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BRASIGOIS FELÍCIO
EM 16/12/2009 ÀS 07:15 PM
“O ser humano não é o que fala, mas o que faz”. (Noam Chomsky). De tanto ver alastrar a ilucidez em pessoas que se dizem lacaniamente corretas, estruturadas e estruturantes em significado e significante (mas que ninguém pode aceitar, ou compreende, em sua incoerência ou incompetência de viver) ando desconfiado de que não sou nem serei jamais um servil, servidor, pagante ou assalariado lacaio de Lacan. Certo, o mestre do estruturalismo psicanalítico não irá virar na tumba por causa disto, mas é como sinto a linguagem e a filosofia da coisa; assim, reservo-me o direito de dizê-lo.
Nem toda verdade está contida na linguagem escrita ou falada, como asseguram os doutores papo-cabeça, como Saussure e Roman Jakobson, dentre outros corifeus do estruturalismo. Os filósofos utilizam a linguagem para construir jogos de pensamentos, admitiu Saussure — e isto, se não vem configurar a filosofia da miséria, certamente estrutura a miséria (ou a manipulação) da filosofia — entrando nesta conta, como quem não quer nada, uma senhora namoradeira, que vem a ser a psicanálise. Eis senão quando, na condição de escritor analfabeto em tais platitudes acadêmicas, eu me reservo ao direito de esgrimir frases de efeito, que pode não surtir efeito algum, sendo só biscoitos da tarde, em vez das pirâmides que João Guimarães Rosa nos mandou erguer, como se querer fosse poder. Não havendo talento, engenho e arte, conseguir quem há de? Não sei quem escreveu isto, mas concordo, in totum: “Não há nada mais convincente do que uma pessoa agindo de acordo com a sua consciência”. E mais isto: “Não é o que você fala que importa, e sim como você vive”.
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EBERTH VÊNCIO
EM 15/12/2009 ÀS 03:05 PM
Não se animem. Não é um conto erótico. São coisas que acontecem com a gente a todo instante. São pensamentos que varrem ou poluem nossas mentes até mesmo quando estamos dormindo. Meus maiores medos: perder um pênalti, voar, morrer queimado ou asfixiado, ter os pensamentos lidos por alguém. Como todo ser humano normal (?!), não gosto de filas. Mesmo as filas pra se receber dinheiro, que é a razão maior de se viver (e morrer). Dentro da agência bancária lotada, eu só suportava aquela fila por causa da moça bonita a minha frente e um cheque ao portador prestes a ser descontado no caixa. Suas mãos delicadas seguravam uma pilha de carnês, duplicatas e meus desejos.
Enxerguei, abaixo dos seus ombros, uma tatuagem. O primeiro impulso, como qualquer impulso que se preze (atitude impensada), foi tocá-la, lamber a sua pele experimentando o sabor das tintas. “Quero grudar no teu corpo / feito tatuagem / que é pra te dar coragem / pra seguir viagem / quando a noite vem...” (Chico Buarque de Hollanda). Instinto domado, eu recuei. O cabelo curtíssimo expunha a nuca tentadora e um minúsculo coração flechado. Logo abaixo, em letras garrafais, o nome de um homem: EDUARDO. Ainda mais abaixo, quase no meio das costas, como se fora o rodapé de um livro, uma “nota do editor”, um adendo, uma justa explicação em letras miúdas como se a cláusula de um contrato: “lembrança de um passado feliz”.
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VALDIVINO BRAZ
EM 15/12/2009 ÀS 10:35 AM
Nos idos de 2003, a indústria automobilística Voltswatt lançou um concurso nacional de contos, com o tema "Meu Caso com a Volts", em busca de histórias incríveis, envolvendo veículos seus. Dizia que há sempre um caso interessante, original e inusitado, tendo como personagem um modelo Voltswatt, e a indústria queria conhecer a história de cada concorrente, a saber como os carros da marca interagiam com a vida da pessoa, no caso a protagonista do fato. E o fato poderia ser dramático, divertido, místico, familiar, sentimental ou profissional. Valia tudo, desde que verídico e narrado com talento literário, no limite entre vinte e quarenta linhas de texto.
