Há uma cegueira que enxerga. Oftalmo nenhum pode curá-la, pois tal enfermidade é de natureza psíquica. E cresce em proporções de pandemia. Por vezes assume a forma de consumismo compulsivo, voragem famélica pantagruélica que leva ao impulso ceco de comprar, adquirir, acumular tudo: coisas de que não se precisa, personas/pessoas para consumo rápido e descarte idem. Criaturas humanas acometidas por tal deformação adquirida (com o tempo torna-se congênita, e assim as novas gerações já nascem cronicamente inviáveis.
Tal como no ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, a cegueira branca que enxerga é coletiva, com imenso poder de contágio: leva suas vítimas a se arrostarem como vencedores e bem sucedidos, sendo em verdade vencidos, por conseguirem a façanha de viver de modo contrário às leis naturais. Assim, de tanto viver contra o princípio da realidade, tornam-se personas o tempo todo mascaradas, assumindo a couraça muscular do caráter, que as transforma em pessoas irreais.
"Tudo é uma ponta do mistério. Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo". (João Guimarães Rosa). Manoel Trás-os-montes, amanheceu vendo tudo noturno, como é da lei de quem, habituado a enxergar no escuro, amanhece vendo o nada - o mar leitoso, de infernal brancura, o que é diferente da cegueira que costumam ter os outros cegos da cidade - os que têm vistas capazes de ver tudo, mas não percebem sequer um lampejo do que vem de ser a real verdade da vida.
Cego entre cegos, no átimo de um instante fugaz passou a ser discriminado, por estar mais cego do que os outros cegos (que são todos) da cidade. Cego total, imensamente imerso nas trevas, podia enxergar a matéria da memória, ou o que sua imaginação, a vida anterior, e o rio de pensamentos lhe sugeriam, ao passo que os cegos condutores de cegos, apopléticos de tanto ter e buscar o Ter e o poder a qualquer custo, são a própria escuridão da alma, exilada de seu centro.
Como vive um cego, a não ser tentando segurar o vácuo do nada escuro e insondável, em que se encontra exilado? O que é um espelho, senão a superfície mágica, a refletir a face visível da irrealidade? Quem É, e com que nome pode ser chamado Aquele que ama sem apego, e não conhece o sentimento do medo? Quem é o monstro que encaramos no espelho, às horas mortas da noite, quando ronda a sombra insone da nossa alma? Quando alguém morria, nossos antigos viravam os espelhos contra a parede, por entender que através deles o tempo muda de direção e velocidade. Ou talvez porque os espelhos sejam torres do silêncio, e através deles podemos acessar eternidades.
O tempo, em muitos trechos, é sempre tranquilo, escreveu Guimarães Rosa. E eu acrescento: nós é que nos agitamos, feito palhaços tragicômicos. Por nove meses, no cosmo do corpo, viajamos, como argonautas do nada. Vagindo e chorando chegamos ao porto da vida, como sabendo os sofrimentos que nos esperam, neste palco de tolos. Mais mascarado que um farricoco é quem se finge de vivo, estando morto. Superou os limites do homem não quem desconheceu o sentimento do medo, mas quem o enfrentou, e o venceu.
"Não podemos viver sem sermos maus. A maldade é o pólo oposto da bondade. Uma não pode existir sem que a outra existe. Somos bons porque somos maus. Se os bons são vítimas inermes da maldade, não é porque a bondade não tem potência. O mal sempre triunfa onde os bons não aprendem a ser astutos como as serpentes. "Como Satã antes da Queda, os que são maus por natureza aprenderam a odiar a própria natureza da bondade". (Josephine Hart).
Não sei dizer de qual fraqueza veio nascer minha maldade. Em que flanco do Ser fui tão ferido que me vi fadado a viver armado, em meio ao medo de invisíveis perigos? Bem sei que minha maldade existe, e me acompanha como sombra, ou lençol de escuridão acesa. Em perpetrar pequenas maldades, nos fazemos operários das sombras do mal. E o fazemos fingindo inocência, mas com astúcia de peçonhentas serpentes. E assim vamos sugando as almas de quem se entrega à nossa velha avidez.
