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POR EM 21/04/2009 ÀS 02:57 PM

Cara de anjo

publicado em

Só não falei com as plantas. De tudo que me sugeriram, só isso faltou. E não falei, por uma espécie de constrangimento moral. Me senti na situação de quem pega o telefone ao contrário e tenta falar pela concha receptora. Isso nem o Ricardo, meu vizinho aqui do lado, e que ultimamente vem tendo sérios problemas com o satanismo de alguns objetos caseiros amotinados contra o dono, isso nem ele faz. Poderia até tentar, apesar de minha arraigada descrença em comunicação intergenérica, mas imaginei alguém passando naquele exato momento e o que poderia sair por aí dizendo a meu respeito na vizinhança, onde já não desfruto de grande prestígio.

De tudo tentei, mas infrutiferamente. As plantas de meu jardim estavam mesmo era com saudade. Ah, sim, ainda não disse que a causa de tudo isso foi o Moisés. Não um Moisés de barbas brancas e olhar que dispara dúzias de raios aterradores. O Moisés, mesmo, com artigo e tudo, porque um sujeito simples, familiar, que visitava meu jardim todos os meses e que de repente alegou problemas em uma cidade distante para não voltar mais. Com o maior orgulho pelo estado do jardim de nossa casa, dispensei os serviços do Moisés. Deixe comigo, foi o que eu disse. Deixe comigo. Estou mesmo precisando de um pouco mais de atividades físicas.

Nos primeiros dias, tive a impressão de que as plantas ficaram até mais bonitas. Ah, os olhos, como são enganosos! Geralmente vemos o que estamos querendo ver. Ou precisando ver. Pois tive a impressão. Principalmente porque a glicínia, de um vaso de barro, soltou uma flor de um veludo roxo-vivo que encantou a família toda. Pois não é que leva jeito!, ouvi dizerem-me pelas costas enquanto fingia não ouvir nada.

A grama, as tuias (a azul, a compacta, a dourada), a touceira de areca, o legustro, a camélia, a palmeira fênix, com seus espinhos, pingos-de-ouro, sálvias, todas elas, as incontáveis plantas de meu jardim, algumas semanas depois da despedida do Moisés, começaram a demonstrar descontentamento. Reguei, adubei, podei. Só não conversei por razões já expostas. Fiz de tudo. Elas recusavam qualquer coisa que eu fizesse. Começaram a definhar. As begônias, nos vasos, melaram todas. Até melhoral na água eu andei botando, por recomendação da mãe de uma amiga, maga das plantas, no dizer desta. Nada. Foram meses de lutas e canseiras sem vislumbre de vitória. Visitei floriculturas, consultei especialistas. Resposta nenhuma dessas ingratas.

Há um mês, pouco mais, recebi um telefonema noturno. Era o Moisés. Não se dera bem na cidade distante e me perguntava se poderia ser aceito em seu antigo posto.

No dia seguinte bem cedo, acordei com o Moisés cantando ao ritmo de seu tesourão. Quando saí para cumprimentá-lo, ele sorriu e me disse qualquer coisa que, de longe, não entendi direito, mas que adivinhei. Já perto, disse a ele que cuidei, sim, dentro de minhas possibilidades. Ele não desmanchou o sorriso incrédulo.  

Hoje fui ler sentado à sombra do chorão mexicano (das poucas árvores que se mantiveram fiéis a mim) e, olhando em volta, me lembrei do Tistu, aquele menino do dedo verde. De anjo é que o Moisés não tem nada, acho eu, mas as plantas do meu jardim são capazes de jurar que ele é um anjo disfarçado de jardineiro.
 


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POR EM 21/04/2009 ÀS 02:50 PM

Tente o Google

publicado em

Friedrich Nietzsche, pros que só ouviram o galo cantar, mas não sabem onde, era um filósofo alemão. Tá bom, eu sei que há pessoas que se coçam e têm urticária ao simples nome de alguém inteligente como o Nietzsche – não quero provocar urticária em ninguém só o citei pra começar dizendo que esse “brother” (aposto que agora alguns se ligaram mais) me ensinou muitas coisas pela vida afora.

Quer saber mais dele? Tente o Google.

Ele ensinou-me, por exemplo, que os homens são divididos em carneiros e águias. Os carneiros são os “maria-vai-com-as-outras”, os “covers”, os coadjuvantes do segundo time, os que passaram do segundo grau, às vezes até das universidades, mas permanecem no primário, os que procuram fazer parte de algum bando como os carneiros procuram se juntar aos seus, os fraquinhos de espírito e intelecto, os que têm 40 anos com idade mental de 11.

Carneiros também podem ser definidos como aquele tipo de gente que acusa alguém de preconceituoso e na mesma frase o xinga de veado...sim, eles acham que chamar alguém de veado é xingamento. Cabecinhas de vento que com uma mera furadinha de agulha fina se esvaziam e desabam como aquelas bonecas infláveis de Miami.

Quando os carneiros estão irados eles se juntam ainda mais corporativamente contra o que os irou e berram, berram, berram pra demonstrar sua ira. É a única situação em que berram, normalmente eles apenas acompanham silenciosamente a manada, passivamente desde que tenham à disposição as pobrezas espirituais e materiais que os satisfazem: música ruim, conversas idiotas, comunidades e críticas em blogs, vinho mioranza ou sangue de boi que eles sorvem em grandes goles, gritinhos do tipo Ihuuuuuuu...essas coisas tão interessantes que fazem a felicidade dos carneiros.

