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BRASIGOIS FELÍCIO
EM 29/12/2009 ÀS 09:50 PM
Ninguém será o mesmo, depois de vertiginosa temporada nas vastas altitudes literárias de “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, em que gerações nascem, vivem e morrem, sempre a indagar sobre o sentido da história e a lógica absurda do tempo; após viajar léguas de beleza e pura magia poética, ou de maravilhar-me com a iluminada escuridão do rosto sertanejo de Deus e do Demônio, nas páginas imortais do “Grande Sertão:Veredas”, de João Guimarães Rosa, o sentimento que nos possui é o do deslumbramento abissal, de par com o desconforto e o desânimo. Depois de saber que tais personalidades dos cumes literários legaram à humanidade suas obras de transcendente e imortal beleza e expressividade, a pergunta que nos ocorre é: que sentido pode haver, em continuar a escrever toscas palavras, inspiradas em nonadas? De que adianta continuar a fazer biscoitos, enquanto eles ergueram pirâmides?
Que insensatez e que inútil vanidade é continuar a escrever e publicar livros a mão cheia, depois que um bardo divino, tão vasto e tão maior do que ele mesmo, que não sabia dizer quem era, mesmo sendo William Shakespeare? Escrever poeminhas de pé quebrado, depois que o iluminado bardo escreveu seus imortais sonetos seria como acrescentar um tijolinho mal queimado sobre a muralha da China. Mesmo sabendo de tudo isto, e mesmo que tal consciência seja esmagadora à nossa presunção e vaidade de que o que fazemos constitui algo essencial ao nosso tempo, continuamos a escrever e a publicar, livro após livro; e o fazemos talvez com a irreverência de um Bertolt Brecht, ao escrever: “Eu sei que existe gente com fome e sede, mas mesmo assim eu como e bebo”.
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EBERTH VÊNCIO
EM 29/12/2009 ÀS 06:04 PM
Dezembro é ducaralho! É mês em que cegos acorrem às ruas como uma legião. Apossando-se dos semáforos da cidade, estão sempre ladeados por fiéis escudeiros que enxergam longe, dentro da alma das pessoas. São homens de visão, sócios abnegados, comparsas pau-pra-toda-obra que mais se parecem com as rêmoras, os peixes comensais oportunistas que ficam grudados nos ventres dos tubarões através de poderosas ventosas, próximos às suas bocas, a fim de se fartarem com fragmentos de carnes dos animais devorados. Com as sobras se fazem fartos banquetes. Igualmente sóbrios, interessados em tirar proveito do clima natalino que hipnotiza as cidades, período do calendário em que muitos se julgam os baluartes da caridade e se auto-denominam “pessoas do bem”, saltam às ruas outros especialistas em mendicância: grávidas com semblantes abatidos, aleijados com todas as variedades de anomalias (estes cidadãos não merecem ser chamados de “portadores de necessidades especiais”, pois fazem da própria deficiência física uma vernissage deprimente), doentes exibicionistas com tubos e coletores fecais, ex-viciados viciados em arrecadar dinheiro de motoristas com remorso, dentre outros. O fraudulento espetáculo de benevolência atinge o seu ápice no final de dezembro. A invasão de shoppings, feiras e lojas pelo povaréu em êxtase garante o faturamento do comércio, os pagamentos de 13º salários e a arrecadação estrondosa de impostos pelo Governo (muitos dos quais revertem para meias, cuecas e outras indecentes peças do vestuário da corrupção).
