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POR EM 03/11/2008 ÀS 11:19 PM

A ciência: Deus ou o Diabo?

publicado em

Quem acompanha esta coluna já sabe que não sou aquele crítico sempre preocupado com os últimos lançamentos das editoras. Agora, por exemplo, acabei de ler “A ciência: Deus ou Diabo?” (Editora Unesp, 2001), uma série de entrevistas com cientistas (franceses e americanos) feita por Guitta Pessis-Pasternak, uma jornalista que também já escreveu outras obras do mesmo gênero como “Do caos à inteligência artificial”.

Guitta é exemplar. Por incrível que pareça ela lê, ou pelo menos passa a impressão de ter lido, os artigos e livros dos seus entrevistados, gente como Feyerabend (historiador da ciência), J.P. Changeux (neurobiologista), Ilya Prigogine (químico, estudioso do tempo), dentre outros de primeiro time.

Ao entrevistar o médico Jacques Ruffié e depois de discutir sobre sexualidade, a fragilidade das “raças puras” (evolutivamente mais vulneráveis que as miscigenadas)  e o fato inconteste que faz centenas de milhares ou mesmo milhões de anos que não há variação significativa na espécie humana, pergunta-lhe: “Para o senhor, a sexualidade é o motor fundamental de toda socialização, ainda que já tenha sido dito que ‘Marx explica a sociedade pelo ventre e Freud pelo baixo-ventre’?” A resposta é, digamos, científica: “Tanto um como outro escreveram em uma época em que se conhecia mal a genética humana....não existe sociedades em grupos assexuados, pois ela [a sexualidade] obriga ao encontro....”.

Ainda sobre assunto correlato, ao entrevistar Étienne-Émile Baulieu (especialista em hormônios) o leva a explicar aos leitores que as colaborações imprescindíveis do cientista Gregory Pincus para a invenção da pílula contraceptiva vieram de uma demanda feminista: “Não é espantoso que Pincus tenha trabalhado no aperfeiçoamento dessa milagrosa molécula por solicitação de uma célebre feminista americana?” e Baulieu torna-se didático: “Isto deveria fazer sonhar aqueles que desejam que as necessidades sociais guiem as pesquisas (...) mas é uma exceção. (...) Pincus fez avançar sua pesquisa graças a Margareth Sanger, fundadora do planejamento familiar americano, e à Sra. Catherine McCormick, que ofereceu apoio financeiro (...) e praticamente exigiram a aplicação de seus conhecimentos na condição feminina”.

O livro tem pontos fracos, principalmente em três ou quatro entrevistas, que só têm uma pergunta cada e o entrevistado praticamente escreve um artigo sobre o assunto.

Mas isto é o de menos quando nos deparamos com a entrevista do neurofisiologista Berthoz. A primeira pergunta é perfeita: “Quais mecanismos biológicos foram otimizados no curso da evolução a fim de que o cérebro pudesse, graças à sua memória, predizer o futuro, antecipar as conseqüências da ação?” E ele: “Fausto diz, ‘No início era o verbo’, depois se corrige, ‘No início era ação’. Atribuímos demasiado valor a linguagem em detrimento da ação, do corpo sensível (...) as espécies que venceram a prova da seleção natural souberam ganhar alguns milésimos de segundo para capturar uma presa, ou escapar de um predador (...)”.

E ela continua: “A percepção [do cérebro] seria relativa a uma ação direcionada a um objetivo?” com Berthoz sendo claro: “(...) A percepção do sapo é uma decisão adaptada a um objetivo: comer e não ser comido! Enfim, a própria percepção é a simulação da ação, dizia Janet: ‘Perceber uma poltrona é imaginar os movimentos que seriam necessários para que se nela possa sentar’ e Poincaré: ‘Localizar um ponto no espaço é imaginar o movimento que seria necessário para atingi-lo’ (...)”.

Sobre o título, ela deve ter apreciado a entrevista-artigo de Luc Ferry (filósofo), dá só uma olhadinha:  “(...) duas atitudes contraditórias dividem o monopólio do discurso midiático sobre a ciência: uma consiste em diabolizá-la e outra em divinizá-la (...) na última o cientista seria um gênio cheio de aptidões, mas aptidão não é garantia de sabedoria (...)”.

A epígrafe é ótima para jornalistas e cientistas: “Qual é a tua busca?: perceber a mão de Deus. Qual é o teu medo?: acariciar a cauda do Diabo.” (Hubert Curien).


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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:58 PM

Os Coen são bons, McCarthy, não

publicado em


No country for old men, um livro sofrível de Cormac McCarthy, originou o mais sofrível ainda filme (aqui no Brasil intitulado) Onde os Fracos Não Têm Vez. Que, inacreditavelmente, papou o Oscar de melhor filme, além de direção pros irmãos Coen, de ator coadjuvante pro Javier Barden e de  melhor roteiro adaptado. Ao contrário do que muita gente boa diz, o filme não é uma adaptação fiel do livro. É uma pioração fiel, isso sim. No country for old men começa bem, vai bem até ali pela metade ou dois terços inicias. Depois descamba. McCarthy ficou com preguiça, perdeu a paciência, a inspiração, sei lá. Conseguiu a proeza de empobrecer o que parecia ser uma linda mistura de entretenimento com enriquecimento intelectual. Em outras palavras, uma boa estória, recheada de boa filosofia. Uma boa estória que faz pensar. Desgraçadamente, não manteve firme o leme até o destino. A “boa estória” se transformou em uma apressada e desconexa costura de pontos soltos. A filosofia descambou pro piegas.

Luiz Carlos Zanin, em seu blog, critica positivamente o filme. Acerta no que diz respeito à parte filosófica, mas se equivoca ao considerá-lo “não-acabado”. Transcrevo aqui o último parágrafo:

Talvez frustre aqueles que esperam finais fechados, roteiros com todas as pontas amarradas e diálogos explicativos. Não. Essa tragédia moral chamada Onde os Fracos Não Têm Vez mantém-se aberta até o final. Nos acompanha após a sessão e permanece conosco. Produzindo ainda efeitos, pedindo compreensão e apaziguamento. Mesmo que saibamos, como o xerife Bell, que os filmes e os sonhos apenas sugerem e são pontos de luz, nunca lições terminadas e definitivas.