Claro que o leitor inteligente sabe que simplifiquei muito os ensinamentos do Nietzsche pra facilitar a compreensão dos carneiros que estão aqui lendo este artigo, todos eles lêem é só observar a maioria dos comentários da revista. Afinal, não dá pra falar profundamente do filósofo alemão com gente que ainda acredita e participa de comunidades que colocam chifrinhos em fotos para demonizar alguém. As águias – NÃO, pensando bem, melhor é não definir as águias porque vai humilhar muito os carneiros-leitores, coitadinhos.

Se quiserem saber mais eles que procurem no Google.

Ah! Esqueci de um detalhe: carneiros detestam águias e isto é perfeitamente compreensível e mais que isso, é lógico.
Mas atualmente, tanto quanto com Nietzsche, aprendo com os budistas quando os leio – alguns são mesmo geniais, bons astrais e ensinam como se livrar de “bodes-pretos”.

(Vá ao Google)

Foi o que fiz na última semana quando uma carta que escrevi e um artigo que publiquei aqui despertaram os baixos instintos de carneiros aí pelas encostas. Águias, sim, sabem conversar com argumentos inteligentes, carneiros só dão coices. Pra contrabalançar o astral dos ovinos ofendidos conversei com meu mestre budista e ele me orientou: que eu acendesse muitos incensos de sete ervas feitos em Pindamonhangaba, poderosíssimos; que só colocasse no meu som a música do Vivaldi ou do Chopin (pena que alguns não os conheçam, nenhum dos dois foi roqueiro) e recebesse em minha casa pessoas de notório grau de inteligência, humor e boa conversa.

Fiz isto e não senti os efeitos nefastos nem aquele cheiro característico que os carneiros exalam quando estão enfurecidos e sem eixo. Como tô em fase de finalizar um espetáculo de teatro musical chamado “THEATRO MUZYCAL PROFANO” estou tendo a felicidade de ocupar minhas noites e dias com coisas sagradas como arte e artistas originais excelentes e divertidos, solares e bem humorados.

Meu trabalho me põe em estado de graça. Nada oriundo das profundezas tem o poder de interromper o processo de criação junto aos músicos e atores e cenógrafo e figurinista e regente musical e pintores e marceneiros e iluminador e webdesigner e costureiras e bordadeiras e produtores e o próprio deus Dionísio. É com esses que eu vou. Aliás, já fui...

PS luxuoso: que a BULA descanse de mim enquanto cuido de estrear meu novo espetáculo e viajar pra Espanha em seguida, dia 12, convidado pra dirigir no Teatro Real de Madrid um show da maior cantora espanhola do momento, uma diva moderna.

(vá ao Google, vá ao Google)

Levo comigo os incensos de Pindamonhangaba, claro. Mas desde já sei que os carneiros vão sentir muito minha falta:  afinal, provocando seus berros, eu os faço ter a impressão que existem.
 


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POR EM 14/04/2009 ÀS 05:10 PM

Nosso corpo de dor

publicado em
Lya Luft tem razão quando diz que “A alma do outro é uma floresta escura”. Talvez também para o outro a nossa alma seja um inferno tenebroso e difícil de ser trilhado. Tanta escuridão nos caminhos faz com que os relacionamentos sejam fontes de ruído emocional e estresse. Mas não impede que sejam encontros de amorosidade e fraternura.  
 
Sabe-se que o animal humano é a maior fonte de estresse, medo e de perigo para si mesmo – com a tendência inevitável de mais pessoas viverem em grandes aglomerações urbanas, partilhando espaços apertados, aumenta a incidência de doenças nervosas, antigos transtornos psíquicos, que recebem novos nomes, e até conferem charme social a suas vítimas. É o corpo de dor da inapetência para a felicidade, transformado em sofrimento ambulatorial ou caseiro, como são milhares os casos.  
 
O corpo de dor das pessoas é tão tenso, vindo de antigas eras, de ódios e guerras travadas dentro do clã parental, que estar com elas é ser soterrados pelo estresse. Pois o sucesso que ostentam é o da vitória em serem mal sucedidas como pessoas. Só escondidas atrás de suas máscaras são palatáveis - sendo que algumas nem escondidas atrás de suas personas são suportáveis.
 
Conviver com nossa própria alma é muitas vezes um caminho tenebroso, que não se percorre sem medo e sem aflição. Mais terrível ainda é conviver com a alma de pessoas de quem gostamos, ou não. Saber que não sabemos de nada, ou que a mera informação vazia só ilumina a aparência das coisas e da vida, e não dá peso à inconsistência de existir, é tudo de que a pessoa precisa para aceitar o esplendor do Agora. Nesta humildade corajosa entra no aberto, e se põe a caminhar na lucidez de “sua nova vida perigosa”, no dizer vertiginoso de Clarice Lispector, a estranha.
 
Muita consideração ao que os outros dizem e pensam de nós nos mantém presos a lembranças amargas e emoções tóxicas de um círculo de sofrimento induzido. Felizes os que se permitem viajar pelas trilhas da vida com a leveza de quem se sabe passantes. Pois quem não se detém na memória da dor, e não gasta o seu tempo de viver no cultivo da agricultura do desencanto, não se torna agricultor de emoções venenosas.
 
Há pessoas cujo sucesso consiste em serem mal sucedidas – fazem de seu esplêndido fracasso um motivo para não saírem do palco das atrações lamentáveis, e estarem sempre na ribalta do fracasso em serem felizes. Devemos nos manter atentos, para não sucumbir ao fascínio de seu vazio abissal.  
 
Permanecer por muito tempo à orla do sofrimento cego pode nos cegar também. Assim como o lutar contra a inconsciência e o absurdo pode nos atrair para sua energia mortal e mortífera. O sofrimento cego (viciado em si mesmo) do corpo de dor da memória vive a drenar nossa energia. Ele nos parasita e nos paralisa, se entrarmos em sintonia com a fome do Alien interior, em que sua alma morta se transformou.  
 
