O Ponto G e outras letras do alfabeto
Não sei por que cargas d’água o assunto Ponto G voltou à baila na mídia nos últimos dias. Mistérios subliminares da comunicação e marketing. Tanta coisa mais relevante com que nos preocuparmos, como o fracasso de Copenhagen, o filme do Lula, a tragédia do Haiti e o flagelo da dengue no Brasil, mas leigos e “especialistas em Ponto G” teorizam a respeito do mesmo.
“— Onde fica, afinal, o Ponto G?! Ora, é fácil: entre os Pontos F e H”. A piada é tão batida quanto a dificuldade que o ser humano tem em lidar com a própria sexualidade. É como se diz: fazer sexo é uma necessidade básica, fisiológica. O duro é sair de uma transa melhor do que quando se entrou nela.
Somente após o advento da pílula anticoncepcional e da minissaia nos anos 60 (combinação tão explosiva, como o tição e a pólvora, ou Pelé e a bola), a sociedade principiou a quebrar os tabus e as cabeças dos estudiosos, gente interessada no emaranhado psicológico em que estamos metidos. As disfunções sexuais se constituem umas das mais frequentes queixas em consultórios médicos, principalmente ginecológicos. Quando uma mulher está infeliz, ou conta isto pro ginecologista, ou inventa um sintoma e sai peregrinando pelas clínicas até que algum profissional cuidadoso se toque que a doença não é física, mas mental (psicossomática).
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Um amigo, dos poucos que me restam, outro dia me disse que, tentando ser irônico, eu não consigo passar do sarcasmo. E o sarcasmo é grosso, pesado, ele acrescentou, com a certeza de quem acaba de inventar a roda. Meu caro, a grossura e o sarcasmo, se você ainda não percebeu, estão aí a nossa volta para ver quem quiser.
A vida é complexa demais para ser compreendida numa só existência. Portanto, para os que não creem em reencarnações (espécie de “recall” espiritual) e na eternidade o baque pode ser medonho. Mas nem sempre é assim. O ceticismo também poupa mentes da idolatria e do fanatismo. É incrível: eu conheço alguns homens agnósticos que têm uma paz e uma serenidade de fazerem inveja.
Acho inevitável e certamente saudável na arte o momento da paralisia. A inércia de um artista é seu ponto de crítica, onde ele se defronta com a dúvida e por isso mesmo (ou então às vezes) se mostrando maduro e cuidadoso com seu trabalho.
Encerrei o ano de 2009 lá pelo dia 15 de dezembro, claro, porque daí em diante tudo era festa. Encerrei o ano pensando em férias e de férias pretendia ficar pelo menos até o fim de janeiro. Sombra e água fresca no fundo do meu quintal. Foi então que descobri ser a alienação um estado involuntário. De nada adianta querer: é preciso ser. Eu fugia do mundo, mas ele continuava traiçoeiramente a me enredar.
Quer mesmo ferir uma mulher? Então a estupre. Faça isso com o pênis, os dedos das mãos, um objeto de aparência fálica ou, simplesmente, com palavras. Aliás, ferir com as palavras é bastante eficaz ao ofensor e edifica morada duradoura na memória de uma mulher, quiçá por toda a vida. Foi Múcio, o médico guru, quem me contou: ele cuida de uma paciente que nunca mais teve um orgasmo desde que o marido a repreendeu que ela parasse de gritar e uivar de tesão, pois mais se parecia com uma puta. Percebem como é fácil pisar no coração de uma mulher?!
Mesmo sem saber se ainda estaremos respirando na próxima alvorada, pensamos no amanhã com uma convicção que beira a ingenuidade, mas nos mantêm na luta. Ainda que as metas traçadas no janeiro passado ainda estejam patinando no presente, inacabadas, nós ousamos estipular outras para o ano vindouro. Pessoas inteligentes, centradas, pragmáticas, as empresas sérias, sólidas e bem sucedidas fazem planejamentos estratégicos com inabalável auto-confiança.
Na sangrenta realidade do país, amontoam-se os corpos de menores assassinados, de uma forma ou de outra. São meninos e quase meninos ainda, longe dos lares, da escola e do sadio lazer que lhes é devido. São os meninos do Brasil. E como lhes será o ano de 2010? Será apenas mais um Ano da Copa? Ou mais um ano eleitoral que nada lhes dá? Mais um ano negro, que lhes rouba a infância, e com ela a vida e o futuro?
