Desenho de  Wendy MacNaughton
revista bula

compartilhe



últimos comentários

  • Razões do Existir

    Quando nos deparamos com um mistério, um obstáculo intransponível à nossa lógica e entendimento, nossa insaciável necessidade pela compreensão nos compele a recorrer às divindades e ...

    8 horas atrás por João Carlos Figueiredo sobre Sim. Deus existe
  • É comovente o esforço que os ateus fazem para justificarem seu ateísmo...Mas não dá! O ônus da prova é de quem nega... ...

    13 horas atrás por Pedro Pinto de Arruda sobre O odor deletério de Dostoiévski
  • Teistas e ateistas, pouco me importam. Vale mesmo o indivíduo, dono do seu eu, senhor de si. Pronto para acreditar no que melhor lhe convir, pronto para servir-se da crença que lhe for favorável, apto ...

    1 dia atrás por Marcelo Pasqualin Batschauer sobre Sim. Deus existe
  • Gostei do texto, Denise. Parabéns.
    Face às definições sobre ateísmo que surgiram nos comentários, postarei a minha:
    Ateu: uma pessoa, um animal racional, que não conseguiu, depois de adulto, encontrar ...

    2 dias atrás por Frankly Andrade sobre Sim. Deus existe

últimas no twitter

  • @Alelex88 DM...
    4 horas atrás
  • Um gigantesco acervo da televisão europeia disponível on-line (conteúdo a partir de 1900): http://t.co/hT9URTMp
    23 horas atrás
  • Muhammad Ali x Ryu: http://t.co/fcF38dh7
    24 horas atrás
  • Google Insights: mapeie comportamentos e tendências de pesquisas feitas na internet: http://t.co/7JY7qT7a
    1 dia atrás
  • @DeniseRossi Pensando em algo audaz...
    1 dia atrás

parceiros

  • twitter rank


sugestões de livros

  • e eventualmente nojentas de casais escatológicos

sugestões de filmes

colunistas

POR EM 18/07/2009 ÀS 08:50 AM

O que realmente importa

publicado em


Cena 1 – Sala de apartamento classe média. Pai tentando ler.


Filha (7 anos, linda) — Papai, o que é guilhotina?

Pai (contrariado) — Hmmm?

Filha — O que é guilhotina, papai?

Pai (conformando-se com a interrupção, ma non troppo) – Guilhotina? Por que você quer saber?

Filha — Eu vi essa palavra numa revista sua.

(Era uma revista de história)

Pai — Guilhotina é um instrumento pra cortar a cabeça de uma pessoa.

Filha (assustada, ma non troppo) — Mesmo? Por quê?

Pai — Não se usa mais, foi muito usada na França, há muito tempo. Cortou-se um bocado de cabeças na época.

Filha — Por quê?

("Por quê?" é a pergunta fundamental. Esquecemo-nos disso, mas as crianças não)

Pai (querendo dar um fim na conversa) — Tinha uma moça que gostava de croissants e achava que bastava dar croissants pro povo, que ele quietava.

(Pausa. Pai volta aliviado pra leitura. Mas obviamente sua resposta tinha sido insatisfatória).

Filha — Papai, o que são croissants?


Cena 2 — Mesma sala do mesmo apartamento. Mesmos pai e filha.


Pai — (Cortando o charuto com uma guilhotina) — Tá vendo isso aqui? É uma guilhotina também. Corta a cabeça do charuto.

Filha (divertida com a utilização elástica da palavra) — E dá pra cortar o dedo também, né?

Pai — Dá isso aqui, que é perigoso menina.

(Pai acende o charuto e curte a música. Lacrimosa do Réquiem do Mozart. À sua frente alguns livros. Um deles é a análise do Anjo exterminador, do Buñuel, feita pelo Bráulio Tavares, ed. Rocco)

Filha (manuseando os livros) — Papai, o que é exterminador?

Pai (soprando a fumaça do charuto pra longe da menina) — É alguém que mata todo mundo (não lhe ocorreu explicação melhor, ia citar Schwarzenegger, mas achou melhor não).

(Filha pega a caneta vermelha que o pai sempre carrega para riscar seus livros enquanto os lê — ele não sabe ler sem riscar — e um pedaço de papel. Deixa o pai em paz por bem uns cinco minutos)

Filha — Papai, olha (mostra o desenho).

Pai — O que é? Deixa ver... (estuda o desenho por uns segundos — a filha, apesar da idade, desenha bem — certamente muito melhor do que ele). É uma nuvem e uma guilhotina em cima da nuvem?

Filha (toda contente porque o pai acertou na mosca seu desenho) — É o anjo exterminador.

(Pai desiste de ler. Apaga o charuto. Vai curtir a filha. O desenho fica guardado entre as páginas do livro. Daqui a uns vinte anos o pai abrirá esse livro e derramará uma lágrima. Ou muitas).
 


leia mais...
POR EM 18/07/2009 ÀS 08:50 AM

O Bordado da Urtiga

publicado em

Gilson Cavalcante é um poeta fino, tendo o aval das letras, e muito mais do sentimento, no seu enfrentamento corrosivo com a vida e suas vivências e pendências. Mesmo sendo suspeito para falar dele, pois somos parceiros, o faço com a maior tranquilidade e nenhuma culpa, tudo em nome da poesia e suas consequências. Para mim, Gilson é um poeta com fartura, carregando em sua criação a leveza inebriante de um material radioativo e corrosivo. Concordo com o poeta Carlos Willian Leite, quando diz no prefácio do recente livro “O Bordado da Urtiga” com o qual Gilson ganhou o prêmio da Bolsa de Publicações Dr. Maximiano da Matta Teixeira 2008, da Fundação Cultural do Tocantins, que ele é um “poeta que escreve com as vísceras”. Vão aí nesse espaço alguns novelos do “Bordado”.


SOU O QUE DESCONHEÇO      

Sou o que desconheço.

Desde cedo, muito cedo

inventei de vestir os avessos

dos caminhos e suas bifurcações.
 

Sou o que desconheço, sim.

É que o avesso me vestiu a

            Alma muito cedo.

Ando rasgando endereços,

        fugindo dos laços.

Mal amanheço.

Sou, sim, repito, o que desconheço,

o avesso do espelho nos olhos teus.