Zanin está errado. Onde os fracos não têm vez não é “não-acabado” (no sentido tchekhoviano da palavra). É, sim, malacabado, mal-costurado. Tanto o livro, quanto o filme. Mas o filme mais ainda. O terço final, que no livro é preguiçosamente mal-feito, no filme é apressadamente pior-feito.

A verdade é que os Coen ganharam esse Oscar por que a Academia deve estar com vergonha de nunca tê-los premiado pra valer (eles só haviam recebido um Oscar por melhor roteiro original por Fargo). Não só o próprio Fargo, mas O Homem que Não Estava Lá, Barton Fink, Miller’s crossing, etc, são filmes excepcionais que mereciam uma baciada de prêmios da Academia. Esse que receberam agora foi, portanto, uma espécie de “Oscar pelo conjunto da obra”, não declarado.

Mas agora podem me confrontar: então tá, já que o filme dos Coen não merecia, quem, então? Boa pergunta.

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias deveria ter estado entre os indicados pra melhor filme estrageiro. E deveria ter vencido.

Berlim 2008

Independente de qualquer discussão que caiba fazer a respeito do suposto facismo encravado em Tropa de Elite, fico feliz por ele ter ganho o prêmio principal no Festival de Berlim 2008. Primeiro por ser brasileiro (dá licença?!). Mas também, e principalmente, por ser um ótimo filme. Vai colado aí embaixo um artigo meu sobre o filme , publicado no jornal O Popular de 09-11-2007.

Estética sem ética

Logo no começo de O Poderoso Chefão há uma cena em que um pai angustiado implora a Don Vito Corleone (Marlon Brando) que mate o rapaz que havia estuprado sua filha. A Justiça, acusava o pai, havia sido por demais condescendente. Don Corleone hesita em concordar, deixando-nos, o pai e a platéia, mais angustiados ainda. Queremos sangue. Queremos morte violenta aos estupradores. Finalmente, para nosso alívio, o magnânimo Don aquiesce. E com isso temos a primeira das inúmeras vezes, nas três partes que compõem a saga dos Corleone, em que torcemos com todas as forças para o... crime organizado.

Ao final de Crimes e Pecados, o vilão, um médico oftalmologista canalha, se safa, e o mocinho, um cineasta idealista, se dá muito mal. Acusado de ter invertido a “moral da história” de Crime e Castigo de Dostoiévski (livro em que fora inspirado) e realizado um filme cínico, Woody Allen se defendeu: não era cínico, mas, sim, realista.

Os exemplos são muitos, mas fiquemos com esses e vamos direto ao ponto: é possível desgrudar a ética da estética? (Sim, esse é mais um artigo sobre Tropa de Elite). É justo submeter uma obra de arte ao crivo do juízo moral? Ou, por outra, é possível não submeter uma obra de arte ao crivo do juízo moral? E, em se o fazendo, é justo atribuir-lhe nota melhor ou pior a partir desse juízo?

Submetemos uma obra de arte ao nosso julgamento ético tanto quanto estético, queiramos ou não. É automático, quase medular. O que nos leva a outra questão: sendo automático o julgamento, não o será o veredicto. Em outras palavras, o que é mau eticamente, não necessariamente o será esteticamente. Podendo ser, até mesmo, o contrário. O que faz de O Poderoso Chefão e Crimes e Pecados filmes brilhantes é justamente o que têm de mais “condenável”. Já o famoso Epílogo que Dostoiévski colocou em Crime e Castigo, salvando a alma de Raskolnikov, empobreceu consideravelmente uma obra de arte genial.

O que me traz, finalmente, a Tropa de Elite. Não se trata apenas de gostar da forma, da produção caprichada, das interpretações magistrais (particularmente de Wagner Moura, o capitão Nascimento, redimindo-o da pateticamente caricata atuação em Ó Paí, ó). O que Tropa de Elite tem de melhor é justamente o que tem de mais condenável. O sentimento catártico-justiceiro do espectador quando vê a elite da tropa torturar e matar traficantes e maus policiais.

Em arte, convenhamos, a transgressão é bem mais charmosa do que a correção. Cabe formular matematicamente: o prazer estético de uma obra de arte é inversamente proporcional a sua postura ética. Até aí tudo bem. O problema é o que vem depois. É preciso discernimento, espírito crítico para não nos deixarmos inebriar pelo charme da incorreção. Senão saímos todos de uma sessão de Tropa de Elite no ponto pra formar nossas próprias milícias.

P.S.: Proibido Proibir é um filme nacional lançado em 2006 que tem muitos pontos em comum com Tropa de Elite. Vale conferir. 

 


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POR EM 03/11/2008 ÀS 05:58 PM

As solidões do gesto

publicado em

... mas há uma solidão iluminante e reveladora - a solidão de quem encontrou, no desespero, a esperança - a solidão solidária de quem saiu ao meio dia, "caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento/ num sol de quase dezembro/ e ao parar em bancar de revistas vê o sol se repartindo em crimes/ espaçonaves/ guerrilhas/ em caras de presidentes/ em Cardinales bonitas/ em grandes beijos de amor/". E ao ver a luz incendiada da tarde sobre os rios de aço do tráfego da cidade vê sentido, alegria e esperança na face metálica do absurdo.

Sempre existirá a solidão dos moribundos no leito dos hospitais - e a selvagem alegria do que recebeu alta do último hospital do medo. No leito de gemidos há sempre dois anjos por perto (um de carne e osso, e um outro, de triste olhar, e de asas quebradas, vindo do escuro céu do medo). E há sempre um amigo, um irmão, uma mãe, um filho um amigo inseparável. E as mais longas noites da alma são as noites hospitalares em que se doentes e acompanhantes se debatem entre a esperança e o desespero.

E sempre há sempre um bar barulhento, e nele o coro dos contentes canta hosanas para alguém que faz anos. Enquanto uns se preparam para a Grande Viagem bardos bêbados brindam à saúde dos convivas. Nada mais justo: nada é tudo, tudo é nada: para o bacilo de kock um pulmão arruinado é a suprema maravilha. Era noite de dezembro - e minha mãe ia morrendo. Nunca mais esquecerei o que perdi para sempre. E isto dói - doerá eternamente.

A solidão dos que não sobreviveram a um mau encontro no casamento, e a solidão, mais terrível ainda, dos que não sobreviveram a um descasamento infortunado e turbulento. Pois certos matrimônios são como tumbas - guardam mortes antigas. Para dissecar seu conteúdo mortal e mortífero, seriam necessários não psicanalistas ou psicólogos, e sim apelar para os arqueólogos.

