revista bula

compartilhe



últimos comentários

  • Bom dia! Meu filho de 18 anos, que, para falar a verdade, até agora não se interessou muito pela leitura, me pediu o livro “Europa na Guerra — 1939-1945”. Está querendo saber mais sobre a Segunda Guer ...

    5 horas atrás por Andréa Cristina Menezes Pires Corrêa sobre Livros para entender a Segunda Guerra Mundial
  • Amanhã, dia 02/09, lançamento da obra completa de Pio Vargas, na UBE-GO. Organização de Carlos Willian Leite, prefácio de Ademir Luiz. ...

    1 dia atrás por Carlos Augusto Silva
  • Ah, sei. Anhanguera fez tudo isso e também estuprou as índias e ainda por cima ganhou uma rodovia com seu nome. Nossa, grande representante do Brasil nós temos. ...

    2 dias atrás por Michelle Lima da Silva sobre Anhangüera: herói ou vilão?
  • "Agarre-se às pequenas coisas, tudo bem, mas seja mais seletivo. "Avatar" não!"
    Rapaz, se você quer se AGARRAR a conceitos veiculados pelo cinema, pobre de você. Além de odiar o citado Woody Allen, di ...

    2 dias atrás por Daniel sobre Por que Avatar é idiota

últimas no twitter

parceiros

  • Tawitter

  • twitter rank

  • Marconi Leal

  • Filosofia Ciência & Vida

sugestões de livros

  • Centopeia de Neon

sugestões de filmes

  • http://bit.ly/bE40kL

  • Lola Montes

  • Europa 51

  • No Limiar da Vida

colunistas

POR EM 16/02/2009 ÀS 06:12 PM

Yes, nossa ciência tem história

publicado em

Se você tem a sorte de ter que viajar de carro ao Rio de Janeiro quase que fatalmente terá o azar de ter de passar pela horrenda Avenida Brasil, com seu tráfego ruidoso e sua paisagem desoladora que mostra um Brasil que poderia ter sido mas não foi. Destoando deste cenário feio, nesta mesma avenida de nome irônico, aponta por entre altas árvores de Mata Atlântica (e outras nem tão nativas) a torre de um templo ou de um castelo das Arábias. Pra quem não sabe, trata-se do Instituto Oswaldo Cruz ou simplesmente Instituto Manguinhos, que para muitos é a inauguração ou ainda, o desembarque da ciência brasileira oriunda da Europa, mais precisamente do Instituto Pasteur na França.

É precisamente esta história, em quase todos os seus meandros e aspectos sociológicos, que Henrique Cukierman conta em seu “Yes, nós temos Pasteur: Manguinhos, Oswaldo Cruz e a História da Ciência no Brasil” (Editora Relume Dumará e Faperj, 2007, 437 p.).

O livro é balizado pelas reflexões do francês Bruno Latour sobre ciência e também pelo, mais famoso que lido, “Raízes do Brasil” de Sérgio Buarque de Holanda. Por ser fruto das dissertações de mestrado e doutorado do autor, sobra no livro aquele palavrório academicista, com direito à linguagem em tom irônico, por vezes, enfadonho, dos relatórios governamentais do início do século XX. Há também algumas informações repetidas (por exemplo, as tabelas das páginas 129 e 191) e em muitos momentos as longas notas de rodapé são bem mais interessantes que o texto propriamente dito. Em suma, houve por parte do autor e das editoras (duas editoras, nenhum índice remissivo....) um certo desleixo, “...palavra que indica menos falta de energia do que uma íntima convicção de que não vale a pena...”, só para lembrar Sérgio B. de Holanda.

Mas ao que interessa: recém-chegado de um longo estágio na França, o Dr. Oswaldo Cruz foi chamado em 1899 para acudir mais uma moléstia que aportara em Santos. Era a peste bubônica como logo depois diagnosticara junto com Adolpho Lutz e Vital Brazil. Para combatê-la, se fazia necessário construir um local para produzir soro, vacina e diagnósticos mais precisos. Na verdade, muito mais era requerido (como o saneamento) mas, quando no início de 1900 a peste pareceu desistir de dar seu abraço da morte surge “claramente os mecanismos de funcionamento da Velha Metrópole perante as situações de crise: assim que se esgota seu paroxismo, cessam os movimentos para enfrentá-la e desmoronam as estruturas que a própria crise engendrou” (p. 62). Isto é, quando pára de morrer gente, de lotar hospital ou ainda de ser manchete de jornal, não se precisa mais nem do hospital, nem da vacina, nem da profilaxia. O modo como as autoridades brasileiras trataram a dengue nos últimos quatro anos te lembra alguma coisa, leitor?

Mas o bacilo veio em socorro dos nossos heróis cientistas e novos casos da peste reapareceram no Rio de Janeiro. Em 23 de julho foi inaugurado, então, o Instituto Soroterápico Federal, um grande feito naquele país tropical em que “não se acreditava em micróbios”.  O resto é história: a casa dos funcionários que tocavam os fornos para a incineração de lixo na longínqua Fazenda Manguinhos, passou a receber os equipamentos da Europa e o pessoal do Instituto que “nessas toscas e velhas construções, começou a fazer medicina experimental no Brasil” nas palavras de um dos pioneiros.

