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POR EM 11/07/2009 ÀS 09:04 AM

África negra: a história dos vencidos

publicado em

Em seu livro “História da África Negra” o historiador e professor Jean-Marie Lambert leva-nos à conclusão de que o trágico caminho sofrido pela África negra  tinha como razão fundamental não só a cobiça e a selvageria com que a “civilizada Europa” e, mais tarde, o “democrático” Estados Unidos faziam de sua estabilidade e prosperidade econômica o nefando comércio de pessoas condenadas, à força de brutal violência, ao trabalho servil. É desolador constatar que contribuíam para o sucesso do próspero segmento mercantil a inexistência de um sentimento de unidade africana.

Não existia a sensação de pertencer a uma mesma realidade ou a universo de interesses por oposição ao mundo externo. O pan-africanismo e filosofias afins apareceram em épocas recentes e ainda têm dificuldades para penetrar o espírito popular. “Não é sem razão que, até há pouco, 4 milhões de sul-africanos de origem holandesa conseguiam dominar 25 milhões de negros através do regime do apartheid”. Tendo sido, uma associação internacional de riscos e lucros, como enfatiza o autor deste livro, “o escravismo teve o próprio povo africano como ator voluntário, no processo.

Os negros comprometidos com o tráfico não eram vítimas de um papel que não entendiam. Pelo contrário, o compreendiam tanto quanto seus parceiros europeus. Aceitavam seus desafios e exploravam suas oportunidades”. Tal constatação, aterradora, sem dúvida, lança a visão de quem nem só os brasões assinalados vindos da ocidental praia lusitana saíam a fazer bramuras e malvadezas pelo mundo, aí incluindo a mãe África, onde iam buscar homens livres, tornados escravos, à força de fuzis, pelos próprios africanos.

O nefando comércio do escravismo, que durante muito tempo forneceu mão de obra servil à “máquina de gastar gente”, no dizer de Darcy Ribeiro, teve momentos de heróica resistência, por parte da população negra, como a da luta de libertação nacional, dos Mani Congos, no coração da África negra, em 1665 – fato omitido pela historiografia oficial que, para Jean-Marie Lambert, “ajeita o passado para atender objetivos políticos presentes...) Fuzil, escravo, açúcar... uma ciranda infernal, que fez as fortunas européias. Era normal enriquecer através deste circuito sórdido, porque não havia outra maneira de ficar rico. Os povos da África Ocidental pagaram o mais elevado tributo à formação do capital europeu, mas os historiadores da Sorbonne  se esqueceram de registrar o fato”.

Há muito mais a ler, de modo a que o leitor não se canse de admirar, espantar e se indignar; admiração pelos vastos - e pouco difundidos pela visão eurocêntrica da História Oficial- conhecimentos sobre a África Negra e o selvagem processo de  expropriação da liberdade e da dignidade humana, que se abateu sobre o universo banto. Depois de promover verdadeira faxina nos mitos tradicionalmente utilizados para a apreensão da história africana, o autor debruça-se sobre o contexto geral, focalizando a antiguidade e a idade média; e aí repete-se a estratégia do colonizador branco, jogando africanos contra africanos, e indianos contra indianos, fazendo com que os colonizados se matassem uns aos outros.

Tal lógica absurda dá razão a Jean Paul Sartre, quando afirmou: “Quando os ricos fazem a guerra os pobres é que morrem”.  Fazendo uso de sólida erudição, fundada em sólida pesquisa documental, esta obra, de fascinante e enriquecedora leitura, é uma contribuição de grande valor para o aprofundamento dos conhecimentos sobre  tão vasto e ainda pouco explorado tema.    
 


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POR EM 11/07/2009 ÀS 09:04 AM

...e o gambá sobe ao céu!

publicado em

Para boa parcela dos habitantes de Mundocaia, gambá tem alma e, no tempo devido, sobe ao céu. Essa crença não vem de tradições vetustas, tampouco de jecas superstições. O fato é novo e eminentemente urbano.
 
Há duas décadas, ali na Av. Carambas, próximo à Praça dos Trogloditas, um gambá saiu de um quintal, em fuga de uma matilha enfurecida. Alcançou um lote baldio e achou um toco de cerca de dois metros e nele subiu no desespero. Ali no alto se resguardou, olhando os cães danados rosnando e latindo lá em baixo.

A intenção dos cachorros era deixá-lo nervoso até que se desarrumasse e caísse no chão para ser esmiuçado. O gambá, mesmo se caísse, contava ainda com uma arma: sua bomba feroz de fedentina. Mas os cães estavam dispostos a enfrentá-la.

Três dias e três noites foi o tempo que os cães revezaram-se na vigília ao marsupial. Mas finalmente começaram a perder o interesse. Um se afastava para mijar e de lá escapava de fininho. Outro ia em casa com desculpa de  beber água e lambiscar alguma coisa e não voltava mais. Ao final desse tempo o interesse dos caninos se esvaziou total, quando uma cadelinha no cio passou esbanjando charme e a matilha remanescente sai toda em perseguição de outro interesse mais premente.

Três dias e três noites foram o bastante para deixar o fujão desidratado e fraco de fome. Olhava pro chão e sentia vertigem, sem coragem de saltar. Gambá, em seu normal, já tem dificuldades de descer de toco. Naquele estado então, parecia uma tarefa sem jeito.

