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POR EM 01/12/2008 ÀS 05:16 PM

Flagelados da chuva

publicado em

Chovia. Chovia. Como chovia! Como se a chuva quisesse apagar a memória de um clima ameno, quando era possível viver confortavelmente naquele recanto de vale. Agora o rio era mar, a rua era rio e a enxurrada derrubava tudo feito horda de bárbaros enfurecidos. Estávamos num dilúvio sem arca.

Em suspenso, como se amparando apenas nos mútuos apoios, a gente se acotovelava sobre os móveis mais altos, dentro da casa, dentro do mundo, fora da proteção civil, clamando pelos céus. E chovia, como se a chuva agora fosse o dom natural do tempo.

Pela fresta da janela vi quando veio uma onda, desgarrada do cimo da serra em busca do Vale do Rio Itajaí. Nossa casa, pobre casa! – não haveria de resistir àquela vergasta. Num berro de alerta mobilizei minhas forças e minha família. Num átimo saltamos dentro da chuva rumo a um local mais seguro. Antes que alcançássemos o morrote ali nas cercanias, a onda nos pegou. Nossa casa desceu moída.

Fomos arrastados pelo turbilhão. O rugir das águas sujas se misturava aos nossos gritos desesperados. Fomos ancorados por uma pedra abaixo. Minha mãe já não requeria cuidados: estava morta. Meus filhos estavam escoriados, mas alertas e prontos para se defenderem, até a cima dos limites de suas forças. Minha mulher, coitada, grávida de oito meses, parece que teve antecipadas as dores do parto.

Deixando minha mãe para trás, começamos a empreender nova caminhada rumo à área menos vulnerável. Demos apenas alguns passos transversais, – passos difíceis, atolados, escorregadios.  Foi quando vi que nova onda descia em nossa direção. Meu coração desabalou, mas não era possível imprimir maior velocidade em nossa fuga.

A onda agora era mais densa, quase um barro é que era. Como um azorrague, ela nos bateu sem piedade. Gritei por Deus. Minha mão escapou da mão de minha mulher. Minha mulher, com nosso filho dentro e nosso casal de filhos de fora, foram arrastados como se fossem detritos na fúria das ladeiras. Surfei a onda de barro como um surfista improvisado. A onda amainou-se muitos metros abaixo.

Pude perceber que minha família ainda se debatia e lutava pela vida, tentando erguer-se do visgo da terra. Comecei a cavar com as unhas, com as forças do desespero. Cheguei até descobrir o rostinho de minha filha, que deu um grito de sinal de vida.

Aí, sem que eu visse, é que veio a terceira onda. O arremate da tragédia. Um carregamento de terra que desamarrou-se da encosta e veio deslizando furiosamente, recobrindo tudo o que as ondas anteriores haviam colocado por terra.

Minha família ficou soterrada. Eu, como estava mais na superfície, fui empurrado aos trambolhões. E não vi mais nada. Só vi quando já estava aqui neste quarto de hospital. Dizem que, por um milagre, fui salvo por um bombeiro.  

Eu só sei que tinha planos, eu tinha sonhos para meus filhos e minha mulher amada, o amor da minha vida. A gente já havia comprado roupinhas para o filho que ia nascer. Escolhido o nome. Ia ter o nome do avô. Agora nem sei...    


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POR EM 01/12/2008 ÀS 05:12 PM

Incompletude, agora completa

publicado em

(...continuando)

Kurt Gödel participava das reuniões do Círculo de Viena mas decididamente não compartilhava com a maior parte das idéias positivistas ali discutidas. Wittgenstein era influente em tal Círculo, apesar de não aparecer por lá e, quando aparecia, não dava a mínima atenção ao que os outros falavam, preferindo ler, de frente pra parede e em voz alta, o poeta indiano Tagore (“a flecha durante o vôo grita: ‘sou livre, livre..’. Ledo engano, seu destino está traçado pela pontaria do arqueiro.”).

Rebeca Goldstein em seu “Incompletude: a prova e o paradoxo de Kurt Gödel” (Cia. das Letras 242p.) mostra que os dois cérebros não poderiam ser mais díspares. Wittgenstein era o ator do grande drama do gênio: cheio de tiques e manias, como bater na testa para despertar um insight filosófico, e sempre transpassando seu padrão de busca da verdade absoluta para o cotidiano. Por exemplo, ao visitar uma amiga que sofrera a retirada das amígdalas e lhe dissera que estava se sentindo um cachorro atropelado, ele respondera: “Você não sabe como se sente um cão que foi atropelado”.  Como se percebe, Wittgenstein precisava ler muito mais poesia.

No quesito comportamento, Gödel ficava no outro canto da sala de Viena: ele simplesmente nunca falava nada no Círculo, preferindo menear com a cabeça suas discordâncias, concordâncias ou desconfianças. Além disso, no final da vida deixou claro que suas maiores influências tinham sido Gomperz e Furtwängler, e que o Círculo e Wittgenstein não o influenciaram em nada. Mas não se sabe ao certo se há um pouquinho de ressentimento nesta afirmação pois Wittgenstein, na análise de outros matemáticos, não entendeu e por isto deu de ombros aos teoremas de Gödel. Para alguns, o conhecimento de lógica matemática de Wittgenstein não valia um vintém, “pois sabia muito pouco à respeito e o que sabia estava confinado à linha de produtos de G.Frege-B. Russell” Mas afinal, o que Gödel disse em seu teorema da incompletude?

A matemática é, desde Platão, uma área certa e inatacável (“a mais rigorosa de todas as disciplinas”), cujo conhecimento pode ser comprovado. Mas de onde vem a fonte desta certeza matemática? Na verdade, as provas partem de conclusões de outras provas e, a partir delas, deduzem conclusões adicionais. Tudo isto vale para um determinado sistema axiomático (axiomas são as verdades básicas do sistema, intuitivamente óbvios que não precisam de provas), e seus teoremas resultantes da aplicação de regras de inferência.

Há então a necessidade de eliminar a intuição que pode ser ardilosa e nos levar a maus caminhos, mostrando que às vezes o axioma pode ser refutado. O surgimento da geometria não–euclideana (sim, isto existe...) é um dos melhores exemplos disto, e que levou um de seus descobridores, J. Bolyai (1802-1860) a dizer: “...do Nada criei um estranho mundo novo”.