Foi neste local insalubre, cuja refeição era um “ensopado de galinha com batatas, arroz , pão e, para terminar, algumas bananas e café ralo” que Oswaldo Cruz exigia obediência cega aos preceitos das técnicas bacteriológicas. O argumento era baseado na história de Domingos Freire, que em 1885 teve seu trabalho original, sobre o agente etiológico da febre amarela, rejeitado pelos europeus e americanos, pois não seguia as rígidas regras científicas necessárias. Oswaldo não queria cair nesta armadilha e ao mesmo tempo, não se contentava em ser um repetidor incondicional da ciência européia. Era preciso aproveitar o momento para, além de civilizar o Brasil, colocando-o no eixo da revolução científica da vacina, fundar uma ciência genuinamente brasileira. Mas aí viriam os entraves da burocracia e até mesmo a revolta da vacina, que ficam pra semana que vem.


leia mais...
POR EM 16/02/2009 ÀS 05:10 PM

Risole de carne e moranguinho

publicado em

Minha mais velha fez dez anos há poucos dias e caímos na besteira de fazer uma festa em nossa casa. Ela queria convidar só as coleguinhas. Os coleguinhas ficariam de fora. “Eles são muito atentados”, nos advertiu. Minha esposa e eu: “Não podem ser atentados assim”. Eram. Quer dizer, não eram, propriamente, “atentados”. Eram animais mesmo. Um bando de selvagens no sentido anti-rousseauniano da palavra. Um ou dois degraus a menos na escala evolutiva (acima dos macacos, mas abaixo do homem de “Neanderthal”).

Minha casa tem marcas de sua passagem até hoje, como provavelmente tinham as cidades invadidas pelos vikings ou Gengis Khan, sei lá. Só que a guerra, aqui, foi de brigadeiros. O que deixou minha filha ainda mais brava, pois não sobrou brigadeiro, seu doce predileto, pra contar história.  A não ser no chão, nas paredes, e nos lugares mais improváveis que escavações arqueológicas posteriores revelaram para nós.
 
E por falar em doce predileto, embora a festa fosse para minha filha, era um pouco pra mim também, pois fazemos aniversário quase na mesma data. Ela comemora, eu me conformo. Mas fiz algumas exigências: 1- Não teria cerveja de mulherzinha (aquela que desce redondo e similares). 2- Não teria risoles de milho. 3- Teria risoles de carne e moranginho.
 
Consegui quase todas. Exceto o moranguinho. Alguém aí se lembra de um docinho de festa de criança de antigamente que se chamava moranguinho, mas não era feito de morango? Não consigo ninguém que se lembre e faça. Uma dó. Era meu doce preferido. Quanto aos risoles, bati o pé. A ditadura do risole de milho não teria vez no meu aniversário! (Tudo bem, tudo bem, aniversário de minha filha). Minha esposa tentou contra-argumentar, que o correto é que fosse uma democracia, que permitisse a convivência harmônica entre risoles de milho e carne. Mas eu não cedi. Força se derrota com força. (Woody Allen diria: “É difícil argumentar com quem usa coturno e arma. Melhor conversar com um bastão de beisebol na mão”). Venci. Risole de milho não passou nem perto de minha festa (tudo bem, de minha filha).
 
Voltando aos animais. É impressionante a tendência dos pais de hoje a tratar seus pimpolhos como se fossem Adão e Eva antes da mordida da maçã. É como se se sentissem cronicamente culpados por tê-los colocado no mundo cruel. E dá-lhe birra e mal-comportamento não corrigidos ou sub-corrigidos. Não advogo aqui a educação pela porrada (embora eventuais tapinhas de amor não doam, como diz a música). Refiro-me à disciplina (que não necessariamente está acoplada a castigo físico). Não há disciplina mais. Assiste-se a espetáculos grotescos de birra em frente dos pais sem que estas façam qualquer coisa, pelamordedeus! A criança diz um ou dois “eu quero!” (ou “eu não quero”) e os pais cedem. O que escapa a estes pais é que não estão protegendo-as, mas aleijando-as intelectualmente. O mundo não é assim. No mundo, quando uma delas espernear no chão gritando “Mas eu quero” Eu quero!!”, serão pisoteadas. E aí? Onde estarão os pais super-protetores (leia-se coniventes e permissivos) nessa hora? Infelizmente, bem longe.
 
Flávio Paranhos é Médico. Coordenador da Coleção Filosofia & Cinema e autor do livro de contos Epitáfio (Nankin Editorial). Colunista da revista Filosofia Ciência & Vida (Editora Escala) e dos sites www.revistabula.com e www.mundomulher.com.br
 


leia mais...
POR EM 16/02/2009 ÀS 05:07 PM

O que havia de comum entre o Wando e os Beatles?

publicado em

Em quem você atiraria os seus tamancos ou alpercatas? Ah, se a moda pega... Do jeito que brasileiro é criativo, sabe-se lá que objeto utilizaria como arsenal de protesto. Ovos chocos e tomates podres são coisas do passado. Tortas na cara já perderam a graça. Eu, por exemplo, cria rasteira do cerrado goiano, usaria como munição caroços de pequi ainda dentro da casca. A pelota verde bem serviria para atingir o alvo com mínima chance de erro, sem baixas civis pelo fogo amigo.

Antes das eleições norte-americanas um jornalista iraquiano, valendo-se de nato talento bélico, arrancou do pé o sapato e o arremessou na direção do então Presidente George W. Bush. Gritando cobras e lagartos contra a autoridade americana, o hábil manifestante ainda teve tempo de sacar o outro pisante para uma segunda tentativa (afinal, todos têm direito a uma segunda chance...). Ambos os projéteis de mocassin passaram raspando pelo estupefato presidente. Demonstrando estar em boa forma física, Bush balançou o corpo duas vezes, desvencilhando-se com sucesso do ataque surpresa (parecia Sugar Ray Leonard no ringue). A cena hilária, apesar de grave, percorreu o mundo todo. Muita, mas, muita gente mesmo lamentou que as sapatadas tivessem errado o alvo. Bush foi um cara mau...

Na semana passada, inspirado no episódio iraquiano, um sujeito valeu-se do surrado tênis para tentar ferir o Primeiro Ministro chinês Wen Jiabao, quando este palestrava na Universidade de Cambridge, na Grã-Bretanha. Os seguranças logo se jogaram sobre o rapaz, cujo nome não foi revelado. Não se sabe ao certo o que motivou o ataque. A ousadia do atirador de tênis fez o Premier chinês arregalar os olhos de espanto.