Foi assim o primeiro dia de 2010, passados os momentos de euforia da contagem regressiva e da virada do ano. Janeiro se inicia. Cadê todo mundo?, podia-se perguntar naquele primeiro dia do ano, como num conto de Reymond Carver, contido no livro “Iniciantes”, que se recomenda e se encontra nas livrarias. Com a virada do ano, veio a virada das águas. Tempo chuvoso, dia sombrio, cidade vazia, silêncio. Salvo umas sobras babacas de foguetes, peidando o dia inteiro e apavorando os pobres cachorros de todo mundo, cujo sistema auditivo não suporta estouros de bomba, cães havendo que até sofrem parada cardíaca e morrem. No mais, naquele dia, nem buzinas, nem risos, nem relinchos, seres humanos havendo que relincham ao invés de rir. Uma gente quadrúpede, se estão me entendendo, oriunda dos estábulos nas trevas da ignorância, bufando e escoiceando com a sua peculiar estupidez. Pois é com algumas pessoas assim, em meio às de melhor qualidade, que vamos atravessar 2010. Se me dizem que ninguém é melhor do que ninguém, ouso exibir meu sorriso de desdém. Por outro lado, sustento que, malgrado as diferenças, todos os homens se igualam no vaso sanitário e no caixão. A convulsão dos elementos. Toda a água do mundo. Um céu cinzento, cambiante a negro. Mortes no Rio. Ilha Grande. Angra dos Reis. Morro da Carioca. Morro abaixo às toneladas. A terra e as pedras da destruição. Com água e tudo. Quebra, fragmentação, soterramento. Casas, vidas e utensílios. Moradores e turistas. Jovens, adultos, idosos, crianças. Todos. Funesto “Réveillon”. Um dia muito triste. Um desses que parece mesmo sem Deus. A ausência Dele. E uma dor que perdura, tão dura de suportar quanto o peso da terra e das rochas morro abaixo. O primeiro dia do novo ano. Parido com muita dor, pela hora da morte, sob o manto negro da noite. Um dia que, aceso pelos fogos, haveria de vir luminoso como o sol que seria de trazer para toda a humanidade. Mas não foi assim que ele veio, como assim não foi que ele chegou.
Som, teste, som, teste: “do alto de suas vassouras, dois lixeiros... os mais baixos na escala do trabalho”. O que é que vaza aqui? Som, teste, um, dois, teste. Experiência. Teste. Um, dois, três. Testando. É a minha inteligência posta prova? Teste. Um. Dois. Não é minha inteligência posta prova. Não é minha integridade posta a prova. Não sou gari. Não tenho tanta dignidade... Ah, se eu fosse gari era greve! Queria ver esse sujeito varrer o chão que ele pisa com essa língua de cobra. Mas por que me dói então? Por que não fico indiferente? É fim de ano. Dei meus abraços. Desejei sorte a paz pra todo mundo. Onde será que eu errei? Um. Dois... Três. Teste? Isso é um teste? Teste: não é preconceito. Não é o clichê do repúdio do intelectual burguês pelo trabalho braçal. Não é a lógica escapista: todos são maus, logo sou inocente. Não é a representação concreta do jornalista robótico. Não, senhor Boris Casoy. Não é nada disso. Repetindo: isso é um teste? Um riso. Riso. Riso gordo. Riso velho. O velho riso de todos os anos. O velho riso branco. Riso barulhento que arranca cabeças. Um riso eterno em delay estremecendo paredes. Lembrei-me do Lavinho. Que varria a praça da minha cidade quando criança. Panhava vassoura no mato. E nós, moleques, jogávamos lixo no chão e pisávamos na grama. Isso é um teste? Um. Dois. Três. Som. Alguma coisa vazou. Hora do perdão nacional. Ah, o perdão lido na tela que filma. Oh, perdão. “Perdoai Senhor, eles não sabem o que fazem...” Não sabem? Isso é um teste? “Liberdade é não ter que pedir perdão”, agir de tal modo que cada ato integre sua inteira responsabilidade. Você é capaz? Um. Dois. Três. Isso é um teste? 