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POR EM 29/09/2008 ÀS 02:23 PM

Sagan e a teologia da "cientificação"

publicado em


Carl Sagan é o grande ícone da divulgação científica mundial. Em seus últimos livros, “Bilhões & Bilhões” e “O mundo assombrado pelos demônios”, alerta-nos para o perigo do analfabetismo científico. Segundo ele, mesmo pessoas formadas na universidade desconhecem mecanismos básicos da natureza o que leva à uma confusão entre ciência com pseudociência ou ainda ficção científica.

Ele morreu em 1996, mas teve um livro póstumo editado e publicado por sua viúva em 2006 e agora traduzido para o português pela Companhia das Letras: “Variedades da Experiência Científica: um visão pessoal da busca por Deus”. Nele são transcritas as “Palestras Gifford” que proferiu em 1985 na Universidade de Glasgow na Escócia.

Os assuntos são os que sempre o dominaram e fazem parte daquelas questões fundamentais que aos sábados à tarde, o homem comum costuma formular: Como surgiu o universo? Existe vida em outros planetas? Deus existe? Porque tanta gente leva religião à sério? E este mesmo cidadão leigo, sonha suas “soluções fenomenais....., mas, no fim, o dia contará estórias sempre iguais” (lembram o Cotidiano do Vinícius?).

Sim, Carl Sagan é um craque em discutir a vida dos planetas e nos planetas e é ainda amparado por fotos e figuras maravilhosas de Saturno, cometas, nebulosas, Via Láctea, entre outras. Para mim, o livro vale pelas fotos, mas quer saber? o grande Sagan é um analfabeto religioso.

Na conversa sobre Deus e religião, ele é pueril demais, chegando mesmo à perguntar porque Deus criou a dor, mostrando que não tem a mínima noção do livre arbítrio, dizendo literalmente “...os argumentos teológicos naturais para a existência de Deus...não são muito convincentes..”. Verdade Dr. Sagan? Poxa, eu pensei que aquele matemático húngaro que foi entrevistado pelo Hélio Costa no Fantástico de 1977, tinha descrito a existência do Onipotente através de um conjunto de derivadas parciais, contando com o auxílio de álgebra não linear: “seja Deus, igual ou maior que x....”. Depois surgiram outros cientistas com o mesmo intuito, brincadeira feita anteriormente por Aldous Huxley no excelente romance “Contraponto”.

Mas compreendo que para Sagan seja difícil entender “o mistério da fé” de todas as religiões e crentes do mundo todo. Seria demais pensar uma só vez que um Deus que fosse explicado pela ciência, deixaria imediatamente de ser Deus? Isto violaria a “premissa” da divindade, isto é, que Deus não pode ser explicado em termos de energia ou partículas. A lua pode ser Deus? Não! Ela é um satélite que orbita a Terra.

Antes, que alguém diga “quem é este Ronaldo Zé Ninguém pra falar do Sagan?”, afirmo calmamente que estou seguindo apenas o conselho dele mesmo: nunca acredite na autoridade, e completo: principalmente quando ela foge de sua própria especialidade.

Então, quando depois de fazer muitas piadas alarmistas sobre uma possível guerra nuclear que destruiria o planeta, uma preocupação real dos anos 80 mas que evidentemente não ocorreu, diz que os líderes russos ateus não estariam indo contra sua lógica se atirassem os mísseis, mas os ocidentais sim, pois eles são cristãos!

Sr. Sagan, acho que agora, ao lado de Deus (sim, ele protege e recebe os ingênuos), o senhor já deve entender que há uma diferença fundamental entre ser cristão e ser Jesus Cristo, que esbofeteado, ofereceu a outra face e, posteriormente, a própria vida. Aliás, em “Bilhões & Bilhões” o senhor foi muito claro: um sistema (como o político-econômico mundial) só se mantém funcionando com a regra “tit-for-tat”: coopera com os outros primeiro e depois faz aos outros o que te fazem.

Sinceramente, acho que toda esta onda da “Teologia da Cientificação”, que prega que tudo tem que ser explicado por hipóteses testáveis ou por fortes evidências aprovadas por uma Sociedade Científica, é extremamente passadista. Voltaire já fez isto com muito mais elegância, mas ele era “apenas” um escritor e não um cientista que “conhece o mundo real”.

É chato quando a gente se desaponta com um ícone, mas claro, é muito bom. Antes que digam, deixo claro: o livro vale pelas figuras e os quatro primeiros capítulos. 


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POR EM 24/09/2008 ÀS 03:36 PM

Coisas mínimas II - miscelânea

publicado em


Realidade das coisas


O sol nasceu outra vez hoje.

A Realidade das coisas consiste em sua persistência forçando a si mesmas ao nosso reconhecimento. Se uma coisa não tem uma tal persistência, é um mero sonho. Realidade, então é persistência, é regularidade [o que introduz a categoria da Terceiridade. Linguagem verbal é uma parte ínfima, muitíssimo ínfima mesmo dessa categoria. Aqui é preciso entender a noção de categoria como conceito geral. No Caos original, onde não havia nenhuma regularidade, não havia existência. Tudo era um sonho confuso. Isso nós podemos supor foi no passado infinitamente distante. Mas na medida em que as coisas estão a ficar mais regulares, mais persistentes, elas estão a ficar menos plenas de sonhos e mais reais. (Charles Sanders Peirce).


