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EBERTH VÊNCIO
EM 08/02/2010 ÀS 04:46 PM
Quando o Alcebíades levantou a camisa, mostrando os arranhões na barriga, exibindo-os como se fosse um salvo conduto, um troféu, a cabeça de um alce ou rinoceronte, eu fiquei mais que desentendido.
“— Mas, Alcebíades, rapaz, você é um juiz de Direito da maior envergadura... Como é que pode uma coisa destas?!”, arrisquei.
Pois foi assim mesmo que aconteceu. O Alcebíades, amigo de infância, ou melhor, um colega nos longínquos tempos de escola (“diz-me com quem tu andas e direi quem tu és...”, ameaça o texto bíblico), sempre fora uma pessoa esquentada, um encrenqueiro, um adolescente assíduo nas diretorias das várias escolas particulares pelas quais peregrinou durante a sua carreira estudantil. Apesar da longa jornada, do esforço financeiro dos pais (leia-se “dar tudo que o dinheiro possa comprar”), do empenho de professores, e dos hematomas pelo corpo, ele nunca aprendeu a perder.
“— Não aguentei: catei ela pelos cabelos, abri a porta e a atirei pra fora de casa, no hall do apartamento!”. Fiquei só imaginando a foto do Alcebíades nos jornais, tentando se livrar da acusação de violência doméstica, encarando os rigores da Lei Maria da Penha, concebida para proteger mulheres de valentões como o meu amigo, ou melhor, ex-colega, o hoje juiz Alcebíades, freqüentador assíduo da maçonaria e das colunas sociais.
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FLÁVIO PARANHOS
EM 04/02/2010 ÀS 03:05 PM
(O diálogo abaixo é obra de ficção e qualquer semelhança com pessoas ou situações será mera provocação)
Num domingo ensolarado, dois amigos vão ao estádio. Ênio, sabendo que Flávio deixara de torcer pelo Flamengo desde que esse time garfara a Copa do Brasil de 1990 do Goiás de forma indescritivelmente descarada, convence finalmente o amigo ranzinza e teimoso a assistir a uma partida de futebol. Ênio tinha uma teoria. Para ele, Flávio mentia pra si próprio. Ênio apostava que, novamente diante de seu time de coração, e no meio da torcida, Flávio se trairia.
— Eu não acredito que você deixou de torcer pelo Flamengo.
— E pelo Goiás também.
— Também?! Mas sua birra com o Mengo não é justamente porque ele garfou a Copa do Brasil do Goiás?
— Isso em 90. Em 97 o Goiás entregou o jogo pro Corinthians, que estava prestes a cair pra segundona, em pleno Serra Dourada. Foi quando meus olhos se abriram de uma vez por todas, e inclui “campeonato de futebol honesto” na mesma categoria de “Coelho da Páscoa” e “Papai Noel”.
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FLÁVIO PARANHOS
EM 02/02/2010 ÀS 01:56 PM
Estou internado em minha biblioteca, disposto a terminar coisas que estão pela metade, mas, como não deixei de ler jornais (acabo de sair de um auto-ostracismo, há pouco tempo voltei a assinar jornais), infelizmente tenho conhecimento de notícias escabrosas que me fazem aumentar o crescente desgosto com o ser humano.
Sou um ex-esquerdista. Já acreditei no socialismo. Não mais. E não por causa da queda do muro de Berlim. Meu desgosto é mais recente, vem do primeiro governo Lula. À época, cheguei a pensar em me filiar ao PT, mas fui demovido da idéia por um professor que é uma mãe e que usou a mesma tática que meu pai, quando eu, criança, lhe pedi que me matriculasse num curso de violino: “Espere um pouco, daqui a uns seis meses, se você ainda quiser, eu te matriculo.” Claro, meu pai sabia que minha intenção não duraria nem dois, quanto mais seis. Dito e feito. A história da música perdeu a oportunidade de ter o embaraçoso verbete “pior violinista do mundo”.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 01/02/2010 ÀS 11:12 AM
Twitter e Soneto apresentam algumas coincidências que vão muito além da aparência inicial: ambos são substantivos paroxítonos que definem um modo formal de exposição do discurso e são dotados de três sílabas gramaticais ou duas sílabas métricas.
Soneto é uma composição poética megavelha, vetusta mesmo. Segundo os “paleontólogos literários”, essa forma poética teve início na idade média, ali pelo final do século 12, início do 13. A autoria do primeiro soneto é controvertida e se divide entre três poetas sicilianos. O termo Soneto vem do provençal (o idioma dos trovadores medievais) sonet, que quer dizer som, melodia, canção. Em pouco tempo virou coqueluche e se tornou a forma preferida dos poetas. Encantou Dante, Petrarca, Camões e Shakespeare. O nosso sonetista mais notável foi certamente Olavo Bilac, aquele do “Ora, direis, ouvir estrelas, certo perdeste o censo e eu vos direi no entanto”... Drummond escreveu sonetos, Bandeira Escreveu Sonetos, Gullar escreveu pelo menos um, que eu sei. O Twitter, como o Soneto, vem de uma referência ao som. Derivou da palavra homófona Tweeter (que se escreve diferente mas tem o mesmo som), que quer dizer caixa minúscula de sons agudos, de alta frequência (acima de 5000 Hz). Portanto, Twitter é, como o soneto, uma forma de comunicação, só que ultramoderna. Trata-se de uma rede de comunicação em que os assuntos da hora são tricotados entre os usuários em tempo real. Mas sua semelhança convicta com o Soneto, além das que já mencionamos, está no seu aspecto formal. O soneto, de ordinário, comporta no máximo 140 sílabas poéticas. Igualmente, o Twitter comporta no máximo 140 caracteres. É muita coincidência, não?
