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colunistas

POR EM 23/01/2010 ÀS 11:03 AM

Pensar é muito perigoso

publicado em

Revista BulaUm amigo, dos poucos que me restam, outro dia me disse que, tentando ser irônico, eu não consigo passar do sarcasmo. E o sarcasmo é grosso, pesado, ele acrescentou, com a certeza de quem acaba de inventar a roda. Meu caro, a grossura e o sarcasmo, se você ainda não percebeu, estão aí a nossa volta para ver quem quiser.

Só pra não viajar muito, veja o que vem acontecendo com as artes brasileiras, principalmente as ditas artes populares. A não ser que você seja fã do Tigrão e congêneres, então dou um tapa nesta máquina e vou dormir. Você já prestou atenção aos sambas-enredo? O Stanislaw, meu caro, o Stanislaw Ponte Preta foi um dos maiores profetas, não, poeta, não, eu disse profeta, deste país varonil. Seu “Samba do Crioulo Doido” deveria entrar como um dos livros do segundo testamento.

Dias atrás apareci em um evento, coisa que muito pouco tenho feito, e ouvi um ex-político, com a facilidade verbal que a maioria deles tem quando há público, afirmou que o povo brasileiro vai-se acanalhando. É um povo, são palavras dele, de chapéu na mão e sorriso calhorda, à espera das migalhas debaixo da mesa. E é claro que a mídia, sobretudo a eletrônica, que depende de índices de audiência para sobreviver, é claro que essa mídia não é inocente no caso. Os ratinhos da vida andam por aí, ditando gosto, lotando auditórios, olhando pra baixo.


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POR EM 22/01/2010 ÀS 10:08 AM

Uma vala comum

publicado em

Foto de Patrick Farrell A vida é complexa demais para ser compreendida numa só existência. Portanto, para os que não creem em reencarnações (espécie de “recall” espiritual) e na eternidade o baque pode ser medonho. Mas nem sempre é assim. O ceticismo também poupa mentes da idolatria e do fanatismo. É incrível: eu conheço alguns homens agnósticos que têm uma paz e uma serenidade de fazerem inveja.

Enquanto a “imensa nação rubro-negra” festeja a chegada do jogador de bola Vagner Love a Gávea, a também “imensa nação haitiana” padece sob os escombros de um dos maiores terremotos da história. Não se sabe ao certo quantos morreram por causa do abalo sísmico. Mórbidas especulações globais dão conta que acima de cem mil pessoas foram extintas pelos destroços de casas e prédios naquele país.

“E o que tem uma coisa a ver com a outra?” — algum flamenguista haverá de inquirir, imediatamente irritado com a estapafúrdia analogia. Olhando assim de relance, nada. A não ser o fato das duas situações fomentarem comoção pública, ainda que por motivos antagônicos. Quem nunca rimou amor e dor, os sentimentos mais viscerais que se tem notícia?! Agora, tocarmos a vida como se nada tivesse acontecido, como se a desgraça fosse um mero acidente de percurso envolvendo gente negra e pobre, mais uma calamidade afetando a ralé, é extremamente contraditório. O sentimento que me perturba é do poeta: “é impossível ser feliz sozinho”... 


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POR EM 18/01/2010 ÀS 07:22 PM

Instantes de inércia

publicado em

Acho inevitável e certamente saudável na arte o momento da paralisia. A inércia de um artista é seu ponto de crítica, onde ele se defronta com a dúvida e por isso mesmo (ou então às vezes) se mostrando maduro e cuidadoso com seu trabalho.

Um pintor, segurando seu pincel molhado de tinta, leva a mão à tela, mas vendo melhor uma sombra ou a falta dela, para: e nessa hora nasce toda uma questão de saber cuidar de sua obra, do que será melhor e do que pode arruinar um contraste, uma noção exata de profundidade entre as árvores do fundo e as cadeiras debaixo do sol. A dançarina, erguendo sua perna no palco, dando uma pirueta no ar, voltando-se graciosa e leve para os cantos do próprio corpo, corre para onde não deveria porque foi seguindo o ritmo de sua euforia mágica de passos, então para: e nessa hora nasce a dúvida de para onde e como dobrar-se de uma forma que não desafine a cadência anterior de seus movimentos ensaiados. O escritor, sob a chuva de ideias que jorra (ou pinga) em sua mente, sente a falta de uma palavra ou não sabe se deixa o vento abrir a cortina e revelar ao homem que sua mulher está com outro no quarto, e para: nessa hora ele enfrenta o mistério da própria criação e suas dificuldades, mesmo que esse mistério já esteja revelado, embora não num plano ainda alcançável; ele descobre que sua história pode ser maior do que ele, com uma cena invertida possível de alterar destinos, pessoas, o meio todo, e assim o fim.


