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POR EM 04/07/2009 ÀS 10:09 AM

Não sou Flaubert nem Haussmann

publicado em

O jornalista Enio Vieira disse para o editor da "Revista Bula", Carlos Willian, que sou responsável pela desconstrução de um artigo de sua autoria, sob o pseudônimo de Haussmann.

Enio está enganado, pois nem mesmo li o livro que ele e Haussmann estão discutindo. Ele me deu de presente um livro de Paul Johnson sobre a história dos Estados Unidos, não o do autor em questão, que, insisto, não li. Não sou responsável pela desconstrução, assim como não são Eduardo Horácio e Irapuan Costa Junior. Haussmann é, na verdade, um professor universitário tão gabaritado quanto Enio. Com mestrado e doutorado. Seu conhecimento de literatura é, seguramente, maior do que o meu e de Enio juntos.

Posso não concordar com o que Enio escreve, mas não escrevo na seção de comentários da Bula, nem com meu próprio nome, nem com pseudônimos. Por um motivo bem simples: não tenho paciência e, como leitor infatigável (três a quatro livros por semana), não tenho tempo. Medo de polêmica claro que não é, pois quem escreve a coluna Imprensa, e por isso já foi vítima de achincalhe no "Diário da Manhã" (Suely Arantes foi usada por um jornalista metido a bonzinho e mais sujo do que latrina), precisa saber das coisas e ter coragem e não ter rabo sujo ou preso.

Enio e Haussmann são dois talentos notáveis e, apesar da refrega, é provável que tenham mais em comum do que pensam. Enio é de esquerda, mas Haussmann não é de direita. Não tem militância alguma, nem na faculdade. No máximo, é um livre atirador que sabe tudo ou quase de literatura inglesa, irlandesa, francesa, italiana e portuguesa (nem estou citando a brasileira). Além de ser cultor dos clássicos. Sua tese de doutorado foi escrita em inglês. Portanto, não é monoglota.

Enio trabalhou comigo no Jornal Opção, acompanhei seus primeiros passos no jornalismo, antes de ele passar pelo curso da Editora Abril e, depois, trabalhar em "O Globo" e em outras publicações. Fez mestrado na UnB, na área de literatura, o que lhe possibilitou, ainda mais, organizar o pensamento. Enio une o jornalista competente ao intelectual do primeiro time, que trafega bem nas áreas de literatura, política e economia. E, num mercado onde tantos se corrompem, é um profissional íntegro, que não se contamina pelos ambientes, o que resulta de sua sólida formação intelectual e, sobretudo, moral.

Como todo intelectual, Enio tem suas implicâncias (divirto-me e aprendo com elas). É crítico de Mario Vargas Llosa (tem razão em muito do que diagnostica na prosa recente do escritor peruano, mas a implicância maior talvez seja política, porque Llosa é liberal e, portanto, crítico da esquerda), Harold Bloom (implica com o fato de que os provincianos têm certo apreço pelo crítico literário americano. E com certa razão, pois Bloom virou uma espécie de vade mecum. O que aprecio em Bloom é sua paixão pela literatura, não pela teoria literária. Bloom lê os livros que comenta, sempre atentamente, e deixa a teoria literária para os acadêmicos. O que aprecio em Bloom, repito, é a leitura direta, não a leitura meramente orientada, bibliográfica, no mais das vezes, ideologizada) e Edmund Wilson (ótimo crítico, prosador de segunda). Enio talvez não concorde, mas "O Castelo de Axel", de Wilson, é um livro brilhantíssimo, escrito em cima da hora, quando "Em Busca do Tempo Perdido", de Proust, e "Ulysses", de Joyce, ainda estavam quentinhos. Escrever sobre Proust e Joyce, 87 anos depois da publicação de seus livros seminais, com uma ampla fortuna crítica à disposição, fica muito mais fácil. Mas, entre as décadas de 1920 e 1930, não era tão fácil assim. Era preciso contar apenas com o próprio talento para abrir fronteiras de leitura. Quando Charles Dickens havia se tornado uma espécie de José Mauro de Vasconcellos, autor de "Meu Pé de Laranja Lima", Wilson escreveu revalorizando-o — devolvendo-lhe o status de grande escritor, de Balzac dos pobres, por assim dizer. O mesmo fez com Hemingway. Assim como mostrou a importância de Abraham Lincoln para a literatura enxuta e não palavrosa dos Estados Unidos que, depois de passar por Mark Twain, desaguou em Hemingway. Tenho apreço por outros críticos, como Erich Auerbach, George Steiner, Frank Kermode ("Um Apetite Pela Poesia" é uma pequena obra-prima), Northrop Frye, Dolf Oehler (fino analista de Heine e, entre outros, de Herzen, o escritor russo inédito no Brasil e muito bem analisado por Isaiah Berlin, em “Pensadores Russos”), Vladimir Nabokov (finíssimo analista, infelizmente pouco divulgado no Brasil como crítico), Ezra Pound (sempre surpreendente, e às vezes superestimado) e T. S. Eliot (um crítico seguro e sereno). Não interpreto literatura e crítica literária de modo linear, ao modo evolutivo: quem vem depois não é necessariamente superior aos anteriores. O que seria do autor clássico se aceitarmos que quem vem depois é melhor?

