Menino de 10 anos atira em professora, mas acerta a cara da gente
Pensem num moleque ingênuo, quase besta. Aos 10 anos, forçado pela dura realidade dos dias, eu até já deixara de acreditar que Papai Noel existisse. Mas mantinha incólume a minha confiança em Deus, na cegonha e na canhotinha salvadora do Rivelino.
Com a mente agitada de tanta fantasia, eu chutava a bola de cobertão sobre o asfalto, escalavrava os dedões do pé e sonhava ser jogador de futebol (até aqui, nenhuma novidade, certo?!).
Os meus pensamentos eram tão elásticos quanto o “drible do elástico”, muito utilizado pelo craque bigodudo para humilhar os zagueiros. Mas a gente cresce, perde a inocência, a elasticidade, o cabelo, os dentes, e quase perde os objetivos também. Enfim, descobrimos que a vida, sim, é que nos humilha ao podar quase toda a fantasia.
Certa vez, já na minha adultícia, conheci um garoto de 10 anos que também gostava de jogar bola — como já gostei — entretanto, sabia mais sobre o sexo do que eu. Exageros à parte, o moleque era de origem muito pobre e morava com sete pessoas da família num barraco de dois cômodos. Naquele cubículo denominado casa, não havia água encanada, energia elétrica, comida suficiente para todos; a privada ficava do lado de fora (no escuro), tomava-se banho de cuia, e todos dormiam amontoados num mesmo cômodo, um valendo-se do calor de outro (os cobertores também eram minguados). Quem demorasse a pegar no sono, acabava por testemunhar os gemidos sem dor dos pais. Agitação na penumbra.
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Dá prazer e ânimo saber que o escultor e adorador da natureza Frans Krajcberg continua criando intensamente aos 90 anos. Ele e Franz Weissmann, que morreu em plena criação aos 94 anos, sempre foram considerados loucos, escaparam dos hospícios onde a sociedade manda enjaular seus mais geniais artistas.
...E também lúdico, minha gente. Fruir o lúdico joyceano. É o mínimo que “Finnegans Wake” espera de nossa parca inteligência. Fruir (vide mestre Aurélio) é “estar na posse de”. Se você não toma posse do texto, nada possui ou extrai dele; deixa, então, que o texto lhe possua. Esteja possuído, e já se dê por satisfeito. “Tirar de uma coisa todo o proveito, todas as vantagens possíveis, e, sobretudo, perceber os frutos e rendimentos dela”, prossegue mestre Aurélio, arremetando que fruir é desfrutar. Desfrute, ó falso leitor — “hypocrite lecteur”, diria Baudelaire.
“Não seja tão grosseiro”, ele recomendou que eu evitasse trocadilhos, comentários depreciativos, tentativas de fazer piadas com a fé alheia nos meus textos literários. “Se você não crê em Deus (ele disse assim) é problema seu. Esmere-se nos textos tristes. Gosto muito dos seus textos tristes”, emendou, percebendo o meu abatimento subitâneo após a “crítica construtiva”.
Dezoito dias para escrever este texto. Quem me conhece e trabalha comigo, sabe que isso é quase uma eternidade no mundo de Carolina. Normalmente, no minuto em que uma pauta é proposta, o gancho surge e o texto sai. Mas não desta vez.
Ocorreram inúmeras manifestações no planeta no dia 11 de setembro de 2011, data em que se reverenciaram os 10 anos desde o ataque formidavelmente morticida ao World Trade Center, quando aviões lotados de gente e raiva foram arremessados contra as Torres Gêmeas.
É isto que dá a gente conversar com estranhos. Mas, considerando que somos todos muito estranhos — e nem adianta você remexer na cadeira a negar o óbvio — eu prossegui o colóquio com aquela estranha mulher na lanchonete do cemitério.
Isso não é privilégio de nossa cidade. Cenas idênticas tenho visto em toda parte. Mais fácil acreditar que seja característica de nosso tempo. O beijo de bico de minha época, que os jovens de hoje apelidaram de “selinho”, o beijo de boca, discreto ou cinematográfico, isto é, de perder o fôlego, de todos conheço como de todos experimentei. Sem esquecer o beijo de língua, o mais sensual de todos. Poderia ser chamado de beijo-véspera com muita propriedade. Pois outro dia fiquei assombrado ao presenciar um beijo de língua. Não por ser muito moralista, é que o beijo se deu entre uma garota e um cachorro. Meu liberalismo tem limites e meu estômago é fraco.
Obrigado por não trocar de página, obstinado leitor. Ao contrário do que a saga moralista possa supor, o título nada mais é que arapuca para se atrair os olhos. A expressão chula ao final da frase (cujo significado seria “de jeito algum”; “em nenhuma hipótese”), que para muitos soará grosseira e dispensável, vocábulo fuleiro largamente utilizado entre quatro paredes até pelos mais pudicos amantes (ou indecentes gestores corruptos), a mim pareceu bem cabível, a despeito das recomendações maternoeditoriais e comichões do bom-mocismo. Prossigamos.
Lembro-me de meu pai, depois do almoço, contando coisas da vida para os filhos. Lembro-me dele contando que o Coelho Neto tinha uma fascinação tão grande pela palavra inusual, imprevista, pela palavra desconhecida, que, ao ouvir qualquer uma delas, tratava logo de anotá-la para uso futuro. Contava meu velho que certo dia, sem papel à mão, o escritor anotou a palavra no punho engomado da manga da camisa.