Real e existente

Real e existente são coisas diversas. O existente é o reino do concreto, da compulsão “bruta”. Para além dessa faceta da realidade, que nos é por demais familiar, há também o acaso (qualidade, possibilidade) e a lei. O dia ou sol que nasce e morre hoje independentemente daquilo que pensamos, é o mesmo sol de ontem e não outro. Por isso trata-se de uma possibilidade real, que ele irá nascer amanhã, novamente. E a experiência mostra que uma crença em tal fato é verdadeira.


A metáfora da serpente

A metáfora da serpente, um ser vivo, sendo usada para descrever o drama Shakespeariano, faz lembrar Valéry, traduzido por Augusto de Campos - PENSER (PENSAR): SERPENT (SERPENTE).


Estética: origem etimológica


O termo aesthetica deriva do grego aisthanesthai, que designa “perceber” (tanto pelos sentidos quanto pela inteligência); aisthesis: “percepção”; aisthetikos: “o que é capaz de percepção”.

Num primeiro sentido – que, aliás, é o seu sentido primordial – designa originalmente a sensibilidade [...], como tendo o duplo significado de conhecimento sensível (percepção) e de aspecto sensível da nossa afetividade. Deste modo, Paul Valéry podia dizer que: “A Estética é a estésica”. (Denis Huisman, “A estética”, p. 9).



Problemas da Estética

Alguém nos perguntou se, abstraindo-se de considerações morais ou culturais (como se isso fosse de algum modo possível), o atentado terrorista de 11 de setembro às torres do WTC, em Nova Iorque, não poderia ser considerado “estético”? É verdade que o “espetáculo” do avião se chocando contra a torre atrai na percepção, o que prova o fato de ter sido reproduzido centenas de vezes, desde então, e continuar despertando a atenção do público. Porém, certamente nenhum ser humano normal suportaria a mesma cena, repetidas vezes, caso ela nos mostrasse os corpos das vítimas queimando ou esfacelados, seus órgãos espalhados em meio aos restos do avião e do prédio. Essa imagem causaria repugnância até mesmo nos mentores do atentado - ainda que os mesmos pudessem se sentir reconfortados pelo sentimento de vingança contra o “inimigo”, o fato não poderia ser considerado “estético”.

[...]



Salva-vidas

Trouxemos o nosso barco até esta praia. Pusemo-lo na água, demos algumas voltinhas com ele e regressamos mais ou menos são e salvos até este ponto de nossa jornada. Viagens mais longas sempre necessitam de reparos. Sem esquecer do uso providencial do salva-vidas.


Perspectivismo (poema)

Livre ou aborrecido
O pássaro gira em círculos no céu
Suas asas molhadas, sob a chuva
Úmida
Traçando cálculos precisos.
Acaso não sonha ele
Com pés e mãos
Na terra
Livre de sua prisão?


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POR EM 23/09/2008 ÀS 05:05 PM

Professor - profissão maldita ?

publicado em


Nas últimas décadas, a questão salarial dos professores foi se agravando a tal ponto que, hoje, se constitui num dos principais gargalos da educação.

Houve épocas em que os professores gozavam não somente do respeito da comunidade, como também do reconhecimento das autoridades governamentais. Faziam jus a uma remuneração condizente com as responsabilidades do profissional que modela cidadãos, e recebiam salários similares aos que, contemporaneamente, recebem os juízes de direito, por exemplo. Mas é um tempo que já vai longe. E que poucos se recordam.

Com o objetivo de universalizar o acesso ao ensino, o governo encontrou no achatamento salarial uma estratégia – simplista e perversa - para financiar seus investimentos na educação. E perseguiu de forma tão obstinada esse objetivo que a parca remuneração acabou se tornando o motivo mais salientado pelos profissionais para justificar a evasão dos educadores para outros setores da economia.

Todas as pesquisas recentes evidenciam que os professores formados evitam o magistério. Os profissionais mais experientes abandonam o setor mal se deparam com a primeira oportunidade, enquanto os recém-formados sequer ingressam na carreira. Conduziria o magistério a uma profissão maldita?

A mais recente pesquisa sobre o assunto vem do Instituto Nacional de Pesquisas e Estudos Educacionais – Inep - do Ministério da Educação. E se ainda pairasse no ar qualquer sombra de dúvida, lançou para escanteio: os formados em Licenciatura sequer se aproximam das salas de aula, guardam da lousa a mesma distância que o diabo mantém da cruz. Os dados são reveladores e pela expressividade, chegam a chocar os mais desavisados. Na média, 71,2% deles não atuam no magistério. Estamos falando em média, conceito que - de alguma forma - ajuda a escamotear o problema, porque esconde a fuga que, em algumas áreas, beira a casa dos 90%.

