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BRASIGOIS FELÍCIO
EM 05/03/2010 ÀS 07:01 PM
É estranho e lastimável o poder que um político no poder tem sobre os cidadãos que o elegeram: quando concentra grande poder em suas mãos (ou quase todo poder de mando existente), torna-se um autocrata esclarecido, isto quando não é da espécie dos autocratas ignorantes — e são desta grei os mais autoritários, e os que se mostram mais auto-suficientes.
Uma vez entronizados no poder, e tendo em mãos a caneta que nomeia e demite, manda estiar ou chover, não raras vezes sucumbem à tentação de concentrarem em sua vontade os três poderes da República. Alguns (os mais perversos e doentios) demonstram sentir prazer em humilhar pessoas que as procuram, pedindo coisas, muitas vezes justas e merecidas, cujo atendimento seria natural de se esperar ou se exigir de uma autoridade pública.
Fazem pessoas sérias e honestas esperar horas a fio, nas ante-salas dos gabinetes, sabendo de antemão que não as receberão. Mas ainda assim fazem-nas esperar, sem tirar a esperança, em um jogo sádico, de gato e rato, como a dizer quem está no comando, e quem está no papel de solicitante. É a inflação do ego, a que vocacionados para o despotismo sucumbem, possuídos pela certeza de serem deuses encarnados, que vieram a este mundo para tanger as massas com a mesma autoridade com que o vaqueiro conduz o seu gado até o matadouro do sacrifício ao lucro.
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MENALTON BRAFF
EM 03/03/2010 ÀS 11:01 AM
Levantei hoje com aquela sensação na boca do estômago geralmente chamada de náusea, que é a sensação causada pela certeza de que o planeta dá voltas em volta de si a uma velocidade terrível, e que a história, este cronicão das sociedades que vieram depois da pré-história com seus registros, não fica atrás dando voltas como louca.
Como andei fossando em livros que relatam a queda de impérios, para escrever meu romance “A Muralha de Adriano” (que não é um romance histórico quanto aos fatos, mas tem um viés alegórico relacionado à queda dos impérios), me vieram à lembrança aspectos do Império Romano em seu processo de decomposição.
Em geral quando se pensa na invasão do Império Romano atribuída aos bárbaros, imagina-se uma horda de homens de cabeleiras loiro-sujas montados em cavalos semi-selvagens que, a galope e aos gritos, ultrapassa as fronteiras do Império devastando plantações de trigo, destruindo pontes e estradas, ateando fogo nas aldeias, estuprando belíssimas e virginais camponesas romanas. Enfim, invasão de bárbaros deve ser uma invasão bárbara. E o cinema ajuda muito a manutenção de algumas falsas verdades.
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EBERTH VÊNCIO
EM 02/03/2010 ÀS 04:40 PM
O jogo estava equilibrado. Zero a zero. Estádio lotado. Bandeiras deflagradas. Foguetório. Cheiro de enxofre. Animação total das torcidas uniformizadas. De repente, um lance polêmico, e o árbitro se engana, comete um deslize. Ele tem olhos bem humanos (ao contrário do que afirmam os comentaristas e seus video-tapes), e erra. “É claro que foi pênalti”, garante o locutor inflamado do alto da sua cabine.
Ecoa o refrão: “Vai morrer! Vai morrer! Vai morrer!”. São cerca de vinte mil pessoas, numa só voz, hostilizando, ameaçando o homenzinho de uniforme preto. Estão todos muito agitados, mas o jogo segue. É isto, é apenas um jogo, mas parece uma batalha. No campo, um atleta quebra o nariz do colega com uma cotovelada bem encaixada.
O clima esquenta. Os jogadores se cospem nos rostos e trocam empurrões. A polícia, devidamente orientada por uma matilha de cães, invade o campo. Começa a pancadaria. O público permanece extasiado. Um pequeno grupo de torcedores do time visitante começa a ser linchado. Jogam sobre eles assentos de cadeiras e pedaços de concreto. A maioria aprova o ataque, afinal, são torcedores do time adversário, ou seja, não passam de inimigos. Ambulâncias conduzem os feridos. Os ânimos são contornados dentro das quatro linhas. Recomeça a partida. Assim como no início, termina empatada. E a vida muda muito pouco por causa de um jogo. Mas o resultado desagrada a todos. Os jogadores, estrelas maiores do espetáculo, concedem entrevistas, cometem inúmeros erros de concordância, transferem para o árbitro o ônus do “fracassado empate”, prometem revanche, tomam uma ducha gelada e vão para casa crendo mesmo que são notórios artistas.