A insuportável solidão dos que nada mais esperam do vão viver. A solidão dos que já navegam, com suas almas mortas, no rio dos dias - e em seus olhos mortiços já não brilham rostos, ruas, restos de luz, quintais da infância - que o tempo e a vida carregaram para sempre. A solidão do que esqueceu de lembrar - de quem cansou de esperar o que não virá mais, pois é lembrança morta de parto, matada a pauladas, em crimes puerperais. A perda vital, que é seguir vivendo depois de perder todos os motivos.

A melancólica comunhão dos sobreviventes que se reúnem para comemorar cinqüenta anos de qualquer efeméride. Tudo, no banquete  de sobreviventes lembra (em que suco de laranja é a bebida mais forte)  prenúncios de despedida. O tímido orgulho dos que são da "velha guarda" das profissões liberais. Como cartas posta fora do baralho (expulsos do mercado pela selvagem competição capitalista, e pelo tolo orgulho dos que se julgam donos da vida só porque são jovens), reúnem-se, nas festas da memória,  jubileus de saudosas lembranças, em que recordam os dias de glória e juventude, que se foram para sempre.

A solidão amarga, nascida das sombras da repressão religiosa das que ficaram titia, e sublimam as delícias de Eros, que sufocaram em si (ou alguma força autoritária e vazia sufocou e matou). A áspera e perigosa solidão dos que muito lutaram para "subir na vida" e quando, ao cabo de desesperados esforços, conseguem subir em um tijolo político, representado por um "carguinho" de merda (ou de merla)  nas engrenagens do poder, transformam-se em implacáveis déspotas e tiranos, humilhando e torturando os que já são humildes e torturados pela vida. E é preciso "pedir piedade, senhor, piedade, para essa gente careta e covarde" que no hotel do tempo somos apenas passantes e nada do brilho falso dos objetos haverá de reluzir quando estivermos face a face com a Luz Essencial. 

A constrangida solidão dos que foram apeados dos cumes da escada da mobilidade social - e tendo feito parte da sorridente grei dos "bens de vida", hoje empurram carrinhos nos camelódromos da vida. Estes ocultam os rostos quando encontram gente conhecida dos velhos e bons tempos, em que andavam pela vida a passos largos, e de cabeça erguida. A solidão conformada que existe, na massacrada auto-estima, pisoteada ano a ano, dia a dia.

A humildade dos que pedem empréstimos a parentes distantes - a humildade do parente pobre, perante as pompas do primo rico. No alumbrado dizer poético do poeta José Godoy Garcia, sobre os deslocados, os humilhados e os recalcados que vivem a ocultar-se da luz, como se cucarachas fossem desde que nasceram: "A humildade das prostitutas que vão ao matinê, sentam-se ao lado de mocinhas, e sentem-se imundas".

"A minha amiga de olhos tristes: eu via nela uma inteligência romântica, uma suavidade distante, um vago encantamento que me atraía por não compreendê-lo. Suave, distante, quase transparente: uma imagem. Eu passei sem ver que por trás daqueles olhos havia uma vida interior intensa, e machucada, uma imensa carga de emoções esperando um gesto. O gesto que não foi feito".

A solidão dos que gastaram a vida escondendo a sete chaves os gestos da entrega. A solidão dos que fazem do viver um lento morrer homeopático. Pois temos bocas para beijar, braços para o abraço, mãos para dar adeus, e lágrimas para chorar. Os gestos são como frutos - devemos colher, doar e receber - enquanto a vida vibrar nos frutos e em nós. Os gestos devem ser feitos, não podemos economizá-los. E se isto implica em risco, então é preciso assumir, no exercício do perigo, a "lucidez do compromisso". 


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POR EM 03/11/2008 ÀS 05:41 PM

Quem é vivo aparece

publicado em

Ele é um autêntico “homem de lugar nenhum”
Sentado em sua “terra de lugar nenhum”
Fazendo todos os seus “planos de lugar nenhum”
Para ninguém

(Nowhere Man, The Beatles, 1965)

No filme trash, “A volta dos mortos vivos”, a defuntada torna à vida colocando em polvorosa a comunidade local, ao se alimentar com seus miolos. “Brain! Brain!”, clamam os zumbis. O filme, é claro, não mete medo em ninguém. Gente morta não faz o mal ou o bem a quem quer que seja. A não ser quando deixa dívidas impagáveis, mentiras de uma vida dupla, ou fortunas que provocarão disputas e ranger de dentes nos herdeiros. Há quem morra ou mate por dinheiro. Coisas da natureza humana.

Seria mesmo divertido se os mortos se rebelassem e escapulissem dos sepulcros, todos ao mesmo tempo, fazendo o povaréu vazar apavorado. Dentro do barraco, no outro lado da rua, o homem matutava se protegendo do sol escaldante de novembro, observando o formigueiro de gente que entrava e saía. Sobre a calçada, em quase todo o perímetro do cemitério, ambulantes se espremiam num mercado a céu aberto, faturando uns trocados na venda de um quase tudo: vasinhos de flores, botões de rosas, santinhos de barro, velas de todas as cores e tamanhos, água benta, água fluidificada, água imantada, e água que passarinho não bebe de jeito nenhum. O feriado de Finados caiu no domingo, e ninguém é de ferro, sabe como é?! Não tem Lei Seca que segure um brasileiro com sede.

O comércio informal era agressivo e farto. O famoso sanduíche de lombo de porco, alimento dos mais profanos para a ocasião, também fazia muito sucesso nas bocas dos famintos que se habilitavam a homenagear os mortos. Muitos faziam questão de prestar reverências à beira do túmulo, onde podiam sentir as vibrações e a presença do falecido (?!). Não se deve caçoar da fé alheia. Tampouco da falta de fé de uma minoria resignada.

Homem é um bicho danado. Alguns malandrões despitavam as esposas e se demoravam na degustação dos espetinhos de carne e da cerveja profanamente gelada. Mulheres bonitas vestidas com roupas de domingo desfilavam no meio da multidão fiel. Pernas depiladas, coxas retesadas, peitos siliconados, barriguinhas lipoaspiradas. Nunca o culto à estética corporal esteve tão em alta para uma gente com baixa estima, que valoriza mais a carcaça do que o conteúdo. Embora o local não fosse propício, havia quem paquerasse no portão de cemitério. Como diria o meu amigo-filósofo José Galinha _ modernamente classificado pelo SUS como um paciente viciado em sexo _: “Caiu na área é pênalti”.

