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POR EM 17/11/2008 ÀS 04:48 PM

A dinastia

publicado em

Dava gosto vê-los trabalhar. Ao nascer do sol, puxado pelo pai, seu Adão, o grupo de nove chegava ao pé do eito como quem chega para um espetáculo de dança ou ritual de fé. Um ao lado do outro, por ordem de idade e tamanho, ferramenta no ombro esquerdo. Com a mão direita, retirava o chapéu e o retornava à cabeça, olhando pro céu com gravidade. Protegia o rosto com um escudo de sinal da cruz e balbuciava umas palavras de subserviência a Deus. Tudo em uníssono. E mandava ver.

Seu Adão e os filhos eram afamados no Vale do Bingueiro, a ponto de serem chamados de A Disnatia. Não tinha serviço ruim para eles. Dizem que cobravam caro, mas o coronel Betúlio, seus contratante mais freqüente, achava que era o caro que saía barato: serviço a tempo e a hora.

Seu Adão buscou o nome dos filhos na genealogia de Cristo: Abraão, Davi, Jacó, Jessé, Salomão, Josafá, Ozias, José e Messias. Por ser o caçula, franzino, a rapa da tacha, se diz, Messias ainda não ia pro eito. Quando completou 10 anos, idade boa, Messias teve um troço, um desmaio que assustou todo mundo. O pai fretou um Jipe e o levou para tratar em Mundocaia. Abaixo de Deus, a Medicina lhe deu jeito. Mas Messias voltou com a cabeça virada: queria ser médico.

Seu Adão achou um disparate. Se nem o coronel Betúlio deu conta de ter um filho médico. Ele então!... Mas a idéia foi contaminando a família, como praga ou erva daninha. Os outros filhos, com tato e jeito, acabaram por convencer o pai a mandar o filho pra Munducaia estudar. Se nove não sustentar um, o mundo tá perdido, diziam.

 O filho franzino tinha para o estudo a mesma desenvoltura que os outros para a foice e a enxada. Não demorou para que Messias fosse o agente de idéias da cidade. Em poucos anos estavam todos contrariados com o estilo de vida que levavam. Pior. Perceberam que não havia mais lugar no mundo para gente que vivia como eles.

O mesmo ano em que deixamos o Vale, seu Adão, dona Eva e os filhos com nomes da Bíblia, se mandou pra Munducaia, atrás do sonho de ter uma vida melhor  um filho médico.

Rapidamente, cada qual arranjou uma ocupação. Serviço tosco, mas o bastante para continuar sustentando o sonho de ter um parente médico. Alguém a quem pudessem recorrer em caso de doença, de um ataque, de um acidente. Só lamentavam que o grupo havia esfacelado, cada qual prum canto, por sua conta e risco.

Quando o Messias se formou foi uma festa. A família reunida não cabia em si de justificado orgulho. “Coronel Betúlio não conseguiu ter um filho médico”, a vaidade comichava no íntimo do pai.

Agora Messias tem três empregos e pouco tempo para dar atenção ao pessoal que lhe foi tão bacana. Mas mês passado ele excedeu na displicência. Ao final de seu plantão, no pronto-socorro municipal, veio a notícia de um ancião anônimo atropelado.  Messias alegou que o outro plantonista, quando chegasse, cuidava do caso.

Só na manhã seguinte, Messias soube que o homem atropelado era seu velho e comovido pai. Mas agora era tarde demais.   


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POR EM 17/11/2008 ÀS 04:46 PM

Paisagem do pequeno rei

publicado em

Mastigando ainda restos do desjejum, sem pensamento nenhum em sua cabeça, Juninho levantou-se da mesa e grudou a testa no vitrô fechado: seu modo de espiar aquele mundo que se mantinha escondido por trás das paredes. Pela boca aberta em cilindro, divertiu-se algum tempo expelindo o bafo quente com que embaçou pequeno círculo na vidraça transparente. E meio que riu, satisfeito com tal poder, o de cobrir a parte que quisesse do terreiro com sua cerração, aquele bafo que lhe subia do peito. Para além da janela, no fundo, a inundação de azul de um céu despenhadeiro: uma vertigem. Bem ao fundo, a inundação de azul, onde um rebanho de alvos cirros se deixava singrar por alguns pontos pretos movediços - pequenos e trágicos pontos finais - que, uns atrás dos outros, desenhavam largos e lentos círculos. Alheio ao significado do que ultrapassava os muros de seu terreiro, o menino desenhou, com a ponta do dedo, um grande jota arredondado: exercício necessário da própria afirmação. No gancho da letra, seus olhos enquadraram, no recanto mais afastado do terreiro, o imenso flamboiã de tronco rugoso, já meio decrépito, no exato momento em que um bando de maritacas marulhentas alçou vôo e mergulhou no céu, deixando a árvore, com seus galhos retorcidos, inteiramente desfolhada.

