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POR EM 06/06/2009 ÀS 12:10 PM

Um cão de lata ao rabo

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Durante uns três dias os mongóis ficaram ensebando aqueles milhares de cães, do lado de fora do muro, às portas da cidade.  E os chineses comemorando a solução pacífica e fazendo conjecturas sobre o arraigado apego, quase inocente, daqueles guerreiros aos caninos

(Um exercício, com base em conto de Machado de Assis, com o mesmo título)

Gengis Khan — que quer dizer homem valente, invencível — nasceu miserável, numa comunidade pobre, perdeu o pai ainda criança e tinha o destino traçado: morrer anônimo, como era costume acontecer com outros mongóis de seu tempo. Mas ele se rebelou contra seu destino medíocre. Dotado de uma coragem invulgar e um tirocínio espantoso, o jovem Gengis, no início do século XIII, unifica várias tribos turco-mongólicas, organiza uma cavalaria devastadora, e parte para a conquista de toda a região da Pérsia, Índia, China etc. e forma o grandioso império Mongol.

Não se sabe o que era mais relevante em Gengis Khan. Se a capacidade organizativa, se o exercício da liderança, se a fúria guerreira, se a intuição ou o repente criativo que lhe permitia se adaptar às novas circunstâncias, por mais adversas que se apresentassem. Teve, porém, um azar: seu povo desconhecia a escrita e assim não teve um Homero, um Virgílio, um Luis de Camões para lançar na posteridade a epopéia de sua saga imperial. Sobraram de suas façanhas alguns vestígios materiais, algumas crônicas escassas escritas por outros povos e alguns causos orais que, no fluxo das gerações, de tanto serem contados e recontados, ganharam ares de lenda. Muito pouco, talvez, para um conquistador tão feroz e fulgurante.

Recorro a um desses causos remanescentes. O exército de Gengis Khan vinha de uma seqüência gloriosa de conquistas. Sua cavalaria afoita passava a fio de espada todo aquele que esboçasse a mais pálida contrariedade em se submeter aos poderes do grande guerreiro. Deixava para trás destruição, morte e subjugados. Levava em seus alforges, frutos da rapina, toda sorte de tesouros: ouro, prata, roupas, escravos, cavalos, alimentos. E a confiança sempre crescente de que nada, nem ninguém poderiam barrar a sanha conquistadora.

Foi com esse ânimo exaltado e justificadamente confiante que Gengis Khan chegou aos portões da cidade de Pequim. Com seus generais a postos, com os soldados aprumados em seus ginetes empinadiços, com as armas adequadas em punho, com seus pesados aríetes prontos para arrombar os portões e ver a tropa entrando e quebrando tudo, como as águas turbulentas de uma represa desmantelada.

Qual não foi a surpresa da tropa ante a inusitada ordem do comandante:

— Dispersar!

Poderiam todos levar seus palafréns ao ribeirão a sorver água, ou então deixá-los a pastar no bem-bom do verde. A excitação da eminente luta, agora desautorizada, criou um começo de tumulto. Mas o chefe se explicou para os generais mais chegados.

Ele tinha um plano.

Afinal, Pequim era uma cidade preparada demais para se enfrentar assim, simetricamente. Iria negociar com o comandante das tropas inimigas, que deveriam estar postadas logo atrás dos portões, armadas até os dentes, prontas para o mais duro combate. Além dos ardis que por certo teriam preparado pelos quatro cantos da cidade.  Então, aquela que se desenhava a luta mais sangrenta e temerária, nem precisaria acontecer.

Os comandados não entenderam bulhufas. Será que o impávido guerreiro, assim não mais que de repente, estaria afinando?  Mas não se dilataram em questionamentos. Afinal, quem tem um comandante do naipe de  Gengis Khan, não é preciso entender direito para prestar obediência.

O poderoso rei dos mongóis, solitário, desarmado e a pé, bateu às portas de Pequim, modesto como um menestrel ou um beato. Disse que buscava entendimento e paz. Propôs ao chefe dos chineses: para que não haja batalha, me tragam um cão de cada residência, ou melhor, me tragam todos os cães que existem nessa progressista cidade (há uma versão que diz que ele pediu gatos, mas os cães servem melhor ao nosso propósito).

Animados com a possibilidade de uma solução pacífica, nem perguntaram para que tanto cão. 

Aceita a primeira condição, combinaram o horário. Os chineses se aliviaram e imediatamente, de altivos guerreiros, se converteram em modestos e risonhos laçadores de cachorros. Os generais agora se misturaram às mulheres, aos velhinhos, às crianças à cata dos titius. E deles se despediam com ternura de quem se despede de um ente querido que parte para uma missão redentora. Intuitivos como são, arrepiados, de rabo enfiado entre as pernas (travando o sorriso), os cães pareciam ter maus pressentimentos.  Mas no horário combinado, estava lá toda a matilha, atrelada e ajoujada.

Durante uns três dias os mongóis ficaram ensebando aqueles milhares de cães, do lado de fora do muro, às portas da cidade.  E os chineses comemorando a solução pacífica e fazendo conjecturas sobre o arraigado apego, quase inocente, daqueles guerreiros aos caninos. Diante de tanta benevolência, até levaram, entre vênias e risos, presentes para os invasores: vasos de porcelana, bonequinhos de terracota, cachaça de arroz, guisado de cobra...

Mas na sexta-feira, início da tarde, quando o sol é mais abrasador, a tropa mongol, sem doçura, quebra os portões de Pequim na porretada. Solta a cachorrada, cada cão com uma pequena lata atada ao rabo. A lata continha um material de lenta combustão, composto de cal virgem, potassa e estopa de linho, já impregnado por uma mecha de fogo. Tudo devidamente acondicionado e protegido por uma tela delgada.

Gengis Khan, pessoalmente, rumou contra as pedras umas canas-da-índia assadas na fogueira, e berrou como um danado. As canas estouraram como bombas e os cães saíram em disparada, que desde tempos imemoriais, cachorro tem medo de foguetes (antes mesmo de alguém os ter inventado). Entraram tresloucados pelos portões caídos, ganindo cãe-ãe cãe-ãe pelas estreitas ruas de Pequim e os chineses, sem entender que armação era aquela, ficaram paralisados, em seus risinhos sem quê nem por quê.

Os cães enfurnaram em suas casas e se esconderam onde costumam se esconder ao ouvir qualquer explosão: debaixo da cama de seus donos.

Em minutos, a cidade era uma só labareda.

Foi então que os poucos sobreviventes de Pequim entenderam, tardiamente, que o apego dos guerreiros mongóis ao mais antigo companheiro do homem, não era assim tão inocente.
 


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POR EM 09/03/2009 ÀS 11:18 PM

Conjecturas em torno do cadáver

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Tiros ouvidos também não foram de foguetes pela volta de Jesus, e nem emissários de balas perdidas, oriundas de alguma famigerada favela, feito “marimbondos de chumbo querendo morder carne”, como se escreveu numa história de detetive naqueles pockets books da década de 60. Alvejei mira no peito do coronel Coronha, que era o meu coronel e não haveria de ser de mais ninguém

Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não. Deus esteja. Guimarães Rosa é o cara e "Grande Sertão: Veredas" o romance, a prosa poética, a obra-prima imbatível e perene, porquanto única. E o que temos aqui e agora são meras conjecturas em torno de um cadáver já frio e rijo, em pleno gozo do rigor mortis . O repouso do guerreiro no reino dos mistérios gozosos e dolorosos da matéria em decomposição. Um morto feito de ficção e realidade, donde semelhanças com pessoas e fatos reais não serem mera coincidência, antes o corpo de delito com os penduricalhos do discurso, tais como ainda grafar-se conjetura com “c”, a exemplo de veredi(c)to; a consoante como um piercing de micção dos termos processuais, espumijando-se nos mictórios dos tribunais do júri, senão quando em forma de adereço nos anais do ânus, se o senhor me entende o artesanato verbal a uma geração tatuada e metálica, com perfurações de agulhas e balas em toda parte do corpo, até nas partes pudendas. Sabido e consabido que nos tribunais a sorte às vezes é lançada num jogo de dados viciados, e não me venham com a pecha de heresia jurídica. Genit( alea jacta est ). Ate porque a sorte é fruto do acaso e este não consta dos autos do processo.

Nhor não. Tiros ouvidos também não foram de foguetes pela volta de Jesus, e nem emissários de balas perdidas, oriundas de alguma famigerada favela, feito “marimbondos de chumbo querendo morder carne”, como se escreveu numa história de detetive naqueles pockets books da década de 60. Alvejei mira no peito do coronel Coronha, que era o meu coronel e não haveria de ser de mais ninguém. Metia-se em mim e me apaziguava os grilos cotidianos com a Justiça brasileira, esse moroso e angustiante emaranhado de labirintos que é a minha área de atuação. Infinitos corredores por onde ando e empino meus glúteos e minhas glândulas mamárias e utilitárias, profissionalmente falando, bem entendido, pois não sou de trajes sumários como tantas por aí, umas tontas que, em se tratando de obter favores dos bastidores, só raciocinam e se sujeitam com os seus odoríficos orifícios. Ossos do ofício, dizem elas. Pois sim. Do ofício, uma pitomba! Buracos sulfúricos da falta de dignidade ou da pura sem-vergonhice, isso é que é.

Nhor sim. Mirei o peito broncopeludo do meu coronel, ele com a visão e a truculência características da caserna, tanto na disciplina de comandantes e comandados quanto em suas vidas privadas, com as garras aduncas de suas carícias e o jeitão brucutu de seus amplexos e acochos, peito com peito, coxa com coxa, saliência com reentrância e assim a fome com a vontade animalesca da querência. Vida e morte cabeludas, seu Severino. Mirei como Deus mira seus raios no dia da ira e mandei bala com o som e a fúria de um Faulkner atolado no álcool, que nem uma égua no brejo. Nhor sim, que também cultivo a minha cultura etílica, inobstante o preço que se paga por sair da linha de vez em quando, pois ninguém é só CDF do comando, como resmungava o meu amado Coronha, lá com os cadarços de seus coturnos.

Por acerto de contas, tiros que o senhor ouviu foram de ciúmes que dele eu tinha, e ódio que me deu aquela voz de mulher na secretária eletrônica dele. E foi bem feito. Quem mandou ele me usar feito um CD, Lado A, Lado B, e daí me trair, me trocando pela primeira traíra vagabunda que encontrou e nem sei quem é? Porque, se soubesse — ah, seu eu soubesse! Em primeira instância, consoante os artigos, incisos e parágrafos em situações passionais, acabava com ela só com arrancar-lhe os cabelos, como de praxe em briga de mulher, ou então pegava ela no tiro certeiro, via telefônica mesmo. Apertava o gatilho e metia bala na boca do fone pela linha afora até o ouvido dela, pra ela nunca mais se meter, stricto e lato sensu , com o meu homem. Em última instância, eu capava a piranha e enfiava-lhe a periquita fedorenta no reto. E nem me releve, meritíssimo, por conta do meu estado emocional, os termos de baixo calão, mas é que estou mesmo fula com a fulana, estou pra lá de tiririca da vida com aquela sirigaita duma figa, se dando de oferecida.

Reconheço que agi ao calor do furor uterino enciumado, abraçada ao meu rancor, parafraseando o saudoso João Antônio, que escreveu o conto sobre a arte de chutar tampinhas. Vai daí que atirei, mas não matei o coronel Coronha, que não era o Bira do Jardins, mas era o tantã tumtum do meu coração desnudado, como diria o poeta Baudelaire, se bem me lembro. E a Polícia Civil, se viu o que não viu, concluiu que Carlina Cipollia matou o amante coronel Bira Tan, aquele um que arrasou com os revoltosos da farra do Cariru. Torou no tiro cento e onze homens-números, que disso certamente não passavam para a sociedade. Cento e onze elementos paridos pelas contradições do Sistema e por seus próprios distúrbios psíquicos ou desvios de caráter, por má índole mesmo, própria do indivíduo, herança da ferocidade ou do instinto primordial. Cento e onze reclusos, um atrás do outro, como diria o debochado Clovildo, deputado debutante no covil das serpentes, egresso de vida pregressa, pelo viés do cós do costureiro, e agora inserido pela greta da urna, recipiente cívico que muitos ainda confundem com penico. E que importa se Carlina Cipollia matou ou não matou? Claro que importa, mas há problemas muito mais sérios afligindo o país, além dos banais crimes passionais da vida em comum. A opinião pública é cínica e já não liga muito pra fatos banais, embora se ligue em boatos, e se ainda se liga é porque liga a televisão e se alimenta da titica cotidiana da mídia no vídeo, ou então se deixa levar mais pela curiosidade própria do ser humano e menos por qualquer outra razão ou nobreza de caráter. E já não liga muito até porque a douta mãe de Carlina Cipollia, meio que sisuda e categórica, mas sem a consistência de um nó de cipó e sem nenhuma lágrima de cebola para o álibi da filha, disse que ela é inocente, enquanto o presidente da República insiste que não viu e não sabe de nada.

Além do quê, meu nome é Vulvagina e meu caso aqui é outro e nem é tripudiar sobre a dor dos outros; vá-se medir a dor alheia e ver se não é maior que a minha nesse país de surubas e urubus de lixão, de latinos e bundalelês, de gente patética e ridícula, a par com urbanas turbulências e chagas purulentas. O mais é que os fatos se deram conforme foram por mim relatados, e mais não digo nem me seja perguntado. Posto o que, peço deferimento. In dubio pro reu . Ao acusador o ônus da prova. Quem matou não fui eu, como diz o Paraíba da piada ao delegado: eu não mato não, doutor; eu só faço o furo com a peixeira; quem mata é Deus. Aquela mesma conversa do malandro engabelando a moça zelosa de seu hímen, dividida entre deixar ou não deixar e com medo de doer. Deixa eu pôr só a cabecinha, que o resto é só pra levar e trazer a cabeça. Olha só a conversa do moço. É mole? Não. É duro. E o certo é que não matei. O Paraíba é minha testemunha. Quem matou o coronel Coronha foi a bala que saiu de minha arma. Eu apenas apontei e apertei o gatilho. Se matou é porque Deus não interferiu, não desviou a trajetória da benedicta bala, e a bala entrou. Se não entrasse, não mataria. Além do quê, quem ama não mata, e se mata é com bala de chumbo mentolado.

Elementar, meu caro Watson. E ahora el coronel no tiene quién le escriba. No hay quién escriba al coronel . Pois não se escreve para os mortos, antes são eles que escrevem para os vivos, por meios psicográficos, uma mina de ouro dos mortos pra muita gente viva, se me acompanham o sentido figurado. Não. Ninguém escreve ao coronel. Também não se dá bom-dia aos defuntos, embora um belo dia tenha dado o título ao romance de Manuel Scorza. E gastar-se tinta pra quê, por causa de um coronel, a essas alturas do irremediável, a essas horas da matéria pútrida, de uma pátria em adiantado estado de decomposição? A importância do morto é mais por conta do alvoroço da imprensa e decorre da ligação do de cujus quando vivo com o massacre do Cariru, caso contrário nem haveria suíte em novas edições, senão e somente ao palato da necrofilia impressa, falada e televisiva. Portanto, aos vermes o lauto banquete. Aos mortos, o silêncio e a solidão. A tediosa eternidade. Ao final das contas, quem mata, mesmo, é Deus, pois não está dito que Deus dá e Deus tira? Deus cria homens como quem engorda porcos, para matá-los. Calha-nos o cinismo num país de crápulas e cínicos, de gente escrota, cretina. E não nos venham com a válvula de escape ou desculpa esfarrapada do livre-arbítrio para justificação dos crimes. Haveis de convir com a defesa, senhores jurados, que, se é Deus quem mata, ninguém tem culpa de nada. Ninguém matou nem está matando essa gente toda aí pelo mundo afora. Carnificinas, massacres, genocídios, tudo isso é com o andar de cima. Somos todos inocentes sobre a face da Terra. Libertem, pois, Carlina Cipollia. Sabiam que carlina é o nome que se dá a cada uma das travessas que seguram as longarinas, na construção das pontes? Carlina Cipollia é um anagrama que se queria de mãos dadas — travessa e longarina —, com o seu coronel. A vida como ela é, diria Nelson Rodrigues. Já o cariru é um vegetal, e brotos de cariru se comem refogados, ao passo que aqui se tem uma narrativa polifônica que se come crua, revogadas as disposições contrárias ao arbítrio de quatro vozes neste texto em curso, quais sejam as do narrador, da personagem enquanto ré, do advogado de defesa e do juiz com o seu inusitado veredicto, correndo a acusação por conta de quem atira a primeira pedra.