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POR EM 15/01/2010 ÀS 10:52 AM

Da alienação

publicado em

Encerrei o ano de 2009 lá pelo dia 15 de dezembro, claro, porque daí em diante tudo era festa. Encerrei o ano pensando em férias e de férias pretendia ficar pelo menos até o fim de janeiro. Sombra e água fresca no fundo do meu quintal. Foi então que descobri ser a alienação um estado involuntário. De nada adianta querer: é preciso ser. Eu fugia do mundo, mas ele continuava traiçoeiramente a me enredar.

2010 nasceu sob o signo de grandes desastres. Signo maldito que se repete a cada 365 dias com modificações apenas na superfície. Logo no início deste ano, o Brasil abalou-se com os estragos causados pelas chuvas. Angra, São Luís de Paraitinga, Agudos foram nomes que frequentaram a mídia por muito tempo. Muitos prejuízos sendo o maior deles as vidas que se apagaram. Geógrafos, geólogos, políticos sugerem sempre as mesmas medidas necessárias e que não serão tomadas. O povo tem memória curta, em março ninguém mais vai se lembrar do assunto.

Em janeiro acompanhamos o desenrolar da novela Arruda e os 40 ladrões que tinha começado no ano anterior. A desfaçatez dos protagonistas, seu imenso cinismo, são causas para indignação. Como podem zombar a tal ponto da opinião pública? Bem, poder eles podem, talvez com justa razão: nas próximas eleições lá estarão eles reivindicando nossos votos e muitos de nós, brasileiros, vamos continuar a elegê-los. Eles sabem disso. Agora as notícias que nos chegam do Haiti. Tanta miséria sem a colaboração da natureza já não era suficiente? Um desastre de proporções desconhecidas neste lado do novo mundo.


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POR EM 15/01/2010 ÀS 10:17 AM

Como pisar no coração de uma mulher

publicado em

Fotografia de Jorge MiguelQuer mesmo ferir uma mulher? Então a estupre. Faça isso com o pênis, os dedos das mãos, um objeto de aparência fálica ou, simplesmente, com palavras. Aliás, ferir com as palavras é bastante eficaz ao ofensor e edifica morada duradoura na memória de uma mulher, quiçá por toda a vida. Foi Múcio, o médico guru, quem me contou: ele cuida de uma paciente que nunca mais teve um orgasmo desde que o marido a repreendeu que ela parasse de gritar e uivar de tesão, pois mais se parecia com uma puta. Percebem como é fácil pisar no coração de uma mulher?!

A sexualidade humana provê matéria prima abundante para devaneios de leigos e ensaios dos estudiosos. Entendê-la, aceitá-la são desafios. Salvo algumas poucas espécies de primatas, o homem é o único animal na natureza que busca no sexo instrumento para obter divertimento e prazer, ou seja, o chamado sexo sem fins reprodutivos, tão abominável nas sagradas escrituras.

Recentemente, brasileiros que trabalham clandestinamente em garimpos do Suriname foram atacados de forma massiva pelos nativos. Mais conhecidos como “marrons”, os agressores descendentes de escravos fugitivos invadiram uma área habitada por brasileiros para barbarizar, surrar, matar, e vingar o suposto assassinato de um surinamês por um brasileiro.


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POR EM 05/01/2010 ÀS 02:25 PM

Coisas pra fazer (e deixar de fazer) em 2010

publicado em

Revista BulaMesmo sem saber se ainda estaremos respirando na próxima alvorada, pensamos no amanhã com uma convicção que beira a ingenuidade, mas nos mantêm na luta. Ainda que as metas traçadas no janeiro passado ainda estejam patinando no presente, inacabadas, nós ousamos estipular outras para o ano vindouro. Pessoas inteligentes, centradas, pragmáticas, as empresas sérias, sólidas e bem sucedidas fazem planejamentos estratégicos com inabalável auto-confiança.

