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EBERTH VÊNCIO
EM 20/03/2011 ÀS 02:34 PM
Quando eu era criança (hoje sou um cidadão semiajustado escrevendo crônicas aos 45 anos), os adultos (mulheres, inclusive) e os meus rivais infantis (meninos mais velhos que se divertiam em humilhar, castigar os mais novos), para provocarem em mim uma reação, digamos, mais firme (como não chorar, por exemplo), diziam assim: “Deixa de ser mulherzinha, rapaz!”. Nem sempre a coisa funcionava, e eu permanecia chorando de dor, medo ou raiva.
Tem várias coisas que, feliz ou infelizmente, a gente nunca esquece, a não ser quando estamos com o cérebro carcomido pela demência senil. Na rua onde fui criado morava um fedelho (hoje em dia, “criança hiperativa”) chamado Manoel, o “terror da vizinhança”, que tinha no portfólio de peraltices uma brincadeira deveras cruel: enquanto espremia os testículos da sua vítima (era sempre um garoto mais fraco) mandava que ela assobiasse. Manoel, que atualmente é um renomado veterinário da cidade, só soltava os bagos do moleque após o assobio. É claro que o sopro não saía perfeito da boca de jeito nenhum. Até hoje, quando cruzo pelo doutor Manoel nalgum canto da cidade, meus testículos se encolhem na clausura da bolsa escrotal.
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MENALTON BRAFF
EM 20/03/2011 ÀS 02:10 PM
Estou pensando seriamente em viajar semana que vem. Mas viajar para muito longe, provavelmente para alguma região da Amazônia, lá onde se pode ficar a cem quilômetros de qualquer outro ser humano senão da família. Trocar buzinas pelo canto do uirapuru, o concurso de aparelhos de som automotivos pelo marulho de algum córrego entre as pedras.
Disse ontem exatamente isso ao Adamastor e ele me olhou muito espantado. Sei muito bem o sentido de seu olhar: ele acha que estou ficando louco. E ele tem razão. A vida entre seres humanos invasivos vem corrompendo meu juízo. Todos os habitantes de qualquer cidade, ou quase todos, expõem seus ruídos despudoradamente, tornam-se produtores públicos de barulho, certos de que temos necessidade deles.
Vivemos, sobretudo nos centros urbanos, mesmo os mais suburbanos, a falta de respeito que tem caracterizado nossa época. Ninguém mais se lembra de que a vida em sociedade só foi possível até hoje porque existiam normas de conduta em que um respeitava o espaço do outro. Hoje, qualquer um chega e vai entrando em sua casa, sem pedir licença, sem perguntar se você, o eventual ocupante daquele lugar, está a fim ou não de consumir o que ele vai impingindo, queira-se ou não.
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ALEX SENS FUZIY
EM 14/03/2011 ÀS 02:56 PM
Em junho de 1942 uma menina alemã ganhou em seu décimo terceiro aniversário um caderno axadrezado branco e vermelho. Dele fez seu primeiro e único diário, mais tarde reiniciado em outros dois cadernos de exercícios; em 1944 foi reescrito e revisado em mais 324 folhas avulsas de papel colorido, quando, já com quinze anos, esta menina veio a ser presa, deportada e morta num campo de concentração em Bergen-Belsen. Três anos depois este diário foi publicado como uma narrativa do Holocausto.
O diário, a princípio um feliz presente para alguém que desejava dar vazão às suas proclividades literárias, tornou-se um dos livros mais vendidos no mundo, um emblema da história moderna e um testemunho ocular de uma época de terror. Nada disso por acaso, afinal foram o desejoso ardoroso e a paixão criativa desta menina chamada Anne Frank, de ser reconhecida como uma escritora e de querer até mesmo sobreviver de alguma forma à morte, que a fizeram transformar um simples relato de seu trancafiado cotidiano em um romance histórico intitulado de “O Anexo Secreto”. Em “Anne Frank - A História do Diário que Comoveu o Mundo” (292 páginas, Editora Zahar, tradução de Maria Luiza X. de A. Borges), Francine Prose, uma das maiores críticas, ensaístas e ficcionistas americanas atuais, ex-professora em grandes universidades como Harvard e Columbia, fez um laborioso estudo sobre o famoso diário, mergulhando profundamente na vida de Anne e analisando seu registro não apenas como histórico, mas também artístico, encarando-o como verdadeira obra de arte.