Finalmente se entregou ao cansaço e dormiu. Sem acordar, entrou em coma. Sob o castigo do sol, veio a óbito. E ali secou feito um bacalhau com cabeça. Uma coruja, reivindicando posse do lugar, derrubou o corpo no chão, nas abas de um cupinzeiro. Os cupins cuidaram logo de encobri-lo.

Algum tempo depois, passavam por ali à noite, saídos de um evento, o pastor Walkid (fundador e presidente mundial da Igreja Cuidado com o Cão dos Últimos Dias), o delegado Kantídio e alguns outros figurões que dão orgulho à cidade.

Foi então que viram uma claridade se reunir a partir do chão, de um ponto bem definido, organizar-se em uma bola colorida, bailar ao sabor do vendo e depois zarpar verticalmente rumo ao infinito.

Aproveitando da coragem do delegado e de sua lanterna Led light, entraram no lote, identificaram o ponto de onde a luz brotou e com ferramentas improvisadas, localizaram os ossos do gambá.

Sem ouvir as explicações do delegado, de que se tratava de fogo-fátuo esvaindo-se dos ossos, pastor Walkid  espalhou a seus fiéis que a luz era na verdade a alma do gambá subindo ao céu. Inclusive em suas homilias daí em diante ele afirma com cega convicção que o gambá só vem ao mundo para perder a catinga e voltar aos céus. E  que do mesmo modo o homem tem que perder suas catingas para um dia ver a face de Deus.  
 


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POR EM 11/07/2009 ÀS 09:04 AM

Valle a pena ler

publicado em

Eu gosto quase nada dos aforismos. Desgosto deles porque quase sempre expressam a verdade. E verdades incomodam como aquela que diz “santo de casa não faz milagre”. O escritor Fausto Valle enquadra-se neste seleto grupo de relegados.

Mineiro da sulfurosa Araxá, Fausto veio para Goiás ainda atado às fraldas. Percorreu o interior do Estado e há anos reside em Goiânia, capital bonita cada vez mais entupida de carros e motos (a idéia do Governo de baixar o IPI foi mesmo “ótima”...), e com um povo ruim de entender milagreiros. Fausto Valle criou a filharada zelando dos filhos dos outros. Foi médico pediatra renomado e professor na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás, onde ajudou a formar mais doutores.

Hoje em dia, septuagenário, com a saúde física naturalmente rateando, mas o cérebro fumegando acima dos cem graus Celsius, o escritor gasta tempo com atividades na maçonaria e, especialmente, enfurnado em seu apartamento confortável onde faz literatura de alta qualidade. Tem oito livros publicados, a maioria deles pelas editoras Kelps e RF, ambas situadas em Goiânia. Não adianta procurar pelos títulos nas prateleiras das livrarias do eixo sul-suldeste do Brasil que vocês não vão encontrar de jeito nenhum. Entrem em contato com as editoras e providenciem os seus exemplares (usem a internet, companheiros!).

Escrever é um exercício de perseverança e gana, para não dizer o vício da tolice. Além de pouco valorizado pelos seus pares goianos, Fausto ainda não conseguiu distribuir a sua obra fora das fronteiras, senão através da remessa pessoal de exemplares aos críticos literários e amigos escritores Brasil afora.

É aquela velha estória: escrever, publicar um livro, até que é fácil. Basta ser alfabetizado, ter noções básicas do “word”, e possuir algum dinheiro sobrando no banco. Difícil mesmo é colocar o livro dentro de uma livraria e fazer com ele chegue às mãos do leitor. Se o gênero for poesia, então, esquece. Os infames livros de autoajuda (sim, eu os considero infames), desde que tenham um título didático, chamativo, e uma capa bem produzida, correm o risco de venderem um pouquinho. Afinal, o povo está a cada dia mais aturdido e necessitado de placas que sinalizem aonde ir. Estamos perdidos...

Ao contrário do Senado e do Congresso Nacional, nem tudo são horrores. Fausto Valle tem visibilidade e reconhecimento junto ao público interessado em literatura que vagueia pela internet, inclusive fora do Brasil, em países nos quais se fala e se fere a língua portuguesa. Feri-la por descuido, até que é perdoável. Cruel mesmo é maltratá-la por preguiça e desinteresse.

Fausto Valle começou a se embrenhar na literatura pelas portas da poesia. É poeta dos bons, conforme se atesta nos livros “A fonte de sal”, “Cravos sobre a mesa” e “Aldeia absurda”. Absurda de verdade é aldeia goiana que vive buscando noutras plagas, por ignorância, desdém e preconceito, escritores que valham a pena serem lidos.

O poeta Gabriel Nascente, por exemplo, é outro que também produz literatura em território goiano, tem uma obra formidável subestimada pela comunidade local e por grande parte dos nossos educadores, estudantes, em especial, nas escolas particulares, mais preocupadas em sanar a inadimplência dos alunos caloteiros e os adestrar para o escroto suplício dos vestibulares, do que primariamente os educar. O poetinha Gabriel (este tem nome de anjo, mas também passa ao longe da santidade, graças a Deus...) possui mais de trinta livros publicados, é um poeta extremamente talentoso, mas fica teimando poesia aqui no Goiás. Contudo, o tema desta crônica não é o vate Gabriel. Voltemos ao Fausto.