Quando não está zangado comigo, por motivos injustos, Enio me liga e diz: "Você lê cada bomba". Tem razão. Por conta de minha curiosidade excessiva e insaciável, leio tudo, ou quase, desde Mario Puzo, um autor de segunda, ao "Ulisses", de Joyce (meu primeiro texto sobre Philip Roth data de 1987). Quando percebe que estou por demais envolvido com o baixo clero da literatura, Enio manda um e-mail e sugere alguma leitura, como "Amada", o belo romance de Toni Morrison. É uma espécie de "Cem Anos de Solidão" dos Estados Unidos. Depois de "Amada", li "Peróla Negra" (Editora Best Seller), "Jazz" (Editora Best Seller), o brilhante "A Canção de Solomon" (Editora Best Seller), "O Olho Mais Azul" (Companhia das Letras), "Amor" (Companhia das Letras) e "Paraíso" (Companhia das Letras). A dica de Enio é ouro puro e é possível verificar que a crítica de Bloom simplifica a obra de Morrison. Bloom percebe que Morrison é uma escritora de alto nível, mas sugere que seu feminismo, sua posição política, trava suas qualidades literárias. Não é justo. Sim, é possível perceber que a "política" de Morrison quase trava sua literatura, mas seu talento é tão poderoso, sua habilidade narrativa e sua percepção tão aguçadas que acabam por salvá-la. Isaiah Berlin diz algo parecido de Dostoiévski. Mas só é possível chegar a esta conclusão se se lê os livros, como fiz, obstinada e com prazer. A leitura sem prazer, como resultado de mera exigência acadêmica, acaba sendo empobrecedora. Fujo disso como o diabo foge da cruz.

Espero que tenha esclarecido a questão da autoria e que Enio deixe o rancor de lado e entenda que nós, que escrevemos tanto, devemos permitir que os leitores, críticos ou não, tenham suas opiniões sobre os nossos textos, que, publicados, não são mais nossos e, de algum modo, se tornam indefensáveis. Falo sobretudo de textos sobre literatura.
 


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POR EM 04/07/2009 ÀS 10:09 AM

A pátria patropi

publicado em

Mazaropi ou Glauber Rocha? O primeiro fez o papel do caipira paulista, falso ingênuo e esperto analfabeto que sabia compreender a desfaçatez do coronel, bem como a esperteza do político. O segundo fez cinema ideológico, politizado até os cabelos da película, colocando o cangaceiro como um herói popular, um vingador do Zé-povinho invisível dos sertões miseráveis e ressequidos do Brasil dos grotões. Embora Glauber, o gênio baiano, seja aclamado como gênio do cinema, e certamente o foi, em clássicos como “Terra em Transe”, ou em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, Mazaropi é o caso brasileiro de absoluto sucesso de público.

Tanto assim foi que ele chegou a ser diretor e produtor, além de ator de seus filmes, que levavam multidões as salas de exibição. Nem Xuxa, com todo o seu aparato publicitário, levou tanta gente a ver seus filmes quanto levou Mazaropi, na representação do caipira paulista, de andar grotesco, modos rudes e tacanhos, nada gentil com as mulheres, e sempre esperto e matreiro, em sua falsa rusticidade. Se tanta gente acorria a ver seus filmes é porque as populações urbanas do Brasil, recém-chegadas do campo, identificavam-se com as situações colocadas.

Interessante é notar que, tendo realizado seus filmes em época de intensa politização da arte, havendo quase uma obrigação de ser ou parecer de esquerda, jamais sua estética pendeu para este lado. Até porque não só o personagem, mas seu autor, era conservadores do ponto de vista político, embora propensos a criticar o coronelismo de nossas práticas de mandonismo político exercido em currais eleitorais, o povo sendo manietado e tangido como gado. Exatamente como hoje ainda se faz, não com surras, botinas e castigos, mas com salário família e cestas básicas, mantendo no curral do conformismo e da armadilha da dependência o exército eleitoral de reserva.

Como nesta vida tudo passa, passou o cinema novo, com sua estética esquerdizante, uma tendência obrigatória naqueles tempos, ao ponto de um cineasta de talento, como Walter Hugo Khoury, autor de um filme importante, como “Cidade Vazia”, ser não só esnobado, mas discriminado ou sabotado. Glauber Rocha continua a ser objeto de culto, venerado e idolatrado em círculos fechados da intelectualidade livresca, mas pouco visto, e praticamente desconhecido do povão que ele tentou retratar e defender, através de seu cinema “revolucionário”, tanto na forma como no conteúdo.

Mazaropi também passou, pois o modelo em que se baseou seu lendário personagem – o caboclo ingênuo e tosco, dos grotões do Brasil – há muito deixou de existir. Hoje ele vê os canais abertos de televisão, não perde uma novela, ou as versões do Big Brother, sendo obrigado a engolir a poesia paupérrima (de louvor às drogas e à bandidagem) de horrível hip hop. Os que não foram expulsos do campo pela mecanização da agricultura, agregados a pequenos e médios proprietários rurais, não dormem direito, morrendo de medo de serem atacados pelas hordas organizadas de baderneiros auto-apelidados de sem terra. De Mazaropi e Glauber Rocha passamos do estado de sítio para o estado de fazenda. O que já foi uma evolução considerável, ao menos no tamanho da calamidade.
 


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POR EM 04/07/2009 ÀS 10:09 AM

O marido da mulher-coisa

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Tavares passou dos trinta solteirão da silva xavier. Alcançou os quarenta e dos quarenta já ia passando, completamente insensível aos apelos do casamento. Não que fosse gay ou frio, tão pouco auto-suficiente, daqueles que se contentam com os orifícios artificiosos de mão, no sexo artesanal.

Ocorre que Tavares era detentor de uma fobia incontornável em relação à intimidade. Dormir na mesma cama respirando os vapores recíprocos, fazer duetos de tosse e outros sons escrotos, confundir os dejetos no mesmo pinico, escovas se abraçando no mesmo porta-trecos... essas coisas lhe causavam gastura.

Sem contar que pelava de medo de ter que enfrentar um diálogo e isso levasse a parceira ao fatal convite: Bem, vamos discutir a relação?! Não. Tavares jamais cairia numa armadilha dessas. Para suprir sua necessidade de fêmeas, ele as pegava nos bordéis, nos inferninhos, nas baladas. Com o cuidado de não repetir para não travar intimidades. Sexo só com estranhas.