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FLÁVIA GALINDO
EM 14/03/2011 ÀS 01:57 PM
Não gosto de falar sobre os assuntos que diferem da minha área de atuação, mas abrirei uma exceção para mexer em um vespeiro, enfrentando a provocação que o texto de Eberth Vêncio publicado na Revista Bula faz, talvez como uma forma de elaborar meus próprios pensamentos a respeito da condição feminina. O autor tece uma crítica à caótica situação urbana que vivemos por meio da narrativa de uma colisão que presenciara, usando o machismo como pano de fundo. No abalroamento, uma jovem e inocente motorista foi humilhada pelo outro motorista do acidente que, mesmo culpado, destilou toda a sua verborragia machista, lascando a infeliz sugestão para a que motorista desistisse da direção de um carro para “esquentar a barriga num fogão e esfriá-la no tanque”. O episódio, em si, já é lamentável, mas prossegue com a descrição do momento difícil e crítico, no qual os presentes à discussão se comportaram de acordo com o sexo: os homens riam das piadas que o beócio fazia, e as mulheres se indignavam.
Como não falo aqui na condição de pesquisadora, sinto-me à vontade para usar adjetivos menos nobres para o machista em questão. Contudo, quero ressaltar que não tomo esse caso isolado para elaborar uma generalização que represente a condição da mulher brasileira. Isso seria desprezar a multiplicidade mostrada por tantos pesquisadores das ciências humanas e sociais, ativistas de movimentos sociais, filósofos, sociólogos e antropólogos, apenas para citar alguns campos de estudo que estudam o feminismo há anos. Generalizar seria ignorar as questões associadas à cultura, a história e ao direito, desprezando conquistas e sugerindo uma homogeneização que não é possível no mundo plural em que vivemos. De certa forma, concordo com o argumento de Simone de Beauvoir no qual os gêneros foram construídos socialmente e, portanto, cada cultura e história possuem sua própria realidade.
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EBERTH VÊNCIO
EM 11/03/2011 ÀS 04:21 PM
Mulher no volante, perigo constante. O provérbio é antiquado e irrita, com toda razão, o mulheril. Há poucos dias, presenciei um abalroamento macarrônico no trânsito infernal da cidade. Alertada pela luz amarela do semáforo, uma jovem motorista meteu o pé no freio (acertadamente, embora dirigisse calçando um sapato de salto 15, não recomendável) e seu carro foi atingido na traseira por outro, cujo condutor teve o impulso contrário (erroneamente), ou seja, acelerou a máquina mortífera para escapar do sinal vermelho.
Ora, vejamos: todo mundo sabe que a luz amarela significa “atenção, reduza a velocidade, pois o sinal vermelho vem aí”. Quase todo mundo. A cada dia, cresce o número de cretinos ao volante. Só pra exemplificar, a legislação do Conselho Nacional de Trânsito manda que os novatos sejam submetidos a vinte aulas de volante (treinamento prático), além do curso teórico, antes de retirarem as CNH.
Na prática, muitas autoescolas ignoram a lei ao fazerem “pacotes promocionais” (que é para baratear pro aluno e driblar a concorrência), ministrando poucas aulas para “pessoas com alguma experiência prévia ao volante” (será que os candidatos conseguiram esta experiência prévia ao volante brincando em vídeo games e autoramas ou dirigindo sem habilitação?!). Juntando a inexperiência dos motoristas emancipados (ambos os sexos) com a epidemia de motos e automóveis que empapuçam as ruas (fruto de incentivos governamentais duvidosos, aliada à falta de investimento no transporte coletivo), surge o monstro chamado trânsito caótico, que tem infernizado o dia-a-dia dos cidadãos urbanofílicos.
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MARCEL PILATTI
EM 07/03/2011 ÀS 04:25 PM
Aproveitando a época de Carnaval, vale analisar duas figuras que serão homenageadas pelas principais escolas de samba do Rio de Janeiro em seus desfiles: Nelson Cavaquinho (tema da Mangueira, em virtude de seu centenário) e Roberto Carlos (que completa 70 anos em abril e receberá homenagem da Beija-Flor).