Quanto ao coronel em questão, outro que não o meu, a ir-se pelo massacre do Cariru e pela Bíblia, o inverso é similar e a recíproca é verdadeira: quem confere ferro, com ferro será conferido. Está escrito. Se a muitos matou no sangrento episódio do Cariru, foi morto pelo ódio nos jardins do amor. Um conto é um conto. Tem os Contos dos Bosques de Viena , que é uma valsa de Strauss, e tem o Conto tristonho do amor risonho , de um autor ou autora brasileira cujo nome esqueci. Quem conta um conto acrescenta um ponto. Se nos permite o leitor levá-lo até o fim da linha, verá que o fim da linha sempre se encerra com um ponto final, ainda que numa frase reticente.

Assim, senhoras e senhoras, ajuizadas as nossas míseras conjecturas em torno do cadáver, é de supor-se, e este é o veredicto, que a ré Vulvagina Quadrilábios de Oliveira — se há uma ré aqui —, é inocente. Com um esforço do esfíncter, certamente ela mesma dirá à sua consciência que, ao atirar no coronal Coronha, nada mais fez do que prestar-se a instrumento de Deus. Se alguém contrapor que ela agiu pelas mãos do demônio, é bom lembrar que também o demônio, de Lúcifer a Satã, é fruto da criação divina. Nada poderá mudar isso, por mais que neguem, por mais que tentem, e a menos que desmintam as Sagradas Escrituras e mudem o que está milenarmente escrito, inspirado, como dizem, pelo Espírito Santo. Donde se conclui que, se temos um demônio, foi do céu que ele nos caiu. Caso encerrado.
 


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POR EM 16/02/2009 ÀS 04:25 PM

Imperador de papel

publicado em

Não havia ninguém na platéia e ocupamos duas poltronas bem perto do palco. Fiz um longo preâmbulo antes de dizer a ele que um imperador, como eu queria, tinha de ter uma voz um tanto rude e dirigir-se aos outros com certa rispidez. Falei dos gestos também: largos, bruscos, acompanhados de um olhar severo

Como a descoberta tardia de uma vocação. Ou a descoberta tardia de uma vocação. Talvez o encontro, finalmente, de um si mesmo em potência, latente, que, latejante, vem a furo. Um ser tem escolha de si, do modo como será? Ninguém nasce pronto, forma acabada, mas por isso tem poder de escolha? Nos lugares de sombras, onde o sol jamais, e a umidade, como saber o que existe, se espelho algum desce ao fundo?

Minha culpa, entretanto. Não um pecado, pois já cataloguei minhas descrenças; tampouco um crime, que um crime exige uma ação qualquer. Ou sua omissão. Apenas o exercício da função para a qual me chamaram. Isso pode ser a colisão quase milagrosa de dois corpos na imensidão do universo, mas não há culpa.

Tínhamos decidido, costume antigo, jantar juntos depois da estréia. Na calçada, em frente ao teatro e enquanto as luzes se apagavam, ficamos atônitos com o que vimos.

A escolha do elenco e a distribuição dos papéis foi o início do jogo. Início fácil, quase natural, pelas qualidades conhecidas de atrizes e atores. Ninguém reclamou da parte que lhe coube. Isto é, quase ninguém. Como é representar um imperador?, questionava Pedro, enquanto os demais, muito enroupados de panos grossos e coloridos, já brincavam de ser o que não eram, todos rindo barulhentos mercê do entusiasmo com que já se imaginavam no palco.

Pedro era o único a parecer descontente, me olhando de testa enrugada, por isso resolvi gastar mais tempo com ele.

? Ninguém, como você, Pedro, tem essa voz soberana e essa sua cabeça imperial.

Ele me olhava desconfiado enquanto eu explicava as razões de minha escolha. Por fim, conformou-se Pedro com seu papel e prometeu aceitar meu conselho para que estudasse bem a vida íntima, os gestos e o pensamento de um imperador.

Bem sei que na primeira leitura de mesa poderia ter mudado o rumo do que aconteceria, mas tenho a meu favor o fato de que em todos os segundos da vida estamos mudando o rumo do futuro desconhecido. Como saber o que então seria se não fosse o que é? Eis por que não me sinto culpado.

O elenco todo foi brilhante na leitura e nas discussões. Alguma correção, umas poucas sugestões, isso sempre acontece. Pedro, contudo, tinha alguma coisa na voz, um trêmulo e uma espécie de suavidade que, para mim, não eram seus, muito menos de um imperador. 

Na despedida, fui saindo ao lado de Pedro, disfarçado dentro de mim, como alguém que apenas está saindo. Perguntei a ele se já começara a estudar a personagem: E daí, já começou a estudar a personagem? O modo entusiasmado de sua resposta me espantou um pouco, por isso não quis continuar o assunto. Me contou que encontrou vários textos na biblioteca, alguns com descrições muito vivas e coloridas. Como se estivesse vendo, ele repetiu com rosto iluminado de satisfação. Como se estivesse vendo.

Na esquina, cada um de nós foi enfrentar sozinho o frio da noite no rumo de casa. E a cidade ouvia nossos passos na calçada com certa reverência sonolenta e silenciosa. Estava em mim alterar o futuro? Conheço o jogo e me fio em suas regras. Tempo havia de sobra para as correções e os desvios necessários. Menos de um quarteirão à frente, já enredava os pensamentos em alguns fiapos de sonhos movediços, e o principal deles era o sonho com a noite de estréia. Um sonho de gozo e sofrimento com que dou cor à ansiedade.

Nas semanas seguintes andei distraído com gestos a refazer, entonações a modificar, ritmos a corrigir. O grupo era muito competente e cada um, com sua experiência, contribuía para o conjunto. Nunca dirigi com mão de ferro, mas retocava tudo que me parecesse incoerente e despropositado. Desse tempo, me ficou a vaga impressão de que Pedro continuava falseando a voz, muito diferente daquilo que esperávamos dele.

Poucos dias antes do ensaio geral ninguém mais tinha problemas com as deixas ou com o texto. Ninguém tropeçava mais em palavras e as marcações, no palco, já não nos preocupavam nem um pouco. Os ensaios tornavam-se o afinamento da peça (o brilho final) e eu mais usufruía o que estava feito do que trabalhava.

Ocupado com os outros, não pode haver outra explicação. Já conhecia o trabalho de Pedro, um ator jovem que me agradava, por ser muito estudioso e executar suas tarefas com extrema seriedade e um tanto de severidade. Muitas vezes chegava a ser extrema mesmo, sua seriedade. Quando, cansados após um ensaio, nos reuníamos em volta de uma mesa de bar, Pedro mantinha-se muito tempo calado, ouvindo os outros, rindo poucas vezes e bebendo quase nada. Jamais soube que ele consumisse droga alguma, em nosso meio uma prática comum. Era sempre o primeiro a decorar seu texto, a sugerir intenções, a ajudar os colegas. Ocupado com os outros, só podia ser isso, não prestei atenção no que acontecia com Pedro.

Ainda não era uma preocupação. Contava com meu poder de persuasão para convencer Pedro a mudar de voz. Eu tinha acabado de entrar no teatro quando o vulto dele apareceu no quadrilátero da porta. Andava devagar, e seus gestos, mesmo os mínimos, tinham adquirido uma solenidade majestática que me impressionaram. Estendeu-me a mão para o cumprimento e inclinou muito de leve a cabeça. Resolvi, naquele momento, ter uma conversa mais demorada com ele.

Não havia ninguém na platéia e ocupamos duas poltronas bem perto do palco. Fiz um longo preâmbulo antes de dizer a ele que um imperador, como eu queria, tinha de ter uma voz um tanto rude e dirigir-se aos outros com certa rispidez. Falei dos gestos também: largos, bruscos, acompanhados de um olhar severo.

Pedro me ouviu com um ar um tanto absorto, como se não fosse ele nosso assunto. Quando parei de falar, ele sorriu e disse que eu estava equivocado. Isso que você quer, Teobaldo, isso não é um imperador. O que você está me propondo é só um estereótipo. Me contou que desde o dia em que assumiu o papel, vinha estudando pra burro tudo que encontrasse sobre a vida de Dom Pedro II. E ele não foi um imperador?

Discutimos algum tempo sobre certas necessidades da linguagem teatral, que nem sempre pode abrir mão de algum estereótipo, porque gestos e imagens não deixam de ser uma significação para o espectador. É preciso levar em conta um conhecimento prévio da platéia pra que se estabeleça a comunicação. Ele fingia me ouvir. Eu sei que ele apenas fingia me ouvir. Notei a imobilidade do arco de suas sobrancelhas como moldura de uns olhos aguados, aqueles olhos de contemplar estrelas. 

Por fim, ele prometeu muito esforço para enquadrar sua interpretação em meu pedido. E andou, realmente tentando. Até mesmo no ensaio geral percebi que ele tinha evoluído, e o que estava fazendo já era satisfatório.

Em noite de estréia sempre peço que atores e atrizes cheguem ao teatro uma hora antes, para o último laboratório e a meia hora de concentração. 

Quando Pedro chegou, senti uma dor aguda que me pareceu no baço, uma dor que me repuxou o lado esquerdo do baixo ventre. Ele entrou no saguão olhando para o infinito e com um sorriso esboçado com tanto tédio que todos começamos a cochichar. Deu a mão a todos da companhia e pareceu muito admirado pelo fato de ninguém ter-se curvado em sinal de respeito.

Deitados na coxia, pedi que todos fechassem os olhos e mentalizassem as personagens que representariam. Era um exercício comum, com que a gente de teatro está perfeitamente acostumada. Durante o exercício, reparei que Pedro estava muito pálido e executava uns gestos que não eram dele, como repuxar um dos braços, mover a cabeça para um lado e outro. Cheguei caminhando com pés de silêncio até perto dele. Sua respiração era arquejante e suas pálpebras tremiam. No fim do exercício eu estava convencido de que Pedro estava sofrendo muito, atacado, talvez, de alguma doença.

Antes do relaxamento, chamei Pedro a um canto e lhe perguntei se se sentia bem. Com a dignidade e a calma de quem transcendeu sua condição terrena, Pedro me respondeu que não, não estava bem, que recebera à tarde a notícia de que sua filha Leopoldina tinha morrido na Áustria.

Tentei entender aquilo tudo como uma brincadeira e meia hora depois estávamos com o pano de boca aberto recebendo os primeiros aplausos. Consegui manter-me discreto e não comentei com os outros a impressão que me dominava.

Nosso desempenho foi um sucesso, apesar do estranho imperador que Pedro representou. Na verdade, sua figura etérea agradou muito ao público.

No fim do espetáculo, corremos todos para os respectivos camarins, pois tínhamos de nos desfazer daquelas roupas para o jantar de comemoração.

Vestido como estava, e com um semblante carregado de tristeza, Pedro despediu-se de nós, dizendo que precisava dormir cedo, pois na manhã seguinte embarcava para Viena.                                         


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POR EM 10/12/2008 ÀS 09:49 AM

Ciúmes, Viagra e tiros dentro da noite

publicado em

Meus amigos nunca entenderam. Meus pais nunca aceitaram. Até bem pouco, eu mesma nunca chegara a compreender direito quais forças me arrastaram para o núcleo trágico da vida do Coronel Ubiratan.

Aparentemente não temos nada em comum: nasci de uma família bem-estruturada, num bairro grã-fino, ele de uma família em ruínas, numa periferia lascada. Tive educação esmerada na Europa, ele se ralou na caserna. Nem à mesma geração nós pertencemos. Sou 23 anos mais nova que ele. Nada temos a comungar, a não ser esta pulsão fatal e incontrolável pela tragédia.

Meu analista diz que fui atraída por ele em razão de sua aura de poder violento, que ele passou a empunhar depois que apagou tantas vidas de uma só vez. E o mesmo motivo que provocou a minha aproximação me levou a matá-lo, pois era como se eu tomasse para mim a força poderosa que nele eu via. Pode até ter uma certa lógica, mas não tem nada de verdadeiro.

Há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia, como disse o bardo inglês, com muita propriedade. No fundo, o que existe é um liame secreto e inquebrantável. Ocorre que, desde muito cedo, eu soube que minha vida seria regida pelo número 11, que é a plenitude do 10+1, o transbordamento, a desmesura, o viver em seu teor máximo, no limite, na raia da ruptura, já alcançando a falha universal, entre o factível e o fugaz.

Agora há pouco, porém, numa pausa que construí no meio desse burburinho, peguei lápis e papel e levantei alguns dados sobre o Coronel Bira e eu nessa situação aberta em escâncaras. Pude constatar o que eu já desconfiava: que a vida dele, assim como a minha, está toda entremeada pela exuberância do número 11.

Senão vejamos: Coronel Bira, como é tratado na intimidade, tem 11 letras. Ele nasceu no mês 4 do ano de 43, cuja soma dá 11. A marca maior de seus feitos são os 111 mortos sob seu comando, no episódio que ficou conhecido como a Chacina do Carandiru.

Vejam só: o número 111 carrega a fatalidade potencializada. É como se fosse um 11 entrelaçado com outro 11, com o algarismo 1 do meio servido aos dois numerais, numa conexão nefasta, em seu máximo grau.

O tumulto que desaguou no massacre foi iniciado pelos líderes de duas facções internas rivais. De um lado o “Barba”, de outro o “Coelho”, cuja soma das letras dá 11. A situação fugiu do controle às 14h51, na qual a soma é 11. A invasão foi comandada por 1 coronel (Ubiratan) mais 325 soldados, números que tendo seus algarismos adidos redundam em 11. A hora provável do tiroteio foi às 18h20, que é igual a 11. O número de disparos contabilizado pela perícia foi de 515 (5+1+5=11). O massacre, propriamente, aconteceu no pavilhão 9, portão 2, um local conflagrado pelo número 11.

Seu julgamento pelo massacre começou no dia 20/6/2001, com a soma resultando em 11. No primeiro júri foi condenado a 632 anos de reclusão (6+3+2 = 11).

A frase mais emblemática que ele proferiu em sua própria defesa foi: “Se minha intenção fosse matar, teriam morrido muito mais de 111”, que tem 11 palavras. Além do cabalismo numerológico, essa frase deixa transparecer a opressão da força maior a que fora submetido na realização de seu desatino.

Quando nos aproximamos, fomos conduzidos pelas forças ocultas do número cabalístico, que é ao mesmo tempo divino e libidino, sacro e escroto. Nós nos conhecemos num evento militar em que eu representava minha mãe, no dia 1/7/2001, data que, somada em seus algarismos, resulta em 11. Ubiratam + Carla Cepovilla tem exatamente 22 letras, que, divididas por dois titulares, dão a parcela de 11 para cada um. Inicialmente marcávamos nossos encontros no “clube de tiro”, que tem 11 letras.

Essa coincidência de número 11 segue numa sucessão tão assombrosa quanto enfadonha.

Com esta breve demonstração eu quis apenas dar uma pista de que nem o Coronel Bira nem eu temos qualquer culpa ou dolo em toda essa sucessão de tragédias. Tudo já estava desenhado pelos propósitos do além. Forças descomunais e irresistíveis impuseram as situações, apontaram as armas e premiram os gatilhos. Fomos instrumentos involuntários de desígnios insondáveis.

Quem tem um mínimo de cultura teosófica sabe que o número 11 é o desequilibrador dos elementos constitutivos do universo, determinante de suas doenças e erros. É esse número cabal o símbolo da luta interior, da rebelião, do extravio, do pecado original, da revolta dos anjos, enfim.