Na bela canção “Geni e o Zepelim”, Chico Buarque de Hollanda (o bom) conta que uma cidade apavorada se quedou paralisada, pronta pra virar geléia, frente ao ataque surpresa de um Zepelim gigante. Todos, contudo, foram salvos por Geni, o travesti que, heroicamente, aceitou dormir e se lambuzar com o comandante da estranha nave. Após a partida do algoz misterioso, ao invés de gratidão, Geni ouviu do povo o enfático refrão: “Joga a pedra na Geni / Joga a bosta na Geni / Ela é feita pra apanhar / Ela é boa de cuspir / Ela dá pra qualquer um / Maldita Geni!”. Entre Geni, Bush e Jiabao, fico com o travesti. Sim. Conforme a letra da música, Geni cativara outro forasteiro: eu.

Wando era um sortudo. Ou não. Quando ídolo da mulherada (casada ou solteira, não havia limites para a libidinosa paixão...), estando no auge de sua carreira artística, o cantor teve o palco alvejado inúmeras vezes por calcinhas vermelhas (em sua maioria) atiradas por fãs ensandecidas. Reza a lenda que o cantor guarda baús lotados com peças íntimas de todas as cores e matizes, novas ou usadas, limpas ou marcadas com corrimento. Explorando o universo brega, Wando deixava as mulheres enlouquecidas e os maridos preocupados. Hoje, longe do charme meloso daqueles anos, o cantor pode se vangloriar da sorte. Embora o mau cheiro seja equivalente, antes sofrer uma chuva de calcinhas do que sapatos, ou cuecas...

No auge da beatlemania, nos primeiros anos da década de 60, os quatro garotos de Liverpool, embalados por sucessos contagiantes e nevrálgicos como “She loves you” e “I want to hold your hand”, sofriam com o arremesso de jujubas, balinhas, gomas de mascar e outros docinhos atirados pela legião de fãs tresloucadas que lotavam os auditórios da Inglaterra e dos Estados Unidos. Equivocadamente, as fãs buscavam, daquela forma, homenagear os carismáticos roqueiros. Em suas memórias, os Beatles relatam que repudiavam o assédio açucarado das moçoilas que algumas vezes provocaram tombos e outros acidentes no palco. Foram doces aqueles anos em que a música funcionava como instrumento de mudança social. Hoje em dia...

Quando já não existem mais entendimento e diálogo nas relações humanas, abre-se um campo funesto para a agressividade, atitudes como aquelas que envolveram os atiradores de sapatos. Para protestarem, para se fazerem ouvidos, muitos radicalizam ficando nus em público, abrindo faixas com palavras de protesto, quebrando protocolos, ofendendo o status quo. Durante o Movimento Hippie na década de 60, a juventude protestava deixando as cabeleiras crescerem, não tomando banho, transando como animais que eram (e somos), e se empanturrando de maconha, LSD e heroína.

Cada qual sabe onde lhe dói o calo. Cada qual emprega as armas que têm. Há que se tirar proveitos dos incidentes, como os ocorridos com Bush e Jiabao. Que os políticos jamais se afastem do povo, fazendo-se de surdos aos seus clamores mais legítimos, sob risco de se transformarem em alvos ambulantes. Wando e os Beatles foram exceções e gozavam de algo em comum: o amor incondicional dos fãs.


leia mais...
POR EM 02/02/2009 ÀS 11:36 PM

O caso Battisti e a noção de justiça

publicado em


De todas as definições de justiça que já tive oportunidade de conhecer, a que me parece mais honesta está no comecinho da República de Platão. Justiça seria a vontade do mais forte. Assim a define Trasímaco no Livro I, no que é evidentemente refutado por Sócrates, daquela forma dialético-aporética, como só ele conseguia fazer, para irritação de qualquer leitor que possua inteligência mediana para melhor. Trava-se, então, essa pérola de diálogo:

 Sócrates: Acaso a justiça é um vício?
 Trasímaco: Não, mas uma sublime ingenuidade.
 S: Então, à justiça chamas mau caráter?
 T: Não, mas sim prudência.
 S: Acaso te parecem sensatos e bons os injustos?
 T: Sem dúvida, os que são capazes de ser perfeitamente injustos, com força para submeterem à sua autoridade Estados e nações. (...)
 
Mas, note bem, Trasímaco tem o cuidado de (antecipando Maquiavel e Nietzsche em alguns séculos), frisar que ser injusto não era para qualquer um, mas apenas aos mais fortes, aos “senhores”: “Se um homem, além de se apropriar dos bens dos cidadãos, faz deles escravos e os torna seus servos, em vez de [receber injúrias], é qualificado de feliz e bem-aventurado, não só pelos seus concidadãos, mas por todos os demais que souberam que ele cometeu a injustiça. É que aqueles que criticam a injustiça não a criticam por recearem praticá-la, mas por temerem sofrê-la.” (344c)
 
Há, todavia, uma saída para os, digamos, menos fortes. Também antecipando Maquiavel, Gláucon, no Livro II, contará a estorinha do anel de Giges, cuja moral seria: tudo acaba bem, se você não for flagrado. (Maquiavel diria: O príncipe [leia-se o mais forte] deve PARECER justo). Claro que todo mundo quer um anel de Giges para si. Fortes, menos fortes e fracos. Numa democracia, então, um anel desses vale ouro, já que não se pode abusar da força.
 