Por isso, me esclareço nas noites de insônia,

quando me entrego completamente

sem os adereços da hipocrisia.


E tem mais:

podem me achar louco,

lúdico, varrido.

Mas são nessas circunstâncias

que amo as pessoas,

os bichos, a natureza.

Nunca me dou por vencido.

O resto que me sobra

é asfixia e sombra.

Deixem-me partir,

   estou atrasado.

Levo para o futuro.

a fisionomia macia dos parafusos

vou apertar meu outro lado.
 

O SORRISO AMARELO  DE NARCISO 

O espelho quebrado

suicidou-me:

imagem transfigurada

ao lado de Narciso

exageradamente cego

em seu sorriso amarelo.
 

Dou-me ao vermelho

e seus martelos.
 

AS VIRTUDES DO VÍCIO

Pecar, pecar,

pecar até arder em chamas.
 

Pecar pelo que chamas

e nunca chega.
 

Pecar ao ponto

do carbono original

que a carne nutre

no paraíso das delícias.

A ser vício da serpente

Desfruto da árvore da volúpia

cabelos, cabides,

perfume e ócio.
 

Pecar é meu divórcio.



leia mais...
POR EM 11/07/2009 ÀS 09:05 AM

Paraíso prometido

publicado em

Mas e eu, ela pensava em língua estrangeira na escuridão interrompida apenas pela vela de luz precária. Em seus olhos o ódio pela última pessoa do mundo a mais de quarenta quilômetros. Suas mãos tremiam feridas enquanto o velho molhava a barba com lágrimas antigas. Nem morrer em paz se pode neste inferno, ele dissera ao ser derramado no chão batido da choça. Nem morrer e as lágrimas desciam mornas para a barba crespa. Mas e eu, gritava seu pensamento adolescente, e seu rosto jovem duro se estriava de lágrimas anoitecidas.

O banquinho de três pernas foi posto de pé, e Gustavo sentouse alisando a corda de embira que ainda abraçava seu pescoço. Gustavo, inteiramente envelhecido, desistente, sem direito algum, nem ao menos o de morrer. A coleira, de tão rústica, machucava os olhos e a tristeza da filha. Mas e eu, seu pensamento continuava insistindo, cada vez mais baixo.

Faltavam ainda algumas horas para o dia, e os catres ficaram esfriando, mudos e com cheiro forte de corpos doloridos de trabalho.

Mal se viam, dançando sombras nas paredes de varas e frestas, mal se olhavam rancorosos. Hilda, que tinha interrompido a fuga em vôo de Gustavo, a busca do além, precisava ainda carregar seus catorze anos nas costas e sentia impossível fazêlo sozinha onde habitavam cobras e pedras, e animais ferozes ficavam dia e noite à espreita. Gustavo, completando sua desistência, só não tinha contado com o barulho do banquinho, seu baque, ao ser empurrado pelos dois pés dependurados. Seus caminhos divergentes: o que restava de uma família, agora inteiramente bifurcada. 

As lágrimas secaram, tanto as velhas quanto as jovens, ambas salgadas do mesmo sal que vieram descobrir na América desconhecida: o paraíso prometido.

Além dos banquinhos rústicos, tãosomente dois, erguidos sobre três pernas magras, a mesa de tábua lavrada com o machado e o fogão de pedras, onde as latas com água fervente e a comida, em suas horas. No canto oposto à entrada, o pilão e a talha de barro; ele para apiloar, principalmente o arroz colhido na várzea, ela para saciar as sedes noturnas e outros embaraços. Por cima de suas cabeças, barrotes abarrotados de tentações, as que eles provocaram no velho por causa da altura. Nas varas internas, a parede separando, uma abertura para o quarto, o lugar de amontoar o corpo pesado de cansaço, e de chorar a terra um dia abandonada com toda a família em busca do sonho adulto. Mas e ela, com que poderia sonhar nos seus nove anos de idade além de bonecas loiras de olhos azuis? Apenas um biombo de varas separando pai e filha, na hora da saudade e do sono.

No primeiro destino, a colônia, todos falando a mesma língua, ainda sobravam os três, porque o casal de irmãos tinhamse extraviado pelo mundo, a irmã mais velha num trem europeu, fumacento, com rumo que sua idade não podia compreender, e o irmão, seguindo com o navio para as alturas, distâncias, os lugares que nem a imaginação conseguia configurar. E a mãe, com doença da viagem no navio, em menos de um ano deixoua sozinha com o pai.

Aqui não fico mais, ele dizia, molhando de baba e lágrimas o rosto frio e inorgânico da mulher deitada com os dedos cruzados dentro do caixão. Nunca mais Hilda se lembraria da mãe que não fosse daquela cor de entrar no céu, envolta pelo cheiro forte de flores murchas. A fumaça das velas. Quatro velas pobres ajudando o mortuório. Tarde da noite e alguns patrícios, companheiros de viagem, quase todos, falando baixinho para não perturbar o sono de ninguém. E o pai, num canto, dizendo que aqui não fico mais, numa língua que todos entendiam. Sem a esposa, agora ele queria de volta seus bosques limpos, sua neve e os rebanhos de ovelha. Mas como, se o paraíso era tão exigente, e não havia com que pagar a passagem de volta? Resumiu aqui, para significar somente a colônia onde estavam, que em poucos dias abandonaram para esquecer todos aqueles dias infelizes.

Com o trabalho de operário, na cidade, o paraíso encolhiase em excesso quase infernal, traduzido finalmente em comida três vezes ao dia, casinha em bairro pobre e aluguel rico, e pouco, muito pouco mais. Não foi isso que vim buscar, dizia o pai, e ficava triste. Nos curtos serões da cidade, Gustavo cantava com lágrimas nos olhos e contava como tinha sido sua infância de pastor. Maçãs, ele dizia, como não existem iguais no mundo. E a filha, aprendendo com os colegas de escola a língua difícil deles, entendia as recordações do pai, conhecia cada sílaba de sua voz meio estragada, e punhase a suspirar como se fossem também suas aquelas recordações.

Quando surgiu a oportunidade de ver o paraíso de perto, sua porta aberta, Gustavo hesitou. Voltava para casa, desfalcado da família, mas voltava a ver seus campos, onde pasciam rotundas ovelhas lanudas, sentia novamente o sabor das nédias maçãs, e sentavase ao pé do borralho enquanto a neve descia silenciosa de brumas insondáveis? Percorria as trilhas conhecidas de bosques limpos ou aceitava a gleba no sertão, ajudando este governo a povoar regiões desabitadas?

