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POR EM 06/01/2012 ÀS 03:13 PM

Oração de um homem gentil

publicado em

Como eu já suspeitava, repercutiram mal, entre alguns leitores, os textos que eu escrevi a respeito do Natal e do Ano Novo. Neste Natal, vá se lascar! e Coisas que não fiz neste ano e, com certeza, não farei no próximo. Terrorismo da palavra, creiam. Ou falta de paciência com o consumismo. Ou simples falta de inspiração do que escrever. 

Acostumados a levarem as suas vidas e as dos outros muito a sério, a se prenderem mais às linhas do que às entrelinhas, alguns leitores declararam-se abismados, preocupados ou mesmo indignados com tamanha grosseria nas minhas agudas crônicas natalinas. “Tanto rancor não lhe cai bem, meu chapa”, diagnosticou um amigo não-médico, sem recomendar um padre, um chá, uma pílula ou um livro sequer. 

Portanto, na minha tarefa impertinente de levar a dúvida onde houver a fé, quase sempre desagradando gregos, troianos e paroquianos, concebi uma paródia (os mal humorados haverão de considerar uma blasfêmia), uma vez que a inspiração minguou, a Rita levou o meu sorriso e meu nome foi parar no Serasa. Vocês nem imaginam: tirar o nome da gente de listas negras é uma tarefa inglória. Rogo, portanto, aos gregos e aos troianos, aos flamenguistas e aos corintianos, aos puritanos e aos que tomam sais de lítio duas vezes ao dia por tempo indeterminado que perdoem os meus excessos, assim como fez Jesus à cantora Madonna. Afinal, Natal é época de perdão. 


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POR EM 06/01/2012 ÀS 11:37 AM

Papelaria paraíso

publicado em

Há um mês tenho matutado incessantemente sobre para onde vamos após a morte. Essa ideia me acomete apenas quando morrem pessoas jovens próximas do meu entorno, que deixam em nós que ficamos uma sensação de fome lá no fundo do estômago. Não desdenho os demais mortos no mundo, mas só esse vazio me faz revisitar uma convicção que há muito já está cimentada em mim.

Estou certa de que, após a morte, não há nada. Na verdade, mais do que acreditar nela, eu torço humilde e silenciosa e fervorosamente para que ela se confirme quando chegar a minha vez.

Oxalá as expressões "dormir o sono eterno" e "descansar em paz" sejam as mais literais que a lingüística* já produziu.

Falo isso só de mim, da minha morte, seja ela precoce, inusitada, chocante, instantânea, ou apenas uma passagem serena de uma velhinha centenária que não arrancará lágrimas de ninguém porque deixará para trás o sentimento de dever mais que cumprido. Quando chegar, que a morte seja a última coisa que me aconteça. Infelizmente, a nossa é a morte mais fácil que a vida nos obrigará a enfrentar. Antes dela nos assombram muitas que precisamos carregar conosco até o fim, e algumas me deixam envergonhada com tanta torcida egoísta. 


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POR EM 29/12/2011 ÀS 01:00 PM

Coisas que não fiz neste ano e, com certeza, não farei no próximo

publicado em

Parar com esta mania chata de fazer listas.

Cumprir nem metade do planejamento estratégico.

Deixar de escrever pra Revista Bula.

Amar o próximo como a mim mesmo. Eu não faria uma sacanagem desta com o próximo.

Conjugar o verbo amar com a mesma naturalidade que faço com o verbo comer.

Aprender a tocar sax. Nesta idade, não tenho mais fôlego para tanto. Quem sabe, uma gaita ou um apito de caçar marrecos.

Caçar marrecos. Atirar num pássaro. Manter algum deles preso numa gaiola.

Compreender a mente de uma mulher e como funciona uma torre de controle do tráfego aéreo de um aeroporto como o de Miami.

Simplesmente aceitar que as pessoas mentem mesmo, que tudo isto é normal, meu chapa.

Jogar moedas na mão de um pobre coitado. Lavar as mãos.

Molhar a mão de um guarda de trânsito. Prefiro a multa.


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POR EM 23/12/2011 ÀS 05:13 PM

Neste Natal, vá se lascar!

publicado em

Para início de conversa, eu espero que lhe seja sorteado como “amigo oculto” o nome daquela cunhada que você mais odeia. Sim, porque, cá entre nós, tem muita gente na família que você não suporta de jeito nenhum, não é mesmo? Aguenta só porque é parente, né verdade? 