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EBERTH VÊNCIO
EM 29/01/2010 ÀS 09:28 AM
Não sei por que cargas d’água o assunto Ponto G voltou à baila na mídia nos últimos dias. Mistérios subliminares da comunicação e marketing. Tanta coisa mais relevante com que nos preocuparmos, como o fracasso de Copenhagen, o filme do Lula, a tragédia do Haiti e o flagelo da dengue no Brasil, mas leigos e “especialistas em Ponto G” teorizam a respeito do mesmo.
“— Onde fica, afinal, o Ponto G?! Ora, é fácil: entre os Pontos F e H”. A piada é tão batida quanto a dificuldade que o ser humano tem em lidar com a própria sexualidade. É como se diz: fazer sexo é uma necessidade básica, fisiológica. O duro é sair de uma transa melhor do que quando se entrou nela.
Somente após o advento da pílula anticoncepcional e da minissaia nos anos 60 (combinação tão explosiva, como o tição e a pólvora, ou Pelé e a bola), a sociedade principiou a quebrar os tabus e as cabeças dos estudiosos, gente interessada no emaranhado psicológico em que estamos metidos. As disfunções sexuais se constituem umas das mais frequentes queixas em consultórios médicos, principalmente ginecológicos. Quando uma mulher está infeliz, ou conta isto pro ginecologista, ou inventa um sintoma e sai peregrinando pelas clínicas até que algum profissional cuidadoso se toque que a doença não é física, mas mental (psicossomática).
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MENALTON BRAFF
EM 23/01/2010 ÀS 11:03 AM
Um amigo, dos poucos que me restam, outro dia me disse que, tentando ser irônico, eu não consigo passar do sarcasmo. E o sarcasmo é grosso, pesado, ele acrescentou, com a certeza de quem acaba de inventar a roda. Meu caro, a grossura e o sarcasmo, se você ainda não percebeu, estão aí a nossa volta para ver quem quiser.
Só pra não viajar muito, veja o que vem acontecendo com as artes brasileiras, principalmente as ditas artes populares. A não ser que você seja fã do Tigrão e congêneres, então dou um tapa nesta máquina e vou dormir. Você já prestou atenção aos sambas-enredo? O Stanislaw, meu caro, o Stanislaw Ponte Preta foi um dos maiores profetas, não, poeta, não, eu disse profeta, deste país varonil. Seu “Samba do Crioulo Doido” deveria entrar como um dos livros do segundo testamento.
Dias atrás apareci em um evento, coisa que muito pouco tenho feito, e ouvi um ex-político, com a facilidade verbal que a maioria deles tem quando há público, afirmou que o povo brasileiro vai-se acanalhando. É um povo, são palavras dele, de chapéu na mão e sorriso calhorda, à espera das migalhas debaixo da mesa. E é claro que a mídia, sobretudo a eletrônica, que depende de índices de audiência para sobreviver, é claro que essa mídia não é inocente no caso. Os ratinhos da vida andam por aí, ditando gosto, lotando auditórios, olhando pra baixo.
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EBERTH VÊNCIO
EM 22/01/2010 ÀS 10:08 AM
A vida é complexa demais para ser compreendida numa só existência. Portanto, para os que não creem em reencarnações (espécie de “recall” espiritual) e na eternidade o baque pode ser medonho. Mas nem sempre é assim. O ceticismo também poupa mentes da idolatria e do fanatismo. É incrível: eu conheço alguns homens agnósticos que têm uma paz e uma serenidade de fazerem inveja.
Enquanto a “imensa nação rubro-negra” festeja a chegada do jogador de bola Vagner Love a Gávea, a também “imensa nação haitiana” padece sob os escombros de um dos maiores terremotos da história. Não se sabe ao certo quantos morreram por causa do abalo sísmico. Mórbidas especulações globais dão conta que acima de cem mil pessoas foram extintas pelos destroços de casas e prédios naquele país.
“E o que tem uma coisa a ver com a outra?” — algum flamenguista haverá de inquirir, imediatamente irritado com a estapafúrdia analogia. Olhando assim de relance, nada. A não ser o fato das duas situações fomentarem comoção pública, ainda que por motivos antagônicos. Quem nunca rimou amor e dor, os sentimentos mais viscerais que se tem notícia?! Agora, tocarmos a vida como se nada tivesse acontecido, como se a desgraça fosse um mero acidente de percurso envolvendo gente negra e pobre, mais uma calamidade afetando a ralé, é extremamente contraditório. O sentimento que me perturba é do poeta: “é impossível ser feliz sozinho”...
