Desenho de  Wendy MacNaughton
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POR EM 16/11/2010 ÀS 04:56 PM

Hippies e Yuppies

publicado em

O musical "HAIR" acaba de estrear no Rio de Janeiro. Ainda não assisti essa montagem, mas vi trocentas vezes a primeira nos anos 70, era amigo de um monte de atores que trabalhavam na peça como o Armando Bogus, Sônia Braga, Laerte Morrone, começava a fazer teatro e ia assistir de graça umas três vezes por semana por puro deleite de ver tão claramente exposta a ideologia da minha geração sobre o palco. Era ideologia, não era moda. As ideias de "HAIR" causaram tanto medo aos poderosos do mundo inteiro que chegaram a inventar um sistema de créditos nas universidades pra nos dividir, não permitir que as mesmas pessoas se encontrassem nas mesmas turmas por anos a fio e pudessem se articular. Amizade e convivência eram um perigo. Cada um fazia seus créditos em turmas diferentes e isso prevalece até hoje. Mas primeiro tentaram nos reprimir e amedrontar de todas as formas conhecidas. Foi “HAIR” que deflagrou tudo isso porque pregava a desobediência civil de diferentes maneiras conforme o País onde viviam os jovens. Nos EEUU eles se recusavam a alistar como soldados pra guerra do Vietnã. Queimavam seus documentos em praça pública.

As músicas de "HAIR" traduziam exatamente nossa filosofia de vida e a mais conhecida e amada delas "Era de Aquarius" tem versos que nos definiam: "Olhos cheios de esperança e um amor que não se cansa na madrugada da Era de Aquarius" — uma coisa linda demais que nos fazia crer que íamos, finalmente íamos, mudar o mundo senil e doido em que vivíamos. O espetáculo era uma porrada na cara dos caretas hipócritas, mas eles lotavam os teatros durante meses e meses, abismados com o que viam, as cores, a desobediência às normas estabelecidas, a nudez coletiva, os temas, os beijos na boca entre pessoas do mesmo sexo. 


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POR EM 16/11/2010 ÀS 03:49 PM

Apenas um filhote

publicado em

Ontem apareceu um filhote de andorinha na varanda aqui de casa. Como chegou até aqui, não imagino. Sei que elas, as andorinhas, andaram rondando meu telhado, mas daí a ocupá-lo sem permissão me parece uma invasão ilegal. O filhote piou com tal intensidade que, mesmo sem saber ainda tratar-se de um filhote de andorinha (com sua capa escura e o peito branco)  me botei a procurá-lo. Encontrei o filhote escondido atrás de um vaso de calanchoê.  Ele ficou imediatamente mudo, pois, em lugar da mãe, o que lhe apareceu foi um monstro horrível. Imagino que nesse momento estivesse arrependido de haver piado, pois pio sempre denuncia. Assim é a vida. Os antigos diziam que bom cabrito não berra. E acho que não berram para não se denunciarem. 

Levei a mão aberta em sua direção, num gesto que qualquer um deveria entender tratar-se de uma oferta de ajuda, mas que a avezinha, em sua profunda ignorância dos gestos humanos, quem sabe com profundo conhecimento dos mesmos, interpretou como ameaça à sua pequena vida. Saiu batendo as asas, que foram feitas para cortar espaços, ou para planar em longos e suaves círculos, mas elas ainda não tinham treinado o suficiente. Enfim, sua vida era ainda pequena. Mal conseguiu uma altura de mais ou menos um metro, já teve de aterrissar, por causa do cansaço. Mas ele tinha uma vida a preservar, por isso manteve-se atento.


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POR EM 12/11/2010 ÀS 07:30 PM

Vamos enterrar a sua mãe no quintal?

publicado em

Joana D’arc achou aquilo um disparate, o cúmulo do absurdo. Quando entrou no banheiro da suíte deparou com o marido encurvado, mordendo a língua, concentrado, despejando o sêmen dentro da pia. Enquanto revirava a camisinha ao avesso e a enxaguava, disse que seria um desperdício jogar fora o preservativo. Excesso de lixo, aquecimento global, derretimento das calotas de gelo, você sabe. Hoje em dia, quem não recicla está na contramão da vida moderna, minha querida. Foi o que ele disse, pendurando o condom usado no toalheiro, e justificando (sem convencer) a avareza.