Agora por último andou lendo essas revistas de psicologia vulgar e descobriu que existe um tipo de mulher que lhe despertou grande interesse: a chamada mulher-objeto ou mulher-coisa.

Em suas rotineiras garimpagens de fêmeas descobriu uma baixinha, de nome Leylane, que se enquadrava perfeitamente no que ele imaginava ser o perfil de mulher-coisa.

Com ela travou um relacionamento distancioso, artificial, sem nunca deixar que ela arrombasse os arames de seus feudos pudorentos. Entraram num jogo como se estivessem num túnel com um tigre correndo atrás: não havia outra opção que não fosse sair do outro lado. E sair do outro lado implicava cumprir os rituais do que mais lhe causava urticária: casamento.

Cumprindo as regras do jogo, Tavares desposou Leylane. Mas era público e notório que Leylane era uma típica mulher-coisa. Todo mundo sabia. Mas todo mundo mesmo. Inclusive o Estado, em suas ramificações burocráticas.

Depois da nupcial cerimônia, saíram numa viagem errática de lua-de-mel; o homem refratário e sua mulher-coisa.

Foi então que Tavares percebeu que a burocracia é um negócio mais pernicioso que um relacionamento íntimo. Como levava uma mulher-coisa, teve problema logo no posto do Ibama. Ali foi multado porque havia pegado uma mulher que não atingira ainda (e não iria atingir nunca) as medidas mínimas exigidas para a espécie.

Algumas dezenas de quilômetros depois foi novamente multado numa blitz do Inmetro, porque a coisa que levava não obedecia aos padrões métricos para aquele tipo de objeto.

Ao fim do dia, já cansados, suarentos e mal-cheirosos, Tavares foi interceptado numa barreira da Vigilância Sanitária. Onde não só foi multado, como teve sua mulher-coisa apreendida, sob a alegação de “impróprio para o consumo”. 


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POR EM 04/07/2009 ÀS 10:08 AM

Também escrevi sobre Michael Jackson

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Michael Jackson foi um artista popular fenomenal. Quando eu soube da sua morte, também fiquei triste, com aquela melancoliazinha de quem perde um amigo. Nas minhas contas, contudo, ele zumbizou na condição lastimável de morto-vivo (tal e qual em “Thriller”) durante, pelo menos, uns quinze anos. Foi quando acreditou que era deus e começou a se auto-mutilar, física e psiquicamente, com a anuência e colaboração dos amigos, parentes e profissionais médicos, todos fissurados na sua fortuna. Será que alguém diz verdades nos bastidores do “show biz?!
 
Não sou especialista e nem crítico musical, mas, como imitei bastante os passinhos de “moonwalker” nos anos 80 (naqueles tempos tive elasticidade nos músculos), julgo-me no direito de lucubrar a respeito. No meu ingênuo raciocínio de cidadão comum apreciador de música, tento compreender como é factível que pessoas tão próximas a este polêmico artista se eximiram de resgatá-lo para a vida real. Entregue ao ostracismo, ao aparente esgotamento de sua capacidade criativa e, provavelmente, ao efeito danoso dos analgésicos opióides e dos psicotrópicos, conforme se especula, o cantor degringolou no cenário musical. Ensaiava um retorno triunfante na Inglaterra, com a realização de cinqüenta shows, mas um provável acidente medicamentoso no percurso abortou o projeto de ressurreição do ídolo.
 
Ser uma figura célebre e rica parece mesmo assustador e daria um roteiro e tanto para um vídeo-clipe de suspense (como em “Thriller”, de novo). Tem-se todos os atos vigiados, por onde quer que se vá. É pavoroso que um ser humano fique atado à própria fama, perdendo as suas referências mais simplórias, duvidando das relações com as pessoas do seu convívio, desconhecendo quando provém o afeto desinteressado ou quando prevalece apenas a mais escabrosa relação de interesses. Sobreviver na fragilidade de um mundo particular tão falso não deve ser tarefa fácil.
 
A morte precoce do “rei do pop” suscitou em mim uma reflexão mais abrangente, do ponto de vista musical. O que, realmente inovador, há nas músicas brasileira e internacional? Quem está se esquivando das reinvenções ultrajantes e fazendo história? Quais são as “revelações” a apresentarem trabalhos relevantes que valham a pena ser ouvidos?
 
Fica aquela forte sensação que tudo parece tão igual e que as novidades são repetitivas à exaustão. Será resultado da velocidade da comunicação em nossos dias? Por exemplo: na internet, mídia mais acessada no planeta, encontra-se de tudo em termos musicais, desde os novatos incógnitos vendendo suas almas ao diabo para serem reconhecidos, até os artistas veteranos (alguns deles já mitigados pela artrose e Alzheimer) divulgando os seus “novos trabalhos”. Nem mesmo a decepção é novidade.
 
Percebo, então, um fenômeno mais ou menos comum entre os viventes da minha geração, homens e mulheres além dos quarenta anos de idade: grande parte busca refúgio e alento em CDs e discos de vinil antigos em busca de satisfação. Quando a coisa aperta, lá estamos nós escutando mais da mesma coisa: Elvis, Beatles, Stones, Creedence, Pink Floyd, Bee Gees, Clapton, Chico, Caetano, Miltom, Gil, Djavan, Bossa Nova, enfim, o bom e velho som remanescente dos anos cinqüenta até o final da década de oitenta (conta fechada a muito custo...).
 
Fico pensando quando e se acontecerá uma virada, uma revolução musical, um novo ritmo, uma nova batida, um artista com idéias criativas. O cenário musical parece esgotado e chato. Chatice por chatice, prefiro ouvir as coisas antigas. Neste espólio, ao menos se encontram letras inteligentes e harmonias muito bem elaboradas.
 
