Minimum res (coisa mínima)
AFORISMO SEM NENHUM PRÉ-JUÍZO (para Valdivino Braz)
Em terra de cego quem tem um olho é semi-ótico.
leia mais...
AFORISMO SEM NENHUM PRÉ-JUÍZO (para Valdivino Braz)
Em terra de cego quem tem um olho é semi-ótico.
Guimarães Rosa não escondeu esqueletos no armário. A argumentação de Vilma Guimarães Rosa, fundamentando sua ação, trata de supostas incorreções na biografia por Alaor Barbosa. Mover ação por isso é idiossincrático e contraproducente. Trata-se de assunto para a crítica literária, e não para o Judiciário
![]() |
CLAUDIO WILLER
Décadas atrás, por volta de 1980, interessava-me por Dashiell Hammett, o pioneiro autor norte-americano de “O Falcão Maltês” e outras histórias de detetive. Escrevi um poema homenageando-o. Publiquei algumas páginas de ensaio (no então “Folhetim”, depois em mais alguns lugares). Interessava-me a inovação no gênero que Hammett promovera, enriquecendo-o: histórias de crime e detetive tornaram-se ambivalentes, menos lineares, e expressavam uma crítica e uma posição política (mais tarde, Hammett seria perseguido pelo macarthismo). Fascinava-me o mistério: como era possível, um detetive particular desempregado, sem formação literária, escrever tão bem? E como podia, saindo do nada, escrever uma obra em 12 anos, e depois silenciar, nunca mais produzir nada?
Li toda a obra de Hammett. Examinei biografias. Na época, duas. Uma, a biografia autorizada, de autoria de Diane Johnson: contou com a colaboração da companheira e sucessora de Hammett, a dramaturga Lilian Hellman. Não gostei. Achei piegas, prolixa, e resenhei sua edição brasileira de modo bem crítico (no “Leia”). A outra, a biografia não-autorizada, “The Shadow Man”, de Richard Lyman. Gostei. Mais concisa e precisa que a de Johnson (hoje, Lyman está na praça, reeditado — Diane Johnson sumiu de vista). No prefácio, Lyman reclama de Lilian Hellman; na biografia, deixa-a em má situação (nenhum demérito para sua importante dramaturgia, nem para o modo corajoso como, por sua vez, enfrentou o macarthismo).
Imaginemos que tudo isso tivesse acontecido no Brasil. Que Hammett, Hellman e Lyman fossem brasileiros. Que as editoras fossem brasileiras. Qual a chance de Hellman mover uma ação, pedindo a retirada de circulação da biografia por Lyman? E, nesse caso, qual a chance de uma ação dessas prosperar, dar certo? Enorme, a julgar pelas vicissitudes enfrentadas por Ruy Castro com sua biografia de Garrincha, e pelo biógrafo de Roberto Carlos, Paulo César de Araújo. E, agora, por Alaor Barbosa com “Sinfonia de Minas Gerais — A Vida e a Literatura de João Guimarães Rosa” (LGE Editora, 2008).
Para quem ainda não soube: a biografia de Rosa por Alaor foi retirada de circulação pelo juiz da 24ª Vara Cível do Rio de Janeiro, atendendo a uma ação movida por Vilma Guimarães Rosa, sua filha e sucessora, alegando incorreções, erros do biógrafo, e pela editora de Rosa, a Nova Fronteira.
Parece estar-se firmando uma jurisprudência: aqui, no Brasil, biografia só pode circular se for autorizada pelo biografado ou por seus sucessores. Textualmente, na ação movida por Vilma Guimarães Rosa e pela Nova Fronteira (conforme o “Consultor Jurídico”): “A família, na qualidade de única responsável por zelar pela sua memória, deve ser consultada sobre qualquer utilização de sua imagem, nome e dados biográficos, com o objetivo de evitar abusos”.
É censura judicial. Apesar da censura ser expressamente proibida pela Constituição.