Do seu observatório improvisado, o homem vigiava o povo. Apesar das gozações dos amigos e colegas de trabalho, não se importava em morar defronte ao cemitério. Ateu, não cria em alma, em anjos, em santos, em reencarnação, em políticos honestos. Não cria em quase nada, a não ser que a vida parecia sem sentido.

Indignado com o dinheiro auferido com artimanhas e trapaças de muitos líderes religiosos, afastou-se dos templos. Era um sujeito de cultura mediana. Conhecia bem a História da Humanidade, as mazelas das igrejas, as mortes, abusos e barbaridades cometidas no passado por gente que se dizia fiel a Deus. Sua religião era a bola. Nas peladas de final de semana, juntava os companheiros no campo de várzea e puxava um padre-nosso que era rezado em voz alta, num ritual a selar o pacto pela vitória. Nestas horas,  poderia até rezar um poema do Mário Quintana ou do Drummond, mas preferia o Pai Nosso, por mais paradoxal que aquilo parecesse provindo de um agnóstico como ele.

A fumaça do churrasquinho dissipava no céu deixando o quarteirão engordurado. O cheiro de carne assada misturava-se com o olor das flores e das velas queimadas, uma combinação odorífica que o deixou nauseabundo e atordoado. Sentiu os lábios anestesiados. As pernas bambearam. Talvez tivesse bebido mais que a conta. Apoiou o corpo na mureta da varanda, mas a vertigem piorou. Foi invadido por uma tristeza e melancolia que há muito não sentia. A varanda da casa estava agora bastante enevoada. Sentiu faltar o fôlego.

Ficou agitado ao pressentir que morria. Há poucos dias fizera um checape completo. Tudo normal, de acordo com o médico. Mas também, esses médicos de hoje em dia não sabiam bulhufas. Nem mesmo colocavam as mãos na gente. Será que era nojo ou a medicina andava moderna demais ao ponto de dispensar o contato médico-paciente? Ou será que o doutor tinha preguiça dele porque seu plano de saúde era fajuto? Ainda teve prazo para reflexões infrutíferas.

Moveu-se estabanadamente, derrubando o copo com cerveja pelo meio. De tão tonto nem sentiu os estilhaços de vidro perfurarem os pés descalços. Caminhou miseravelmente. Fitou a multidão, um vai e vem de gente que não acabava mais. Pobres, ricos, brancos, negros, seres humanos agarrados à fé como se fora um lenitivo, um antídoto para que não enlouquecessem, a única resposta plausível que os confortava. Ficou com a vista embaçada. Balbuciou, bêbedo. Quis gritar, acenar para uma criatura que o salvasse daquele mal súbito, do inédito medo da morte. Não tinha mais forças. Tombou sobre o piso vermelhão salpicado de cacos. O sangue escorreu, deixando o chão ainda mais rubro. 

Só acordou no dia seguinte, uma baita segunda-feira, com a gritaria da faxineira. Que ele bebia muito. Que parasse de uma vez por todas com aquilo. Que procurasse uma igreja. Que era coisa do demo. Que se levantasse logo do chão. E fosse tomar um banho. E tomasse também uma aspirina. E o café da manhã. E um rumo definitivo na vida, ora essa!


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POR EM 22/09/2008 ÀS 06:36 PM

Ozymandias e o sentido da vida

publicado em


Ozymandias


Encontrei um viajante de uma terra antiga,
Que disse: Duas pernas feitas de pedra, vastas e sem tronco,
Permanecem no deserto. Perto delas, na areia,
Meio enterrada, uma paisagem devastada se estende

(...)

E no pedestal estão estas palavras:
“Meu nome é Ozymandias, Rei dos Reis;
Vejam minhas obras, poderosos, e desesperem!”
[Entretanto] Nada resta. Em volta, só a decadência
Dessa colossal destruição, crua e sem limites
Apenas solitária areia por toda parte.

O poema acima foi escrito por Percy Bysshe Shelley (não confundir com Mary Shelley, sua esposa e autora de Frankenstein), em uma tradução (livre) minha. Ozymandias era outro nome para o Faraó Ramsés II (se quer saber mais a respeito dê uma googoleada que há vários links  disponíveis). Por causa de seu conteúdo, foi apropriado pela psicologia como “Melancolia de Ozymandias”, e essa, por sua vez, citada por Sandy Bates, o personagem de Woody Allen em “Stardust Memories”.  

Correndo o risco de ficar monotemático, correlacionarei aqui outro filme de Woody citado na Bula passada, Manhattan, e Stardust Memories (até porque, minha tese é de que Woody não só é um filósofo, mas um de rara e invejável coerência). Em Manhattan, quase ao final, Ike (Woody) está deitado no sofá e falando ao microfone de um gravador (é meio bizarro hoje ver o tipo do microfone e do gravador, e imaginar que essas coisas fizeram parte de nosso cotidiano há tão pouco tempo... a sensação não é boa). Propõe-se enumerar as dez coisas que dão sentido à vida. São elas:

1-    Groucho Marx
2-     Willie Mays (jogador de baseball)
3-    Segundo movimento da sinfonia Júpiter de Mozart
4-    Potatohead blues cantada por Louis Armstrong
5-    Filmes suecos
6-    Educação sentimental, de Flaubert
7-    Marlon Brando, Frank Sinatra
8-    As maçãs e peras de Cézanne
9-    O caranguejo do (restaurante) Sam Wo
10-    O rosto de Tracy (Mariel Hemingway com 17 anos de idade)

Já em Stardust Memories, muito mal recebido pela crítica, que interpretou (corretamente) como um tapa com luva de pedra, Sandy Bates, um cineasta famoso, está em crise, acometido por uma Melancolia de Ozymandias: que diferença faz se ele faz filmes bons ou não, se daqui a cem, mil ou dez mil anos nada do que ele realizou existirá? Digamos que resista a cem anos, ou até a dois mil (como Platão e companhia), mas e a dez mil? E a cem mil? Não fará a menor diferença.

Seguindo por essa trilha assustadora, nem nossos genes egoístas dawkinianos fazem sentido, já que lá pela centésima linhagem pouco ou nada de nós prevalecerá. Ou seja, nem filhos, a mais básica das tentativas de imortalidade, acessível a qualquer descerebrado (não-estéril, evidentemente), adianta.