O resultado da pesquisa mostra que não ocorre déficit de professores. Nos ensinos Fundamental (da 5ª a 8ª série) e médio atuam 1.049.099 mestres. A necessidade real, contudo, é de 725.991 profissionais para atender aos 15 milhões de alunos matriculados.

Quando se analisa a evasão dos profissionais da educação por disciplina, o quadro fica ainda mais desolador. Para se ter idéia, nos últimos cinco anos, dos 33.361 formados em Química, só 8.466 estão em sala de aula, apenas 25% não abandonaram o barco. Em Física, dos 18.158 diplomados, restaram 6.196 para lecionar.

As razões desse quadro caótico, de penúria e insustentabilidade? O próprio estudo do MEC sugere: os professores foram em busca de empregos com maiores salários.

É óbvio ululante que a crise que acomete a educação brasileira não se resolve num passe de mágica, simplesmente com o Estado atuando sobre a oxigenação da massa salarial do setor. Como é óbvio evidente que sem esta providência o setor jamais conseguirá responder às demandas da sociedade.

Resolver a questão da remuneração insuficiente dos professores deve ser prioridade das autoridades do setor. Conjugada com políticas eficazes de gestão que contemplem sistemas de cobrança por resultados, sem dúvidas, conduziria ao ambiente e ao cenário propícios, necessários para a qualificação da educação brasileira.


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POR EM 23/09/2008 ÀS 12:21 PM

A ilusão digital

publicado em

Para o professor Marcos Palacios

Mediado por interfaces várias, o homem se apropria da tecnologia e referenda o seu desejo de potência. O que antes era desconhecido, hermético, passa a ser natural, quando, conectado, brinca de deus ao ensaiar, com cores, formas e sons, o grande texto “mundo”. Com um simples toque, é capaz de viajar para as mais longínquas paragens e interagir – na ilusão de sua virtualidade – com outros mundos tão “reais” quanto os seu.

Cada mundo comporta suas peculiaridades, é preciso desvendar-lhe os códigos, as várias linguagens com as quais opera, para sentir-se inserto e dele apropriar-se. Qualquer descuido pode ser fatal, é preciso atenção total para não se deixar contaminar pelas pestes que rondam o ciberespaço, os monstros escondidos nos becos digitais, prontos para atacar o incauto navegador aventureiro.

Assim como o espaço real, o espaço digital também tem seus limites, qualquer desatenção pode custar caro ao transgressor, fazê-lo refém da própria astúcia, mas aí a pena deixa de ser virtual e passa a ser real. Cada um deve saber onde pisar, para não ser tragado pelos movediços links, ali postos, e embarcar num mar textual de mentiras e ciberilusão.
 
Para qualquer viagem é preciso precaução; as provisões devem ser suficientes para o embate da jornada; é preciso ter pleno conhecimento das vias a serem percorridas, para isso o viajante deve munir-se de bússola e mapas, é preciso não confundir as sinalizações, pois como disse o poeta: “Navegar é preciso, viver não é preciso”, mas essa precisão pode ser relativa, caso o navegante desconheça os códigos.

Depois de assegurar-se das dificuldades da viagem, de conhecer o percurso a ser seguido, e dominando aquilo que é básico a qualquer internauta/cidadão, colocamo-nos nos nossos assentos, na cadeira de nossa escrivaninha, e ali viajamos por mundos, até então inimaginados, à procura de novidades, notícias, inventos e/ou por simples curiosidades.

Basta um cabo, ou um sistema que nos permita uma conexão, para mergulharmos hipertextualmente nessa vastidão digital de convivências nem sempre amistosas, mas necessárias, como podemos presenciar, cada vez mais, a proximidade entre a blogosfera e a midiasfera, uma se alimentando da outra, ou quem sabe, uma contribuindo com a outra:  pautando ou repercutindo fatos de uma humanidade há muito esquecida.

O que antes era espaço privilegiado da mídia, de quem detinha o poder econômico, passa a ser de todos, ou de pelo menos de quem quer e tem o que dizer como o são as revistas eletrônicas, como é o caso da Revista Bula, ou dos blogs, que vem crescendo no grau de importância e passam a ter status de formadores de opinião, ganhando espaço nas páginas virtuais de grandes jornais do país, como é o caso do Blog do Noblat, só para citar um exemplo, no jornal O Globo. 

Não sei o que nos aguarda, o que vem por aí, só sei de uma coisa, os saltos são grandiosos, como o que estou dando agora: da virtualidade do meu desktop, ao apropriar-me desses ícones todos,  componho este metatexto, iluminado pelas luzes de uma tecnologia que cada vez mais me seduz e que dela sou refém. Passamos a computar horas e mais horas de navegação, “sem lenço e sem documento”, tendo como bússola apenas a nossa vontade, o desejo de romper rumo, quebrar barreiras, superar limites. Iluminados pela seqüência númerica de “zeros” e “uns”, no limite dos sem limite, na finitude do infinito, um olhar sempre atento buscando na ilusão do que vemos a linguagem mais apropriada para acalentar as nossas horas de “solidão” e “tédio”, na sala de estar do nosso mundo real.