Os doentes de alma e os áridos de espírito vivem a sugar a energia uns dos outros, sucumbindo à atração de seu próprio vazio abissal, que vem a ser tudo de que se alimentam, uma vez que não chegaram a cristalizar uma alma em si mesmos. Vivendo na periferia de seus interesses egóicos e mesquinhos, não conhecendo o amor, apenas o desejo de posse e a lascívia dos baixos instintos, não têm os sentidos abertos para o silêncio interior. Sua mente faz muito barulho, e assim os impede de acessar o dom criador que toda criatura traz em si.
 
Sendo vasta a incompletude e a solidão do Não-Ser em que vivem, vivem a promover e a celebrar os jogos de vaidades e as festas do ego, sendo os podres poderes do mundo aquilo que os atrai e interessa. Atrelados aos cavalos dos desejos, vivem à orla de si mesmos, só tendo olhos para ver os erros alheios, sendo completamente cegos para perceber os seus.
 
São tão pobres de mentes, em seu agarrar-se como náufragos à memória de seu corpo de dor, que aferram-se as ilusões vazias do que poderão ter no futuro, enquanto desprezam aquilo que têm. Se ao menos soubessem, como o sabia Nietzsche, que isto é mais difícil: “fechar por amor a mão aberta, e conservar o pudor ao dar”. 

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POR EM 13/04/2009 ÀS 05:04 PM

A Lula o que é de Lula

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Não sei onde, a não ser em cabeças muitas singelas, um burro consegue sair do nada, criar o único partido orgânico do Brasil — e um dos dois mais importante da América Latina —, virar presidente da República e, de quebra, se tornar uma liderança internacional

Por princípio, sou contra o culto da personalidade, prática tão peculiar ao totalitarismo. Na política brasileira – de uma história afinal tão pouco democrática – os homens sempre foram mais importantes do que as causas, desde o incompetentíssimo Deodoro da Fonseca, o primeiro líder de nossa república de araque. Desde 1984 o Brasil consolidou um novo estágio de seu desenvolvimento político, não obstante continuamos ressentindo a prevalência de uma regra inquestionável para a duração máxima do mandato presidencial. A Constituição de 1988 estabeleceu quatro anos, prazo que não resistiu à conveniência (a emenda para a reeleição de FHC), e até hoje se discute o que é melhor. Pessoalmente, não sou contra a emenda FHC, sou contra essa discussão não ter fim. Defendo a manutenção de quatro anos com direito à reeleição, tempo razoável para se realizar um projeto. Além do mais, se o cara for bom, porque não conceder-lhe o direito de concorrer a mais quatro anos? Passou daí é personalismo.

Lula é um grande presidente, mas sou contra um terceiro mandato seu ou que retorne daqui a seis anos. Num caso e no outro, trata-se já de culto à personalidade, uma vez que não atravessamos uma conjuntura excepcional (uma guerra, por exemplo, o que justificou três reeleições, nos EUA, de Roosevelt, durante a Segunda Guerra Mundial). O maior benefício de não insistirmos nessas aventuras é cultural: podemos eventualmente até abdicar de um líder de primeira grandeza, mas ganhamos a sensação de que nos tornamos um país maduro, regulado pela constância. E, afinal, o país deve (e é) mais importante do que suas pessoas públicas.

O lulismo existe, e é mais forte do que o petismo. Com efeito, o PT não é tão republicano quanto é democrático. Tem o mérito de ser o único partido no país, dos 27 inscritos no TSE, que faz eleições diretas em todos os municípios e estados, para escolher seus dirigentes. O problema é que se confunde exageradamente com seu presidente de honra. Não fosse Lula ter desejado que em Goiânia o partido se unisse a Iris Rezende, é provável que a voz do bom senso prevalecesse e o PT disputasse a prefeitura. Bom senso, sim: manter-se-ia programático e escaparia à tese dos eleitoralistas. Em tempo: com o aval de Delúbio Soares, Neyde Aparecida e Osmar Magalhães, em 1998 o PT, PCdoB e PDT emitiram um documento (“Eleger Marconi é derrotar o continuísmo e o autoritarismo”), dizendo (não bastasse o título) que “a vitória de Iris Rezende significa a continuidade de um governo que tem trazido graves conseqüências para os interesses do povo e dos trabalhadores de nosso Estado.” Não se sabe bem porque, o “continuísta inimigo do povo” virou santo na última eleição municipal, para as pessoas listadas e seus delegados. 

Feitas essas ressalvas, deve-se não obstante reconhecer de uma vez por todas a inteligência de Lula. Dia 2 de abril, no encontro do G-20, em Londres, a estrela de Luís Inácio Lula da Silva brilhou mais uma vez. Lembro-me ainda quando, em suas três primeiras tentativas de se tornar presidente, um monte de pessoas se perguntava se esse cidadão era capaz não só de administrar o Brasil quanto de representá-lo no exterior. Afinal de contas, o homem era “analfabeto”. Ainda quando, em 2001, ele ganhou a presidência, certos setores da mídia e da opinião se perguntavam se Lula estaria “preparado” para a função de presidente (não me recordo que tenham posto em dúvida a competência de Collor e FHC). O pressuposto é de que o cara num tinha um canudo pra ostentar e, que pena, não sabia “falar inglês”. Nossa, como éramos (e talvez ainda sejamos) medíocres!