Esta sensação de tédio e falta de perspectiva me aflige, mas não ao ponto de impelir ao consumo de porcarias que a mídia oferece. Talvez, o fenômeno seja sintoma de uma era onde a velocidade da comunicação, a superficialidade, a banalização e a falta de conteúdo são atributos de um mercado com consumidores nada exigentes no que tange à qualidade.
 
É provável que muitos leitores me detonem afirmando que eu estou por fora e que tem sim muita coisa boa rolando aí no mercado, principalmente no “cenário underground”... Talvez este meu sentimento seja apenas implicância de um quarentão desatualizado, ou puro preconceito mesmo. No caótico panorama musical que se apresenta, tenho destroços seguros nos quais me agarrar. Mas o que dizer da moçada de hoje submetida a tanta música descartável de péssima qualidade? Quando eles revirarem os seus velhos arquivos musicais no computador (ou noutro tipo de mídia eletrônica do futuro), o que eles vão escolher para escutar assentados nas suas poltronas solitárias? Axé-music, sexy-funk ou canções urbanejas cantadas por duplas ordinárias?
 

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POR EM 04/07/2009 ÀS 10:08 AM

Olhaí, o Adauto

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Conheci o Adauto nem me lembro quando, mas sei que faz alguns anos. Ele foi meu aluno no terceiro ano do colegial. Ainda não tínhamos resolvido os problemas da educação mudando os nomes. Era, naquele tempo, primário, ginásio e colégio. Hoje já nem sei mais como chamam isso tudo. Quer dizer, até que sei, mas os nomes de agora são tão água morna com sal que prefiro esquecer.

Então conheci o Adauto numa sala de aula. Ele não era muito diferente dos seus colegas a não ser pelo fato de que usava piercing na asa da narina esquerda, tinha uma tatuagem colorida naquele músculo que desce do ombro para braço, meu deus, no ginásio eu sabia o nome de todos esses músculos! E os ossos, não me escapava um só, com o nome e a posição. Pois é, mas era assim o Adauto. Um jovem handsome. O inglês tem dessas coisas: mulher pode ser pretty, mas homem não. Nós por aqui costumávamos usar, quando se tratava de alguém do sexo masculino, uma locução perifrástica: um jovem bem apessoado.

O Adauto era alegre e extrovertido, namorador, muito bem humorado. Comecei a notar o Adauto porque toda aula ele pedia para contar a última. E ríamos de suas piadas, que geralmente eram engraçadas. Em seguida, depois de tê-lo notado por causa das graças que ele fazia, descobri que o Adauto era um quadrúpede. Simpático, mas quadrúpede. Pra somar dois mais dois, contava nos dedos. Ah, sim, e quando começaram as provas, que ele tinha de assinar, percebi que às vezes ele escrevia Adauto, mas quase sempre grafava o próprio nome como Adalto. Um dia, curioso, quis saber a razão. Sabe, psor (era assim que ele me chamava) certeza, certeza mesmo do nome certo eu não tenho. Então tanto faz.

Aqui no Brasil vivemos tropicaliamente a síndrome do tanto faz. Que deus nos proteja.

Alguns tempos depois, soube que o Adauto, ou Adalto, já que tanto faz, estava envolvido em negócios madeireiros na região amazônica. Me garantiram que tinha enriquecido e se tornara um grande empresário. Não duvido. O mundo é assim mesmo. Não que eu tenha feito opção consciente pela pobreza, mas não quis investir minha vida em acumular fortuna. Há quem o faça.

Pois bem, qual vocês acham que tenha sido o destino do Adauto? Ou tanto faz. Mordido por uma cascavel? Esmagado por uma sucuri? Assassinado com um tiro na testa ou com uma flecha no peito? Suposições erradas, todas elas. Ontem abri o jornal, coisa que não faço com muita frequência, porque os fatos pouco me interessam e as reflexões morrem de pura obviedade, e o que leio lá? O Adauto, ou Adalto, tanto faz, membro de uma Comissão de nossa Câmara Federal. E para dizer toda a verdade, não sou profeta, mas alguma coisa já me dizia, nos tempos em que ele fora meu aluno, que ele acabava assim mesmo. A continuar deste jeito, ainda chega a Presidente.  
 


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POR EM 27/06/2009 ÀS 06:13 PM

Uma nova doença

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Quem primeiro falou sobre Aids em Goiás, que eu me lembre, foi o escritor e dentista Carmo Bernardes, numa crônica no Diário da Manhã, no final de 1980 ou início de 1981. O nome ainda nem tinha sido chancelado e ele falava de uma doença esquisita, detectada na Europa,  que acabava com a imunidade das pessoas e estava relacionada com o fuque-fuque, a prevaricação, o rala e rola. Anotei isso porque li em primeira mão a crônica do Carmo, pois era revisor de textos, e também porque fui feito emissário de um conterrâneo de nome Lord Inário Bibelô, como a gente o conhecia lá em Saracutópolis, e que me contou sobre uma nova doença venérea que desgraçadamente propagou na região.

Na cidade estava surgindo uma legião de homens esquecidos, totalmente sem memória, e que estudos feitos na botica, que também era boteco, de Temisse Tocriste, relacionavam o Alzheimer caboclo com a fornicação com determinadas meninas do Cabaré de Ana Preta. Ficou constatado, por exemplo, que três delas, Aninha Tô Que Tô, Xandu e Margarida Bem Bem, estavam transmitindo a doença do esquecimento, muito pior que Aids, pois os homens saíam de lá totalmente perdidos e sem achar o rumo de casa.

Os que as famílias pegavam na rua, tudo bem, eram amparados e perdoados, mas muitos deles ficavam ao leo, jogados à própria sorte, que naquele caso era de muito azar.  Muitos que eram casados foram totalmente esquecidos pela esposa e eram alimentados na rua pela piedade de um ou outro parente. De forma que a legião de esquecidos cada vez aumentava mais e só não aumentou muito porque Temisse descobriu logo a doença e  confirmou que o vírus ficava incubado apenas meia hora. Era o tempo de o sujeito sair sem rumo.