Se nem os anjos, que são assessores diretos de Deus, puderam resistir a seus efeitos desagregadores e decaíram, como poderíamos nós, simples mortais, resistir à imposição desse império?

Saibam todos que, visto de um modo superficial e simplista, fui eu quem matou o Coronel Bira, quando ele disse que não ia mais desperdiçar Viagra comigo, que determinada fulana fazia melhor e tal. Mas se olharem a realidade mais profunda, como deve ser, como rogo que façam, tanto o coronel, na realização do massacre, quanto eu, no seu assassinato, não tivemos culpa nem dolo. Fomos, repito, apenas instrumentos de uma determinação superior, simbolizada pelo número 11, à qual ninguém é dado resistir.

A frase mais emblemática que ele proferiu em sua própria defesa foi: “Se minha intenção fosse matar, teriam morrido muito mais de 111”, que tem 11 palavras. Além do cabalismo numerológico, essa frase deixa transparecer a opressão da força maior a que fora submetido na realização de seu desatino

 

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POR EM 08/12/2008 ÀS 04:42 PM

Abundância de estrelas no céu

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"Da copa da figueira, toda ela uma sombra fresca, então, escorria crepitante a algazarra dos pardais, em que cada pipilo continha uma urgência de registro muito agudo. Como não se visse nem se ouvisse ônibus nenhum desde que o Sol, esbraseado, sumira num incêndio por trás de uns edifícios escuros"

Seus duros pés fincados na plataforma cresciam dormentes de espera. Envolto pela multidão, era quase impossível mover-se do lugar. O reflexo do Sol a meio céu borrava com esplendores, para olhos cansados de ver como eram os seus, o letreiro dos ônibus - o destino que prometiam. Ao lado, de mochila às costas, o menino exibia as habilidades recém-adquiridas, gritando para a mãe o nome de bairros próximos e distantes. Sem exagero de gratidão, porque era inconsciente, Noé valia-se daquela ajuda enquanto se esforçava para mudar a posição dos pés enraizados e presos dentro de botas secas.

O menino gritou Paraíso como um alívio alegre, e a mãe sorriu. Antes que o ônibus parasse, corpos suados disputaram o espaço à beira da plataforma. Entre eles, a mãe com o filho preso pela mão. Noé reparou que ela usava uma saia fina e florida, diminuindo seu peso, então resolveu sentir calor. Com os braços em cruz no peito, pegou a blusa pela borda inferior e a retirou por cima da cabeça. Agora sim, ele respirou, agora seu corpo estava muito melhor. Mas o ônibus já partia e ele começou a sentir saudade do menino que sabia ler e de sua mãe que usava uma saia fina e florida.

Com menos gente na plataforma, Noé começou a observar. Não para distrair-se na espera, que não podia medir, mas porque o mundo se abre ante olhos abertos. Notou que havia uma imensidão de sapatos, quase todos parados na extremidade de pernas ligeiramente abertas. Os mais agitados, ele concluiu surpreso, são os menores e de cores mais alegres. Alguns, como suas botas, pareciam plantados na dureza do cimento: totalmente imóveis. A maioria dos sapatos estavam ou sujos ou foscos, descoloridos. Apenas uns poucos brilhavam como estrelas.   

Mais um ônibus estacionou rangendo suas ferragens, para alegria de algumas pessoas, que passaram à condição de passageiros. A plataforma ficou ainda mais aliviada, e, olhando para a direita, Noé descobriu que, ao lado da rodoviária, havia uma praça. Não muito grande, ele percebeu quase frustrado, mas dominada por imensa figueira cuja sombra cobria todos os bancos e algumas das pequenas aléias de saibro que a cruzavam. Além da praça, os prédios escondiam o horizonte; acima dela, um céu imaculado, azul como um vidro. Estar lá, à sombra, foi um pensamento que lhe ocorreu para sentir-se mais alegre. Mas como descobrir, daquela distância, o destino de cada ônibus?

Resolveu então voltar àquela neutralidade entre a alegria e a tristeza, um estado cinzento com que costumava esperar suas conduções.  

Envolvido com a praça e a sombra de sua figueira, muito mais atento aos fluxos internos, sutis pensamentos, Noé assustou-se ao ver estacionando mais um ônibus. Enquanto devaneava, o mundo acontecia? Teve de afastar-se rapidamente do lugar onde estava para ler o letreiro à testa do coletivo.

Suspirou aliviado: não, também este não lhe servia. Com os braços da blusa cingindo-lhe a cintura, Noé voltava para a mesma posição que ocupara todo esse tempo, mas descobriu, num surto de alegria, que, em alguns dos bancos junto à parede, havia lugares vagos. Meus pés, ele pensou de imediato e sem querer, não precisam continuar crescendo. Já havia pouca gente na plataforma, e a brisa atravessou aquele espaço farejando alguma coisa como numa caçada. Noé esfregou os braços nus com as duas mãos. Esfregou com força e aspereza até sentir que o calor voltava.

Só então, com o corpo largado na tábua lisa do banco, foi que Noé lembrou-se de enfiar os dedos na barba branca. Era seu gesto preferido de meditação. Desde que chegara, muitos ônibus haviam chegado e partido. Nenhum deles, entretanto, com um destino aceitável. Tristeza, Floresta, Penha, Paraíso, Campo Grande, uma lista sem fim, mas nenhum que lhe servisse. Estava no seu direito, portanto, de sentir-se irritado. E isso, apesar de agora gozar as delícias de um assento, sem a necessidade de sentir os pés crescendo desmedidamente.

Quando apontava a soberba frontaria de um ônibus qualquer, Noé levantava-se cheio de esperança e, na beira da plataforma, ficava atento até descobrir que não era aquele o caminho que pretendia. Na segunda ou terceira vez em que isso aconteceu, Noé notou que os reflexos do sol, tão incômodos algumas horas antes, haviam-se extinguido, e ele conseguia ler com facilidade uns nomes que nada lhe diziam. Voltava para o banco coçando os braços, vítimas inocentes de sua irritação.

Da copa da figueira, toda ela uma sombra fresca, então, escorria crepitante a algazarra dos pardais, em que cada pipilo continha uma urgência de registro muito agudo. Como não se visse nem se ouvisse ônibus nenhum desde que o Sol, esbraseado, sumira num incêndio por trás de uns edifícios escuros, Noé pôde dedicar-se por inteiro à escuta do alvoroço com que os pardais ajeitavam-se para esperar a noite. Foi assim que, tendo os olhos desocupados, olhou para o céu, onde surgiam as primeiras estrelas. Naquele momento, observando bem o azul ainda claro, Noé descobriu como é o infinito. E apesar do cansaço, da irritação, ele conseguiu um sorriso satisfeito, pois era uma descoberta feita de inopino, totalmente casual.   

Finalmente apareceu mais um ônibus. E esse já vinha todo iluminado. Do banco, onde há bastante tempo estava sentado, Noé pôde ler o letreiro, que indicava um lugar qualquer, de que ele nunca tivera notícia. Não foi preciso levantar-se para decidir que era mais uma decepção. O ônibus parou, abriu a porta com um gemido e iluminou a plataforma. Algumas pessoas embarcaram com seus suores no rosto e nas axilas, além da certeza de que eram esperadas em seus destinos.

Noé, sentado em seu banco, dois operários encharcando-se de cerveja e cachaça no bar da rodoviária e o balconista, eram os últimos semoventes da estação. Noé sentiu um frio que era muito parecido com uma solidão, por isso tratou de vestir a blusa. Sentindo-se um pouco mais confortável, resolveu pensar em todos os acertos que viera fazendo nos últimos tempos, o modo como se despedira dos seres e das coisas, até chegar ali, consciente de que não havia mais caminho de volta.

Os dois operários atravessaram a plataforma e sumiram noite a dentro, abraçados e cantando com incongruência suas vidas ralas. Foi um vulto só, o que Noé viu, mas eram duas as vozes roucas, deterioradas. A porta do bar desceu com um estrondo e o balconista seguiu as pisadas de seus fregueses.

Com os braços cruzados no peito, Noé ainda gastou os olhos perscrutando a boca da avenida por onde poderia chegar algum ônibus. Esperou muito tempo. A plataforma era um espaço inútil, vazio, preparada para sua espera de toda a noite. Os pardais já dormiam silenciosos. Apenas de raro em raro podia-se ouvir um pipilo perdido, de quem ainda não se acomodou direito. As estrelas, bem mais nítidas agora, desenhavam navios e castelos na planura do céu.

Noé tossiu um pouco, mas apenas para se distrair. Com a mão direita tateou a extensão do banco, encolheu as pernas e deitou-se.


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POR EM 08/12/2008 ÀS 04:29 PM

Na janela do velho sobrado

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"A noite estava distante, além do jardim, por trás do muro, no alto de alguns postes que mal se podiam ver da janela do sobrado. A noite era um silêncio raramente interrompido por um latido, um grito, uma buzina, tudo esmaecido pela distância. No céu, umas poucas estrelas brilhavam e sumiam e brilhavam outra vez entre nuvens que se agitavam esgarçadas"
 
 

Acordou com a explosão na boca e tentou ficar na cama por causa do frio. As vistas viam as estrelas do esforço e mais nada antes de se acostumarem à escuridão do quarto, onde penetrava apenas uma claridade baça através das fasquias da veneziana. Tentou conter a tosse no fundo da garganta, engolida, até quase o sufocamento. Era uma espécie de mão descarnada e com dedos de aço que se apertava em torno de sua cabeça.

Esbugalhando os olhos, que tentavam saltar das órbitas, e com o sangue inchando-lhe as veias do pescoço, Eliseu desistiu do silêncio e soltou novamente a tosse, que parecia nascer-lhe nos pulmões e subir queimando o esôfago até a boca. Então sentiu que algo como um carnegão se desprendia de seu interior e procurava a saída mais próxima. Levantou-se num pulo só e correu para a janela, cujas venezianas estouraram dois tiros secos contra a parede do lado de fora quando as abriu.

A noite fria e úmida bateu-lhe no rosto febril e suas sombras engoliram a massa de catarro e sangue que Eliseu expulsou com ímpeto e raiva.

O alívio veio envolto por uma tontura boa, como um descanso e um copo de água fresca à beira de um desmaio. Inspirar, naquele momento, o ar escuro até inflar os pulmões foi o que reteve Eliseu apoiado no peitoril da janela. A crise tinha passado e agora era imperioso desfrutar o prazer de estar respirando. Era como se estivesse atingindo um sentimento bom, quase uma felicidade: o bem-estar.

A noite estava distante, além do jardim, por trás do muro, no alto de alguns postes que mal se podiam ver da janela do sobrado. A noite era um silêncio raramente interrompido por um latido, um grito, uma buzina, tudo esmaecido pela distância. No céu, umas poucas estrelas brilhavam e sumiam e brilhavam outra vez entre nuvens que se agitavam esgarçadas. 

Uma claridade, então, moveu-se da direita para a esquerda, lenta, e Eliseu ouviu sua respiração ofegante e cava, como se o ar estivesse por demais denso. Era uma claridade branca e de pouco brilho, mancha pálida no rosto da noite. À distância de um braço e envolta em luz, formou-se um busto feminino, cabelos loiros como raios de sol, mas com buracos escuros em lugar dos olhos. Na vizinhança, agitados, os cães uivavam e ganiam sem parar. As mãos de Eliseu grudaram-se no parapeito da janela e seus braços perderam qualquer movimento. Os pêlos do corpo se eriçaram em formigamento. A forma feminina inclinou a cabeça e em voz cava, uma voz que parecia a vibração de um corpo, afirmou, Há quanto tempo, meu amado. Um hálito pestilento envolveu a cabeça de Eliseu, quase a ponto de o sufocar.

Com o mesmo vagar de sua aparição, a claridade continuou seu caminho aéreo até desaparecer. Calaram-se os cães, e um silêncio majestoso, como se a noite estivesse parada, seguiu-se a seu desaparecimento. Nuvens e estrelas, a brisa noturna, nada se movia debaixo da abóbada celeste. Eliseu suava aterrorizado, mas não conseguia forças para afastar-se da janela.

Sol alto, ao descer para o andar inferior e encontrar a irmã e o cunhado, Eliseu não soube explicar a que horas exatamente conseguira dormir. Lembrava-se apenas de que tremera de frio por muito tempo, encolhido na cama, até surgirem os primeiros clarões da aurora para apagar de seus olhos aquela figura envolta em luz.

O cunhado enrugou a testa, com ar de incredulidade, mesmo tendo ouvido o relato da aparição e da frase que Eliseu tentou reproduzir no fundo da garganta: Há quanto tempo, meu amado. Ninguém está livre de uma alucinação, cunhadinho. Ninguém.

Eliseu voltou-se para a irmã, que lhe preparava a mesa do café. Mas ela concordava com o marido. Então toda experiência que foge ao lugar comum, ao ramerrão do dia-a-dia, só pode ser alucinação?, perguntava um Eliseu exasperado ao casal que, involuntariamente, demonstrava enorme indiferença pelos detalhes de seu relato.

O dia estava claro, brilhante, como um desmentido ao terror da meia-noite por que tinha passado o rapaz. Mesmo assim, Eliseu enfrentou o fulgor do dia e foi examinar o jardim debaixo da janela de seu quarto. Rente à parede, um canteiro de sempre-vivas parecia intacto. Nem marcas de pés, na terra fofa, nem galhos quebrados das plantas. Ele se agachava procurando algum vestígio com que comprovar sua experiência. Levantava-se, dava dois passos e agachava-se novamente, sacudindo inconformado a cabeça.

O cunhado apareceu à porta e não conteve a gargalhada. Teu fantasma, ele gritou, era um gigante? Eliseu encarou-o com raiva. Ia responder com uma agressão qualquer, mas preferiu calar-se. Olhou para cima, para a janela como um olho fechado em sua altura e rente à qual tinha passado a terrível figura luminosa, desceu novamente o olhar até o canteiro de sempre-vivas, e desistiu daquela pesquisa estúpida.

Entre os cunhados, era antiga uma relação de ambigüidade, que misturava admiração e deboche. O respeito, que em geral Eliseu nutria pelo marido de sua irmã, oscilava, pendulando, até momentos de profundo desprezo. Mas o sono, conciliado quando os primeiros clarões da aurora entravam pela veneziana, tinha conseguido apagar muito da impressão causada pela visão da meia-noite.

A tosse interrompeu o caminho de Eliseu, quando ele se dirigia à porta onde o cunhado estava ainda com o sorriso aberto. É possível, latejou em sua mente assim que passou a tontura, que eu esteja vítima de alucinações? O cunhado se afastou para que ele entrasse na cozinha, e lhe perguntou se se sentia bem. Eliseu, como resposta, apenas ergueu os ombros, o que não significava nada, por isso podia significar qualquer coisa.

Vítima de alucinações? Impossível, se vira a figura de tão perto, sentira-lhe no rosto o hálito pestilento, se ouvira com tanta nitidez o uivo dos cães da vizinhança. Resolveu, entretanto, não comentar mais com a irmã e o cunhado o que se passara durante a noite anterior.

Logo depois do almoço o cunhado saiu para o trabalho e a irmã ocupou-se com as miudezas de manutenção do velho sobrado. Eliseu caminhou até a sala, com seus móveis arruinados, mas não chegou a sentar-se. Vítima, ele? Deu uma volta, espiou pelo postigo a rua deserta, botou e tirou as mãos nos bolsos, sem saber por quê. De alucinação? Então bocejou com os olhos fechados e descobriu que estava com sono.

Enquanto escalava os degraus da escada, que rangiam sob seus pés, Eliseu ainda se perguntava se era possível uma perturbação mental tamanha que o fizesse imaginar tudo que julgava ter visto e ouvido. E aquele cheiro de pólvora queimada, que o sufocara, poderia ter sido apenas o resultado de uma imaginação doentia? No patamar do andar superior, que apenas uma tênue claridade iluminava, depois de atravessar o vidro fosco e sujo de uma pequena clarabóia, o suor tornava suas mãos pegajosas, e, da testa fria, desciam-lhe bagas de suor até o rosto esquálido.