Em 2005, antes de José Dirceu cair fora, muitos achavam que era Zé Dirceu quem mandava nessa joça e, por tabela, no presidente. Zé saiu e achavam que o barco fosse afundar porque, afinal de contas, “Lula é um burro, num sabe de nada, coitado”. Coitados. Não sei onde, a não ser em cabeças muitas singelas, um burro consegue sair do nada, criar o único partido orgânico do Brasil - e um dos dois mais importante da América Latina -, virar presidente da República e, de quebra, se tornar uma liderança internacional. Se isso é fruto da burrice, gostaria de ser burro, e se não é inteligência, não sei que nome dar.

Da mesma forma que a escravidão explica a situação do negro no Brasil, ainda hoje – chegamos ao ponto de institucionalizar a discriminação para promover a ascensão social dos negros! -, a escravidão explica também o preconceito contra o trabalho manual e este, por tabela, explica o preconceito contra Lula. Ainda que tenha se tornado presidente de um país imenso, o fato é que Lula é “um reles torneiro mecânico”, na idéia de muita gente, por aí. Constrangedor, mas é a opinião inclusive de muitos que cursaram até a universidade (Harvard deve mesmo fazer a diferença...). É bem a mentalidade estúpida que trouxemos de Portugal nas caravelas, e que fez deste país um arremedo de sociedade séria. É a nossa história. Fernand Braudel, eminente historiador francês do século passado, tem razão: a mentalidade é parecida com as formações geológicas da terra: muda, mas como custa!

Pessoas de QI mais elevado sempre pensaram diferente do senso comum, a respeito de Lula, inclusive rivais de outros tempos. Numa das entrevistas que deus às páginas amarelas da Veja, o falecido Olavo Setúbal (ex-fundador do Banco Itaú), disse com todas as letras que “Lula é um gênio político”. Um gênio político não precisa gostar ou entender de outros assuntos: há, por exemplo, muitos grandes artistas que não gostam de política. Serão burros, por isso?

A última foi proferida por Barack Obama, na Cúpula do G-20: flagraram o presidente dos Estados Unidos dizendo ao primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, que “Esse é o cara. Eu adoro esse cara. Ele é o político mais popular da Terra.” Por boas razões, o político mais popular da terra é o próprio Obama, e além disso pode-se alegar que a circunstância era informal e descontraída. Convenhamos, porém: Obama não precisaria ter dito isso, se não enxergasse em Lula um expert, provavelmente um exemplo adequado para uma era pós-Bush. Não é bobo. Rudd, por sua vez, emendou com um comentário não menos interessante: o presidente brasileiro é “o mais popular em mais tempo de mandado”. A popularidade de Lula é realmente uma raridade, como ele mesmo. O povo gosta de Lula, que muitos acreditavam, inteiramente equivocados, ser um “comunista comedor de criancinhas”. Lula nunca foi comunista: se brincar tem até uma queda pelo liberalismo.

Mas apesar da consagração de Lula, apesar das retumbantes evidências em contrário, um monte de num-sei-o-quê insiste na burrice de Lula.  Todo mundo conhece um monte de num-sei-o-quê (eu conheço vários, todos eles ignorantes). Mas, “quem é” num-sei-o-quê, ninguém sabe. Verdade seja dita: Lula está há anos-luz dessa gente. A começar pelo cérebro.
 


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POR EM 13/04/2009 ÀS 02:27 PM

A voz do meu avô

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Meu avô era tudo de bom. Não sei se outra pessoa tenha me deixado marcas sentimentais de maior efusão e encanto. Até meus 10 anos a gente morava longe. Mas, na medida do possível ele montava em seu cavalinho e nos visitava.

Em suas visitas, assim como um rei mago, ele me brindava com os presentes mais legais do mundo: um pacote de balinha, um pião com fieira, um caniço de bambu, com linha caiçara, encastoo, chumbada e anzol. Além de um embornal cheinho de frutas tiradas de seu próprio quintal.

Pra mim ele era um deus portador do fogo da alegria. Quando vinha, a gente brincava de peteca, montava em cavalo (no dele, que a gente não tinha), pescava no riacho, imitava a cantiga dos bichos do mato, fazia caçoada, treinava travalíngua do tipo há um ninho de mafagafos com sete mafagafinhos... Aos 11 anos, quando entrei pra escola, fui morar com ele.

Quando meu avô morreu, há nove anos, escrevi um poema no calor da emoção e declamei em sua homenagem, à cabeceira do ataúde. O poema vai a seguir, com os versos esticados, em forma de prosa: “O compadre de Deus

Quando pequeno, ouvia o Zé rezador apregoar sobre as maravilhas do céu  e pensava logo no quintal do meu avô. Hoje sei que não estava enganado. O quintal do meu avô deve ser mesmo uma pequena sucursal ou, digamos, uma amostra-grátis do céu. Pelo menos para os filhos, os netos, os amigos, os compadres, os afilhados, os pobres e os pássaros que, em suaves sombras, se fartam de viçosos frutos. E não era só o quintal. Por onde passou, meu avô estendeu sua aura de suavidade seu sorriso colhedor, sua conversa fácil e parceira, sua liderança sem alarde ou ardil.

Num tempo em que o revólver, a bravata e a força bruta integravam qualquer certo de contas, ele conseguiu definir todas as suas divisas de terra confusas  com sua fala honesta e mansa.

Num tempo em que os pais costumavam espancar os filhos a título de educação ele educou a todos, e não foram poucos, com amor, exemplo e temperança. Jamais alterou a voz para impor sua sabedoria. Soube compreender as reviravoltas que o moderno mundo deu sem se desesperar ou ficar descrente.  Ó meu velho avô, agora que você foi cumprir sua agenda com Deus, dê-Lhe um abraço por nós. 