Até descobrirem a causa da doença, a cidade começou a ser conhecida como Abilolândia. O prefeito mandou fechar o Cabaré de Ana Preta e expulsar as três moças contaminadas. Foram enxotadas da cidade como pesteadas. Não adiantou muito, porque outras mulheres foram também contaminadas e a doença se propagou silenciosamente. Os alto-falantes da “A Voz do Município” pediam cautela e invocavam o cuidado nas relações sexuais. A prefeitura distribuiu milhares de camisinhas de vênus, cremes vaginais antibactericidas e todas as mulheres foram convocadas a fazer exames de prevenção.

Quando o vigário do lugar, Frei Genésio Frifuso, foi contaminado, a paróquia entrou em grande desespero e a Casa Paroquial foi transformada em abrigo de esquecidos. As beatas faziam procissão, rezavam novenas, tridos e rosários, pedindo aos céus o fim daquela miséria. Como último recurso da fé, juntaram todos os homens atingidos, colocaram o Frei Genésio num andor e fizeram com ele uma procissão que percorreu os sete cruzeiros da cidade, onde foram rezados e cantados todos os benditos e ladainhas, e finalizada na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Desterro.

Na volta com o padre para a Casa Paroquial, uma chuva instantânea e inesperada, com trovões, relâmpagos e ranger de dentes, pegou todo mundo de surpresa e os homens atingidos pela doença venérea ficaram ensopados de água e recuperaram a memória. No entanto, todos se viram cegos do olho direito.
 


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POR EM 27/06/2009 ÀS 05:51 PM

O morto não presta

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Estou lendo o livro “Além do Vão da Janela”, do escritor Fausto Valle, uma coletânea de contos lançada recentemente na II Bienal do Livro de Goiás. A obra seduz ao ponto de me incitar a reescrever um conto há tempos adormecido na gaveta dos escritos expurgados, um autêntico purgatório onde poemas e outros textos meia-sola aguardam segundas chances. Muitos deles jamais se salvarão da minha negligência. Alguns serão colocados à prova, como o conto que agora eu lhes conto, invadindo o espaço das crônicas semanais na Revista Bula.

“ — Você está chorando pelo seu pai, mas creia: ele não merece as suas lágrimas. Você sabe, ele não prestava”.

A mulher interrompeu o pranto, estupefata, indignada com o comentário atravessado sem pé e nem cabeça. Sentada ao lado do vistoso caixão de maçaranduba, negociado às duras penas por mil e trezentos reais, ela se comportava com um cão de guarda, atenciosa e fiel como sempre fizera. Levantou a cabeça expondo um semblante lamentável daqueles que sofrem. Aprumou os olhos sepultados em olheiras para fitar a interlocutora.

“ — Seu pai foi deplorável. Todo mundo sabe disso. A imprensa, os vizinhos, os paroquianos... Enxugue o seu rosto, mulher.”

A sala estava repleta de gente, pessoas conhecidas, rostos estranhos também, e mais aquele vereador que nunca faltava a um velório sequer. O funeral seguia desanimado como tinha que ser. Vagaroso, entediante, quente e empestado com o fedor nauseabundo das flores a enxergarem o defunto. Quase sempre é mais fácil pagar do próprio bolso por uma coroa de rosas do que encarar os parentes ou o próprio morto.

O comentário descabido incomodou a moça que era filha única, a criatura mais descontrolada naquele antro. Não contava jamais que alguém viesse denegrir a imagem do pai num momento tão dramático, ocasião das mais inoportunas para desfilar fraquezas.

“ — Vim aqui pra lhe dizer aquilo o que a maioria dessa gente preferiria gritar aos quatro cantos da cidade, mas não têm coragem. Não vou mentir, querida. A morte do seu pai foi uma das melhores coisas que aconteceram nos últimos anos para a humanidade.”

A moça finalmente se levantou da cadeira, irada, disposta a enfrentar a antipática, a incógnita confidente a sussurrar nos seus ouvidos. Levantou tão depressa e estorvada que esbarrou o corpo num candelabro, derrubando-o no chão, por muito pouco não atingindo um bando de carpideiras a chorar pelo morto, ainda fosse ele um crápula.

“ — O que foi, filha?” quis saber a mãe, assustada com o lampejo da moça.
“ — É essa maldita mulher a me dizer coisas do pai”.
“ — Que mulher, minha filha? Que mulher?”.

Não avistara mais a enxerida. Teria ela fugido ou se acovardado para o embate? Quem seria aquela criatura inconveniente e tão íntima da verdade? Olhou aflita para o corpo. Ele tinha um semblante tranqüilo e parecia até mesmo sorrir, um misto de Gioconda com Al Capone. Abanou a mão trêmula quatro vezes, criando vento, afugentando uma indesejável mosca metálica a zunir sobre a pele fria do falecido. O rosto enigmático fazia crer que ele apenas dormia. Um mesmo sorriso endiabrado que ele botava na cara quando invadia o quarto para molestar o sono da filha.
 


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POR EM 27/06/2009 ÀS 04:39 PM

A inconsistência de Ser

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“Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer?”. Assim escreveu Clarice Lispector, que dizia prescindir da realidade, porque tudo se pode ter, através do pensamento. Em verdade, a realidade que conseguimos viver é criada pelo pensamento. Real é o que pensamos e aceitamos como real. Não o que, de fato, é Real em si.

Clarice Lispector escreveu um poema estranho e belo, intitulado “A lucidez perigosa”. O poema faz jus a si mesma e à sua fama de estranha, que levou Caetano Veloso a compor uma canção: “Que mistério tem Clarice/que mistério tem Clarice/pra guardar-se/assim tão triste/no coração”. O poema sobre nosso viver inconsistente começa dizendo: “Eu estou sentindo uma clareza tão grande, que me anula como pessoa atual e comum. É uma lucidez vazia, como explicar? Assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise”.