Aquela estória de “economia de guerra” já tinha passado dos limites. Não bastasse ficar pegando nos pés da filharada para que eles usassem os dois lados do papel higiênico, agora mais esta de reaproveitar camisinha. Não era doida de aceitar, de jeito nenhum, uma sandice daquelas. Quem sabe, até contrairia doença por causa do uso inapropriado do artefato de látex. Deus que me livre!

Desde a época do namoro, Euclides já tinha fama de muquirana no bairro. Mas o amor (e o tesão) supera todas as diferenças, disfarça os defeitos do ser amado, faz com que um parceiro tolere as esquisitices e as taras mais abjetas do outro. Por exemplo, comadre Sebastiana confidenciou que o esposo Malaquias tinha uma preferência estranha em copular nas suas axilas lisinhas após a depilação. E o primo Eustáquio, então?! Ficava horas a fio chupando o hálux da esposa até atingir o orgasmo. Em matéria de fantasia, seja ela sexual ou religiosa, o ser humano não encontra qualquer limite.


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POR EM 12/11/2010 ÀS 07:05 PM

O mar e os lobos do mar

publicado em

De sol e nuvens, um céu de ouro e sangue, o arrebol do entardecer. Os pios melancólicos, de solitárias gaivotas, sobrevondo as carcaças dos barcos. Parecem dizer que o tempo a tudo trespassa, e tudo se esgota. Parecem gritos de alerta, que o dia cessa e se aproxima a hora escura. Parecem avisar que ali vêm as sombras a cobrir o mundo e fechar as portas. Parecem deduzir que vão cerrar-se as cortinas dos quartos, que vem a noite por cima estender-se e cobrir a nudez dos corpos. Parecem gritar que a hora é essa, que a vida é só essa, não há outra. Parece que a vida vai sair pela porta dos fundos, o coração a saltar pela boca. Gritam as gaivotas, e serão outras ao amanhecer, com o mar a derramar-se de peixes mortos. Na manhã do mar profundo, com as mortes do mundo. 

Rostos na penumbra 

Curtidos pelo sol e o sal, escondidos na penumbra de âmbar dos copos de rum, os velhos estão lá, nos fundos tristonhos do BARco. Olhando o vazio através da névoa que lhes turva o olhar, deles há que lacrimejam e não se pejam de chorar. Estão lá, os lobos do mar, como se esquecidos. À margem da vida de  aventuras e de outrora, arrebóis de auroras, azuis os olhos do céu. Cinzento, agora, o tempo que se foi, envolto em véus. A desoras, à luz do lampião — mais ao fundo e mais sombrio, onde finda o estabelecimento —, apenas um encontra-se lá, com o copo vazio de seus dias, seu vidro de solidão. Soturno pescador, memória e melancolia, noturno seria o seu cantar — não fosse a sonolência do silêncio —, até um novo dia raiar e, redivivo, do oblívio, o homem se erguer. 


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POR EM 10/11/2010 ÀS 07:49 PM

Ao vencedor, as batatas

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O Adamastor me chegou indignado, outro dia, com o que leu no Quincas Borba. Às vezes me esqueço que já estou aposentado e recomendo algum livro ao meu amigo. Mas como, vociferava ele, um escritor, reputado como o maior entre os escritores brasileiros, teve o cinismo de escrever uma coisa dessas! Perguntei assustado a causa da gritaria e meu amigo confessou que estava lendo aquele livro de Machado de Assis, e por recomendação minha. Quase sempre me esqueço de que, quando meu amigo lê, já sei que vou ter problemas.  E o Adamastor é daqueles (a maioria das pessoas) que confundem o papel de um ator com sua vida civil, e qualquer pensamento em um livro com o pensamento do autor. Sem contar que a confusão entre narrador e autor é ainda maior.

Quincas Borba é uma personagem irônica, expliquei, figura comum na literatura de Machado. Aproveitei para uma pequena introdução à leitura do texto literário. Não se deve ler literatura ao pé da letra. Os sentidos estão quase sempre escondidos nos escaninhos do discurso. Ambigüidades, ironias, eufemismos e tantos outros recursos de retórica fazem parte do que há de lúdico na literatura, ou seja, participam de sua literariedade. Tive a impressão de que não fora suficientemente claro, pois meu amigo sacudiu a cabeça em movimentos horizontais, provavelmente significando que não, não concordava com nada daquilo. 