Fico imaginando como foi a algazarra no céu quando você chegou cavalgando sua nuvem. Os anjos devem ter se acotovelado nas balaustradas celestiais e se esmerado em mesuras. Ao abrir o portão, são Pedro escancarou um sorriso de uma a outra orelha. Deus apeou do trono, esqueceu do cetro e da pose divina e veio lhe receber de braços abertos. Tenho certeza que Deus também é seu compadre.”

Esta semana fui brindado com um presente tão bom quanto aqueles de meu avô. É que meu primo-avô (nosso código civil não contempla tal parentesco), o médico Paulo de Tarso Lira Gouveia me deu de presente um CD que gravou com meu avô, sobre velhas histórias da família, em seu último ano de vida. Ao ouvir a voz amiga que embalou meus sonhos de infância e me amparou até a maturidade, não pude resistir. Chorei de emoção, uma emoção antiga e úmida, ainda pueril, que eu pensava já haver secado em mim.
 


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POR EM 13/04/2009 ÀS 02:17 PM

Caçadores noturnos

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Não sou especialista em sociologia ou psicologia, tampouco em antropologia, mesmo assim ouso afirmar que o prazer que sentimos na captura de um peixe é um prazer atávico. Provavelmente tenhamos herdado tal prazer de nossos ancestrais, que, ao capturarem um peixe, garantiam a subsistência por mais um dia. Quanto prazer! Arrisco mesmo supor que grande parte de nossos prazeres, talvez todos, esteja ligada à sobrevivência. O prazer da reprodução humana, por exemplo, não tem nenhum que o supere.

Tenho muitos amigos pescadores e algumas vezes já fui pescar com eles. Quinze minutos do centro, em pesque-pague com todo conforto: cadeiras de plástico, quiosques de bebidas e guarda-sóis. Chega-se à beira d’água, joga-se o anzol com isca na lagoa e espera-se. Um peixe vai passar pelo anzol, vai pensar que encontrou comida e comido acaba sendo ele. Tudo muito limpo, tudo muito certo. Alguns escolhem o tanque da tilápia, outros preferem o pacu, talvez o piau. Eis a que foram reduzidas as aventuras de nossos avós.

Onde o prazer de romper o mato à beira do rio, observar o movimento da água, sua cor, descobrir o lugar em que se abrigam os capturandos, imaginar o que vai acontecer? Onde a sensação de vitória ao fisgar alguma coisa que não se sabe o que seja, impor-lhe nossas habilidades correndo todos os riscos, mesmo o de cair na água? Não existe mais o prazer da aventura, o gosto de encontrar o inusitado para comprovar nossa rapidez de raciocínio, o acerto de nossas decisões.

Tenho um primo que, quando criança, via-nos sair para a caça. Era um tempo em que caçar passarinhos não causava remorso, um tempo em que ninguém falava em politicamente correto ou incorreto. Isso ainda não fora inventado. Menino de calça curta, a gente não costumava levar por causa dos perigos. Como esse meu primo não era levado junto, mas já se manifestava nele a vocação de caçador, exercitava sua pontaria dentro do viveiro de seu pai.

Conheço pencas de caçadores de viveiro por aí, que tiram a noite para sonhar suas aventuras. Um deles me contou que, em viagem pela Europa, jantou com a Sofia Loren e depois... bem, não sejamos indiscretos.
 


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POR EM 13/04/2009 ÀS 02:10 PM

A distribuição de conhecimento: Pearson e a estatística

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Para um pesquisador, o método científico é muito mais importante que os resultados de um trabalho. É a metodologia da pesquisa que vai decidir se aquela frase de duas linhas na conclusão (se é que no trabalho há conclusão) tem validade científica ou não. Sem uma metodologia adequada, um bom número de argumentos não ajuda em nada. Exemplos também não servem pois, como diriam os matemáticos: “exemplo não é prova”.
 
São necessárias observações honestas e um delineamento experimental adequado para dizer sim ou não para a hipótese testada. Hoje é muito trivial pensar que se queremos comparar, por exemplo, dois tipos de arroz, basta cozinhar os dois em panelas separadas com o mesmo tempo de cozimento, a mesma quantidade de sal, cebola e tempero, e depois experimentá-los, com o auxílio de outras pessoas que não devem saber qual é o tipo que estão comendo. Mas amigos, nem sempre foi assim.
 
Aliás, a trivialidade desta comparação só começou a ficar evidente há pouco tempo pros padrões científicos, algo em torno de 120 anos quando a revolução estatística se iniciou (lembremos que nosso modo de ver ciência nasceu com Galileu, isto é, 400 anos atrás).
 
Um dos mentores desta revolução estatística foi Carl Pearson (que depois mudaria a grafia do próprio nome para Karl, em homenagem a Karl Marx). Aluno brilhante no King’s College de Cambridg, lutou tenazmente contra as aulas de religião que eram obrigatórias desde a fundação da Instituição em 1441. Ganhou com a ajuda do pai, um advogado de primeiro time. Também conseguiu dispensa das orações da capela, e irritou todo mundo quando ia lá por livre e espontânea vontade.
 
Foi para a Alemanha estudar física e voltou ao King’s College, socialista, darwinista e erudito em Lutero (!). Em suma, um perturbador da ordem e tradição inglesas, que ainda por cima em 1880 recebeu uma bolsa do King’s College que lhe rendeu total liberdade para fazer o que bem entendesse antes de assumir a cátedra Goldsmid de matemática aplicada e mecânica no University College de Londres.  
 