Hilda mexiase na cozinha, providências de dona de casa, sem contudo tirar o olho do pai, que nada dizia, porque já diziam seus olhos fixos num ponto qualquer da parede. Não consultou a filha, na hora da decisão, porque uma criança, se sonha, sonha com bonecas loiras de olhos azuis. E sua Hilda, mulher para o serviço de casa, era criança para ter opinião.

Até que um dia, o sol ainda bocejando, apareceu a carroça que os levaria até a gleba que lhes tocava. Dois cavalos fortes, de grandes patas e pernas possantes, sacudiam as caudas, parados na frente de uma casa pobre de bairro afastado. Machado, enxada, facão, foice, martelo, serrote e outras ferramentas fornecidas pelo serviço de imigração. Tudo num feixe padrão, promessa de desenvolvimento regional. Mantimentos para um mês, em caixas de tábuas claras e finas. Gustavo tremia muito ao conferir a carga com que se encaminhava para seu futuro.

Ao partirem, Hilda olhou várias vezes para trás lastimando tudo que deixava naquela casa, como sua cama, o fogão, sua primeira menstruação e as vizinhas, com quem já conseguia conversar. Fungava sentida como quem parte para o desconhecido, pois ela partia para o desconhecido. A carroça ia abarrotada, mesmo assim só levava o essencial.

A primeira cabana, os medos noturnos — vozes de um povo de animais demoníacos —  ventos e chuvas como jamais imaginara ver, o castigo do sol, tudo isso (o pavor de enfrentar uma natureza rebelde) eram coisas do passado. Como dois homens, puseramse a trabalhar, mal chegados ao morro que agora era deles. Sem vizinhos com quem discutir limites ou repartir o bolo de inhame. Sem conhecidos para quem se queixar de uma dor de dente.

Gustavo ia deixando de cantar, o corpo moído do trabalho, as lembranças entorpecidas. Chegava da roça arrastando as pernas, claudicando, e muitas vezes sem comer jogavase no catre à espera de que o sono o matasse um pouco, pelo menos por algumas horas. Hilda, atenta ao único ser humano com quem convivia inverno e verão, pensou que o pai já se esquecera das histórias de sua infância: bosque limpo, rebanho de ovelhas, nédias maçãs e a neve dos meses de inverno. Ele nunca mais falava sobre aquilo, não lhe contava mais como fora sua vida. Ele parece que aos poucos desaprendia de falar. Em qualquer língua.

Apesar de não ter sido consultada sobre enterrarse nas brenhas daquele sertão, ela conformavase com sua sorte, pois seu horizonte estreitavase em torno da família que lhe restara. Não era amor que a prendia àquele homem taciturno, mas a certeza de que sua sobrevivência dependia dele. Por isso acompanhou com preocupação as mudanças de humor do velho e afinou vistas e ouvidos para evitar que lhe fugisse.

Com o baque do banquinho derrubado com as pontas dos pés dependurados, Hilda saltou da cama mesmo antes de abrir os olhos. Empoleirada na mesa, feroz, sua mão esquerda encontrou rápido a corda esticada que seus olhos não podiam ver. Com dois, três golpes de faca a corda rompeuse, e o corpo do pai se derramou no chão batido da cozinha.

O velho pôsse a tossir por causa do pescoço machucado, enquanto a filha o punha sentado no outro banquinho de três pernas magras. Nem morrer em paz se pode neste inferno, ele queixouse na única língua que ainda lembrava. E o pensamento da menina gritava, mas e eu, na mesma língua do pai.

Quando os primeiros raios do sol atravessaram as frestas da parede, encontraram Gustavo muito quieto recordandose dos bosques limpos da sua infância, da melhor maçã do mundo. Em sua frente viu desfilar um rebanho de ovelhas lanudas antes que as montanhas se cobrissem de neve.
 


leia mais...
POR EM 11/07/2009 ÀS 09:04 AM

Moça debaixo da chuva: os ínvios caminhos

publicado em

Uma rua tão melancólica e metalúrgica, tão ocupada com o volume de sua produção industrial que, distraída, parecia há muito ter esquecido no abandono a própria aparência: charme nenhum. Uma rua de paredes sujas e de reboco carcomido, no alto das quais, já perto do beiral, apareciam ridiculamente inúteis algumas janelas estreitas, como se Deus e seus anjos precisassem daquilo para espiar o interior dos galpões que se escondiam para além das paredes e onde pessoas sujas de carvão faziam gestos cujos significados não alcançavam.

Eu caminhava apressado e descontente, olhando às vezes para o céu com a sensação de que tinha caído numa armadilha de onde não conseguiria escapar jamais. O céu que me restava era apenas uma estreita faixa cinzenta de nuvens que se moviam sem direção definida, mas de maneira mais ou menos frenética. Só nós dois, o vento e eu, passávamos pela rua àquela hora da tarde. Sobre o vento, sei que é de seu destino às vezes varrer as ruas. Quanto a mim, não consigo me lembrar do que fazia por lá: o lugar parecia não ter afinidade alguma comigo. Lembro-me, entretanto, de que o céu estava escuro e baixo, como a tampa cinza de um alçapão, quando o vento, encanando por aquele desfiladeiro, levantou poeira tamanha que me vi forçado a proteger os olhos com as mãos. Com a poeira, alçou vôo uma folha de jornal cujas manchetes amarfanhadas gritavam que a chuva era iminente e, além de gritarem, embaraçavam-me as pernas que tentavam correr em busca de abrigo.

Os primeiros pingos da chuva eu os ouvi na pureza de sua individualidade: alguns pesados, líquidos e sonorosos, pérolas que se espatifavam ao cair, e caindo levantavam o pó do passeio. Apenas os primeiros, porque em seguida desabou o aguaceiro de pingos homogêneos, massa contínua de sons sem identidade: água jorrada. Não me alcançou, pois começou a cair exatamente na hora em que cheguei à esquina e saltei para dentro do bar, feliz ainda por ter podido escapar.