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VALDIVINO BRAZ
EM 26/12/2009 ÀS 03:50 PM
Bem que este 2009 poderia ter sido melhor para o povo brasileiro, mas não foi, infelizmente, e muito por conta do descarado, cínico e vergonhoso processo de corrupção em vigor no País, onde as flagrantes e contundentes imagens não falam por si, não dizem nada e, logo, não valem nada, pois não provam coisa nenhuma. Sábias palavras, se aqui não nos censuram o gostinho da ironia. Convenhamos que é preciso ter “coragem” para, sem nenhum rubor nas faces, afirmar isso aos olhos e ouvidos do mundo, negar o fato concreto que cai como um bloco de cimento em cima do povo, enquanto as manchetes da imprensa local e internacional estampam os fatos incontestáveis, repercutindo a sordidez da política brasileira. É fatal: se alguém é denunciado, logo vem com ameaças: se ele cair, outros cairão com ele. E sempre funciona, pois a sujeira é de longo alcance: a falcatrua então se encaminha para o pazzaiolo, cuide ele do serviço sujo da “limpeza”. A quebra da ética com a coisa pública, com efeito, varou o ano inteiro e chega neste dezembro como um indesejado presente, ou melhor, um abominável pacote de sujeira, lama, descaramento de homens públicos e, o que é pior, quase sempre com a pizza da impunidade e da galhofa, fazendo pouco até da justiça, zombando do cidadão, do eleitor, do contribuinte, do patriota abalado em seu sentimento pátrio. Haja vista o gozo, a cópula de crápulas da cúpula ao cúmulo de se orar agradecendo a Deus pelos frutos do roubo. Vale aqui o velho bordão: que país é esse? E que homens são esses? A que ponto chegou a cretinice neste macunaímico Brasil! O mau-caratismo grassa a granel, enfiando dinheiro sujo na mala, na bolsa, na cueca, nas meias e sabe-se lá onde mais ele se enfia, não raro com as brechas das leis, com o mexer dos pauzinhos, com o safado “jeitinho brasileiro”, até com alguma conivência ou conveniência de setores dos poderes constituídos.
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EBERTH VÊNCIO
EM 23/12/2009 ÀS 03:41 PM
Felipe estuda num tradicional colégio de freiras acostumado a matricular e educar (sempre que consegue, apesar dos pais) os filhos de famílias das classes média, média alta e alta (será que o IBGE ainda utiliza esta nomenclatura ou prefere letras do alfabeto?). Enfim, não se pode negar, trata-se de uma escola que recebe, em maioria, crianças abastadas da sociedade. O rapagão tem quatorze anos. Está concluindo o Ensino Fundamental que, na minha época (vejam só como estou velho...) chamavam Ginásio, num tempo em que “ficar” era sinônimo de “permanecer”, e “dar uns amassos” significava, na pior da hipóteses, algum tipo de procedimento culinário como fazer pão de queijo ou rosca.
Felipe ficou sabendo que o cantor Lenine estava na cidade e faria um show logo mais à noite. Lampeiro e confiante, ele convidou amigos da escola para assistirem ao espetáculo, cujos ingressos estavam com preços promocionais, uma verdadeira pechincha (será que a moçada de hoje sabe o que significa “pechincha”?! Do jeito que estão precoces é bem capaz de acharem que “pechincha” seja vagina, punheta, sexo oral ou outro tipo de sacanagem...). Bem, Felipe tomou uma baita vaia. Foi alvo de chacotas dos outros adolescentes e ganhou algumas “pedaladas” (tapas na parte de trás da cabeça... não é legal?!..). “Quem é este tal de Lenine?!”, quis saber a menina de aparelhos nos dentes e I-Phone plugado nos ouvidos. Mesmo desapontado com a reação da galera, Felipe insistiu que fôssemos ele, eu e sua mãe ao show do menestrel pernambucano. Considerando que adolescentes têm vergonha e odeiam passear com os pais, não perdi a oportunidade para sairmos juntos. Fomos. Animadíssimos.
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ADEMIR LUIZ
EM 19/12/2009 ÀS 05:06 PM
Emprestar um livro é, antes de tudo, um ato de desprendimento. Quem empresta uma obra literária, um volume de filosofia ou técnico, uma peça ou um ensaio de divulgação científica etc, etc, etc está ajudando a difundir o conhecimento ou ao menos divertindo alguém. Existe algo de nobre até mesmo em emprestar o mais lamentável dos best-sellers de fórmula. Contudo, nem sempre a recíproca é verdadeira. Muitas vezes quem pega emprestado não respeita o voto de confiança que recebeu. É extremamente comum que livros emprestados não retornem ou, o que pode ser até pior, retornem deformados. De emprestado para imprestável. Há quem não se importe, mas, para os amantes da cultura, a situação é de calamidade pública. É preciso que se difunda uma ética do livro, uma ética que estabeleça a etiqueta da relação entre aquele que empresta e aquele que pega emprestado. Lembrando que a comunidade dos letrados é uma verdadeira roda-vida, um “circulo do livro” em sentido lato: quem empresta hoje, pega emprestado amanhã. Tentando contribuir, apresento uma sugestão, um esboço, do que pode ser essa ética.