Pascal tem várias tiradas famosas e uma delas é o parágrafo 347 de seus Pensamentos: “O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo: um vapor, uma gota de água bastam para matá-lo. Mas, mesmo que o universo inteiro o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do que quem o mata, porque sabe que morre e a vantagem que o universo tem sobre ele; o universo desconhece tudo isso.”

Digamos que se Pascal fosse psicólogo ou psiquiatra, não deveria tratar deprimidos.

A consciência plena de nossa finitude não me parece um bom prêmio de consolação. Antes, maldição.

Somente suplantada pela consciência plena de nossa infinita mediocridade, se acometidos pela Melancolia de Ozymandias. Com uma diferença reconfortante: somos tão insignificantes quanto Shakespeare, Goethe e Kafka serão! (Não estaremos presentes pra checar, mas podemos estar certos disso).

Ninguém perguntou, mas, pra afastar Ozymandias de mim, aqui vai minha própria lista:

1-Casa tomada, Cortázar
2- O processo, Kafka
3- Quarto movimento da nona e segundo movimento da sétima sinfonias, Beethoven
4- Paixão de São Mateus, Bach
5- O anjo exterminador, Buñuel
6- Crimes e pecados, Woody Allen
7- Terceiro ato d'A Valquíria, Wagner
8- Ária Nessum dorma!, de Turandot, Puccini
9- Tríptico As tentações de Santo Antônio, Bosch
10-Frango ao açafrão com quiabo babento e abóbora com pequi

(Não incluo aqui minha família por ser uma obviedade)

 


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POR EM 19/08/2008 ÀS 06:30 PM

Lamarck e os grandes enigmas da vida

publicado em

Aprendemos na escola que Darwin não foi o único à imaginar um processo de evolução para as espécies. Quase que inevitavelmente no ensino deste tema, os livros didáticos e professores contrapõem a teoria darwiniana com a lamarckista. Em muitos casos, inclusive, Lamarck, e sua hipótese de evolução, são ridicularizados. Com a exposição Darwin, estreando em Goiânia esta semana (19/08/08) , vale à pena sabermos um pouco mais sobre este suposto “inimigo” de Darwin.
 
Jean Baptiste Lamarck nasceu em 1o de agosto de 1744. Tinha 10 irmãos e pertencia à uma família da nobreza inferior e decadente francesa, isto é, nariz empinado mas quase sem ter o que comer (o mundo não mudou muito de lá para cá...).
 
Lamarck serviu ao exército durante 6 anos e, com o espírito científico já aflorando no soldado, aproveitou as inúmeras viagens dentro da própria França para estudar as variedades de plantas que encontrava pelo caminho.
 
Quando saiu do exército, por problemas de saúde, foi estudar medicina, mas era mesmo interessado em Química e Meteorologia. Ainda assim, a maior contribuição de Lamarck para a ciência foi sua Flora francesa de 1779. Nesta obra, ele estabelece chaves dicotômicas de identificação das plantas francesas, um método mais fácil daquele empregado por Linnaeus, que se baseava mais na diferenças sexuais das plantas, o que para a maior parte dos naturalistas dificultava o trabalho, pois o restringia à época da floração, etc.... O livro fez sucesso, mas como todo cientista que escreve livros sabe, não dava nenhum dinheiro e ele vivia financeiramente na corda bamba.
 
Em outras publicações sobre botânica, ele tentou classificar as plantas numa escala linear (escada aristotélica) da mais simples para a mais complexa estruturalmente, pensando então nos organismos como um todo e não apenas como um amontoado de curiosidades ou criações divinas sem um processo unificador por base.
 
Durante o terror da Revolução Francesa muitas mudanças ocorreram nas instituições científicas que eram encaradas pelo novo governo como “elitistas”.
 
Apesar das muitas modificações, não consta, ainda bem, a implantação do sistema de cotas....Assim, Lamarck foi transferido do departamento de botânica do recém criado Museu de História Natural (antes se chamava Jardim do Rei) para a seção de insetos e vermes, que ele viria a rebatizar de invertebrados, cunhando um importante conceito em Biologia . Ele adorou a nova área de pesquisa.
 
Publicou inúmeros trabalhos, sempre classificando os invertebrados também do simples para o mais complexo, incluindo os fósseis, cuja diferenças com os organismos vivos eram devido ao fato que as espécies tinham passado “por mudanças”, algumas lentas em longas escalas de tempo. Era 1800 e a evolução começava a fazer sentido na sua cabeça. Em 1802 publica Pesquisa da organização dos corpos vivos, cujo desenvolvimento culmina em sua obra mais conhecida, Filosofia Zoológica, de 1809.
 
Nesta Lamarck explicita suas idéias: tendência inata dos organismos para maior complexidade e a influência do ambiente como fator responsável pelas variações em torno de uma norma básica.

Também diz que os animais superiores eram capazes de gestos voluntários que poderiam se tornar um hábito e, se constantemente repetido, o resultado seria um novo e mais desenvolvido órgão (lei do uso e desuso, isto é, quando usado o órgão muito usado ficaria melhor e seria transmitido à gerações posteriores. Se não o usasse, a espécie o perderia). Isto seria conseguido através do que Lamarck chamou de “sentimento interno”, um sentimento físico, involuntário resultante da agitação do fluido nervoso.
 
Nesta obra, ele ainda tem o crédito de introduzir uma árvore genealógica ramificada da teoria evolutiva que não perde nada para os arranjos ramificados que hoje são usados para explicar a evolução, mas infelizmente não consegue ir além disto, pois a visão da escada aristotélica ainda era forte dentro dele.
 
Todas estas idéias (excluindo a da árvore) ficariam mais claras com a publicação dos sete volumes de História Natural dos Animais Invertebrados (1815-1822).
 
Apesar da publicação de todas estas obras, Lamarck morreu pobre. Suas filhas (de quatro casamentos, pois ele ficara viúvo três vezes) ainda tentaram receber um dinheiro da Academia Francesa para o funeral, mas ele foi enterrado mesmo numa vala comum em 1829. 
 
Por uma ironia do destino, as idéias evolutivas de Lamarck só ganharam fama, quando os detratores de Darwin tiveram que se apegar a algo mais palpável para criticar o inglês. Mas os próprios darwinistas foram unânimes em reconhecer as principais contribuições do francês para a evolução: gradualismo (mudanças lentas) e a influência do ambiente nas mudanças das espécies.
 