Depois de tomar o primeiro copo da cerveja que me justificava no interior do bar, voltei à porta para matar um pouco daquele tempo agora inútil, mas também para ver a chuva caindo — aquele modo estrepitoso de cair. Foi então que deslumbrado a vi: colada à parede suja e de reboco carcomido, no outro lado da rua, ela tentava proteger a cabeça com um jornal aberto ao meio, e o peito, com a mão esquerda espalmada. Seu vestido azul, seco ainda, tremulava ao vento sem temer o escândalo de seu gesto nervoso.

Inteiramente ocupada com sua proteção, a moça, para que me percebesse exposto na porta do bar, a observá-la. Parecia sentir-se muito desconfortável naquela faixa estreita onde a chuva ainda não tinha chegado. Equilibrava-se, por vezes, nas pontas dos pés, numa coreografia assimétrica e de equilíbrio quase impossível, como se quisesse entrar na parede, a mão esquerda sem dar conta de todas as regiões a proteger, a direita segurando ainda um jornal dobrado sobre a cabeça.

Antes mesmo de que me olhasse, ensaiei vários gestos à guisa de aceno, mas, quando me olhou (Meu Deus, de onde aqueles olhos entre doces e assustados, aquela mesma boca rasgada de lábios carnudos, a testa altiva e os cabelos caindo sobre os ombros, de onde?), perturbado, não arrisquei aceno algum, temeroso de espantá-la com minha ousadia. Ela me encarou, e seu jeito de me encarar era um pedido de socorro: seu vestido azul, marcas da chuva, grudara-se-lhe nas pernas, deixando de gesticular.

Com duas rajadas oblíquas do vento, a chuva engrossou ainda mais, encurralando a moça, cujas mãos já não protegiam coisa alguma.

Na sarjeta, um córrego de águas barrentas arrastava impetuoso uma caixa de papelão com que eu brincara de barco. Fiquei atento ao modo como ela era arrastada. Havia uma espécie de desespero naquele rolar silencioso e sem resistência. Alguns passos à frente, escancarada, a boca-de-lobo a esperava. No fim do quarteirão, meus primos me chamavam, mas eu não conseguia sair do lugar. Era uma luta em que eu me envolvera, em que me envolveria a vida inteira. Joguei todas as minhas esperanças no momento em que a caixa chegasse àquela boca escura: sua última oportunidade. Não demorou quase nada para que isso acontecesse. De repente, a caixa tornou-se magnífica em sua muda resistência. Ela cresceu ao pressentir o perigo. Ergueu-se, altaneira, as mãos e os pés fincados nas bordas, recusando-se a aceitar passivamente o próprio fim. A água insistiu violenta, brutal, mas a caixa, apesar de trêmula, não arredava pé, não se movia. Houve um instante de alegria, em meu peito — o vislumbre de uma possibilidade, se bem que remota, de ver derrotada a força bruta. Mas o córrego estufou por baixo da espuma escura, preparou-se com a paciência dos que têm a certeza da vitória e arrojou-se, finalmente, contra seu obstáculo. A caixa dobrou-se ao meio, aflita, e desapareceu. Mais uma vez. Por que mais uma vez, por que sempre assim?

Nossas decepções cruzaram-se no ar, seus olhos e seus cabelos inundados de chuva e tristeza.

Finalmente, percebendo que o aguaceiro aumentava, arrisquei um gesto, ainda que tímido, convidando-a para o abrigo do bar. A água descia-lhe pelo rosto, penetrava caudalosa no decote do vestido azul, perdia-se nas profundezas de seu corpo, que lentamente ia perdendo qualquer nitidez, mancha assimétrica colada em uma parede. Em pouco tempo a água já conseguira apagar seus lindos olhos negros, transformando a boca de lábios carnudos em um risco arroxeado, deformando testa e queixo, embrutecendo o que ainda há pouco era delicadeza e harmonia.

A sarjeta já sumira, e a ilha em que a moça a custo se mantinha diminuía rapidamente. Eu me preparava para providenciar algum meio de salvá-la quando parou, em sua frente, um ônibus escuro e vazio que a roubou de minha visão.

Aproveitei para encher o copo de cerveja e, justo na hora em que me voltei, vi que o ônibus arrancava furioso, levantando água, inundando o passeio. A chuva cessava e o sol, pressuroso, começava a empurrar as nuvens para o horizonte, para trás dos prédios mais altos. O último copo de cerveja chegava ao fim. Olhei para fora e, no outro lado da rua, vi apenas uma parede encharcada e de reboco arruinado. Bem no alto, um palmo abaixo do beiral, umas janelas estreitas e ridiculamente inúteis, por onde o sol espiava o interior daqueles galpões que ficavam para além das paredes e onde homens sujos de carvão não conseguiam entender seus próprios gestos.
 


leia mais...
POR EM 11/07/2009 ÀS 09:04 AM

Nona

publicado em

Não foi sonho. Nem delírio. Aconteceu pra valer. Estava passeando num parque qualquer (não, não vou contar qual) e topei com Ludwig van (o “van”, contaram-me, é por conta de uma ascendência belga, não tem nada de nobre, mas vai dizer isso a ele, o metido), que lia algo distraído e falava sozinho. Soluçava.

— Pôu! — achei por bem ajudar com o soluço, mas ele continuou caminhando, lendo e soluçando. Cutuquei seu ombro direito.

— Ahn?

— O que fazes aqui, Ludwig, peripateticamente?

— O quê?

Repeti, mais alto. E ele:

— Sem essa de Ludwig, por favor. Não force intimidade. E pode usar a terceira do singular mesmo.

— Nossa, que humor.

— Como é?

— Que humor — gritei.

— Desculpe. É que estou enrolado com essa peça musical há mais de trinta anos...

— Deixa eu adivinhar —  fiz suspense, como se eu já não soubesse – A nona.

— Como você sabe?

— Sei de tudo. Pode perguntar.

— Samovar? Você é russo?

— Perguntar, pode perguntar — gritei de novo.

— Ah, sim. Até logo.

— Calma, que pressa, parece o coelho da Alice.

— Calvície? Não, não tenho problema com isso. Olha aqui.
           
Ele me mostrou a vasta e desgrenhada cabeleira. Pã, pã, pã, pã, pensei, engatando a quinta.
           
— Que livro é esse?
          
— Hein?
          
— O livro — gritei mais uma vez (ô, saco!).
          
— Ah.
         