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BRASIGOIS FELÍCIO
EM 16/12/2009 ÀS 07:15 PM
“O ser humano não é o que fala, mas o que faz”. (Noam Chomsky). De tanto ver alastrar a ilucidez em pessoas que se dizem lacaniamente corretas, estruturadas e estruturantes em significado e significante (mas que ninguém pode aceitar, ou compreende, em sua incoerência ou incompetência de viver) ando desconfiado de que não sou nem serei jamais um servil, servidor, pagante ou assalariado lacaio de Lacan. Certo, o mestre do estruturalismo psicanalítico não irá virar na tumba por causa disto, mas é como sinto a linguagem e a filosofia da coisa; assim, reservo-me o direito de dizê-lo.
Nem toda verdade está contida na linguagem escrita ou falada, como asseguram os doutores papo-cabeça, como Saussure e Roman Jakobson, dentre outros corifeus do estruturalismo. Os filósofos utilizam a linguagem para construir jogos de pensamentos, admitiu Saussure — e isto, se não vem configurar a filosofia da miséria, certamente estrutura a miséria (ou a manipulação) da filosofia — entrando nesta conta, como quem não quer nada, uma senhora namoradeira, que vem a ser a psicanálise. Eis senão quando, na condição de escritor analfabeto em tais platitudes acadêmicas, eu me reservo ao direito de esgrimir frases de efeito, que pode não surtir efeito algum, sendo só biscoitos da tarde, em vez das pirâmides que João Guimarães Rosa nos mandou erguer, como se querer fosse poder. Não havendo talento, engenho e arte, conseguir quem há de? Não sei quem escreveu isto, mas concordo, in totum: “Não há nada mais convincente do que uma pessoa agindo de acordo com a sua consciência”. E mais isto: “Não é o que você fala que importa, e sim como você vive”.
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EBERTH VÊNCIO
EM 15/12/2009 ÀS 03:05 PM
Não se animem. Não é um conto erótico. São coisas que acontecem com a gente a todo instante. São pensamentos que varrem ou poluem nossas mentes até mesmo quando estamos dormindo. Meus maiores medos: perder um pênalti, voar, morrer queimado ou asfixiado, ter os pensamentos lidos por alguém. Como todo ser humano normal (?!), não gosto de filas. Mesmo as filas pra se receber dinheiro, que é a razão maior de se viver (e morrer). Dentro da agência bancária lotada, eu só suportava aquela fila por causa da moça bonita a minha frente e um cheque ao portador prestes a ser descontado no caixa. Suas mãos delicadas seguravam uma pilha de carnês, duplicatas e meus desejos.
Enxerguei, abaixo dos seus ombros, uma tatuagem. O primeiro impulso, como qualquer impulso que se preze (atitude impensada), foi tocá-la, lamber a sua pele experimentando o sabor das tintas. “Quero grudar no teu corpo / feito tatuagem / que é pra te dar coragem / pra seguir viagem / quando a noite vem...” (Chico Buarque de Hollanda). Instinto domado, eu recuei. O cabelo curtíssimo expunha a nuca tentadora e um minúsculo coração flechado. Logo abaixo, em letras garrafais, o nome de um homem: EDUARDO. Ainda mais abaixo, quase no meio das costas, como se fora o rodapé de um livro, uma “nota do editor”, um adendo, uma justa explicação em letras miúdas como se a cláusula de um contrato: “lembrança de um passado feliz”.
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VALDIVINO BRAZ
EM 15/12/2009 ÀS 10:35 AM
Nos idos de 2003, a indústria automobilística Voltswatt lançou um concurso nacional de contos, com o tema "Meu Caso com a Volts", em busca de histórias incríveis, envolvendo veículos seus. Dizia que há sempre um caso interessante, original e inusitado, tendo como personagem um modelo Voltswatt, e a indústria queria conhecer a história de cada concorrente, a saber como os carros da marca interagiam com a vida da pessoa, no caso a protagonista do fato. E o fato poderia ser dramático, divertido, místico, familiar, sentimental ou profissional. Valia tudo, desde que verídico e narrado com talento literário, no limite entre vinte e quarenta linhas de texto.