Preciso descansar, Eliseu pensou abrindo a porta do quarto, porque à noite quero estar bem desperto. E, vestido como estava, jogou-se na cama ainda desfeita, mergulhando na morrinha morna de seu próprio suor.

As pancadas estrondearam sobrado acima, intensificadas pela ressonância da caixa de madeira da escada. Eliseu abriu as pálpebras no escuro, atento. Depois de pequena pausa, repetiram-se as pancadas. Só quando ouviu seu nome gritado pela voz da irmã foi que se localizou. A janta na mesa!, ele ouviu o convite. Então se lembrou de que deitara com muito sono, sem tempo para tirar a roupa com que estava vestido.  

Com a mudança brusca de posição, Eliseu sentiu uma trepidação incômoda no peito, o movimento de alguma coisa que se desprendia e que, em pouco tempo, se transformou numa pressão de dentro para fora, como se todo ele estivesse a ponto de explodir. A tosse chegou-lhe à boca numa explosão já conhecida e ele correu à janela. Desengonçadas, as venezianas espocaram na parede do lado de fora. A noite havia chegado sem o menor rumor, como se nada tivesse mudado. Não teve como evitar a lembrança da visão que tivera na noite anterior, e, mesmo com os cabelos eriçados de medo, ele continuou reclinado sobre o parapeito da janela. Uma aragem fria penetrou no quarto, resfriando o suor que porejava por baixo da camisa de Eliseu, que, ainda tonto do esforço, vestiu uma blusa de lã e sem fome nenhuma desceu para o andar inferior.

Foi recebido com espanto, por causa de seu rosto inchado e o desalinho geral da roupa e do cabelo, por causa de seus olhos parados e lacrimejantes.

Durante todo o jantar, Eliseu manteve aquele mesmo olhar alheado, desatento, como se alguma idéia fixa o estivesse perturbando. Para trazê-lo de volta à mesa da cozinha, era preciso que fosse interpelado várias vezes e com alguma veemência. Quando a irmã e o cunhado o convidaram para assistir com eles à novela, Eliseu respondeu que não, que não estava com vontade e mentiu que sentia um pouco de dor de cabeça.

No quarto, Eliseu ficou olhando o despertador, tenso, concentrado, à espera de que chegasse a meia-noite. Era preciso pôr-se à prova para saber se começava a ser dominado por qualquer tipo de demência.

O movimento dos ponteiros era imperceptível e o cansaço subiu das pernas de Eliseu até invadir todo seu corpo. Tirou os sapatos e recostou-se na cama, convencido de que apenas descansava uns instantes enquanto esperava as horas passarem. Mas não resistiu ao cansaço causado pela tensão em que passara boa parte do dia: acabou adormecendo.  

Acordou bem mais tarde com a sensação de que o peito estava prestes a explodir. Acordou assustado, com a tosse arrombando seus lábios, e correu à janela. No escuro em que se encontrava, não pôde ver as horas, mas intuiu, pelo silêncio da cidade, que se aproximava da meia-noite.

E então tudo se repetiu. A claridade silenciosa em cujo centro flutuava uma figura feminina com dois buracos negros no rosto. Na vizinhança, os cães voltaram a uivar e ganir, apavorados. À distância de um braço, Eliseu percebeu movendo-se uma cavidade em forma de boca e, bem nítidas, as palavras que se articulavam no peito da visão: Minha paciência vai chegando ao fim. E depois de inclinar levemente a cabeça, a figura continuou seu caminho silencioso e aéreo. Esvaecida, a claridade, acalmaram-se os cães por trás dos muros da vizinhança e a noite voltou a ser apenas uma abóbada cravejada de estrelas, algumas luzes tremeluzindo no alto dos postes, e as sombras de árvores e telhados quase indistintos.

A paz, em que parecia mergulhada a noite, contudo, não correspondia à mente de Eliseu, tumultuada pelo desarranjo dos pensamentos.

Algum tempo mais tarde, descobriu-se com menos medo do que na noite anterior, apesar da indiscutível irritação da figura que o visitara. Fechou as duas folhas da veneziana, que bateram no caixilho com barulho morno, trocou de roupa e se enfiou por baixo do edredom.

Quem estava louco, confundindo visão com imaginação?

Não foi um sono tranqüilo, o sono de Eliseu naquela segunda noite de visita da estranha criatura, estranha e desconhecida (apesar de sua cara de velha companheira). Algumas vezes tossiu até acordar, para então enxugar no lençol o suor do rosto e do peito. A nuca encharcada causava incômodo e ele sentia no corpo todo a ardência da febre. Um sono todo entrecortado de sustos e desconforto. Na memória de suas narinas, o hálito mefítico continuava incomodando, mesmo durante o sono.

De manhã, à mesa do café, a irmã e o cunhado estranharam seu olhar vazio e a voz estrangulada com que os cumprimentou antes de sentar-se.

Andou vendo fantasma outra vez?

Nem bem fez a pergunta, o cunhado arrependeu-se porque Eliseu virou para seu lado um rosto que já não habitava entre eles, um rosto opaco, de pele amarelada sem brilho.

Você – e era uma voz que lhe subia dos intestinos antes de ressoar nos pulmões apodrecidos - você brinca com o que não conhece.

Calaram-se os três, ouvindo-se até o fim do desjejum apenas o ruído de lábios a sorver o café quente. E em silêncio o velho sobrado passou o dia, que em tudo pareceu um dia normal, em que se cumpriam todas as rotinas. Os monossílabos obrigatórios do almoço e do jantar não podiam ser contabilizados como conversação. Não era terror, o que o casal sentia para evitar qualquer palavra à mesa. Não chegava a tanto. Mas não podiam escapar de certa sensação de assombro e respeito na presença de um ser humano a tal ponto destruído.

Foi com dificuldade e sentindo-se muito cansado que Eliseu, logo após o jantar, subiu as escadas rangentes para fechar-se em seu quarto. Ao ouvirem o barulho da porta sendo fechada, lá em cima, a irmã e o cunhado discutiram o assunto e chegaram à conclusão de que o estado de Eliseu demonstrava alguma gravidade, e que era necessário procurar um médico, medida que protelaram para a manhã seguinte.

Estavam ainda no primeiro sono, os dois, quando foram acordados por vozes que pareciam humanas que altercavam no andar de cima. Misturando-se ao som de palavras incompreensíveis, ouviram alguém chorando e rindo ao mesmo tempo. Vai, vai, parecia alguém dizer. Então fez-se alguns instantes de total silêncio no escuro do velho sobrado. Na cama, de ouvidos muito abertos, o casal aguardava. Os pêlos eriçados, por baixo dos cobertores, não eram apenas de frio.

Súbito ouviram o baque de algo que cai e um grito rouco decrescendo rapidamente. Depois, outra vez o silêncio, mas um silêncio como que arfante, como se o sobrado respirasse com dificuldade. Acenderam as luzes e, com as mãos unidas pelo suor, escalaram os degraus de madeira desgastados pelo uso e pelo tempo. Além de seus passos hesitantes, conseguiam ouvir as batidas fortes de seus corações.

O marido foi quem, tremendo de espanto, escancarou a porta do quarto. A luz estava acesa e a lâmpada, dependurada do teto, ainda balançava, mas Eliseu não estava mais na cama. Os dois tiveram a mesma e estranha intuição e correram juntos até a janela, inteiramente aberta. As plantas, cá embaixo, no jardim, guardavam o silêncio das estrelas, que se mantinham acordadas na imensidão do céu.  

 

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POR EM 01/12/2008 ÀS 08:15 PM

Magrinha

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Antes de transladarem o lixo e a loucura do que julgam progresso para cá, representado até por boates e discotecas que enchem o ar e as madrugadas de relinchos à laia de música, a cidade oferecia lazer noturno

Há seis dias o general Zarastru assumiu o governo da República, abocando sua parte de leão no acordo previamente selado com o diminuto e misterioso comando da ditadura de revezamento de generais no poder.

De óculos escuros montados no narigão de pera, durante a posse Zarastru presidiu solenidades e festejos castrenses, sempre escondido atrás de vidros à prova de bala e protegido por aparato de segurança digno de bunker de todos os ditadores, caso eles se agrupassem para formar um único centro de decisão na Terra. Cercava-o quantidade quase inverossímil de homens e de armas, capaz de guardar a Cordilheira dos Andes e abater até mesmo um inseto que quisesse voar sem sua permissão sobre ela.

No domingo posterior à posse daquela casca-grossa que até então detivera a chefia do exército, aproveitamos o telão recém-instalado no Cascatinha Bar Show Dançante para permanecermos sem maiores riscos e por algum tempo juntos sob o pretexto de assistir à que, dependendo do resultado, seria a partida final do campeonato carioca de futebol. Vasco e Flamengo, o clássico dos milhões. Quase todos tínhamos televisão em casa, mas deliberamos nos reunir em torno da 24 polegadas do cascatinha porque ela nos permitiria, antes e após o jogo, conversar de assuntos prazerosos — peixes, mulheres, cardumes de uns, escassez de outras, pescaria, caça, imponderabilidades climáticas — e confraternizar, apesar das emoções dentro e fora de nós exasperadas, tão exasperadas quanto as cigarras de um poeta cujo nome esqueci. Refiro-me às emoções soltas em campo, nos pés dos artilheiros e no berro da torcida, cujo contágio e pressão mantínhamos como panela a custo tampada, enquanto, à guisa de água, deitávamos cerveja na fervura, fosse rubro-negra, ou cruzmaltina. No grupo, felizmente não havia nenhum pinguço, somente homem de conceito e respeito.

Na tela e no Maracanã tremendo de gritos e de gente, um jogo de arrepiar. Final: 1 a 1 — resultado que transferiu a decisão do campeonato para o próximo domingo. Ainda bem, pois vivíamos naqueles dias entorpecidos de medo, atormentados por imprevistos e sobressaltos, de modo que um Vasco e Flamengo caía do céu como uma espécie de comoção compensadora e talvez providencial para os nossos nervos exauridos.

O Cascatinha Bar Show Dançante fica defronte à Praia da Farofa, um nome que veio calhar bem, devido encontrar-se ela ulteriomente infestada de turistas, de cocô e da promiscuidade dos turistas. Com o tempo, de tal modo suas águas foram afetadas que mudaram de cor e ainda se vêem obrigadas a agüentar a impostura dos jet-ski e da cáfila de imbecis pendurados em telefones celulares e outras engenhocas eletrônicas. Naquela época porém nem fedentina era tanta, nem o ar se encontrava tão emporcalhado. Do Cascatinha, construído sobre uma elevação, descortinava-se todo o movimento do porto de Aruanã, já então meio frenético na temporada, mas de certo modo calmo, quase tranqüilo, nos mais períodos do ano. A vista se fazia de tal maneira magnífica que, debruçada com seu dono de uma das janelas num cair de tarde, a imaginação se deixava levar rio abaixo ou rio acima, até se perder na linha do horizonte, a crepitar no incêndio de crisântemos e begônias de pura substância etérea, celestial — um incrível, verdadeiro espetáculo de cores projetadas do paraíso original, antes da queda do homem: o pôr-do-sol do Araguaia. Também o nascer do astro-rei em nada diferia do sol-posto, exceto que em vez do lento mergulho parecia levantar-se devagarinho e no entanto poderosamente das águas, noutra metáfora de luz ampliando-se em bola de fogo colossal — quiçá o olho de Deus.

Antes de transladarem o lixo e a loucura do que julgam progresso para cá, representado até por boates e discotecas que enchem o ar e as madrugadas de relinchos à laia de música, a cidade oferecia lazer noturno natural, sadio, que não degradava a paisagem nem o sono das gaivotas. Aruanã era a réplica do Éden. Sem tirar nem pôr.

O Cascatinha Bar Show Dançante tinha muito de bar e nada de show dançante, salvo de tempos em tempos um bailezinho-família no salão alugado a preço simbólico por ranchos de rapazes e moças, determinados a angariar fundos para algum acontecimento de peso nas efemérides da cidade, incluindo as religiosas. Pertencia a Arióbulo Trinchinchelo, alcunhado o Jacaré. Entre as naturais da terra, ninguém compreendia porque lhe pespegaram e Arióbulo sustentava o sáurio apelido, que assentaria melhor em sua grandalhona cara-metade, a senhora Adrianola. De outro lado, bem considerada as coisas, ninguém também teria peito para chamar a jacaroa de jacaroa, mesmo tratando-se visivelmente de uma espécie aruá gigante de saia, braba como dez leoas, de traseiro que nem dois braços longos dariam conta de abarcar, as narinas salientes, convulsionárias, resfolegantes, ruidosas, e os bugalhos do globo ocular lembrando limões galegos, e dos grandes, dando a impressão de plantados no cocuruto e não perto do septo nasal, se vistos no lusco-fusco da noite ou da manhã. Sem falar nos dentes preênseis, fortes como palhetas de aço e cortantes feito facas. Enfim, uma crocodilona, uma calangona d’água das mais ferozes e temíveis.

Virago? Machona?

Já excogitaram que sim, porém sem um fiapo de prova a favor. No entanto, tirante este aspecto, saltava aos olhos que Adrianola ilicitamente se livrara da alcunha aderida ao marido, ao passo que nele cairia — justo como dois dedos no nariz — o apelido de Camaleão; além de poltrão, ou da impressão de poltronice que emitia, percebia-se que o mimetismo do mocorongo moleirão derivava dos humores da mulher: de manhã, quando ela amanhecia de cara fresca como as hortaliças no meio das quais se metia, regando, estercando, exterminando lagartas e outras pragas, Arióbulo Trinchinchelo se disfarçava em verde, contemplando-a com olhos esgazeados; de tarde, geralmente, Arióbulo punha-se todo cinzento, tal e qual o humor de folha seca da patroa. Noutras horas, a cada hora, o paspalhão assumia a impreterível cor correspondente às disposições e tonalidades de espírito da robustona, inclusive a cor negra, mal a noite caía ou quando a alma dela se fingia de enlutada.

Arióbulo Trinchinchelo deveria ser coroado imperador dos seres que desembarcam no mundo com a finalidade única de não incomodarem nem serem incomodados por nada e por ninguém, pois tudo o que pediram a Deus foi um lugar em que se encostar, uma árvore que lhes dê sombra a ignorar sua presença, não ligando a mínima se eles escorregam um pouquinho para apanhar qualquer restiazinha de sol refratado dos galhos. E com a cabeça tomada de largo pensamento: que à noite podem com tato escalar-lhe o tronco, trepar nela, em busca da forquilha na qual vão se enganchar. Dona Adrianola era a árvore da vida de Arióbulo Trinchinchelo, o (sob protestos) Jacaré. E ela, com efeito, o deixava em paz no seu canto, pela recíproca razão de que ele não a estorvava em seu objetivo feminino (embora vigoroso) de mandar.

Não obstante o jeitão e disposição a de jacaroa, ou machona, que infundia medo despistado em respeito ao redor, especialmente nas crianças e nos adventícios, dona Adrianola encarava vários aspectos da existências com ternura, e às vezes os envolvia em amor, conquanto fossem um amor e uma ternura tão ásperos por fora que quase sempre permaneciam impercebidos aos olhos que a observassem apressados.

E já que falar sem pensar é atirar sem apontar, falemos com cuidado e devagar: sem pôr a mão no fogo, porque as aparências não se cansam de iludir, no fundo dona Adrianola nada possuía de lésbica, mulher-macho ou fanchona.

Tão durona pros demais, Adrianola se tomou de amores — um amor terno e derretido de mãe — por sua sobrinha-neta, Mágora, a Magrinha.