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POR EM 23/09/2008 ÀS 11:02 AM

Boca loca

publicado em


Responda aí dom Aurélio: depois de ter terminado de ler meu conto achas que eu sou muito louco? 

Respondo a você sir Maurílio: “Sem a loucura o que é o homem senão uma besta sadia?” (Fernando Pessoa).

Mas nesse caso, brother, dom Aurélio acredita que podes identificar alguma identidade entre nós?

Não sei querido her Maurílio, a única coisa que eu sei é que “Eu só serei eu na medida em que tu fores tu” (Heideger)

Admiro muito as coisas que dizes, hermano Aurélio, mas só vou enviar outro conto meu pra leres quanto sentir que criei algo mais absoluto.

Nada disso querido dom, Maurílio, escrevendo como escreves já devias saber que “O absoluto é aquele momento em que alguma coisa alcança a sua máxima profundidade, o seu máximo sentido, deixando, então, de ser interessante”. (Júlio Cortazar), e eu sei que não é isso que queres hermano.

Não é mesmo, sir, dom, Aurélio porque vivendo aqui tão distante do que se considera civilização eu quero mesmo é atingir a fortuna de escrever e ser lido e a fortuna de angariar fundos através da minha agência de publicidade e preparado para ambas porque “Quando a fortuna nos surpreende e nos dá ilustre posto, sem que a ele cheguemos por degraus, ou sem que a ele nos tenhamos elevado com as nossas esperanças, é quase impossível ali ficarmos bem e parecermos dignos de o ocupar, já nos ensinou o mestre (La Rochefoucaud), não achas?

Perfeito dom Maurílio tem toda razão, me lembrei agora de que Cortazar certa ocasião andava pela rue de vie em Paris e deu de cara com La Rochefoucaud que he perguntou: porque não comes maçâs no café da manhã em vez de pêras, são frutas mais humildes apesar de que nessas coisas não se deve ter humildade como bem ensinou outro mestre:

“O verme pisado encolhe-se. É a astúcia. Diminui, assim, a probabilidade de ser novamente pisado. E isso, na língua da moral, chama-se humildade” (Friedrich Nietzsche) como você bem deve saber já que, imagino, é também grande leitor de Nietzsche.

Não brother, her Aurélio, não conhecia essa conversa cotidiana entre os dois gênios e lhe informo que não sou um mero leitor de Nietzsche, sou absolutamente identificado com ele a ponto de sofrer quase que diariamente as mesmas cólicas que o atacavam com freqüência e acreditar que é minha a frase dele:“De que serve um livro que não saiba levar-nos para além de todos os livros?”

Nisso discordo frontalmente de Nietzsche, frater, dom , lord Maurílio porque não sei ainda hoje, mesmo sendo escritor, pra que serve um livro. Será que é para nos elevar ao sublime?

Mas “o que é o sublime? Parece que ninguém o definiu. É uma figura? Nasce das figuras de estilo ou pelo menos de algumas figuras?

O sublime aparece em todo o gênero de estilos, ou existe apenas nos assuntos elevados? (La Bruyère)

Como vê ainda estou em busca do sublime e do belo nas coisas que leio e escrevo.

Mas meu caro her, sir, dom Aurélio “O belo é, essencialmente, o espiritual que se exterioriza materialmente e se apresenta ao ser material” (Hegel)

Mais uma vez discordo e desta vez do Hegel e de ti porque acredito que “O belo, em arte e literatura é sempre verdadeiro: mas nem sempre o verdadeiro é belo” (Ernest Rietshel)

Pois é, dom, sir Maurílio há certa verdade nisso porque “O pior é que a beleza é tão misteriosa quão terrível. É uma luta entre Deus e o demônio, e o campo de batalha é o coração do homem”.(Dostoievski)

Será dom Aurélio? Será? Chupa essa manga.

Não sei dom hermano Maurílio, o que eu sei é que “É muito melhor amar prudentemente, não há dúvida. Mas amar doidamente é sempre melhor do que ser incapaz de amar” (Woody Allen)

Concordas, hermano?

Claro que concordo, considero esse cara muito melhor que Dostoievski, brother, hermano, dom Aurélio. O que ele fala e faz pra mim é lei.

Estás falando sério, brother, dom??

Eu também considero isso desde criancinha. Engula esse caroço.

Então nisso estamos em concordância, não é dom?

Claro, é nossa verdade em comum. “A nossa verdade possível tem de ser invenção, ou seja, literatura, pintura, escultura, agricultura, psicultura, todas as turas deste mundo. Os valores, turas, a santidade, uma tura, a sociedade, uma tura, o amor, pura tura, a beleza, tura das turas” (Júlio Cortazar).  Só posso rebater esta bela frase do bardo argentino com esta do bardo francês: “Nossos atos prendem-se a nós como a luz ao fósforo: fazem nosso esplendor, é verdade, mas tão somente à custa de nosso desgaste” (A. Gide)

Pirastes, dom, brother, hermano?  Eu estava falando de Woody Allen e Cortazar e me vens com frase sem sentido? Fala sério, dom...