Ele me mostrou: Ode à alegria, Schiller.
          
— Claro, claro.
           
— Agora com licença, que preciso me encontrar com von Goethe.
          
— Deixa esse cara pra lá, ele vendeu a alma pra Mefistófeles. Tenho uma sugestão.
           
— Hein?
           
Puta merda, como pode esse fdp ter feito a mais bela música já concebida por alguém! Respirei fundo, e, magnanimamente, repeti mais alto. Daí ele, sem muito interesse, tipo me desprezando:
           
— Mesmo?
          
— O quarto movimento, faz o seguinte: primeiro só melodia sem voz, uns dez minutos, sei lá, isso você resolve. Mas aí... Pega aí o livro, vê se me acompanha. Entra o tenor, quem sabe um barítono, “O Freunde, nicht diese Toene”, etc”. Lá pelo “Deine Zauber”, etc, entra o coro junto, repetem uns três versos, depois uma soprano acompanha o tenor na altura do “Wem der grosse”, etc...
           
— Perna grossa? Quem? Onde? Sou chegado numa b...
           
Desisti. Pior pra ele.
 


leia mais...
POR EM 11/07/2009 ÀS 09:04 AM

África negra: a história dos vencidos

publicado em

Em seu livro “História da África Negra” o historiador e professor Jean-Marie Lambert leva-nos à conclusão de que o trágico caminho sofrido pela África negra  tinha como razão fundamental não só a cobiça e a selvageria com que a “civilizada Europa” e, mais tarde, o “democrático” Estados Unidos faziam de sua estabilidade e prosperidade econômica o nefando comércio de pessoas condenadas, à força de brutal violência, ao trabalho servil. É desolador constatar que contribuíam para o sucesso do próspero segmento mercantil a inexistência de um sentimento de unidade africana.

Não existia a sensação de pertencer a uma mesma realidade ou a universo de interesses por oposição ao mundo externo. O pan-africanismo e filosofias afins apareceram em épocas recentes e ainda têm dificuldades para penetrar o espírito popular. “Não é sem razão que, até há pouco, 4 milhões de sul-africanos de origem holandesa conseguiam dominar 25 milhões de negros através do regime do apartheid”. Tendo sido, uma associação internacional de riscos e lucros, como enfatiza o autor deste livro, “o escravismo teve o próprio povo africano como ator voluntário, no processo.

Os negros comprometidos com o tráfico não eram vítimas de um papel que não entendiam. Pelo contrário, o compreendiam tanto quanto seus parceiros europeus. Aceitavam seus desafios e exploravam suas oportunidades”. Tal constatação, aterradora, sem dúvida, lança a visão de quem nem só os brasões assinalados vindos da ocidental praia lusitana saíam a fazer bramuras e malvadezas pelo mundo, aí incluindo a mãe África, onde iam buscar homens livres, tornados escravos, à força de fuzis, pelos próprios africanos.

O nefando comércio do escravismo, que durante muito tempo forneceu mão de obra servil à “máquina de gastar gente”, no dizer de Darcy Ribeiro, teve momentos de heróica resistência, por parte da população negra, como a da luta de libertação nacional, dos Mani Congos, no coração da África negra, em 1665 – fato omitido pela historiografia oficial que, para Jean-Marie Lambert, “ajeita o passado para atender objetivos políticos presentes...) Fuzil, escravo, açúcar... uma ciranda infernal, que fez as fortunas européias. Era normal enriquecer através deste circuito sórdido, porque não havia outra maneira de ficar rico. Os povos da África Ocidental pagaram o mais elevado tributo à formação do capital europeu, mas os historiadores da Sorbonne  se esqueceram de registrar o fato”.

Há muito mais a ler, de modo a que o leitor não se canse de admirar, espantar e se indignar; admiração pelos vastos - e pouco difundidos pela visão eurocêntrica da História Oficial- conhecimentos sobre a África Negra e o selvagem processo de  expropriação da liberdade e da dignidade humana, que se abateu sobre o universo banto. Depois de promover verdadeira faxina nos mitos tradicionalmente utilizados para a apreensão da história africana, o autor debruça-se sobre o contexto geral, focalizando a antiguidade e a idade média; e aí repete-se a estratégia do colonizador branco, jogando africanos contra africanos, e indianos contra indianos, fazendo com que os colonizados se matassem uns aos outros.

Tal lógica absurda dá razão a Jean Paul Sartre, quando afirmou: “Quando os ricos fazem a guerra os pobres é que morrem”.  Fazendo uso de sólida erudição, fundada em sólida pesquisa documental, esta obra, de fascinante e enriquecedora leitura, é uma contribuição de grande valor para o aprofundamento dos conhecimentos sobre  tão vasto e ainda pouco explorado tema.    
 


leia mais...
POR EM 11/07/2009 ÀS 09:04 AM

...e o gambá sobe ao céu!

publicado em

Para boa parcela dos habitantes de Mundocaia, gambá tem alma e, no tempo devido, sobe ao céu. Essa crença não vem de tradições vetustas, tampouco de jecas superstições. O fato é novo e eminentemente urbano.
 
Há duas décadas, ali na Av. Carambas, próximo à Praça dos Trogloditas, um gambá saiu de um quintal, em fuga de uma matilha enfurecida. Alcançou um lote baldio e achou um toco de cerca de dois metros e nele subiu no desespero. Ali no alto se resguardou, olhando os cães danados rosnando e latindo lá em baixo.

A intenção dos cachorros era deixá-lo nervoso até que se desarrumasse e caísse no chão para ser esmiuçado. O gambá, mesmo se caísse, contava ainda com uma arma: sua bomba feroz de fedentina. Mas os cães estavam dispostos a enfrentá-la.

Três dias e três noites foi o tempo que os cães revezaram-se na vigília ao marsupial. Mas finalmente começaram a perder o interesse. Um se afastava para mijar e de lá escapava de fininho. Outro ia em casa com desculpa de  beber água e lambiscar alguma coisa e não voltava mais. Ao final desse tempo o interesse dos caninos se esvaziou total, quando uma cadelinha no cio passou esbanjando charme e a matilha remanescente sai toda em perseguição de outro interesse mais premente.

Três dias e três noites foram o bastante para deixar o fujão desidratado e fraco de fome. Olhava pro chão e sentia vertigem, sem coragem de saltar. Gambá, em seu normal, já tem dificuldades de descer de toco. Naquele estado então, parecia uma tarefa sem jeito.

