POR
FLÁVIO PARANHOS
EM 18/10/2010 ÀS 01:36 PM
Sou fã do colunista da “Folha de São Paulo” Luiz Felipe Pondé. Mas não sou um fã acrítico. Sua coluna de 11-10-2010 (“Vai encarar?”) é uma defesa equivocada da bandeira anti-aborto. Com seu estilo inconfundível (do qual, confesso, gosto muito), provocador, ele já abre dizendo que, embora faça parte da elite intelectual, está no time dos contra. Seu raciocínio (até certo ponto válido) é que os contra são costumeiramente tachados de retrógrados e geralmente pertencentes a grupos em degraus mais baixos, intelectualmente falando. Isso não é inteiramente verdade. O que é verdade é que, não raramente, os contra costumam se valer do que eu chamo argumento-fim-de-linha: “Porque Deus quis (quer) assim”. Esse tipo de pessoa costuma, sim, ser de um degrau intelectual inferior, pois lhe falta argumentação sólida. Mas ele nem sente isso, pois o argumento-fim-de-linha é tudo que lhe basta. E ele crê, então, que basta aos outros. Não basta. E Pondé sabe disso. Tanto, que preferiu não lançar mão de argumentos teológicos (“teológicos” não são um sinônimo de “religiosos”). Preferiu partir pro biológico. E aí caiu do cavalo. Não sei se ele percebeu, se foi ato falho ou se foi consciente, mas ele diz ser contra o aborto “porque o feto é uma criança”. E o embrião, é o quê? Feto é a partir da nona semana de gestação. Em seguida, ele ataca logo qualquer tentativa de definição científica para o início da vida. Outro ato falho? Já há vida antes mesmo da fecundação. Se Pondé praticou aquilo que adolescentes praticam, que de acordo com Woody Allen é “sexo com uma pessoa que eu amo”, ele desperdiçou milhões de vidas em vasos sanitários, ralos de chuveiro e sabe lá mais onde. Assassino!
leia mais...
POR
EBERTH VÊNCIO
EM 15/10/2010 ÀS 02:29 PM
A tecnologia é realmente uma ciência fascinante, e quase sempre funciona em prol da humanidade. Serve também às desumanidades — diga-se — ao incrementar, por exemplo, a confecção de armas modernas com alto poder letal. Fazer o quê? Na ficção e na vida real, há sempre o vilão e o mocinho, o eterno embate entre o bem e o mal. Esta medição de forças tem custado muito sofrimento ao ser humano e ao meio ambiente.
Com a violência solapando a sociedade, há vultoso investimento em tecnologia de segurança. Os equipamentos para monitoramento de prédios e pessoas experimentam avanços todo momento. Há uma variedade de câmeras com capacidade para filmarem com precisão, seja noite, seja dia. Aliás, existem lentes que captam imagens até no escuro absoluto, tecnologia copiada da indústria bélica que fabrica armamento para se matar gente imersa no mais completo breu. Matar na penumbra deve ser mais confortável, pois não se vêem esguichos de sangue, nem as expressões faciais do inimigo. O rosto da morte é marcante. Você já presenciou alguém morrer? É uma experiência única e instigante. A violência urbana não encontra limites, e vai munindo de estórias o macabro acervo da crônica policial. Quando se pensa que já se viu de tudo, eis que surge na telinha da TV outras cenas inéditas prontas a nos tirar o apetite para o jantar ou para o sexo. Se a gente levasse a vida ao pé da letra, nunca mais se sujeitaria a qualquer tipo de prazer, tamanho o constrangimento.
leia mais...
POR
EDIVAL LOURENÇO
EM 14/10/2010 ÀS 08:46 PM
Nas últimas décadas os marqueteiros firmaram a convicção de que nossos impulsos mais irresistíveis nascem de uma camada ancestral de nosso cérebro, aquela do momento evolutivo em que os répteis eram o ramo mais evoluído da árvore da vida. Os estímulos audiovisuais afetam prioritariamente nossa parte do cérebro reptiliano. Os répteis têm predileção pelas coisas que se movimentam buliçosamente diante de seus olhos. Nós, num processo regressivo, também estamos cada vez mais adorando coisas que borbulham em nossa frente. É o nosso lado voyeur por excelência.