Os sistemas axiomáticos visam proporcionar um padrão máximo de certeza com regras claras a ponto de serem mecânicas e computáveis. A isto dá-se o nome de formalização, isto é, eliminando as intuições, os sistemas formais seriam completamente adequados à prática da matemática, como a um jogo de xadrez, sujeito a determinadas regras que constituem em si, toda a sua própria verdade. Este formalismo já havia sido declarado no manifesto dos positivistas: “O homem é a medida de todas as coisas...criamos nossos sistemas formais e a matemática inteira decorre deles”.

Aí veio o revolucionário “kuhniano” Gödel com seu primeiro teorema da incompletude: “se um sistema formal S da aritmética é consistente, então é possível construir uma proposição que chamaremos de G, verdadeira mas não comprovável naquele sistema. Assim, se S é consistente, G é verdadeira e não dedutível. Trivialmente, se S é consistente, então G é verdadeira.” (Goldstein, p. 137). Isto ajudou Gödel em seu segundo teorema da incompletude: é impossível provar formalmente a consistência de um sistema de aritmética dentro daquele sistema de aritmética.

O formalismo tinha virado um castelo de cartas, seu maior defensor e organizador,o grande matemático Hilbert, ficou enfurecido com a prova de Gödel de que existem proposições aritméticas verdadeiras e que não são comprováveis. Mas Hilbert sabia, mais que ninguém que uma prova, é uma prova, é uma prova....

Além de estar na fronteira do conhecido com o desconhecido, os teoremas de Gödel quase alcançavam a auto-contradição. Para entender melhor, vejamos o paradoxo do mentiroso: o cretense Epimênides disse: “Todos os cretenses são mentirosos”. Dá pra acreditar nele? E que tal: “Esta própria sentença é falsa”. Ela só é verdadeira se e somente se for falsa. Para Gödel isto se tornara em algo como: “Esta própria sentença, apesar de verdadeira, não é dedutível dentro deste sistema”. Portanto, o sistema formal é inconsistente ou incompleto.

A prova matemática de Gödel para este teorema já foi mais de uma vez comparada a literatura de Franz Kafka, ou mesmo ao universo de Alice no País das Maravilhas onde os próprios significados se transformam, mas no entanto, tudo segue a mais rigorosa lógica “kafkiana”: o indivíduo transforma-se numa barata, mas o mundo de sua família continua o mesmo.

É incrível que apesar de dizer que “passava por cima da prova de Gödel..” Wittgenstein, na interpretação de Goldstein, também tinha sua própria prova da incompletude, quando afirmava em seu confuso “Tractatus” que os sistemas lingüísticos não conseguiriam exaurir toda a realidade não matemática: “Existem, de fato, coisas que não podem ser expressas em palavras. Elas se fazem manifestas. Elas são o que é místico”.

Não é à toa que Gödel, tinha como autor preferido Leibniz e, como ele, acreditava que alguma versão da prova ontológica da existência de Deus seria válida. Uma vez Gödel afirmou que só faltava-lhe um passo para tentar deduzir, da definição de Deus, a existência de Deus. Como a maioria de seus trabalhos esse também não foi publicado, mas é um tema interessante para um romance policial. Da mesma forma, seu trabalho sobre relatividade, que Einstein tinha especial apreço, e que mostrava que poderíamos viajar no tempo, é material farto para uma obra de ficção científica.


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POR EM 25/11/2008 ÀS 09:53 AM

A falência do racismo. E só

publicado em

A eleição de Barack Obama deve ser festejada, sim, mas apenas como ato simbólico de uma falência: o racismo. Não que ele tenha sumido, mas foi vencido, está em baixa. E só
 

Que desde já me perdoem todos os otimistas de todos os matizes, mas não entro mais nesta, de esperar as mudanças, de contar com as transformações que farão do planeta Terra um lugar menos irrespirável. Já vi esse filme, e até mais de uma vez. Nova-mente otimista, me consideraria apenas tolo.

Se você percebeu que estou falando da eleição de Barack Obama para o governo dos Estados Unidos, você é uma pessoa plugada, com sensibilidade bastante para se deixar penetrar pelo mundo e suas realidades. Acho que você vai entender meu ponto de vista.

Para que não haja desvios de interpretação, declaro desde já: não sou profeta, não quero ser profeta, não acredito em profecias. E nisso me saio melhor do que o padre Antônio Vieira, da Clavis Prophetarum, que se proclamava profeta. Não, se alguma coisa aprendi, e juro que aprendi muito pouco, foi na base da porrada, puro conhecimento empírico.

A eleição de Barack Obama deve ser festejada, sim, mas apenas como ato simbólico de uma falência: o racismo. Não que ele tenha sumido, mas foi vencido, está em baixa. E só. E não estou querendo dizer que nada vá mudar.

A política interna dos Estados Unidos muda a partir de janeiro. Haverá, de agora até o fim do mandato do presidente eleito, uma maior preocupação com a distribuição da renda, sobretudo no que diz respeito aos salários indiretos, como educação, saúde, seguridade social. E isso não é uma grande coisa? Claro que é, mas isso é o que mudaria com qualquer presidente do Partido Democrata. É sua diferença do Partido Republica-no. Aliás, diferença presente e bem clara em todos os discursos de campanha.

No mais, o vergalho continuará nas mãos do império até que ele deixe de o ser.

É muito fácil confundir governo com poder e imaginar que um presidente, por ter sido eleito, e por contar com o apoio da maioria da população, esteja investido de poder. Ele é pago para administrar, para fazer tudo para que a máquina funcione. Ora, os fal-cões não fugiram para as florestas. Estão lá, atentos, manobrando os executores de seus interesses. As companhias de petróleo, as grandes corporações econômico-financeiras, todos eles, se bem que meio machucados pelas besteiras que eles mesmos andaram fa-zendo, continuam com a mesma força que já detinham e não se creia (pois seria ingenuidade) que eles abdicaram do poder. Deram uma folguinha ao governo, mas não soltaram as rédeas do poder. 

Se alguma coisa mudar é porque o mundo mudou, é porque a lógica ditada pelo equilíbrio de forças mundial assim exigiu.