Não vá o leitor pensar, entretanto, que o autor deste texto corrobora as palavras de Trasímaco e seus descendentes. A leitura correta destas fundamentações da moral (além da anti-platônica, a de Maquiavel, Nietzsche e outros) é descritiva, e não normativa. Eles dizem: “Assim é”. E não: “Assim deve ser” (embora seja possível, claro, interpretá-las normativamente, o que será um desastre). Dar o salto do descritivo pro normativo, ou mesmo conformar-se com o “assim é” (como o presidente Lula fez na época do escândalo do mensalão, na célebre entrevista concedida na França) é um erro. Uma das condições para a evolução humana (que nos afasta dos outros animais) é justamente o não conformar-se com o “assim é”.
 
Outra noção chave em justiça é a de corporação. Justa será a medida que nos beneficia. Injusta, a que beneficia a eles. “Nós” e “eles” são dois times nem sempre bem delimitados e podem sofrer constantes ajustes circunstanciais. É o caso (e agora finalmente chego ao ponto) do italiano Cesare Battisti. Quem é “nós”? “Nós”, os bravos militantes de esquerda. “Eles”, o regime de exceção italiano da década de 1970, com sua Justiça viciada. Mas “nós” podem ser também os familiares das vítimas assassinadas. E “eles”, os terroristas sanguinários.
 
Entra em cena, então, um bizarro jogo de palavras, vindo de ambos os lados da contenda, que só serve para confundir a nós, os leitores (supostamente neutros). Para o governo brasileiro (leia-se ministro Tarso Genro), parece ser de suma importância que os crimes de que Battisti é acusado sejam “políticos”. Evidentemente que se fossem crimes políticos “de direita” o ministro jamais agiria assim. Pois aí Battisti seria do time dos “eles”, os “da direita”. Para o governo italiano, o caso está encerrado e o Brasil não tinha nada que se meter. E pra nós, os leitores de jornal? Se você for apartidário como eu (o que não significa aideológico, já que tal coisa não existe) provavelmente deve estar se perguntando: afinal, ele é culpado mesmo ou não é? A única coisa que realmente importa parece ter sido esquecida.
 
Há fortes indícios que apontam para sua culpa real (era marginal antes de ser militante político, por exemplo). Mas há questões mal-resolvidas. O fato de ter sido denunciado por delação premiada deveria, no mínimo, ser visto com alguma desconfiança. Também o fato de ser apontado como autor de dois crimes acontecidos no mesmo dia em cidades diferentes (mesmo levando-se em conta que a Itália é um país pequeno - de acordo com o Google, a distância entre as duas é de aproximadamente 300 Km). Não é impossível, mas me soa improvável que uma pessoa assassine outra e horas depois mais outra, em outra cidade, enquanto seria de se esperar que estivesse bem escondida.
 
De toda forma, independente de quem detém o poder (PSDB ontem, PT hoje, Deus sabe quem amanhã), é este, o poder, o outro nome que se dá à justiça. O que não nos obriga a nos conformar com isso. Se assim é, assim não deveria ser.


leia mais...
POR EM 02/02/2009 ÀS 09:19 PM

O perfume da memória e o ocaso da crítica

publicado em


Nos arrebaldes do Plano Piloto, em Taguatinga, Cidade Satélite, ainda moça brejeira e empoeirada, a mulher pública convida o poeta a fazer amor em um prostíbulo disfarçado em hotel. O literato e jornalista, recém-chegado, com a mala de papelão repleta de clássicos da literatura, tinha outra espécie de amor para dar, embora crendo, como na canção da MPB, que “toda maneira de amor vale a pena/toda maneira de amor valerá”. Assim, dispensou o “favor” amoroso, e agradece, pois vai de encontro a um amor mais geral. Assim proclama seu amor impessoal a seu tempo e à cidade que o acolhia, em seus primeiros vagidos. Saltando uma poça de lama, o poeta seguiu em frente, com suas esperanças e sonhos.

Foi ali o primeiro lugar onde morou, em sua diáspora rumo ao futuro literário. Sonhos que andou cultivando em pastoreio de nuvens, e na leitura dos clássicos, em sua pacata Silvânia. Lugar de sua família, onde aprendeu, com Carlos Drummond de Andrade, ser preciso “tecer um canto/que faço acordar os homens/e adormecer as crianças/”. Queria ter um caso de amor não com uma pessoa, mas com a humanidade (a sua e a de todas as pessoas). O poeta tinha um sonho, e precisava conquistar seu espaço de viver na cidade para onde chegavam brasileiros vindos de todos os lugares.

“Há beleza e dignidade até mesmo nas pequenas redes de hotéis camuflados em prostíbulos”. Assim escreve Salomão Sousa, no belo  texto de abertura de seu livro “Momento crítico”. Poderíamos acrescentar que também há beleza nas áridas paisagens do nordeste semi-árido, onde sobrevive, em miséria social, um povo aguerrido e bravo (como o viu Euclides de Cunha).

Povo sofrido, mas não miserável. E também beleza há na Amazônia, no dito “inferno verde”, e não apenas na via Ápia, como afirmou Joaquim Nabuco, praticando uma diplomacia às avessas, uma vez sabendo-se ser missão dos embaixadores e diplomatas em geral “mentirem honestamente em favor de seus países”, como ironizou Roberto Campos. No caso, Joaquim Nabuco mentiu desonestamente em desfavor do Brasil e de seu povo, que pagavam sua viagem de turismo diplomático. 

Esta é uma das observações de fina ironia, que Salomão Sousa se permitiu fazer, em variados textos desta reunião de seu “Momento Crítico”, em que lemos crônicas de cunho ensaístico, e ensaios vazados em linguagem leve de cronista. Refere-se também o autor a Edgar Morin, que em recomendações para uma prática da educação contemporânea nos dia que a mesma deve fundar-se em quatro pilares: aprender a ser, a fazer, a viver juntos e a conhecer. S.S. assinala, no ensaio “É hora de detonar o egocentrismo”; “O indivíduo, ao pregar excessivamente a importância do Só Eu, contaminou a cultura como obrigação de seguir a política de incentivo ao egocentrismo.