Nos últimos anos, ele dedica o seu labor literário à prosa. Dos oito livros já publicados, três são constituídos por contos. “Além do vão da janela”, publicação mais recente, reúne vinte contos inéditos do autor. A antologia é um autêntico balaio de gatos (no melhor dos sentidos: balaio bom, gatos de raça) que deve agradar a todos os gostos. Uma colcha de retalhos bem cosida e que não deixa o leitor com os pés nem com as cabeças descobertas, à mercê das muriçocas ou da friagem. Predominam estórias ambientadas no meio rural e nas cidades interioranas, contudo, sem aquela chatice reticente do palavreado chulo e errôneo que se fala na roça, infestando os livros rotulados de “regionalistas”. Êita, rótulo maldito...

O livro “Além do Vão da Janela” parece bolsa de mulher. Há de um tudo ali dentro. Estórias fantásticas, o sobrenatural, violência nua e crua, maldade, traições, suicídio, crises existenciais e outros dilemas humanos com os quais nos identificamos. Além da diversidade que atrai e captura, na estrutura do livro se percebe a categoria do escritor, a sensibilidade e lirismo, além do evidente conhecimento de causa e da língua portuguesa. Pode-se dizer, sem a mínima intenção de depreciar, que o escritor sai disparando para todos os lados. É atirador de elite, pistoleiro experiente que mata dando vida (?!). O tiroteio dura o tempo inteiro, pois as estórias são construídas com esmero e técnica, invejados atributos dos autores competentes. Lê-se o livro numa só sentada. Enfim, uma obra que “valle” a pena, a tinta e o papel.

Quem se interessa pela literatura feita no cerrado goiano, sabe que Fausto Valle é um poeta que joga de titular na seleção dos escritores tarimbados. Parece ter pendurado suas chuteiras de bardo. Mergulhou fundo na prosa como se fora nas águas amareladas e barrentas do Rio Araguaia (é urgente que se preservem as matas ciliares, mas os bons escritores também!). Apesar de não ter formação acadêmica em literatura, estou convicto que o Fausto figura entre os melhores contistas da atualidade. Seu azar foi fincar raízes fora do grande “eixo do mal” que controla e monopoliza a literatura no Brasil. O pior pecado, entretanto, quem comete são os seus conterrâneos, leitores que negligenciam os bons autores da terra, bem ao estilo roceiro, como se fossem bezerros enjeitados. Os escritores inábeis que se autoelegem imortais em saraus baratos regados a “risoles” frios e refrigerantes “diet”, estes sim, devem mesmo ser apartados.

Fausto Valle, repito, não é santo. Apesar de viver próximo à cidade de Trindade (terra milagreira onde o povo temente peleja e reza), não opera milagres. Mas já deixou cravada a sua decente marca na literatura brasileira. Confiram.
 


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POR EM 04/07/2009 ÀS 10:09 AM

Não sou Flaubert nem Haussmann

publicado em

O jornalista Enio Vieira disse para o editor da "Revista Bula", Carlos Willian, que sou responsável pela desconstrução de um artigo de sua autoria, sob o pseudônimo de Haussmann.

Enio está enganado, pois nem mesmo li o livro que ele e Haussmann estão discutindo. Ele me deu de presente um livro de Paul Johnson sobre a história dos Estados Unidos, não o do autor em questão, que, insisto, não li. Não sou responsável pela desconstrução, assim como não são Eduardo Horácio e Irapuan Costa Junior. Haussmann é, na verdade, um professor universitário tão gabaritado quanto Enio. Com mestrado e doutorado. Seu conhecimento de literatura é, seguramente, maior do que o meu e de Enio juntos.

Posso não concordar com o que Enio escreve, mas não escrevo na seção de comentários da Bula, nem com meu próprio nome, nem com pseudônimos. Por um motivo bem simples: não tenho paciência e, como leitor infatigável (três a quatro livros por semana), não tenho tempo. Medo de polêmica claro que não é, pois quem escreve a coluna Imprensa, e por isso já foi vítima de achincalhe no "Diário da Manhã" (Suely Arantes foi usada por um jornalista metido a bonzinho e mais sujo do que latrina), precisa saber das coisas e ter coragem e não ter rabo sujo ou preso.

Enio e Haussmann são dois talentos notáveis e, apesar da refrega, é provável que tenham mais em comum do que pensam. Enio é de esquerda, mas Haussmann não é de direita. Não tem militância alguma, nem na faculdade. No máximo, é um livre atirador que sabe tudo ou quase de literatura inglesa, irlandesa, francesa, italiana e portuguesa (nem estou citando a brasileira). Além de ser cultor dos clássicos. Sua tese de doutorado foi escrita em inglês. Portanto, não é monoglota.

Enio trabalhou comigo no Jornal Opção, acompanhei seus primeiros passos no jornalismo, antes de ele passar pelo curso da Editora Abril e, depois, trabalhar em "O Globo" e em outras publicações. Fez mestrado na UnB, na área de literatura, o que lhe possibilitou, ainda mais, organizar o pensamento. Enio une o jornalista competente ao intelectual do primeiro time, que trafega bem nas áreas de literatura, política e economia. E, num mercado onde tantos se corrompem, é um profissional íntegro, que não se contamina pelos ambientes, o que resulta de sua sólida formação intelectual e, sobretudo, moral.

