Desenho de  Wendy MacNaughton
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POR EM 09/12/2011 ÀS 12:23 PM

A morte de Sócrates e do futebol arte

publicado em

Pode-se colecionar um bocado de decepções nessa vida. No sexo, amor, amizade, família, carreira, religião, política... Muitas vezes, de onde (ou de quem) menos se espera, brota o desapontamento, a desilusão. C’est la vie, mon cheri. 

Uma das mais marcantes decepções que sofri foi acompanhar a derrocada da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo da Espanha, em 1982. “Ih... Vai falar de futebol, meu chapa?!”. Vou sim. Quero dizer, mais ou menos. 

E então: pouquíssimos torcedores brasileiros acreditavam, mas o Brasil foi liquidado pela esquadra azurra comandada pelo atacante Paolo Rossi. O sujeito meteu três gols em Waldir Perez. 

Muitos de vocês vão torcer o nariz e propalar: “Ora, futebol é apenas um jogo, rapá...”. Concordo. Mas, à época da tragédia no Estádio Sarriá, eu contava 17 anos de idade, ou seja, além de um monte de espinhas no rosto (e calos nas mãos), eu curtia dores de cotovelo, às escondidas, ouvindo na vitrola a coletânea de vinil do meu pai, que tocava baladas melosas como “Your song”, de Elton John; e “Raindrops keep falling on my head”, de B. J. Thomas. Alto lá, leitores gays! Não se animem tanto assim! Não sou gay, mas também não sou homofóbico. Continuamos amiguinhos?! Então, tá. Voltemos ao texto e a Espanha. Já-já eu chego ao Sócrates. 


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POR EM 02/12/2011 ÀS 01:10 PM

Acima de tudo, falta um bocado de vergonha

publicado em

Naqueles dias, o que se ouvia, o que se constatava, e o que a imprensa não-comprada (ou seria não-vendida?!) noticiava em seus jornais diários é que faltavam médicos, remédios, luvas, sabões, tomografia, investimentos, gestão e vergonha das autoridades. Sobravam sofrimento e indignação. 

Mesmo assim, ela pediu à enfermeira um pouco mais de água fresca para terminar de dar banho no rapaz. O quarto era quente, sem ventilação, apresentava manchas de mofo no teto, ferrugem no mobiliário, resultado de infiltrações antigas no telhado e da falta de manutenção. 

Afinal, era uma enfermaria de um hospital do SUS. E vocês sabem o quão irrisórios sempre foram e são os investimentos governamentais na área da saúde pública. Quantos burocratas adoecidos e parlamentares pitimbados procuram os hospitais públicos a fim de serem cuidados? Só serve se for no Einstein ou no Sírio Libanês, gracinha. 

Você já permaneceu em pé num caótico pronto-socorro, durante horas a fio, esperando o atendimento médico a um ente querido? Meu chapa, isto se trata de uma indignidade, uma afronta, uma situação absolutamente inaceitável, a não ser que se esteja vivendo num cenário de guerra ou de desordem social plena (anarquia). Portanto, o raciocínio dos gestores públicos é, ao mesmo tempo, paradoxal e espúrio. Porque sem saúde somos quase nada. Ou seja, primariamente, todos os governos deveriam focar os seus investimentos na saúde e no bem estar do cidadão. Se sobrar dinheiro proveniente dos escorchantes impostos arrecadados (e sempre sobra grana para se torrar com alguma propaganda estatal e bandalheiras), investe-se em todo o resto. 


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POR EM 28/11/2011 ÀS 11:48 AM

Se Deus não existia, Carolina o criou

publicado em

Li algumas vezes, desde quando foi escrito, há uns dois meses, o texto da notável Carolina Mendes sobre Deus. Resolvi desenvolver uma espécie de réplica e encaminhar ao aceite da Revista Bula sobre o tema, não para debater a existência ou não de Deus — algo, diga-se, bem diferente do que discutir a existência ou não de vacas voando, mesmo para quem não crê “at all”. Escrevo para afirmá-la, a existência. 

Deus existe, sim. Por isso, aviso que este texto vai ficar, além de óbvio, repetitivo. Parafraseando o velho hit pós-Beatle do Paul, Deus vive e deixa morrer. Mas Deus não é só uma questão de autoridade, de onipresença ou de onisciência. Antes de tudo, Deus é uma questão discursiva. Poderia dizer que o Verbo se fez carne e habitou entre nós, mas, para ser menos pseudoexegeta, vou dizer apenas que Deus é discurso. 

