repouso. Aquela cigarra, para o menino, não pode ter sido senão um fantasma diáfano e cheio de liberdade ou um espírito sutil capaz de o levar a mundos muito distantes.
 
Você, caro leitor, tem todo o direito de discordar, de supor que nem ele era um gigante nem ela um espírito. Seja lá qual for sua suposição, todavia, você há de concordar comigo que houve um instante em que entre os dois se estabeleceu algum tipo de relação. Qual? Também não sei, mas me parece que um precisou do outro, e os dois se fizeram poesia.
 
Depois de assistir a esta cena, continuei minha caminhada, como sempre, mas sorrindo, com uma cara que alguns podem ter pensado que era de bobo. As pessoas se proíbem de sorrir quando sozinhas. As pessoas gostam muito de proibições. E dormem com sono leve entre sonhos pesados.

 

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