Como todo intelectual, Enio tem suas implicâncias (divirto-me e aprendo com elas). É crítico de Mario Vargas Llosa (tem razão em muito do que diagnostica na prosa recente do escritor peruano, mas a implicância maior talvez seja política, porque Llosa é liberal e, portanto, crítico da esquerda), Harold Bloom (implica com o fato de que os provincianos têm certo apreço pelo crítico literário americano. E com certa razão, pois Bloom virou uma espécie de vade mecum. O que aprecio em Bloom é sua paixão pela literatura, não pela teoria literária. Bloom lê os livros que comenta, sempre atentamente, e deixa a teoria literária para os acadêmicos. O que aprecio em Bloom, repito, é a leitura direta, não a leitura meramente orientada, bibliográfica, no mais das vezes, ideologizada) e Edmund Wilson (ótimo crítico, prosador de segunda). Enio talvez não concorde, mas "O Castelo de Axel", de Wilson, é um livro brilhantíssimo, escrito em cima da hora, quando "Em Busca do Tempo Perdido", de Proust, e "Ulysses", de Joyce, ainda estavam quentinhos. Escrever sobre Proust e Joyce, 87 anos depois da publicação de seus livros seminais, com uma ampla fortuna crítica à disposição, fica muito mais fácil. Mas, entre as décadas de 1920 e 1930, não era tão fácil assim. Era preciso contar apenas com o próprio talento para abrir fronteiras de leitura. Quando Charles Dickens havia se tornado uma espécie de José Mauro de Vasconcellos, autor de "Meu Pé de Laranja Lima", Wilson escreveu revalorizando-o — devolvendo-lhe o status de grande escritor, de Balzac dos pobres, por assim dizer. O mesmo fez com Hemingway. Assim como mostrou a importância de Abraham Lincoln para a literatura enxuta e não palavrosa dos Estados Unidos que, depois de passar por Mark Twain, desaguou em Hemingway. Tenho apreço por outros críticos, como Erich Auerbach, George Steiner, Frank Kermode ("Um Apetite Pela Poesia" é uma pequena obra-prima), Northrop Frye, Dolf Oehler (fino analista de Heine e, entre outros, de Herzen, o escritor russo inédito no Brasil e muito bem analisado por Isaiah Berlin, em “Pensadores Russos”), Vladimir Nabokov (finíssimo analista, infelizmente pouco divulgado no Brasil como crítico), Ezra Pound (sempre surpreendente, e às vezes superestimado) e T. S. Eliot (um crítico seguro e sereno). Não interpreto literatura e crítica literária de modo linear, ao modo evolutivo: quem vem depois não é necessariamente superior aos anteriores. O que seria do autor clássico se aceitarmos que quem vem depois é melhor?

Quando não está zangado comigo, por motivos injustos, Enio me liga e diz: "Você lê cada bomba". Tem razão. Por conta de minha curiosidade excessiva e insaciável, leio tudo, ou quase, desde Mario Puzo, um autor de segunda, ao "Ulisses", de Joyce (meu primeiro texto sobre Philip Roth data de 1987). Quando percebe que estou por demais envolvido com o baixo clero da literatura, Enio manda um e-mail e sugere alguma leitura, como "Amada", o belo romance de Toni Morrison. É uma espécie de "Cem Anos de Solidão" dos Estados Unidos. Depois de "Amada", li "Peróla Negra" (Editora Best Seller), "Jazz" (Editora Best Seller), o brilhante "A Canção de Solomon" (Editora Best Seller), "O Olho Mais Azul" (Companhia das Letras), "Amor" (Companhia das Letras) e "Paraíso" (Companhia das Letras). A dica de Enio é ouro puro e é possível verificar que a crítica de Bloom simplifica a obra de Morrison. Bloom percebe que Morrison é uma escritora de alto nível, mas sugere que seu feminismo, sua posição política, trava suas qualidades literárias. Não é justo. Sim, é possível perceber que a "política" de Morrison quase trava sua literatura, mas seu talento é tão poderoso, sua habilidade narrativa e sua percepção tão aguçadas que acabam por salvá-la. Isaiah Berlin diz algo parecido de Dostoiévski. Mas só é possível chegar a esta conclusão se se lê os livros, como fiz, obstinada e com prazer. A leitura sem prazer, como resultado de mera exigência acadêmica, acaba sendo empobrecedora. Fujo disso como o diabo foge da cruz.

Espero que tenha esclarecido a questão da autoria e que Enio deixe o rancor de lado e entenda que nós, que escrevemos tanto, devemos permitir que os leitores, críticos ou não, tenham suas opiniões sobre os nossos textos, que, publicados, não são mais nossos e, de algum modo, se tornam indefensáveis. Falo sobretudo de textos sobre literatura.
 