Não que me desagrade o Barack Obama presidente dos Estados Unidos, isso não. Pelo contrário, desde o início vi nele, muito mais do que em seu adversário, o perfil de um estadista. Mas a lógica do império continuará imperando, e isso até que os novos bárbaros invadam a nova Roma. Barack Obama não se parece a Rômulo Augusto, muito menos a Odoacro, que, em épocas remotas da história da humanidade, desmontaram ou participaram do desmonte do maior império que já existiu.


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POR EM 25/11/2008 ÀS 09:45 AM

Adaptação , versão, inspiração

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No último FestCine Goiânia, o escritor Miguel Jorge coordenou uma mesa redonda sobre as relações entre o cinema e a literatura, da qual participamos, entre outros, eu e o professor Heleno Godoy. Na ocasião, o professor Heleno ficou bravo comigo (e com razão), por ter achado que eu distorci suas palavras. De fato, por absoluta incompetência minha, deixei passar essa impressão mesmo. Vai aqui uma segunda tentativa para me fazer entender.

O professor Heleno apresentou algumas regras norteadoras de uma adaptação cinematográfica de uma obra literária. Não me lembro exatamente de suas palavras, de forma que não as tentarei reproduzir aqui. Acho que posso, no entanto e sem muito risco de distorcê-las novamente, resumi-las numa palavra essencial: fidelidade.

Será tanto melhor uma adaptação cinematográfica, quanto mais fiel for à obra literária que lhe deu origem. Até esse ponto, embora não tenha parecido à época, nós, o professor e eu, concordamos. Concordamos também os demais literatos presentes (na mesa e na platéia) e eu, já que, pelo que me pareceu, a opinião esmagadoramente predominante era em favor da boa e bem-comportada (fiel) adaptação. O que não é uma surpresa, já que a perspectiva é a de um estudioso de literatura, não de um cineasta.

Que fique claro, então: também acho que uma boa adaptação é uma adaptação fiel. O problema vem depois. O professor Heleno acertou em cheio quando disse, espantado com meu atrevimento, que eu associo algo negativo à adaptação. Exatamente.

Concordar que uma adaptação seja boa se for fiel, não significa considerar uma adaptação uma boa coisa. Do ponto de vista cinematográfico, não é. Ora, já que estamos tratando das relações entre literatura e cinema, é preciso nos posicionar criticamente também. Não apenas constatar fria e objetivamente. E, embora eu não seja um cineasta, mas apenas um estudioso da filosofia do cinema (e escritor muito do mais ou menos), digo, com todas as letras: quanto mais fiel um filme for, pior ele é. Mais medíocre. Mais escravo. E me atrevo: mais filosoficamente pobre. Um filme escravo do livro que o motivou (uso “motivou” para caber tanto as adaptações, quanto as versões e inspirações) é um filme absolutamente vazio. Está fadado a ser um resumozinho do livro. E só.

À medida que vai se afastando do livro que o motivou (admitindo-se que não se trate de filme de encomenda), mais chances de ser rico (filosoficamente) ele tem. Claro, pode se distanciar tanto a ponto de nem sequer versão ser, e ainda assim ser pobre e medíocre. Mas, pelo menos, tentou. O que nunca se pode dizer a respeito das adaptações fiéis. Estas estão destinadas ao fogo eterno da danação medíocre.

Hora de clarear os termos: peço (imploro!) ao leitor que me conceda o benefício de significar as palavras a meu jeito. Vamos lá: por “adaptação” entenderemos o filme fiel ao livro (o cachorrinho da literatura). Por “versão”, o infiel, ma non troppo (o gato da literatura). Por “inspiração”, o completamente infiel (uma rameira tresloucada e absolutamente não confiável).

Para me ajudar, citarei os exemplos de que me venho valendo em outras ocasiões (na última Abralic, na Revista Bula e em minha coluna na revista Ciência & Vida Filosofia número 23): Dostoiévski. Não se passa incólume pela leitura de “Crime e Castigo”, “Os irmãos Karamazov” e “Memórias do Subsolo”, entre outros de seus livros. Um cineasta que os lê, já pensa logo em levá-los à telona. Mas de que forma?

Ivan Pyriev é autor, talvez, da adaptação mais ‘adaptação’ (mais fiel) de uma obra de Dostoiévski. Seu “Idiota” (embora termine antes do final, pois ele tencionava fazer cada parte do livro, mas ficou na primeira) é o livro em filme. Já “O Idiota” de Kurosawa é mais uma versão, com alguns pequenos toques de criatividade e contextualização (bem diferente de suas versões para “Macbeth” – “Trono manchado de sangue” – e “Rei Lear” – “Ran”, que são versões um pouco mais ousadas e portanto mais ricas). Também esse foi o caso de “Noites brancas”, de Visconti, e “Os Possessos”, de Wajda, versões bem-comportadas, mais próximas de adaptações mesmo.

Passamos, então, a duas versões que, embora ainda cabendo na categoria “versões”, por serem menos comportadas, são muito mais interessantes cinematograficamente (e filosoficamente, embora esse não seja o lugar nem a hora apropriados para eu me estender nessa tese mais complicada de desenvolver). São elas “Nina”, de Heitor Dhalia, e “Notas do subterrâneo”, de Gary Walkow. Em “Nina”, a protagonista (primeira traição: é A protagonista, e não O protagonista!) passa o tempo todo contemplando a idéia de matar a velha senhoria, mas só o faz ao final e... escapa da punição (oh, que traição!, como Dhalia se atreveu!). Já as “Notas do subterrâneo” de Walkow, não só contextualizam para a modernidade (o diário é em forma de fita de vídeo), mas acentuam a pusilanimidade do protagonista a níveis que certamente não eram o que Dostoiévski pretendia (que atrevimento!).

Então... vem “Crimes e pecados”, de Woody Allen. Nem vou discorrer muito sobre o filme, já que fico chato quando falo de Woody. Além do mais, estou escrevendo um livro inteiro sobre o assunto (um dia sai!) e não cabe aqui tudo o que penso dele (quando sair, por favor, comprem e leiam o diabo do livro). Apenas digo que não é, nem de longe, uma versão, o que dirá uma adaptação de “Crime e Castigo”. É quase uma subversão. Não está escrito em lugar algum dos créditos, e nem Woody faz muita menção especificamente a “Crime e Castigo” em suas entrevistas (menciona sua óbvia influência dos “autores russos”, eventualmente especificando Dostoiévski e Tchékhov). O número de “traições” ao livro é imenso e, ainda assim, a inspiração salta aos olhos. E é um dos filmes mais filosoficamente ricos que você terá a oportunidade de assistir.