Grupo remanescente de andorinhas sobrevoou o terreiro - as claras penas do peito quase roçando os galhos mais altos da árvore praticamente nua. Talvez uma despedida, véspera da grande viagem. O menino olhou as andorinhas, o flamboiã, olhou as maritacas, distante e indiferente. Ele olhava com a boca aberta, olhava com as mãos espalmadas na vidraça, com os olhos, olhava com o corpo todo, mas nada entendia, porque tinha o olhar bronco de quem ainda não aprendera a possuir as coisas a distância.

Só ao ver o passarinho pular do nada para o meio da galharia é que se agitou um pouco mais. Como um chumaço de algodão embebido em mercúrio cromo, saltitando com vivacidade de um galho a outro, ágil, certeiro, encheu os olhos do menino, que, deslumbrado, apressou-se a limpar com as duas mãos a vidraça embaçada. Mas o que era aquilo, aquela pequenina bola púrpura, tão cheia de vida e de vontade própria? Gritou com estridência, chamando o irmão, para que viesse ver o que nunca tinham visto nem sabiam que em algum lugar existisse. O irmão terminava calmamente de tomar seu café com leite e não se moveu na cadeira. Juninho insistiu, aflito, parecendo-lhe aquela uma oportunidade única na vida, primeira e última. O pensamento foi-se, então, formando devagar, um grande círculo, como um remanso do ar em volta do terreiro, das árvores, um remanso lento, mas irreprimível. Um espetáculo que era seu, tão-somente seu. Além do irmão, a mais ninguém permitiria seu desfrute. Mas aquilo não chegava a ser um pensamento, porque ele apenas o sentia, embora com o corpo todo.

- Mas onde?!

Dois vidros acima, o irmão, impaciente, nada via além do que sempre ali estivera: as árvores, a pequena horta, um galpão coberto com folhas de zinco, uma gangorra e alguns trastes inumeráveis e invisíveis, de tão fixos na paisagem.

O menino gritou que no flamboiã, cada vez mais aflito, porque agora ele também nada via e relampejou-lhe a sensação quase insuportável da perda mesmo antes da posse. E sacudia as mãozinhas gordas preparando o choro.

Como se o mundo, de repente, estivesse a se apagar, o menino pensou com urgência.

- Lá!

Ele gritou com o dedo teso, quase furando a vidraça. Tinha acabado de rever, fascinado, a pequena bola vermelha a saltitar. Então, em pânico, vislumbrou o perigo: o passarinho não estava preso dentro daquela cena, que, de um momento para outro, poderia dissolver-se. - Eu que vi primeiro. Ele é meu!

O irmão não percebeu logo o sentido daquelas palavras proferidas com tamanha veemência e confirmou que sim, que era dele, e que ninguém, por enquanto, ameaçava privá-lo do que era seu. Ele não sabia que o pequeno jamais aprenderia a dispor de tudo com todos, pois era do tipo que só consegue sentir que é seu quando possui sozinho, sem partilhar com mais ninguém. E por não conhecer o próprio irmão é que tentou ainda por algum tempo mostrar-lhe o quanto é de todos aquilo que, a princípio, parece de ninguém.

Mas não é isso, foi a resposta exasperada que o som estrepitoso do sapateado abafou. O cabelo empastado na testa suarenta era sua irritação com a conhecida conversa de enganar, que já adivinhava: depois ele esquece. Não é isso. Meu é o que minha mão segura, seus membros agitados como em espasmo, por causa do medo.

Só aos poucos a compreensão foi-lhe penetrando venenosa. Suas propostas não demoviam o menino, cujo torvo olhar ameaçava sorver a paisagem toda: meu é na minha mão. Nem o canarinho da terra, estralando na gaiola, nem o hamster acrobata, que tanto o encantava. Nada. Quase certo que já os considerava seus. Necessidade nenhuma de barganha. Meu é na minha mão. E esperneava barulhento.

O corpo tenso ligeiramente inclinado para a janela, estúpido e esperançoso, Juninho acompanhou o imergir de seu irmão na loira claridade do terreiro. A expectativa machucava-lhe os músculos, mas a dor não o distraía. Sentia-se ligeiramente compensado das aflições ainda há pouco vividas, ao enquadrar na mesma cena o passarinho vermelho, nos galhos do flamboiã, e seu irmão, gestos atávicos de caçador, esgueirando-se rente ao muro, corpo em arco, longas esperas de cócoras - o estilingue preso pelas extremidades. Compensado, mas temeroso, ainda, com a possibilidade de uma fuga repentina, definitiva. O suor, por isso, porejava-lhe no buço, na testa, empastava-lhe o cabelo da nuca. Meu é na minha mão, sentia cansado mais do que pensava. Mas é meu, parecia responder seu olhar vitorioso, logo depois, ao olhar acusador do irmão, quando este, assomando à porta da cozinha, entregou-lhe nas mãos o passarinho. É meu. E reparou, enquanto lhe assoprava as penas, que visto de perto era ainda mais belo do que de longe, apesar da flacidez do pescoço de onde pendia inerme uma cabecinha inútil.


