Caso a gente sobreviva
Foi proposto que eu escrevesse uma carta retrospectiva do ano de 2011, visceral e melenta, porque é fim de ano e vem Natal e normalmente o balanço anual nos leva às lágrimas, felizes ou pesarosas. O plano era me aproveitar desse momento sensível geral e melancolizar. Sucesso de tweets, retweets e curtição no Facebook. Sem mencionar os comentários por aqui... Mas seria falso e por enquanto, por aqui, consegui ser verdadeira. Ou superficialmente honesta.
Devo confessar, que muito embora as resoluções para 2011 não tenham se cumprido, este fica como um dos melhores anos da minha vida. Das melhores trepadas, dos novos e provavelmente eternos amigos, da mudança profissional. Do triunfo do tempo que cura, sobre a pressa que fere. Da pressa que atropela, sobre o medo que paralisa.
Do sentar e fumar um Marlboro no meio da madrugada para pensar. De escrever um SMS ou um e-mail cruelmente desnecessário (normalmente mais cruéis comigo que escrevo do que com quem recebe). Ou humilhantemente apelativo. E não escrever a maioria deles. Uma vitória ou um alívio. Ser uma escritora menos dramática e mais calada. Exceto quando tudo transborda e a página em branco se enche de caracteres e meu micro universo de leitores se enche de olhos que provavelmente sangram por mais tempo do que eu.Meno s drama, muito menos drama. Naveguei águas menos turbulentas em 2011. Algumas tempestades, todas importantes para aprimorar minhas habilidades marinheiras.
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O estado patriarcal deste início de século XXI transformou o homem moderno numa massa uniforme de insegurança. O isolamento predominante nas grandes metrópoles modificou o caráter social do ser humano, despertando uma carência afetiva que precisa ser alimentada no mingau ralo dos substitutivos emocionais. A internet e os animais de estimação acabaram assumindo o papel de companheiros matrimoniais. Não é de se espantar a onda de indignação que varreu a grande rede após a divulgação de imagens de uma enfermeira espancando até a morte um cachorro da raça Yorkshire, em Formosa, no Estado de Goiás, na sexta-feira, 16.
Era um homem sem estudos, mas não era um sem vergonha. Antigamente, funcionava assim mesmo: a maioria das pessoas sofria, tinha um interesse medular, nevrálgico, irremovível em manter a dignidade e a própria honra. Hoje em dia, de dólar na cueca pra baixo, há todo tipo de canalhice.
No último final de semana arranquei-me de casa, finalmente. Já fui muito saideiro, mas tenho ficado cada vez mais neurótico pra isso. Não é só o trânsito infernal de Goiânia, nem o risco de assalto (que, diga-se, nunca me aconteceu aqui ou alhures). Não é só a falta de educação das pessoas na rua, nos shoppings, nas salas de cinema, salas de concertos, teatros. Não é apenas por causa de minha neurastenia progressiva. É preguiça mesmo. Caprichei em meu Home Theater e em minhas coleções de filmes, peças de teatro filmadas, concertos, etc. Daí fico em casa mesmo.
Sartre escreveu em sua famosa peça “Entre Quatro Paredes”, de 1945, que “o inferno são os outros”. Não existe uma definição universalmente aceita sobre o conceito de inferno na tradição teológica ocidental. Segundo o historiador Jean Delumeau, no livro “Entrevistas Sobre o Fim dos Tempos”, o catolicismo tradicional, apoiando-se em Santo Agostinho, apregoava a “existência de um lugar de sofrimento eterno para aqueles que tiverem praticado um mal considerável nessa vida e dele jamais se tenha arrependido”. Essa noção, um tanto incongruente com a imagem de um Deus misericordioso, não prosperou fora do imaginário popular, sendo substituída pela solução do Purgatório, desenvolvida no século II, sobretudo, por Orígenas. Ninguém mais estaria condenado para sempre, embora, excetuando-se os santos, todos tivessem que passar por um período variável de purificação, com a garantia da salvação ao final. Santo Irineu discordava. Para ele, “os pecadores confirmados, obstinados, se apartaram de Deus, também se apartaram da vida”. Portanto, após o julgamento final, os condenados seriam simplesmente apagados da existência. A polêmica continuou pelos séculos dos séculos, com novos debatedores: Tomás de Aquino, Lutero, Joaquim de Fiore. Na literatura, Dante e Milton criaram visões poderosas do inferno. O trio de condenados de Sartre, os cenobitas sadosmasoquistas de Clive Barker e os pecadores amaldiçoados de Roberto Bolaños são recriações contemporâneas perturbadoras. Sim, Roberto Bolaños. Não, não se trata do falecido ficcionista chileno Roberto Bolaño (1953–2003), autor do calhamaço “2666”. O Bolaños com S é um artista infinitamente superior. Refiro-me ao ator, escritor e diretor mexicano Roberto Gómez Bolaños, apelidado, num exagero quase perdoável, de Chespirito, ou “Pequeno Shakespeare” à mexicana. Ele é o criador de uma das mais sutis, brilhantes e temíveis representações do inferno em qualquer das artes: o seriado “Chaves”. Se, conforme ensinou Baudelaire, “a maior artimanha do demônio é convencer-nos de que ele não existe”, podemos concluir que esse mesmo demônio não iria apresentar seus domínios por meio de estereótipos: escuridão, chamas, tridentes, lava. Em “Chaves”, verdadeiramente, “o inferno são os outros”.
Mais de duas horas aqui sentados neste barranco de rio sem qualquer sinal de vida, qualquer mensagem, as boias ali à toa na superfície da água, nos encaramos desistentes. As promessas não se cumpriam, apesar de nossa paciente insistência. O sol, estilhaçado e frio, cai sobre o remanso de onde esperávamos alguma notícia. É um momento meio triste, pois o dia definha irreversível e com alguma lentidão: morrente.
Pode-se colecionar um bocado de decepções nessa vida. No sexo, amor, amizade, família, carreira, religião, política... Muitas vezes, de onde (ou de quem) menos se espera, brota o desapontamento, a desilusão. C’est la vie, mon cheri.
Naqueles dias, o que se ouvia, o que se constatava, e o que a imprensa não-comprada (ou seria não-vendida?!) noticiava em seus jornais diários é que faltavam médicos, remédios, luvas, sabões, tomografia, investimentos, gestão e vergonha das autoridades. Sobravam sofrimento e indignação.
Li algumas vezes, desde quando foi escrito, há uns dois meses, o texto da notável Carolina Mendes sobre Deus. Resolvi desenvolver uma espécie de réplica e encaminhar ao aceite da Revista Bula sobre o tema, não para debater a existência ou não de Deus — algo, diga-se, bem diferente do que discutir a existência ou não de vacas voando, mesmo para quem não crê “at all”. Escrevo para afirmá-la, a existência.
Senão, vejamos: enfurnado no casulo materno, fruto-resultado da invasão truculenta de um espermatozóide sobre o óvulo da fêmea, o ovo cresce em seu sono desavisado. Ele jamais concebe que há um mundo pulsante lá fora, assim como aquele cordão gelatinoso que o prende pelo abdômen, e com o qual se equilibra pelo hiperespaço líquido-uterino. Ele boia, brinca, zomba da gravidade, como um astronauta. “O mundo é escuridão”, ele pensa, supondo que já saiba tudo. 