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EULER DE FRANÇA BELÉM
EM 27/02/2010 ÀS 10:44 PM

Há viciados em cocaína, crack e tranquilizantes. Os chefes do regime comunista da dinastia Castro são viciados em repressão e dependem dela para manter o poder. Não há outro instrumento adequado. Quando a União Soviética acabou, sem o patrocínio financeiro dos comunistas da terra de Lênin e Stálin, Cuba quebrou e não mais saiu da UTI, junto com Fidel Castro. Daí especialistas do governo, certamente orientados pelo serviço (nada) secreto — treinado pela terrível Stasi, a polícia política da Alemanha Oriental —, aconselharam a se criar uma “frente diplomática” com narcotraficantes de um cartel da Colômbia. Cuba era usada como entreposto para a cocaína chegar aos Estados Unidos. Tudo ia muito bem, com o governo cubano obtendo dólares fartos e fáceis, até a CIA descobrir a história e os Estados Unidos alertarem oficialmente o rei Fidel e o príncipe sem-sorte Raúl Castro. Como não podiam assumir que o governo trabalhava para narcotraficantes internacionais, como parceiros bem remunerados, os governantes fizeram o que as ditaduras fazem: mandaram para o paredón todos aqueles supostamente envolvidos com o negócio de cocaína. Aliados de Fidel desde a Involução de 1959 foram julgados, por uma Justiça viciada e política, e, alguns, condenados à morte. O general Arnaldo Ochoa, veterano de várias jornadas, inclusive na África — chegou a esboçar um plano ousado para invadir o Brasil, a partir da Amazônia —, foi condenado à morte. Os Castros saíram ilesos e alegaram nada saber do que estava ocorrendo debaixo de seus olhos. Cuba é um Estado policial e, como tal, os Castros sabem de (quase) tudo que ocorre na ilha, ainda mais quando se trata de uma questão grave como o tráfico de cocaína. Não há registro de que o PT e Lula da Silva, que ainda não era presidente, tenham protestado contra o fuzilamento dos cubanos. Ao comentar o “assassinato” do preso político Orlando Zapata Tamayo, depois de 85 dias de greve de fome, o chanceler do governo Fernando Henrique Cardoso, Luis Felipe Lampreia, disse a coisa certa à “Folha de S. Paulo”: “Eles são uma ditadura. Não adianta tentar influir, conversar. Isso é inútil”. Mas Lampreia frisou que a diplomacia brasileira deveria ter se manifestado, condenando a ação do governo cubano, que mantém presos cerca de 200 oposicionistas, segundo a Anistia Internacional. 65 são considerados “presos de consciência” pela Anistia. O ex-ministro tem razão quando diz que o governo de Lula “blinda” os amigos-ditadores.
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MENALTON BRAFF
EM 25/02/2010 ÀS 02:37 PM
Houve um tempo que tudo me parecia eterno. Era um mundo parado, sem movimento, em que o verbo esgotar não entrava. Meu pai era um homem imenso, seus poderes não tinham limite. Era um tempo e um mundo muito confortáveis. Não tinha muita consciência de mim mesmo, quando acordava para a vida, e me parecia que os seres, como eu, teriam para sempre o mesmo formato e o mesmo tamanho congelado com que os via.
Depois vieram tempos mais modernos, em que a desconfiança passou a gerir os negócios dos homens. A desconfiança e a convicção de que um dia não haverá mais florestas, então os rios poderão estar secos; não haverá mais água potável, porque os aquíferos já foram poluídos ou também secaram. Tempos secos, serão aqueles. O Loyola, quando escreveu “Não Verás País Nenhum” estava profetizando, ele, que não é um profeta profissional, mas como diletante tem acertado muito, pois estamos bem perto das bolhas de calor que ele descobriu antes de todos nós. Alguém viu onde foi parar a gasolina? Só os mais velhos, conservados ainda como arquivos da memória humana, só eles ainda saberão o que era a gasolina. Vivemos em tempos de buracos negros, de camada de ozônio, de tsunames, el niño, e tantos outros tormentos com que a natureza nos ameaça. Nossos avós deitavam-se à noite e dormiam pensando em um mundo amigo, meio compadre da gente. Nossos avós. Porque os avós de uns outros por aí dormiam pensando em como transformar a natureza em lucro. E transformavam.