Espero ter feito meu ponto mais claro. Ou não.

 


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POR EM 24/11/2008 ÀS 09:53 PM

Itinerário da cegueira

publicado em

Há uma cegueira que enxerga. Oftalmo nenhum pode curá-la, pois tal enfermidade é de natureza psíquica. E cresce em proporções de pandemia. Por vezes assume a forma de consumismo compulsivo, voragem famélica pantagruélica que leva ao impulso ceco de comprar, adquirir, acumular tudo: coisas de que não se precisa, personas/pessoas para consumo rápido e descarte idem. Criaturas humanas acometidas por tal deformação adquirida (com o tempo torna-se congênita, e assim as novas gerações já nascem cronicamente inviáveis.  

Tal como no ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, a cegueira branca que enxerga é coletiva, com imenso poder de contágio: leva suas vítimas a se arrostarem como vencedores e bem sucedidos, sendo em verdade vencidos, por conseguirem a façanha de viver de modo contrário às leis naturais. Assim, de tanto viver contra o princípio da realidade, tornam-se personas o tempo todo mascaradas, assumindo a couraça muscular do caráter, que as transforma em pessoas irreais.    

"Tudo é uma ponta do mistério. Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo". (João Guimarães Rosa). Manoel Trás-os-montes, amanheceu vendo tudo noturno, como é da lei de quem, habituado a enxergar no escuro, amanhece vendo o nada - o mar leitoso, de infernal brancura, o que é diferente da cegueira que costumam ter os outros cegos da cidade - os que têm vistas capazes de ver tudo, mas não percebem sequer um lampejo do que vem de ser a real verdade da vida.  

Cego entre cegos, no átimo de um instante fugaz passou a ser discriminado, por estar mais cego do que os outros cegos (que são todos) da cidade. Cego total, imensamente imerso nas trevas, podia enxergar a matéria da memória, ou o que sua imaginação, a vida anterior, e o rio de pensamentos lhe sugeriam, ao passo que os cegos condutores de cegos, apopléticos de tanto ter e buscar o Ter e o poder a qualquer custo, são a própria escuridão da alma, exilada de seu centro.
            
Como vive um cego, a não ser tentando segurar o vácuo do nada escuro e insondável, em que se encontra exilado? O que é um espelho, senão a superfície mágica, a refletir a face visível da irrealidade? Quem É, e com que nome pode ser chamado Aquele que ama sem apego, e não conhece o sentimento do medo? Quem é o monstro que encaramos no espelho, às horas mortas da noite, quando ronda a sombra insone da nossa alma? Quando alguém morria, nossos antigos viravam os espelhos contra a parede, por entender que através deles o tempo muda de direção e velocidade. Ou talvez porque os espelhos sejam torres do silêncio, e através deles podemos acessar eternidades.
 
O tempo, em muitos trechos, é sempre tranquilo, escreveu Guimarães Rosa. E eu acrescento: nós é que nos agitamos, feito palhaços tragicômicos. Por nove meses, no cosmo do corpo, viajamos, como argonautas do nada. Vagindo e chorando chegamos ao porto da vida, como sabendo os sofrimentos que nos esperam, neste palco de tolos.  Mais mascarado que um farricoco é quem se finge de vivo, estando morto. Superou os limites do homem não quem desconheceu o sentimento do medo, mas quem o enfrentou, e o venceu.   
 
"Não podemos viver sem sermos maus. A maldade é o pólo oposto da bondade. Uma não pode existir sem que a outra existe. Somos bons porque somos maus. Se os bons são vítimas inermes da maldade, não é porque a bondade não tem potência. O mal sempre triunfa onde os bons não aprendem a ser astutos como as serpentes. "Como Satã antes da Queda, os que são maus por natureza aprenderam a odiar a própria natureza da bondade". (Josephine Hart).  
                                                           
 


                                 

Não sei dizer de qual fraqueza veio nascer minha maldade. Em que flanco do Ser fui tão ferido que me vi fadado a viver armado, em meio ao medo de invisíveis perigos? Bem sei que minha maldade existe, e me acompanha como sombra, ou lençol de escuridão acesa. Em perpetrar pequenas maldades, nos fazemos operários das sombras do mal. E o fazemos fingindo inocência, mas com astúcia de peçonhentas serpentes. E assim vamos sugando as almas de quem se entrega à nossa velha avidez.  

Não é meu intento garatujar, nestes cadernos mofados, uma teoria da maldade. Talvez só consiga, em nesgas de nuvens de amargas ou picarescas lembranças, provar a mim mesmo que, em perfídias cotidianas no seio imaculado da as(n)grada família, fazemos acordos secretos com os demônios, que em sua escuridão de ser, oram por nós, e nos vigiam, para que não venhamos a nos perder nos caminhos da hipocrisia sacripanta.

Todos vivemos, trabalhamos, fazemos sexo, vamos aos templos, às convenções de caridade, buscamos os bares e estádios, para esquecer ou nos dis-trair da infelicidade crônica - e sempre estamos usando nossas máscaras cotidianas. Vivemos em sociedades de mascarados, somos atores de uma tragicomédia bufa em que todos desempenham seus papéis. No palco de todos da vida passamos os dias a oprimir e sufocar uns aos outros, a pretexto de amá-los e protegê-los.  

De todas as solidões que nos angustiam, a mais terrível é a sensação de não pertencimento, ou a certeza de que não pertencemos a ninguém, e pior ainda: não pertencemos a nós mesmos. Tal exílio é sem retorno. E dói, como ferida viva, ou como um dente cujo nervo se encontra exposto. Clarice Lispector foi uma dessas criaturas exiladas desde a infância, em sua própria solidão. Era misteriosa e simples, como as coisas essenciais.

Dizia que somos todos mascarados. E a máscara que usamos é o disfarce da imagem auto-idealizada, que construímos como forma de evitar a infelicidade. Não há como separar a máscara que escolhemos usar, como estratégia de sobrevivência, e o Eu Idealizado - eles são uma só e a mesma coisa,  destinada a fingir que somos o que não chegamos a ser. Mas esqueci de acrescentar que não é fácil escolher as máscaras que usamos, e os papéis que desempenhamos.  