O mais hilário para mim (e dramático para você) será que, nas negociações de bastidores, ninguém aceitará “trocar os papeizinhos”, pelo simples fato de a tal cunhada ser mesmo uma megera, uma das figurinhas mais impopulares no clã, uma criatura tão pouco palatável quanto você. Já vai pensando aí no vocabulário prolixo-falacioso (os elogios falsos) que vai vomitar na “grande revelação” (como se todos ainda não soubessem que você mente à beça...). 

Mesmo com sorrisos congelados nas caras, a maioria dos convivas vai lhe considerar um pouquinho mais hipócrita que o habitual. Poucas vezes se ouviu tamanha enganação. Quer saber o que mais? O seu outro “amigo oculto” vai lhe presentear com um CD de música erudita. Só pra contrariar as suas duvidosas preferências musicais que flutuam entre o fanque-poposudo e o téquino-brega-vagino-uterino. Outro ponto máximo da sua atuação naquela noite, do seu desvelo em metamorfosear, transmutar, parecer quem não se é, será o momento da oração ao redor da mesa, quando movidos pelo empurrãozinho de um ancião, todos forem convidados (praticamente intimados, diga-se) a darem as mãos formando uma grande corrente. Sem exagero: bem que poderiam enforcá-lo com a tal corrente... 


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POR EM 22/12/2011 ÀS 10:56 AM

Precisamos aprender a lição

publicado em

Há poucos dias fomos alvo de brincadeiras nos jornais do mundo todo, principalmente nos espanhóis. E mexeram justamente em nossa ferida, ou aquilo que a grande mídia elegeu como tal: o futebol. Numa das manchetes publicadas em Barcelona, lia-se o belo trocadilho “Deuses e Santos”. 

Bem, o fato de o Santos Futebol Clube, ou seja lá qual for seu nome completo, ter perdido para uma equipe espanhola, teria sido digerido com a maior facilidade, não fôssemos o “país do futebol”.  A mídia, sobretudo a grande mídia, que em um de seus segmentos vive à custa do esporte, cria uma expectativa, forjada à base da repetição (técnica de Goebbels?), que muitas vezes não encontra base na realidade. 

Primeiro, nos convencem de que o Santos é o Brasil. E não é. Depois vão formulando por vias indiretas o silogismo “Se o Brasil é o melhor do mundo (a premissa maior já é uma falácia) e o Santos é o Brasil (premissa menor é outra), (conclusão) o Santos é o melhor do mundo. Ora, com duas premissas falsas eles criam a tal da expectativa que só pode redundar na frustração dos torcedores, pois não acontece o que se espera. 

Mas deixando a lógica menor de lado, o fato é que perder para o Barcelona, como muita gente assinalou, não é desdouro nenhum. Concordo. Mas perder de 4 a zero, bem, amigos, aí já é mais difícil de engolir a pílula. Já me parece um caso de humilhação. E não vamos cair na besteira de pensar no Brasil de joelhos perante a Espanha. Calma lá. Isso é só o futebol. Se a competição tivesse como objeto o analfabetismo, o desemprego, o desenvolvimento das ciências, o nível da saúde pública e do desenvolvimento intelectual de seu povo, sei lá, se fosse algo mais sério, então seria o caso de nos preocuparmos.  


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POR EM 20/12/2011 ÀS 10:59 PM

Caso a gente sobreviva

publicado em

Foi proposto que eu escrevesse uma carta retrospectiva do ano de 2011, visceral e melenta, porque é fim de ano e vem Natal e normalmente o balanço anual nos leva às lágrimas, felizes ou pesarosas.  O plano era me aproveitar desse momento sensível geral e melancolizar. Sucesso de tweets, retweets e curtição no Facebook. Sem mencionar os comentários por aqui... Mas seria falso e por enquanto, por aqui, consegui ser verdadeira. Ou superficialmente honesta. 

Devo confessar, que muito embora as resoluções para 2011 não tenham se cumprido, este fica como um dos melhores anos da minha vida. Das melhores trepadas, dos novos e provavelmente eternos amigos, da mudança profissional. Do triunfo do tempo que cura, sobre a pressa que fere. Da pressa que atropela, sobre o medo que paralisa. 