No momento em que Carolina Mendes falou em Deus, se ele não existisse, passaria a existir. Carolina o criaria naquele momento. Nesse sentido, age o poder mágico da palavra: tudo de que se fala, de que se tem notícia, passa a existir, material ou imaterialmente. O verbo (ou Verbo) tudo cria. Nada pode existir, para o homem, sem o Verbo, em suas mais variadas formas: falada, gestualizada, semiótica... 

Ainda assim, Deus existe como existe uma vaca alada? Não. Por quê? Simples: todos podem imaginar e ter certeza de como seria uma vaca voando, mesmo que nunca tenham visto alguma cometendo tal façanha. O mistério da imagem de Deus, claro, é mais complexo: a visualização mais comum, no Ocidente, é aquela de um senhor de barbas brancas sentado em um trono, em algum lugar lá em cima.  


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POR EM 28/11/2011 ÀS 10:38 AM

O que eu fiz de tão errado pra ter nascido?

publicado em

Senão, vejamos: enfurnado no casulo materno, fruto-resultado da invasão truculenta de um espermatozóide sobre o óvulo da fêmea, o ovo cresce em seu sono desavisado. Ele jamais concebe que há um mundo pulsante lá fora, assim como aquele cordão gelatinoso que o prende pelo abdômen, e com o qual se equilibra pelo hiperespaço líquido-uterino. Ele boia, brinca, zomba da gravidade, como um astronauta. “O mundo é escuridão”, ele pensa, supondo que já saiba tudo. 

Como um tumor, ele cresce, insidiosamente. Eu lamento dizer, mas, há sim diversas similaridades chocantes entre o feto e um tumor. Ambos são parasitas. Ambos se locupletam da seiva de outro ser, sugando-lhe até o quimba, furtando substratos nutritivos de forma lenta, contínua e impiedosa. 

Pregado à placenta, tal e qual um tumor entranhando na carne, o pequeno ser cresce no seu mundinho solitário que tem cara de galáxia (sonhando se vai longe). Ruídos distantes e palpitações repentinas fazem-no especular, lucubrar que possa haver um algo mais além da escuridão. “Mas o quê?!”. Percebam a miséria: desde os primórdios, o homem sonha acordado abastecido pela ignorância. 

Deitado eternamente em berço esplêndido, o feto canta um hino a si mesmo, mas comete um primeiro grande equívoco: “a paz é para sempre”. Durante nove meses o organismo cresce, embora o pensamento permaneça primitivo, ingênuo e simplista. Acomodado em seu leito úmido, mergulhado na quentura do esconderijo uterino, o feto se convence que é uma espécie de deus. Contudo, feito tissunami, advém o parto, um dos mais cruéis e dramáticos fenômenos da natureza. Finalmente, o seu mundo desaba.  


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POR EM 18/11/2011 ÀS 12:28 PM

Se não for dirigir, beba todas!

publicado em

Há diversos paradoxos para se enumerar nesta vida. Por exemplo: a dicotomia entre deus e o diabo, a peleja entre o bem e o mal, conforme magistralmente mostrado na prosa do escritor médico Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas”. Uau! Que livro! 

Pois então. Não somente as autoridades advertem, mas, as próprias cervejarias recomendam (forçadas pelo tacape da lei), ao final de suas belas peças publicitárias repletas de garotões sem barriga e mulheres jovens saradas: “Se beber, não dirija”. 

No fundo, no fundo, os telespectadores ficam imaginando que, ao tomarem cervejas das marcas xis ou ipissilone, ficarão tão felizes e atraentes quanto aquelas personagens sorridentes da telinha. Pior que, às vezes, a metamorfose alcoólica prevalece e nos tapeia. Feiosos viram galãs. Barangas transformam-se em princesas. Tudo não passa de ilusão e fantasia. É fato: ninguém sai melhor depois de um porre. 

Gosto de ouvir o doutor televisivo Elsimar Coutinho em suas palestras e entrevistas, por causa da inteligência, sarcasmo, bom humor, cultura vasta e coragem ao defender os seus pontos de vista quase sempre polêmicos. Não é incomum que ele seja criticado (e invejado) por seus pares de jaleco, devido ao falatório, à verborragia, opiniões nem sempre referendadas pela comunidade científica. 


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POR EM 11/11/2011 ÀS 03:34 PM

Dá pra raciocinar usando Chanel?

publicado em

Começou com a Clara Averbuck, uns 10 dias atrás, comentando que um sujeito afirmou que "mulher bonita não tem que ser inteligente".