São dois personagens distantes e próximos: distantes pelo sucesso comercial, mas próximos pela simplicidade, qualidade e reconhecimento no meio musical.
Muitas pessoas, até hoje, torcem o nariz ao ouvir falar de Roberto Carlos: “acho brega”, “é produto da Globo”, e “quem compunha pra ele já morreu” são algumas das principais pérolas; da mesma forma, ainda há grande quantidade de pessoas que expressam espanto quando escutam o nome de Nelson Cavaquinho: “quem?!”.
É provável que o leitor da "Revista Bula" se encaixe no primeiro grupo. Virou uma espécie de senso-comum as pessoas, para se mostrarem refinadas ou alternativas, irem contra algo que seja muito popular, conhecido ou comentado: evocando famosa frase de Tom Jobim, “fazer sucesso no Brasil é ofensa pessoal”. Já quanto a Cavaquinho, a culpa é da pouca divulgação de seu trabalho e de sua memória.
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MENALTON BRAFF
EM 03/03/2011 ÀS 01:55 PM
Nunca me imaginei tão fraco como agora me descubro. Sem querer imitar o Estrangeiro que não parava de fazer perguntas ao Teeteto, para que entre ambos houvesse comunidade de entendimento, preciso começar determinando com mais clareza que tento me referir. É claro que existem muitos tipos de fraqueza e só me confesso fraco para alguns dos tipos. Se me ausculto, por exemplo, procurando fraquezas físicas, não encontro grande coisa. O desgaste natural da máquina, lógico, vai-se tornando evidente. Também não tenho mais dezenove anos. Um joelho perrengue, já farto de tanto trabalho e exigindo sua aposentadoria, uma vista da qual as principais virtudes debandaram, o ouvido que fica procurando lábios alheios com a insistência de quem gostaria de não perder o que se diz, e por aí vai. Nada que um bom geriatra não consiga lenir. E, se não conseguir, devo encarar como natural a curva descendente.
Não, não é na carcaça que encontro a fraqueza, mas em órgão que geralmente não se mostra em público, e que, às vezes, quando cheio, ameaça estourar. Enfim, ainda não se fabricam de aço. E um presidente da república, um dia, disse que o tinha roxo. Mas a cor não interessa, no caso, e sim sua resistência. Do meu já anda perto do fim.
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EULER DE FRANÇA BELÉM
EM 03/03/2011 ÀS 01:26 PM
A Companhia das Letras vai publicar “A Lebre da Patagônia”, memórias do francês Claude Lanzmann, de 85 anos, em junho. Na quinta-feira, 24, a “Folha de S. Paulo”, por intermédio da “colaboradora” Leneide Duarte-Plon, entrevistou o jornalista, escritor e diretor de filmes. A entrevista contém opiniões contundentes e heterodoxas sobre Oscar Niemeyer e discutíveis sobre Simone de Beauvoir (1908-1986). Sobretudo, é polêmica e, às vezes, divertida.
Simone de Beauvoir e Lanzmann se tornaram amantes quando ela, escritora reconhecida, citada até como filósofa por alguns apressados, tinha 44 anos e ele, 27 anos. Uma diferença de 17 anos. “Fui o único homem com quem ela teve uma vida conjugal, marital, durante quase oito anos. Quando a conheci ela não tinha mais relações sexuais com Sartre, Muitas pessoas dizem que fazíamos sexo coletivo. Não é verdade”, sustenta Lanzmann. O problema é que a “Folha” e Lanzmann esquecem, não se sabe por quê, de citar o escritor americano Nelson Algren, uma das paixões mais flamantes da escritora. Para dizer pouco, com Algren ela teve seu primeiro orgasmo (porque Sartre, rápido como coelho, amava a si próprio, e saltava rápido de uma cama para a outra. Ela tinha 39 anos ao ter o primeiro orgasmo). Tudo bem que o relacionamento com Lanzmann seja um fato, mas ignorar a paixão explosiva de Simone de Beauvoir por Algren é deixar de informar o leitor. (Leia abaixo duas cartas da escritora para o americano intranquilo. Algren era casado e não gostou de ser citado, de forma crua, num dos livros da autora. Na sua literatura, de matiz memorialista, nada escondia sobre si e os outros. Algren pôs fim ao relacionamento — o que a deixou muito abatida. Noutro livro, “Cartas a Nelson Algren — Um Amor Transatlântico”, publicado no Brasil pela Editora Nova Fronteira, escancarou o relacionamento.)