Torqueville, clássico pensador da Democracia já nos dizia, há 170 anos: “Existe um amor à pátria que tem a sua fonte única naquele sentimento irrefletido, desinteressado e indefinível, que liga o coração do Homem ao lar em que nasceu. Confunde-se este sentimento com o gosto pelos costumes antigos, com o respeito aos mais velhos e a lembrança do passado. Aqueles que o experimentam estimam o seu país com o amor que tem pela casa paterna”.

Talvez tenha faltado  amor à pátria ao senhor Joaquim Nabuco, ao valorizar de modo tão enfático a importância universal da Via Ápia, em detrimento das paisagens de sua pátria – coisa que Vinicius de Moraes fez ao contrário, e de modo magistral, em seu belo poema Saudades da minha Pátria.

Quase na mesma linha de Torqueville vai Salomão Sousa, no texto de abertura de seu livro, em que evoca a perdida sensibilidade das pessoas (dos jovens em particular) em relação às flores, e às sensações físicas e emocionais que provocam – sensações que ainda vibram em sua memória, quando se põe a recordar passagens de sua infância e juventude, em Silvânia, cidade onde nasceu: “Quem não adquire memória pessoal das flores não estabelece liames para a compreensão da beleza e sua ligação com a cadeia evolutiva da vida. As flores existem para a sua ligação com a cadeia evolutiva da vida. As flores existem para que a harmonia se construa”.

Eu acrescento: e também para que não nos falte, em nossa trajetória existencial, o esplendor de reverdecer no verde, no deslumbrar-se ante a beleza de dos bichos e plantas, nos cantos de muros de mundo, e nos quintais da fraternura e da inocência: “Ao nos aproximarmos para apanhar água, víamos, do outro lado da bica, a moita de açucenas e corolas vermelhas, com os milhares de pistilos atraindo os marimbondos e as abelhas arapuás. (...) As açucenas ainda alimentam as lembranças, numa manhã sem mãe e sem mulher alguma outra mulher que, durante as viagens, engrandeça  o dia com os nomes de flores, ou com centenas de pistilos novos que possam animar a vida”.  
 
Há muito a ler e a admirar, a deleitar mesmo, nesta coletânea de textos críticos do poeta e jornalista Salomão Sousa, que há anos reside e trabalha em Brasília. Ali, mesmo tendo que despedaçar as pedras do caminho, ocupou espaços na poesia e na crítica, agradando a muitos, e desgostando a uns poucos, com o ferrão de seu chuço de menino carreiro que foi, sem ter sido.

Grande parte de seus textos reporta-se a livros, personalidades culturais da capital federal – mas não faltam reflexões interessantes sobre a poesia goiana, ou ponderações de grande profundidade e perspicácia, como no longo texto intitulado “Reflexões desconexas sobre comportamento cultural”. Neste texto Salomão Sousa atira em muitas direções, focando os caminhos da poesia brasileira, ou sobre a própria crítica, que deixou de ser um caso para entrar em ocaso. Tão invisível em sua precária existência, que sequer chegou a ser caso de polícia.
 
Tal ocaso ocorre em face da moderna decadência cultural por que passamos, nesta era cibernética em que tudo é virtual, em segundos se esfuma no ar da evanescente e arrogante modernidade, muitas vezes vazia e sem caminhos. Salomão discute longamente causas e coisas do boom da poesia brasileira, a partir de 1997, passando pela fase em que “ o poema passou a representar respiração apenas para o poeta”. Passa Salomão Sousa à crítica da crítica: “O crítico não quer mais valorizar a obra que está sob seu foco, mas sim aniquilá-la, esquecendo-se que o ato de criticar é paralelo ao de criar”.    


leia mais...
POR EM 02/02/2009 ÀS 06:16 PM

Sobre cegueiras e oportunidades

publicado em

 Como o Brasil, a Índia ostenta elevados indicadores de analfabetismo e grandes contingentes populacionais embrutecidos pela pobreza, miséria e indigência. Mas a mais destacada e perversa característica que ambos historicamente têm mantido em comum, talvez seja a corrupção endêmica, parasitando e devorando os Estados soberanos, vampirizando suas forças sociais 

  

Como a pequenina aluna, apenas seis anos de idade, não conseguiu responder à questão formulada, o professor cerrou os dentes, resmungou alguns impropérios, deu à face amedrontadora um ar ainda mais severo e, resolutamente, disparou em direção à estudante para, com um alfinete pontiagudo, perfurar um dos olhos vívidos da inocente criança, cegando-a irremediavelmente.

A cena típica de um filme de terror ocorreu no Estado de Chhattisgarh, centro da Índia, o país que somado ao Brasil, China e Rússia, integra os BRIC’s, os quatro gigantes que, conforme previsão dos mais renomados estudiosos, emergirão como as grandes potências nas décadas vindouras.

Brasil e Índia apresentam muitas características em comum, muitas delas decorrentes de seus injustos sistemas de distribuição de renda.  

A Índia tem a segunda maior população do planeta, com mais de um bilhão de habitantes, quantidade só inferior à da China.

Como o Brasil, o país asiático nas últimas décadas alcançou grandes progressos econômicos. Domina todo o ciclo da fissão nuclear acreditando-se que possua em seus arsenais militares mais de 50 bombas atômicas. Também nos setores vinculados à tecnologia de informação, o país de Gandhi tornou-se referência mundial, destacando-se na produção e exportação de software.

E também como o Brasil, a Índia ostenta elevados indicadores de analfabetismo e grandes contingentes populacionais embrutecidos pela pobreza, miséria e indigência. Mas a mais destacada e perversa característica que ambos historicamente têm mantido em comum, talvez seja a corrupção endêmica, parasitando e devorando os Estados soberanos, vampirizando suas forças sociais e, qual chaga incurável, avassalando as almas nacionais.  