Sem sentido sister, brother, dom? Pelo que vejo não aprendeste nada com o nosso maior escritor: “Cada um fala o que quer, o que conta é a dimensão da boca...” (Paulo Coelho)

Paulo Coelho, não, me poupa! Não tens mais o que fazer, não, dom Maurílio, ficas o dia todo aqui citando frases dos outros, é?

Até de escritores de segunda?

E tu, sir Aurélio, que respondes a todas as questões com citações copiadas de livros, também dedicas seu tempo a respostas como essas?

“O resto é silêncio” (Voltaire)

Só volto a falar contigo na próxima semana.

Vade retro sir satanás! (Jesus Cristo)
 


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POR EM 22/09/2008 ÀS 09:47 PM

Ópera

publicado em


Rigoletto, de Giuseppe Verdi, libreto de Francesco Maria Piave

Pra variar um pouco, uma ópera.

Há várias gravações de Rigoletto. A que tenho é conduzida por James Levine, do Metropolitan de Nova York, com Plácido Domingo no papel do Duque sacana. Aliás, a ópera é toda sacana. Rigoletto, o bufão que não perdoava ninguém e gozava de privilégios com o Duque, é amaldiçoado por um pai (Monterone), cuja filha foi desonrada pelo Duque. Rigoletto é cruel com ele como era com todo mundo. Mas a maldição do pai injuriado faz efeito. Gilda, sua filha e única pessoa por quem nutre alguma afeição, é seduzida pelo Duque. Rigoletto planeja matá-lo, mas a patetinha da menina (nem tão menina assim), apaixonada pelo Duque, se sacrifica por ele. Quando Rigoletto vai jogar no rio quem ele acha que é o Duque, vê, finalmente, que patrocinara a morte da própria filha. Rigoletto é dessas óperas melodiosas, com menos “diálogo cantado”, que é meio chato, às vezes (embora essencial pra apreciar a estória e não só a música).


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POR EM 22/09/2008 ÀS 06:39 PM

Onde? Como? Quando?

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Italo Calvino já dizia nas suas “Seis Propostas para o Próximo Milênio”: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade, consistência.

Diante dessas propostas cabe a pergunta: literatura tem lugar e forma para acontecer? A resposta é mais do que óbvia: não. Investigando a fundo esses seis preceitos atrás de algo que os unificasse, talvez se chegue a conclusão: a literatura hoje precisa acima de tudo comunicar.

Vivemos numa guerra pela atenção – bombardeios de informações ocorrem para onde quer que se olhe, o tempo todo. Nossa relação com o tempo é outra, nunca se viveu de maneira tão imediatista. Ninguém tem tempo para perder, ninguém gosta de ser enrolado. Uma geração do controle remoto. Se não está agradando, troca. Nossa capacidade de concentração é outra, a cada bloco precisamos de um intervalo. E nossa memória está cada vez menor – “Por que vou decorar isso? Não é só depois procurar no Google?”

Queiram ignorar ou não, é com este cenário que os autores atuais lidam. E projetos como We Tell Stories da editora inglesa Penguin e Telescopic Text mostram como as propostas de Calvino podem se materializar em novas propostas do fazer literário.

Pense em seis grandes clássicos da literatura repensados, reescritos, reeditados. Essa é a proposta de We Tell Stories. O projeto, que vem ganhando leitores nos quatro cantos do mundo, reuniu seis autores que utilizando recursos da internet como Google Earth, Flickr, blog e Twitter recontaram As Mil e Uma Noites, Alice no País das Maravilhas e outras obras. Livros clássicos de um jeito que não poderia estar no papel.



Em Telescopic Text a cada clique o leitor (usuário) vivencia o fenômeno “um palavra puxa outra palavra”. Algo tão comum na vida dos escritores, o projeto de Joe Davis convida o leitor a vivenciar tal experiência e ver uma simples frase se transformar num texto que se reformula a cada nova palavra.



Apenas dois meros exemplos de que a palavra é viva. O livro impresso pode não estar morto (tomará que nunca esteja). Mas a clássica maneira de pensar literatura está fadada a morrer. 


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POR EM 22/09/2008 ÀS 06:37 PM

A flor do antúrio

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Agachado ao pé dos degraus, Narciso cuida do antúrio florido cujo vaso se quebrou, e Débora vem sentar-se ali na escada do alpendre, atraída pelos olhos azuis do rapaz, e pronta para um bate-papo; mas ele finge não lhe perceber a presença. De modo a provocá-lo, buscando-lhe o azul do olhar, ela estira as pernas bronzeadas e realçadas pelo short branco, ousadamente curto e justo — uma indecência, ao juízo das mulheres da vizinhança, e uma delícia para outros, jovens, adultos ou velhos devassos. Com tais pernas quase debaixo do seu nariz, e ali os mimosos pezinhos descalços da mocinha, o jovem jardineiro ergue os olhos, afinal, porém banca o desinteressado e volta sua atenção para o antúrio. Débora, ninfeta atirada — com uns lábios de chupar pirulito e um olhar malicioso, feito a Lolita de Nabokov —, não se dá por vencida, puxa o fio da conversa:

