Réplica: a perspectiva do asno
Começarei pela música. E partirei da seguinte provocação: quando John Cage sobe ritualisticamente ao palco, senta-se ao piano e, compenetrado, “executa” 4’33” — estará fazendo arte? Esclarecimento: Cage é um dos maiores nomes da música erudita no século XX, e suas mãos sequer tocam o instrumento. Silêncio... expectativa... E nada. Terá tido ele um surto de asno? A acreditar em alguns fãs de música clássica, sim. Não digo que não tenham razão, mas não entendo do assunto para descer a lenha. Passaria por ridículo se o fizesse. Nesse terreno, o que eu acho é só o que eu acho, nada mais. Para mim 4’33” não possui valor artístico algum, como alguem pode dizer que Waltércio Caldas também não tem. Música me parece ser a “Nona Sinfonia”, de Beethoven, que aliás Stravinsky acusou de mal feita e cheia de concessões. Não entendo do assunto, definitivamente, porque acho que o russo é que não vale uma pitada de fumo, apesar de ser quem ele é. E daí? E daí que minha opinião sobre o assunto é a de um asno. Ou seja: não sei explicar por que não gosto.
Das duas uma: ou eu sou um excelente crítico musical ou, pelo contrário, sou muito limitado para alcançar o gênio de Cage e de Igor Stravinsky. (Devemos ter sempre em mente que todo Napoleão teve um brilho que, ao menos por enquanto, nós não tivemos, e por isso continuamos anônimos.) Como aposto na segunda hipótese, suplicaria a alguém, que conhece a história da música, que me explicasse como se faz para entendê-la. Eu teria a boa vontade de ouvir e levar a sério, pois, como ignorante no assunto, só me resta pedir instrução. Apesar de minha surdez incurável, curvo-me à autoridade Otto Maria Carpeaux, quando declara que “A arte de Beethoven é a mais alta música humana. A arte de Bach é menos humana porque é mais que humana. Os ‘Concertos de Brandenburgo’ são um reflexo da ordem divina do Universo; uma mensagem do reino das ideias platônicas.” (“Os Concertos de Brandenburgo”, In: “Ensaios Reunidos”, vol. I) Não sei por que o diz, mas reconheço a autoridade de Carpeaux. Senão, qual o critério? Acredito piamente na perversidade humana, mas descreio que todos queiram nos enganar.
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Fazia frio. A chuva fina que caía ininterruptamente há dois dias provocou queda na temperatura. A mudança brusca das condições climáticas de uma cidade do centro-oeste brasileiro, acostumada ao calor seco sempre tão nocivo à mucosa respiratória e ao capim, compromete o humor das pessoas. Geralmente, para menos. Nunca se está plenamente satisfeito com o que se tem, não é mesmo?!
“Quando Williams-Sonoma lançou no mercado uma máquina de fazer pão (por U$ 275,00), a maioria dos consumidores não quis nem saber. O que, diabos, seria uma máquina de fazer pão, afinal de contas? Era boa ou ruim? Alguém precisava mesmo disso? Por que não comprar, em vez disso, uma boa cafeteira na prateleira ao lado? Frustrado pelas baixas vendas, o fabricante contratou uma firma de marketing, que deu a seguinte sugestão: lance outra máquina de fazer pão, só que maior, e cobre 50% a mais por ela. O fabricante acatou a sugestão e as vendas aumentaram significativamente. Por quê? Só porque agora os idiotas (desculpe, consumidores) tinham dois modelos entre os quais escolher. Como agora havia dois modelos, eles não precisavam tomar sua decisão no vácuo, sem referências. E aí maioria escolhia a menor.”
Suponha que você seja 100% honesto. Eu digo “suponha” porque suponho que você — assim como eu, Pedro e Barrabás — tenha lá seus pecadinhos. E pecado há de todos os calibres, meu irmão.
Recomendações preliminares: crônica para se ler e ouvir. Se possível, tente prosseguir a leitura deste texto ouvindo a canção “O silêncio das estrelas”, na voz do cantor nordestino Lenine. Se preferir, faça uma cena: queime depois de ler. Tô nem aí.
Já imaginou o que faria se descobrisse que por alguma razão você tivesse se tornado imortal? Ter consciência de que o tempo continuará passando irremediavelmente para os outros, mas para você ele estará para sempre estancado?
(O pequeno artigo abaixo saiu em 2006 na Bula, mas estou ressuscitando-o por conta de ter visto “Matrix” 
Não sei quem começou tudo isto, que maldita escola desta cidade decidiu ministrar aulas aos sábados, domingos e feriados. Impaciente, Júlia me provoca, na autoridade inquisitiva de seus 13 anos, qual a importância real futura de se saber que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos.
Tem gente que nasce com uma estrela na testa. Uma marca de nascença que reluz durante toda a vida quando bem cuidada, e que ofusca qualquer margem de ceticismo ou teimosia que a ela se oponha. Tem gente que pelos caminhos mais tortos, escreve mais do que o certo, escreve o atemporal. 