Mágora, a Magrinha, nasceu aqui, à beira do Araguaia, fez o primário no antigo Grupo Escolar Modelo e depois se mandou pra capital, onde estudou tanto quanto um doutor de Salamanca. Ou mais. E como quem muito lê, treslê, desde o ginásio Mágora, a Magrinha, principiou a manifestar idéias esquisitas, arauta de utopias, porta-voz de verdades e coisas tiradas a proféticas — destoantes; Gogó de Ouro, eis o epíteto que lhe aderira à identidade como o sol à flor, o verde à água do mar; os jornais a chamavam assim, exaltando-lhe os méritos nas artes oratórias, nas quais Mágora ganhara todos os concursos e largos espaços na mídia. Achava língua para tudo, e tão bonitas palavras. Aliás, as palavras lhe acudiam com uma presteza de súditas, uma obediência carola, parecia que Mágora, a Magrinha, nem precisava chamá-las ao pensamento, posto se acharem ali, prontas a lhe sair pela boca, ordenadas, ordeirinhas, cada qual em seu lugar, encaixando-se umas nas outras, como flores num buquê. Daí por que em fulgurações de metáforas as frases cascateavam em sua voz qual água que se derrama em cachoeira a compor cenário que não parece deste mundo, de tão sublime, refratando o arco-íris; e de fato ditas por ela tinham cores, as palavras, cores fortes e harmonia, e também muito vigor. Em resumo: poesia.

Deus, vê-la discursando em praça pública era o mesmo que ver um nascer ou pôr-de-sol no Araguaia, impossível descrever tal fenômeno de emoção irisada.

E aí, na volúpia da empolgação, ela se transfigurava, e tarari, tererê, que queremos pão e justiça, que a terra é de quem trabalha e não de quem a domina, e liberdade, e oportunidades, e igualdade de direitos para todos, e não sei mais o quê. Mesmo versando matéria de vasta controvérsia, todos ou quase todos dela se encantavam.

Muito meiga e fragilzinha, nestes momentos Mágora, a Magrinha, se agigantava, feita de seiva e calor. Tinha olhos castanhos claros, cabelos da mesma cor, rosto ovalado e bonito, mamilos que se adivinhavam durinhos e róseos sob a blusa encarnada, um delta-de-vênus que por nunca exposto acendia sonhos de posse e também de imaginação pictórica, tez de um branco quase diáfano, corpo bem proporcionado e belo apesar de carecer um pouco mais de suculência. E lábios nem muito finos nem tão carnudos, os quais se abriam em sorrisos que qualquer um gostaria de seqüestrar e guardar como tesouro ou talismã. Dela os homens se agradavam, pois nascera pra agradar.

Tornada insigne em altos estudos e altíssimas virtudes, Mágora, a Magrinha, comandava a ligas dos universitários, na capital da província.

Tão logo os generais instauraram a tirania de farda, à qual e da qual se serviam os lambe-botas civis, Mágora, a Magrinha, viu-se de súbito dentro de um torvelinho, privada até à morte de um minuto de sossego. Primeiro prenderam-na e a conduziram para uma fortaleza militar distante, a Fortaleza de Lajes, em pleno Atlântico, mas decorridos seis meses de muita lábia e artimanhas, ela com alguns companheiros, e também com a cumplicidade do chefe da guarda e de dois barqueiros, conseguiu render as sentinelas e pisar clandestina em terra firme, no Rio de Janeiro.

No curso de seis anos, percorreu labirintos, socada em ocos de perigos clandestinos, sempre procurada pela Organização dos Vigilantes de Mil Olhos (OVMO), a rede de espionagem criada em 1964 como o braço armado e tentacular do regime. Por milagre, e por ventura outros pretextos que produzem os milagres, oculta no breu de certa noite de setembro, enquanto os de Mil Olhos a supunham no estrangeiro, Mágora, a Magrinha, veio ter novamente a estas plagas, metida em disfarces de transformismo de atriz. A tia Adrianola a recebeu e a enlapou em locais tão ignotos e invioláveis, que a julgou trancadinha a sete chaves, podendo afiançá-la invisível. Mas céus! no quarto ano de esconderijo araguaiano, Mágora, a Magrinha, caiu nas unhas dos opressores, por artes de um infame delator, alcunhado ulteriormente de Judas Dedo-Duro. A Judas Dedo-Duro reservou-se destino em essência igual ao do seu avô Iscariotes, o que ao enforcar-se assistiu ao próprio derramamento das entranhas e cujas trinta moedas da traição serviram apenas para comprar campo de sangue, consoante o evangelista e a predição do profeta Jeremias. Ignora-se se morrendo ou não de remorso, mas decerto já picado de remorso, e desprezado de todos, num beco escuro Judas Dedo-Duro amanheceu certo dia casado com a mulher da foice, e de forma ignominiosa: a boca cheia de formiga, a cabeça espatifada por paulada semelhante em efeito a dez cachamorradas de feroz borduna xavante. Há simulacros de conjecturas rebuçando a certeza de quem desferiu o golpe daquela morte vindicante e talvez necessária. Sabemos e conhecemos muitíssimo bem quem a executou e, antes, quem a premeditou em seus mínimos detalhes: o mesmo homem e a mesma mulher que mais tarde dariam cabo do chefe de beleguins que entregara o pecúlio da delação ao imundo e execrado Dedo-duro.

Mágora, a Magrinha, morreu por excesso de suplícios — ou descuido, sofisma a que davam o nome de “erro técnico”, coisa comum naquela quadra de terror.

Mágora, a Magrinha, a quem os algozes preferiram chamar de subversiva, padeceu e sobreviveu às várias modalidades de tortura institucionalizadas, começando pelo pau-de-arara, em que põem a vítima — joelhos dobrados, abraçados e amarrados — dependurada de uma barra de ferro entre dois cavaletes, submetendo-a a espancamentos e outras formas adicionais de interrogatório que não prescindem nem da eletricidade nem de sevícias rupestremente animalescas.

Repetidas vezes, Mágora, a Magrinha, sobreviveu ao limite máximo do pau-de-arara — três horas —, findo o qual é impossível evitar-se a morte, o que pasmou os próprios seviciadores. Mágora, a Magrinha, sobreviveu às descargas elétricas da máquina de choque chamada triplicemente de pimentinha, manivela e perereca, de cujos terminais se alongam fios ligados ao corpo da vítima, inventada, como se sabe, pela Gestapo, no apogeu do nazismo, e aprimorada nestes trópicos.

Mágora, a Magrinha, sobreviveu à polé ou roldana entre contorções e gritos de dor que lembravam os inimigos da Inquisição na Idade Média: pés amarrados por corda que passa pela polia presa ao teto, o corpinho nu suspenso do chão, de cabeça para baixo, espancado, chutado, queimado com pontas de cigarros, retalhado a gilete e navalha, e ainda por cima acicatado pelos disparos elétricos da máquina de muitos volts. Mágora, a Magrinha, sobreviveu às torturas químicas, ao pentotal sódico, o soro da verdade, às torturas em cuja composição entram o éter e o amoníaco, ao torniquete que é o círculo de folha de aço ajustado ao crânio mediante mecanismo de rosca e parafusos, os quais, à medida que são apertados, produzem dilaceração encefálica e afundamento, a ponto de obrigar a saltar para fora o globo ocular. Mágora, a Magrinha, sobreviveu à cadeira-do-dragão, poltrona tosca de madeira revestida de metal eletrificado, na qual se viu amarrada despida inúmeras vezes, por correias, enquanto, ao elevar o volume da voz através do dispositivo ligado aos eletrodos e apodado por gracejo carcereiro de “microfone dos shows” (o das perguntas de respostas impossíveis), o torturador aumentava a voltagem das descargas da energia doida por eletrocutar o corpo da prisioneira. Mágora, a Magrinha, sobreviveu ao inferno de ruídos e gelidez de nevasca no negro cubículo dito geladeira, onde prisioneiros enlouquecem sem arbitrar ou sequer se situar no tempo. Um invento de tortura, esse, dos ingleses, mas ao qual os milicos do Brasil, para desfrute e deleite dos pinochets do continente, acrescentaram melhorias. Mágora, a Magrinha, sobreviveu ao telefone das manzorras em concha de gorilas que lhe arrebentaram os tímpanos. Mágora, a Magrinha, sobreviveu à palmatória, aos chicotes, sobreviveu aos pedaços de madeira, às cordas molhadas, aos cassetes de borracha recheados com cabo de aço — os infames e infamantes “pênis-de-boi” — que lhe introduziram na vagina, no ânus e em outras partes. Mágora, a Magrinha, sobreviveu a tantas formas de tortura, incluindo velas e cigarros acesos para sua pele apagar, socos e pontapés, agulhas e estiletes. Mágora, a Magrinha, sobreviveu a todos os métodos inomináveis de esfolamento e fraturas, físicas e morais.

No entanto, Mágora, a Magrinha, cujo calvário por ineptas as palavras se recusam a descrever —, Mágora, a Magrinha, veio entregar a alma ao Criador exatamente na mais primária das práticas de suplício — a do afogamento. No poço — o nosso poço, ou o que pelo menos deveria ser o nosso poço. Adicionaram-lhe pedras aos pés. Amarrada à corda de náilon deslizando através de roldana suspensa de uma galho de árvore a sombrear o rio — remanso de afluente do Berocan-Araguaia —, calcula-se que durante horas imergiam e içavam-lhe o corpo das águas no último limite do fôlego, a fim de que ela confessasse o que eles inventaram para ser confessado; logo, o inconfessável. Decerto — e esta não é uma dedução fora de lógica — Mágora, a Magrinha, pedia a morte, suplicava pela morte, desde que lhe pusesse fim aos padecimentos sem termo. Contudo, embora sofrendo muito, a vida no corpo de Mágora, a Magrinha, relutava em abandoná-lo.

Num tempo contado em séculos, descontrolados, ensandecidos, os verdugos continuaram infligindo a Mágora, a Magrinha, as imersões, ou naufrágios compulsórios. Até que, Cristo, vupt! quando a içaram, numa dessas imersões de quase morta, para nova rodada de perguntas, a vida havia abandonado aquele corpo de menina nua. Um corpo só empanzinamento hidráulico e hematomas, um corpo que vagamente lembrava a inquilina que o habitara.

Conforme a praxe em imprevistos assim, simularam e propalaram um suicídio tão inverossímil que nem os jornais sob censura acharam jeito de veicular a versão oficial.

De modo solertemente análogo ao empregado na prisão, os esbirros converteram na calada da noite nossa pobre igrejinha em cenário do autocídio forjado e levado a efeito de maneira tão ou mais absurda que a utilizada para a expedição e conhecimento público do atestado de óbito com que pretenderam legitimar aquela morte.

De crocodilo ou autêntica, ambas inconcebíveis numa mulher de seu feitio, dona Adrianola jamais deixara escapar uma lágrima. A mulher que nunca chora — oxalá esta lhe calhasse como definição exatíssima.

Pois ao recolher o corpo desfigurado de sua sobrinha-neta — e ela o buscou sozinha, junto ao altar, apesar de a cidade inteira encontrar-se à sua volta, solidária — não escondeu o pranto que os seus olhos vertiam. Talvez fossem lágrimas de toda uma vida, represadas só Deus sabe por quê. Ao romper os primeiros passos, com os frágeis despojos da suicida de fabricação nos braços, cingindo-os como se acalentasse uma criancinha de peito, ela parou três vezes e por três vezes volveu o rosto a fim de encarar a Virgem e o Cristo crucificado nos olhos; deixou tombar dois pares de cordas grossas dos cantos das órbitas, que anularam ou incorporaram o choro regular, ao passo que seus lábios mussitaram algo que somente ela e a consciência divina conseguiram captar e entender.

Ao transpor o umbral da igrejinha e ganhar a rua, o marido de um salto colocou-se a seu lado, executando-lhe doravante as ordens com uma presteza e vigor de que ninguém antes o julgaria capaz.

— O castigo vem a pé. Mas um dia chega. Então, não ficará um para contar o caso do outro — ela rugiu, após o enterro.

Sem poder esperar pelo padre, que nos acudia de raro em raro em desobriga, o corpo desceu à sepultura debaixo de nossas rezas e cânticos. A melodia que mais subiu às alturas, porque mal a encerrávamos alguma voz a puxava de novo, foi Segura na Mão de Deus:

Se as águas do mar da vida
quiseram te afogar,
segura na mão de Deus e vai.
Se as tristezas desta vida
quiserem te sufocar,
segura na mão de Deus e vai.
Segura na mão de Deus,
segura na mão de Deus,
pois ela te sustentará.
Não temas, segue adiante
e não olhes para trás:
segura na mão de Deus e vai.

Ao final, todos choravam, dando-se as mãos e cantando

Segura na mão de Deus e vai.

Ao sairmos da missa de sétimo dia, que a nosso chamado padre Zezinho de bom grado oficiou, Arióbulo Trinchinchelo, tão diferente do Jacaré que conhecíamos no Cascatinha Bar Show Dançante, levou a mão à garganta. Tomamos este gesto ritualístico de quem decepa o pescoço, à maneira maçônica, como a chancela do carrasco à sentença exarada e inelutável.

Rotina - De modo que ainda nos encontrávamos no bar de Arióbulo e Adrianola — uns, renitentes, comentando lances do clássico dos milhões; os mais conversando de pescarias e outros leves assuntos — quando o homem chegou perguntando por um tal Anterino. Dissemos que não sabíamos, mas o homem não se conformava. Sobre quem ele era, porém, tínhamos certeza — uma certeza que o homem ignorava.

Apesar do tempo e dos diferentes disfarces, a nosso ver inúteis, que agora ostentava, apesar da ausência da antiga careca e dos remotos bigodes grisalhos, o que ante olhos comuns fariam dele um perfeito desconhecido, não havia dúvida de que nos defrontávamos com o chefe dos capturadores que suplicaram e remeteram por outro mundo Mágora, a Magrinha.

— Quero que informem onde está o Anterino

— Que Anterino, meu? Aqui não mora nenhum Anterino.

— O Anterino, um que tem olho de vidro. Mora nessa rua — o homem insistiu.

— Nessa rua, não — alguém protestou.

— Nessa rua, sim — o homem disse, limpando a boca com as costas da mão.

— Aqui não mora nem Anterino nem João Quirino — outro dos nossos falou. — Conheço todo mundo e posso garantir pro senhor que não tem nenhum Anterino na rua.

— Fazendo gracinha, é? Se eu disse que mora, é porque mora; tão querendo acoitar? — o presumido forasteiro gritou; e bateu o copo de dose no balcão.

Fregueses distanciados assustaram-se e dois que jogavam sinuca, lamentando o empate que adiara a decisão dos cariocas, quiseram ir embora.

— Não vai sair ninguém, sem minha ordem — disse o homem, sacando ao mesmo tempo dois revólveres. — Fechem as portas.

Avaliei a situação, sem no entanto encarar o homem que procurava Anterino. Olhava-o de banda e, quando sentia seus olhos queimando meu rosto, disfarçava com o pé, de um jeito bobo, esfregando qualquer coisa invisível no chão. Mas quando o homem olhava para o outro lado, examinava-o com um rabo de olho. Não conheço hipnotizadores, mas penso que o homem era um deles. E os dois revólveres em suas mãos também brilhavam.

— Fila indiana. Agora, contra a parede! — o homem ordenou, os dedos ágeis brincando com as armas, como se fora caubói.

Obedecemos maquinalmente e houve quem exagerasse, ajoelhando-se com as mãos na nuca, o que parece tê-lo irritado ainda mais.

— Não sei o que faço que não acabo logo com vocês — ganiu, acertando uma cusparada na eletrola.

Deu um tempo e voltou a lembrar-se do Anterino.

— Vão ou não vão dizer onde está o jovem? — gritou, colocando com o polegar um dos revólveres no descanso e apontando-o em nossa direção.

Um silêncio de casa sem ninguém.

O falso desconhecido tirou o dedo do gatilho e depositou a arma no balcão.

Sacou a latinha do bolso e conversou em código.

— Câmbio! — concluiu.

cinco minutos depois, homens armados de escopeta punham as portas no chão. Varejaram tudo. Nem mesmo uma agulha teria escapado à revista.

— Concluía com êxito, Grande Chefe, a Operação Viver-em-Ordem! — o homem soprou na latinha.

— Câmbio!

E, virando-se, advertiu que se alguém ali abrisse o bico, para dizer que eles andaram atrás do Anterino, ira parar no poço.