Do sentar e fumar um Marlboro no meio da madrugada para pensar. De escrever um SMS ou um e-mail cruelmente desnecessário (normalmente mais cruéis comigo que escrevo do que com quem recebe). Ou humilhantemente apelativo. E não escrever a maioria deles. Uma vitória ou um alívio. Ser uma escritora menos dramática e mais calada.  Exceto quando tudo transborda e a página em branco se enche de caracteres e meu micro universo de leitores se enche de olhos que provavelmente sangram por mais tempo do que eu.Meno s drama, muito menos drama. Naveguei águas menos turbulentas em 2011. Algumas tempestades, todas importantes para aprimorar minhas habilidades marinheiras. 


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POR EM 19/12/2011 ÀS 02:39 PM

A enfermeira histérica e a nação infantiloide

publicado em

O estado patriarcal deste início de século XXI transformou o homem moderno numa massa uniforme de insegurança. O isolamento predominante nas grandes metrópoles modificou o caráter social do ser humano, despertando uma carência afetiva que precisa ser alimentada no mingau ralo dos substitutivos emocionais. A internet e os animais de estimação acabaram assumindo o papel de companheiros matrimoniais. Não é de se espantar a onda de indignação que varreu a grande rede após a divulgação de imagens de uma enfermeira espancando até a morte um cachorro da raça Yorkshire, em Formosa, no Estado de Goiás, na sexta-feira, 16.

O filósofo Janer Cristaldo abordou a estranha relação entre homens e animais no livro “O Paraíso Sexual Democrata”, uma ácida análise da social democracia na Europa e especificamente na Suécia. Ele cita a legislação alemã como um exemplo de desvirtuação proporcionada pelo politicamente correto no estado de bem-estar social. “A lei dispõe que um cão pastor necessita de 12 m² para habitar, enquanto um imigrante necessita de apenas 8 m²”. Citando o zoólogo Desmond Morris, o livro toca no ponto central do drama infantiloide vivenciado pela população dos países desenvolvidos e em ascensão econômica: “Afeto todos têm a oferecer, o problema é recebê-lo. O cão aceita incondicionalmente toda ou qualquer manifestação afetiva, sadia ou neurótica, expressada em pontapés ou afagos. Daí seu status”. A quebra dos laços sociais alçou os animais de estimação à categoria de senhores absolutos. Não se aprende mais lições de vida com iguais, mas com cachorros e gatos, como atestam best-sellers como “Marley & Eu” e a incontável soma de genéricos da mesma lavra que tomaram de assalto as prateleiras das livrarias nos últimos anos. Cães e gatos muitas vezes recebem uma fatia maior do orçamento familiar do que os próprios filhos, isso quando eles não são completamente substituídos pelos seres de cauda. 


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POR EM 16/12/2011 ÀS 02:21 PM

Pipere on culus de allis, refrigerium est*

publicado em

Era um homem sem estudos, mas não era um sem vergonha. Antigamente, funcionava assim mesmo: a maioria das pessoas sofria, tinha um interesse medular, nevrálgico, irremovível em manter a dignidade e a própria honra. Hoje em dia, de dólar na cueca pra baixo, há todo tipo de canalhice. 

Conservador e apegado aos ditames de outrora, ele acreditava piamente que o trabalho enobrecia o homem. Então, trabalhava. Mesmo aposentado, trabalhava. Queria não depender dos filhos, dos genros, das noras, dos netos, das merrecas do INSS e das esmolas do governo. De tal forma que preferia não mendigar as tais bolsas assistencialistas. Já estava decidido a trabalhar enquanto suportasse. Se possível, até morrer. 

Pobre estuda pouco, vocês sabem. Então ele estudou o tempo suficiente só para aprender a desenhar o nome e reconhecer os numerais. O básico da aritmética, das operações de somar e subtrair, ele também deu um jeito de aprender, que era pra contar dinheiro corretamente e evitar que alguém lhe passasse a perna. 

Certo dia, um político candidato bateu palmas no portão da sua casa, sorriu até dar cãibra no rosto, filou café, pediu votos à família e ofereceu emprego fixo pra ele no Posto de Saúde do bairro, perto do terminal de ônibus. “Salário mínimo. Nunca antes na história deste país o salário mínimo esteve tão valorizado. Quase 300 dólares. E é contrato especial, meu chapa. Tenho os canais. Sou amigo do prefeito, da Primeira Dama, do Chefe de Gabinete, do Secretário da Saúde, do...”, ele se gabava e babava. 