Apesar da teoria lamarckista não ter “sobrevivido na luta” contra sua oponente mais forte e muito mais consistente, Lamarck não merece a lata do lixo da história científica, em especial por sua personalidade: com 55 anos alterou sua concepção de fixidez para a da modificação das espécies, já que os fatos falavam mais alto.
 
Reflita leitor: ainda hoje quais pesquisadores com 55 anos mudariam completamente sua concepção de mundo, mesmo baseado em fatos? Poucos, muito poucos...é só reparar nos departamentos de humanidades das universidades brasileiras, com seus socialistas, estatistas, etc... 

 

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POR EM 09/07/2008 ÀS 12:00 PM

A TAM vai falir

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Isso vai parecer coisa de doido megalomaníaco, mas, acreditem, é verdade. Sou eu o responsável pelas falências de companhias aéreas. Explico. Toda vez que uma delas começa a degringolar seus serviços, eu a amaldiçôo e ela descamba de vez. Foi assim com a Transbrasil, com a Vasp, a Varig e, agora, com a Tam. A Bra, não. Não tive nada a ver com essa.
           
O caso da Transbrasil já faz tanto tempo que não me lembro direito, só sei que fui eu o responsável. Com a Vasp foi assim: Eu trabalhava, na época, em Goiânia e Itabuna, e fazia uma “ponte aérea” com Ilhéus, conectando em São Paulo. Era uma conexão de algumas horas e eu aproveitava para ir ao Masp e à Cultura da Paulista toda vez. Ou seja, não era um sofrimento, pelo contrário. Além disso, eu corria menos risco de perder o vôo de conexão.
           
Acontece que havia outro vôo que saía de Goiânia mais tarde e fazia uma conexão apertada em SP. Resultado, como a Vasp vivia cometendo overbooking, vira e mexe, dava problema. Ciente disso, eu sempre chegava bem cedo e matava o tempo no maravilhoso-e-de-nome-lindo aeroporto de Goiânia. Numa dessas, me chamaram pelo alto-falante no guichê da Vasp. Eu fui. Vieram com uma conversa mole, que meu vôo deu problema, coisa e tal, e me botaram no outro vôo, que saía mais tarde. Fizeram isso uma vez. Duas. Na terceira, fiquei esperto. Não atendi ao chamado. Quando fui embarcar, o pessoal da companhia olhou meu bilhete e disse, “Ah. O senhor é o que foi chamado, etc”, ao que eu retrucava, “Pois é, mas não sou besta mais, eu sei que vocês queriam me usar pra resolver seu overbooking”. Pararam de me chamar.
           
Mas o caldo entornou mesmo quando, por conta de preço, optei por Vasp pra ir a um congresso em Porto Alegre. Tínhamos escala em São Paulo. O vôo demorou a sair de Goiânia. O que eles fizeram? Soltaram outro vôo de SP e, quando chegamos lá, nossa escala se transformou em uma conexão de... 24h. Coitados, não sabiam com quem estavam lidando. Não deveriam ter feito isso comigo. Deu no que deu.
           
Então passei a usar a Varig. Não só isso. Mudei meus hábitos. De uma pessoa que detestava usar cartão de crédito, virei usador contumaz do dinheiro de plástico. Eu era um cliente sorriso. Entretanto, o tempo foi passando, o sorriso se transformando em carranca, a carranca em máscara de horror. Pra conseguir marcar uma passagem pelo programa de milhagem era preciso uma antecedência de vários meses, e mesmo assim corria-se o risco de viajar na asa ou preso a uma das turbinas. Reuni todos os meus pontos, peguei os caras distraídos, consegui fazer uma viagem em baixa temporada pro Chile, onde fiz um roteiro eno-gastronômico inesquecível (até hoje tento perder os quilos que achei por lá). Quanto a Varig, todo mundo sabe o fim (?) da história.
           
Por essa época, uns amigos pernambucanos elogiavam bastante o programa de milhagem da Tam. Lá não tinha essa história de passageiro de milhagem ser passageiro de última classe. Tinha-se os pontos, usava-se. Falaram tanto que voltei a acreditar em programa de milhagem. Não só voltei a usar cartão de crédito, como solicitei um maxi-turbo-mega-power-intercooler da própria companhia e passei a comprar até balinha com ele (enfrentando a incompreensão dos caixas de padarias e similares). Eu tinha um plano.
           
Acalentava a idéia de visitar o laboratório de um pesquisador nos EUA, durante o mês de outubro, mas teria de ser do meu próprio bolso, e ainda por cima teria de levar meus três estorvos (mulher e duas filhas). Pagaria as passagens com milhagens, ou, quem sabe, faria um upgrade na volta. Pra encurtar a conversa, mês passado dei inicio aos preparativos finais. Quatro meses de antecedência, pensei, são mais do que suficientes. Ledo engano. Pra fazer upgrade a tarifa da passagem fica tão cara que não compensa. Pra marcar duas passagens de adulto, ida e volta, não tem vaga. Isso mesmo: quatro meses de antecedência e não tem vaga. Nem no dia desejado, nem nos dias em torno. Nem ida, nem volta. A funcionária ainda teve o desplante de criticar minha imprudência de tentar “só” com quatro meses, já que deveria ter tentado com seis. Desliguei o telefone e fui fazer simulações na internet para outros destinos. Tente voar pra Europa com pontos, pra ver o que acontece: nem com seis meses. E com oito? Eles não aceitam pedidos com antecedência maior do que seis meses (!!!!!).
           
O tapete vermelho está encardido. E, anotem o que estou dizendo, vai rasgar.