Com a nova moldagem de nossas preferências era de se esperar que o mercado desenvolvesse produtos finamente sintonizados a essas necessidades. Nesse contexto, o surgimento do reality show foi uma conseqüência lógica e inevitável. Pois é da natureza do mercado criar necessidades e produtos adequados para supri-las. Qualidade total é isso: artificializar a necessidade e criar um produto sob medida. A noção de reality show foi cristalizada a partir de uma dura advertência de George Orwell, em 1948, com o romance '1984', em que cunhou a expressão Big Brother, o grande irmão dos regimes ditatoriais que a todos veriam e controlariam com tentáculos de polvo. Naquela mesma década surgia o programa Candy Camera, de Allen Funt, aquele que é tido por muitos como o primeiro reality show da TV. A Guerra do Golfo iniciada em 1990 foi um segundo momento do reality show. A Rede de TV CNN desembarcou no cenário de guerra antes mesmo dos soldados e fez uma cobertura espetacular.
leia mais...
POR
EULER DE FRANÇA BELÉM
EM 13/10/2010 ÀS 12:46 PM

Maria Rita Kehl foi contratada pelo “Estadão” para escrever sobre psicanálise. Por conta própria, escrevia sobre política, advogando posições contrárias às do jornal. Foi demitida. Ela está errada; o jornal, certo. O artigo que provocou a demissão de miss Kehl é de uma pobreza haitiana e prova, mais uma vez, que a autora entende quase nada de política e economia. Deveria continuar escrevendo sobre psicanálise.
Como estamos num momento eleitoral, jornalistas e psicólogos falam em censura — esquecendo que “O Estado de S. Paulo” é uma empresa privada, não é uma repartição pública. A esquerda, como de hábito, tenta transformar uma demissão comum numa demissão política.
Mulher inteligente, das mais articuladas, autora de livros bem-pensados, Kehl sabe que pisou na bola e não deveria aceitar a campanha pró-Dilma que estão fazendo ao usar seu bom nome. Miss Kehl não é tão ingênua assim, nem é tão independente quanto seus novos apoiadores fazem crer. O senador petista Eduardo Suplicy, conhecido como Senhor Mogadon e Mister Ridículo, pediu ao “Estadão” que reconsidere a demissão de miss Kehl. Supla sênior enviou carta a Ruy Mesquita, sem saber, certamente, que o encanecido jornalista não é mais o mandachuva da redação.
leia mais...
POR
VALDIVINO BRAZ
EM 12/10/2010 ÀS 03:04 PM
Há algum tempo já não morro de amores por ideologias políticas, nem por siglas partidárias de gregos ou gregórios. Aos quase setenta anos de vida, quase todo esse tempo acompanhei políticos e testemunhei-lhes os atos execráveis, decepcionantes. Ando cético com políticos, e se há uma coisa que não tolero por conta de quem quer que seja e que esteja no poder, é corrupção grassando grossa, até dentro do próprio poder, e governo dando uma de cínico pra cima do povo, como se lidando com idiotas — o que, aliás, anda sobrando por aí, desgraçadamente.
Imperam o cinismo e a hipocrisia neste país, uns e outros se ajudando, se protegendo e, assim, vigorando a vergonhosa impunidade. Em certos casos, até a venda, que já é um trapo sobre os olhos da “cega” justiça, deveria ser retirada. Uma justiça às vezes cega por conveniências, a mando de quem manda mais. (E os médicos hipócritas, o que fizeram com o Juramento de Hipócrates, de compromisso com a vida?). Mas nem por isso deixo de votar, então tento acertar votando em pessoas que me pareçam íntegras e dignas. “Acertar” é o termo, já que transformaram tudo num jogo, então ainda arrisco uma “fezinha” na loteria da ética com a coisa pública, da justiça social e da boa política, limpa, transparente, confiável. Já vi muita coisa desabonadora de políticos, e aqui a minha descrença quanto a esquerda e direita. De ambos os lados, se o diabo não é tão feio quanto se pinta, é feio assim mesmo, de um lado e de outro. Regra geral, a cara de um e o focinho de outro, salvo as raras exceções da regra, pois, se a humanidade perdeu a qualidade, ainda existem pessoas especiais. Não há nada mais sujo e podre e malcheiroso do que a história do homem, grandezas à parte.
leia mais...