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POR EM 10/11/2008 ÀS 12:10 PM

Os desatinos de um nome

publicado em

Antes mesmo de nascer, o pai determinou: se for menina vai se chamar Desdêmona. A família não tinha informações de quem era Desdêmona na tragédia de Shakespeare, nem na ópera de Verdi, tampouco que o nome vem do grego e significa mulher de má sorte. Eh, o velho bardo gostava dos tais nomes falantes.

O restante da família achou o nome meio atrapalhado, mas ante a teimosia do pai durão, ninguém ousou demovê-lo. Como não havia ultra-som para revelar o sexo do rebento ainda no cerne da mãe, os familiares torciam para que viesse um menino, para quem o  pai escolhera um nome que não desagradava tanto: Iago. A sogra arriscou perguntar: por que não Tiago? A senhora é ignorante. Então fique calada! Disse o pai arrotando pretensas erudições.

Para descontentamento dos demais e gáudio do pai, veio uma robusta menina. Pai normalmente quer um filho-homem por amor de seu narcisismo. Mas ele se apegara tanto ao nome, que desejava ferrenhamente uma filha para lhe atribuí-lo. Então lá estava ela, a Desdêmona.

Antes que algum impedimento irrompesse, correu ao cartório para o registro. Quando declinou o nome, o escrivão perguntou se tinha certeza. Irritado o pai quis saber por quê. Desdêmona tem Demo no meio, disse o escrivão indiferente. Bobagem, retrucou o pai em sua convicção irremovível.

A menina tinha realmente alguma coisa de extraordinário. Quando a enfermeira foi tirar o sangue para o teste do pezinho, a agulha rejeitou a pele e derreteu que só cera morna. Trouxeram mais agulhas, e nada. Assombrada, a enfermeira desistiu do teste.    

Outras coisas estranhas começaram a acontecer. A enfermeira deu um berro e desmaiou ao adentrar o berçário e ver a pequena levitando meio metro acima da borda do berço.

Quando todo mundo já começa a acostumar com as esquisitices, ela deu de andar pelo rodapé das paredes. Depois evoluiu para as caminhadas pelo teto, de cabeça pra baixo, que nem uma lagartixa branca, falando coisas confusas com voz de caverna. Deu para olhar para os semáforos e as luzes se confundirem. Muita gente se acidentou com as confusões por ela provocadas. A lembrança do Demo no meio do nome assaltou o pai que, já meio assombrado, contou a todos.

A mãe fez novena, já não para a filha sarar. Mas para morrer e livrar a todos daquela tribulação, que julgavam ser a presença do demo. Certo dia, quando ela flutuava entre um bloco e outro do condomínio onde moravam, parece ter perdido a estabilidade e se estatelou no chão. O IML a deu como morta. Velório foi feito, mas, para espanto geral, na hora de fechar o caixão para ser enterrada, ela se levantou lepidamente e falou: mamãe, quero água.

Como tinham o atestado de óbito, acharam por bem considerá-la morta e registrou o nascimento de outra filha, como o nome que a mãe queria: Renata. E todos os problemas desapareceram e a ex-Desdêmmona é agora uma garotinha dócil e amigável. A mãe acredita que sua alma foi trocada.
 


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POR EM 03/11/2008 ÀS 11:17 PM

A morte exata do crítico medidor

publicado em


 

Em seu escritório atapetado, cercado de livros por todos os lados, o crítico avaliava, com régua métrica, calibrada pelo Instituto Nacional de Metrologia, quantos centímetros de espessura possuía o texto do escritor X ou Y. Era seu lazer e sua vocação, para a qual havia dedicado grande parte de sua vida e carreira, ambas devotadas integralmente às letras.

Por escolha própria não havia contraído nenhum matrimônio, nem tido filho. Evitava mesmo a todo custo o contato com outras pessoas. A não ser os fortuitos e de breve permanência. A crítica literária era sua única e verdadeira paixão. Havia nascido para isso, para ser crítico. E era o que exercia com afinco, na sua solidão de celibatário aplicado, até mesmo nos piores momentos de sua vida, nem sempre alegre.

Havia começado seu trabalho de medição da escritura do texto dos autores com uma medida em palmos, mas, aos poucos, com sua fama crescente e na proporção em que se avolumavam os pedidos que lhe chegavam de todas as partes do globo, havia abandonado esse padrão, já há muito ultrapassado, em favor de um mais pertinente ao sistema métrico vigente.