A censura no Brasil, hoje, não se restringe às biografias. Houve mostras de artes visuais interditadas. Tentativas de impedir que jornais publicassem notícias. Interpretações arbitrárias da legislação eleitoral, tentando cercear meios de comunicação. Há um projeto de regulamentação da internet que, aprovado, criaria o provedor informante policial e tornaria todo usuário da net culpado até prova em contrário. Recentemente, a 5 de outubro, foi noticiado e comentado (no suplemento “Mais!” da “Folha de S. Paulo”) o caso do professor demitido de um colégio por incluir poemas eróticos em seu blogue de poesia na internet. Tudo isso é censura tentando voltar pela porta dos fundos. Censores podem estar à sombra; mas não dormem.
Voltemos à hipótese dos Hammett, Hellman e Lyman brasileiros. Quais seriam as conseqüências de uma proibição de “The Shadow Man”? Uma delas, que eu ficaria sabendo menos sobre Hammett. Teria menos subsídios para pesquisá-lo. Eu e muito mais gente, é claro. Qualquer interessado no assunto. Haveria prejuízos à circulação de informação, à produção e transmissão do conhecimento.
Alguém poderia observar que minha argumentação não vale para as retiradas de circulação das biografias de Garrincha e Roberto Carlos, fora do campo dos estudos literários. Vale, sim. Obras sobre brasileiros de projeção informam sobre o Brasil. Interessam aos historiadores e sociólogos. E à crítica literária, na razão direta de seu valor literário, é claro.
Examinemos mais alguns casos de biografias. Daquelas relevantes, que efetivamente contribuíram para o conhecimento de algum autor.
No topo da minha lista, colocaria “Federico García Lorca — Uma Biografia”, de Ian Wilson. Obra monumental, modelo de biografia literária, referência obrigatória em estudos lorqueanos. Wilson enfrentou dificuldades e correu riscos para levar sua pesquisa a cabo. Franquistas não gostaram nem um pouco de alguém remexer em esqueletos da Guerra Civil Espanhola, desvendando como foi o assassinato de Lorca (a pesquisa de Gibson foi na década de 1960, com Franco ainda no poder).
Ian Wilson tampouco recuou diante da vida íntima de Lorca. Da sua pederastia. Conta como foi sua paixão e seu relacionamento com Salvador Dalí. E os casos, com Emílio Aladrén e outros rapazes.
Interessa, isso? Claro que sim. Lorca, homossexual em uma Espanha machista, integrista, conservadora: isso não tem a ver com seu desespero, a sensação de ser um estranho no mundo? Não está na gênese de seu auto-exílio, do qual resultou “O Poeta em Nova York”? De sua euforia ao visitar Cuba, onde era tolerado o amor entre homens, resultando em um poema em homenagem à ilha?
Voltemos àquele exercício de imaginação. Se tudo isso fosse no Brasil. Com algum sobrinho ou sobrinho-neto querendo preservar a intimidade de Lorca, sua reputação.
Querem mais cases de biografias? Então prossigamos. Richard Ellmann, o grande biógrafo de James Joyce e W. B. Yeats. Em “Joyce — a Biography”, um guia para a leitura de “Ulisses”, ao confrontá-lo com a “Odisséia”. E, também, o autor de “Ulisses” caindo de porre, dormindo nas ruas, autodestruindo-se. Omisso diante do nazismo e dos horrores da Segunda Guerra Mundial. Desprezando Nora Barnacle, sua companheira. Joyce foi grande, literariamente. E foi mau caráter. Gênios podem ser complicados (pessoas comuns, também). E a filha de Joyce, irremediavelmente louca, que ele abandonou? Isso interessa? Em “Love’s Body” de Norman O. Brown (e certamente em outros autores: não sou especialista em Joyce), a hipótese: “Finnegan’s Wake” mimetiza a fala e o mundo esquizofrênico da filha de Joyce; é um acerto de contas com a loucura.
“Yeats — The Man and the Masks”, também de Ellmann. William Butler Yeats. Mago aos 30 anos de idade. Até casar-se, casto, ou quase isso. Aos 70 anos, celebridade, senador da Irlanda, Prêmio Nobel, após descobrir um precursor sucedâneo do Viagra, tornou-se um sátiro. Transava com todas as tietes. Belo final de vida. Que prato cheio para sucessores ciosos, empenhados na preservação da reputação ilibada de seus representados. Que prejuízo aos estudos literários, especialmente ao exame das relações entre esoterismo e criação poética, se fosse no Brasil.