 

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POR EM 01/07/2008 ÀS 10:35 PM

Relendo Borges

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Releio o volume 1 das Obras Completas de Jorge Luis Borges, publicada pela Editora Globo. Devo dizer que não escolho muito os autores que vou ler. Geralmente, os livros aparecem para mim e graças a Deus (isto é, ao Acaso) tenho tido sorte. Esse livro apareceu durante minha mudança de casa. Tentei resistir à leitura, pois tenho muito déficit a cumprir, mas não foi possível. Sobrevoei os poemas e novamente achei-os desinteressantes, como da primeira vez, esses poemas antigos de Borges, a não ser por terem sido escritos pela mesma mão que escreveu o Aleph ou Ficções. O melhor livro de poesia de Borges para mim ainda é o que ele ditou, já em um estado avançado de cegueira, aos 70 anos: O Elogio da Sombra, de 1969. Minha avaliação, como sempre, é pessoal. Esse livro também veio até mim pela mão de meu pai. Li-o quando já estava morto e li-o, lendo a sua leitura, por meio das marcas que deixou, em grafite, assinalando uma ou outra passagem. Não sei com quem está esse livro, procurei-o agora mesmo e não o encontrei. Em que mãos andará? Aguardo paciente o retorno. Livros são objetos carregados de afetividade. Não tenho muitas fotos em casa, nenhuma do meu pai. Fiquei com esse livro dele e uma edição dos contos de Poe, com a data de 1979, escrita à mão -quando eu tinha sete anos e lembro que a capa em preto e dourado com um homem trajando um manto cheio de motivos geométricos e arabescos, terminando nuns quadriculados, acompanhado de um gato preto, povoou os meus pesadelos-, além de um ou outro volume de filosofia, que me esforço para me lembrar qual agora (talvez os Pensamentos de Pascal). O resto está espalhado pelo Rio de Janeiro, Alemanha e Natal, onde moram meus quatro irmãos.
 
Voltemos a Borges e às suas Obras Completas, Volume 1. Após passar a vista nos poemas, fui direto para a leitura que me prendeu ao livro, e que me fez chegar até aqui, a esse ponto do meu relato: o conto que dá nome ao título mais famoso de Borges: O Aleph. Uma vez que caímos na sua armadilha não o esqueceremos jamais. O Aleph é pois um tipo de Zahir borgeano, o objeto que é capaz de nos fazer esquecer todo o universo. No caso, o esquecimento pode ser das outras obras de Borges, assim como A Metamorfose é para alguns, péssimos leitores, o Zahir kafkiano, e não me admiraria se ele tivesse querido em algum momento desfazer-se desse conto. Mas é sem dúvida exagero dizer isso e só o faço por uma questão de estilo. O Zahir é tema de outro conto do livro, uma espécie de conto irmão deste, talvez escrito antes do Aleph, e em ambos o autor assinala, num epílogo de 1949, a influência da estória “The crystal egg” (1899), de Wells. Talvez o Aleph seja afinal um reflexo de uma outra miragem de Borges, de outro livro, anterior, Ficções, e dentro deste o conto: o Jardim de Veredas que se Bifurcam, o labirinto dentro de um livro, com suas dobras temporais: presente em que releio (e portanto situado no passado) e futuro em que será relido (fecha-se o círculo que é eterno). Começa-se a ler Borges e fica-se prisioneiro das referências, dessas palavras e termos, enriquecido pelo conhecimento, dessas metáforas vertiginosas, de sua mise en abîme. Não se esquece, rememora-se, vai-se adiante e retorna-se. Não se deve ler Borges começando pelo Aleph, como fez um conhecido meu. As obras completas têm portanto essa vantagem, de trazer ao leitor recém-iniciado tudo de uma só vez. Ler saltando de uma estória a outra, e no tempo, é outro dos prazeres. Falei em enriquecimento e não há melhor palavra para descrever. Borges é o tipo de escritor que nos torna mais inteligente, ou em contato com a sua inteligência superior, nos faz sentir mais inteligentes do que realmente somos. Abrem-se mundos, que não existiam antes, deuses que criamos, fala-se com os mortos, alguns até ressuscitam.

 

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POR EM 22/06/2008 ÀS 07:52 PM

Pessoa humana, pessoa animal

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Depois de ouvir pela TV um ministro do Supremo Tribunal Federal dizer mais de uma vez “pessoa humana”, fiquei preocupado. Será que o STF também decidiu oficializar a redundância? Alguém me disse que era pra diferenciar de “pessoa jurídica” e “pessoa física”. Não engoli sem mastigar e fui procurar na internet se cabia o argumento. Achei o voto na íntegra do ministro Ricardo Lewandowski, uma dissertação de mestrado de 56 páginas (disponível aqui). Está lá, várias vezes, o “pessoa humana”. Em todas o contexto é o usual, mesmo, ou seja, bastava “pessoa” (ou, vá lá, “ser humano”).
           
Mas não vou pegar no pé de um ministro do STF por causa disso. Também não vou implicar com a quantidade de filósofos citada por ele (parei de contar quando até Heidegger e Husserl apareceram na lista), enquanto bastava o bom e velho Moore (autor de Embriologia Clínica, velho conhecido dos alunos de graduação em ciências da saúde). Nesse ponto não tenho o que criticar: não só Lewandowski cita, como me pareceu ter dominado bem o conteúdo.
           
Entretanto, como membro de um comitê de ética em pesquisa (CEP), considero-me pessoalmente atingido pelo seguinte trecho de seu voto (p.54): “Não se mostra, também, segundo penso, conveniente e nem jurídico, permitir que projetos de pesquisa e de terapia com células-tronco embrionárias humanas sejam exclusivamente aprovadas pelos comitês de ética das próprias instituições e serviços de saúde responsáveis por sua realização, a teor do que sugere o § 2º do art. 5º, aqui atacado. É que, seja-me permitido o recurso a uma conhecida parêmia romana - e com o devido respeito que os cientistas merecem -, lupus non curat numerum ovium”.
           
Não, senhor ministro, nós, dos CEP espalhados pelo Brasil, não somos lobos. E nos preocupamos, muito, com a contagem das ovelhas. Saiba o senhor que fazemos isso sem qualquer remuneração, e, não raramente, com a incompreensão dos pesquisadores que nos enxergam, às vezes, como os chatos atrasadores de seus projetos. Se tivesse tomado o mesmo cuidado que tomou em sua pesquisa de fontes filosóficas, ficaria sabendo que quaisquer pesquisas com células-tronco embrionárias se enquadram em área temática especial, e que por isso são duplamente avaliadas, local (CEP) e centralmente (CONEP). Ficaria sabendo também que o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, ao contrário do que acredita (p.52), já contempla todas as suas preocupações, assim como também no que diz respeito à composição dos comitês de ética (p.55), eles já são “pluralistas e multidisciplinares”, com integrantes de diversas áreas do conhecimento.
           