POR
EULER DE FRANÇA BELÉM
EM 11/10/2010 ÀS 05:38 PM
A Academia Sueca não premiou Philip Roth, autor do magistral romance “O Teatro de Sabbath” (relançado pela Companhia das Letras), mas fez justiça ao conceder o Prêmio Nobel de Literatura ao maior escritor peruano de todos os tempos, Mario Vargas Llosa (pronuncia-se “Lhôssa”, com acento circunflexo na vogal “o”), de 74 anos.
Escritor de múltiplos talentos, Llosa escreveu histórias sofisticadas, como “Conversa na Catedral”, “Os Cadernos de Dom Rigoberto”, “Tia Júlia e o Escrevinhador” (um acerto de contas com sua própria história; ele foi casado com uma tia, que, mais tarde, rebateu-o num livro de escassa repercussão), “Pantaleão e as Visitadoras”, “Quem Matou Palomino Molero?” e “A Cidade e os Cachorros”. Pegue qualquer um desses livros e poderá comprovar como o autor escreve bem, como sua prosa é fluente, ágil, enérgica. Como poucos, dialoga com precisão cirúrgica com o moderno e a tradição, indicando que esta pode ser tão moderna, ou até mais, do que alguns prosadores ditos modernos e inventivos. O autor tem sorte no Brasil, pois suas traduções, como as de Sergio Molina e José Rubens Siqueira, são perfeitas ou quase perfeitas. Escrevo “quase” porque, em tradução, perde-se alguma coisa sutil que só pode ser assimilada na própria língua. A respeito de Llosa deve ser ressaltado que se trata, acima de tudo, de um estilista poderoso — um lídimo discípulo de Flaubert e, quem sabe, Henry James (a diferença é que, às vezes, é brutal, e James não o é). Poucos escritores vivos escrevem tão bem.
leia mais...
POR
EULER DE FRANÇA BELÉM
EM 06/10/2010 ÀS 05:23 PM

António Lobo Antunes, escritor português, certamente não vai ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Porque a Academia Sueca concedeu há pouco tempo o prêmio a José Saramago. O brilhante peruano Mario Vargas Llosa, tido como liberal, tem poucas chances. Philip Roth é americano e isto, para os europeus, não é “positivo”. Roth, nos últimos anos, decidiu assumir o discurso da esquerda, mas, mesmo assim, parece não agradar os suecos. E, apesar de vituperado por judeus radicais, o autor de “O Complexo de Portnoy” é judeu. Como os notabilíssimos israelenses Amós Oz e David Grossman. Outros americanos citados como nobelizáveis: Thomas Pynchon, Joyce Carol Oates, John Ashbery, E. L. Doctorow, Don DeLillo e Gore Vidal.
O britânico Ian McEwan tem os mesmos “defeitos” e “virtudes” de Llosa: é liberal (parece que é crime ser liberal no mundo contemporâneo) e escreve muito bem. Cormac McCarthy não se interessa muito por política, é aceito por todos como escritor do primeiro time, mas, com seus romances sobre a mitologia americana cercada por certo universalismo (como o tema da violência e o choque entre valores e tempos), talvez seja, como Roth, considerado americano demais. Mas está bem cotado na “bolsa de apostas”. O jornal espanhol “ABC” aposta na escolha do queniano Ngugi wa Thiong’o. Nomeia-o como favorito numa reportagem, mas põe Cormac McCarthy, autor do esplêndido romance “Meridiano de Sangue” — espécie de Shakespeare do Oeste americano —, como segunda opção.
leia mais...