— Aí, já observou bem essa flor?
Narciso sequer levanta os olhos ao falar:
— Que tem ela?
— Não lhe diz nada?
— Como assim?
— Parece o quê?
Olhando a flor, ele diz:
— Parece flor, mesmo.
— Não, não parece flor. É uma flor. Dá pra notar, né? Quero saber é o que ela sugere.
— Não sei.
— Ora, vamos, faça um esforço!
— Bom... Deixa ver... Borboleta?
— Borboleta? Que falta de imaginação!
— Com quê se parece, então?
— Se você não percebe, também não vou dizer.
Ele dá de ombros, concentrando-se no serviço. A garota insiste:
— Não é obscena, essa flor?
— Obscena?
— É.
— Não acho, não.
— Pois olhe-a direito.
Ele olha, mas...
— Que tem ela de obsceno?
— Tá na cara, não vê?
— Sinceramente, não.
— Putz! Será possível?
— Às vezes, não percebo bem as coisas.
— Então olhe de novo.
Narciso torna a olhar a flor, e diz:
— Continuo não percebendo.
— Não acredito! Observe a forma triangular dessa flor... a sua cor encarnada... essa ponta aí, dura, comprida, obscena...
— Estou vendo.
— E o que parece?
— Miolo de fruta.
— Qual é, cara? Tá me gozando?
— Eu?
— Você, sim. Sua cara tá dizendo outra coisa...
— Que coisa?
— Você sabe.
— Sei não.
— Sabe, sim! Você sabe.
— Tá legal, eu sei; mas não vou dizer.
— Por que não?
— Porque não.
— Tá com medo?
— Não é coisa pra se dizer a uma garota da sua idade.
— Tá brincando? Fala sério, cara!
— Quer, mesmo, que eu diga?
— Tô esperando.
— Não vai se zangar, não?
— Manda ver, cara!
Ele aí faz a cara mais safada desse mundo, e sapeca o verbo:
— Parece com uma coisa que você tem no meio das pernas.

Débora meio que se empertiga e se enrubesce, algo constrangida, como se sentindo nua — instintivamente, fecha um pouco as pernas até ali ostensivamente abertas. Contudo, procura não demonstrar-se incomodada, e desconversa:

— Ah, meus joelhos!

Ela supõe que tudo vá ficar por aí, com a desconversa. Narciso, porém, de todo aceso, se desdobra, vai além na inversão do jogo, no jogo duplo, senhor da situação:

— Não são seus joelhos, não.

A garota se põe em guarda — e tenta ser sutil ao retesar a postura —, como se não esperasse que ele fosse ousar além dos limites; que entendesse a provocação, mas soubesse quando parar. Sabe que ele, agora, só espera pela próxima pergunta, que, é claro, ela não faz; não de viva-voz, porque a pergunta já está no ar, implícita, pastosa — seus olhos parecem fazer as vezes dos lábios. O esperto jardineiro a tudo percebe, e, avançando o sinal que ela intenta fechar, salpica a pimenta e aguça o tempero para o que julga ser o golpe de misericórdia — conquanto brincalhão — sobre a fogosa mocinha, inepta aranha, presa na própria teia, graças à astúcia da mosca, ou do moço:

— Já ouviu falar de hermafrodita?

É a vez de Débora se fazer de sonsa, temendo pelo pior:

— Herma... o quê?

— Hermafrodita. Andrógino. Duplo sexo.

— Ah...

Segue-se uma pequena pausa; Narciso saboreando o momento que antecede o golpe fatal. Em literatura, há uma técnica de preparação do clímax, do suspense, gerando tensão e densidade para aguçar a expectativa do leitor, onde, figuradamente, o texto é uma teia aracnídea; desnecessário dizer quem é quem aqui, mosca ou aranha, podendo também que a coisa não seja bem assim, uma vez conferido ao leitor o status de co-autor da narrativa. A saber, nesse caso, o que resulta desta parceria, sendo o que realmente importa. Se bem que, também, ao pé da letra, pode ser que nem tudo seja assim, bem pode — como se diz — que a coisa funcione de outra forma. Para Gertrude Stein, uma rosa é uma rosa é uma rosa. Também uma teia é uma teia, uma aranha é uma aranha e uma mosca é uma mosca. O visgo é o visgo. Mas isso não termina por aqui. É um círculo vicioso e, dada a sua complexidade, vai longe, podendo que se meça com a infinitude, a menos que chegue a um termo conclusivo.

— Pois é. O antúrio é uma flor de dupla natureza, uma flor fálica, veja bem...

Narciso acaricia, com as pontas dos dedos unidas e num vaivém vertical, o clitóris-falo da flor, num por demais explícito gesto, a par com o que ele inventa a seus propósitos. Débora jaz ali assustada, tensa, já se empertigando; o coração aos saltos sob a malha da blusa azul-claro, feito um pombo aprisionado por duas mãos. Ela e o rapaz visivelmente excitados; as faces congestionadas pela aceleração do sangue, o sangue fervendo nas veias, adrenalina a todo vapor. E Narciso ainda não terminou:

— Não se parece com uma periquita hermafrodita?