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EBERTH VÊNCIO
EM 23/02/2010 ÀS 02:51 PM
Não se trata de uma animação dos estúdios Disney, nem de uma fábula de La Fontaine. Maria Antônia quer sim se casar. A piauiense é enfermeira, “encalhada” (como ela mesmo se declara) e garante correr contra o tempo na busca por um grande amor.
Entre um curativo e outro, a simpática enfermeira reclama que aqui nesta cidade o “índice de viadagem” (de novo, palavras saídas da boca de Maria Antônia) está elevadíssimo, e ela não consegue namorado de jeito nenhum. Conversando com amigas, todas, assim como ela, emperradas na solteirice, Antônia desconfia que haja muito hormônio na carne bovina que se consome na região, fator responsável pelas alterações nas gônadas de homens e mulheres.
Quem sabe — ela teoriza — não haja uma sabotagem na empresa de saneamento que abastece a cidade com água tratada. A suposta proliferação de algas azuis (e de outras cores do arco-íris) produziria toxinas danosas ao DNA celular, fazendo com que homens preferissem homens, e mulheres perdessem a delicadeza. Maria Antônia planeja mesmo é voltar pro Piauí, “terra onde os homens não negam fogo”. Lá se toma água diretamente no poço... Também oriundo do Nordeste brasileiro, um general das Forças Armadas (e que tem nome de cabra-macho) fez, recentemente, uma declaração polêmica à Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Indicado para ocupar uma vaga no Superior Tribunal Militar, o general foi sabatinado (e sacaneado) pelos senadores. Lá pelas tantas, eis que brota a capciosa questão: “ — O senhor é favorável à presença de homossexuais nas Forças Armadas?”.
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FLÁVIO PARANHOS
EM 20/02/2010 ÀS 04:16 PM
Assistia “Capitu”, série da Globo dirigida por Luiz Fernando Carvalho, com o intuito de escrever a respeito em minha coluna de Filosofia & Cinema na revista “Filosofia Ciência e Vida” (Editora Escala, momento propaganda), quando aproveitaria para falar sobre a virtude da coerência, valendo-me do gancho de minha polêmica com o escritor Domingos Pellegrini, no jornal literário “Rascunho” (outro momento propaganda, estou parecendo até o filme “Amor sem Escalas”, uma propaganda atrás da outra).
(O link para o citado artigo no “Rascunho” vai aqui mas para quem tiver preguiça de buscar e ler, resumo: Pellegrini critica “Dom Casmurro” por ter um personagem de moral duvidosa (Bentinho), desaconselhando-o para colegiais, mas, ao mesmo tempo, confessa nunca ter lido pra valer, parasitando seus colegas nos trabalhos de escola).
Enfim, assistia “Capitu” no conforto de minha casa, quando, numa das cenas inicias, ouvi Dona Glória (mãe de Bentinho) soltar um “onde” no lugar de um “quando”. Li “Dom Casmurro” sei lá quantas vezes, não me lembrava dessa derrapada de Machado. Transcrevo abaixo a versão da TV:
— Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar. Basta a idade; Bentinho mal tem quinze anos. Capitu fez quatorze a semana passada; são dois criançolas. Não se esqueça que foram criados juntos, desde aquela grande enchente, há dez anos, ONDE a família Pádua perdeu tanta coisa; daí vieram nossas relações...
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BRASIGOIS FELÍCIO
EM 17/02/2010 ÀS 03:02 PM
Quem teve sua existência levada pela senda do desespero, mas não perdeu de vista a esperança, conseguiu o milagre de confundir sua vida com a poesia. Na lucidez do compromisso de querer ser feliz, rompeu o casco espesso de chumbo da solidão e viu o rosto de Deus no oceano da solidariedade. Sendo o passado e o futuro ilusões da mente, só o instante que passa — só o presente é realidade, e só poderemos ser felizes nos momentos em que nos sentimos dadivosos e receptivos, alegres e confiantes.