O poço, ora, o poço! Por alguma razão, o homem cometera um erro — e talvez não somente um “erro técnico”, para usar a nomenclatura deles — ao mencionar o poço no qual, além de outras vítimas, há anos imolaram Mágora, a Magrinha, porque, não sendo adivinha bem mentirosa, ela não pudera fornecer detalhes, pretendidos pelos desalmados, acerca de certo e inexistente Comando Revolucionário de Resgate do Ideário Trotskista, em cuja direção fictícia igualmente a encastelaram.

De qualquer modo, por mais perdido no tempo e sossegado no rio, era de causar arrepios para que servira o poço.

— Ou então será esfolado vivo — o homem avisou, antes de ir-se com os outros, lembrando que o que acabavam de fazer era coisa banal, sem importância: mero exercício de rotina, para manter os rapazes em forma.

Antes, porém, de eles se irem, do fundo do corredor que dava para a cozinha, dona Adrianola olhava com fixidez absurda o homem da latinha falante. Quando ele se retirou com os outros e suas ameaças, ela escarrou satisfeita e chamou o marido para uma conferência. Os dois sumiram de nossas vistas, lá pros fundos, na cozinha.


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POR EM 01/12/2008 ÀS 05:58 PM

O que é que a banana tem?

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O desejo de Míster Fortes era ser todinho uma bananeira. Todos ali ficavam encabulados com isso e não se satisfaziam apenas com o dito de que "toda livuzia tinha sua mania". A cidade comportaria tranquilamente esse tresvariamento, se Míster Fortes não fosse à TV anunciar seu desejo inusitado. Os pais de família se preocupavam, não sabiam ao certo, com essa mania anunciada, se continuaria ou não o regime atualmente cultivado por todos, que dizia ser a virgindade essencial e fundamental para um bom casamento. Ainda mais  que começavam, subversivamente e à sorrelfa, é claro, por uns  insuspeitos "comunas bananistas", as discussões para a retirada, do Código Servil da Banana, do artigo que defendia o marido caso ele constatasse, até dois meses após o casamento, que sua mulher "já era", conforme  designava literalmente o artigo 3º , parágrafo II, do Código, o que para os mais gaiatos significava dizer que ela "estava embananada".

Era costume entre os homens lavar a honra não com chifres pontiagudos e escarnecedores, mas com a água limpa de dois rios, para refrescar a cabeça e lustrar a pontas. O corno perdia prestígio e era motivo para chacotas. Só era socialmente reconsiderado após arrancar a bananeira nupcial dela  e  enterrar no lugar os bagos de um boi curraleiro, bem chifrudo, ainda virgem.

As mulheres, como a de Míster Fortes,  Danda Fraca Fortes,  tinham de manter indubitável fidelidade à sua bananeira, sob pena de ficarem presas durante o período menstrual na Cadeia Pública dos  Dias Vermelhos, tendo de assistir, religiosa e bananeiramente, todos os dias, durante cinco horas, às pregações dos pastores bananas da Igreja do Evangelho Sextangular. A essa fidelidade denominavam de "sina bananeira" e todos já nasciam com ela, era como um pecado original. Só que aos homens a pena pelo desfrute com a carne proibida era branda. Assim mesmo, até aquele momento, praticamente não se ouviu falar de punição ao do sexo masculino, a não ser quando, por um distúrbio qualquer, aparecia algum legalista babaca querendo consertar o que não tinha mais jeito.

Para cada filho que nascia, os pais eram obrigados a plantar uma bananeira, em solenidade com banda de música e tudo mais. Também os noivos, antes das núpcias, plantavam cada qual sua bananeira. Tido com intelectual do mais alto gabarito e conhecimento, Míster Fortes era respeitadíssimo pelos representantes políticos do sistema. Acreditavam ser o único capaz de desenvolver a "Tese Bananeira", que no fundo defendia a continuidade de todos os conceitos e preconceitos, como quando reafirmava o poeta dizendo em um dos intertítulos: "Cada macaco na sua bananeira/ Chô chuá..."

Míster Fortes não era subversivo. Já o provara a milhares e melhores. Tinha idéias. "Mas idéias todos temos", filosofava. O maior complicador da situação social era o de que ele nunca explicitava com clareza sua tese bananeira e daí sobrevinham as dúvidas, deixando embananada a elite constituída. Ficava num "chove não molha" de entediar qualquer vivente. Como era intelectual, e consequentemente autoridade, quando aludia a algum ponto da tese em público, necessário e até imprescindível se tornava o aplauso, mesmo se ninguém quisesse ou até se discordasse e o achasse o maior embromador do lugar.

Os grupos feministas ameaçaram uma reação, indo para a televisão. Sem encontrar respaldo, não souberam esclarecer um ponto de vista contrário e que convencesse. Por via de inexperiência e ingenuidade, uma delas, que antes havia rasgado e queimado o sutiã em praça pública e fugido por causa da lei e da repercussão, no meio do programa ameaçou com a possível invasão de todas as plantações de bananas da região. Orientação assaz insubordinada e muito mais embananada, rebatida veementemente pelas colegas ali presentes, dando clara demonstração de insegurança. Foi motivo de orgia para os homens.

O rebate intempestivo intrigou Míster Fortes, que passou a escrever com mais autoridade ainda sua "Tese Bananeira", tendo para ele o mesmo significado de  "Memórias", pela intimidade com o assunto e também porque a considerava da máxima importância aos estudos das gerações futuras, para fortalecer as tradições e para deleite próprio.

Danda implicou com o tópico onde afirmava que as mulheres  podiam, teoricamente, ter os mesmos direitos do homem, caso conseguissem atingir com facilidade o orgasmo bipolar trifásico, "uma coisa de louco", que aos homens era comum, em função justamente da liberalidade inerente ao macho e de uma maior afinidade com a libido bananeira.

Quando adolescentes, os meninos eram iniciados na vida sexual usando os troncos das bananeiras. Aos 15 anos, em uma cerimônia denominada "estrujeição", os iniciados iam, à tardinha, com uns amigos mais velhos, os iniciadores, ao Largo da Onanibanana, do outro lado do rio, onde havia caules em abundância da Musa paradisíaca e a dança de muitas bundas das lavadeiras que sovavam roupas encardidas e, de pernas abertas e saias levantadas, deixavam à mostra o alimento da libidinagem adolescente. Furavam uma cavidade a contento e enfiavam o prazer. Regozijavam-se com os olhos, o pensamento e o doce pecado contra a castidade e a favor dos mistérios gozosos.

Em um dos parágrafos que se conseguiu sugar da tese, Míster Fortes dizia que a função bananeira, implícita hoje em dia principalmente nos relacionamentos sexuais, estava intimamente ligada à psiquê, determinando, assim, o comportamento social. Ele inseriu também o que não se cansava de afirmar: "Todos somos parte gente, parte bananeira" e que o instinto, acentuadamente o sexual, selava fraternal ligação à nossa parte bananeira. Um detalhe  que chamava atenção dizia que os órgãos sexuais masculino e feminino eram feitos à semelhança de bananas, frutas das bananeiras. O masculino com uma protuberância e, o feminino, com cavidade interna, como uma casca sem  banana.

Quando anunciou pela televisão seu desejo de ser todinho uma bananeira,  Fortes não deixou  bem clara ao público essa questão, porque estava na fase inicial da formulação da tese. Por isso, também, as indagações e polêmicas levantadas pelas feministas e por diversos pais de família. Estes, achando que o Governo devia censurar programas assim, que serviam apenas para provocar insegurança e ferir a moral da Tradicional Família Bananeira.

Preocupado com o desenvolvimento de seu bananal, Míster Fortes tratou de adubar a plantação que tinha na chácara. Por ironia agrícola, as bananeiras passaram a produzir umas frutas esquisitas, mais tarde reconhecidas como laranjas-da-terra.

Ficou assustadíssimo quando percebeu a estranha ocorrência. Imaginou que, pelo envolvimento com a questão, pudesse estar ocorrendo algo de errado com sua sexualidade. No entanto, nada percebia de anormal e, para assegurar-se da condição de macho, passou a utilizar  novos conceitos na tese, o  que, na certa, embananou mais o meio de campo. Talvez até conseguisse reafirmar a macheza, mas sua vida em casa e na sociedade decerto não seria a mesma dali em diante. Quem sabe aquilo tudo ocorria para colocar em questão a sexualidade advinda da bananeira, conforme expunha a tese na linha seguida por ele até ali, como que prenunciando a necessidade de mudanças? Abarrotou-se de dúvidas.

Abilolado e sem encontrar explicação plausível, saiu perambulando em busca de um pouco de paz e de alívio para, pelo menos, desanuviar a cachola.

- Ave, ou estou tresvariado ou o mundo está virado -, disse para si.

Intrigou-se. Sim, todas as pessoas estavam de cabeça para baixo, plantando bananeira.

Míster Fortes sempre achou que a loucura aparecia como um processo e não tão de repente. Ouviu na rua, sem querer, dois amigos cochichando sobre ele, dizendo que os frutos da bananeira seriam o prenúncio desse processo, uma de suas etapas iniciais.

"Não, não e não", inquietou-se. Precisava descobrir, com urgência, o que acontecia para que tudo fosse tão exótico.

Quando criança, ouvira do avô paterno que algo semelhante ocorrera com o bisavô Epitáfio Fortes, que teve sobressaltos horríveis e um final muito, mas muito triste. Chegou a perpetrar a formação de um exército bananicida, tirado única e exclusivamente de sua imaginação, para  arrasar as plantações locais. Por não lograr êxito na idéia estapafúrdia, já que a população saiu armada em defesa, comeu inúmeras dúzias de bananas e suicidou-se por empanzinamento.

Aos poucos e com muito exercício mental, Míster Fortes percebeu que nada era assim tão esdrúxulo e passou a conviver naturalmente com as pessoas de cabeça para baixo e as bananeiras que davam laranjas-da-terra, como ocorria agora com todas as que foram plantadas em sua chácara. Na tese, chegou à conclusão de que a inferioridade feminina, tão apregoada pela sociedade, reinava paralelamente ligada à questão bananeira. Essa situação fazia os ricos cada vez mais ricos e os pobres muito mais pobres, conforme comprovou mais tarde quando reuniu em praça pública todas as mulheres do Cabaré Martinica em um colóquio libidinoso e amoral, para mostrar à sociedade, na prática, o que tentava explicar em tese.

Foi um horror! As autoridades o prenderam e o condenaram a ficar dependurado de cabeça para baixo no meio da rua. Aos poucos recobrou a lucidez e se desculpou pelo que lhe contaram que havia feito. Quando o retiraram do castigo, que homem ali tinha certos direitos, novamente virou um "zetelo" e foi aquele "buzufu" com as mulheres na praça. O homem se desvirou numa "indroma", para desespero de todos. Por isso, foi condenado a viver plantando bananeira e não falou com mais ninguém, o que nos impediu de saber o que de específico, exótico e recôndito a banana tem.


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POR EM 24/11/2008 ÀS 07:55 PM

Toshiko Shinai, a bela samurai nos quilombos de Goiás

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Após meses de uma angustiante espera, resolveram então se refugiar num lugar ermo, de todos desconhecido, inatingível ou, no mínimo, inalcançável pelos braços da repressão policial. E se estabeleceram nos vales encobertos da grande serra localizada no Nordeste goiano, onde somente os escravos, fugindo da implacável e feroz perseguição dos capitães de mato, conseguiram alcançar

1945. A segunda grande guerra que varreu o Planeta acabara de terminar, deixando um rastro de milhões de mortos.

De São Paulo, cinqüenta famílias japonesas pertencentes à Seita Shindo Renmei – Liga do Caminho dos Súditos, resolveram fugir para o interior de Goiás.

A seita era alvo de aguerrida perseguição. Implacavelmente, a polícia combatia seus integrantes em virtude dos assassinatos promovidos contra os que reconheciam como verdadeiras as notícias dando conta da derrota do império japonês.

A Shindo Renmei era uma organização secreta que exercia forte influência ideológica sobre a colônia nipônica radicada em São Paulo, mas diluída também nos demais Estados brasileiros. Com estruturação paramilitar e radical difusora das milenares tradições japonesas, a Liga do Caminho dos Súditos afirmava que a notícia sobre a derrota dos países do Eixo não passava de propaganda enganosa, produzida pelos países aliados. Na realidade, as ondas de rádio da BBC de Londres, divulgando ininterruptamente a rendição japonesa, não passavam de artifício rasteiro para minar o inquebrantável moral dos saldados leais ao imperador, contra-divulgavam os líderes da Shindo. E passaram a perseguir e assassinar todos os integrantes da colônia nipônica que acreditavam nas notícias emanadas da rádio londrina. Para os militantes da seita radical, era inadmissível duvidar da invencibilidade nipônica, ostentada em mais de 2600 anos de sucessivas vitórias, sem que o país tivesse perdido uma guerra sequer.

A Shindo preparou então seus esquadrões de matadores – os tokkotai - e foi à caça dos que acreditaram na vitória dos países liderados pela Inglaterra, EUA e URSS. Assassinaram quase 30 imigrantes, deixando feridos mais de 150.

A reação da polícia não demorou. O DOPS paulista encarcerou mais de 30 mil suspeitos e não menos de 400 foram condenados a penas que variaram de um a 30 anos de cadeia.

Por interferência direta do mais alto dirigente da República, um decreto presidencial deporta para o Japão 80 integrantes da seita. Todavia, no indulto do Natal de 1956, o presidente Juscelino Kubitschek coloca todos em liberdade, no que imaginou estar virando esta página negra da história contemporânea brasileira.

Com a generosidade do ato, o presidente mais popular dentre todos já havidos, imaginou ter lançado uma pá de cal sobre a tragédia que assolou os 200 mil imigrantes japoneses. Ninguém percebeu - nem os serviços de inteligência das três armas, nem a CIA, a quem os policiais e militares brasileiros prestavam solícita obediência - que 50 dos maiores dirigentes e matadores da Shindo Renmei, migraram, com suas famílias, para o interior de Goiás.

No mínimo dois membros de cada uma das famílias que agora fugiam para o Planalto Central, foram impiedosamente torturados e mortos nos porões do DOPS paulista. Providencialmente, a polícia permitiu que poucos sobrevivessem à tortura, com o único objetivo de que – libertos – relatassem na colônia, as técnicas brutais de martírio e suplício. Afogamento, choque elétrico, estupro, pau de arara, garrote vil, simulação de fuzilamento, retirada de órgãos do corpo, era o mínimo que ocorria nos porões das delegacias de polícia.

Primeiramente as famílias vagaram a esmo pelos portos do Rio de Janeiro e Santos, esperançosos em encontrar os prometidos navios japoneses que os levariam de volta ao país do sol nascente.  Após meses de uma angustiante espera, resolveram então se refugiar num lugar ermo, de todos desconhecido, inatingível ou, no mínimo, inalcançável pelos braços da repressão policial. E se estabeleceram nos vales encobertos da grande serra localizada no Nordeste goiano, onde somente os escravos, fugindo da implacável e feroz perseguição dos capitães de mato, conseguiram alcançar.

O local era de difícil acesso, habitado por descendentes de escravos, os quilombolas. Se o inacessível lugar conseguiu assegurar liberdade aos negros, assegurou também – por outro lado – o completo isolamento dos remanescentes de escravos, como se o tempo tivesse abruptamente congelado. Os negros quilombolas, descendentes dos primeiros africanos que aqui aportaram, adentraram o século XXI vivendo como se estivessem em 1746.

Os quilombolas, de início, estranharam aquela gente de olho puxado que se mantinha arredia a qualquer tentativa de aproximação. Mas souberam compreendê-los e não criaram problemas. Sabiam que só estavam ali - naquela terra tão inóspita e inacessível – por estarem passando por uma implacável perseguição. E disso conheciam como ninguém. Por isso, os afro-descendentes respeitaram a dor de seus mais novos e únicos vizinhos, permitindo-os curtir em paz o isolamento escolhido.

Nas 50 famílias que agora dividiam com os quilombolas as serras inóspitas, havia mais de 30 cientistas. Eram pesquisadores famosos no Japão, respeitados e venerados pelo número de descobertas e invenções, sobretudo nas áreas da engenharia militar e da biomedicina.

