Desenho de  Wendy MacNaughton
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POR EM 30/09/2011 ÀS 03:21 PM

Menino de 10 anos atira em professora, mas acerta a cara da gente

publicado em

Pensem num moleque ingênuo, quase besta. Aos 10 anos, forçado pela dura realidade dos dias, eu até já deixara de acreditar que Papai Noel existisse. Mas mantinha incólume a minha confiança em Deus, na cegonha e na canhotinha salvadora do Rivelino.

Com a mente agitada de tanta fantasia, eu chutava a bola de cobertão sobre o asfalto, escalavrava os dedões do pé e sonhava ser jogador de futebol (até aqui, nenhuma novidade, certo?!).

Os meus pensamentos eram tão elásticos quanto o “drible do elástico”, muito utilizado pelo craque bigodudo para humilhar os zagueiros. Mas a gente cresce, perde a inocência, a elasticidade, o cabelo, os dentes, e quase perde os objetivos também. Enfim, descobrimos que a vida, sim, é que nos humilha ao podar quase toda a fantasia.

Certa vez, já na minha adultícia, conheci um garoto de 10 anos que também gostava de jogar bola — como já gostei — entretanto, sabia mais sobre o sexo do que eu. Exageros à parte, o moleque era de origem muito pobre e morava com sete pessoas da família num barraco de dois cômodos. Naquele cubículo denominado casa, não havia água encanada, energia elétrica, comida suficiente para todos; a privada ficava do lado de fora (no escuro), tomava-se banho de cuia, e todos dormiam amontoados num mesmo cômodo, um valendo-se do calor de outro (os cobertores também eram minguados). Quem demorasse a pegar no sono, acabava por testemunhar os gemidos sem dor dos pais. Agitação na penumbra.


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POR EM 30/09/2011 ÀS 03:21 PM

Teatro da crueldade

publicado em

Antonin ArtaudDá prazer e ânimo saber que o escultor e adorador da natureza Frans Krajcberg continua criando intensamente aos 90 anos. Ele e Franz Weissmann, que morreu em plena criação aos 94 anos, sempre foram considerados loucos, escaparam dos hospícios onde a sociedade manda enjaular seus mais geniais artistas.

Krajcberg vive numa casa construída sobre uma árvore e os vizinhos da região de Nova Viçosa recomendam “não mexer” com ele porque é no mínimo temperamental. Esta é a palavra, temperamental, que a sociedade encontrou pra rotular os que antes ela chamava loucos e estrangulava nos hospícios. Ainda os considera assim, mas atualmente foi enquadrada na lei do politicamente correto e tratou de arranjar outros nomes pros loucos que ela despreza como desprezou e “suicidou” Van Gogh, Nietzsche, Baudelaire, Artaud... Sou da mesma família desses loucos, apenas sem o gênio deles, sempre fui catalogado como louco por não respeitar certas normas sociais obrigatórias. Houve uma época em que fui psicanalista de consultórios montados no Rio e Petrópolis que “justificavam” qualquer loucura que eu cometesse. Diziam: “É doido assim porque todos os caras que trabalham nessa área psi são malucos mesmo” — e tudo ficava seguro, bem explicado - o velho clichê da classe média passiva e acomodada que explica comportamentos que ela desconhece ou não concorda e os classifica como loucura. 


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POR EM 24/09/2011 ÀS 11:07 AM

Dá-lhes, Joyce!

publicado em

...E também lúdico, minha gente. Fruir o lúdico joyceano. É o mínimo que “Finnegans Wake” espera de nossa parca inteligência. Fruir (vide mestre Aurélio) é “estar na posse de”. Se você não toma posse do texto, nada possui ou extrai dele; deixa, então, que o texto lhe possua. Esteja possuído, e já se dê por satisfeito. “Tirar de uma coisa todo o proveito, todas as vantagens possíveis, e, sobretudo, perceber os frutos e rendimentos dela”, prossegue mestre Aurélio, arremetando que fruir é desfrutar. Desfrute, ó falso leitor — “hypocrite lecteur”, diria Baudelaire. 