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POR EM 04/07/2009 ÀS 10:09 AM

A pátria patropi

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Mazaropi ou Glauber Rocha? O primeiro fez o papel do caipira paulista, falso ingênuo e esperto analfabeto que sabia compreender a desfaçatez do coronel, bem como a esperteza do político. O segundo fez cinema ideológico, politizado até os cabelos da película, colocando o cangaceiro como um herói popular, um vingador do Zé-povinho invisível dos sertões miseráveis e ressequidos do Brasil dos grotões. Embora Glauber, o gênio baiano, seja aclamado como gênio do cinema, e certamente o foi, em clássicos como “Terra em Transe”, ou em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, Mazaropi é o caso brasileiro de absoluto sucesso de público.

Tanto assim foi que ele chegou a ser diretor e produtor, além de ator de seus filmes, que levavam multidões as salas de exibição. Nem Xuxa, com todo o seu aparato publicitário, levou tanta gente a ver seus filmes quanto levou Mazaropi, na representação do caipira paulista, de andar grotesco, modos rudes e tacanhos, nada gentil com as mulheres, e sempre esperto e matreiro, em sua falsa rusticidade. Se tanta gente acorria a ver seus filmes é porque as populações urbanas do Brasil, recém-chegadas do campo, identificavam-se com as situações colocadas.

Interessante é notar que, tendo realizado seus filmes em época de intensa politização da arte, havendo quase uma obrigação de ser ou parecer de esquerda, jamais sua estética pendeu para este lado. Até porque não só o personagem, mas seu autor, era conservadores do ponto de vista político, embora propensos a criticar o coronelismo de nossas práticas de mandonismo político exercido em currais eleitorais, o povo sendo manietado e tangido como gado. Exatamente como hoje ainda se faz, não com surras, botinas e castigos, mas com salário família e cestas básicas, mantendo no curral do conformismo e da armadilha da dependência o exército eleitoral de reserva.

Como nesta vida tudo passa, passou o cinema novo, com sua estética esquerdizante, uma tendência obrigatória naqueles tempos, ao ponto de um cineasta de talento, como Walter Hugo Khoury, autor de um filme importante, como “Cidade Vazia”, ser não só esnobado, mas discriminado ou sabotado. Glauber Rocha continua a ser objeto de culto, venerado e idolatrado em círculos fechados da intelectualidade livresca, mas pouco visto, e praticamente desconhecido do povão que ele tentou retratar e defender, através de seu cinema “revolucionário”, tanto na forma como no conteúdo.

Mazaropi também passou, pois o modelo em que se baseou seu lendário personagem – o caboclo ingênuo e tosco, dos grotões do Brasil – há muito deixou de existir. Hoje ele vê os canais abertos de televisão, não perde uma novela, ou as versões do Big Brother, sendo obrigado a engolir a poesia paupérrima (de louvor às drogas e à bandidagem) de horrível hip hop. Os que não foram expulsos do campo pela mecanização da agricultura, agregados a pequenos e médios proprietários rurais, não dormem direito, morrendo de medo de serem atacados pelas hordas organizadas de baderneiros auto-apelidados de sem terra. De Mazaropi e Glauber Rocha passamos do estado de sítio para o estado de fazenda. O que já foi uma evolução considerável, ao menos no tamanho da calamidade.
 


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POR EM 04/07/2009 ÀS 10:09 AM

O marido da mulher-coisa

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Tavares passou dos trinta solteirão da silva xavier. Alcançou os quarenta e dos quarenta já ia passando, completamente insensível aos apelos do casamento. Não que fosse gay ou frio, tão pouco auto-suficiente, daqueles que se contentam com os orifícios artificiosos de mão, no sexo artesanal.

Ocorre que Tavares era detentor de uma fobia incontornável em relação à intimidade. Dormir na mesma cama respirando os vapores recíprocos, fazer duetos de tosse e outros sons escrotos, confundir os dejetos no mesmo pinico, escovas se abraçando no mesmo porta-trecos... essas coisas lhe causavam gastura.

Sem contar que pelava de medo de ter que enfrentar um diálogo e isso levasse a parceira ao fatal convite: Bem, vamos discutir a relação?! Não. Tavares jamais cairia numa armadilha dessas. Para suprir sua necessidade de fêmeas, ele as pegava nos bordéis, nos inferninhos, nas baladas. Com o cuidado de não repetir para não travar intimidades. Sexo só com estranhas.

Agora por último andou lendo essas revistas de psicologia vulgar e descobriu que existe um tipo de mulher que lhe despertou grande interesse: a chamada mulher-objeto ou mulher-coisa.

Em suas rotineiras garimpagens de fêmeas descobriu uma baixinha, de nome Leylane, que se enquadrava perfeitamente no que ele imaginava ser o perfil de mulher-coisa.

Com ela travou um relacionamento distancioso, artificial, sem nunca deixar que ela arrombasse os arames de seus feudos pudorentos. Entraram num jogo como se estivessem num túnel com um tigre correndo atrás: não havia outra opção que não fosse sair do outro lado. E sair do outro lado implicava cumprir os rituais do que mais lhe causava urticária: casamento.

Cumprindo as regras do jogo, Tavares desposou Leylane. Mas era público e notório que Leylane era uma típica mulher-coisa. Todo mundo sabia. Mas todo mundo mesmo. Inclusive o Estado, em suas ramificações burocráticas.

Depois da nupcial cerimônia, saíram numa viagem errática de lua-de-mel; o homem refratário e sua mulher-coisa.