Cinco desses cientistas foram os que desenvolveram o avião de caça militar Zero, que tantas baixas infligiu aos aliados nas homéricas batalhas aéreas travadas nos céus do Pacífico. Mas a maior parte dos cientistas migrantes destinava suas pesquisas para a área da engenharia genética.

Na China, quando o país estava subjugado pelo Japão, aqueles cientistas integraram o grupo que perpetrou todo o tipo de experimentações, utilizando seres humanos como cobaias, notadamente crianças e mulheres chinesas. Como receberam carta branca do imperador e do alto comando militar japonês, não havia impedimento ou limitação - fosse ético, moral ou religioso – à experimentação científica. A completa inexistência de limites levou ao sacrifício de 600 mil mulheres e de 1 milhão de crianças por experiências genéticas mal sucedidas.

Quando chegaram a São Paulo, já dominavam insumos suficientes para abrirem uma nova frente na pesquisa embrionária. Deram origem à partenogênese, técnica científica através da qual um ser vivo nasce a partir de um óvulo sem, contudo, haver fecundação.


O objetivo passava agora a conquistar o absoluto controle sobre a reprodução humana, de modo a gerar apenas seres plenamente sãos, com biotipos pré-definidos e já com o ordenamento cerebral estabelecido para se obter a máxima performance, o máximo fator de inteligência. Os cientistas não mais admitiam a casualidade dos relacionamentos do homem com a mulher que geravam filhos imprevisíveis, às vezes com ótima desenvoltura física, mas inadequado desempenho cerebral; outras vezes com alto desempenho cerebral, mas capacidade física comprometida. Muitos marginais e criminosos foram criados em berço de ouro, tiveram formação rígida, pais devotados, relacionamentos seguros e confiáveis.

Era então necessário fugir a esta lógica de incertezas e adentrar à lógica da previsibilidade matemática, rigorosamente exata, em que saberiam gerar filhos vitoriosos, física e mentalmente saudáveis, os únicos admissíveis, aceitáveis, aptos a conduzir o império japonês a um novo ciclo de conquistas e glórias.

Desde sempre, os cientistas japoneses consideraram o pleito de todo realizável, porque a partenogênese existe em profusão na natureza. Ocorre nas abelhas e formigas, que conseguem procriar por esse método solitário, sem que haja a necessidade da presença dos dois sexos para a fecundação do óvulo. Não por acaso, uma abelha rompendo o sol nascente era o símbolo da seita nacionalista, escolhida, dentre outras razões, pela impecável organização, estruturação hierárquica militar, e capacidade de reprodução pela partenogênese.  

Mas, se a partenogênese ocorre com extrema naturalidade no meio ambiente, nos mamíferos jamais ocorrera. Caso conseguissem emplacar o método em seres humanos, como intentavam, estariam os cientistas asiáticos revolucionando a biologia reprodutiva.

Se para todo o mundo científico a tentativa soava uma aventura ficcionista e lunática, para a seita, revolucionar a Ciência com a comprovação da pesquisa em fase conclusiva, era questão de dias, semanas quando muito. Para chegar a esse estágio, muito contribuiu o fato de terem substituído, nos laboratórios, camundongos, lagartos e chipanzés por crianças e mulheres chinesas capturadas quando da guerra entre a China e o Japão.

De 1 milhão de crianças chinesas sacrificadas, quase a totalidade ocorreu por terem nascidas defeituosas, com todo o tipo de distorções: algumas com cinco olhos, outras com várias cabeças, muitas sem tronco, só com braços, pernas e cabeça.  Houve um grupo de crianças que nasceram com treze pernas. Num outro “lote”, originaram crianças com a cabeça cujo diâmetro media 1,05 metro. Certa vez se debruçaram sobre uma encomenda do Comando Supremo do Exército Imperial Japonês. Produziram 87 exemplares de uma espécie destinada a ocupar o lugar dos kamikases nos aviões-bomba, destinados a atingir alvos inimigos. A espécie era um mutante constituído unicamente de uma minúscula cabeça, do tamanho de uma laranja – seu cérebro só comportava as instruções para a missão militar – e dois fortes braços para segurar o manche do avião, de modo a dirigí-lo com segurança em direção ao alvo determinado.

A eclosão da 2a. Guerra Mundial obrigou os cientistas da Shindo Renmei a redirecionar os experimentos para a indústria armamentista, deixando em segundo plano as pesquisas genéticas, o que comprometeu sobremaneira o cumprimento das metas estabelecidas para área.

Mas o golpe quase de misericórdia ocorreu quando os paises do Eixo amargaram a derrota militar. Humilhados e derrotados, os cientistas tiveram que se haver por conta própria, sem a proteção do Império e de sua rede de apoio e financiamento.

Sozinhos, largados no mundo, caçados pelo serviço de inteligência militar dos EEUU e URSS, passaram a vagar, disfarçados, pelo mundo. Os que caiam, capturados, eram de imediato integrados à elite dos cientistas dos países que, agora, se constituíam nas novas superpotências hegemônicas. Seus crimes foram ignorados e passaram a gozar de todo tipo de privilégios como nova cidadania, altos salários e posição social.  O único preço cobrado foi que se dedicassem ao máximo – e com exclusividade - para levarem suas novas pátrias ao ápice das inovações científicas e tecnológicas, e naturalmente, renegassem por completo a antiga nacionalidade japonesa.

Os cientistas que conseguiram se refugiar no Brasil imaginaram que a distância dos grandes centros os manteriam protegidos, possibilitando que retomassem as pesquisas genéticas, por tanto tempo obstaculizadas. Era vital que assim fosse. Dar prosseguimento às pesquisas significava resgatar da humilhação o heróico povo japonês.

Mas novamente a descoberta das atividades secretas da Liga do Caminho dos Súditos os colocaram na mira da polícia. Mais: quando se certificaram que o imperador havia mesmo capitulado, assinando uma rendição que consideraram humilhante, intitularam como traidores da pátria Hiroito e todos os generais japoneses. Envergonhados, abriram mão da cidadania japonesa, resolvendo constituir uma nova nacionalidade, uma nova raça, a partir do marco zero, baseada no que de melhor havia na raça japonesa, com o que de interessante conseguissem encontrar nas demais raças, incluída aí a brasileira.

Por isso a pressa em dar continuidade às pesquisas. A meta agora era constituir, a partir das 50 famílias originárias, uma nova raça que, em curto prazo, dominaria Goiás, o Brasil, a América Latina e depois o mundo.

Nos rincões do Nordeste goiano, protegidos pelas muralhas naturais das serras escarpadas, abrigados pelo mais completo e solitário isolamento, iniciaram a conquista da nova missão.

Do japonês extrairiam o cérebro, a inteligência e suas tradições culturais milenares. Não havia no mundo uma nacionalidade com cultura tão rica e singular, caracteristicamente disciplinada, componente fundamental na nova raça que deveria conquistar o mundo. A tão próxima presença dos quilombolas nos arredores era, por demais, providencial. Os negros guardavam ainda as nobres características dos africanos de 1.500. Braços longos e fortes, pernas rígidas, corpo musculoso, esguio e bem torneado, além de resistente, devido aos séculos de trabalho escravo e condições adversas. Não sabiam ainda o que extrair dos brasileiros brancos, raça que consideravam servil, raquítica e subnutrida.

Como o objetivo primordial era gerar a raça superior, acabaram se contentando em extrair dos brasileiros tão somente a característica espacial, ou seja: o simples fato das pesquisas estarem se realizando no Brasil já era de todo suficiente para contemplar a nacionalidade brasileira. Consideram-se, com este arranjo, devidamente protegidos, convencidos de que o novo homem não emergiria maculado, eivado de vícios e defeitos.

Não demorou e o século inteiro de suor e esforços no campo das ciências, pura e aplicada, resultou em retumbante êxito. Os cientistas conseguiram equacionar os problemas até então insolúveis, e todos foram chamados a conhecerem os 100 primeiros bebês originados pela partenogênese. A maior dentre todas as realizações humanas.

Em êxtase, nenhum dos presentes conseguiu conter as lágrimas. Estavam diante da nova era. Testemunhavam o novo mundo que se descortinava e, orgulhosos, perceberam-se Deus, eis que desvendaram os mistérios da criação.

Ali estavam 100 bebês absolutamente lindos, inteligentes e saudáveis. Beleza inigualável; resistência física que os imunizavam contra todas as doenças, inclusive câncer e Aids; e inteligência descomunal, só possível de ser alcançada pelos demais humanos por volta de 3005. Em homenagem aos antepassados, a safra de bebês sobrenaturais, a safra de super-homens, foi denominada tokkotai.

No momento em que a descoberta foi anunciada, os membros das famílias japonesas que em 45 migraram para Goiás, estavam todos velhos, muitos morrendo. E a velhice – como que a anunciar a morte iminente - é senhora da razão, de modo que os princípios primeiros, que os levaram a se esconder qual escravos, foram mudando com o tempo.

O tanger dos anos, além das marcas indeléveis que empresta à vida, costuma distribuir também equilíbrio e generosidade. O radicalismo nacionalista, a ideologia imperialista, a arrogância autoritária, tudo isso foi, paulatinamente, carcomido pelo tempo. Continuavam sonhando em dominar o mundo, mas agora, para disseminar outros princípios: ética, democracia e justiça social.

Apesar de isolados, os raros e fugazes contatos havidos com os goianos do Nordeste do Estado os fizeram conhecer uma atroz realidade. Descobriram a capacidade da miséria e da injustiça social dar conformação a uma sub-raça de humanos, uma sub-raça de viventes, uma sub-espécie de gente tão sofrida que as características  humanas já lhes escapavam. Paulatinamente, os japoneses foram percebendo que todo o Brasil estava mergulhado num injusto sistema em que ao povo restava o papel de boiada a ser tangida, massa ignara a ser manobrada.

Em todos os milênios jamais haviam se deparado com algo parecido. A descomunal riqueza produzida pela nação, estupidamente apropriada por escassas ratazanas, uma elite cruel e sem caráter.  

Reprogramaram, então, as metas, e o grande objetivo passou a ser buscar – a todo custo – o desenvolvimento equilibrado entre o homem e a natureza.

Imediatamente, os 100 bebês foram encaminhados para todas as partes do País. Em 25 anos estariam dominando as mais relevantes esferas do poder político brasileiro, Executivo, Legislativo e Judiciário.

Nesse ínterim, estaria sendo despachada a segunda remessa – agora de 300 bebês – para todos os países do mundo, de modo a se repetir o ciclo justiceiro no Planeta.

Quando, porém, a primeira safra dos bebes da nova era atingiu a idade adulta e já gerenciava, com inusitada desenvoltura, os altos cargos da república, Tokuiti Eiit Sakane, o ultimo remanescente vivo das 50 famílias que haviam migrado para Goiás, chorava copiosamente.

Alguma coisa na experiência - não conseguia identificar o problema - saíra errado. Os homens criados para construir a nova história adquiriram no percurso um vício horrendo, terrífico, que destruía irremediavelmente, qual chaga invasiva, o plano do novo mundo. Todos, invariavelmente todos, enveredaram para a corrupção, o clientelismo e o jogo de interesses.

Conquistado o Poder, envolveram-se em negociatas, chantagens, conspirações, desvio de recursos públicos, jogatina e prostituição. Chegaram a criar bancos oficiais, federal e estaduais, cuja principal função era promover jogos, surrupiando do povo os parcos trocados que mal pagavam o pão amanhecido.

Os tokkotai - batalhão em sua segunda versão criado para redimir o mundo - como que resgatando as origens históricas, dos idos de 45, transmutaram-se em paladinos da injustiça, em matadores, jagunços de fraque, cartola, Harlley Davidsons e iates luxuosos. Atuavam com tal desenvoltura que passaram a ter ascendência sobre os demais cidadãos, sobre os que levavam suas vidas de maneira justa e honesta. Era como se conseguissem hipnotizar a todos, conseguindo, inclusive, desvirtuar o pensamento, o ideário e a ação política de religiosos, lideranças e políticos corretos.

Por mais que esforçasse, escapava à compreensão do povo simples e humilde, o fato de políticos sérios, quando eleitos, passassem a defender tudo o que, por toda a vida, haviam combatido. Esses políticos passavam a considerar aliados e correligionários, uma marginalia de senhores que, até bom pouco tempo, repugnavam como o que de pior pudesse existir na sociedade. As instituições financeiras internacionais, que antes responsabilizavam pela fome endêmica do povo, agora eram tidas como parceiras privilegiadas, idolatradas, a quem generosamente, entregavam as riquezas do País na forma de juros escorchantes, num volume jamais visto em toda a história da humanidade.

Sakane, antes de se recolher, tivera o cuidado de conversar, por horas a fio, com Toshiko Shinai, a única dentre todos os super-seres que permitiria sobreviver. Estava já mulher formosa, estonteantemente bela, pele morena, cabelos longos ondulados. Detalhou os sonhos primeiros da colônia, os problemas havidos na travessia, detendo-se sobre a missão que a única sobrevivente da nova raça deveria perseguir. Vagaria como um ronin, um samurai sem senhor, à caça de cada um dos 99 tokkotai encastelados nas instituições da República. Deveria matar todos, livrando os brasileiros da fonte da corrupção e do entreguismo.

Após tudo acertado, liberou-a para a missão solitária. Pode vê-la ainda de relance, como um bólido, saindo em direção a Brasília, onde iniciaria o justiçamento.

Tokuiti Sakane não conseguiu dormir. Resoluto, atravessou o silêncio denso da madrugada esquadrinhando a névoa seca e fria. Ativou, em cada um dos 27 laboratórios, uma bomba sub-atômica. Repetiu o procedimento em todas as casas, alojamentos e instituições edificadas pela colônia japonesa. Quando o sol anunciava desvirginar o que restava da noite, programou o mecanismo para que tudo explodisse no minuto seguinte. Era preciso destruir tudo. O povo brasileiro levaria muitos anos para se livrar dos tokkotai infiltrados em todas as instituições do País. Urgia não perpetuar o mal. Era imperativo estancá-lo.   

Enquanto contava o correr do minuto fatal, Tokuiti, passava a vida. Em fração de minuto relembrou a infância, o casamento, os sete filhos, as guerras contra a China e contra os aliados, a tortura no DOPS de São Paulo, a fuga para Goiás, a esperança de um Japão imperialista e invencível, substituído pelo sonho de um Brasil melhor e um mundo mais justo para todos, as lideranças políticas brasileiras hipnotizadas pelos tokkotai...                          

Antes que a explosão eclodisse, levou o revolver à cabeça e desferiu o tiro fatal. Ainda se lembrou de, em pensamento, implorar desculpas aos brasileiros, povo que generosamente assentira em lhes dar guarida.  Como num capricho da natureza, as rajadas de sangue que, com o tiro, escaparam atingindo a parede branca do quarto, ali desenharam a figura de um vigoroso sol nascente, como a querer iluminar as trevas que historicamente tornavam os dias em noites..


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POR EM 24/11/2008 ÀS 11:17 AM

Na esquina, perto do fim do mundo

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O chefe sabe das coisas. O chefe sabe de todas as coisas. Sabe da guerra e da arte de guerrear; sabe matar sem usar arma nenhuma e até mesmo como aniquilar o inimigo com armas que não matam e que, pior que a morte, trazem o medo e o horror

Eu sou Agramunt. Posso pecar por arrogância, nunca por timidez ou modéstia: escolhi o meu nome, determinei a vida que levo. Na escolha do nome hesitei entre este de que me orgulho e Almedíxer. Recolhi os dois em um romance de cavalaria, Tirant lo Blanc, sobre o qual, no Quixote, diz o cura ao barbeiro “este é o melhor livro do mundo” e que, como toda obra clássica, recebe mais citações que leitura.

Da vida não me arrependo, eu a dediquei a uma causa. Os meus detratores falam em fanatismo, quando não em loucura; esquecem-se de que são como eu e que lutam por causas deploráveis. Ficaria envergonhado se gastasse a minha vida em busca de dinheiro, ambição que reprovo. Abomino também os que lutam pelas glórias do poder temporal. A minha vida pertence à Organização; não me cansarei de defendê-la e de admirar aquele que a dirige com inquestionável saber. Inúteis seriam minhas palavras se não servissem para dignificar o chefe.