Quase sempre permitimos que outros façam isto por nós, e assim fazendo moldem o nosso rosto para o mundo. Clarice Lispector reconhecia: "Escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano. E solitário. Mas quando enfim se afivela a máscara daquilo que se escolheu para representar-se e representar o mundo, o corpo ganha uma nova firmeza, a cabeça ergue-se altiva como a de quem superou um obstáculo. A pessoa É".  

Viver usando máscaras destrói a uns, enquanto a outros propicia sucesso nos negócios, no amor, na vida em família e em sociedade. Conta-se que certo dia o rosto de um rapaz deu defeito, e ele levou na oficina mecânica, para consertar. Para não sair pelas ruas sem cabeça, o homem deu-lhe uma máscara. A partir disto, sua vida foi um sucesso. Recebeu e aceitou propostas milionárias, foi eleito senador, ganhou muito dinheiro, passou a atrair as mais belas beldades, sempre desfrutando de alto conceito e prestígio "na melhor sociedade". Passado o tempo estipulado, recebeu o telefonema do mecânico, que o concitou a ir buscar seu rosto verdadeiro, devolvendo a máscara que estava a suar. Negativo. O homem bem sucedido preferiu passar o resto de sua vida como um sucesso mascarado.           

Em que profundezas da noite da alma nasceram, no tempo dos assassinos, os demônios da maldade? Em que insondáveis sofrimentos vão buscar sua crueldade os assassinos da inocência? "Não temais o mal". Assim falou Quem nos ensinou o Amor.  Mas como não temer a sombra da maldade, a crescer como praga em nossa natureza infernal? P.S. A pior cegueira é aquela, branca e estranha, que nem José Saramago viu, em seu ensaio sobre a ilucidez de Ser que se abate sobre uma cidade: a que faz as pessoas enxergarem sem ver. A mesma de que ele demonstra padecer, em seu esquerdismo infantil, que o faz ver o paraíso perdido em seu ideal dogmático de sociedade perfeita, que para ele é o comunismo que vê no indivíduo e na diferença inimigos a serem assassinados.


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POR EM 24/11/2008 ÀS 08:54 PM

Será?

publicado em

Se fôssemos inteligentes de fato, investiríamos todo o dinheiro, tempo e trabalho que temos a oferecer à sociedade na educação e na cultura.

Ou exigiríamos isso dos governantes.

Tudo o mais, saúde, segurança, crianças nas ruas, produtividade e riquezas, tudo seria mera conseqüência que um povo educado e culto trataria de produzir naturalmente. Há provas disso em outros países.  Educar não é apenas alfabetizar, oferecer comida, disponibilizar salas, etc...é muito mais profundo e depende diretamente da cultura de quem nos governa, nos representa, e é responsável pela área durante certo tempo. Precisaríamos de uma lei ideológica-apartidária sobre a Educação, isto é, que não dependesse dos governos, já que são todos cíclicos, passageiros.  

Educar seria um fértil projeto a ser executado como prioridade em longo prazo, elaborado por homens e mulheres de comprovado saber, obrigatoriamente seguido por qualquer governo.

Não é assunto que muda de rumo conforme o partido no poder, retomando tudo do zero, anulando metas traçados pelo anterior. Cada governo leva meses, à vezes anos para “tomar pé da situação”, e a Educação, matéria da sensibilidade e inteligência é quase sempre gerida por pequenos homens e mulheres culturalmente limitados.

Nada do que disse é novidade, era a grande meta de um dos maiores educadores do País: Paulo Freire. Educação e Cultura só podem caminhar e se desenvolver juntas. Educadores deveriam ter acesso a ela, tê-la como matéria importante do seu currículo educacional porque não há cultura sem Educação e vive-versa.

Há um certo aspecto da cultura que nós chamamos folclore, manifestações de festas populares, atividades para-teatrais como as cavalhadas e congadas que, por darem votos, são apoiadas e freqüentadas por políticos.  Ninguém mais se ilude, estão pouco interessados na arte que o povo produz, mas nos votos dele. Afinal, cultura popular reúne massa, palavra mágica que atiça a ambição de qualquer político. Claro que devemos preservar a história e as tradições que desenvolvemos espontaneamente ao longo dos anos, são nossa trajetória, mas devem ter cuidados redobrados quando são apoiadas – costumam aliciá-las e pervertê-las.

Como resolver esse teorema?

Educação e Cultura juntas descortinam soluções para muitos problemas – mas os governantes as querem? Todos eles anunciam a Educação como prioridade.

Mas o que é cultura? Ninguém sabe, é matéria etérea e fugaz, variável e diferente em cada recanto.  Talvez o melhor seja defini-la pelo que ela não é: aquele intelectual chato e antiorgástico que sabe citar de cor frases de grandes autores; o idiota cheio de títulos e diplomas na parede; os merdalhões  amargos que confundem criticar com falar mal;  os que têm as maiores bibliotecas enfeitando paredes decoradas com lombadas coloridas mas que nunca abriram os livros;  os que sempre encontram desculpas por não terem visto uma obra de arte; os freqüentadores assíduos e festeiros dos lançamentos de livros e vernisages , papa-coquetéis enfeitados de cultos; os freqüentadores  eventuais que só vão ao teatro quando tem algum nome que já viu na TV; escritores medíocres que ocupam cargos de direção de entidades culturais; carreiristas políticos que sempre dão um jeito de serem nomeados para áreas culturais; os tiradores de casquinha em fotos com artistas e intelectuais famosos; os limitados homofóbicos que acham que cultura é coisa de veado;  os que confundem diversão com riso , nunca com o prazer da beleza e do pensar; os donos-da-verdade que não sabem nem de si mesmos; os vomitadores de regras estabelecidas e velhíssimas...

Felizmente nada disso é cultura.

Cultura é alguma coisa próxima da verdadeira e prazerosa sensação de que você está apto a discernir o que é bom do que é ruim. Não porque algum jornal ou publicidade da TV lhe disse, não porque leu uma regra em algum livro de receitas de como ser culto, mas apto por ser capaz de juntar as pedras de tudo o que foi aprendendo pela vida afora, até o quebra-cabeça fazer sentido espiritual – cultura é coisa de evolução de espírito. 