Finalmente se entregou ao cansaço e dormiu. Sem acordar, entrou em coma. Sob o castigo do sol, veio a óbito. E ali secou feito um bacalhau com cabeça. Uma coruja, reivindicando posse do lugar, derrubou o corpo no chão, nas abas de um cupinzeiro. Os cupins cuidaram logo de encobri-lo.

Algum tempo depois, passavam por ali à noite, saídos de um evento, o pastor Walkid (fundador e presidente mundial da Igreja Cuidado com o Cão dos Últimos Dias), o delegado Kantídio e alguns outros figurões que dão orgulho à cidade.

Foi então que viram uma claridade se reunir a partir do chão, de um ponto bem definido, organizar-se em uma bola colorida, bailar ao sabor do vendo e depois zarpar verticalmente rumo ao infinito.

Aproveitando da coragem do delegado e de sua lanterna Led light, entraram no lote, identificaram o ponto de onde a luz brotou e com ferramentas improvisadas, localizaram os ossos do gambá.

Sem ouvir as explicações do delegado, de que se tratava de fogo-fátuo esvaindo-se dos ossos, pastor Walkid  espalhou a seus fiéis que a luz era na verdade a alma do gambá subindo ao céu. Inclusive em suas homilias daí em diante ele afirma com cega convicção que o gambá só vem ao mundo para perder a catinga e voltar aos céus. E  que do mesmo modo o homem tem que perder suas catingas para um dia ver a face de Deus.  
 


leia mais...
POR EM 11/07/2009 ÀS 09:04 AM

Valle a pena ler

publicado em

Eu gosto quase nada dos aforismos. Desgosto deles porque quase sempre expressam a verdade. E verdades incomodam como aquela que diz “santo de casa não faz milagre”. O escritor Fausto Valle enquadra-se neste seleto grupo de relegados.

Mineiro da sulfurosa Araxá, Fausto veio para Goiás ainda atado às fraldas. Percorreu o interior do Estado e há anos reside em Goiânia, capital bonita cada vez mais entupida de carros e motos (a idéia do Governo de baixar o IPI foi mesmo “ótima”...), e com um povo ruim de entender milagreiros. Fausto Valle criou a filharada zelando dos filhos dos outros. Foi médico pediatra renomado e professor na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás, onde ajudou a formar mais doutores.

Hoje em dia, septuagenário, com a saúde física naturalmente rateando, mas o cérebro fumegando acima dos cem graus Celsius, o escritor gasta tempo com atividades na maçonaria e, especialmente, enfurnado em seu apartamento confortável onde faz literatura de alta qualidade. Tem oito livros publicados, a maioria deles pelas editoras Kelps e RF, ambas situadas em Goiânia. Não adianta procurar pelos títulos nas prateleiras das livrarias do eixo sul-suldeste do Brasil que vocês não vão encontrar de jeito nenhum. Entrem em contato com as editoras e providenciem os seus exemplares (usem a internet, companheiros!).

Escrever é um exercício de perseverança e gana, para não dizer o vício da tolice. Além de pouco valorizado pelos seus pares goianos, Fausto ainda não conseguiu distribuir a sua obra fora das fronteiras, senão através da remessa pessoal de exemplares aos críticos literários e amigos escritores Brasil afora.

É aquela velha estória: escrever, publicar um livro, até que é fácil. Basta ser alfabetizado, ter noções básicas do “word”, e possuir algum dinheiro sobrando no banco. Difícil mesmo é colocar o livro dentro de uma livraria e fazer com ele chegue às mãos do leitor. Se o gênero for poesia, então, esquece. Os infames livros de autoajuda (sim, eu os considero infames), desde que tenham um título didático, chamativo, e uma capa bem produzida, correm o risco de venderem um pouquinho. Afinal, o povo está a cada dia mais aturdido e necessitado de placas que sinalizem aonde ir. Estamos perdidos...

Ao contrário do Senado e do Congresso Nacional, nem tudo são horrores. Fausto Valle tem visibilidade e reconhecimento junto ao público interessado em literatura que vagueia pela internet, inclusive fora do Brasil, em países nos quais se fala e se fere a língua portuguesa. Feri-la por descuido, até que é perdoável. Cruel mesmo é maltratá-la por preguiça e desinteresse.

Fausto Valle começou a se embrenhar na literatura pelas portas da poesia. É poeta dos bons, conforme se atesta nos livros “A fonte de sal”, “Cravos sobre a mesa” e “Aldeia absurda”. Absurda de verdade é aldeia goiana que vive buscando noutras plagas, por ignorância, desdém e preconceito, escritores que valham a pena serem lidos.

O poeta Gabriel Nascente, por exemplo, é outro que também produz literatura em território goiano, tem uma obra formidável subestimada pela comunidade local e por grande parte dos nossos educadores, estudantes, em especial, nas escolas particulares, mais preocupadas em sanar a inadimplência dos alunos caloteiros e os adestrar para o escroto suplício dos vestibulares, do que primariamente os educar. O poetinha Gabriel (este tem nome de anjo, mas também passa ao longe da santidade, graças a Deus...) possui mais de trinta livros publicados, é um poeta extremamente talentoso, mas fica teimando poesia aqui no Goiás. Contudo, o tema desta crônica não é o vate Gabriel. Voltemos ao Fausto.

Nos últimos anos, ele dedica o seu labor literário à prosa. Dos oito livros já publicados, três são constituídos por contos. “Além do vão da janela”, publicação mais recente, reúne vinte contos inéditos do autor. A antologia é um autêntico balaio de gatos (no melhor dos sentidos: balaio bom, gatos de raça) que deve agradar a todos os gostos. Uma colcha de retalhos bem cosida e que não deixa o leitor com os pés nem com as cabeças descobertas, à mercê das muriçocas ou da friagem. Predominam estórias ambientadas no meio rural e nas cidades interioranas, contudo, sem aquela chatice reticente do palavreado chulo e errôneo que se fala na roça, infestando os livros rotulados de “regionalistas”. Êita, rótulo maldito...