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POR EM 13/12/2011 ÀS 11:29 PM

Tio Vânia, de Tchékhov, pelo Grupo Galpão

publicado em

No último final de semana arranquei-me de casa, finalmente. Já fui muito saideiro, mas tenho ficado cada vez mais neurótico pra isso. Não é só o trânsito infernal de Goiânia, nem o risco de assalto (que, diga-se, nunca me aconteceu aqui ou alhures). Não é só a falta de educação das pessoas na rua, nos shoppings, nas salas de cinema, salas de concertos, teatros. Não é apenas por causa de minha neurastenia progressiva. É preguiça mesmo. Caprichei em meu Home Theater e em minhas coleções de filmes, peças de teatro filmadas, concertos, etc. Daí fico em casa mesmo.

Mas, como disse, nesse último final de semana, saí. E não me arrependi. Fui conferir a montagem do grupo mineiro Galpão para “Tio Vânia”, de Anton Tchékhov. Tinha dois bons motivos. O Galpão. E Tchékhov, que considero filosoficamente superior a Dostoiévski, Tolstói e Turgueniev juntos. (Não estou com vontade de fundamentar essa afirmação aparentemente leviana, de forma que você, que começa a espumar pelos cantos da boca, contenha-se, porque de nada adiantará). Há ainda um terceiro motivo. Woody Allen. Isso mesmo, sou tão fanático (portanto não isento), que consigo ver chifre em cabeça de cavalo. Explico-me. Um dos melhores filmes de Woody é “Hannah e Suas Irmãs”. Foi sucesso de público e crítica (“sucesso” para um filme de Woody é fracasso para um de Spielberg, de forma que devemos guardar as devidas proporções), mas ele mesmo o deplora. Por quê? “Hannah” é de inspiração declaradamente tchekohviana. Pra começo de conversa, não por acaso as irmãs são três. Mas é outra peça do médico russo que vale discutir aqui.


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POR EM 13/12/2011 ÀS 10:13 PM

Chaves do inferno

publicado em
Roberto Gómez Bolaños, apelidado, num exagero quase perdoável, de “Pequeno Shakespeare”, é o criador de uma das mais sutis, brilhantes e temíveis representações do inferno em qualquer das artes: o seriado “Chaves”
 
Sartre escreveu em sua famosa peça “Entre Quatro Paredes”, de 1945, que “o inferno são os outros”. Não existe uma definição universalmente aceita sobre o conceito de in­ferno na tradição teológica oci­dental. Segundo o historiador Jean Delumeau, no livro “Entrevistas Sobre o Fim dos Tempos”, o catolicismo tradicional, apoiando-se em Santo Agostinho, apregoava a “existência de um lugar de sofrimento eterno para aqueles que tiverem praticado um mal considerável nessa vida e dele jamais se tenha arrependido”. Essa noção, um tanto incongruente com a imagem de um Deus misericordioso, não prosperou fora do imaginário po­pular, sendo substituída pela so­lução do Purgatório, desenvolvida no século II, sobretudo, por Orígenas. Nin­guém mais estaria condenado para sempre, embora, excetuando-se os santos, todos tivessem que passar por um período variável de purificação, com a garantia da salvação ao final. Santo Irineu discordava. Para ele, “os pecadores confirmados, obstinados, se apartaram de Deus, também se apartaram da vida”. Portanto, após o julgamento final, os condenados seriam simplesmente apagados da existência. A polêmica continuou pelos séculos dos séculos, com novos debatedores: Tomás de Aquino, Lutero, Joaquim de Fiore. Na literatura, Dante e Milton criaram visões poderosas do inferno. O trio de condenados de Sartre, os cenobitas sadosmasoquistas de Clive Barker e os pecadores amaldiçoados de Roberto Bolaños são recriações contemporâneas perturbadoras. Sim, Roberto Bolaños. Não, não se trata do falecido ficcionista chileno Roberto Bolaño (1953–2003), autor do calhamaço “2666”. O Bolaños com S é um artista infinitamente superior. Refiro-me ao ator, escritor e diretor mexicano Roberto Gómez Bolaños, apelidado, num exagero quase perdoável, de Chespirito, ou “Pequeno Shakespeare” à mexicana. Ele é o criador de uma das mais sutis, brilhantes e temíveis representações do inferno em qualquer das artes: o seriado “Chaves”. Se, conforme ensinou Baudelaire, “a maior artimanha do demônio é convencer-nos de que ele não existe”, podemos concluir que esse mesmo demônio não iria apresentar seus domínios por meio de estereótipos: escuridão, chamas, tridentes, lava. Em “Chaves”, verdadeiramente, “o inferno são os outros”.
 

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