Só boa leitura, bons espetáculos, filmes, músicas, boas conversas e tantos bons etcs...podem criar cultura.  

A escola tem papel fundamental nisso – educar é ensinar as crianças a serem leis de si mesmas a desenvolverem e elevarem a personalidade e autoestima e a serem dependentes de si mesmas. Coisas tão vitais como a matemática, o português, a geografia. Educar é fazer com que as especulações da alma sejam cercadas de estímulos geradores da cultura.  

Mas como tudo isso são meras especulações, deixo ao leitor a tarefa de pensar sobre o assunto e decidir como terminaria esse artigo.

Posso botar pilha na lanterna com uma informação preciosa que acabo de ler numa publicação da UNESCO: todas as crianças e adolescentes que têm acesso a atividades culturais associadas às educacionais desenvolvem maiores potenciais, mais personalidade própria e, conseqüentemente, menos violência, menos drogas, menos mediocridade – as grandes enfermidades sociais do nosso tempo.  

Educação e Cultura é que fazem um País decente que um dia, ainda acredito, faremos.


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POR EM 24/11/2008 ÀS 08:54 PM

Incompletude, ainda incompleta

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É velha a piada, mas vale à pena recordar. Dois físicos estavam voando de balão (gastando dinheiro do CNPq) estudando a forma das nuvens, quando se perderam (típico...) e foram cair num campo deserto muito distante do ponto de pouso. Um homem flanava por ali. Os físicos mais que depressa: “Por favor, meu senhor, sabe onde estamos?”. O caminhante respondeu após intermináveis trinta minutos: “Num balão”. Um dos físicos perguntou-lhe: “O senhor é matemático, não é?”, no que o homem indagou: “Sou. Como você sabe?”. O físico não o perdoou: “Bem, o senhor demorou pra responder; deu uma resposta exata e por último, mas não menos importante, sua resposta não serve pra nada!”.

Pra que serve a matemática? Bem, se for utilizada para alguma coisa, os matemáticos mais puros lhe dirão que não é mais matemática, podendo ser contabilidade, economia, biomatemática, porém, não é mais matemática, aquele assunto de que tratam os matemáticos (“puros”) que têm sempre a sensação de estar descobrindo verdades objetivas pela razão, e não apenas construindo sistemas.

Este papo entre matemáticos é tão sério que a missão do “Instituto de Assuntos Avançados” fundado em 1930 por Abraham Flexner em Princeton, com 30 milhões de dólares doados por magnatas do varejo americano, era dedicar-se única e exclusivamente “a utilidade do conhecimento inútil”. Isto é, Flexner só contrataria cientistas cujos instrumentos seriam lápis e papel. Para se ter uma idéia de como isto era realmente levado ao pé da letra, quando o húngaro John von Neumann começou a construir o computador neste Instituto, foi criticado dentro do departamento por “estar no lugar errado”. Quando morreu, o protótipo do computador foi mandado discretamente para a Universidade de Princeton, já que sua construção era muito prática e, talvez, um tanto quanto trivial (!).

Platão deu asas a importância da matemática que, segundo ele, nos serviria de modelo na busca pela beleza da verdade adquirida única e exclusivamente através da razão pura. Rebeca Goldstein (profissão: matemática) afirma em “Incompletude: a prova e o paradoxo de Kurt Gödel” (Cia das Letras, 242p.) que Platão nos convida para a razão apaixonada ou o êxtase supremo na procura pelo Belo abstrato, sem os defeitos mundanos. Em outras palavras, o filósofo quer que nos apaixonemos platonicamente.

Um destes eternos enamorados da verdade platônica foi Kurt Gödel, nascido em 1906 em Brno, que hoje pertence a República Tcheca, mas no início do século XX era parte do império dos Habsburgo. É muito provável que o leitor nunca tenha ouvido falar desta cidade, mas foi ali, num mosteiro agostiniano, que Gregor Mendel realizou seus experimentos com ervilhas e descobriu as leis da dominância e recessividade. De qualquer forma, a herança genética da cidade foi também mexer no DNA da matemática.

Gödel foi para Viena com 18 anos de idade para estudar na Universidade. Esta mesma Viena, do período entre guerras, era a capital intelectual do planeta ou ainda “o laboratório de pesquisa de destruição do mundo”, nas palavras do ácido jornalista da época Karl Kraus, um lingüista radical, para quem “falar e pensar são a mesma coisa” e que tinha grande influência sobre os pensantes-falantes dos famosos Cafés vienenses. No início, Gödel fora atraído pela física e a teoria das cores do “cientista” Johann W. Goethe, depois pela matemática e teoria dos conjuntos, mas apaixonou-se perdidamente ao deixar-se atrair pelo caminho da lógica. Ainda hoje é considerado o maior lógico desde Aristóteles (paixão, literalmente, à toda prova...).  

Goldstein “demonstra” que é impossível saber qual foi o momento iluminado de Gödel, mas através daquilo que chama de “especulação esclarecida” conta que o jovem tímido participou assiduamente (embora a influência possa não ter ocorrido) das reuniões do Círculo de Viena, que congregava os principais pensadores de então: Moritz Schlick (organizador das reuniões), Rudolf Carnap (orientado de Max Planck), Otto Neurath (economista que empurrava as reuniões para o assunto de política), e, entre outros, o matemático Hans Hahn que introduziu ao Círculo as idéias de G. Frege e Bertrand Russel (com aulas sobre a principal obra de ambos, o Principia Mathematica) e convidou seu orientado Gödel a participar das reuniões.

O Círculo de Viena defendia o positivismo lógico, falando em nome da precisão e do progresso associado às ciências. Eles deixaram claro que o fato de algumas perguntas permanecerem irrespondíveis (Deus existe?), não é problema de nossa ignorância, mas sim pelo fato da questão não fazer sentido, já que ela não é suscetível à medição ou ao procedimento empírico.

Apesar das reuniões serem concorridas, a ponto de ninguém entrar sem convite (Karl Popper, por exemplo, suou para conseguir o seu) a personagem mais influente do Círculo não aparecia por lá: Ludwig Wittgenstein. Mas isto a gente comenta a semana que vem.