Penso ser esta sensação de clara percepção do mistério das coisas e do mundo uma epifania, pela qual o Ser transcende o sentido trivial do existir, apreendido pelos cinco sentidos. É uma lucidez para a qual não existem palavras explicativas. Assim como um cálculo matemático justo e perfeito, que fale por si mesmo, como um símbolo.

Segue Clarice: “Estou por assim dizer vendo o claramente vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois eu estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além de que: que faço desta lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode tornar-se o inferno humano – já me aconteceu antes”. De fato, ver, sentir, perceber o vazio-cheio do que se apresenta em total claridade, mesmo sendo pura potencialidade, é o que nos transporta para além dos limites da dualidade. Isto é: a mente não pode abarcar ou entender aquilo que a transcende.

“Existe em mim alguém melhor do que eu”, escreveu Fernando Pessoa, em alter-ego (ou em estado) de Álvaro Campos. A lucidez ou a verdade podem levar ao inferno, porque o retorno à ilusão pode ser terrível, e a permanência na lucidez cortante é de um estranhamento atroz, que a sociedade dos fantasmas robotizados não aceita, e pune até com o ódio e a morte. Tantos, “esquisitos” como Clarice, tiveram visões do esplendor, ou captaram clarões da eternidade,  e “piraram de vez”, após a experiência, ou foram  perseguidos e mortos, tidos como subversivos ou lunáticos!

A própria pessoa pode entrar em desinteligência com ela mesma, ao ver-se dividida entre um ego que separa, exclui, discrimina e mente, e um Eu que, em silêncio sábio, apenas observa, desapegado. Ao perceber que o inferno não está lá fora, mas vem de dentro, a pessoa que tem a experiência da lucidez lancinante se pergunta por que não abandonou antes o fardo dos pensamentos poluidores e das emoções venenosas, que alimentam o sofrimento! Segue Clarice: “Pensei que em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade – esta clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me de novo a consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém!”.

Eu consisto, tu consiste, ele consiste. Nós consistimos, eles consistem, nós consistimos, vós consistis, eles consistem! Não obstante isto, vivemos em total inconsistência de Ser! Assim, na sofreguidão de simular que existimos, danamos a consistir desbragadamente, em todos os tempos e modos do verbo mentir.
Assim todos vão consistindo, enquanto vão se consumindo em preguiça de viver e disposição de jamais acordar do sono eterno. Porque viver como morto é mais fácil, difícil é estar vivo entre os vivos. Para ser morto vivo basta ir levando os dias de barriga, na farra na mamparra, com falas, gestos, simulando estar vivos, mesmo há muito estando mortos, com as almas ressecadas.

Assim vamos levando a vidinha besta e rampeira, seguindo os trilhos costumeiros do desconcerto em que somos useiros e vezeiros. Não podendo precisar em que consiste a inconsistência do mundo, nos contentamos em existir no chão sem lugar da inexistência operante-ativa. Para existir, e saberem que existimos, temos que ser consistentes e consistidos apenas em não-Ser. Durma-se em um teatro como este!
 


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POR EM 27/06/2009 ÀS 09:05 AM

Por uma lei de imprensa nazista

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Eu matei a Lady Di. Isso mesmo. Fui eu. Não foram os paparazzi, nem o motorista bêbado, nem o namorado milionário, nem a Camila Parker (se bem que, nesse caso, nunca se sabe...). E sabe por quê? Porque eu não agüentava mais notícia idiota sobre a Lady Di. Lady Di na África. Lady Di flagrada de topless. Lady Di espirrou diferente ontem. Lady Di voltou a espirrar normal hoje. Lady Di isso. Lady Di aquilo. Em pleno horário nobre (embora “nobre”, pra mim, seja qualquer horário em potencial), Jornal Nacional, está lá o casal anunciando solenemente a última da... Lady Di. Enchi o saco. Desejei que ela morresse. Daí ela morreu. No dia seguinte (juro!). Nunca mais desejei isso pra ninguém, pois sei que não devo usar meus superpoderes para o mal. Só que era tarde (tadinha, afinal, a culpa não era dela).
           
É por essas e muitas outras que deixei de ver TV há muito tempo. Ainda resisto bravamente e leio jornais. Só que tem vezes (muitas!) em que dá vontade de por fogo (ou uma bomba) na redação. Ontem, por exemplo, estava eu lendo tranqüilamente minha Folha de São Paulo, quando deparo com uma pequena mas absolutamente oligofrênica matéria a respeito de uma adolescente americana que tinha vencido um concurso de digitação rápida de celular. PQP! Minha retina não é latrina, cidadão! Tem dó! O quê? Eu poderia não ter lido? Não dá, quando vê, já li. É tarde demais. Você está ali, passando os olhos pelo jornal, daí tromba com uma matéria dessas, vai lendo até o fim, progressivamente surpreso com a imbecilidade exposta a nu... pronto! Leu. F...eu.
           
É por mais essas e muito mais outras que defendo uma lei de imprensa nazista. Ah, que falta nos faz um governante tipo Chávez, ou Fidel, Stalin, Hitler (atenção chavistas e castristas, antes de darem um ataque histérico, não estou afirmando que esses senhores sejam iguais, mas apenas que têm algumas características em comum, sendo a que me interessa a aversão por quem pensa diferente deles). Com um sujeito desses comandando o Brasil nossa lei de imprensa poderia ser mais ou menos assim:
           
Artigo 1 —  Para ser jornalista será necessário ser... jornalista.

Parágrafo 1 — Por “jornalista” entenda-se alguém que estudou pra isso, da mesma forma que um ministro do STF precisou estudar pra ser bacharel em Direito.
           
