A casa em reformas
O sofrimento que nos traz a construção ou reforma de uma casa, haja vista quanta gente sofrida e calejada no assunto. Os pedreiros de hoje, os tidos e havidos como bons, eles “se acham”, nós é que não os achamos facilmente, quando precisamos deles. E custam os olhos da cara. Pensam que o pobre dono da casa — quando é o caso de um pobre — está montado no dinheiro, daí enfiam a faca, sem piedade. A mão-de-obra, por vezes, é exorbitante, e não que desvalorizemos o pesado trabalho deles, mas por conta do exagero no valor que nos cobram, sem falar no que ainda gastamos com materiais de construção.
Por certo que um pouco nos reformamos com a casa, como um reflexo dela, por sua vez refletida em nós. Um no outro espelhados. É bom de se ouvir quando alguém diz que a casa está “um brinco”, ou que as panelas brilham como espelho. Imagine-se o sorriso do alumínio. E confira-se a felicidade então estampada no rosto luminoso da dona de casa. Sim, bem pode que a felicidade, de forma simples, habite uma casa com os seus brincos. A casa se ilumina, bem assim o rosto de sua dona.
Coloquei toda a minha aposentadoria numa reforma geral — de há muito adiada por falta de recursos — e algumas ampliações em minha casa. Minha abnegada Maria no comando de tudo e até dando uma de arquiteta — tem o seu tino, a menina! —, e o dinheiro ó, e o dinheiro ó, e o dinheiro ó, só voando feito passarinho, coitado de mim, que me acoito nas entrelinhas e só entendo de letras, as literárias, e não letras de câmbio.
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O amor entre os gêneros nada mais representa senão um pretexto para a cópula, a fusão dos gametas, a perpetuação da espécie. “Crescei e multiplicai-vos”. Foi o próprio criador quem deu a senha. Por que duvidar dele?!
Tão estranha como foi, e estranho o olhar com que via os mistérios do mundo, que parece não ter existido, a não ser pelos estranhos personagens que inventou ou viu, nas praças e ruas de cidades do Brasil e do estrangeiro, em epifanias brotadas de uma sensibilidade antenada com o inesperado. Pois Clarice não interpelava o inesperado, aceitando-o, não como um estrangeiro atrevido, mas como um visitante familiar a si própria, e a todo e qualquer vivente desta nave planetária que habitamos. No dizer de Manoel de Barros sobre si próprio, pode-se intuir que Clarice “carregava seus primórdios num andor, e vivia a abrir descortinos para o arcano”.
Grandes polêmicas fizeram o mundo caminhar, evoluir e quem quiser saber mais é só ler a “História das Civilizações”. Polêmicas levam o homem a pensar, a ponderar, a desenvolver-se criticamente, a libertar-se dos comportamentos que as grandes massas de carneirinhos obedientes estabelecem como regra. Só as polêmicas são atraentes. O resto é corriqueiro e tedioso, mesmo quando são questões que propõem algo de novo pra se matutar e ângulos novos de um mesmo tema.
No último dia 6 de julho, aniversário da pintora mexicana Frida Kahlo (1907-1954), fiquei a pensar em sua maneira tão particular de pintar (e aí, cabe o verbo nos dois sentidos) a si própria perante os outros. Trazer a tona tudo aquilo que se esconde atrás de nossa carne, dar formato aos nossos traços visíveis, unir tudo o que somos em um instante é um exercício diário que fazemos para nos mostrar. Frida, como ser humano, se fez conhecer em seu cotidiano, porém, não da maneira como esperamos. Além de se mostrar aos outros, ela se apresentou a si mesma.
Múcio é um homem velho, vivido, vívido e voraz quando o assunto é Deus. Ateu pacífico, destemido, provocador gentil, ele tem certeza absoluta: “acabe com o dinheiro e você assistirá ao fim de todas as religiões”. Como assim, Múcio?!
A revista italiana “Max” decidiu publicar uma fotomontagem de Roberto Saviano (chamada de “O assassinato de Saviano”), autor do romance de não-ficção “Gomorra”, na qual o escritor aparece morto numa maca de uma espécie de Instituto Médico Legal — pronto para ser necropsiado. Teria sido “assassinado” pela Camorra, a violenta máfia napolitana. A fotografia vazou e, publicada no jornal “La Sampa”, de Turim, gerou debate entre jornalistas e intelectuais sobre os limites do jornalismo. Para uns, é um incentivo à morte do jovem prosador. Para outros, não é ético dizer que uma pessoa morreu se está viva. Há os que defendem a liberdade de expressão.
Uma telha quebrada. Uma trinca na comunheira. Uma vigota empenada. Sabe-se lá. Pouco importa. Ele assiste a uma goteira que vaza pelo teto da sala de estar, estorvando mais um jogo do Brasil na Copa. Você sabe: brasileiro ama futebol. Ele detesta mesmo é o esquema tático “dungalizado”, as goteiras, as infiltrações e as suas próprias imperfeições.
A melhor crítica literária da obra do escritor português José Saramago, recentemente falecido, foi escrita por alguém do Vaticano. Os padres disseram que sua literatura é populista. Acertaram na mosca.
Que a expressão significa alguma coisa como tarde demais ou algo parecido, isso toda gente sabe. Um prazo vencido, uma oportunidade perdida, algum acontecimento irreversível, e lá vem alguém e diz: Agora Inês é morta.