Não é meu intento garatujar, nestes cadernos mofados, uma teoria da maldade. Talvez só consiga, em nesgas de nuvens de amargas ou picarescas lembranças, provar a mim mesmo que, em perfídias cotidianas no seio imaculado da as(n)grada família, fazemos acordos secretos com os demônios, que em sua escuridão de ser, oram por nós, e nos vigiam, para que não venhamos a nos perder nos caminhos da hipocrisia sacripanta.
Todos vivemos, trabalhamos, fazemos sexo, vamos aos templos, às convenções de caridade, buscamos os bares e estádios, para esquecer ou nos dis-trair da infelicidade crônica - e sempre estamos usando nossas máscaras cotidianas. Vivemos em sociedades de mascarados, somos atores de uma tragicomédia bufa em que todos desempenham seus papéis. No palco de todos da vida passamos os dias a oprimir e sufocar uns aos outros, a pretexto de amá-los e protegê-los.
De todas as solidões que nos angustiam, a mais terrível é a sensação de não pertencimento, ou a certeza de que não pertencemos a ninguém, e pior ainda: não pertencemos a nós mesmos. Tal exílio é sem retorno. E dói, como ferida viva, ou como um dente cujo nervo se encontra exposto. Clarice Lispector foi uma dessas criaturas exiladas desde a infância, em sua própria solidão. Era misteriosa e simples, como as coisas essenciais.
Dizia que somos todos mascarados. E a máscara que usamos é o disfarce da imagem auto-idealizada, que construímos como forma de evitar a infelicidade. Não há como separar a máscara que escolhemos usar, como estratégia de sobrevivência, e o Eu Idealizado - eles são uma só e a mesma coisa, destinada a fingir que somos o que não chegamos a ser. Mas esqueci de acrescentar que não é fácil escolher as máscaras que usamos, e os papéis que desempenhamos.
Quase sempre permitimos que outros façam isto por nós, e assim fazendo moldem o nosso rosto para o mundo. Clarice Lispector reconhecia: "Escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano. E solitário. Mas quando enfim se afivela a máscara daquilo que se escolheu para representar-se e representar o mundo, o corpo ganha uma nova firmeza, a cabeça ergue-se altiva como a de quem superou um obstáculo. A pessoa É".
Viver usando máscaras destrói a uns, enquanto a outros propicia sucesso nos negócios, no amor, na vida em família e em sociedade. Conta-se que certo dia o rosto de um rapaz deu defeito, e ele levou na oficina mecânica, para consertar. Para não sair pelas ruas sem cabeça, o homem deu-lhe uma máscara. A partir disto, sua vida foi um sucesso. Recebeu e aceitou propostas milionárias, foi eleito senador, ganhou muito dinheiro, passou a atrair as mais belas beldades, sempre desfrutando de alto conceito e prestígio "na melhor sociedade". Passado o tempo estipulado, recebeu o telefonema do mecânico, que o concitou a ir buscar seu rosto verdadeiro, devolvendo a máscara que estava a suar. Negativo. O homem bem sucedido preferiu passar o resto de sua vida como um sucesso mascarado.
Em que profundezas da noite da alma nasceram, no tempo dos assassinos, os demônios da maldade? Em que insondáveis sofrimentos vão buscar sua crueldade os assassinos da inocência? "Não temais o mal". Assim falou Quem nos ensinou o Amor. Mas como não temer a sombra da maldade, a crescer como praga em nossa natureza infernal? P.S. A pior cegueira é aquela, branca e estranha, que nem José Saramago viu, em seu ensaio sobre a ilucidez de Ser que se abate sobre uma cidade: a que faz as pessoas enxergarem sem ver. A mesma de que ele demonstra padecer, em seu esquerdismo infantil, que o faz ver o paraíso perdido em seu ideal dogmático de sociedade perfeita, que para ele é o comunismo que vê no indivíduo e na diferença inimigos a serem assassinados.
leia mais...