O nível máximo de escritura que algum autor já havia alcançando na sua rígida escala pessoal havia sido de 40 centímetros -e o mínimo, em torno de ¼ de um palmo, cinco centímetros. Era um crítico diligente e tenaz e vivia, literalmente, afundando-se em livros e leituras.

Nos últimos dias de sua vida, estivera a ponto de desenvolver um novo método revolucionário, que iria lhe permitir medir, além da espessura, também a massa ou -dito em outras palavras,- o peso da escritura de determinado autor.

Para isso já havia feito diversos testes, com balanças de todos os tipos, analógicas e digitais, nacionais e importadas, chegando a delinear um projeto de um protótipo especialmente adaptado às suas exigências, desenhado por ele próprio, para o qual, entretanto, infelizmente ficaram faltando muitos desenvolvimentos que permaneceram inconclusos.

Sua estante, como alguém poderia esperar, era abastecida com uma multiplicidade sem fim de livros, que cresciam numa torrente até o pé-direito do escritório que chegava à altura máxima de sete metros. Aos mais espessos e pesados, assim medidos por ele, dedicava um lugar de honra no topo da estante, que estava ficando para lá de abarrotada.

Foi vítima de um acidente inusitado e infeliz, porém, conseqüente com sua atividade literária, enquanto cochilava sobre uma pilha de livros recém-medidos, o pescoço molemente apoiado sobre o último da pilha, quase que se oferecendo inconscientemente ao sacrifício. Num momento e zás! A estante inteira veio a desabar em cima dele, causando-lhe morte súbita por esmagamento e quebra do pescoço.

Hoje se encontra enterrado sob sete palmos de terra. De vez em quando, algum autor timidamente iniciante, sedento de julgamento, ainda vem depositar algum livro que acabou de dar à luz sobre sua lápide, por uma crença que ficou difundida principalmente entre os escritores mais jovens. Na vã esperança de que, do além onde se encontra, o nosso crítico possa ler e declarar a sua apreciação, a respeito da medida exata de sua escritura.


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POR EM 27/10/2008 ÀS 12:24 PM

O estranho

publicado em

Não dormiu por toda a noite. Ou pelo menos teve a sensação de não haver dormido. Fora tomado de sensações estranhas. Tudo começou com uma noção equivocada de desnível. De todo jeito que deitava, mesmo que com a cabeça apoiada numa pilha de travesseiros, Cairo se achava de cabeça pra baixo. Junto a isso vinha uma bola no estômago e uma perturbação na boca, como se os dentes tivessem se convertido num misto de algodão e pedregulho.

Não tardou para começar uma espécie de flutuação. O fato de morar na décima laje de um edifício de apartamentos parecia lhe retirar a firmeza. Mas o incômodo avançou. Era como se ele equilibrasse mal e mal numa quilha remota da Via Láctea. Sentia-se num mundo-de-corda-bamba-sobre-abismo.

Suspenso por escoras precárias e que a qualquer momento fossem desabar, arrastando-o para o fundo sem fundo de um buraco.

Cairo tentou pensar em coisas firmes e concretas para se recuperar daquele torpor. Mas suas tentativas surtiram efeito contrário. Seu corpo que apenas boiava sobre o abismo começou também a se diluir como um gás, até esparramar-se por completo a ponto de não haver mais noção de unidade.

Tentava mover-se, mas estava completamente paralisado. Não bolia um dedo sequer. Era como se seu coração e seus pulmões houvessem dissipado. Estava sem pulso e sem fôlego. E a noção de ser-em-si, ainda que vaga, talvez se desse agora por um processo extracorpóreo.  Estaria Cairo morto?

De manhã, o toque do despertador conseguiu reuni-lo outra vez. Mas era como se na urgência do reagrupamento ele tivesse sido refeito num arranjo diferente. Com as células colocadas em locais inadequados, formando órgãos com funções novas e desconhecidas. E porque não dizer, inúteis para a vida cotidiana.

A ver-se no espelho da pia, era como se visse, não um-outro, mas um não-ser.  Era ele mesmo, mas sem legitimidade para existir. Sua cara tacanha. Seus braços de cipó, suas mãos de barbatana, seu tronco de munguba, suas pernas de galho invertido ostentando na forquilha um cacho escroto.

Onde estaria o Cairo assertivo e focado, o executivo pitbull, o eficaz diretor de produção de uma multinacional? Suas mãos se apresentavam inábeis para as coisas mais comezinhas e tudo parecia inadequado, esbarrando nos objetos ou deixando-os caírem. Achou o dentifrício nojento, a escova esquisita e ao tentar escovar os dentes machucou as gengivas com gravidade, a ponto de tirar sangue.

Ao vestir-se não achava a ordem correta. A cueca sobre a calça, as meias sobre os sapatos. Foi um custo para ordenar essas coisas antes tão banais. Mas dar o nó gravata não foi possível. Por fim atinou de usar uma que já vem com o nó feito e é só puxar um fecho ecler. A muito custo arrumou-se. Pegou o elevador, o carro no subsolo e, achando-se um bicho de outro bioma, estranhou o sinal vermelho, avançou e envolveu-se num acidente de graves conseqüências.