Toda cegueira e limitação consiste em só colocarmos em ação a parte pequena que temos dentro de nós. Ao conseguir colocar para agir a nossa parte divina, veríamos as coisas tais como são, isto é, infinitas. “A vida são muitos dias”, escreveu o poeta T.S. Eliot. Quando se deparar com um problema que o angustie e deprima, pense como lhe parecerá pequeno daqui a dez anos. Tudo passa, como passam as águas e o vento. Daqui a dez anos os problemas serão outros, e nós também. Sobre o projeto de grandeza ou pequenez que cada um pode levantar e executar, a partir de seu sol interior, assim falou Confúcio: “Aqueles que seguem a parte de si mesmos que é grande serão grandes homens. Aqueles que seguem a parte de si mesmos que é pequena se tornarão pequenos homens”. No princípio tudo era oculto. Mas para que existe o oculto, senão para ser revelado? Os homens primitivos tinham a graça de contar com os símbolos, para decifrar os enigmas do universo, e os mistérios da natureza.
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EBERTH VÊNCIO
EM 14/02/2010 ÀS 11:32 AM
As águas vão rolar. Cerveja e cachaça na garganta. Mijos disfarçados pelas sarjetas: o toalete é mesmo ali, nas ruas, esquinas e becos do Brasil. Quem se importa? Carnaval é assim mesmo, gente. Sórdida tolerância. Farra. Alegria. Samba no pé. Urgência miccional e muito cheiro de amônia quando o sol aparece. Ai, meu Deus, por que me sinto tão por fora nas festas de Momo?!
Teoricamente, o feriado de carnaval começa hoje (esta crônica foi escrita no sábado, dia 13), mas não se fala noutra coisa nos últimos quinze dias. Mesmo com o ínfimo tempo desperdiçado com a televisão, acompanhando notícias nos telejornais, constato que o assunto domina a mídia. Será que o carnaval faz bem pro PIB e eu não sabia?
Confesso: eu não suporto tanta alegria assim. Ou estou ficando velho e intolerante (curso natural da existência?), ou acometido por algum tipo de surto depressivo. Se tivesse que escolher uma fantasia para sair pulando desembestado atrás de um trio elétrico, escolheria aquela do flagelado haitiano, do paulistano naufragado, ou do político corrupto com cédulas amontoadas nas meias e cueca.
Detalhe de última hora: o Arruda, apesar do sortilégio do nome, não teve sorte, em absoluto, e vai assistir ao desfile das escolas de samba pela TV de um quartinho na Polícia Federal. Se os advogados não emplacarem um “habeas corpus”, só sai do confinamento depois do feriadão.
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VALDIVINO BRAZ
EM 12/02/2010 ÀS 01:43 PM

Com as denúncias sobre a grande fraude, haverá mesmo, nessa pendenga do aquecimento, algo de podre para além do reino da Dinamarca, só que num sentido oposto ao que se pensa ou antes se pensava? Para o leigo, perdido na Torre de Babel, a coisa vai ficando meio confusa, brumosa, como se fosse uma cortina de fumaça — intencional, alguma “jogada” para confundir a opinião pública? —, e vai daí que ele fica por aqui feito um capiau — sem conotação pejorativa, mas no sentido de gente simples — cujo rio secou; o capiau agora sem a vara de pescar, pois já não há peixe nenhum. Tem água em que não se fisga sequer um girino, embrião de sapo, quanto mais um lambarizinho. Eu mesmo, que lambari logro pescar aqui com estas elucubrações sobre flatulência e aquecimento global? Se muito do que se diz de importante para a humanidade entra por um ouvido e sai pelo outro, fica-se o dito por não-dito; e por onde será, então, que ele se enfia? Deixe-me ver se advinho...
Enquasnto isso, reflita-se sobre as palavras de Adolfo Pérez Esquivel, ativista político e Nobel da Paz argentino, que defende a tipificação dos crimes ambientais como ofensas contra a humanidade, e que estes sejam julgados na Corte de Haia. “Todos os que, de alguma forma, ameaçam a vida dos bilhões de habitantes da terra, precisam ser punidos”, ressalta Esquivel. Tipificação dos crimes? Se, por outro lado, aqui no Brasil, tipificarem a corrupção como crime hediondo, conforme se propõe para este ano, já estará de bom tamanho, penhoradamente agradeceremos, pois certamente teremos um país mais arejado para respirar, menos poluído pelo rombos ou roubos praticados pelos descarados políticos, com alguma ajuda da incompreensível e absurda justiça brasileira.
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