Muitas vezes se diz: um ser humano plenamente realizado e sem ambições já está morto. É assim, por outro lado, que se sente um homem enterrado em melancolia, mergulhado na depressão, aprisionado ao passado, angustiado com o presente, desencantado com o futuro. Este merece a companhia utilíssima de quem se importa com a sua integridade física, a fim de se evitar uma tragédia anunciada.

Mesmo os desafortunados de longa data anseiam por melhores dias e fazem planos simplistas para o futuro, quando tirarem os pés da lama. É no lodaçal das crises que se testam os verdadeiros amigos. John Lennon cantou: “ninguém o ama quando você está por baixo”. Amigos incondicionais, portanto, são agulhas no palheiro, adversários à altura contra a miséria, a doença e a demência.


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POR EM 05/01/2010 ÀS 01:19 PM

Marcados para morrer

publicado em

Revista BulaNa sangrenta realidade do país, amontoam-se os corpos de menores assassinados, de uma forma ou de outra. São meninos e quase meninos ainda, longe dos lares, da escola e do sadio lazer que lhes é devido. São os meninos do Brasil. E como lhes será o ano de 2010? Será apenas mais um Ano da Copa? Ou mais um ano eleitoral que nada lhes dá? Mais um ano negro, que lhes rouba a infância, e com ela a vida e o futuro? 

As notícias diárias sempre falam em tantos ou quantos os números de mortes, mas o número exato nem sempre se divulga, podendo alterar-se a cada momento, para mais, infelizmente, porque os jovens enveredam-se por caminhos abissais, muitas vezes sem volta. 

Múltiplos os crimes de pedofilia, de rituais satânicos, de pais que espancam até a morte, mas o envolvimento com o tráfico de drogas é apontado como o principal motivo. E são filhos de famílias pobres — de miseráveis periferias —, mas há também os de classe média e de classe alta; no inferno das drogas, os ricos também morrem, sem piedade —  não há exceções. 

As pobres famílias, impotentes, despreparadas, padecentes de uma estrutura familiar em derrisão, clamam e choram em vão numa sociedade degradada pelos vícios — álcool, drogas e outros produtos nocivos —, como gritam pela falta de ética,  e pela injusta e desumana distribuição de renda. Veja-se aí, por exemplo, o crime do salário mínimo, o maior desse país, enquanto os parlamentares, supostos representantes do povo, mais advogam em causa própria e têm vencimentos milionários, fora o que vem por fora. Ainda assim, alguns deles, os desonesos, lesam os cofres públicos, com o aval da impunidade, e até — desgraça das desgraças — com alguma ajudazinha “legal”, à sombra da letra das leis. 


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POR EM 02/01/2010 ÀS 06:19 PM

Frio, sombrio e vazio

publicado em

Foi assim o primeiro dia de 2010, passados os momentos de euforia da contagem regressiva e da virada do ano. Janeiro se inicia. Cadê todo mundo?, podia-se perguntar naquele primeiro dia do ano, como num conto de Reymond Carver, contido no livro “Iniciantes”, que se recomenda e se encontra nas livrarias. Com a virada do ano, veio a virada das águas. Tempo chuvoso, dia sombrio, cidade vazia, silêncio. Salvo umas sobras babacas de foguetes, peidando o dia inteiro e apavorando os pobres cachorros de todo mundo, cujo sistema auditivo não suporta estouros de bomba, cães  havendo que até sofrem parada cardíaca e morrem. No mais, naquele dia, nem buzinas, nem risos, nem relinchos, seres humanos havendo que relincham ao invés de rir. Uma gente quadrúpede, se estão me entendendo, oriunda dos estábulos nas trevas da ignorância, bufando e escoiceando com a sua peculiar estupidez. Pois é com algumas pessoas assim, em meio às de melhor qualidade, que vamos atravessar 2010. Se me dizem que ninguém é melhor do que ninguém, ouso exibir meu sorriso de desdém. Por outro lado, sustento que, malgrado as diferenças, todos os homens se igualam no vaso sanitário e no caixão. A convulsão dos elementos. Toda a água do mundo. Um céu cinzento, cambiante a negro. Mortes no Rio. Ilha Grande. Angra dos Reis. Morro da Carioca. Morro abaixo às toneladas. A terra e as pedras da destruição. Com água e tudo. Quebra, fragmentação, soterramento. Casas, vidas e utensílios. Moradores e turistas. Jovens, adultos, idosos, crianças. Todos. Funesto “Réveillon”. Um dia muito triste. Um desses que parece mesmo sem Deus. A ausência Dele. E uma dor que perdura, tão dura de suportar quanto o peso da terra e das rochas morro abaixo. O primeiro dia do novo ano. Parido com muita dor, pela hora da morte, sob o manto negro da noite. Um dia que, aceso pelos fogos, haveria de vir luminoso como o sol que seria de trazer para toda a humanidade. Mas não foi assim que ele veio, como assim não foi que ele chegou. 