 


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POR EM 27/10/2008 ÀS 11:56 AM

Sobre o inconsciente

publicado em


Cornélio Basso fez uma pausa. Agarrou o copo e o levou aos lábios. Na platéia houve inquietação. Alguém tossiu. Da primeira fila de cadeiras pareceu sair um homem agachado, ou pequeno. Uma criança, talvez. Pôs-se de quatro, de costas para o orador, no início do corredor atapetado. Cornélio voltou a falar. Os desejos recalcados não deixam de ter uma existência no inconsciente. No entanto, a platéia se mostrava inquieta. Ouviram-se sussurros. O homem agachado pôs-se a andar pelo carpete vermelho, rumo à saída. Subiu o primeiro degrau, caminhou, subiu o segundo. No inconsciente os desejos inconciliáveis podem coexistir. Na primeira fila uma cabeça olhou para trás. O fugitivo já ia quase ao meio do corredor, a passos lentos e cadenciados. Os desejos inconscientes não são modificados nem pela realidade exterior nem no decorrer do tempo.

À saída, uma hora depois do início destes acontecimentos, Terêncio Floro perguntou a Helvídio Lucano se vira um vulto deixar a sala. Não, não vira nada, a não ser Cornélio. Vira e ouvira. Pois fora ali para ver e ouvir Cornélio Basso. Por acaso esse vulto tinha alguma importância? Terêncio desculpou-se.

Pensou tratar-se do vulto de Torquato Gélio. Porém Torquato jamais faria aquilo. Nunca se retiraria de uma conferência. Ainda mais se o conferencista fosse Cornélio Basso. A não ser que tivesse sentido algum mal-estar.

Lélio Silvano chegou à calçada, olhou para os grupinhos formados aqui e ali, e optou por Terêncio e Helvídio. Deram-se palmadinhas nas costas. Cornélio estivera magnífico. Sim, o inconsciente só obedece ao princípio do prazer. Ele disse isso? Não lembro de ter ouvido isso. Provavelmente falou isso no exato momento em que acontecia aquilo. Lélio sorriu, ensaiou uma risada, conteve-se.

Referia-se Terêncio ao cachorro? Helvídio olhou, espantado, para Lélio e, em seguida, para o chão.

Cachorro? Que cachorro? Ora, não entendia como haviam deixado um animal entrar no anfiteatro.

Desleixo total dos diretores. Descuido gravíssimo. E se se tratasse de um cão raivoso? Terêncio tomou a palavra: Esse animal não era um homem? Lélio sorriu. Estando na primeira fila, podia esclarecer o fato. O cão dormia recostado ao estrado. Ao ouvir a voz de Cornélio, acordou. Helvídio não gostou da frase. Se o cão dormia, não podia ouvir a voz de Cornélio. Seja como for — continuou Lélio — , olhou para a platéia, teve medo e meteu o rabo entre as pernas.

Terêncio levou as mãos aos olhos: estou ficando cego.

Muito sério, Lélio imitou o cão. Saiu pé ante pé pelo corredor e mansamente desapareceu.

Lívio e Júlia retiravam-se, saídos de outro grupinho. Passaram por Terêncio, Helvídio e Lélio, deram boa-noite e pararam. Lívio se voltou para os três amigos. Vocês viram o vexame desta noite?

Lamentável, horrível, inexplicável. Como trazer uma criança para a palestra de Cornélio Basso?!

Nervosa, Júlia arrastou Lívio para o grupo. De quem será filho esse pobre menino? Helvídio parecia horrorizado, embora sorrisse. Afinal, o vulto visto por todos mudava de figura a cada momento.

Aproximou-se deles um rapaz. Disse chamar-se Torquato Basso. Lívida, Júlia recuou. O moço gargalhou. Se quisessem, chamassem-no Cornélio Gélio. Ou Terêncio Lucano. Ou Lélio Floro. Ou Helvídio Silvano. Afinal, o inconsciente só obedece ao princípio da dor. Os desejos inconscientes são modificados a cada momento e de acordo com a realidade exterior.

Pôs-se a gritar o estranho. Aterrorizados, os espectadores saíram em disparada pela rua.

Um cão pôs-se a latir diante do anfiteatro.

 


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POR EM 20/10/2008 ÀS 03:56 PM

Batismo de fogo

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Belmiro sempre foi um menino bom. Nunca se deixou contaminar pelas mazelas da invasão, onde vivia com a mãe. Porque o pai, não. Este sim. Sujeito mala que se deixou envolver pelos negócios nebulosos dos traficantes e morreu cedo em condições suspeitas.