O chefe sabe das coisas. O chefe sabe de todas as coisas. Sabe da guerra e da arte de guerrear; sabe matar sem usar arma nenhuma e até mesmo como aniquilar o inimigo com armas que não matam e que, pior que a morte, trazem o medo e o horror.

Ele já viveu milênios e muitos outros milênios viverá. Não o assombraram as máscaras de pavor dos inimigos que viram a morte rasgar o espaço cavalgando o fio de sua espada. Não o assustaram bravatas como as dos que, de forma insultuosa e covarde, se insurgiram, em indefinido tempo, contra o seu poder. Estes já não contam entre os vivos; que de alguma divindade menor possam receber piedade.

O chefe distribui paz aos seus e guerra a todos os contrários. Em um passado que não determino, esteve entre os que queimaram aldeias na Ásia Menor, secundando o Macedônio. Foi o único sobrevivente do massacre que as hordas de um Clã impuseram ao seu pequeno país, destruídos os templos, as bibliotecas, os palácios, os moinhos de papel.

Sobre as cinzas de uma praça arrasada, clamou aos seus antepassados e jurou justiça. O chefe é justo, seus atos são equânimes — a razão e a lógica ocultam seus sentimentos e foram poucos os que o julgaram transtornado ou vingativo. Que sobre suas indignas almas se derrame o perdão.

Ele sabe falar uma língua arcaica e tecnicamente morta, desconhecida dos mais ilustrados filólogos, semiólogos e lingüistas. Interpõe vogais longas e sonoras a consoantes labiais suaves e a sua fala soa como poesia. Daí testemunharem que o chefe sabe do amor.

Dessa língua não se conhece a escrita, não que o chefe seja iliterato ou rude, mas não tendo outra pessoa que a possa ler, escrevê-la é desnecessário. Ele a utiliza em pequenas orações cantadas em voz baixa e em longas pregações políticas dirigidas ao seu estado-maior. Apenas um, entre tantos chegados, consegue entendê-la sem, contudo, se atrever a nela pronunciar sequer o nome de um deus. O Shift (é esse o nome da estranha língua) só é falado pelo chefe e, por curial hierarquia, traduzido pelo subchefe do estado-maior. Assim, o chefe pode ser compreendido pelos outros subcomandantes da Organização.

Em tempos, cogitou-se traduzi-lo ao latim, descartado pelo próprio chefe por sua difícil compreensão a eslavos e asiáticos, e depois ao grego clássico, excluído pela utilização exígua das vogais e pelo receio de que ele se emocionasse ante citações de Homero. Sim, o chefe é humano, mas suas emoções são mantidas in pectore; dele nunca se viu uma lágrima, nem que derramada sobre um improvável poema de Sjögren.

Ele me nomeou o seu escriba. Decerto não foi pelo reconhecimento de minhas eventuais habilidades literárias, por desconhecer minha letra quase ilegível ou julgar-me dotado de inteligência singular. Conquistaram-me esta honra meus precários conhecimentos acerca do PageMaker 6.5, um programa de editoração eletrônica complexo e já ultrapassado, nestes tempos de cibernética obsolescência.

Determinou que eu contasse a sua vida e, ante o meu espanto em me ver forçado a tentar descrever a eternidade, assegurou-me ficar satisfeito com o razoável: eu deveria relatar em livro a história da Organização e preparar o meu sucessor, que Organização e chefe sobreviveriam aos finitos dias que me pudessem restar.

Sugeriu que eu o fizesse em inglês, para que facilmente esse relato se espalhasse ao mundo; contrapus o português, pelo seu caráter quase criptográfico, argüindo a sua exatidão para o raciocínio. Exemplifiquei com Baruch Spinoza, holandês que escreveu em latim, mas pensando em português, toda a sua obra filosófica. Deu-me crédito e aquiescência quando afirmei que Spinoza escrevera sobre Deus e que, optando pelo português ao inglês, eu escreveria ao invés de iria estar escrevendo sobre a sua vida. Depois, ele poderia traduzir ao Shift ou então, com a sua anuência, seria criado o novo idioma universal.

Para confirmar nosso pacto ele disse... riverrun, tuvive ismui peligerous... que eu, riobaldamente, traduzi para... viver é muito perigoso... percebendo que o chefe era sabedor do esforço que alguns acadêmicos tupiniquins têm feito, para demonstrar que o rio que nasce nas escarpas de Joyce vem, por parabólicos vieses, desaguar no Mare Nostrum Rosianum destes triestes tropicões.

Todavia, não foi essa a interpretação do subchefe do estado-maior que entendeu que o chefe, após arrotar de tédio, reclamara que são demais os perigos desta vida e, pronto, convocou a cimeira de sábios e radicais para que fossem estabelecidas as novas normas de segurança pessoal do chefe e da Organização.

A bem da verdade, devo dizer que o chefe era um homem alto e forte, de tez acobreada, malares salientes, barba rala e amarelada e olhos de cor indefinida, caracteres que não permitiam, nem a observador atento, determinar com exatidão a sua origem. Poderia ser mongol ou ameríndio, berbere ou inuíte; provavelmente não era ariano.

O seu rosto lembrava os rostos dos vencedores e os dos vencidos; o chefe era a própria representação da Humanidade. Os cabelos, que nunca pude ver, estavam sepultados no mistério de um gorro de couro sem tintura; um bigode maltratado tentava encobrir a boca rasgada, de onde a língua, nos raros instantes de veemência, saía de entre os caninos a espargir saliva pelo espaço que deveria abrigar os incisivos superiores. Inexistem relatos confiáveis sobre as causas dessa anodontia.

Um antigo subchefe do estado-maior, caído em desgraça, ousou sugerir um implante ou uma prótese. Antes de sua execução por fuzilamento, o chefe explicou-lhe, com paciência, que aquele era o rosto da Organização, a logomarca da coragem e do destemor, a eternização da sua imagem como símbolo, o arremedo da máscara cabúqui de um samurai aterrador.

Completava a figura espectral uma longa túnica de lã escura, não deixando entrever parte alguma de seu corpo, exceto as mãos, de um branco violáceo, longos dedos de pianista, unhas tratadas de crupiê. Um anel de ferro com sinete cobria a falange proximal do anular direito e nenhuma cicatriz lembrava que aquelas eram as mãos de um guerreiro. Por baixo da túnica, a instantes, viam-se as pontas de grosseiros coturnos com biqueiras de metal.

A sua coragem era proverbial, do que dava testemunho a sua ousadia em afrontar leis e nações que ele dizia ilegítimas. Escarnecia de potências forjadas a sangue de inocentes e mantidas pela opressão de miseráveis; desconhecia fronteiras, abominava crenças e, em todo o orbe, apoiava qualquer insurgência que contrariasse poderes espuriamente estabelecidos.

Acreditava que a paz dos vencedores, a pax romana, era necessária, desde que a Organização a promovesse e a mantivesse sob seu comando e inspiração. Destarte, colecionava inimigos; a sua vida, para a Organização tão preciosa, era agora a preocupação do estado-maior que, reunido enquanto o chefe sesteava, tomou sábias decisões que a preservariam para a glória de pósteros e coevos.

Como primeira precaução, proibiu-se o Shift. Sendo o chefe o único que o falava, uma simples imprecação neste idioma poderia significar sentença de morte a quem a proferisse.

Tentei argüir uma nulidade conceitual, já que os inimigos desconheciam tão secreta língua. Cassaram-me a palavra, lembrando-me que eu não era membro do estado-maior, mas apenas o escrevente regulamentado; eram dispensadas as opiniões dos que desconheciam os meandros da Organização e as artes da guerra. Foi decidido que o chefe guardasse o Shift para suas quase silenciosas orações e para seus monólogos interiores, que a língua oficial seria o inglês, com sotaque oxfordiano ou do Harlem, pouco importando.

Diante da impossibilidade concreta de se ocultar o chefe — a sua presença era necessária à propaganda e ocultá-lo seria desestimulante aos propósitos da Organização —, cuidou-se de empreender manobra diversionista que confundisse o inimigo e preservasse a integridade e a sobrevivência do chefe. Procurariam um sósia, que seria exposto em situações de risco.

Tal figura deveria concentrar em si todas as competências e habilidades do chefe além de, fisionomicamente, ser dele indistinguível, pelo menos num primeiro olhar. Deveria ser capaz de pilotar um jato de combate, qualquer que fosse o seu fabricante, e realizar manobras radicais com helicópteros Bell, Sikorsky ou Agusta. Deveria reconhecer e montar-desmontar de olhos fechados um fuzil AR-15 ou um Kalashnikov e ter a pontaria de um campeão olímpico. Também saber manejar a espada, não importando quando, ou com que aço, teria ela sido forjada.

O sósia deveria ser capaz de discorrer sobre Filosofia, Lógica, Economia, Psicanálise e Futebol em qualquer academia que o quisesse confrontar. As diversas seccionais da Organização foram instadas a encontrar o candidato perfeito.

De todas as partes do mundo começaram a chegar os pretendentes a exercer tão nobre ofício; causava espanto como eram entre si tão diferentes e quão pouco se pareciam com o chefe. Corroborava esta diversidade, segundo analistas do estado-maior, a dificuldade que certos gerentes de seccionais tinham em definir a figura do chefe, há muito esquecida ou confundida nos escaninhos de suas já desgastadas memórias.

Assim ninguém se assustou com a chegada daquela malta multifária e heterogênea, na qual se misturavam velhos, jovens, calvos, hirsutos, longi- e brevilíneos, caucasianos, sascatcheuanos, txucarramães e botocudos. O estado-maior reuniu-se e indicou um, o eleito, que, após passar por um período de adaptação, foi entregue ao conselho de sábios e depois ao de guerreiros, que o deveriam preparar.

Pessoalmente, não pude vê-lo antes de seu treinamento e caracterização e, quando pela primeira vez compareci a uma reunião presidida por ele e não pelo verdadeiro chefe, confesso que, se não tivesse sido avisado desta possibilidade com antecedência, poderia jurar que era o chefe quem estava lá. Jubiloso, anotei esta observação e a submeti ao subchefe do estado-maior que a repassou, com um sorriso, ao que seria o chefe. Ele retribuiu a cortesia e, ao sorrir, mostrou incisivos superiores perfeitos.

Percebi, com espanto, que haviam se esquecido desse detalhe; levei o indicador aos meus dentes e o subchefe, com evidente satisfação, comunicou ao estado-maior que um especialista em exodontia já estava autorizado a proceder a exérese dos incisivos superiores, completando a transfiguração.

Os problemas começaram no conselho de sábios. Concluíram que seria impossível, em breve tempo, infundir os conhecimentos para que o clone (assim o apelidou um sábio que dominava rudimentos de genética e biologia molecular) se ombreasse ao chefe em competências.

Também os guerreiros argumentaram que, face à velocidade com que nova tecnologia é agregada à arte de matar, seria impossível a um só homem adquirir tão alentado elenco de habilidades guerreiras, excetuado o chefe, que sabia das coisas.

Outra reunião foi realizada, enquanto chefe e clone faziam a sesta, sob o comando do subchefe do estado-maior que propôs uma pauta restrita, na qual se examinaria apenas a possibilidade de serem preparados outros sósias, abreviando sobremaneira a implantação das novas normas de segurança.

Da intenção ao gesto, o mínimo descompasso. Um número indefinido, até porque secreto, de novos sósias foi incorporado ao staff da segurança, alguns escolhidos por qualidades já adquiridas, outros apenas pela capacidade teatral de imitar o chefe e seus trejeitos, definitivamente descartada a semelhança física como requisito. Pronto estariam aptos a cumprir a gloriosa tarefa de substituir o chefe nos momentos de perigo e, suprema glória, morrer em seu lugar.

Algumas seccionais, cujos candidatos haviam sido preteridos, exerceram pressão diplomática para que também fossem consideradas e pretenderam impor outros aspirantes a clone, para que fosse assegurada a cada uma a sua importância política dentro da Organização.

Com o propósito de evitar o caos, o subchefe, ad referendum do estado-maior e com o velado consentimento do chefe (ou de seu clone, percebi depois), criou uma Academia de Transfiguração, a cochichos apelidada de Laboratório de Clonagem, redigiu seus estatutos, definiu normas pedagógicas e diretrizes curriculares e nomeou uma comissão diretiva encarregada de sua gerência e operacionalização.

As providências foram executadas com presteza e, a partir dessa época, as reuniões ordinárias passaram a contar sempre com um clone no lugar do chefe, de quem não se tinha mais notícias, a não ser as informações prestadas pelo subchefe que a cada dia se tornava mais poderoso, convocando e presidindo reuniões e mantendo o chefe, ou aquele que o representava, em um nicho um pouco afastado da mesa principal, envolto em penumbra, para que dele não se distinguisse o semblante ou o olhar.

Construí meu próprio patíbulo em uma dessas reuniões quando o “chefe” me chamou e pediu, em surdina, que eu não esquecesse de incluir em meus relatos a elegância de sua nova túnica, enfatizando talhe e caimento, além de mencionar a delicadeza do tecido, detalhes da trama e da urdidura e até os fios de prata dispostos em risca de giz.

Ao subchefe, reservadamente, fiz ver que eu não poderia escrever uma crônica de futilidades, uma história sobre o mundanismo, que Organização e chefe... “o verdadeiro, onde andaria?”... “recolhido em retiro espiritual, de onde em breve retornará com toda a sua força e poder para nos guiar à vitória final que se vislumbra”... foi a resposta, e eu completei... Organização e chefe eram determinantes sintagmáticos, complementares e necessários, e que o livro que eu me havia proposto escrever deveria ser verdadeiro, áspero e contundente, para que não restassem dúvidas sobre o seu valor e que ninguém soubesse dizer se ele era um atributo do chefe ou da Organização, ou se cada um deles era do livro apenas uma revelação ou um avatar.

O subchefe sugeriu que eu guardasse segredo destas observações assaz pertinentes (ele colecionava lugares-comuns), e que ficasse em silêncio obsequioso até ulterior deliberação, permanecendo recluso em meus aposentos sem nada mais escrever.

Alguns dias depois, procuraram-me o subchefe e dois clones já desdentados, que me transmitiram a decisão soberana do estado-maior: o meu trabalho de redator estava temporariamente suspenso e que eu seria, a partir desta data, o responsável pelos papéis da Organização. Lamentavam que eu tivesse de ser transferido para uma instalação de segurança máxima, e sentiriam a falta de minhas prudentes e tempestivas observações.

Achei que seria promovido de escrevente a notário e que teria sob a minha guarda, além da história, a memória da Organização. Quando me levaram ao meu novo local de trabalho, percebi que eu seria apenas o novo atendente do setor de suprimentos para escritório do Almoxarifado Central.

Não sei quanto tempo faz que estou aqui dentro, envolvido com o trabalho de embalar resmas, contar lápis e borrachas e escrever, corrigir, reescrever estas anotações que chamo de minhas singelas e ridículas memórias.

As coisas não vão bem e o chefe deveria saber. O almoxarifado entrou em decadência, os pedidos e as entregas de suprimentos rarearam, mas acho que é uma situação transitória, a Organização é poderosa, indestrutível, e persistirá com outro nome, em outro lugar, sempre com o chefe em seu comando, sobrevivendo a investidas de subchefes corruptos e usurpadores, mantendo seus prodigiosos sábios e suas legiões de guerreiros.

A Organização não morreu e nunca morrerá; ela continuará viva nos clones do chefe, que agora são muitos e andam soltos pelas ruas, como posso ver todos os dias na esquina em frente à minha janela, esta minúscula escotilha com grades de ferro, acanhado mirante de onde tento observar um pedaço do mundo.

Eles chegam maltrapilhos, sujos, barbudos e despenteados, a sorrir o seu sorriso desdentado, encostando as mãos em súplica nos vidros fechados dos automóveis que param no sinal.

Eu sei que algum dia também serei um deles, um clone do poderoso chefe. Eu só não queria que me arrancassem os dentes.

 

GIL PERINI é escritor, autor de O Pequeno Livro do Cerrado (Ateliê Editorial).


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