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POR EM 02/01/2010 ÀS 02:55 PM

A verdade é que sou um mentiroso

publicado em

Boris CasoySom, teste, som, teste: “do alto de suas vassouras, dois lixeiros... os mais baixos na escala do trabalho”. O que é que vaza aqui? Som, teste, um, dois, teste. Experiência. Teste. Um, dois, três. Testando. É a minha inteligência posta prova? Teste. Um. Dois. Não é minha inteligência posta prova. Não é minha integridade posta a prova. Não sou gari. Não tenho tanta dignidade... Ah, se eu fosse gari era greve! Queria ver esse sujeito varrer o chão que ele pisa com essa língua de cobra. Mas por que me dói então? Por que não fico indiferente? É fim de ano. Dei meus abraços. Desejei sorte a paz pra todo mundo. Onde será que eu errei? Um. Dois... Três. Teste? Isso é um teste? Teste: não é preconceito. Não é o clichê do repúdio do intelectual burguês pelo trabalho braçal. Não é a lógica escapista: todos são maus, logo sou inocente. Não é a representação concreta do jornalista robótico. Não, senhor Boris Casoy. Não é nada disso. Repetindo: isso é um teste? Um riso. Riso. Riso gordo. Riso velho. O velho riso de todos os anos. O velho riso branco. Riso barulhento que arranca cabeças. Um riso eterno em delay estremecendo paredes. Lembrei-me do Lavinho. Que varria a praça da minha cidade quando criança. Panhava vassoura no mato. E nós, moleques, jogávamos lixo no chão e pisávamos na grama. Isso é um teste? Um. Dois. Três. Som. Alguma coisa vazou. Hora do perdão nacional. Ah, o perdão lido na tela que filma. Oh, perdão. “Perdoai Senhor, eles não sabem o que fazem...” Não sabem? Isso é um teste? “Liberdade é não ter que pedir perdão”, agir de tal modo que cada ato integre sua inteira responsabilidade. Você é capaz? Um. Dois. Três. Isso é um teste? 


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POR EM 02/01/2010 ÀS 10:31 AM

Natureza em fúria

publicado em

Deus fez o mundo em seis dias, e tudo o que nele existe, diz a metáfora do texto bíblico, no qual se apóiam os criacionistas.  Mas as ruas e estradas, com seus desastres e acidentes, deixou por conta do Homo Sapiens, o mais inteligente dentre os terráqueos. A sequência de catástrofes naturais, de calamidades do clima, que devastam quase o Brasil inteiro, nesta estação de chuvas, chega a parecer cruel, com ricos e pobres, flagelados e abonados — os muito pobres, atirados aos cinturões de miséria, nos baixios dos rios, nos fundos de vale, são os que mais sofrem. Todo ano têm suas casas tomadas pelas águas de rios que sobem demais, depois que caem as chuvaradas. E perdem tudo o que têm — o de comer e o de deitar, os alimentos do sobreviver, os eletrodomésticos, comprados à custa de sacrifícios imensos. Famílias inteiras (ou parte delas) é soterrada por pedras e barrancos que descem, em períodos de intensa chuvarada. É de partir o coração ver o choro dos sobreviventes e das equipes de salvamento, que na maioria das vezes nada mais conseguem salvar, a não ser resgatar os corpos que não ficam sob toneladas de lama. O Rio de Janeiro, que não é só a zona sul da orla marítima, onde se localizam os hotéis de luxo, foi particularmente atingido neste final de ano, na baixada fluminense, cujas populações ribeirinhas ficaram debaixo d água. Triste espetáculo de morte e destruição. Uma pousada em local distante, na Praia Grande, foi soterrada pela encosta sob a qual foi edificada, espremida entre o morro arborizado e a pequena faixa de praia. Cenário paradisíaco para se viver em tempo de seca, mas ambiente perigoso, em estação de chuvas a cair em bátegas insistentes. 


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