Não sei onde, a não ser em cabeças muitas singelas, um burro consegue sair do nada, criar o único partido orgânico do Brasil — e um dos dois mais importante da América Latina —, virar presidente da República e, de quebra, se tornar uma liderança internacional

Por princípio, sou contra o culto da personalidade, prática tão peculiar ao totalitarismo. Na política brasileira – de uma história afinal tão pouco democrática – os homens sempre foram mais importantes do que as causas, desde o incompetentíssimo Deodoro da Fonseca, o primeiro líder de nossa república de araque. Desde 1984 o Brasil consolidou um novo estágio de seu desenvolvimento político, não obstante continuamos ressentindo a prevalência de uma regra inquestionável para a duração máxima do mandato presidencial. A Constituição de 1988 estabeleceu quatro anos, prazo que não resistiu à conveniência (a emenda para a reeleição de FHC), e até hoje se discute o que é melhor. Pessoalmente, não sou contra a emenda FHC, sou contra essa discussão não ter fim. Defendo a manutenção de quatro anos com direito à reeleição, tempo razoável para se realizar um projeto. Além do mais, se o cara for bom, porque não conceder-lhe o direito de concorrer a mais quatro anos? Passou daí é personalismo.
Lula é um grande presidente, mas sou contra um terceiro mandato seu ou que retorne daqui a seis anos. Num caso e no outro, trata-se já de culto à personalidade, uma vez que não atravessamos uma conjuntura excepcional (uma guerra, por exemplo, o que justificou três reeleições, nos EUA, de Roosevelt, durante a Segunda Guerra Mundial). O maior benefício de não insistirmos nessas aventuras é cultural: podemos eventualmente até abdicar de um líder de primeira grandeza, mas ganhamos a sensação de que nos tornamos um país maduro, regulado pela constância. E, afinal, o país deve (e é) mais importante do que suas pessoas públicas.
O lulismo existe, e é mais forte do que o petismo. Com efeito, o PT não é tão republicano quanto é democrático. Tem o mérito de ser o único partido no país, dos 27 inscritos no TSE, que faz eleições diretas em todos os municípios e estados, para escolher seus dirigentes. O problema é que se confunde exageradamente com seu presidente de honra. Não fosse Lula ter desejado que em Goiânia o partido se unisse a Iris Rezende, é provável que a voz do bom senso prevalecesse e o PT disputasse a prefeitura. Bom senso, sim: manter-se-ia programático e escaparia à tese dos eleitoralistas. Em tempo: com o aval de Delúbio Soares, Neyde Aparecida e Osmar Magalhães, em 1998 o PT, PCdoB e PDT emitiram um documento (“Eleger Marconi é derrotar o continuísmo e o autoritarismo”), dizendo (não bastasse o título) que “a vitória de Iris Rezende significa a continuidade de um governo que tem trazido graves conseqüências para os interesses do povo e dos trabalhadores de nosso Estado.” Não se sabe bem porque, o “continuísta inimigo do povo” virou santo na última eleição municipal, para as pessoas listadas e seus delegados.
Feitas essas ressalvas, deve-se não obstante reconhecer de uma vez por todas a inteligência de Lula. Dia 2 de abril, no encontro do G-20, em Londres, a estrela de Luís Inácio Lula da Silva brilhou mais uma vez. Lembro-me ainda quando, em suas três primeiras tentativas de se tornar presidente, um monte de pessoas se perguntava se esse cidadão era capaz não só de administrar o Brasil quanto de representá-lo no exterior. Afinal de contas, o homem era “analfabeto”. Ainda quando, em 2001, ele ganhou a presidência, certos setores da mídia e da opinião se perguntavam se Lula estaria “preparado” para a função de presidente (não me recordo que tenham posto em dúvida a competência de Collor e FHC). O pressuposto é de que o cara num tinha um canudo pra ostentar e, que pena, não sabia “falar inglês”. Nossa, como éramos (e talvez ainda sejamos) medíocres!
Em 2005, antes de José Dirceu cair fora, muitos achavam que era Zé Dirceu quem mandava nessa joça e, por tabela, no presidente. Zé saiu e achavam que o barco fosse afundar porque, afinal de contas, “Lula é um burro, num sabe de nada, coitado”. Coitados. Não sei onde, a não ser em cabeças muitas singelas, um burro consegue sair do nada, criar o único partido orgânico do Brasil - e um dos dois mais importante da América Latina -, virar presidente da República e, de quebra, se tornar uma liderança internacional. Se isso é fruto da burrice, gostaria de ser burro, e se não é inteligência, não sei que nome dar.
Da mesma forma que a escravidão explica a situação do negro no Brasil, ainda hoje – chegamos ao ponto de institucionalizar a discriminação para promover a ascensão social dos negros! -, a escravidão explica também o preconceito contra o trabalho manual e este, por tabela, explica o preconceito contra Lula. Ainda que tenha se tornado presidente de um país imenso, o fato é que Lula é “um reles torneiro mecânico”, na idéia de muita gente, por aí. Constrangedor, mas é a opinião inclusive de muitos que cursaram até a universidade (Harvard deve mesmo fazer a diferença...). É bem a mentalidade estúpida que trouxemos de Portugal nas caravelas, e que fez deste país um arremedo de sociedade séria. É a nossa história. Fernand Braudel, eminente historiador francês do século passado, tem razão: a mentalidade é parecida com as formações geológicas da terra: muda, mas como custa!
Pessoas de QI mais elevado sempre pensaram diferente do senso comum, a respeito de Lula, inclusive rivais de outros tempos. Numa das entrevistas que deus às páginas amarelas da Veja, o falecido Olavo Setúbal (ex-fundador do Banco Itaú), disse com todas as letras que “Lula é um gênio político”. Um gênio político não precisa gostar ou entender de outros assuntos: há, por exemplo, muitos grandes artistas que não gostam de política. Serão burros, por isso?
A última foi proferida por Barack Obama, na Cúpula do G-20: flagraram o presidente dos Estados Unidos dizendo ao primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, que “Esse é o cara. Eu adoro esse cara. Ele é o político mais popular da Terra.” Por boas razões, o político mais popular da terra é o próprio Obama, e além disso pode-se alegar que a circunstância era informal e descontraída. Convenhamos, porém: Obama não precisaria ter dito isso, se não enxergasse em Lula um expert, provavelmente um exemplo adequado para uma era pós-Bush. Não é bobo. Rudd, por sua vez, emendou com um comentário não menos interessante: o presidente brasileiro é “o mais popular em mais tempo de mandado”. A popularidade de Lula é realmente uma raridade, como ele mesmo. O povo gosta de Lula, que muitos acreditavam, inteiramente equivocados, ser um “comunista comedor de criancinhas”. Lula nunca foi comunista: se brincar tem até uma queda pelo liberalismo.
Mas apesar da consagração de Lula, apesar das retumbantes evidências em contrário, um monte de num-sei-o-quê insiste na burrice de Lula. Todo mundo conhece um monte de num-sei-o-quê (eu conheço vários, todos eles ignorantes). Mas, “quem é” num-sei-o-quê, ninguém sabe. Verdade seja dita: Lula está há anos-luz dessa gente. A começar pelo cérebro.
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