Confesso que me escapa à compreensão tanta conversa mole jurídica, num assunto que poderia ser tratado de forma mais objetiva. O procurador geral da república, motivado religiosamente, achou por bem questionar a constitucionalidade da Lei de Biossegurança. O que diz a constituição? “Inviolabilidade do direito à vida (...) a todos os brasileiros(...)” (art. 5º.). “Direito à vida” sozinho é muito vago e poderia dar a entender qualquer “vida brasileira”, o que nos proibiria de matar boi brasileiro (pessoa animal) ou colher alface brasileira (pessoa vegetal) pra comer. O bom-senso assumirá, então, que a Constituição se refere a brasileiro-gente (pessoa humana). Quando alguém pode ser considerado gente? (Não procure a resposta em Tomás de Aquino, faça-me o favor). Concordamos, então, que a falta de sistema nervoso é um parâmetro biológico aceitável? (Sim, cabe aqui feto anencéfalo). Próximo passo: a Lei de Biossegurança se preocupou em restringir o que pode ser usado em pesquisa? Sim, ela se refere a “embriões inviáveis” (nesse sentido concordo com Lewandowski, quando ele defende que se explicite “inviável”), exige consentimento dos genitores e proíbe a comercialização.
           
Pronto. Está decidido. Anjo não tem sexo.

 

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POR EM 22/06/2008 ÀS 05:45 PM

Drummond, a estética do estranhamento

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"Eu não deveria te dizer,/mas esta lua, este conhaque/deixam gente comovido como o Diabo".
Carlos Drummond, o anjo gauche, vindo das montanhas de Minas, escreveu estes versos por saber que os anjos são impassíveis às nossas angústias, e só o Diabo pode se comover. Inútil nos fiar no poder que as palavras, em estado de poesia, possam ter. Pois segundo Luis Costa Lima, "A poesia não salva ninguém. Ao contrário, nos deixa tortos, em nossos cantos". Em meio à fumaça e ao furor do tempo das máquinas insones, Drummond fez a poesia da blague e do humor negro, assumidamente anti-convencional, sendo ele próprio a imagem do homem convencional em tudo. Praticou o anti-lirismo do estranhamento. Sem saber, ou de caso pensado, passou a ser uma pedra no sapato dos anjos perfeitos.  
           
O poeta itabirano assume mergulhar nas inquietudes do Eu, não para tentar entendê-lo, mas para exercê-lo. Não se refugia no reino das palavras para se afastar do conflito, mas para torná-lo criativo. Em Minas, de uma roda de mentes brilhantes, o que mais reluziu, como perfeito diamante, foi o anjo torto itabirano - o mais namorador, e o menos bem informado. Estranha ironia, a confirmar que nem sempre os mais eruditos são iluminados pelo dom da criação. Dentre os anjos conformados, o poeta é o anjo bêbado, que desafina no coro dos contentes: "Tudo é aparência/tudo é espuma./Muito poucas coisas são importantes na vida/".
           
Uma voz silenciosa, surgindo das áspedras montanhas de Minas, parecia dizer ao magro vate, em seu espanto perante a máquina do mundo: "O amor no escuro, ou no claro, é sempre triste, meu filho Carlos". Não desejando ser poeta de um mundo caduco, Drummond também não quis cantar o mundo futuro. Em sua angústia criativa, a ele só interessava a matéria do presente. O tempo foi a sua matéria. O tempo presente. A vida presente: "Chega um tempo em que a vida é uma ordem/a vida, apenas/sem mistificação/".
           
Depois, da descrença niilista, passa ao instante de participação na marcha do existir. É quando descobre que a flor pode furar o asfalto, "vencer a dor, o medo, o nojo e o ódio". Então, "no auge de um porre de esperança", segundo Leandro Konder, ingressa na militância comunista, e não se adapta à rigidez da burocracia partidária. Ao brigar pela posse de um livro de atas, o poeta rompe com o partido. Mais tarde, procurado por uma militante, que pedia-lhe para assinar um manifesto pela paz, encabeçado pelo Partidão, recusa-se a fazê-lo. Diante da insistência, e da insinuação de que ele seria pela guerra, ele perde a placidez: "Sou sim, minha filha! Sou contra a paz e pela guerra!".
           
"Foi preciso que um poeta mineiro, não dos maiores, mas entre os mais galhofeiros", visse na alegria triste de Carlitos a sua própria tristeza de nunca ter encontrado a criança que foi. E assim se viu seguindo de mãos pensas, neste mundo habitado de dor e desesperança. Que outro poeta, senão este, que procurava elidir o peso da gravidade de existir poderia invocar uma namorada que morreu de apendicite? A morte, em sua forma bem banal, vem ressaltar o destrambelho das paixões do desenfreio. O que difere da morte madrugadeira, do entregador de leite: "A noite geral prossegue/mas a manhã custa a chegar/". Mesmo numa aurora de espanto e sangue inocente, em que, muitas vezes, a viaja.
           
 Tendo sido a palavra seu exílio voluntário, foi sob o signo de seu mistério que vislumbrou o sentido possível do mundo. Se tudo nesta vida são meras miragens, amores que nos ferem "sete vezes por dia, em sete vidas de ouro", são só imagens do sonho humano o jogo da poesia. Deu-se, então, que no entardecer de sua existência, em pleno crepusculário dos oitent´anos, o poeta recolheu-se em si mesmo. E, tal como Raduan Nassar, fez um acordo com o mundo. Em troca de seu barulho, deu-lhe o seu silêncio.
 
                                    
O ANJO ESCREVEDOR
 
 
Não querendo aprender
a decifrar a alma dos negócios,
fez-se anjo torto,
e não entrava em clubes
que o aceitavam
como sócio.
 
Entre as montanhas de minas,
no brejo das almas,
o poeta-gauche
entrou no som do caminho
e foi fazer destino
como perfeito burocrata
e alquimista do Verbo.
 
Não sendo homem
de ócios capadócios,
viveu tentando ocultar
sua magra figura
do olhar do absurdo,
mesmo sabendo:
ninguém, jamais,
há conseguido.
 
Assim, foi um ser tão discreto
que não foi tentado
pelos anjos da ingenuidade,
nem por demônios per-versos.
 
Em um mundo governado
menos pelos vivos
e mais pelos mortos
e seus vampiros,
foi mais um anjo escrevedor
a desafinar
no coro dos contentes.
 
Bêbado de lucidez,
só andou de mãos pensas
na desordem espandongada
da máquina do mundo

 

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