E, de boa índole que era, jurou pra mãe que com ele haveria de ser diferente. Jamais sujaria as mãos com as podridões do mundo em que seu pai se meteu até o pescoço. Haveria de estudar, pegar uma carreira honesta e decente. Ganhar a vida sem fazer mal a ninguém. Quem sabe um dia poderia bater no peito com justificado orgulho e dizer: tive tudo pra me perder na vida, mas aqui estou, honrado, honesto e feliz, para desmentir a todos esses que justificam suas mazelas pelas agruras da rua.

A mãe compartilhava desse sonho. Era questão de tempo: subir daquele buraco embrejado, sair da muvuca e ir morar numa casa de conjunto ou num apartamento de bairro decente. A duras penas mantinha o pequeno Belmiro na escola, só estudando, sem trabalhar, sem ir para a esquina onde pudesse dar curso a atividades ruinosas.

Belmiro escolhia os amigos. Optava sempre por aqueles que também alimentavam sonhos de engrenar na vida, mudar de sorte, encontrar um outro patamar, um jeito de viver e usufruir das coisas boas que a vida oferece, mas pede muita dedicação, firmeza e sacrifício em troca. Assim, um de seus raros amigos era o Toninho Zebu, junto com quem ia à escola, fazia tarefas de casa e descolou as primeiras minas. Um verdadeiro brother.

Ele estava firmemente determinado a seguir o figurino das pessoas de bem, daquelas que trilham pelo bom caminho sem se importar se há tempestade, se há cantos de sereia, se há tentações quase irresistíveis. Quando chegou a hora de trabalhar, Belmiro subiu pra cidade e bateu de porta em porta.

Semeou currículos a vento como as plantas jogam seus polens na primavera. Depois de meses, nenhuma resposta positiva. Foi quando restou a oportunidade de prestar concurso para o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar.

Belmiro nunca pensou em ser polícia, muito menos do BOE. Porque eles é que são chamados quando a situação entorna o caldo. Belmiro não era medroso, mas não queria ganhar a vida usando de coragem violenta.

Pela contingência da vida, fez a inscrição, e passou na prova. Comeu o pão que o diabo amassou naqueles treinamentos escrotos. Envenenou a índole o quanto pôde. Jurou defender a corporação contra quem quer que fosse. Jurou matar bandido como se mata rato no ninho ou se pisa em barata.

Ontem foi o batismo de fogo do novo oficial do BOE. Sua missão era, num bacorejo trivial, quando o comandante apontasse o dedo para um suspeito aleatório, Belmiro lhe aplicaria uma saraivada de balas. Simples assim. Foi então que o comandante apontou o dedo.  Justo para Toninho Zebu. Seu brother. 

 


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POR EM 06/10/2008 ÀS 07:34 PM

Vou ser herói Maria

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Transtornado, o homem recusava abrir a porta do elevador. Se do lado de fora estivesse um tigre à sua espreita? Vários tigres? Um horror! E tremia todo. Não conseguia nem sequer se manter em pé. Melhor sentar-se. E esperar, esperar, esperar. Passaria toda a noite, e quantas noites fosse preciso passar, dentro do elevador. Não, morreria de inanição e tédio. E se o tigre, os tigres abrissem a porta? De manhã os vizinhos, sua mulher só encontrariam alguns ossos. Nunca saberiam como e por que sumira tão misteriosamente. A ossada poderia ser de outro. Talvez de um cachorro grande. Nunca de um homem, dele. Não havia canibais na cidade. Nenhuma notícia deles.

Sossegou, buscou uma brecha na porta, olhos e ouvidos de caçador. Nenhum sinal de tigre. O bicho não chegara àquelas alturas. Com certeza continuava na rua.

Abriu um pouquinho a porta. Puxou-a para si. Melhor não confiar em nada. Felino é bicho traiçoeiro. Empurrou de novo a porta. E, de um pulo, lançou-se contra a porta do apartamento. Socorro, Maria, socorro! Do outro lado gritaram espere, espere. Até abrirem a porta o tigre o devoraria. Bateu com força as mãos na porta. Deu outro pulo e caiu no meio da sala. Bêbado, sem-vergonha, desgraçado. Fechassem a porta logo. O tigre podia entrar.

Não, não havia bebido nada? E o que era aquilo então? Ficara maluco de vez? Maluco é a mãe. Mais um minuto, e nunca mais o teriam visto. Comido, co-mi-do por um tigre, Dona Maria. Ela se pôs a rir.

Riso de deboche. Depois gargalhou. As crianças também riram. O pai delirava? Ergueu-se do chão, ainda aflito. Prestassem atenção, muita atenção. Havia um tigre na rua. Debaixo do prédio. A mulher riu de novo. Não risse. Se não acreditasse e quisesse virar comida de tigre, abrisse a porta e descesse. As crianças já não riam e correram para a mãe.