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POR EM 05/11/2010 ÀS 01:44 PM

Livro garante que Hitler e Elvis moraram juntos na Argentina. Já o Paul McCartney, este morreu mesmo

publicado em

De acordo com o pesquisador boliviano Oscar Cocacuela, existem documentos irrefutáveis a garantir que Hitler não estourou os próprios miolos, e fugiu, sim, para a América Latina no apagar das luzes das bombas da Segunda Guerra Mundial. Quem fora suicidado à época em seu lugar (e também de Eva Braun) se tratava, na verdade, de Karlitos (um inexpressivo artista circense que imitava Charles Chaplin em Berlim), juntamente com a bela Fran, sua companheira engolidora de facas e cuspidora de suásticas.

Cocauela não diz o que houve realmente com a esposa do tirano no trajeto do casal até a Argentina, mas é certo que ela não desembarcou. Há relatos contundentes (ele afirma) que o Führer a teria empurrado do convés e seu corpo precipitado no mar. Uma vez instalado na capital portenha, o carismático nazifascista fora discretamente recepcionado pela comunidade alemã local, uma turma que já havia debandado da Europa para escapulir da loucura da guerra.

A primeira providência tomada pelos conterrâneos foi raspar o bigodinho quadriculado e colocar o novato aos cuidados intensivos de uma professora de espanhol, pela qual (aí não resta qualquer dúvida) ele se afeiçoou profundamente (ora, vejam só!), ao ponto de experimentarem um curto romance. Diz o ditado que a necessidade faz o sapo pular. Então, Hitler adaptou-se rapidamente à vida latina. Inteligente que só, aprendeu com facilidade o idioma nativo e começou a trabalhar como estivador no cais. Ralou também numa salsicharia como enchedor de linguiças. Além disto, fez “free-lance” como auxiliar de garçom em vários bares e restaurantes de Buenos Aires.


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POR EM 02/11/2010 ÀS 02:16 PM

Ano político

publicado em

Ás vezes me aparece aqui em casa o Adamastor, meu amigo gigante, para serrar um cafezinho, uma cerveja, um bate papo em disponibilidade. Ao sentar-se, ontem, desconfiei de que não vinha com sede, pois sua testa trazia estampada uma pergunta, pela qual não tive de esperar muito. 

Você não acha que um ano político prejudica a economia? perguntou e ficou com os olhos cravados em mim. Cocei a cabeça. Economia não é minha praia, isso é lá com os economistas, me deu vontade de dizer. Então pedi a ele que prestasse bastante atenção porque em sua pergunta havia uma impropriedade vocabular, e esse sim, esse é assunto de minha área de interesse. 

Ele abriu um pouco a boca, mas, além de dentes, nada mais se encontrava lá dentro. Era apenas, como eu já sabia, sua cara de esperar explicação. Fechei a pasta onde procurava um texto antigo de que estava precisando e o encarei.  Como eu não fosse dar resposta imediata e direta àquilo que o preocupava, ele disse que aceitaria um cafezinho. Tomamos o cafezinho que encomendei em silêncio escuro e quente. Política, expliquei por fim, é a ciência referente aos fenômenos do Estado, como mais ou menos dizem todos os dicionários. E isso num sentido bastante restrito, porque Carlos Nélson Coutinho, filósofo brasileiro, afirma que todo ato com repercussão no outro é ato político. O Adamastor remexeu-se impaciente na poltrona. O assunto, na forma como o desenvolvia, não era de seu agrado. 


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POR EM 28/10/2010 ÀS 07:39 PM

Busca insana

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O IBGE recentemente liberou uma pesquisa que prova que a taxa de separações e divórcios de casais atingiu o maior patamar desde 1995. Mas os casamentos também aumentaram quase 4% em relação ao ano anterior. Não sei o que isso significa, deve ser o direito que todos temos de tentativa e erro em busca da felicidade, esse estado de espírito abstrato e hipotético e que é incentivado por todos os meios de comunicação — é preciso ser feliz imediatamente. Para isso as receitas são as mais variadas e os modelos de pessoas que supostamente atingiram esse nirvana estão espalhados por toda parte. Mas, por uma estranha ironia, ser feliz está quase sempre associado a ter...dinheiro, bons empregos, status social, beleza, bens como casa própria e carros, nível superior, acesso aos mais elevados e caros produtos, etc... 