Foi então que Tavares percebeu que a burocracia é um negócio mais pernicioso que um relacionamento íntimo. Como levava uma mulher-coisa, teve problema logo no posto do Ibama. Ali foi multado porque havia pegado uma mulher que não atingira ainda (e não iria atingir nunca) as medidas mínimas exigidas para a espécie.

Algumas dezenas de quilômetros depois foi novamente multado numa blitz do Inmetro, porque a coisa que levava não obedecia aos padrões métricos para aquele tipo de objeto.

Ao fim do dia, já cansados, suarentos e mal-cheirosos, Tavares foi interceptado numa barreira da Vigilância Sanitária. Onde não só foi multado, como teve sua mulher-coisa apreendida, sob a alegação de “impróprio para o consumo”. 


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POR EM 04/07/2009 ÀS 10:08 AM

Também escrevi sobre Michael Jackson

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Michael Jackson foi um artista popular fenomenal. Quando eu soube da sua morte, também fiquei triste, com aquela melancoliazinha de quem perde um amigo. Nas minhas contas, contudo, ele zumbizou na condição lastimável de morto-vivo (tal e qual em “Thriller”) durante, pelo menos, uns quinze anos. Foi quando acreditou que era deus e começou a se auto-mutilar, física e psiquicamente, com a anuência e colaboração dos amigos, parentes e profissionais médicos, todos fissurados na sua fortuna. Será que alguém diz verdades nos bastidores do “show biz?!
 
Não sou especialista e nem crítico musical, mas, como imitei bastante os passinhos de “moonwalker” nos anos 80 (naqueles tempos tive elasticidade nos músculos), julgo-me no direito de lucubrar a respeito. No meu ingênuo raciocínio de cidadão comum apreciador de música, tento compreender como é factível que pessoas tão próximas a este polêmico artista se eximiram de resgatá-lo para a vida real. Entregue ao ostracismo, ao aparente esgotamento de sua capacidade criativa e, provavelmente, ao efeito danoso dos analgésicos opióides e dos psicotrópicos, conforme se especula, o cantor degringolou no cenário musical. Ensaiava um retorno triunfante na Inglaterra, com a realização de cinqüenta shows, mas um provável acidente medicamentoso no percurso abortou o projeto de ressurreição do ídolo.
 
Ser uma figura célebre e rica parece mesmo assustador e daria um roteiro e tanto para um vídeo-clipe de suspense (como em “Thriller”, de novo). Tem-se todos os atos vigiados, por onde quer que se vá. É pavoroso que um ser humano fique atado à própria fama, perdendo as suas referências mais simplórias, duvidando das relações com as pessoas do seu convívio, desconhecendo quando provém o afeto desinteressado ou quando prevalece apenas a mais escabrosa relação de interesses. Sobreviver na fragilidade de um mundo particular tão falso não deve ser tarefa fácil.
 
A morte precoce do “rei do pop” suscitou em mim uma reflexão mais abrangente, do ponto de vista musical. O que, realmente inovador, há nas músicas brasileira e internacional? Quem está se esquivando das reinvenções ultrajantes e fazendo história? Quais são as “revelações” a apresentarem trabalhos relevantes que valham a pena ser ouvidos?
 
Fica aquela forte sensação que tudo parece tão igual e que as novidades são repetitivas à exaustão. Será resultado da velocidade da comunicação em nossos dias? Por exemplo: na internet, mídia mais acessada no planeta, encontra-se de tudo em termos musicais, desde os novatos incógnitos vendendo suas almas ao diabo para serem reconhecidos, até os artistas veteranos (alguns deles já mitigados pela artrose e Alzheimer) divulgando os seus “novos trabalhos”. Nem mesmo a decepção é novidade.
 
Percebo, então, um fenômeno mais ou menos comum entre os viventes da minha geração, homens e mulheres além dos quarenta anos de idade: grande parte busca refúgio e alento em CDs e discos de vinil antigos em busca de satisfação. Quando a coisa aperta, lá estamos nós escutando mais da mesma coisa: Elvis, Beatles, Stones, Creedence, Pink Floyd, Bee Gees, Clapton, Chico, Caetano, Miltom, Gil, Djavan, Bossa Nova, enfim, o bom e velho som remanescente dos anos cinqüenta até o final da década de oitenta (conta fechada a muito custo...).
 
Fico pensando quando e se acontecerá uma virada, uma revolução musical, um novo ritmo, uma nova batida, um artista com idéias criativas. O cenário musical parece esgotado e chato. Chatice por chatice, prefiro ouvir as coisas antigas. Neste espólio, ao menos se encontram letras inteligentes e harmonias muito bem elaboradas.
 
Esta sensação de tédio e falta de perspectiva me aflige, mas não ao ponto de impelir ao consumo de porcarias que a mídia oferece. Talvez, o fenômeno seja sintoma de uma era onde a velocidade da comunicação, a superficialidade, a banalização e a falta de conteúdo são atributos de um mercado com consumidores nada exigentes no que tange à qualidade.
 