Na televisão o locutor falava de crises, abacaxis e pepinos. Alta do trigo. O homem correu a apertar o botão do aparelho. Nada de barulho. O tigre poderia se irritar. De onde surgiu esse tigre, homem? Sei lá. Deve ter vindo da África. Não, pai, ele fugiu do circo. Deu na televisão. Mentira, gritou o outro filho. O tigre estava doente e teve alta. Então é mais perigoso ainda. Tigre ferido é uma fera.

Maria deu um gritinho, as crianças se puseram a chorar. O homem criou coragem — foi trancar a porta já trancada. Arrastou os sofás para a porta. Onde estava o revólver? Não tinham revólver nenhum. Só os de brinquedo. Então buscassem as facas, todas as facas. Se o tigre se atrevesse a entrar, ele o esfolaria. Vou ser herói, Maria.E apagou as luzes.

 


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POR EM 29/09/2008 ÀS 03:01 PM

60 segundos em 50

publicado em


O uruguaio avançou pela direita. 
      
Bigode o acompanhava, a curta distância, na corrida. Rápido, sem se deixar intimidar pelo marcador, o uruguaio rasgava a intermediária do campo, rumo à meta brasileira. Tinha o fôlego dos desesperados. Passava dos trinta minutos do segundo tempo. A partida havia alcançado seu momento crítico e a Celeste precisava de mais um gol. O uruguaio sabia que em seus pés podia estar a última oportunidade de sua equipe de virar o placar. O título mundial estava em jogo. Tinha que ser perfeito. 
      
O arqueiro brasileiro, Barbosa, goleiro do tipo sem luvas, poucos passos de debaixo das traves, observou a aproximação do adversário com a frieza típica dos grandes da posição. Esperava. Por um instante imaginou que o lateral derrubaria o uruguaio, fazendo falta, antes que ele pudesse alcançar a grande área. Percebeu que não aconteceria isto quando à distância entre os dois, repentinamente, aumentou. O adversário estava quase chegando à linha de fundo. Calculou que o uruguaio iria cruzar a bola na pequena área, para que um de seus confrades tentasse o cabeceio. Era o obvio. Com essa certeza, Barbosa deu um curto passo adiante, para melhor se posicionar para a defesa, fechando o ângulo.   
      
Antes do momento capital, Barbosa, em gesto mecânico, e durante apenas uma fração de segundos, apertou os olhos focando a massa disforme de torcedores que fazia moldura atrás dos atletas que corriam contra ele. Percebeu que a torcida estava muda. Eram talvez duzentas mil pessoas no estádio e todas estavam amargamente mudas. Não era a escassez de gritos e assobios que tomou conta do estádio após o empate, poucos mais de dez minutos antes. Não, era um silêncio muito mais profundo. O silêncio dos grandes momentos. Aquele que faz o tempo parar. O zeitgeist conseguira calar o Maracanã lotado. 
      
Desligado de tudo que não fosse à pelota, o uruguaio entrou na proteção da grande área e mudou a trajetória de sua corrida para a esquerda. Bigode ainda o seguia. Trotando em linha reta, Juvenal pôs-se em sua frente. Era o momento de chutar ou seria travado. Chutou. 
      
No preciso instante do impacto da chuteira contra o couro, ecoou por todo o estádio a poderosa voz do grande capitão uruguaio, vinda do então distante meio de campo, movida pela certeza do gol, berrando vingativa nunca ninguém soube exatamente o que.
      
E a bola viajou com mais veneno do que força.  
     
Apenas no último instante, Barbosa percebeu que errara sua previsão. O atacante não cruzou a bola.

Chutou direto para o gol. Uma bola rasteira. Segundo alguns profissionais do mundo futebolístico, a mais difícil de agarrar. Por conta do engano Barbosa já ia quando teve que retornar, perdendo o ângulo de defesa. Mas, com agilidade de gato, foi e voltou no mesmo movimento. Saltou, raspou o gramado e socou o couro pela linha de fundo. O que seria o fatídico gol uruguaio foi evitado por um triz e o tempo voltou a correr.  
      
O cimento do estádio saltou. O gigante Maracanã ressuscitou em um brado de bárbaro, engolindo um novo berro colérico do capitão uruguaio. Reduziu-o a um fio de voz entre milhares de outras. Justo a voz que passara mais do que a última hora e meia monopolizando todos os ouvidos em campo e fora dele. 
     
O tento redentor estava perdido. Em seu lugar a Celeste bateu um inábil escanteio, que não deu em nada. Barbosa subiu mais do que todos e agarrou a bola no ar. 