E eu fiquei pensando sobre pensamentos dicótomos mas não opostos. Ser alto impossibilita ser baixo. A gente por aqui tem essa mania de achar que uma característica elimina outra. Exemplo, marxista rico, modelo inteligente, ninfomaníaca fiel, atleta intelectual, vegetariano gordo.

Seguimos. Não sei se é algo acompanhado pelo grande Brasil, mas em São Paulo a bola da vez é se posicionar a favor ou contra os USPianos que invadiram a reitoria. Pesquisem pela internet a parte jornalística da coisa, eu vou poupar vocês de informações irrelevantes.

Eu não fiz USP, pelo simples fato de não ter passado no vestibular. Só por isso. Talvez, se tivesse feito, a vida acadêmica me parecesse menos insuportável e eu tivesse terminado a faculdade de Direito. Talvez por ser tão disputado o ingresso, eu tivesse me obrigado a terminar e hoje seria mais uma advogada enfurecida, de tailleur bem cortado. Nunca saberemos. Mas o caso é que eu respeito a USP e principalmente alunos e professores da USP. Em uma das reportagens a respeito apareceu no meio dos alunos manifestantes, que pedem que a PM saia do campus, um rapaz vestindo uma camiseta da GAP. GAP é uma loja comum nos Estados Unidos, que por lá não diria muita coisa sobre o aluno, mas que por aqui virou estopim para uma série de comentários idiotas. Instantaneamente, a turminha do "se hay movimiento soy contra", decretou: "o que alguém que usa GAP tem a dizer sobre o mundo?".


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POR EM 11/11/2011 ÀS 03:25 PM

Ela tem os olhos de um husky siberiano

publicado em

Os Países Bálticos constituem uma região do nordeste da Europa cujos países integrantes são a Estônia, a Letônia e a Lituânia. Quem nasce na Estônia é estoniano; na Letônia, letoniano; na Lituânia, lituano, e em Cachorro Sentado-Go, cachorro sentado (ou cadela sentada). 

Não sou tão culto quanto se poderia presumir. Pesquisei algumas fontes, inclusive o Seu Damásio, professor estadual aposentado que carrega uma placa dependurada no seu sexagenário pescoço, em que vai escrito “compra-se ouro”. “Tô ralando mais agora do que quando riscava a lousa”, reclama o eterno professor. 

O preâmbulo geográfico é pertinente. O protesto contra a histórica desvalorização dos mestres, idem. Não desistam, meus caros. Leiam. 

Jotabê parece enxergar o mundo de ponta-cabeça. É o que diz o povo quando uma pessoa escapole dos padrões do “belo quadro social”. Mulheres diuturnamente expansivas, comunicativas e bem humoradas são taxadas como vulgares, idiotas. Faltam-lhes parafusos na cabeça, é o que dizem. Outro exemplo de julgamento pelas aparências (um dos nossos mais corriqueiros defeitos): se um homem aprecia poesia, afirmam logo que é um tolo, sonhador ou efeminado (ou as três coisas juntas). Antes que os gays mais engajados cortem os seus pulsos com prestobarbas e me acusem de ser preconceituoso, garanto que não adjetivei com propósito depreciativo. Nem pra tentar fazer graça. Não sou um Rafinha Bastos.  


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POR EM 04/11/2011 ÀS 02:42 PM

Esqueça os mortos, que eles não levantam mais

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Tenho o couro e a alma demasiadamente marcados pelo braseiro da música. O título acima foi pinçado de “Negro amor”, a versão brasileira setentista de Péricles Cavalcante e Caetano Veloso para “It’s all over now, Baby Blue”, de Bob Dylan. Àqueles que não conhecem a canção, recomendo que o façam, em especial, pela beleza constrangedora da letra. Será verdade que, em termos musicais, já não se fazem mais poetas como antigamente? 

Brasileiro adora carro, mas adora ainda mais os feriados. “O Dia dos Mortos” ou “O Dia dos Fiéis Defuntos” é comemorado pela Igreja Católica e seu assustado rebanho de asseclas no dia 2 de novembro. A prática de reverenciar aqueles que já saltaram do planeta é secular e, como sempre acontece, rende muitas lembranças (algumas boas de serem sentidas, outras boas de serem enterradas para sempre nos subterrâneos da memória), lágrimas, chiliques, filas e negócios-da-hora para o comércio ambulante de velas, flores e penduricalhos. Que fique bem claro aos mortos: estamos vivos e saudosos, mas não estamos nos comportando tão bem assim. Se conseguirem, descansem em paz. Não acendi uma só velaem Finados. Tambémnão areei azulejos, nem depositei flores artificiais sobre lajes de sepulturas, conforme alertaram as autoridades municipais da Saúde, a fim de se evitar a proliferação do mosquito Aedes Aegypti. O homem está sempre se ocupando em fugir das pragas e das pestes. Pode até ser que o mosquito tenha proliferado menos durante o feriado, mas as minhas dúvidas...  