É provável que muitos leitores me detonem afirmando que eu estou por fora e que tem sim muita coisa boa rolando aí no mercado, principalmente no “cenário underground”... Talvez este meu sentimento seja apenas implicância de um quarentão desatualizado, ou puro preconceito mesmo. No caótico panorama musical que se apresenta, tenho destroços seguros nos quais me agarrar. Mas o que dizer da moçada de hoje submetida a tanta música descartável de péssima qualidade? Quando eles revirarem os seus velhos arquivos musicais no computador (ou noutro tipo de mídia eletrônica do futuro), o que eles vão escolher para escutar assentados nas suas poltronas solitárias? Axé-music, sexy-funk ou canções urbanejas cantadas por duplas ordinárias?
 

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POR EM 04/07/2009 ÀS 10:08 AM

Olhaí, o Adauto

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Conheci o Adauto nem me lembro quando, mas sei que faz alguns anos. Ele foi meu aluno no terceiro ano do colegial. Ainda não tínhamos resolvido os problemas da educação mudando os nomes. Era, naquele tempo, primário, ginásio e colégio. Hoje já nem sei mais como chamam isso tudo. Quer dizer, até que sei, mas os nomes de agora são tão água morna com sal que prefiro esquecer.

Então conheci o Adauto numa sala de aula. Ele não era muito diferente dos seus colegas a não ser pelo fato de que usava piercing na asa da narina esquerda, tinha uma tatuagem colorida naquele músculo que desce do ombro para braço, meu deus, no ginásio eu sabia o nome de todos esses músculos! E os ossos, não me escapava um só, com o nome e a posição. Pois é, mas era assim o Adauto. Um jovem handsome. O inglês tem dessas coisas: mulher pode ser pretty, mas homem não. Nós por aqui costumávamos usar, quando se tratava de alguém do sexo masculino, uma locução perifrástica: um jovem bem apessoado.

O Adauto era alegre e extrovertido, namorador, muito bem humorado. Comecei a notar o Adauto porque toda aula ele pedia para contar a última. E ríamos de suas piadas, que geralmente eram engraçadas. Em seguida, depois de tê-lo notado por causa das graças que ele fazia, descobri que o Adauto era um quadrúpede. Simpático, mas quadrúpede. Pra somar dois mais dois, contava nos dedos. Ah, sim, e quando começaram as provas, que ele tinha de assinar, percebi que às vezes ele escrevia Adauto, mas quase sempre grafava o próprio nome como Adalto. Um dia, curioso, quis saber a razão. Sabe, psor (era assim que ele me chamava) certeza, certeza mesmo do nome certo eu não tenho. Então tanto faz.

Aqui no Brasil vivemos tropicaliamente a síndrome do tanto faz. Que deus nos proteja.

Alguns tempos depois, soube que o Adauto, ou Adalto, já que tanto faz, estava envolvido em negócios madeireiros na região amazônica. Me garantiram que tinha enriquecido e se tornara um grande empresário. Não duvido. O mundo é assim mesmo. Não que eu tenha feito opção consciente pela pobreza, mas não quis investir minha vida em acumular fortuna. Há quem o faça.

Pois bem, qual vocês acham que tenha sido o destino do Adauto? Ou tanto faz. Mordido por uma cascavel? Esmagado por uma sucuri? Assassinado com um tiro na testa ou com uma flecha no peito? Suposições erradas, todas elas. Ontem abri o jornal, coisa que não faço com muita frequência, porque os fatos pouco me interessam e as reflexões morrem de pura obviedade, e o que leio lá? O Adauto, ou Adalto, tanto faz, membro de uma Comissão de nossa Câmara Federal. E para dizer toda a verdade, não sou profeta, mas alguma coisa já me dizia, nos tempos em que ele fora meu aluno, que ele acabava assim mesmo. A continuar deste jeito, ainda chega a Presidente.  
 


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POR EM 27/06/2009 ÀS 06:13 PM

Uma nova doença

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Quem primeiro falou sobre Aids em Goiás, que eu me lembre, foi o escritor e dentista Carmo Bernardes, numa crônica no Diário da Manhã, no final de 1980 ou início de 1981. O nome ainda nem tinha sido chancelado e ele falava de uma doença esquisita, detectada na Europa,  que acabava com a imunidade das pessoas e estava relacionada com o fuque-fuque, a prevaricação, o rala e rola. Anotei isso porque li em primeira mão a crônica do Carmo, pois era revisor de textos, e também porque fui feito emissário de um conterrâneo de nome Lord Inário Bibelô, como a gente o conhecia lá em Saracutópolis, e que me contou sobre uma nova doença venérea que desgraçadamente propagou na região.

Na cidade estava surgindo uma legião de homens esquecidos, totalmente sem memória, e que estudos feitos na botica, que também era boteco, de Temisse Tocriste, relacionavam o Alzheimer caboclo com a fornicação com determinadas meninas do Cabaré de Ana Preta. Ficou constatado, por exemplo, que três delas, Aninha Tô Que Tô, Xandu e Margarida Bem Bem, estavam transmitindo a doença do esquecimento, muito pior que Aids, pois os homens saíam de lá totalmente perdidos e sem achar o rumo de casa.

Os que as famílias pegavam na rua, tudo bem, eram amparados e perdoados, mas muitos deles ficavam ao leo, jogados à própria sorte, que naquele caso era de muito azar.  Muitos que eram casados foram totalmente esquecidos pela esposa e eram alimentados na rua pela piedade de um ou outro parente. De forma que a legião de esquecidos cada vez aumentava mais e só não aumentou muito porque Temisse descobriu logo a doença e  confirmou que o vírus ficava incubado apenas meia hora. Era o tempo de o sujeito sair sem rumo.