Uma corrupção descomunal, hedionda, nauseabunda, e que resulta do gigantismo de burocracias criadas e mantidas para alimentar - em seus infinitos escaninhos, arquivos e labirintos, com uma infinidade de fluxos, normas e rotinas – ratazanas, vampiros e a malta da malandragem de colarinho branco.    

A educação de qualidade possibilita avanços que surpreendem. A criação do CTA/ITA, o Centro e o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, de onde surgiu a Embraer possibilitou que o Brasil se consolidasse na posição de um dos maiores exportadores de aviões a jato, despachando-os, inclusive, para os Estados Unidos, a maior potência aeroespacial do planeta. À índia, educação de qualidade legou o domínio da indústria da energia nuclear e o posto de maior exportados de softwares do mundo.

Portanto, acertamos juntos quando priorizamos investimentos em setores estratégicos como educação e tecnologia. E erramos juntos quando damos guarida à corrupção desenfreada e lidamos com a renda nacional de modo estúpido e improdutivo. 

Mas, tanto aqui no continente sul-americano, como lá, no asiático, investimentos em educação de qualidade estão mais para exceção que para regra. Aqui como lá, muitos educadores – confrontados com a inocente ignorância infantil e juvenil – preferem responder criminosamente. Cegando as crianças simplesmente. Ou obstruindo suas melhores possibilidades.


leia mais...
POR EM 02/02/2009 ÀS 06:12 PM

Uma noite memorável

publicado em


Naquele janeiro desolado, deixou para trás a mulher e os três filhos na cabana dos pais já velhos, na pobreza plena de trabalhadores sem trabalho, às margens do ribeirão Bingueiro, e se mandou pra Mundocaia, em busca de melhores dias.
 
Mas Mundocaia foi decepção total. Carlindo Raleado não achou o jeito da cidade. Ela parecia selada, por fora e por dentro, para gente sem beira nem algibeira como ele. Tentou de tudo – servente, segurança, catador de papel, amolador de facas, limpador de quintal, chapa de caminhão – mas de tudo que tentou a cidade lhe foi hostil. Cedo ainda concluiu que a cidade não gostava dele. Que aquilo era uma terra amaldiçoada, caprichosa, habitada por gente sem piedade e sem coração.

Na primeira oportunidade enviou um bilhete à mulher por intermédio de um motorista a da Viação Marrequinho. Estava deixando para sempre a cidade maldita para se aventurar em Goiânia. Não sabia por que, mas acreditava que na Capital ele se daria bem. Talvez porque teria ouvido no rádio que Goiânia estava precisando de muitos trabalhadores para o desenvolvimento de websites e que essa atividade estava dando um dinheiro lascado.

Praticamente dois anos se passaram sem que a família tivesse notícias do aventureiro e vice-versa. Já era tempo suficiente para Carlindo Raleado ir se raleando na memória dos seus. A esposa ainda nova, em plena posse de suas chamas uterinas, de vez em quando não hesitava em olhar para homens ocasionais com olhos de arpão.

Mas agora em dezembro, nas reticências do dia com a noite, Carlindo apareceu de chofre. O filho mais novo gritou: tá chegando um homem aí. O pai, já meio caduco, proclamou: é o fantasma de meu filho!

Sem ao menos esperar a surpresa esvaecer, Carlindo foi avisando: só vim buscar minha família. Tenho obrigações em Goiânia e com obrigações não se brinca. A cada um deu um presentinho à-toa, que seus caraminguás permitiram. Na madrugada juntou a mulher, as crianças e os trapinhos, jogou tudo na Viação Marrequinho, rumo a Mundocaia. Lá embarcou num busu para Goiânia, onde chegou no fim do dia.

Com a família deslumbrada, que ninguém tinha visto cidade grande, Carlindo saiu da rodoviária direto pra cooperativa de catadores de papel. Vestiu os varais da carroça que o esperava, orientou mulher e filhos a segurar nas laterais contra os perigos da cidade e saiu todo lampeiro, exibindo sua habilidade por entre os carros.

Quando chegou ao cruzamento da T-4 com a T-63, esmolou os passantes, alegando o passadio fraco da família. Com o dinheiro amealhado, comprou uma pizza grande, um refrigerante idem, e se encaminhou para o viaduto da 85, recém-inaugurado. Alojou-se sob a rampa magnífica, no local onde vai ser um espelho-d’água. Ali, entre as estrelas, as taças, as luzes e o foguetório do Natal, cearam aquele maná divino, que a família desconhecia.

O filho mais velho, orgulhoso do pai, disse: um dia, papai, quero ter um carro assim, que nem o senhor. Ao que o pai respondeu comovido, num gesto largo, mostrando a cidade e suas luzes: tudo isso filho, até onde a vista alcança, um dia será seu!    


leia mais...
POR EM 02/02/2009 ÀS 06:07 PM

Crise

publicado em


A água que bebemos das torneiras de casa deve estar envenenada. Penso que andamos tão afetados emocionalmente que esta hipótese até seria plausível. Por onde passo encontro gente triste, descrente com as coisas do viver, à beira de um colapso nervoso. “Vou levando”. “Tô na briga”. “É como Deus quer”. Amiúde, é o que se ouve nas ruas.

Com esta estória então de “crise econômica globalizada” não se fala noutra coisa senão nas desgraças iminentes. Não há quem se abstenha em reclamar. Parece que vivemos um muro das lamentações generalizado. Pessimistas convictos esperam o pior. “Você vai ver só”. Alguns garantem que a crise já está entre nós e vai piorar muito... “Só não enxerga quem não quer”. Cegos de medo, miramos o perigo com lunetas premonitórias. Nunca estivemos tão acovardados.