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POR EM 24/11/2008 ÀS 08:49 PM

Fico feliz por te ver assim tão triste

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“A minha vida está se desmoronando, e as pessoas estão se divertindo muito com isto. Mas eu não perco a dignidade. Continuo trabalhando.” Li esta declaração de uma jovem atriz brasileira que anda metida numa série de problemas pessoais, fartamente explorados pela mídia. Lembrei-me do que disse o cantor e compositor John Lennon, numa fase da sua vida em que nada parecia dar certo: “Ninguém o ama quando você está por baixo e por fora”.

Não é preciso ser filósofo nem antropólogo para teorizar a respeito do viver e do fenecer. Até mesmo os crápulas, nas suas ínfimas pausas de maledicência, devem fazê-lo. John fez parte da cultura pop em sua época, deu o seu recado e nos legou boa música e mensagens humanitárias que muitos menosprezam ou insistem em não captar. Quando foi baleado na porta do Dakota Hotel, o ex-beatle pagou com a própria vida o preço pela incompreensão e pela intolerância.   

Com vocação para a inveja e a crueldade, nós crescemos interessados nos revezes uns dos outros. Não foi assim na infância? Nos embates e estripulias com os vizinhos de rua? Nas disputas disfarçadas e humilhações dentro nas escolas? Zombamos do menino quatro-olhos, da menina dentuça, dos gorduchos e dos orelhas-de-abano. Insistimos nas troças até fazer chorar. Sorrimos do sofrimento alheio com semblantes apalermados, comemorando, intimamente ou de forma indisfarçável, o mal que recaía sobre terceiros. Em matéria de maldade, somos bons demais da conta.

O espetáculo da dor e do fracasso presta-se ao regozijo de muitos. Não é por acaso que as revistas que publicam os escândalos dos famosos vendem aos borbotões, enriquecendo seus editores, alvoroçando a energúmena massa. O febril interesse pelas tragédias é surpreendente, mórbido, digno da imersão de psicólogos e demais estudiosos da mente e do comportamento humanos. Para a maioria de nós é prazeroso assistir às autodestruições. Um cantor viciado. Uma atriz alcoólatra. Um pastor pedófilo. Habitantes do fundo do poço. Palhaços que somos gostamos mesmo é de ver o circo pegar fogo.

 Durante a vida crescemos adestrados sob padrões e regras, a fim de nos adaptarmos à convivência social sadia e, digamos, normal. Há muitos vieses. Aprendemos a valorizar o supérfluo como se ele fora o essencial. Com aguçados cinco sentidos, reparamos em defeitos e imperfeições aos quais nos julgamos imunes. Valorizamos com tal exagero as aparências que a vida vai ficando assim superficial e sem sentido. Apegados aos bens materiais, tocamos a vida como se fosse uma viola faltando algumas cordas. O som fere os ouvidos, no entanto, acreditamos fazer um concerto e tanto.

A frivolidade e a devoção ao dinheiro são ensinadas dentro e fora dos lares, por pais ausentes e as maravilhas da tecnologia, naquele esforço colossal para suportar a desunida família e manter as aparências. Não é à toa que a filantropia é ofício de uns poucos abnegados. Gastar o próprio tempo ajudando estranhos parece pouco atrativo. Muitos, julgando-se baluartes da benevolência e do desprendimento, desprendem sim algumas moedas nas mãos miseráveis dos mendigos e pedintes que lotam as portas das igrejas e os semáforos das cidades. Entregamos as quirelas por piedade ou por medo?

Para se sentirem melhores, alguns cidadãos abonados fazem doações vultosas às entidades carentes, como se elas carecessem apenas de dinheiro. Os milionários fanfarrões, que garantem preferir o anonimato, salpicam sobre os desafortunados as migalhas de seus quinhões, ao invés de “desperdiçarem tempo” ouvindo, dando atenção sincera, ensinando, aprendendo a viver.

Nas minhas divagações de escritor, e nas incursões silenciosas de um ser vivente, eu me esforço para entender a condição humana no planeta. Tudo parece uma equação complexa e sem um fim que a justifique, aquela mesma sensação que me afligia nas aulas de física e matemática da infância. O professor, criatura boníssima das mais injustiçadas no Brasil, acabava dando uma forcinha e chegávamos a um resultado. A conta era exata e sempre fechava. Mas agora é diferente. Meu antigo professor já nem existe mais, senão em fotografias e na memória dos seus familiares, amigos e ex-alunos, como eu. Quem vai então se apiedar de mim e revelar uma valiosa dica?


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POR EM 24/11/2008 ÀS 08:35 PM

Deus e os ovos no porta-malas

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As atitudes de rebeldia foram chegando com a adolescência, devagar, quase que imperceptivelmente. Uma roupa mais corajosa hoje, uma resposta mais dura amanhã, um gesto mais abusado, um prego na língua ou um tatoo nas cadeiras depois. Atitudes que os pais jogavam na conta das inquietações da idade. Um indicador seguro era o boletim da escola, que mantinha níveis aceitáveis para o histórico da família.

Mas quando Analisa descobriu que havia a noite e que na noite havia a balada e que na balada havia... Aí, sim.

Caiu num deslumbre endiabrado. Acabou o tempo para a escola e a família. Passava o dia na internet, alimentando comunidades, atualizando o blog, combinando com a galera sobre a balada que empreenderiam à noite. Duas coisas a tiravam do computador: baladas e compras. Adquiria os modelitos de grife, cada vez mais arrasantes, tanto pelo preço, quanto pela extravagância. Eram, como se diz, roupas de andar pelado.  

E no embalo, de balada em balada, Analisa foi selecionando um grupo maneiro de amigos irados. O tititi que rolava é que ela pertencia mesmo a uma galera da pesada.

No dia em que visitou seu blog, a mãe levou um choque e teve de ser internada. Logo na primeira página estava lá sua filinha querida, sensualmente despachando uma fila enorme de marmanjos mal-encarados, numa seção coletiva de beijos na boca.

Nas páginas seguintes desfilava uma alegoria de horrores. Analisa, com uma malícia medonha, se apresenta fazendo roleta-russa com um revólver prateado. Na seguinte, puxando um brau. Depois, cafungando um carreirão de cocaína sobre um espelho ordinário, desses com moldura cor de cenoura. Na próxima, braço na chincha, recebendo na veia uma dose cavalar de outra droga qualquer.