Ousaria eu até dizer que, “a priori”, não se trata tanto de entender o quebra-cabeça, mas de fruir e deixar-se fluir com o “riocorrente” de Joyce. Girar com esta obra circular e infinita, feito o fluxo de um oito; vertiginosa e contorcida tal uma montanha-russa num parque de diversões. Trata-se, entre outras e tantas peripécias, de uma liberta e libertina linguagem, libertinagem linguística. É mesmo um labiríntico desafio, quebrando tabus, tradicionais convenções de narrativa. O peralta irlandês nos armou uma direitinho. Até (se bem me lembro), desafiando a sapiência crítica, deu prazo de trezentos anos para que “Finnegans Wake” seja entendido. Se bem que, vamos e venhamos, a coisa não seja bem assim. Talvez Joyce não seja para qualquer um. Eh, não se encrespem, estou brincando, dentro do espírito de que “Finnegans Wake” é, por acréscimo, uma folia, um brinquedo linguístico (literatura é, também, um brinquedo). Livro lúdico, lírico, telúrico, mítico, ôntico, poliédrico, polissêmico, polifônico, é um florilégio literário, e um sortilégio, no sentido de sedução e fascínio por artifícios do intelecto, no reino febril da criação com ideias e palavras. Um jorro de figurações e fulgurações, cristais e vidrilhos, fantasias, filigranas, epifanias, mitologias, história, lendas, ficções e realidades múltiplas. Um artefato mental de Joyce, estilhaçando o trivial da literatura. 


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POR EM 23/09/2011 ÀS 01:57 PM

Dia Mundial Sem a Humanidade

publicado em

“Não seja tão grosseiro”, ele recomendou que eu evitasse trocadilhos, comentários depreciativos, tentativas de fazer piadas com a fé alheia nos meus textos literários. “Se você não crê em Deus (ele disse assim) é problema seu. Esmere-se nos textos tristes. Gosto muito dos seus textos tristes”, emendou, percebendo o meu abatimento subitâneo após a “crítica construtiva”. 

As críticas construtivas acabam por me destruir um pouco mais. Eu me abato facilmente. Fazer o quê? A vida é assim mesmo, uma infindável desconstrução, “uma coleção de perdas”, como diria o escritor Edival Lourenço. 

Para encerrar o papo, meu quase algoz amigo Léo Galinha comentou, com todo o desdém peculiar a um homem de convicções políticas extremistas, que o discurso da Presidente Dilma na ONU fora uma “porcaria”. “Você viu?”.  Não, eu não vi. 

Pela primeira vez na história, uma mulher fora incumbida de abrir a Assembleia Geral das Nações Unidas. “Do jeito que as coisas estão caminhando, já-já vão colocar um presidente viadinho pra discursar na ONU, porque um analfabeto já fez isto, você sabe...”, completou o meu carrancudo interlocutor desprovido de qualquer compaixão crstica. Não, eu não sabia.  Mas o assunto de hoje não é o marco histórico cravado pela Presidente do Brasil — uma mulher brasileira convalescente de câncer linfático e que abdicou da autocomiseração para se manter no complexo e muitas vezes mal cheiroso xadrez político — no plenário mais importante do planeta, muito menos, as admoestações de Leontino Damaceno Beltrão e Silva, mais conhecido no bairro como Léo Galinha, por conta da sua avidez pela mulherada acima de quarenta quilos, embora seja “casado há séculos” (este chiste é de autoria do próprio). 


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POR EM 22/09/2011 ÀS 10:58 PM

Escrever sobre Deus? Mas Deus não existe

publicado em

Dezoito dias para escrever este texto. Quem me conhece e trabalha comigo, sabe que isso é quase uma eternidade no mundo de Carolina. Normalmente, no minuto em que uma pauta é proposta, o gancho surge e o texto sai. Mas não desta vez.

Primeiro porque eu, como total e absoluta descrente, acho que explicar porque não acredito em Deus é inútil e em si uma contradição. Seria como explicar não acreditar que vacas voam. Vacas não voam, ponto. Os que acreditam que voam que expliquem o por quê. Cabe a mim dizer: cadê vaca no céu? E nem percam tempo argumentando que o amor também não existe materialmente mas muda as pessoas e a vida delas. O amor é outro departamento, passa longe de autoridade onipresente-ciente. O amor nasce no nosso umbigo, cresce e vai viver no umbigo dos outros. A noção de Deus não me faz falta.