Talvez, o maior responsável pela atmosfera negativista que paira sobre as cabeças seja Gutenberg. Sim, Gutenberg, o alcunhado “Pai da Imprensa” (ou, pelo menos, o “Pai da tipografia”...). Desde a difusão das primeiras notícias, a humanidade avançou em todas as áreas. O poderio dos meios de comunicação é monstruoso e não encontra par na sociedade. A confusão é grande: informação e manipulação se mesclam numa combinação repugnante. Inferir da notícia o que ela guarda em essência é inviável à maioria de nós. Para uma comunidade iletrada, então, vale o que está dito ou escrito, literalmente.

Felizmente, pouco tenho assistido à televisão. Quando o faço, sintonizo os noticiários que hoje em dia mais parecem o diário do capeta. Tragédia pouca é bobagem. É difícil filtrar uma notícia promissora. Fica sempre aquela amarga impressão (talvez, realista demais) que o mundo é uma desgraça absoluta. Cinicamente, os editores reservam um tempo ridículo ao final dos noticiários para amenidades como receitas gastronômicas, dicas de moda, futilidades futebolísticas, idolatria barata a um popstar e outras tapeações para “quebrar o gelo”. É uma prática tacanha à altura da subserviente audiência.

Quem sabe se o culpado pelo baixo astral seja eu próprio. Outro dia, uma amiga telefonou muito preocupada. Leitora assídua das minhas crônicas pela internet, a moça podia jurar eu estivesse depressivo, dado ao sabor amargo das mesmas. Amiga, não se preocupe. Sinto-me feliz com a sua leitura e zelo. Você captou bem, mas não quero tomar raticida (ainda). Tão somente ando cético com o ser humano, criatura vil.

Enfim, alguma coisa está fora da ordem. Se o problema não está na água das torneiras, na saga de Gutenberg e seus sucessores antiéticos, ou na minha repelente aura, onde estaria? Quem sabe, um impensável raio-trator emitido por naves alienígenas esteja nos deixando alterados em doses homeopáticas. Quem sabe, um complô universal advindo de criaturas de outras galáxias esteja em curso a fim de frear o ímpeto destruidor da humanidade sobre o meio ambiente e sobre si própria.

Sei lá, toda bobagem merece algum crédito. Encontramos no sobrenatural e no esoterismo a tábua da salvação, muito embora não consigamos nos abraçar sem desconfiança. Talvez o mundo seja assim mesmo e pronto: plural e ilógico. O diferencial é que na atualidade contamos com a rapidez dos meios de comunicação que difundem as virtudes e as malfadadas ações dos homens a todos os rincões do planeta. Amostragem viciada? Somos assim mesmo tão ruins?

Talvez, a constatação do quanto somos hipócritas esteja nos corroendo por dentro e nos tornando ensandecidos, consumidores contumazes de cápsulas e comprimidos tranqüilizantes, um bando de gente assustada e sem perspectiva de melhoria nas relações humanas.

Quem sabe, não seja nada disso, e as minhas aflições sejam infundadas, e eu esteja apenas carecendo de um competente psiquiatra. Ou de um ombro amigo. Ou de um copo de uísque. Ou de todas estas coisas juntas. Deve ser isto...


leia mais...
POR EM 02/02/2009 ÀS 06:05 PM

Longe é um lugar que existe

publicado em


Depois de sair das Galápagos, o Beagle, com o jovem Charles Darwin, atravessou o Oceano Pacífico aportando no Taiti, Nova Zelândia e Austrália. Já no Oceano Índico, mais precisamente nas Ilhas Keeling ou Ilha dos Cocos, Darwin entendeu a formação dos recifes de corais que foram confirmadas 17 dias depois quando chegou às ilhas Maurício, onde permaneceu entre 29 de abril e 09 de maio de 1836.

Darwin estava profundamente influenciado pelos “Princípios da Geologia” de seu amigo Charles Lyell (ambos descansam em paz na Abadia de Westminster), que explicava como as mudanças geológicas eram graduais ao invés de catastróficas (a natureza não dá saltos). Darwin mostrou em seu diário de viagem a história dos recifes: uma ilha formada por atividade vulcânica, cerca-se de um recife de corais pequeno. A ilha afunda gradualmente. Os corais vão se sucedendo (os vivos sobre os mortos) e o conjunto vai soerguendo, compensando o rebaixamento e alargando o diâmetro do recife que se torna uma barreira, na medida que forma uma espécie de lagoa-anel que circunda a ilha. Quando o topo da ilha submergir por completo, ter-se-á um atol.

Os primeiros ocidentais a chegarem a Maurício foram os portugueses em 1507, que a usaram durante o século XVI para consertar os navios no caminho das Índias. No início do século XVII, ingleses e holandeses também descobriram que navegar é preciso e em uma das expedições holandesas de 1638, batizaram a ilha de Maurício em homenagem a Maurício de Nassau, o Príncipe Laranja (nenhuma ironia) que era chefe das províncias holandesas. Eles também introduziram a cana de açúcar.

Daí em diante a história é mais conhecida por todos nós: busca desenfreada pelos recursos naturais (incluindo a extinção do Dodô) e uma briga entre nações pra ver quem ficava com a chave para Índias.

Em 1710 a Holanda tinha dois estabelecimentos naquela região do mundo: um no Cabo da Boa Esperança (África do Sul), outro na Ilha Maurício. Eles preferiram o Cabo, abandonaram Maurício e em 1715 os franceses a anexaram e rebatizaram-na de Ilha da França. Logo depois, em 1721 trouxeram os primeiros escravos pra trabalhar na cana de açúcar (vieram de Moçambique e Madagascar que fica ali perto).

A ilha então foi ganhando cara de Europa com novos fortes, hospitais, estradas e aquedutos, além das casas avarandadas (a varanda é ainda considerada, a principal parte da casa, pois serve para receber visitas que se refrescam com o vento, naquele calor tropical e úmido). La Bourdonnais que tornou-se governador em 1735 tem uma estátua no centro de Port Louis e é considerado o melhor governador francês da ilha.