Tendo já várias obras publicadas sobre assuntos diversos como: um romance, a teoria da elasticidade, o bom senso das ciências exatas, e pasmem amigos, socialismo e sexo, em 1892 Pearson lançou a primeira edição de um livro muitíssimo influente na época: “A gramática da ciência”, onde escreveu: “a unidade de toda ciência consiste apenas em seu método, não em seu material...não são os fatos que fazem a ciência, mas o método segundo o qual eles são abordados [e que exigem]: precisa e cuidadosa explicação dos fatos, observação de sua correlação e seqüência, que levará a descoberta de leis científicas que são atingidas também, com imaginação criadora e autocrítica”.
 
Neste meio tempo, foi procurado pelo zoólogo Weldon, que queria aplicar os métodos descritos em “Natureza da Hereditariedade” de Galton, para sustentar a hipótese darwiniana da evolução.
 
Aqui vale uma palavra sobre Sir Francis Galton, que era primo de Darwin, mas sempre evitado por ele. Galton havia montado um laboratório de biometria e descrito métodos de cálculos de regressão e correlação, que auxiliavam no estudo da hereditariedade pois relacionava medidas de pais com seus filhos (pais mais altos, filhos também mais altos).
 
Na verdade foi aqui que a eugenia científica nasceu porque estes pesquisadores começaram a medir as diferenças entre as “raças humanas”, e aqui também ocorreu uma grande distorção, pois o principal resultado de Pearson, mostrou que não havia diferenças significativas entre estas raças, mas os racistas, quando querem um argumento para odiar, desvirtuam até a ciência.
 
Mas o que Pearson realmente fez? Pearson foi o primeiro a entender que os então chamados problemas de medição de uma variável não eram realmente problemas, mas sim a variação inerente à natureza dos dados e que teriam uma dispersão aleatória, cujas probabilidades podem ser descritas por uma função de distribuição (a mais famosa delas é a distribuição normal, ou curva em forma de sino).
 
Pearson identificou os parâmetros (do grego ‘quase-medições’) que toda função de distribuição tem: média, desvio padrão (variação em torno da média), simetria (o grau em que as medições se acumulam apenas num dos lados da média) e curtose (o quanto as medições raras se afastam da média).
 
Segundo, David Salsburg, em seu “Uma senhora toma chá....como a estatística revolucionou a ciência no século XX” (Jorge Zahar Editor, 286p.) é neste momento que Pearson foi revolucionário, pois propôs que os fenômenos observáveis (as variáveis) fossem considerados meros reflexos aleatórios – real mesmo era a distribuição probabilística, isto é, os tentilhões de Darwin não eram objetos de investigação científica, mas sim a distribuição aleatória das variáveis medidas nestes tentilhões.
 
Pearson, substituiu Galton no laboratório biométrico em 1897 e junto com o próprio Galton e Weldon fundou uma revista científica que é prestigiada até hoje: a “Biometrika” e como seu principal editor, arrumou um desafeto: Ronald A. Fisher. Mas esta história de “Guerra de Estrelas” fica pra semana que vem.   
 

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POR EM 13/04/2009 ÀS 01:43 PM

É impossível ser feliz sozinho?

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Gosto muito daquela música do Tim Maia que diz: “De jeito maneira / Não quero dinheiro / Quero amor sincero / Isto é o que eu espero / Grito ao mundo inteiro / Não quero dinheiro / Eu só quero amar”. É uma canção que deveria ser ensinada nas escolas antes que as crianças tomassem gosto pelo consumismo vazio e desenfreado. Um canto a ser entoado no pátio do colégio, junto com o Hino da Bandeira, e no conteúdo das aulas de Religião, que mais entediam do que educam a meninada.

Jarbinhas, por exemplo, um antigo colega de escola, retirava da mochila e distribuía revistinhas de sexo explícito que a gente encartava dentro dos livros didáticos de Religião na sala de aula do Colégio Marista. A mesma escola em que uma professora freira, cuidadosa nos rodeios e metáforas sobre flores, pistilos, gametas e animais da fazenda, tentava ensinar Educação Sexual para uma turma de garotos que já se debulhavam em punhetas e bolinações com as empregadas domésticas. Não seria mais eficaz ter ido direto ao assunto, Irmã?! 

Quando criança, fiz um pacto com o meu avô. Na mórbida, porém, ingênua combinação, depois de morto, ele deixaria de herança para mim o relógio de bolso e o revólver 38 com cabo de madrepérola, presentes recebidos de seu pai, meu bisavô.

Os anos se passaram e a vida tratou de me transformar num adulto pragmático atrelado à dedicação unilateral ao trabalho e ao capitalismo. É claro: a corrida insensata pelo chamado “pé-de-meia” me distanciou de casa, da roça e dos parentes.

Um dia, enquanto assistíamos à chuva que despejava sobre o pasto e os bois paralisados, meu avô irrompeu o silêncio da tarde colocando no meu colo uma pequena urna de madeira. “Abre aí, Eberth”. Obediente, eu abri.

Deparei com o relógio de prata e o revólver de empunhadura perolada. Enquanto eu apreciava a relíquia, ele recomendou que dela eu me apossasse, pois estava demorando demais-da-conta pra ele morrer. Que eu fizesse uso cônscio do presente, tomasse muito cuidado com a arma de fogo e a escondesse em cima do armário, fora do alcance das crianças. Tanto assim que me entregava o revólver plenamente desprovido de munição.

Segurei com desproporcional zelo os badulaques. Catei o relógio que, de tão antigo, já não marcava mais as horas. Era uma peça rara, bonita e misteriosa. O revólver, apesar do cano lascado, fora usado poucas vezes para espantar bichos do mato e liquidar animais peçonhentos ou perigosos como a onça e o sucuri. Uma arma que jamais ferira um homem. Portanto, instrumento de nobre valia.
  
