Não sou Flaubert nem Haussmann
O jornalista Enio Vieira disse para o editor da "Revista Bula", Carlos Willian, que sou responsável pela desconstrução de um artigo de sua autoria, sob o pseudônimo de Haussmann.
Enio está enganado, pois nem mesmo li o livro que ele e Haussmann estão discutindo. Ele me deu de presente um livro de Paul Johnson sobre a história dos Estados Unidos, não o do autor em questão, que, insisto, não li. Não sou responsável pela desconstrução, assim como não são Eduardo Horácio e Irapuan Costa Junior. Haussmann é, na verdade, um professor universitário tão gabaritado quanto Enio. Com mestrado e doutorado. Seu conhecimento de literatura é, seguramente, maior do que o meu e de Enio juntos.
Posso não concordar com o que Enio escreve, mas não escrevo na seção de comentários da Bula, nem com meu próprio nome, nem com pseudônimos. Por um motivo bem simples: não tenho paciência e, como leitor infatigável (três a quatro livros por semana), não tenho tempo. Medo de polêmica claro que não é, pois quem escreve a coluna Imprensa, e por isso já foi vítima de achincalhe no "Diário da Manhã" (Suely Arantes foi usada por um jornalista metido a bonzinho e mais sujo do que latrina), precisa saber das coisas e ter coragem e não ter rabo sujo ou preso.
Enio e Haussmann são dois talentos notáveis e, apesar da refrega, é provável que tenham mais em comum do que pensam. Enio é de esquerda, mas Haussmann não é de direita. Não tem militância alguma, nem na faculdade. No máximo, é um livre atirador que sabe tudo ou quase de literatura inglesa, irlandesa, francesa, italiana e portuguesa (nem estou citando a brasileira). Além de ser cultor dos clássicos. Sua tese de doutorado foi escrita em inglês. Portanto, não é monoglota.
Enio trabalhou comigo no Jornal Opção, acompanhei seus primeiros passos no jornalismo, antes de ele passar pelo curso da Editora Abril e, depois, trabalhar em "O Globo" e em outras publicações. Fez mestrado na UnB, na área de literatura, o que lhe possibilitou, ainda mais, organizar o pensamento. Enio une o jornalista competente ao intelectual do primeiro time, que trafega bem nas áreas de literatura, política e economia. E, num mercado onde tantos se corrompem, é um profissional íntegro, que não se contamina pelos ambientes, o que resulta de sua sólida formação intelectual e, sobretudo, moral.
Como todo intelectual, Enio tem suas implicâncias (divirto-me e aprendo com elas). É crítico de Mario Vargas Llosa (tem razão em muito do que diagnostica na prosa recente do escritor peruano, mas a implicância maior talvez seja política, porque Llosa é liberal e, portanto, crítico da esquerda), Harold Bloom (implica com o fato de que os provincianos têm certo apreço pelo crítico literário americano. E com certa razão, pois Bloom virou uma espécie de vade mecum. O que aprecio em Bloom é sua paixão pela literatura, não pela teoria literária. Bloom lê os livros que comenta, sempre atentamente, e deixa a teoria literária para os acadêmicos. O que aprecio em Bloom, repito, é a leitura direta, não a leitura meramente orientada, bibliográfica, no mais das vezes, ideologizada) e Edmund Wilson (ótimo crítico, prosador de segunda). Enio talvez não concorde, mas "O Castelo de Axel", de Wilson, é um livro brilhantíssimo, escrito em cima da hora, quando "Em Busca do Tempo Perdido", de Proust, e "Ulysses", de Joyce, ainda estavam quentinhos. Escrever sobre Proust e Joyce, 87 anos depois da publicação de seus livros seminais, com uma ampla fortuna crítica à disposição, fica muito mais fácil. Mas, entre as décadas de 1920 e 1930, não era tão fácil assim. Era preciso contar apenas com o próprio talento para abrir fronteiras de leitura. Quando Charles Dickens havia se tornado uma espécie de José Mauro de Vasconcellos, autor de "Meu Pé de Laranja Lima", Wilson escreveu revalorizando-o — devolvendo-lhe o status de grande escritor, de Balzac dos pobres, por assim dizer. O mesmo fez com Hemingway. Assim como mostrou a importância de Abraham Lincoln para a literatura enxuta e não palavrosa dos Estados Unidos que, depois de passar por Mark Twain, desaguou em Hemingway. Tenho apreço por outros críticos, como Erich Auerbach, George Steiner, Frank Kermode ("Um Apetite Pela Poesia" é uma pequena obra-prima), Northrop Frye, Dolf Oehler (fino analista de Heine e, entre outros, de Herzen, o escritor russo inédito no Brasil e muito bem analisado por Isaiah Berlin, em “Pensadores Russos”), Vladimir Nabokov (finíssimo analista, infelizmente pouco divulgado no Brasil como crítico), Ezra Pound (sempre surpreendente, e às vezes superestimado) e T. S. Eliot (um crítico seguro e sereno). Não interpreto literatura e crítica literária de modo linear, ao modo evolutivo: quem vem depois não é necessariamente superior aos anteriores. O que seria do autor clássico se aceitarmos que quem vem depois é melhor?
Quando não está zangado comigo, por motivos injustos, Enio me liga e diz: "Você lê cada bomba". Tem razão. Por conta de minha curiosidade excessiva e insaciável, leio tudo, ou quase, desde Mario Puzo, um autor de segunda, ao "Ulisses", de Joyce (meu primeiro texto sobre Philip Roth data de 1987). Quando percebe que estou por demais envolvido com o baixo clero da literatura, Enio manda um e-mail e sugere alguma leitura, como "Amada", o belo romance de Toni Morrison. É uma espécie de "Cem Anos de Solidão" dos Estados Unidos. Depois de "Amada", li "Peróla Negra" (Editora Best Seller), "Jazz" (Editora Best Seller), o brilhante "A Canção de Solomon" (Editora Best Seller), "O Olho Mais Azul" (Companhia das Letras), "Amor" (Companhia das Letras) e "Paraíso" (Companhia das Letras). A dica de Enio é ouro puro e é possível verificar que a crítica de Bloom simplifica a obra de Morrison. Bloom percebe que Morrison é uma escritora de alto nível, mas sugere que seu feminismo, sua posição política, trava suas qualidades literárias. Não é justo. Sim, é possível perceber que a "política" de Morrison quase trava sua literatura, mas seu talento é tão poderoso, sua habilidade narrativa e sua percepção tão aguçadas que acabam por salvá-la. Isaiah Berlin diz algo parecido de Dostoiévski. Mas só é possível chegar a esta conclusão se se lê os livros, como fiz, obstinada e com prazer. A leitura sem prazer, como resultado de mera exigência acadêmica, acaba sendo empobrecedora. Fujo disso como o diabo foge da cruz.
Espero que tenha esclarecido a questão da autoria e que Enio deixe o rancor de lado e entenda que nós, que escrevemos tanto, devemos permitir que os leitores, críticos ou não, tenham suas opiniões sobre os nossos textos, que, publicados, não são mais nossos e, de algum modo, se tornam indefensáveis. Falo sobretudo de textos sobre literatura.
leia mais...