Até descobrirem a causa da doença, a cidade começou a ser conhecida como Abilolândia. O prefeito mandou fechar o Cabaré de Ana Preta e expulsar as três moças contaminadas. Foram enxotadas da cidade como pesteadas. Não adiantou muito, porque outras mulheres foram também contaminadas e a doença se propagou silenciosamente. Os alto-falantes da “A Voz do Município” pediam cautela e invocavam o cuidado nas relações sexuais. A prefeitura distribuiu milhares de camisinhas de vênus, cremes vaginais antibactericidas e todas as mulheres foram convocadas a fazer exames de prevenção.

Quando o vigário do lugar, Frei Genésio Frifuso, foi contaminado, a paróquia entrou em grande desespero e a Casa Paroquial foi transformada em abrigo de esquecidos. As beatas faziam procissão, rezavam novenas, tridos e rosários, pedindo aos céus o fim daquela miséria. Como último recurso da fé, juntaram todos os homens atingidos, colocaram o Frei Genésio num andor e fizeram com ele uma procissão que percorreu os sete cruzeiros da cidade, onde foram rezados e cantados todos os benditos e ladainhas, e finalizada na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Desterro.

Na volta com o padre para a Casa Paroquial, uma chuva instantânea e inesperada, com trovões, relâmpagos e ranger de dentes, pegou todo mundo de surpresa e os homens atingidos pela doença venérea ficaram ensopados de água e recuperaram a memória. No entanto, todos se viram cegos do olho direito.
 


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POR EM 27/06/2009 ÀS 05:51 PM

O morto não presta

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Estou lendo o livro “Além do Vão da Janela”, do escritor Fausto Valle, uma coletânea de contos lançada recentemente na II Bienal do Livro de Goiás. A obra seduz ao ponto de me incitar a reescrever um conto há tempos adormecido na gaveta dos escritos expurgados, um autêntico purgatório onde poemas e outros textos meia-sola aguardam segundas chances. Muitos deles jamais se salvarão da minha negligência. Alguns serão colocados à prova, como o conto que agora eu lhes conto, invadindo o espaço das crônicas semanais na Revista Bula.

“ — Você está chorando pelo seu pai, mas creia: ele não merece as suas lágrimas. Você sabe, ele não prestava”.

A mulher interrompeu o pranto, estupefata, indignada com o comentário atravessado sem pé e nem cabeça. Sentada ao lado do vistoso caixão de maçaranduba, negociado às duras penas por mil e trezentos reais, ela se comportava com um cão de guarda, atenciosa e fiel como sempre fizera. Levantou a cabeça expondo um semblante lamentável daqueles que sofrem. Aprumou os olhos sepultados em olheiras para fitar a interlocutora.

“ — Seu pai foi deplorável. Todo mundo sabe disso. A imprensa, os vizinhos, os paroquianos... Enxugue o seu rosto, mulher.”

A sala estava repleta de gente, pessoas conhecidas, rostos estranhos também, e mais aquele vereador que nunca faltava a um velório sequer. O funeral seguia desanimado como tinha que ser. Vagaroso, entediante, quente e empestado com o fedor nauseabundo das flores a enxergarem o defunto. Quase sempre é mais fácil pagar do próprio bolso por uma coroa de rosas do que encarar os parentes ou o próprio morto.

O comentário descabido incomodou a moça que era filha única, a criatura mais descontrolada naquele antro. Não contava jamais que alguém viesse denegrir a imagem do pai num momento tão dramático, ocasião das mais inoportunas para desfilar fraquezas.

“ — Vim aqui pra lhe dizer aquilo o que a maioria dessa gente preferiria gritar aos quatro cantos da cidade, mas não têm coragem. Não vou mentir, querida. A morte do seu pai foi uma das melhores coisas que aconteceram nos últimos anos para a humanidade.”

A moça finalmente se levantou da cadeira, irada, disposta a enfrentar a antipática, a incógnita confidente a sussurrar nos seus ouvidos. Levantou tão depressa e estorvada que esbarrou o corpo num candelabro, derrubando-o no chão, por muito pouco não atingindo um bando de carpideiras a chorar pelo morto, ainda fosse ele um crápula.

“ — O que foi, filha?” quis saber a mãe, assustada com o lampejo da moça.
“ — É essa maldita mulher a me dizer coisas do pai”.
“ — Que mulher, minha filha? Que mulher?”.

Não avistara mais a enxerida. Teria ela fugido ou se acovardado para o embate? Quem seria aquela criatura inconveniente e tão íntima da verdade? Olhou aflita para o corpo. Ele tinha um semblante tranqüilo e parecia até mesmo sorrir, um misto de Gioconda com Al Capone. Abanou a mão trêmula quatro vezes, criando vento, afugentando uma indesejável mosca metálica a zunir sobre a pele fria do falecido. O rosto enigmático fazia crer que ele apenas dormia. Um mesmo sorriso endiabrado que ele botava na cara quando invadia o quarto para molestar o sono da filha.
 


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