Os 50 melhores trabalhos receberiam prêmios especiais, entre eles três automóveis do ano, zero quilômetro, nos modelos Sedan, Turbo e Power, aos três primeiros colocados, e um home theater — receiver + DVD player integrados + cinco caixas de som e um subwoofer de marca e modelo que seriam definidos pela Voltswatt — para cada um dos outros 47 classificados.
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ENIO VIEIRA
EM 11/12/2009 ÀS 01:20 PM
Um juiz chileno decidiu na última segunda-feira indiciar seis pessoas pela morte do ex-presidente Eduardo Frei Montalva, que governou o país de 1964 a 1970. Os acusados são os possíveis responsáveis pelo envenenamento de Frei, numa clínica em 1982. Seu filho Eduardo Frei é candidato às eleições do próximo domingo e propõe uma revisão da Lei de Anistia do Chile, que limpou a barra de um governo que sumiu com 3.000 pessoas. Dias antes da revelação bombástica sobre Frei Montalva, houve o enterro oficial dos restos mortais do cantor Victor Jara, barbaramente assassinado pelo governo do ditador-neoliberal Augusto Pinochet e exumado recentemente. Em 1973, a mulher de Jara fez a sepultamento às escondidas, tendo a companhia apenas de uma amiga. A cerimônia de agora foi a celebração da memória que mantém o assunto na ordem do dia e faz o ajuste de contas com o passado.
Os chilenos vão dando os sinais de mudanças quando o tema são as ditaduras militares do Cone Sul —os verdadeiros laboratórios de torturas e do neoliberalismo, segundo mostrou Naomi Klein no livro “A Doutrina do Choque — A Ascensão do Capitalismo do Desastre”. Em 2005, foi revelado que Pinochet e sua gangue mantinha contas secretas no exterior com recursos de vendas de armas. Morreu com a imagem justa de carniceiro e de ladrão milionário. O revisionismo histórico no Chile vai no caminho certo de desfazer a imagem de país moderno e exemplo para o capitalismo. A sociedade chilena tem um índice de GINI, que mede a desigualdade de renda , pior que o do Brasil. O grau de violência política vai sendo revelado pelas histórias de Frei Montalva e de Jara. Caem a ideia de país bonitinho e a fantasia ideológica para o mercado de políticas liberais (vulgares) na América Latina.
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BRASIGOIS FELÍCIO
EM 09/12/2009 ÀS 10:55 AM
Há no romance “Ilusões Perdidas”, de Balzac, situações que parecem ter sido inspiradas em nossa época. O jornalismo é a porta pela qual o personagem de Ilusões perdidas entra para o hospital das letras, em busca de glória e dinheiro. Entre nós, não faltou exemplos de literatos de nomeada que exerceram atividade jornalística, seja no batente duro das redações, ou na moleza de serem cronistas do cotidiano — a ponto de terem cunhado o bordão: “O jornalismo é a lata de lixo do literato frustrado”. Sejamos justos: nem todo jornal é lata de lixo, e nem todo literato que nele trabalhou ou trabalha é frustrado. Muitos se tornaram celebridades, a começar de Machado de Assis.
Mas falo aqui não do jornalismo literário, onde não estão presentes as injunções e pressões “alienígenas”, vindas de fontes dignas, digo, detentoras do crédito e do vil metal, que atingem o noticiário político. Assim como nos tempos de Balzac, pior talvez em nossos tempos neocínicos, onde há formas de pressão inexistentes na Europa romântica. Com pequenas mudanças, vemos que as eras se repetem, não só nas modas, como também nos costumes. “Essa gente bebe copázios em maior número do que os livros que vende”. Não faltam no livro alusões à intemperança etílica dos escritores e artistas em geral. O que reverbera a sátira de “Crime e Castigo”, de Dostoiévski, à irresponsabilidade crônica do poetariado de todos os tempos: um bando de bardos (desempregados crônicos dos lumpen das letras) entra em um bar, come, bebe, toca piano com os pés e sai sem pagar, dando-se ao luxo de ameaçar o bodegueiro de denunciá-lo na gazeta periférica em que escrevem suas lamúrias & louvaminhas.
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