Em seguida, o arqueiro brasileiro foi bater o tiro de meta, exibindo um discreto meio sorriso no rosto encharcado de suor. Bateu tão forte na bola que ela saiu pela linha de fundo, do outro lado do gramado. A força hercúlea tinha explicação: Barbosa chutou com a certeza orgulhosa de que naquele dia sairia de campo coroado campeão mundial. Não estava errado em pensar assim. Fala-se muito que o resultado de uma partida jamais está definido antes que soe o apito final. Na arte chamada futebol tudo pode acontecer. Em geral tal máxima é correta. Mas não daquela vez. Não havia o que discutir: o escrete brasileiro já era campeão mundial antes mesmo de pisar no gramado. E o negro épico Barbosa, goleiro do tipo sem luvas, anunciariam todas as crônicas matutinas, foi o herói do dia.

 


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POR EM 15/09/2008 ÀS 08:06 PM

A Flor no labirinto

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De madrugada, acorda com os bem-te-vis lançando numa aurora laranja seu bem-te-vi amarelo. Deixa a cama silenciosa, veste-se e vai para o serviço. Lá, também nenhum telefonema. Chove, e ele contempla a chuva raiada de sol: casamento de raposa, ensinaram-lhe quando criança


  
Aconteceu na manhã da terça-feira, quando lhe telefonaram avisando que ela tinha ido embora – na noite da segunda, tinham feito amor e sofrido muitas outras alegrias. Avisaram para o rapaz não se espantar, quando encontrasse a casa vazia, e também disseram que a mulher não queria telefonar. Não queria mais falar com ele, foi o que disseram.

Na terça-feira, portanto, ele volta para uma casa silenciosa e abandonada, sentindo como se de noite uma enchente tivesse alagado o local, enquanto ele dormia, e houvesse levado tudo. O pássaro solitário, mudo na gaiola, olha-o obliquamente. O videocassete, de painel luminoso, onde ele via as horas (seu jeito de saber o tempo, pois nem mesmo um relógio de pulso usara em toda a vida), havia sumido. Vagueia pelo ambiente devastado com a súbita mudança, até quando os últimos fogos do dia se rompem numa penumbra crescente. O telefone ficou mudo o tempo inteiro. O rapaz e seu silêncio pensativo dormem cedo, nessa primeira noite.

De madrugada, acorda com os bem-te-vis lançando numa aurora laranja seu bem-te-vi amarelo. Deixa a cama silenciosa, veste-se e vai para o serviço. Lá, também nenhum telefonema. Chove, e ele contempla a chuva raiada de sol: casamento de raposa, ensinaram-lhe quando criança.

Na quinta-feira, ainda não se acostumou ao silêncio, à ausência do toc-toc dos tamancos na cerâmica, ressonando em seu despertar, e do vazio dos olhos dela e seus cílios grandes sorrindo para o beijo-borboleta no rosto dele adormecido sobre o travesseiro. Mal suporta a ausência do silêncio, quando antes ela se penteava no espelho oval da cômoda, ainda refletindo o primeiro dourado do amanhecer. Não sente fome, pelo meio-dia, não sente fome. Uma faxina na casa. Depois, reler velhas cartas, com seu conteúdo para sempre danificado. Recupera mentalmente os atos da terça-feira: um beijo, até mais tarde, ela dissera, até mais tarde.

Após um dia branco, a noite da sexta-feira esfria. Não foi trabalhar, e o pássaro o observa de lado, quando ele passa do quarto para a área de serviço e da área para o quarto, levando e trazendo roupas e lençóis. Dorme cedo, cansado. Em algum instante de seu sono, estende o braço para o lado da cama onde ela se deitava. Ela: hipotenusa de cetim de bruços no colchão, durante muitas e muitas tardes esquecidas. Ele: o cateto oposto, sentado na cama, olhando o corpo da mulher zebrado pela luz das persianas, após conversas e brigas, que acabavam em longos silêncios. 

Acorda de madrugada e fica olhando a escuridão diluir-se na claridade cinzenta. Volta a dormir, e o hábito do sábado o desperta outra vez para o quarto de luz intensa e as crianças brincando e gritando na rua, a janela aberta. Mais tarde, ouve pela primeira vez na semana a primavera-imitadora cantar na gaiola – ela se calava docemente à flauta do passarinho, confusa floresta de vários pássaros juntos. O sábado à tarde: silêncio, livros, solidão. Quebra o telefone.

Praia, sozinho, no domingo, e esse mar esmeralda que acaricia o céu dentro dos olhos também cor de esmeralda. Mais tarde, com marecéu carmesim, o rapaz volta para casa exausto, com seu corpo salgado cheirando a sol. Move-se na penumbra, como um gato. Acende a luz do quarto e contempla o colchão ainda baixo no lugar onde ela dormia. Descobre um pouco de ternura no guarda-roupa: um par de tamancos gastos, a letra formiguinha num bilhete e um pacote de absorventes devassado. Por quê? Por quê não com o marido?, se pergunta, sem pensar em outra coisa.

Também descobre, murcha num canto da gaveta, uma calcinha azul: única seda em seu caminho. Agora terá a vida inteira para se perguntar.

 

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