África negra: a história dos vencidos
Em seu livro “História da África Negra” o historiador e professor Jean-Marie Lambert leva-nos à conclusão de que o trágico caminho sofrido pela África negra tinha como razão fundamental não só a cobiça e a selvageria com que a “civilizada Europa” e, mais tarde, o “democrático” Estados Unidos faziam de sua estabilidade e prosperidade econômica o nefando comércio de pessoas condenadas, à força de brutal violência, ao trabalho servil. É desolador constatar que contribuíam para o sucesso do próspero segmento mercantil a inexistência de um sentimento de unidade africana.
Não existia a sensação de pertencer a uma mesma realidade ou a universo de interesses por oposição ao mundo externo. O pan-africanismo e filosofias afins apareceram em épocas recentes e ainda têm dificuldades para penetrar o espírito popular. “Não é sem razão que, até há pouco, 4 milhões de sul-africanos de origem holandesa conseguiam dominar 25 milhões de negros através do regime do apartheid”. Tendo sido, uma associação internacional de riscos e lucros, como enfatiza o autor deste livro, “o escravismo teve o próprio povo africano como ator voluntário, no processo.
Os negros comprometidos com o tráfico não eram vítimas de um papel que não entendiam. Pelo contrário, o compreendiam tanto quanto seus parceiros europeus. Aceitavam seus desafios e exploravam suas oportunidades”. Tal constatação, aterradora, sem dúvida, lança a visão de quem nem só os brasões assinalados vindos da ocidental praia lusitana saíam a fazer bramuras e malvadezas pelo mundo, aí incluindo a mãe África, onde iam buscar homens livres, tornados escravos, à força de fuzis, pelos próprios africanos.
O nefando comércio do escravismo, que durante muito tempo forneceu mão de obra servil à “máquina de gastar gente”, no dizer de Darcy Ribeiro, teve momentos de heróica resistência, por parte da população negra, como a da luta de libertação nacional, dos Mani Congos, no coração da África negra, em 1665 – fato omitido pela historiografia oficial que, para Jean-Marie Lambert, “ajeita o passado para atender objetivos políticos presentes...) Fuzil, escravo, açúcar... uma ciranda infernal, que fez as fortunas européias. Era normal enriquecer através deste circuito sórdido, porque não havia outra maneira de ficar rico. Os povos da África Ocidental pagaram o mais elevado tributo à formação do capital europeu, mas os historiadores da Sorbonne se esqueceram de registrar o fato”.
Há muito mais a ler, de modo a que o leitor não se canse de admirar, espantar e se indignar; admiração pelos vastos - e pouco difundidos pela visão eurocêntrica da História Oficial- conhecimentos sobre a África Negra e o selvagem processo de expropriação da liberdade e da dignidade humana, que se abateu sobre o universo banto. Depois de promover verdadeira faxina nos mitos tradicionalmente utilizados para a apreensão da história africana, o autor debruça-se sobre o contexto geral, focalizando a antiguidade e a idade média; e aí repete-se a estratégia do colonizador branco, jogando africanos contra africanos, e indianos contra indianos, fazendo com que os colonizados se matassem uns aos outros.
Tal lógica absurda dá razão a Jean Paul Sartre, quando afirmou: “Quando os ricos fazem a guerra os pobres é que morrem”. Fazendo uso de sólida erudição, fundada em sólida pesquisa documental, esta obra, de fascinante e enriquecedora leitura, é uma contribuição de grande valor para o aprofundamento dos conhecimentos sobre tão vasto e ainda pouco explorado tema.
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