Os 50 melhores trabalhos receberiam prêmios especiais, entre eles três automóveis do ano, zero quilômetro, nos modelos Sedan, Turbo e Power, aos três primeiros colocados, e um home theater — receiver + DVD player integrados + cinco caixas de som e um subwoofer de marca e modelo que seriam definidos pela Voltswatt — para cada um dos outros 47 classificados.
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ENIO VIEIRA
EM 11/12/2009 ÀS 01:20 PM
Um juiz chileno decidiu na última segunda-feira indiciar seis pessoas pela morte do ex-presidente Eduardo Frei Montalva, que governou o país de 1964 a 1970. Os acusados são os possíveis responsáveis pelo envenenamento de Frei, numa clínica em 1982. Seu filho Eduardo Frei é candidato às eleições do próximo domingo e propõe uma revisão da Lei de Anistia do Chile, que limpou a barra de um governo que sumiu com 3.000 pessoas. Dias antes da revelação bombástica sobre Frei Montalva, houve o enterro oficial dos restos mortais do cantor Victor Jara, barbaramente assassinado pelo governo do ditador-neoliberal Augusto Pinochet e exumado recentemente. Em 1973, a mulher de Jara fez a sepultamento às escondidas, tendo a companhia apenas de uma amiga. A cerimônia de agora foi a celebração da memória que mantém o assunto na ordem do dia e faz o ajuste de contas com o passado.
Os chilenos vão dando os sinais de mudanças quando o tema são as ditaduras militares do Cone Sul —os verdadeiros laboratórios de torturas e do neoliberalismo, segundo mostrou Naomi Klein no livro “A Doutrina do Choque — A Ascensão do Capitalismo do Desastre”. Em 2005, foi revelado que Pinochet e sua gangue mantinha contas secretas no exterior com recursos de vendas de armas. Morreu com a imagem justa de carniceiro e de ladrão milionário. O revisionismo histórico no Chile vai no caminho certo de desfazer a imagem de país moderno e exemplo para o capitalismo. A sociedade chilena tem um índice de GINI, que mede a desigualdade de renda , pior que o do Brasil. O grau de violência política vai sendo revelado pelas histórias de Frei Montalva e de Jara. Caem a ideia de país bonitinho e a fantasia ideológica para o mercado de políticas liberais (vulgares) na América Latina.
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BRASIGOIS FELÍCIO
EM 09/12/2009 ÀS 10:55 AM
Há no romance “Ilusões Perdidas”, de Balzac, situações que parecem ter sido inspiradas em nossa época. O jornalismo é a porta pela qual o personagem de Ilusões perdidas entra para o hospital das letras, em busca de glória e dinheiro. Entre nós, não faltou exemplos de literatos de nomeada que exerceram atividade jornalística, seja no batente duro das redações, ou na moleza de serem cronistas do cotidiano — a ponto de terem cunhado o bordão: “O jornalismo é a lata de lixo do literato frustrado”. Sejamos justos: nem todo jornal é lata de lixo, e nem todo literato que nele trabalhou ou trabalha é frustrado. Muitos se tornaram celebridades, a começar de Machado de Assis.
Mas falo aqui não do jornalismo literário, onde não estão presentes as injunções e pressões “alienígenas”, vindas de fontes dignas, digo, detentoras do crédito e do vil metal, que atingem o noticiário político. Assim como nos tempos de Balzac, pior talvez em nossos tempos neocínicos, onde há formas de pressão inexistentes na Europa romântica. Com pequenas mudanças, vemos que as eras se repetem, não só nas modas, como também nos costumes. “Essa gente bebe copázios em maior número do que os livros que vende”. Não faltam no livro alusões à intemperança etílica dos escritores e artistas em geral. O que reverbera a sátira de “Crime e Castigo”, de Dostoiévski, à irresponsabilidade crônica do poetariado de todos os tempos: um bando de bardos (desempregados crônicos dos lumpen das letras) entra em um bar, come, bebe, toca piano com os pés e sai sem pagar, dando-se ao luxo de ameaçar o bodegueiro de denunciá-lo na gazeta periférica em que escrevem suas lamúrias & louvaminhas.