 Estiou e a passarinhada começou a revoar, pousando no cercado velho. Meu avô se parecia com um daqueles postes de aroeira. Bebemos outros goles de pinga de engenho destilada ali mesmo naquelas glebas. Enrolou e acendeu mais um cigarro de palha. Eu, que nunca fumara senão para espantar muriçocas na beira do córrego, apreciava o vício de meu avô, cada vez mais apaixonado por ele. Que serventia teriam um relógio travado e um revólver sem balas, eu não fazia idéia. Quem sabe, daria um tempo às coisas. Ou mataria os meus inimigos íntimos imaginários, sei lá. Com o tempo, a fantasia vai definhando dentro da gente. Foi um reencontro feliz naquela tarde de sábado.

Aliás, muitas vezes, nos pegamos perguntando o que é felicidade, sentimento deveras explorado por filósofos, pensadores e poetas de todas as nacionalidades. Nos dias de hoje, um jargão parece adquirir relevância ímpar: dinheiro não traz felicidade.

Durante a semana, um famoso futebolista brasileiro convocou a imprensa no Rio de Janeiro para anunciar que estava abandonando o ofício de atleta profissional por tempo indeterminado. Apesar de jovem, rico e bem sucedido, sentia-se infeliz e jogar bola perdera o significado. Mesmo bajulado pelos torcedores e pela imprensa esportiva, o sujeito, originário de uma das favelas mais violentas do Rio, confessava um dilema ainda indecifrável.

Tenho um parente que partiu do Brasil e foi tentar se encontrar num país longínquo do hemisfério norte, longe da família e dos raros amigos, apesar do emprego estável que detinha numa Universidade Federal, do bom salário e da carreira promissora como docente. Ninguém entendeu nada (falava-se em depressão), mas, assim mesmo, esta pessoa zarpou para garimpar felicidade noutras plagas. Fugindo de si mesmo?! Com saudades, eu lamento, mas não julgo.

Certa vez, ouvi uma confidência desconcertante de um político veterano, patriarca de uma família poderosa em Goiás. O homem segredou com amargura que trocaria toda a sua fortuna, suas empresas e bens mais valiosos, pela saúde completa dos dois filhos, ambos acometidos por uma doença degenerativa rara que definha toda a musculatura do organismo fazendo com que as suas vítimas atrofiem lentamente até a morte. Longe de ser feliz, o pai angustiado aguarda por uma descoberta da ciência ou por um milagre, o que vier primeiro.
  
Enfim, parece certo que a felicidade emana das coisas simples do viver, como estar próximo, abraçar alguém que se gosta, comer uma comidinha gostosa, ouvir música ou assistir à chuva que cai na roça. Depende do momento. Do estado de espírito. Do contexto em que se vive. O dinheiro pode até facilitar as coisas, pavimentando o caminho pra gente alcançar a tal felicidade. Os exemplos citados acima sugerem que ele não é o ingrediente principal. Priorizar os patrimônios materiais não faz tanto sentido. Assim como este singelo tesouro que carrego comigo: um relógio que não marca o tempo; uma arma que não mata nem mesmo a saudade que eu trago no peito.

*O título da crônica foi pinçado da letra de “Wave” , composição de João Gillberto.
 


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POR EM 13/04/2009 ÀS 12:58 PM

Cretinos

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Era tão pomposa essa palavra, tão sonora e perfeita pra nomear os próprios. Caiu de moda, sei lá porque. Quem sabe esse artigo nos ajude a reavaliá-la e reaprender a identificar seus destinatários no mundo. São muito antigos os cretinos, alguns arqueólogos os situam em idades pra lá de mezozóicas e dizem que aumentam aceleradamente. Acredito.

Todos são praticamente obrigados a conviver com cretinos nas várias áreas das atividades humanas, eles estão em toda parte porque cretinos sempre  foram, ainda segundo os arqueólogos, se não a maioria, os mais visíveis nas grandes sociedades. E procriam muito: ah, cretinos são férteis sob esse ponto de vista.

Consigo conviver e me divertir com eles como, aliás, quase todo mundo consegue, mas o melhor é evitá-los porque cretinos passam dos limites freqüentemente, não percebem sua cretinice, gostam de impor sua presença. Acham-se geniais e insubstituíveis quase sempre.

Pode ser que algo leve o leitor a imaginar que cretinos são pessoas de pouca cultura, psicologia simplista, desconfiômetro movido a pilha descartável – mas, não é assim, muito pelo contrário: cretinos existem com muito mais visibilidade nas áreas de pensamento classe média alta como a cultural, a política, a empresarial, pode observar.

Conviver com eles é fácil quando se concorda ou se elogia, caso contrário tornam-se chatos e previsíveis como abóboras. Minta pra eles, adoram. Dizendo o que se pensa deles o normal seria angariar entre a categoria inimigos que dariam pra encher um estádio, mas cretinos não se ofendem facilmente porque nunca vestem a carapuça e não são bons “percebedores” da realidade, estão quase sempre muito ocupados em perceber a si mesmos, como os pavões abrem seu leque de penas numa auto-admiração compulsória ou como a águia que se embriaga com seu próprio vôo.

Gosto, até me delicio em tê-los como inimigos porque, como ensinou Reich, inimigos é que nos fazem perceber o oposto, quer dizer, o que é ter amigos. Provocar cretinos surte o mesmo gostoso efeito que surte o assobio para os perus – não tem erro, sempre reagem, pra satisfação de quem os provoca. São muito divertidos nesse aspecto. Tô sempre disposto a provocá-los, mas cretinos, infelizmente, não são bons de briga, são fracos, medrosos, covardes e, portanto, adversários medíocres. Brigar com eles é muito sem graça.