Embora tudo, ou já por sentir-se grudada na teia visguenta em que se meteu, Débora teima em não se dar por vencida. Comprime os lábios, menos para conter o riso do que para dar-se tempo, algo com que readquirir firmeza; mas, ao fim, no afogueado momento, se traindo com a fatídica pergunta:

— O quê?

E ali a implacável resposta, com a qual Narciso detona de vez a garota:

— Xoxota.

Aqui o jardineiro encara-a, descaradamente, todavia engolindo em seco; as orelhas ardendo, pegando fogo, e os olhos derdejando as chispas azuis do desejo. Débora, por sua vez, arregala os olhos negros e baqueia, boquiaberta — nocaute! Abruptamente, põe-se de pé e dá o que pode dar de troco:

— Tarado!

Xinga-o, e, bambas pernas pra que vos quero de um compasso maior o círculo, some de vista, em busca de ar — que sufoco! Narciso, também assustado com os cento e oitenta graus da situação, e torcendo para que a garota não vá contar tudo a alguém lá dentro da casa, ainda logra uma risada; na verdade, uma risadinha de nada, medrosa, mais para se dar um ponto de apoio, a seguir balançando a cabeça para os lados, e concluindo:

— É doida. É doida e a família não sabe disso.

Indo refugiar-se no banheiro, Débora lava o suor das mãos na pia, refresca o rosto com água e aos poucos se refaz daquela brincadeira com fogo. Mas não se livra da imagem de Narciso bolinando o grelo da flor do antúrio. Livra-se da blusa, abarca com as mãos os pequenos peitos, acariciando-os; desabotoa o short na cintura, abre o zíper, segura os lados do short apertado e força para baixo, se requebrando para facilitar a saída da peça, mormente na bunda, e dali até os pés, e daí para fora de vez. Agora baixa também a calcinha vermelha, curvando-se para isso, até ela passar pelos joelhos e descer, macia, pernas abaixo, daí retirando-a com um peculiar e feminino movimento dos pés. Então senta-se no vaso e, ali escancarada, cuida de saciar o desejo nos róseos miolos de sua flor, esponja do mar, ostra, lagarta de fogo, crisálida se abrindo e, pegando vôo, a bela borboceleta — tudo ali, metamorfoses nas mucosas da boca de pêlos eriçados e curticantes.

Dispensável dizer, ou livremente supor, que todo autor, no campo da literatura erótica, se compraz no papel de voyeur de suas próprias personagens. Suposto que não só no romance de Vladimir Nabokov, mas em todo homem, há um libidinoso Humbert, como há uma maliciosa Lolita em toda mulher.


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POR EM 22/09/2008 ÀS 06:37 PM

Tudis leguis na boleguis ?

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"Meus povis de Saracutópolis,

Nas escaramunhanças de vivê destiolado, supres de fazer a urna susprir de votis, com ocê tafuiando meu numro lá, esse que taí apregoados no pau do lado.  Eu esquipo dirriba duma misera enorme pro mode  fazê valê  minhas confabulanças na Camra de verador deste impolutente municípis de Saracutópolis. Supres e ressupres. Nosso Deus é tistimunha. Louvado seje!"

O discurso do meu candidato a vereador de Saracutópolis nesta próxima eleição era e é o mais esperado de todos do comício. O povo pede, suplica e vai à loucura com a fala de Tezinho do Bok. Ele é o mais querido e,  para mim, que sou seu eleitor de carteirinha, acho que será um dos mais votados, com o agravante ou o atenuante, não sei, de que, pela popularidade e simplicidade, Tezinho é requisitadíssimo por nosso candidato a prefeito. Andar com Tezinho puxa voto e nosso candidato a prefeito sabe e até exagera nesse quesito.

"Tudis leguis na boleguis?" É este o primeiro cumprimento dele aos eleitores e amigos que encontra na rua. Na verdade, eleitor e amigo de Tezinho do Bok são praticamente a mesma coisa, sem muita distinção um do outro. Eles se confundem, mas ninguém por lá confunde o que Tezinho quer dizer, porque na certa ele só diz coisas pra cima, entusiasmantes, otimistas, como pro exemplo: "Tudis na murlenga belelenga dis travi". Ninguém sabe ao certo o que significa isto, mas também ninguém deixa de saber, porque parece algo como: "Deixa que tá bom e pronto".

No último comício eu estava na primeira fila da claque de Tezinho e  aplaudi como nunca o discurso dele. Até gravei e mostro parte para vocês: "Tudis leguis na boleguis? Meus inófrios conterrantes, maleofólicos! É viris que nóis poréns pela equolescência e protuberância de Saracutópolis. Hemisférico potências de nós mães e pais, perpelis ortomênicos das filalumias. Pruque dostres e remoces nossas conjuminâncias eloquimentes, sem protéis e aranzéis nas ruas e cabarés. Esquis nóspitus da nossas gentes oclementes de Deus. Protuberais e não distais, pruque diminóis e desmostras nossas silumbrias. Apois tá, pois que nus prega despretera terra a nóis. Convosco sibulenes e marilenes, osga pras cacildas e as subilicas didas".