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ALEX SENS FUZIY
EM 18/01/2010 ÀS 07:22 PM
Acho inevitável e certamente saudável na arte o momento da paralisia. A inércia de um artista é seu ponto de crítica, onde ele se defronta com a dúvida e por isso mesmo (ou então às vezes) se mostrando maduro e cuidadoso com seu trabalho.
Um pintor, segurando seu pincel molhado de tinta, leva a mão à tela, mas vendo melhor uma sombra ou a falta dela, para: e nessa hora nasce toda uma questão de saber cuidar de sua obra, do que será melhor e do que pode arruinar um contraste, uma noção exata de profundidade entre as árvores do fundo e as cadeiras debaixo do sol. A dançarina, erguendo sua perna no palco, dando uma pirueta no ar, voltando-se graciosa e leve para os cantos do próprio corpo, corre para onde não deveria porque foi seguindo o ritmo de sua euforia mágica de passos, então para: e nessa hora nasce a dúvida de para onde e como dobrar-se de uma forma que não desafine a cadência anterior de seus movimentos ensaiados. O escritor, sob a chuva de ideias que jorra (ou pinga) em sua mente, sente a falta de uma palavra ou não sabe se deixa o vento abrir a cortina e revelar ao homem que sua mulher está com outro no quarto, e para: nessa hora ele enfrenta o mistério da própria criação e suas dificuldades, mesmo que esse mistério já esteja revelado, embora não num plano ainda alcançável; ele descobre que sua história pode ser maior do que ele, com uma cena invertida possível de alterar destinos, pessoas, o meio todo, e assim o fim.
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MENALTON BRAFF
EM 15/01/2010 ÀS 10:52 AM
Encerrei o ano de 2009 lá pelo dia 15 de dezembro, claro, porque daí em diante tudo era festa. Encerrei o ano pensando em férias e de férias pretendia ficar pelo menos até o fim de janeiro. Sombra e água fresca no fundo do meu quintal. Foi então que descobri ser a alienação um estado involuntário. De nada adianta querer: é preciso ser. Eu fugia do mundo, mas ele continuava traiçoeiramente a me enredar.
2010 nasceu sob o signo de grandes desastres. Signo maldito que se repete a cada 365 dias com modificações apenas na superfície. Logo no início deste ano, o Brasil abalou-se com os estragos causados pelas chuvas. Angra, São Luís de Paraitinga, Agudos foram nomes que frequentaram a mídia por muito tempo. Muitos prejuízos sendo o maior deles as vidas que se apagaram. Geógrafos, geólogos, políticos sugerem sempre as mesmas medidas necessárias e que não serão tomadas. O povo tem memória curta, em março ninguém mais vai se lembrar do assunto.
Em janeiro acompanhamos o desenrolar da novela Arruda e os 40 ladrões que tinha começado no ano anterior. A desfaçatez dos protagonistas, seu imenso cinismo, são causas para indignação. Como podem zombar a tal ponto da opinião pública? Bem, poder eles podem, talvez com justa razão: nas próximas eleições lá estarão eles reivindicando nossos votos e muitos de nós, brasileiros, vamos continuar a elegê-los. Eles sabem disso. Agora as notícias que nos chegam do Haiti. Tanta miséria sem a colaboração da natureza já não era suficiente? Um desastre de proporções desconhecidas neste lado do novo mundo.
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EBERTH VÊNCIO
EM 15/01/2010 ÀS 10:17 AM
Quer mesmo ferir uma mulher? Então a estupre. Faça isso com o pênis, os dedos das mãos, um objeto de aparência fálica ou, simplesmente, com palavras. Aliás, ferir com as palavras é bastante eficaz ao ofensor e edifica morada duradoura na memória de uma mulher, quiçá por toda a vida. Foi Múcio, o médico guru, quem me contou: ele cuida de uma paciente que nunca mais teve um orgasmo desde que o marido a repreendeu que ela parasse de gritar e uivar de tesão, pois mais se parecia com uma puta. Percebem como é fácil pisar no coração de uma mulher?!
A sexualidade humana provê matéria prima abundante para devaneios de leigos e ensaios dos estudiosos. Entendê-la, aceitá-la são desafios. Salvo algumas poucas espécies de primatas, o homem é o único animal na natureza que busca no sexo instrumento para obter divertimento e prazer, ou seja, o chamado sexo sem fins reprodutivos, tão abominável nas sagradas escrituras.
Recentemente, brasileiros que trabalham clandestinamente em garimpos do Suriname foram atacados de forma massiva pelos nativos. Mais conhecidos como “marrons”, os agressores descendentes de escravos fugitivos invadiram uma área habitada por brasileiros para barbarizar, surrar, matar, e vingar o suposto assassinato de um surinamês por um brasileiro.
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