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EBERTH VÊNCIO
EM 08/12/2009 ÀS 08:26 PM
A prefeitura está demolindo os mocós. Mocó é uma palavra com significados variados. Neste contexto, quer dizer “esconderijo de malandros”, conforme definição que eu busquei no dicionário e nas palavras do secretário de obras do município. São edificações inacabadas ou precárias, abandonadas pelos proprietários, e que servem de abrigo aos moradores de rua (homens, mulheres e crianças miseráveis, criaturas excluídas, cidadãos à margem da sociedade). Agindo assim o prefeito acredita estar combatendo a violência na cidade e o tráfico de drogas. Patética, a vizinhança aplaude, aprecia a demolição (lembrei-me agora da “Saudosa maloca” cantada pelos “Demônios da Garoa”). Resta saber como acabar com os “mocosados”, uma vez que não dá pra passar com as esteiras dos tratores por cima deles (pelo menos, por enquanto; não na frente das crianças...). Eles são “um duro problema para a cidade”, mas não são lajes de concreto. Já aconteceu de alguns prefeitos exportarem os seus miseráveis para cidades vizinhas, “resolvendo a questão da mendicância, da vadiagem e dos pequenos delitos”. A criatividade de alguns políticos é tão aguçada quanto a sua incompetência. Custa compreender por que o poder público não retira dos mocós os marginalizados, dá-lhes banho, corta-lhes os cabelos, apara as suas unhas, serve a eles comida e água tratada, enfim, os acolhe em albergues até que vícios sejam tratados, os adultos sejam recolocados no mercado de trabalho, e as crianças, dentro das salas de aula.
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VALDIVINO BRAZ
EM 08/12/2009 ÀS 07:38 PM
Olhos acesos e afoitos e aflitos, como se perdidos na noite, são faróis de veículos diversos, indo — para onde? — e vindo — para quê? Para a demanda que há entre viver e morrer. Vaga-lumes nos calcanhares, os tênis iluminados dos meninos, com o pai e a mãe no bar da esquina. Os casais nas mesas, alguns aos beijos, outros falando mal de seus pais e parentes. As línguas feito víboras, difamando a família, botando o dedo na ferida dos defeitos, expondo em público a roupa suja da privacidade doméstica, depreciando a mobília, “ripando a lenha” nos amigos, porque isso, porque aquilo, de fulano e de fulana. Falando e falando, reclamando do churrasco que não deu certo no sábado, comentando os arranjos de samambaias na sacada do apartamento, lamentando pelo lindo par de sandálias que se deixou de comprar no shopping e se arrependeu. Essa gente corriqueira, com o trivial de sempre. Essas vidinhas previsíveis, com as futilidades da existência.
E ali a churrasqueira fumegante, o fumaceiro, o cheiro de carne assada, e ali os cães famintos, os olhos suplicantes, comendo a fome com a vontade de tanta gente no bar dos espetinhos. Homens e cães famintos, mas ali homem nenhum se trisca a jogar um pedaço de churrasco aos olhos caninos da súplica. O cão de estimação é o melhor amigo do homem. O egoísmo do homem é inimigo de outro cão que não seja o seu. O cão-mendigo não tem amigo. Ferinas as línguas humanas; excretam veneno ao que salivam. A fome é canina, e os cães vadios, silenciosamente, imploram — parece que choram — pela carne. Padecem de fome, os tristes cães sem dono e sem nome, que vivem nas ruas do abandono. Mas não lhes falta, conquanto ocasionalmente — por não ser assídua presença no ambiente, obviamente não é frequente —, alguém que se compadeça e reparta a carne do espeto. Alguém que conheço e que sempre oferece pedaços da carne avulsa. Sempre se comove, e ainda que possa o dono do bar desaprovar o gesto, pois o cão à roda das mesas incomoda os fregueses — incomodam muito mais os olhos pidões do triste cão! —, a ínclita pessoa insiste, pois sente que a carne incha e perde o gosto em sua boca.