Você, leitor, deve conhecer dezenas deles: adoram escrever cartas idiotas e ofensivas pras seções de cartas de leitores de jornais e revistas; costumam escrever poemas paupérrimos que guardam nas gavetas e que um dia despejam na cabeça dos incautos ou enviam pra publicações do gênero; os livros que teimam em escrever são normaizinhos e não acrescentam nada à literatura de lugar nenhum – mas são milhares em comparação com os bons livros; quando ouvem ou lêem qualquer coisa que lhes parece verdadeira ficam indignados e se defendem imediatamente porque a verdade lhes parece deboche ou irrealidade insuportável, coitados. Seus egos têm fermento.

Cretinos falam preferencialmente por metáforas ou alguns códigos que eles consideram inteligentíssimos, mas que não passam de tolices infantilóides e só são compreendidos por outros cretinos. O que eles escrevem são frases ou sentenças perfeitamente identificáveis por essas metáforas que consideram o supra-sumo da inteligência avançada.

Deve ter sido um cretino que inventou as metáforas – metafóricos são aqueles tipos de pessoas que nunca dizem a palavra certa e clara na cara de quem desejam alcançar. São sinuosos os cretinos – nem retas nem círculos... sinuosidades.  

Aqui vai outra boa dica pra identificá-los: quase tudo o que cretinos fazem é colonialismo, isto é, se “baseia” em alguma coisa ou em alguém ou em alguma música ou algum livro ou alguma idéia alheia. Eles amam o que “se baseia” em algo porque nunca têm idéias próprias.

Você conhece alguma coisa mais cretina e sem imaginação que covers? E rocks feito por aquelas figuras de preto e tachinhas metálicas oriundas dos 70/80, os anos deprês nos EUA? Cópias imperfeitas e superficiais – cretinas.

Na política os cretinos se lançam com genuína ferocidade, aí incluída a perversidade e o despotismo acrescidos dessa coisa sórdida e moderníssima que apelidamos de “lei de Gérson” onde o se dar bem anula quase todos os outros bons conteúdos da política como a generosidade e o desejo de ajudar ao próximo, freqüentemente relegados a terceiro plano. 

Também, como já disse, estão aos bandos na área da cultura apesar de acharem bem lá no fundo que cultura é coisa de veado, de velhinho burocrata, de funcionário público com prisão de ventre, de homens sem sensualidade, mulheres frígidas, profissionais liberais metidos a bestas. Mas como cretinos tem baixa auto-estima eles adoram se inserir na área da cultura pra se sentirem “in”, sabe como é?

Exatamente isso faz deles cretinos típicos, essa camuflagem de pensamentos e a falsa crença em qualquer coisa superior do espírito. Vivem no rame-rame. Mesmo lendo livros de Joyce ou Dostoiévski, vivem mesmo é no rame-rame.

Pronto: muitas pistas pra você, leitor, identificar cretinos por aí. Afinal, é uma palavra sonora, que enche a boca, precisa ser recuperada.  Exercite-se: comece agora mesmo a procurar nesta revista pra ver se encontra algum cretino e se tiver certeza que eu sou um deles, não se preocupe, vou fingir que não sou e não sofro com isso.

Como faz muito bem, aliás, um cretino autêntico.
 


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POR EM 06/04/2009 ÀS 05:49 PM

Aquilo era o mar

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Nascido no interior; era a primeira vez que eu via o porto. Andava aí por meus quatro anos, alguém, provavelmente um de meus irmãos mais velhos, puxava-me pela mão. Na minha lembrança eu era muito pequeno e imagino que tenha sido pequena também a emoção sentida no momento de olhar lá pra baixo e ver o mar, que os demais apontavam com alegria. Enfim, era a emoção possível em uma criança daquela idade, uma emoção que mais parecia um susto: aquela água movendo-se. 

Estávamos em cima de uma plataforma de cimento, uma plataforma muito alta, até hoje me parece que era altíssima, o que me enchia de terror. Acredito que fosse bem mais alta do que eu. A água, àquela hora do entardecer, vinha mansa até o pé de cimento da plataforma, correndo por cima de uma areia preta, misturada com todo tipo de dejetos da cidade. E a espuma, que navegava no dorso das ondas, não era branca como a neve. A impressão que me causou, logo depois do primeiro entusiasmo, foi horrível. Quatro anos de idade não é uma época da vida apropriada para sofrerem-se decepções, e lá estava o menino, olhando o fundo daquele mar ali, um mar vizinho, inteiramente decepcionado com aquele lodo asqueroso e com o cheiro intenso, talvez repugnante. 

A cidade de Rio Grande, onde se deu esse encontro, pode ser a cidade mais úmida do Brasil, mas não é mais suja do que qualquer outra cidade portuária, e estávamos no porto novo, por pressuposto um porto limpo. Bem perto de onde estávamos, um prédio escuro de sete andares vinha aos poucos sendo tragado pelas areias da praia. Mas isso fiquei sabendo depois, bem depois, quando já sabia o que eram decepções e as plataformas já não me pareciam tão altas assim.

Não sei como se deu o milagre, não me lembro. Nem me lembro do que era, mas deve ter sido um milagre, pois, de repente, surgiu daquele lodo alguma coisa de cor muito viva. Uma forma que brilhava lá no fundo. Minha memória inventa um azul intenso, com listras amarelas e vermelhas. O que era? Não há como saber. Podia ser um peixe ou apenas uma latinha de pomada ou de salsicha. Do que me lembro, e com que intensidade!, é do meu deslumbramento. Aquela coisa, aquele ser, me encantou. Nada de prático, nenhuma idéia de utilidade ou de significação me restou. O que ficou grudado em meus neurônios encarregados por minha memória, o que nunca mais vou esquecer, é a emoção que então experimentei. Essa vou carregar comigo enquanto viver.   
 


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