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EBERTH VÊNCIO
EM 25/02/2011 ÀS 04:38 PM
Calma, leitor. A cena é do filme “Casino”, de Martin Scorsese (1995). O mafioso Nicky (Joe Pesci) toma as dores do até então amigo Sam (Robert De Niro) e agride um brutamonte no balcão de um bar, atingindo o seu pescoço com uma lapiseira (a mesma lapiseira que o atrevido mandara Sam “enfiar no rabo”). O grandalhão desaba e é chutado impiedosamente por vários segundos.
Na cena impressionante, a agressão fica meio disfarçada, com a câmera focando o semblante raivoso de Nicky e a expressão embasbacada de Sam. O corpo da vítima não é exibido, mas, pelos seus gemidos e pelos xingamentos do Nicky (“fuck you” é o mais “light” deles), dá pra imaginar o estrago. Coisas de cinema. Artimanhas dos grandes diretores. Para quem gosta de filmes de máfia, este aqui é espetacular e eu recomendo.
Nos últimos anos, tenho me dedicado, com absoluta satisfação, a assistir aos “melhores filmes de todos os tempos”. É claro: já caí nalgumas ciladas. Todas as semanas, passo numa excelente vídeo-locadora no centro da cidade, na qual realizo as minhas blitz às estantes, orientado pelas mais variadas fontes, principalmente listas, sites sobre cinema, referências dos amigos, e indicações das sempre prestativas funcionárias (como é bom ser atendido com cortesia nestes dias de mundo canis...). É difícil ter certeza, mas é capaz de já ter me transformado num cinéfilo. Os 100 Melhores Filmes de Todos os Tempos, Os 100 melhores Filmes de Western, Os 100 Melhores Filmes de Comédia, Os 100 Melhores Filmes de Suspense... E por aí vai. Só não puxei a lista com Os 100 Melhores Filmes de Amor porque o gênero não me interessa. Sim, o amor ainda me interessa. Um pouco. Eu fingiria ser romântico para fazer sexo, por exemplo.
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FLÁVIO PARANHOS
EM 25/02/2011 ÀS 04:02 PM
Advertência: O desabafo abaixo é inapropriado para menores de idade e para aqueles que não estão dispostos a terem desabafos estragando seu dia.
"Porra, obrigado pra caralho! Não, sério, obrigado pra caralho! Obrigado pra caralho mesmo!...Não, sério, obrigado pra caralho... Pra caralho!" Imagino que você, leitor, está morrendo de rir, não? Não? Ufa, então você não fazia parte da plateia de submentais que lotou o Teatro Rio Vermelho, no Centro de Convenções de Goiânia, na última sexta-feira, pra assistir à peça “Minhas sinceras desculpas”, com Eduardo Sterblitch. Multiplique as frases entre aspas acima por 20 e terá a introdução da peça. Cada vez que ele dizia um palavrão, a plateia caía na gargalhada. E assim foi durante todo o espetáculo. Ou, pelo menos, enquanto eu estava lá pra assistir. Saímos, eu e minha esposa, antes de acabar. Não por causa dos palavrões. Mas por causa da reação infantil a eles.
Foge por completo à minha compreensão o motivo da graça. Éramos, na plateia, todos adultos, maiores de idade, portanto já ouvimos palavrões aos montes (e já os dissemos aos montes também). Além do mais, o conteúdo não tinha nada de engraçado. Tratava-se de um desabafo do ator. Que, por sinal, curtiu com a cara da plateia o tempo todo. E o bando de bobos alegres se borrando de rir e, ainda, tentando interagir com o ator. O ponto alto foi quando Sterblitch se referiu a nós como “riquinhos nojentos” que se recusam a dar esmola pra mendigo porque ele gasta com bebida. “Deixa ele beber, porra!”. E tome risada.
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