E tudo isso num País de quase 200 milhões de pessoas onde a maioria navega em tábua fina sobre o mar, desassistidos nas suas mais básicas condições de sobrevivência, aquelas capazes de dar alguma dignidade ao ato de viver. Nada contra procurar ser feliz sendo pobre, muitos conseguem exatamente por isso, não tendo que se dedicar a administrar coisas alheias à vida, mas os orientais afirmam que a felicidade é também produto da comparação. Percebe-se que é feliz quando se vê o mundo e se compara às tragédias que outros vivem. Pode ser. A doença que nos acomete incentivada pelos meios de comunicação é a tal busca da felicidade a qualquer preço, a insanidade de passar sobre qualquer coisa, pagar qualquer preço  pra ter o direito de experimentar os prazeres que dizem que podem nos fazer felizes.


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POR EM 26/10/2010 ÀS 10:58 PM

Anedota socrática

publicado em

Nada contra a posse de bens, mesmo os materiais, pois sem eles a vida seria impossível. Quanto aos bens espirituais, bem, sem eles vive-se tanto quanto vivem patos e marrecos, bois e cavalos, e alguns bípedes muito encontradiços em nosso meio. A busca de bens materiais é natural, se deles dependemos. O que causa espanto, desalento, o que causa descrença nesse pequeno ser que se chama humano é ver como algumas pessoas vendem a alma ao diabo. Não, não vou falar de literatura, que por ela já passeei bastante ultimamente. Não vou falar do Fausto, tampouco do Riobaldo, famosas personagens que se deixaram seduzir pela ideia de que o diabo podia ajudá-los a alcançar algum objetivo em troca da alma, que a ele deveriam entregar após a morte. A venda da alma de que me ocupo é outra. Falo da sedução exercida pelo mercado e que conquista muitas almas. Nos dias que correm (e céleres) pode-se dizer que o mercado conquista a grande maioria das almas.

O ser há muito perdeu sua importância. Vivemos, como já se disse por aí, numa época em que ter vai conquistando a maioria dos corações. Pior ainda. Há quem diga que parecer, nos dias atuais, é o canal, a verdadeira causa de satisfação. Talvez seja, mas o que me ocupa agora é o modo fácil como a maioria absoluta da população é capaz de sacrificar afinidades, valores éticos, amizades, prazeres, sonhos e encantamento pela posse de um objeto qualquer. E muito qualquer. Quase nunca um objeto que lhe trará algum benefício. Não aprendemos com a semiótica que se compra não o objeto, mas sua significação? Em outras palavras, compra-se o objeto que dê status, a marca que dê prestígio, isto é, compram-se aparências. 


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POR EM 22/10/2010 ÀS 03:19 PM

Matar é com a gente mesmo

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Não se compreende a maldade humana. Estudiosos debruçam-se sobre livros e compêndios, derretem as retinas defronte os computadores, testam drogas e dúvidas nos dadivosos ratinhos de laboratório sem, no entanto, concluírem a respeito da natureza humana ruim. Culpar o diabo não soma. É fuga, subterfúgio, enganação. Imagine só: que animal se deita à noite maquinando contra a vida de outro?

As pessoas simplesmente se indignam com a ruindade dos seus pares, criaturas promotoras da dor física e moral. Tolos vão debitando o ônus da própria ignorância na conta de um ser supremo que é ovacionado das mais variadas formas pelas agremiações religiosas, muitas delas arrogantes, detentoras da “verdade absoluta”. Se há mesmo o pecado, se ele não passa de mera invencionice humana para o autocontrole, a intolerância será o pior deles. 

Dois animais impopulares inspiraram em mim esta crônica. Ontem, na boquinha da noite, quando eu corria pela pista que margeia uma bela lagoa da cidade, pelejando contra a “barriguinha de jibóia”, deparei com duas moçoilas apavoradas por causa da presença de um sapo no caminho (no meio do caminho tinha um sapo, tinha um sapo no meio do caminho). O lerdo, porém, esperto animal fazia tocaia debaixo de um mini-poste de iluminação, capturando com sua língua pegajosa um farto banquete de insetos que por ali sobrevoavam em busca da luz. Ora, vejam: não só os homens buscam a luz, mas também as aleluias, os besouros e os sapos feios.


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