Nunca vi discurso nítido e inteligível mais do que esse. Bati palmas e aplaudi com gosto. Mas não foi só eu não, todo mundo ali ficou encantado com o palavrório de Tezinho. Coisa linda! Mesmo porque,  nestes dias,  pouco se sabe e menos ainda se acredita no que dizem esses candidatos, que não seja para seu próprio tempero e seu pirão primeiro. Pela manifestação do povão, meu conterrâneo Tezinho de Bok já pode se considerar eleito. 14º e 15º salários para ele, por exemplo, como fizeram os vereadores de Goiânia, era coisa do quinto dos infernos, que traduzido para a linguagem de Tezinho ficava assim: "As prosências das urnis vertisca, apodris pobris xibungréias".


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POR EM 22/09/2008 ÀS 06:36 PM

Em que espelho ?

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Nenhum de nós, do internato, podia dizer de onde caíra aquela figura singular, o nosso professor de Português. O professor Brandão (ou, como preferia o Diretor do colégio, o doutor Brandão) falava com esses e erres muito diferentes dos nossos, andava com passos mais curtos do que nós e tinha um ar sofrido que nós, entre os dez e os quinze anos, ainda não tínhamos razão para ostentar.

Algumas informações, finalmente, vazaram. Por exemplo, que nosso professor de Português era advogado. E a imaginação da rapaziada excitava-se em exercícios que justificassem aquele súbito aparecimento. Um dia, o pai de um aluno, em visita ao colégio, abordou nosso professor e perguntou se poderia assumir uma causa no fórum local. O professor Brandão ergueu para o céu seus dois olhos negros e redondos e, depois de um suspiro, afirmou em voz abafada que advogar, não, jamais voltaria a fazê-lo. Sua expressão, então, foi de profunda dor.

Nunca ficamos sabendo por que o doutor Brandão abandonara a profissão para a qual se preparara. Muitas pessoas, mais tarde aprendi, cometem o equívoco de levar um curso até o fim pela única razão de o haver começado. As vocações nem sempre se manifestam muito cedo. Mas o caso do doutor Brandão, que supúnhamos ter exercido a advocacia por muito tempo, parecia bem mais tenebroso. Algum deslize, uma escorregadela, coisa nem sempre provável mas quase sempre possível para um ser que luta pela sobrevivência neste conturbado mundo de Deus? Não sabíamos, mas conjeturávamos. Alguém trouxe de fora a informação de que se apossara, nosso cândido professor, de todos os bens de duas crianças órfãs. Foi quase uma semana de ódio e rancor. Ele não podia entrar na sala de aula sem que rosnássemos de cabeça baixa. Por uma série de detalhes, descobrimos, à luz de velas em nosso esconderijo, que era uma informação falsa. Ah, sim, porque também havia os alunos que o admiravam.

O professor Brandão era casado, e sua esposa, uma normalista, como então eram chamadas as professoras primárias, dava aulas nas séries anteriores ao ginásio. Eles não tinham filhos, e esse era outro motivo de assombro para nós, tão acostumados a famílias de proles numerosas, pois era assim que Deus mandava e o Brasil queria.

O que mais nos espantava, entretanto, era o ar de grande sofrimento de nosso professor quando tentava explicar as diferenças entre um verbo e um advérbio. Ele segurava o giz sem muita convicção, enrugava a testa, sacudia a cabeça e botava algumas palavras na lousa (que chamávamos de quadro-negro, porque o era realmente). Mas ele gostava de ler. E trazia poemas para que lêssemos e perguntava quem freqüentava a biblioteca, o que encontrávamos lá. Ouvíamos algumas histórias e às vezes contávamos algumas também.

Até o fim do primeiro ano, ninguém mais queria saber a origem do professor Brandão, nem por quais mistérios da vida um homem tão diferente dos outros que conhecíamos viera parar ali. Meu entusiasmo pelas fórmulas da matemática arrefeceu em favor de Mário de Andrade e Cecília Meireles. Nunca entendi por que essa aproximação em suas preferências, mas isso pouco ou nada me preocupou.

Quarenta anos mais tarde fui fazer uma visita ao colégio onde estudei interno. O prédio principal era ainda o mesmo, apesar da cor horrível com que o disfarçaram. Fui apresentado a outros prédios mais recentes. Uns intrusos. Os professores todos pareciam tão estranhos quanto nos parecera, no início, o professor Brandão. E ele, onde estaria? Ninguém sabia de sua existência. Não desisti enquanto não o encontrei. Ele estava colado, muito miúdo e assustado, em um quadro de formatura. Quanto a mim mesmo, descobri que não havia deixado o menor vestígio de minha passagem por lá. Em que espelho, Cecília, ficou perdida minha face?


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