Artigo 2 — O jornalista está obrigado a dizer apenas a verdade.

Parágrafo 1 —  Por “verdade” entenda-se aquilo que não é mentira. Na eventualidade de não se saber qual dos dois, que se mantenha calado.
           
Artigo 3 — O jornalista está proibido de partir do pressuposto que seu leitor seja um imbecil (ainda que haja fortes evidências nesse sentido).

Parágrafo 1 — Por “imbecil” entenda-se o leitor que acharia interessantes matérias do tipo “uma adolescente ganhou concurso de digitação em celular, etc”.
           
Artigo 4 — Todo jornalista, assim que se formar, terá implantado em sua orelha um rastreador com um chip. Esse chip terá, entre outras propriedades, a de produzir um choque elétrico entre 1 e 1000 Volts.

Parágrafo 1 — O leitor, ao assinar um jornal ou revista ou canal de TV, receberá um controle remoto dos jornalistas daquele veículo. Nesse controle, terá as opções “punição” e “prêmio”. A função “punição”, quando acionada, desencadeará uma descarga elétrica no rastreador de seu jornalista de até 1 Volt. Se vários leitores a apertarem ao mesmo tempo, o jornalista será sumariamente eliminado desta para melhor. Se vários apertarem em horários diferentes o jornalista passará horas sofrendo (sugere-se essa penalidade para casos extremos). A função “prêmio”, quando apertada várias vezes, dará direito a aumentos de salários.

Revogam-se as disposições em contrário.
 


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POR EM 27/06/2009 ÀS 09:05 AM

Educação não é missão

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É muito comum escutarmos de certos pedagogos, teóricos do ensino, secretários de educação, proprietários de colégios particulares e outras pessoas que, em princípio entendem do tema, que o professor é imbuído da “missão” de ensinar. Para eles ser professor é, acima de tudo, um “sacerdócio”. Mesmo a recente substituição da palavra “professor” pela palavra “educador” aconteceu em função deste discurso politicamente correto, que é quase hegemônico. Discurso repetido a exaustão nas universidades, em livros, teses, entrevistas, festinhas escolares, reuniões de pais, reuniões pedagógicas etc, etc e etc. Contudo, apesar de todas as boas intenções embutidas, tal perspectiva é frágil. Não se sustenta, não resiste a uma análise lógica apurada. Na verdade, qualquer pessoa um pouco mais perspicaz é capaz de perceber que ela é nociva ao desenvolvimento da profissão. Acaba por sabotar a própria condição de profissional do professor.

O “discurso missionário” dilui o caráter intelectual inerente à formação acadêmica do professor. O que resulta em uma filosofia pedagógica frouxa que tende a valorizar mais a “vocação para ensinar” do que o “preparo para ensinar”. O místico em detrimento do pragmático. Senão vejamos: termos como “missão” e “sacerdócio” automaticamente chamam outros como “abnegação” e “sacrifício”. Vista dessa forma a educação deixa de ser uma atividade laica para ganhar ares quase que religiosos. O professor deixa de ser um profissional que estudou muito para poder transmitir e produzir conhecimento, para ser uma espécie de emissário de algo maior do que ele, uma força superior transcendente para a qual ele cumpre uma “missão” em “sacerdócio”. E, como se sabe, na tradição Ocidental, prática religiosa é sinônimo de sacrifício pessoal. Sacrifícios que variam em grau e intensidade: podem ir desde não comer carne vermelha em um dia específico do ano até a auto-imolação. Daí a razão pela qual, ultimamente, se tem aceitado com tanta facilidade que professores sejam ameaçados, ofendidos ou espancados por alunos. Daí a razão pela qual, ultimamente, se tem culpado única e exclusivamente o professor quando o aluno não aprende. Daí a razão pelo qual, ultimamente, se especula tanto sobre levar a informática para a escola quando na mesma escola ainda faltam livros didáticos e fotocópias é um luxo. Sendo agredido, reprovando um aluno ou trabalhando em condições precárias, é sempre o professor que falhou, pregam os “especialistas”. Ofício visto como sacrifício.
 
Em meio a esse ambiente moral, falar em interesses pessoais (quiçá lucro) ganha ares de mesquinharia. É digno de vergonha confessar que dá aulas apenas para se sustentar, porque é o que sabe fazer, porque gosta ou simplesmente porque é a única profissão que tem duas férias por ano, como dizia César Lattes. Exigem-se sempre ideais elevados. Não basta ser professor, tem que participar. Educação não vem mais de casa, deve ser adquirida na escola. Professor, que em dias remotos foi chamado respeitosamente de mestre, tornou-se “educador”.
 
E o moderno educador deve ser ao mesmo tempo pai, mãe, psicólogo, catequista, enfermeiro, monitor de computação, ideólogo, recreador e agente social do corpo discente ao qual serve. Ensinar e cobrar o que se ensinou tornou-se sinônimo de educação retrógrada. A escola, que antes servia para transmitir às novas gerações a tradição cultural da humanidade, tornou-se uma espécie de shopping. Entra de tudo: de danças eróticas até rap com letras machistas e violentas. Aluno não é mais aluno: é educando, pois, como se sabe, a palavra “aluno” significa “sem luz”. Vê-los como seres “sem luz” é inadmissível e não louvar sua cultura pessoal (quase sempre televisiva e de gueto) é fascismo. Ensinar alta cultura e valorizar a erudição é entendido como deplorável elitismo fora da realidade. Diante dele muitos “especialistas” costumam retrucar sarcasticamente: “e para que serve para o educando saber quem foi Shakespeare?”. Como responder a isto? Afinal, não foi profetizado que “os simples herdarão a Terra”?
 