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MARCOS VINÍCIUS ALMEIDA
EM 04/12/2009 ÀS 03:27 PM
“O desfecho não tem nada de violento, e tampouco de precipitado. O paciente escolhe a hora e estuda o plano muito antes. Mesmo os meios lentos não lhe repugnam. Uma melancolia calma e que é por vezes dolorosa caracteriza os derradeiros instantes. Analisa-se até o fim. É o caso do negociante de que nos fala Falret (Hypocondrie et suicide), que se retira para uma floresta pouco frequentada e que se deixa morrer de fome. Durante a agonia, que se estende por quase três semanas, foi sempre descrevendo o seu estado de espírito em um diário que possuímos ainda hoje. Outro asfixia-se assoprando o carvão que deve acabar por matá-lo e aponta ao mesmo tempo diversas considerações: 'Não pretendo, escreve, 'dar exemplo de coragem ou de covardia; quero simplesmente empregar os últimos instantes que tenho de vida a descrever as sensações que se têm quando se está a asfixiar, e a duração dos sofrimentos'(Brierre de Boismont, Du suicide). Outro ainda, antes de se entregar àquilo a que chama 'a inebriante perspectiva do repouso', constrói um aparelho complicado destinado a consumar seus dias sem que o sangue se espalhe pelo chão”. (Émile Durkheim, O Suicídio, 1897)
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BRASIGOIS FELÍCIO
EM 01/12/2009 ÀS 09:47 AM
“Há cidades que a gente jamais visita, exceto em momentos de desespero”. (Henry Miller). Toda janela é indiscreta, e olha para a vizinha com secreta inveja, mórbida ou lasciva curiosidade. Que sofrimento abrigará a outra, metida a besta, que ela não conheça? Toda cidade é frenética, para quem entra feito sonâmbulo na vertigem de seu ritmo intenso. Os prédios da selva de pedra olham-se uns aos outros com remorso e compaixão. Todo prédio, milionário, remediado ou paupérrimo, é monstruoso, quando visto pelos olhos do medo. Os que são habitados pelos tristes e infelizes das cidades sofrem de secreta solidão, e são vistos com desprezo pelos prédios elegantes. Prédios como o Master e o Irajá, no Rio de Janeiro, têm vergonha de si mesmos, e guardam, em torturado silêncio, palavras de compaixão, que jamais dirão uns aos outros.
No Edifício Master mora um ator cuja carreira foi encerrada por uma cena desastrada. Ao fazer uma cena em que morria depois de levar um tiro a queima roupa, na cabeça, por excesso de estampido, ficou surdo, na hora. Acabou ali sua carreira de 69 filmes feitos. Hoje só tem recordações de glória extinta e esquecida. Lá tem um senhor solitário que cantou com Frank Sinatra, e há 60 anos, todos os sábados, às 10 da manhã, coloca em último volume “my way”, e conta com o grande astro, sendo coberto de aplausos pelos vizinhos de plantão.
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EBERTH VÊNCIO
EM 01/12/2009 ÀS 09:18 AM
Tenho quarenta e quatro anos, mas me sinto um velho. Aliás, por definição e pragmatismo, o que é um homem velho: 60, 70, 90 anos? Aquele que não pensa mais em sexo? Um sujeito sem metas, sem planos para o futuro? Um corpo duro de artrose? Afinal, quando é que merecemos tal rótulo, se hoje beiramos os cem anos de existência e a vida média do brasileiro não pára de crescer? Irrelevante para mim. Sinto-me capenga, saudosista, melancólico e ranzinza, como um velho de qualquer idade.
Há alguns dias, fui assistir a um show do cantor Lulu Santos. Compareci guarnecido com raspas daquele espírito jovial que eu detinha nos anos 80, quando presenciei duas outras apresentações eletrizantes do roqueiro. Naqueles tempos o rock nacional vivia o apogeu, com o surgimento de inúmeros artistas e bandas. Alguns se firmaram e fizeram história. Outros, por pura falta de conteúdo e atitude, dissiparam que nem fumaça. Assim como eu, achei Lulu um tanto baqueado. Há alguns dias, a data do show foi adiada por “problemas de saúde do artista”, conforme justificaram os promotores. Esqueci que meus ídolos (sim, eu tenho um bocado de ídolos profanos) envelhecem. A qualidade do som pareceu-me bem ruim. Eu mal conseguia ouvir a sua voz. Problemas técnicos, falta de condições acústicas favoráveis, ou a natural deterioração do meu aparelho auditivo?
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