O livro “Além do Vão da Janela” parece bolsa de mulher. Há de um tudo ali dentro. Estórias fantásticas, o sobrenatural, violência nua e crua, maldade, traições, suicídio, crises existenciais e outros dilemas humanos com os quais nos identificamos. Além da diversidade que atrai e captura, na estrutura do livro se percebe a categoria do escritor, a sensibilidade e lirismo, além do evidente conhecimento de causa e da língua portuguesa. Pode-se dizer, sem a mínima intenção de depreciar, que o escritor sai disparando para todos os lados. É atirador de elite, pistoleiro experiente que mata dando vida (?!). O tiroteio dura o tempo inteiro, pois as estórias são construídas com esmero e técnica, invejados atributos dos autores competentes. Lê-se o livro numa só sentada. Enfim, uma obra que “valle” a pena, a tinta e o papel.

Quem se interessa pela literatura feita no cerrado goiano, sabe que Fausto Valle é um poeta que joga de titular na seleção dos escritores tarimbados. Parece ter pendurado suas chuteiras de bardo. Mergulhou fundo na prosa como se fora nas águas amareladas e barrentas do Rio Araguaia (é urgente que se preservem as matas ciliares, mas os bons escritores também!). Apesar de não ter formação acadêmica em literatura, estou convicto que o Fausto figura entre os melhores contistas da atualidade. Seu azar foi fincar raízes fora do grande “eixo do mal” que controla e monopoliza a literatura no Brasil. O pior pecado, entretanto, quem comete são os seus conterrâneos, leitores que negligenciam os bons autores da terra, bem ao estilo roceiro, como se fossem bezerros enjeitados. Os escritores inábeis que se autoelegem imortais em saraus baratos regados a “risoles” frios e refrigerantes “diet”, estes sim, devem mesmo ser apartados.

Fausto Valle, repito, não é santo. Apesar de viver próximo à cidade de Trindade (terra milagreira onde o povo temente peleja e reza), não opera milagres. Mas já deixou cravada a sua decente marca na literatura brasileira. Confiram.
 


leia mais...
POR EM 04/07/2009 ÀS 10:09 AM

Não sou Flaubert nem Haussmann

publicado em

O jornalista Enio Vieira disse para o editor da "Revista Bula", Carlos Willian, que sou responsável pela desconstrução de um artigo de sua autoria, sob o pseudônimo de Haussmann.

Enio está enganado, pois nem mesmo li o livro que ele e Haussmann estão discutindo. Ele me deu de presente um livro de Paul Johnson sobre a história dos Estados Unidos, não o do autor em questão, que, insisto, não li. Não sou responsável pela desconstrução, assim como não são Eduardo Horácio e Irapuan Costa Junior. Haussmann é, na verdade, um professor universitário tão gabaritado quanto Enio. Com mestrado e doutorado. Seu conhecimento de literatura é, seguramente, maior do que o meu e de Enio juntos.

Posso não concordar com o que Enio escreve, mas não escrevo na seção de comentários da Bula, nem com meu próprio nome, nem com pseudônimos. Por um motivo bem simples: não tenho paciência e, como leitor infatigável (três a quatro livros por semana), não tenho tempo. Medo de polêmica claro que não é, pois quem escreve a coluna Imprensa, e por isso já foi vítima de achincalhe no "Diário da Manhã" (Suely Arantes foi usada por um jornalista metido a bonzinho e mais sujo do que latrina), precisa saber das coisas e ter coragem e não ter rabo sujo ou preso.

Enio e Haussmann são dois talentos notáveis e, apesar da refrega, é provável que tenham mais em comum do que pensam. Enio é de esquerda, mas Haussmann não é de direita. Não tem militância alguma, nem na faculdade. No máximo, é um livre atirador que sabe tudo ou quase de literatura inglesa, irlandesa, francesa, italiana e portuguesa (nem estou citando a brasileira). Além de ser cultor dos clássicos. Sua tese de doutorado foi escrita em inglês. Portanto, não é monoglota.

Enio trabalhou comigo no Jornal Opção, acompanhei seus primeiros passos no jornalismo, antes de ele passar pelo curso da Editora Abril e, depois, trabalhar em "O Globo" e em outras publicações. Fez mestrado na UnB, na área de literatura, o que lhe possibilitou, ainda mais, organizar o pensamento. Enio une o jornalista competente ao intelectual do primeiro time, que trafega bem nas áreas de literatura, política e economia. E, num mercado onde tantos se corrompem, é um profissional íntegro, que não se contamina pelos ambientes, o que resulta de sua sólida formação intelectual e, sobretudo, moral.

Como todo intelectual, Enio tem suas implicâncias (divirto-me e aprendo com elas). É crítico de Mario Vargas Llosa (tem razão em muito do que diagnostica na prosa recente do escritor peruano, mas a implicância maior talvez seja política, porque Llosa é liberal e, portanto, crítico da esquerda), Harold Bloom (implica com o fato de que os provincianos têm certo apreço pelo crítico literário americano. E com certa razão, pois Bloom virou uma espécie de vade mecum. O que aprecio em Bloom é sua paixão pela literatura, não pela teoria literária. Bloom lê os livros que comenta, sempre atentamente, e deixa a teoria literária para os acadêmicos. O que aprecio em Bloom, repito, é a leitura direta, não a leitura meramente orientada, bibliográfica, no mais das vezes, ideologizada) e Edmund Wilson (ótimo crítico, prosador de segunda). Enio talvez não concorde, mas "O Castelo de Axel", de Wilson, é um livro brilhantíssimo, escrito em cima da hora, quando "Em Busca do Tempo Perdido", de Proust, e "Ulysses", de Joyce, ainda estavam quentinhos. Escrever sobre Proust e Joyce, 87 anos depois da publicação de seus livros seminais, com uma ampla fortuna crítica à disposição, fica muito mais fácil. Mas, entre as décadas de 1920 e 1930, não era tão fácil assim. Era preciso contar apenas com o próprio talento para abrir fronteiras de leitura. Quando Charles Dickens havia se tornado uma espécie de José Mauro de Vasconcellos, autor de "Meu Pé de Laranja Lima", Wilson escreveu revalorizando-o — devolvendo-lhe o status de grande escritor, de Balzac dos pobres, por assim dizer. O mesmo fez com Hemingway. Assim como mostrou a importância de Abraham Lincoln para a literatura enxuta e não palavrosa dos Estados Unidos que, depois de passar por Mark Twain, desaguou em Hemingway. Tenho apreço por outros críticos, como Erich Auerbach, George Steiner, Frank Kermode ("Um Apetite Pela Poesia" é uma pequena obra-prima), Northrop Frye, Dolf Oehler (fino analista de Heine e, entre outros, de Herzen, o escritor russo inédito no Brasil e muito bem analisado por Isaiah Berlin, em “Pensadores Russos”), Vladimir Nabokov (finíssimo analista, infelizmente pouco divulgado no Brasil como crítico), Ezra Pound (sempre surpreendente, e às vezes superestimado) e T. S. Eliot (um crítico seguro e sereno). Não interpreto literatura e crítica literária de modo linear, ao modo evolutivo: quem vem depois não é necessariamente superior aos anteriores. O que seria do autor clássico se aceitarmos que quem vem depois é melhor?