Outro francês famoso localmente é Jacques H.B. de Saint Pierre o escritor russeauniano que acreditava na volta à natureza e baseou o romance “Paul e Virgine” na ilha. Em Port Louis há muitas referências (ruas, estátuas, etc..) ao romance (que não li).

Segundo Christian le Comte em seu “Mauritius from its origin” (Ed. Monica Hoss de le Comte, 2007), quando a revolução francesa chegou a ilha, houve muita discussão pois ela preconizava a libertação dos escravos mas os donos de terra e plantadores de cana, politicamente fortes, não deixaram que isto acontecesse. Os escravocratas alegaram prejuízos econômicos e como não existe pecado do lado de baixo do Equador, os escravos foram mantidos.

Então, os ingleses resolveram tomar a ilha com o argumento que ela estava servindo para ajudar os corsários e piratas franceses que enfraqueciam o comércio náutico e roubavam os navios da Rainha (era verdade). Em 3 de dezembro de 1810 os franceses se renderam e a Inglaterra começou seu governo na Ilha. Novamente a questão escravocrata apareceu (a terra da Rainha abolira a escravatura de suas colônias em 1807). Depois de muitas discussões e viagens dos donos de escravo para Londres, a Inglaterra pagou 2 milhões de libras e os escravos foram libertados em 1839. Como já não eram muito bem-vindos os ingleses deixaram a ilha crescer à vontade e por isto ainda hoje a língua oficial é inglesa, mas as pessoas preferem o francês ou o creole (língua local).

As Ilhas Maurício tornaram-se independentes em 1968 com uma constituição escrita em Londres e seus 1.200.000 habitantes são formados por 65% de Indianos, 30% de creoles (os mestiços), 3% de chineses e 2% de franceses.

Voltando em Darwin, ele achou a ilha linda e acima das expectativas do já lera nas descrições de navegantes. Gostou também da capital Port Louis que considerou limpa e acolhedora, das plantações de cana de açúcar e admirou-se com a cor escura dos indianos e mais ainda com o olhar soberbo deles. Espantou-se que numa colônia inglesa todo mundo falasse francês.

E hoje? A capital sofre de congestionamentos inacreditáveis, é suja, tem muitas casas pobres, alguns edifícios em ruínas e para mim, que sou do interior do estado de São Paulo, plantações de cana são desoladoras e tristes.

Em compensação o recife de coral que circunda a ilha, e que confirmou a explicação darwiniana, permite que você entre pelo menos uns 200 metros no mar com a água pela cintura e com uma simples máscara de mergulho possa se encantar com as mais variadas formas de vida, de corais a peixes maravilhosos.

Que bom que a natureza não dá saltos. Assim dá tempo de contemplá-la.


leia mais...
POR EM 02/02/2009 ÀS 05:59 PM

Uma história de ratos

publicado em

Cida, além de hipocorístico de Aparecida (o nome) pode também ser o radical de origem latina para aquele ou aquela que mata. Herbicida, fratricida e assim por diante. Curioso a respeito da origem das palavras, no meu tempo de escola recebi um prêmio por saber que aquele que mata a esposa é uxoricida. Muito simples: basta saber que “uxore”, em latim, é mulher casada, portanto, esposa. Na verdade meu latim nunca foi lá dos melhores, apesar de não lhe ter inimizade. O que me aconteceu, nessa história do prêmio, é que tive uma sorte que só hoje, e depois de tantos anos, tomo coragem e revelo: uma semana antes tinha encontrado a palavrinha esquisita num texto de cujo teor já não me lembro, e, curioso, corri ao dicionário. Foi um assombro. Recebi muitos elogios do professor e criei fama de filólogo, coisa que nunca fui nem pretendo ser. Ainda mais agora, com essas reformas que se estão propondo para enlouquecer os pobres dos alunos. Alguém por aí entendeu o emprego do hífen? Então, por favor, me ajude.
 
Mas de cida, como radical latino, vamos descambar para assunto mais proveitoso, pois vamos falar de indústria. A casa de meu sogro vem sendo visitada quase todas as noites por uma ou mais ratazanas, que aparecem depois de todos já dormindo e apenas deixam as marcas dos dentes no sabão. Na minha opinião, é uma só. Mesmo assim, os progenitores de minha mulher acharam que não estava certo isto de sair uma ratazana por aí comendo o sabão dos outros.
 
A sugestão de se usar um raticida foi minha e, num instante, estávamos no balcão de uma casa especializada. Meu sogro, cauteloso e previdente, comprou dois tipos de veneno. O primeiro era um tablete meio pastoso e escuro, que deveria, de acordo com o vendedor, ficar amarrado para que o rato não o levasse embora. O segundo era formado de cristais coloridos de vermelho. Uma coisa que a gente até poderia confundir com um açúcar colorido. Eu estava do lado e sou testemunha de que nas duas embalagens vinha a palavra “raticida”.
 
Pois bem, minha conclusão é a de que o radical já não significa coisa nenhuma. Outra hipótese é a de que os produtos industriais já não nos merecem a menor confiança.
 
Explico: uma semana passada, o tablete não foi ao menos farejado, porque não se moveu do lugar nem sofreu qualquer deformação em sua estrutura de tablete. Aquele açúcar avermelhado, porém, vem alimentando a ratazana. Todas as noites meu sogro bota no caminho do pequeno mamífero da família dos murídeos três tampinhas de garrafa repletas do açúcar. Dá-nos a impressão de que se trata da ração adequada, pois o sabão tem ficado em paz e as latinhas amanhecem, invariavelmente, vazias.

leia mais...
‹ Primeiro  < 24 25 26 27 28 29 30 31 32 >  Último ›
É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2009 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — editorial@revistabula.com


renovatio