Mas quando a mãe entrou na área pornô, caiu desmaiada, logo ao ver um piercing animal trespassado nas partes. Nem chegou a ver as orgias tipo hardcore que a pequena fazia e jogava na rede, daquelas de deixar Calígula rodopiando na catacumba.

Quando a mãe se recuperou do choque, juntou-se com outros familiares e orelhou a filha e a internou numa clínica de drogados, ou de malucos, não sei.

Semanas depois, quando finalmente teve alta, a turma já estava esperando Analisa para o retorno à mesma vida de antes. A mãe desesperou-se, mas antes que o marido e outros parentes chegassem para ajudá-la na operação de impedimento, a filha pegou o carro da mãe na garagem, pôs a galera pra dentro e acionou o portão para novamente mergulhar no mundo.

Sem mais a fazer, a mãe entrega ao sobrenatural: vai com Deus, minha filha.

- O carro já tá cheio, mãe. Se Deus quiser ir, só se for no porta-malas.

 Aquela noite Analisa bateu o carro. E bateu feio. Todos morreram. Ficaram irreconhecíveis nos destroços.

Mas, no que sobrou do porta-malas, a mãe encontrou uma cartela de ovos, esquecida ali na última compra. Por incrível que pareça, estavam intactos. A mãe acha que foi um capricho de Deus.  


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POR EM 21/11/2008 ÀS 10:32 PM

O primo do Elvis Presley

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Se não sabeis, contarei: quase cheguei a ser primo do Elvis Presley. Ou podia ter sido, se tivesse acreditado em um primo lunático. Ou melhor: como fui morto por sua morte, despojado que fui de um desejável parentesco com ele. Num dia antigo e triste, de minha vida desolada, em que eu me encontrava (e me perdia) nas ruas, amargo como a bile, a vende doces para as pessoas, eu tive um primo que me roubava os únicos míseros centavos que ia embolsando, à medida em que vendia ameixas para uns sacanas de uns mecânicos.
 
O que mais me desesperava, no sacana do meu primo, não era o fato de o cara me roubar, sistematicamente, todos os dias, utilizando estratégicas fantásticas e diversas. De tal acostumado a ser roubado, eu já saia contabilizando as perdas & danos, já conformado em levar uma surra homérica - a sova diária - que minha mãe me aplicava, pelo crime de me deixar roubar diariamente, assim me fazendo cúmplice de primo-ladrão.
 
O que mais me atazanava era ouvir do primo, antes ou depois de ser roubado, que ele era primo do Elvis Presley, que o rei do rock mandava para ele roupa de ouro, sapatos de ouro, guitarra de ouro, tudo de ouro dezoito. Tornara-se um Midas suburbano, na periferia do capitalismo. O mentiroso contumaz mentia e roubava de maneira inapelável e não evitável, contra toda vigilância e toda lógica, como se tivesse parte com o demônio. Vendíamos ameixas, pelas ruas da Campininha das flores.
 
Era descuidar, piscar um olho, e lá ia, lépida e solerte, a sua mão sorrateira surrupiava de meu bolso a grana minguada, que teria de levar à minha mãe. Como quase nunca a levava (pois que era levada pelo safardana, à socapa e à sorrelfa, o couro descia em meu lombo, enquanto ele ficava olhando, com falsa piedade.   

Eu era tão cretino que jamais o peguei em flagrante botando a mão na minha grana, nunca pedi para ver a roupa de ouro, que o Elvis Presley todo mês lhe mandava e, o que é ainda mais grotesco: sendo primo do primo do Elvis Presley, era de se prever (e de se querer) que o rei do rock, dono de quase tudo no mundo, (inclusive de uma fome pantagruélica, que o levou deste vale de tele-lágrimas), - era de se esperar que o Elvis, sendo primo do meu querido algoz e primo, fosse também meu primo, meu parente, por indestrutíveis  laços de sangue. Sentindo o peso de chumbo da menos valia, eu me sentia um deserdado.

Jamais me ocorreu - embora não acreditasse muito nele, perguntar porque sendo por que sendo ele primo do Elvis, por que eu também não o seria, se eu era primo dele. Seguia ele contando suas papiatas e lorotas, enquanto o tempo foi passando, e o Elvis saindo da moda - dito de outro modo: enquanto o rei do rock ia passando, trocado por uns cabeludos ingleses, que jovens do mundo inteiro amavam histericamente, como já tinham amado os Rolling Stones.

Foi o meu primo crescendo e eu também, trocando de fantasias e ilusões. Quanto ao rei do rock propriamente dito, não se conformava em ser esquecido: passou a comer sanduíches desbragadamente, à guisa de compensação, uma vez que se transformara em página virada da história. Junto à sanduichama que mandava para a pança, seguiam pílulas perigosas, de efeito antidepressivo, dadas por um médico mui amigo. Resultado do imbróglio: bateu com as botas, esticou as canelas, degringolou o topete, foi de encontro ao Cujo.

A esta altura, as roupas de ouro de tolo, que o Elvis mandava a seu primo brasilindio achavam-se enferrujadas, em um canto mofado. Não caberiam no figurino de um comum mortal. A guitarra de ouro que o rei do rock lhe mandara virou cama quentinha de ninhadas de ratos. O caso mais estúrdio deu-se, contudo, não com a decepção do meu primo, àquelas alturas já esquecido do primo-ídolo, e já idolatrando os Beatles, os novos reis do pedaço e das estranjas.

É que o cachorro do Elvis Presley, inconformado com a morte de seu dono, perguntou ao psicanalista: por que alguém se mata, se comida não lhe falta? Na verdade, tão cheia estava que nela não caberia nem mais um sanduíche ou guloseima. Nem o doutor psi, nem lacanianos ou reicheanos que vieram depois puderam responder à indagação cachorral.

Por que o Elvis se matou, se comida era o que mais havia em sua formidável mansão, dotada de mil quartos translumbrantes, e salas de café, de chá e de chocolate? No céu, para onde deve ter ido quando chegou o seu tempo de deixar este vale de telelágrimas, o cachorro do Elvis Presley ainda nos late com sua metafísica indagação cachorral: por que o meu dono se matou, se a geladeira estava cheia?


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