POR
EULER DE FRANÇA BELÉM
EM 04/10/2010 ÀS 10:58 AM
O poeta russo Óssip Mandelstam escreveu um poema sobre Stálin, no qual chamava-o de assassino e de ter bigodes de barata, e acabou preso na Lubianka e, depois, no Gulag (campo de concentração e trabalhos forçados). “Em outubro de 1938, sem medicamentos e sem cuidados adequados, o poeta russo Óssip Mandelstam morreu em Vtoraya Rechka, paranoico e delirante”, conta a historiadora Anne Applebaum no livro “Gulag — Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos” (Ediouro, 749 páginas), digno “sucessor” do “Arquipélago Gulag”, do escritor Alexander Soljenítsyn. No conto “Licor de Cereja”, Varlam Shalamov relata os últimos dias do homem que desafiou o ditador: “Ele já não ficava de olho na ponta do pão [a mais comestível], nem chorava quando não a conseguia. Já não enfiava o pão na boca com dedos trêmulos”. O assassino intelectual de Trotski conseguiu o que planejou: destruiu física e mentalmente um dos poucos homens que, mesmo sabendo dos riscos, teve coragem de enfrentá-lo publicamente. A poesia de Mandelstam tem sido editada no Brasil e, sobretudo, em Portugal. Para conhecê-lo, é fundamental a leitura de “Contra Toda Esperança”, as memórias de sua mulher, Nadejda Iákovlevna Mandelstam. A maioria de seus poemas foi decorada por Nadejda e posteriormente, com a “morte” do stalinismo, publicada. Ela sabia literalmente todos os poemas de cor. Quem não tem acesso à obra-prima de Nadejda pode consultar o recém-lançado “De Mandelstam Para Stálin — Um Epigrama Trágico” (Record, 375 páginas, tradução de Mauro Gama; o poeta e crítico Marco Lucchesi revisou a tradução e traduziu trechos de alguns poemas), de Robert Littell.
leia mais...
POR
EBERTH VÊNCIO
EM 04/10/2010 ÀS 10:41 AM
Um observador atento da Revista Bula, também colaborador assíduo da mesma, enviou um comentário no qual detectava a minha reincidência em temas envolvendo mendigos, andarilhos sem nome, moradores de rua e outras criaturas marginalizadas que sobrevivem nas grandes cidades.
O assunto realmente me fascina, negativamente. Apesar de marcharmos, mesmo ainda muito ignorantes, pelo confortável século XXI, há ainda milhares de homens, mulheres e crianças entregues ao abandono e à violência das ruas, pontes, elevados, becos e sarjetas. Funciona como se varrêssemos a sujeira pra baixo do tapete. A sujeira em questão é “o vagabundo que esmola pela rua, vestindo a mesma roupa que foi sua”, como cantou Caetano Veloso; o tapete, “o nosso belo quadro social”, segundo Raul Seixas.
Todo santo dia, eu transito por uma importante avenida da cidade, e que leva o nome de um homem célebre e rico que foi homenageado por um vereador ocioso chupa-ovos. A rua é deveras bonita, arborizada, asfalto liso e perfeito, onde seres imperfeitos se amontoam nos semáforos pedindo os seus trocados a fim de garantir “um prato de comida” (é o que eles dizem para convencer os cidadãos a atirarem as suas migalhas pelas janelas dos carros). Nota-se que, a maioria são adolescentes encardidos, magérrimos, olhos encovados, roupas sem cor definida, e futuro absolutamente incerto: se sobreviverem à fome, à violência e à corrosão orgânica que o crack provoca, engrossarão as fileiras da marginalidade, contribuindo com as estatísticas do crime. Se sucumbirem ao abandono da sociedade e à negligência do poder público, serão dispensados em caixões baratos de qualidade tão deplorável quanto suas carcaças e o “status quo”.
leia mais...
POR
EULER DE FRANÇA BELÉM
EM 28/09/2010 ÀS 01:38 PM
Não é fácil resistir ao poderio de uma ditadura popular... como a nazista. Pois um trabalhador solitário, August Landmesserm, decidiu desafiar o totalitarismo do regime de Adolf Hitler. Em 1936, em Hamburgo, numa solenidade, enquanto todos saudaram o Führer, Landmesserm cruzou os braços.
A fotografia mostra todos ovacionando Hitler, com a tradicional saudação com o braço direito levantado, mas, exibindo com muita coragem sua objeção de consciência, Landmesserm permanece impassível, com os braços cruzados. O jornal espanhol “ABC” diz que se trata de uma das imagens mais famosas da história bélica. A história de Landmesserm é curiosa. Em 1931, filiou-se ao Partido Nacional-Socialista Operário Alemão, “com a esperança de encontrar um emprego” (os nazistas chegaram ao poder em 1933, e legalmente). Mesmo assim, assinala o jornal, o operário não comungava das ideias nazistas.
leia mais...