O Seinfeld diz em um stand up que as pessoas lembram de Deus quando estão jantando na casa de alguém, usam o banheiro e a descarga não funciona. Faz piada com o desespero que toma conta do pobre que se pega em uma encruzilhada, sem poder fazer muito a respeito, e sem ter coragem de encarar os outros partícipes. O pai da merda se volta ao sobrenatural e espera um milagre. Isso já me aconteceu, e Deus não cruzou meus pensamentos. A única coisa que passou pela minha cabeça durante os infindáveis 12 minutos em que fiquei ali dentro: usar ou não usar o cesto de lixo como balde, encher de água na pia e simular uma descarga? Usei. Duvido que quem acredita que exista Deus solucionasse a coisa sobrenaturalmente. Deus não vai ligar a água do prédio.


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POR EM 16/09/2011 ÀS 01:35 PM

Como derrubei duas torpes gêmeas no dia 11 de setembro

publicado em

Ocorreram inúmeras manifestações no planeta no dia 11 de setembro de 2011, data em que se reverenciaram os 10 anos desde o ataque formidavelmente morticida ao World Trade Center, quando aviões lotados de gente e raiva foram arremessados contra as Torres Gêmeas.

As cenas incríveis das aeronaves penetrando nas torres, como se elas fossem de pudim, são as mais contundentes que eu já vi, desde que um útero revolto em cólicas expeliu-me do seguro arcabouço materno para me apresentar, a muito contragosto, as agruras do mundo. Há dez anos, eu imaginei que seria a deflagração da nossa última guerra mundial. Mas a estúpida saga do Homem na Terra não encerrava ali. 

Ao homenagear as vítimas do massacre binladesco, muitas lágrimas rolaram em rostos convulsionados de saudade, mas houve também quem comemorasse a data com danças, bebidas e rajadas de metralhadora, como se fora um 04 de julho às avessas.

Não. A estória que passo a descrever a seguir não se trata de mais um devaneio de cronista sem inspiração plausível, ou um desagravo à miséria humana, aos que foram soterrados vivos em Nova Iorque, às famílias enlutadas, aos vultosos danos materiais do Pentágono ou à impensável crise financeira norteamericana advinda ao ataque. Tampouco foi psicografada a partir dos depoimentos fantasmas de Obama Bin Laden, ou melhor, Osama Bin Laden (eu sempre a me atrapalhar com obamas e osamas...).


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POR EM 09/09/2011 ÀS 12:38 PM

Velório singular narrado na 1ª pessoa

publicado em

É isto que dá a gente conversar com estranhos. Mas, considerando que somos todos muito estranhos — e nem adianta você remexer na cadeira a negar o óbvio — eu prossegui o colóquio com aquela estranha mulher na lanchonete do cemitério.

E querem saber de um pensamento pra lá de estranho? Tenho nojo de comer esfirras de carne naquele recinto. Coisa esquisita? Pois é. Eu bem que os avisei. Foi assim a nossa conversa. Abre aspas...

Indeusde muito cedo, eu sempre quis fugi de casa. O sinhô sabe que a televisão noticia um monte de criança desaparecida todo santo dia, né não?! Pois é, muitas dela fais é fugi de casa. Tem casa que é um verdadero inferno, dotô...

Que nem a minha, por exemplo. Ele bulia comigo inquando eu tinha cinco, seis ano, nem me alembro mais. Mamãe sabia de tudo. Teve um dia que criei corage e contei dos abuso pra ela.

Ralhô tanto comigo, ela ficô tão braba que prometeu uma surra de vara de goiabera se eu falasse traveis no assunto. Num sei se ela tamém tinha medo do pai do mesmo tanto que eu tinha. Batê nela ele num batia. Nunca vi ele encostá a mão na mamãe, nem pra machucá, nem pra fazê carim tamém. Hoje eu penso: o mais provave é que ela tentasse mantê as aparença e o marido. Naqueles tempo nóis morava na roça e as coisa tava muito difice. Teve uns dia de a gente não tê o que comê na despensa de casa. É ruim demais em a gente passá fome. Cê já sentiu fome argum dia, dotô? Fome de justiça, não. Fome de comida, eu tô dizeno. O sinhô já sentiu um oco na barriga treis dia seguido?