Quando não está zangado comigo, por motivos injustos, Enio me liga e diz: "Você lê cada bomba". Tem razão. Por conta de minha curiosidade excessiva e insaciável, leio tudo, ou quase, desde Mario Puzo, um autor de segunda, ao "Ulisses", de Joyce (meu primeiro texto sobre Philip Roth data de 1987). Quando percebe que estou por demais envolvido com o baixo clero da literatura, Enio manda um e-mail e sugere alguma leitura, como "Amada", o belo romance de Toni Morrison. É uma espécie de "Cem Anos de Solidão" dos Estados Unidos. Depois de "Amada", li "Peróla Negra" (Editora Best Seller), "Jazz" (Editora Best Seller), o brilhante "A Canção de Solomon" (Editora Best Seller), "O Olho Mais Azul" (Companhia das Letras), "Amor" (Companhia das Letras) e "Paraíso" (Companhia das Letras). A dica de Enio é ouro puro e é possível verificar que a crítica de Bloom simplifica a obra de Morrison. Bloom percebe que Morrison é uma escritora de alto nível, mas sugere que seu feminismo, sua posição política, trava suas qualidades literárias. Não é justo. Sim, é possível perceber que a "política" de Morrison quase trava sua literatura, mas seu talento é tão poderoso, sua habilidade narrativa e sua percepção tão aguçadas que acabam por salvá-la. Isaiah Berlin diz algo parecido de Dostoiévski. Mas só é possível chegar a esta conclusão se se lê os livros, como fiz, obstinada e com prazer. A leitura sem prazer, como resultado de mera exigência acadêmica, acaba sendo empobrecedora. Fujo disso como o diabo foge da cruz.

Espero que tenha esclarecido a questão da autoria e que Enio deixe o rancor de lado e entenda que nós, que escrevemos tanto, devemos permitir que os leitores, críticos ou não, tenham suas opiniões sobre os nossos textos, que, publicados, não são mais nossos e, de algum modo, se tornam indefensáveis. Falo sobretudo de textos sobre literatura.
 


leia mais...
POR EM 04/07/2009 ÀS 10:09 AM

A pátria patropi

publicado em

Mazaropi ou Glauber Rocha? O primeiro fez o papel do caipira paulista, falso ingênuo e esperto analfabeto que sabia compreender a desfaçatez do coronel, bem como a esperteza do político. O segundo fez cinema ideológico, politizado até os cabelos da película, colocando o cangaceiro como um herói popular, um vingador do Zé-povinho invisível dos sertões miseráveis e ressequidos do Brasil dos grotões. Embora Glauber, o gênio baiano, seja aclamado como gênio do cinema, e certamente o foi, em clássicos como “Terra em Transe”, ou em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, Mazaropi é o caso brasileiro de absoluto sucesso de público.

Tanto assim foi que ele chegou a ser diretor e produtor, além de ator de seus filmes, que levavam multidões as salas de exibição. Nem Xuxa, com todo o seu aparato publicitário, levou tanta gente a ver seus filmes quanto levou Mazaropi, na representação do caipira paulista, de andar grotesco, modos rudes e tacanhos, nada gentil com as mulheres, e sempre esperto e matreiro, em sua falsa rusticidade. Se tanta gente acorria a ver seus filmes é porque as populações urbanas do Brasil, recém-chegadas do campo, identificavam-se com as situações colocadas.

Interessante é notar que, tendo realizado seus filmes em época de intensa politização da arte, havendo quase uma obrigação de ser ou parecer de esquerda, jamais sua estética pendeu para este lado. Até porque não só o personagem, mas seu autor, era conservadores do ponto de vista político, embora propensos a criticar o coronelismo de nossas práticas de mandonismo político exercido em currais eleitorais, o povo sendo manietado e tangido como gado. Exatamente como hoje ainda se faz, não com surras, botinas e castigos, mas com salário família e cestas básicas, mantendo no curral do conformismo e da armadilha da dependência o exército eleitoral de reserva.

Como nesta vida tudo passa, passou o cinema novo, com sua estética esquerdizante, uma tendência obrigatória naqueles tempos, ao ponto de um cineasta de talento, como Walter Hugo Khoury, autor de um filme importante, como “Cidade Vazia”, ser não só esnobado, mas discriminado ou sabotado. Glauber Rocha continua a ser objeto de culto, venerado e idolatrado em círculos fechados da intelectualidade livresca, mas pouco visto, e praticamente desconhecido do povão que ele tentou retratar e defender, através de seu cinema “revolucionário”, tanto na forma como no conteúdo.

Mazaropi também passou, pois o modelo em que se baseou seu lendário personagem – o caboclo ingênuo e tosco, dos grotões do Brasil – há muito deixou de existir. Hoje ele vê os canais abertos de televisão, não perde uma novela, ou as versões do Big Brother, sendo obrigado a engolir a poesia paupérrima (de louvor às drogas e à bandidagem) de horrível hip hop. Os que não foram expulsos do campo pela mecanização da agricultura, agregados a pequenos e médios proprietários rurais, não dormem direito, morrendo de medo de serem atacados pelas hordas organizadas de baderneiros auto-apelidados de sem terra. De Mazaropi e Glauber Rocha passamos do estado de sítio para o estado de fazenda. O que já foi uma evolução considerável, ao menos no tamanho da calamidade.
 


leia mais...
‹ Primeiro  < 31 32 33 34 35 36 37 38 39 >  Último ›
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2009 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — editorial@revistabula.com


renovatio