De fato, já estão herdando (Rei Lear?). Já vi diversos professores defendendo que normalistas alfabetizadoras deveriam ser mais bem remuneradas do que pós-doutores que passaram décadas estudando para chegar aonde chegaram. A justificativa seria a de que ensinar a ler e escrever é mais “nobre” do que tagarelar em uma cátedra. Se é ou não é pouco importa. O fato é que mais uma vez, passionalmente, sem reflexão, se desdenha os espinhos da teoria em função da ação missionária direta. Ao mesmo tempo, curiosamente, é interessante notar que não é comum entre professores universitários assumirem o “discurso missionário” no trato com seus alunos de graduação. Ele é difundido, sobretudo, no ensino primário, fundamental e médio. Ou seja: entre aqueles que recebem a teoria, não entre aqueles que a produzem. Exceção feita, claro, para certos catedráticos em didática. Sendo nesses casos impossível saber até que ponto trata-se de mera retórica. Até porque boa parte deles jamais lecionou para as séries sobre as quais teoriza.
 
O “discurso missionário” é tão forte que basta observar o resultado de concursos do tipo “Professor do Ano” ou “Professor Nota 10”, para identificá-lo em sua forma mais avançada. Não raras vezes os vencedores são profissionais pouco preparados. Pessoas que mal sabem ler, mas ensinam a ler. Pessoas que mal sabem contar, mas ensinam a contar. Em contrapartida, esses “educadores modelo” enfrentam todo tipo de obstáculo para cumprir sua “missão”. Às vezes, acordam às quatro horas da madrugada para fazerem uma viagem de barco de três horas que os levarão até um casebre perdido na floresta amazônica, onde darão aulas para cinco ou seis crianças da região. Sem querer tirar o mérito inegável destas ações, é preciso reconhecer que nesses casos se premia o sacrifício, não a competência propriamente dita; que, sim, pode até existir, mas é irrelevante diante do exemplo de abnegação que representam.   
 
Apesar de ter ganhado força no mundo pós-moderno, o “discurso missionário” está entranhado em nossas raízes culturais há séculos. Por exemplo: praticamente todo manual de filosofia desdenha a contribuição dos sofistas gregos, apontando como um de seus principais vícios o fato de que cobravam para ensinar. Muitas vezes não passam de notas de rodapé. Só aparecem para servir de contraponto à figura gigantesca de Sócrates, o pensador humilde e corajoso que ensinava de graça e que morreu para defender seus princípios. A célebre frase “tudo que sei é que nada sei”, uma das sentenças mais mal compreendidas de todos os tempos, sempre citada como exemplo de ideal pedagógico, joga por terra toda a obra conjunta dos “gananciosos” sofistas. Um grande equívoco, pois, como escreveu o filosofo Gonçalo Armijos Palácios, “eles foram injustiçados pelo ensino academicista e não receberam o reconhecimento devido”.
 
Na Idade Média, durante o nascimento das universidades, quando mestres clérigos passaram a ministrar um ensino desligado do contexto monástico, para burgueses, foram duramente atacados. O futuro santo Bernardo de Claraval, o poderoso abade de Cister, foi um dos críticos mais ferozes da nova pedagogia. Acusava seus defensores de serem meros “vendedores de palavras”, sacrílegos culpados de oferecer para quem quiser pagar a “ciência que só a Deus pertence”. Muita gente foi parar na fogueira por conta disto.
 
Os séculos seguintes apagaram as fogueiras e fizeram da educação um direito de todo cidadão. Educar as massas tornou-se uma “missão” civilizadora que deveria ser levada a cabo a qualquer custo, mesmo que o preço fosse a vulgarização do conhecimento e o nivelamento por baixo dos envolvidos no processo educacional. Tanto dos mestres quanto dos alunos. Dessa forma, o que ocorreu não foi uma vitória de nenhum dos lados e sim um armistício, armistício que gerou uma aliança. As duas perspectivas se fundiram. Infelizmente, o que poderia criar um edificante caminho do meio ao estilo budista acabou por degenerar-se e transformou o professor em um estereótipo sem nuances.
 
Hoje o “educador” é infantilizado em seu próprio ambiente de trabalho. É constrangido a participar de ridículas dinâmicas de grupo, brincando de dança da cadeira, trocando fitas coloridas, pulando corda ou falando com fósforos acesos na mão. Vê-se levado a ler páginas e mais páginas de metáforas tão bonitinhas quanto inúteis sobre “alunos-sementinhas que crescem com a água do conhecimento” ou sobre “alunos-folhas-ao-vento que devemos recolher e dar direção”. Nesse espírito, em Goiânia, por determinação da Rede Municipal de Ensino, atualmente, o “educador” é obrigado a colorir quadradinhos que ilustrem o rendimento dos alunos, já que pura e simplesmente dar notas e feio, feio, feio!
 
E o pior é que tais práticas bizarras e alienantes são vendidas pelos “especialistas” como o supra-sumo da modernidade educacional. Quem não se submete é mal visto e tachado de corta-onda, tradicionalista, antigo. O resultado é que, cada vez mais, o necessário abismo cultural entre “educandos” e “educadores” diminui. Ambos cantam as mesmas músicas no chuveiro, assistem às mesmas novelas e votam nos mesmos candidatos no Big Brother.
 
O professor está se afastando de forma irrecuperável de sua função intelectual. De contestador e crítico da realidade por meio do ensino, entrega-se sem reagir à condição de marionete artificialmente alegre. Se existe de fato uma “missão” a ser cumprida, trata-se de uma missão suicida. E a lavagem cerebral a qual são submetidos os acadêmicos dos cursos de licenciatura por meio do “discurso missionário” levam-nos a se resignar com facilidade excessiva as suas terríveis conseqüências. Perdemos os referenciais. Há tempos que o ideal de professor deixou de ser o genial Aristóteles para tornar-se a professorinha Helena da novela “Carrossel”.
 

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