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POR EM 09/09/2011 ÀS 11:38 AM

Falando de amor

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Isso não é privilégio de nossa cidade. Cenas idênticas tenho visto em toda parte. Mais fácil acreditar que seja característica de nosso tempo. O beijo de bico de minha época, que os jovens de hoje apelidaram de “selinho”, o beijo de boca, discreto ou cinematográfico, isto é, de perder o fôlego, de todos conheço como de todos experimentei. Sem esquecer o beijo de língua, o mais sensual de todos. Poderia ser chamado de beijo-véspera com muita propriedade. Pois outro dia fiquei assombrado ao presenciar um beijo de língua. Não por ser muito moralista, é que o beijo se deu entre uma garota e um cachorro. Meu liberalismo tem limites e meu estômago é fraco.

O que a língua andou limpando momentos antes  ou se a proprietária contraiu cinomose, nada disso importa na hora do beijo, que é a demonstração maior de carinho. Aliás, me cochichou agora meu anjo da guarda, dizendo que cinomose é doença de cachorros e não costuma acometer mocinhas que os beijem. Na boca e com algum requinte cuja razão desisti de entender. Mas antes que me acusem de anticanino, devo declarar que sempre amei os cães e foram muitos os que tive. E juro que nunca usei de crueldade com eles. Se não foram inteiramente felizes em minha companhia, é porque não entenderam que em nossas relações jamais abdiquei de meus direitos. Mesmo quando os afagava, e o fazia com frequência, mantinha alguns princípios, como o da hierarquia, em vigor. 


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POR EM 02/09/2011 ÀS 11:31 AM

Cuidado: texto contaminado. Não leia nem fodendo!

publicado em

Obrigado por não trocar de página, obstinado leitor. Ao contrário do que a saga moralista possa supor, o título nada mais é que arapuca para se atrair os olhos. A expressão chula ao final da frase (cujo significado seria “de jeito algum”; “em nenhuma hipótese”), que para muitos soará grosseira e dispensável, vocábulo fuleiro largamente utilizado entre quatro paredes até pelos mais pudicos amantes (ou indecentes gestores corruptos), a mim pareceu bem cabível, a despeito das recomendações maternoeditoriais e comichões do bom-mocismo. Prossigamos.

Ao contrário de mim, uma médica moradora de Sobradinho teve intenção verdadeiramente repelente ao fixar um cartaz no portão de casa com os seguintes dizeres ameaçadores: “Muro contaminado com sangue HIV positivo. Não pule”. Sem dúvida, muito mais criativo e impactante que o tradicional “Cuidado: cão feroz”.

A mulher experimentou notoriedade nos últimos dias, não pela descoberta de alguma técnica inovadora para se colar os ossos (a doutora é ortopedista), mas, sim, pela placa aterradora e por ter colocado sobre o muro da sua casa um sem número de seringas supostamente contaminadas pelo vírus da AIDS (haja sangue e gosma!). Ainda bem que ela teve o bom senso de não despejar sêmen contaminado com treponemas nos ladrilhos. Quem não tem fosso com crocodilos se vira mesmo é com micróbios. Parafraseando o cantor popular Nando Reis, somos os cegos do castelo.


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POR EM 29/08/2011 ÀS 10:29 AM

Estética literária

publicado em

Lembro-me de meu pai, depois do almoço, contando coisas da vida para os filhos. Lembro-me dele contando que o Coelho Neto tinha uma fascinação tão grande pela palavra inusual, imprevista, pela palavra desconhecida, que, ao ouvir qualquer uma delas, tratava logo de anotá-la para uso futuro. Contava meu velho que certo dia, sem papel à mão, o escritor anotou a palavra no punho engomado da manga da camisa.

Poucos anos mais tarde, os jovens iconoclastas do Modernismo levantaram a bandeira da fala das ruas, da literatura que se aproxima da fala popular.

Diante de tais extremos, não há como não lembrar Machado de Assis. Em seu texto “Instinto da Nacionalidade”, pontifica o mestre: “Mas se isto é um fato incontestável, e se é verdadeiro o principio que dele se deduz, não me parece aceitável a opinião que admite todas as alterações da linguagem, ainda aquelas que destroem as leis da sintaxe e a essencial pureza do idioma. A influência popular tem um limite, e o escritor não está obrigado a receber e dar curso a tudo o que o abuso, o capricho e a moda inventam e fazem correr. Pelo contrário, ele exerce também uma grande parte de influência a este respeito, depurando a linguagem do povo e aperfeiçoando-lhe a razão.”  Ele acabava de dizer, no parágrafo anterior: “Não há dúvida que as línguas se aumentam e alteram com o tempo e as necessidades dos usos e costumes.”


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