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POR EM 04/11/2011 ÀS 01:39 PM

O país dos aleijões

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A sociedade brasileira parece decididamente inclinada ao aleijão, à monstruosidade. E não é de uma simples deformidade que, pelo viés do politicamente correto, se possa chamar de “diversamente capacitado”. Não. O poder dominante está permeado pelo “aleijão incapacitante”, sem rodeios. Aleijão, no apelido terminológico, é teratologia. O Brasil é um país teratológico que, com uma frequência muito elevada, se deixa contaminar por ideias monstruosas.

Isso ocorre, sobretudo, em circunstâncias altamente burocráticas, em que a sensibilidade e o senso de sintonia com a condição humana deixaram de compor as determinantes da realidade. E acabam por orientar as ações de governo.

Fatos aberrantes são recorrentes em nossa história. No entanto, vamos a alguns exemplos que ainda estão frescos em nossas lembranças. Norteado por aleijões da linguística aplicada à nossa confusa e inoperante pedagogia, o Ministério da Educação chegou às raias do absurdo de praticamente proibir o ensino do vernáculo em nossas escolas. O fundamento foi a alegação de que a escola, ao proceder à correção dos “fora-da-gramática”, ou seja, ensinando a língua gramatical ao sujeito que conhece apenas a língua coloquial, estaria exercendo discriminação linguística contra ele. A alegação parece até ser lógica. Mas absolutamente não é. Trata-se apenas um aleijão da lógica. Lembre-se: o indivíduo vai à escola para “construir o saber”.


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POR EM 03/11/2011 ÀS 01:36 PM

Réplica: a perspectiva do asno

publicado em

Começarei pela música. E partirei da seguinte provocação: quando John Cage sobe ritualisticamente ao palco, senta-se ao piano e, compenetrado, “executa” 4’33” — estará fazendo arte? Esclarecimento: Cage é um dos maiores nomes da música erudita no século XX, e suas mãos sequer tocam o instrumento. Silêncio... expectativa... E nada. Terá tido ele um surto de asno? A acreditar em alguns fãs de música clássica, sim. Não digo que não tenham razão, mas não entendo do assunto para descer a lenha. Passaria por ridículo se o fizesse. Nesse terreno, o que eu acho é só o que eu acho, nada mais. Para mim 4’33” não possui valor artístico algum, como alguem pode dizer que Waltércio Caldas também não tem. Música me parece ser a “Nona Sinfonia”, de Beethoven, que aliás Stravinsky acusou de mal feita e cheia de concessões. Não entendo do assunto, definitivamente, porque acho que o russo é que não vale uma pitada de fumo, apesar de ser quem ele é. E daí? E daí que minha opinião sobre o assunto é a de um asno. Ou seja: não sei explicar por que não gosto.

Das duas uma: ou eu sou um excelente crítico musical ou, pelo contrário, sou muito limitado para alcançar o gênio de Cage e de Igor Stravinsky. (Devemos ter sempre em mente que todo Napoleão teve um brilho que, ao menos por enquanto, nós não tivemos, e por isso continuamos anônimos.) Como aposto na segunda hipótese, suplicaria a alguém, que conhece a história da música, que me explicasse como se faz para entendê-la. Eu teria a boa vontade de ouvir e levar a sério, pois, como ignorante no assunto, só me resta pedir instrução. Apesar de minha surdez incurável, curvo-me à autoridade Otto Maria Carpeaux, quando declara que “A arte de Beethoven é a mais alta música humana. A arte de Bach é menos humana porque é mais que humana. Os ‘Concertos de Brandenburgo’ são um reflexo da ordem divina do Universo; uma mensagem do reino das ideias platônicas.” (“Os Concertos de Brandenburgo”, In: “Ensaios Reunidos”, vol. I) Não sei por que o diz, mas reconheço a autoridade de Carpeaux. Senão, qual o critério? Acredito piamente na perversidade humana, mas descreio que todos queiram nos enganar.


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