Um pouco de teoria literária não fará mal a ninguém. Tenho defendido biografias de escritores, contrapondo-me ao vezo formalista do ‘recorte’ da obra, dissociando-a da vida; e, conseqüentemente, excluindo biografias dos estudos literários. Justifico a utilização da informação biográfica pela crítica, tomando como ponto de partida o que diz Antonio Candido sobre a relação entre texto e contexto em “Literatura e Sociedade”, criticando tanto o formalismo quanto o sociologismo redutor, mecanicista, ao mostrar que o contexto está “dentro” da obra. E afirmando que: “A obra depende estritamente do artista e das condições sociais que determinam a sua posição”. O que significa “do artista ‘e’ das condições sociais”? Este “e”, será conjuntivo ou disjuntivo? Autoria e biografia são históricas; portanto, um dado contextual. O artista está “dentro” da obra, nessa visão consistentemente dialética. Biografia, ponto de encontro do texto e do contexto.
Importa saber que Rimbaud efetivamente estudou alquimia na biblioteca de Charleville? Claro que sim. Justifica interpretações simbólicas de “Vogais” e outros de seus poemas. O que Baudelaire e seus amigos faziam no ateliê da Rue Pimondan? Mais ainda — vejam na mega-biografia de Baudelaire por Pichois e Ziegler, ou em “La Mystique” de Baudelaire de Jean Pommier, como viajar por paraísos artificiais está na gênese de “Correspondências” e de sua inovadora crítica de arte.
Imaginem, algum sucessor cioso proibindo que se dissesse que Baudelaire se drogava, era irresponsável com dinheiro e sifilítico... Alguém proibir de dizerem que Machado era epilético, que Raul Pompéia era doido e se matou, que Lima Barreto era alcoólatra, que....
Guimarães Rosa não escondeu esqueletos no armário. A argumentação de Vilma Guimarães Rosa, fundamentando sua ação, trata de supostas incorreções na biografia por Alaor Barbosa. Mover ação por isso é idiossincrático e contraproducente. Trata-se de assunto para a crítica literária, e não para o judiciário. Agora, temos o juiz dublê de crítico literário: dupla usurpação, do nosso direito á leitura, do nosso direito ao julgamento. O certo, na hipótese de haver mesmo tais erros e imprecisões, teria sido convocar algum dentre os nossos bons especialistas em Guimarães Rosa, pedir-lhe um parecer, e divulgá-lo.
No caudal de obras sobre Guimarães Rosa — merecidamente, o mais estudado autor brasileiro da segunda metade do século XX — o trabalho Alaor Barbosa acaba por sobressair-se, ao tornar-se tema de debate jurídico. É bom lembrar: em 1956, ao ser liberado após uma tentativa de interdição, “Howl and other poems” (Uivo e Outros Poemas) de Allen Ginsberg imediatamente teve 250.000 exemplares vendidos. A censura, inadvertidamente, contribuiu para produzir a geração beat.
“Tutela antecipada”, o nome da medida que retirou esta obra de Alaor Barbosa de circulação: que termo antipático. Recuso-me a ser tutelado. Não precisa: sou adulto, minhas faculdades mentais estão em perfeito estado.
É isso o que a censura faz: equipara leitores e espectadores a um bando de retardados, incapazes de discernir, negando-lhes a capacidade de julgar ao subtrair-lhes o acesso á informação. Censura, em qualquer uma de suas modalidades, é um múltiplo desrespeito: à obra, a seu autor, ao leitor, à sociedade toda.
CLAUDIO WILLER é poeta, ensaísta, tradutor, doutor em Letras, ex-presidente e atual conselheiro da UBE — União Brasileira de Escritores.
Na França do século XVIII, um comerciante de nome Gournay levantou a bandeira do laissez-faire, que os fisiocratas empunharam imediatamente. Estava inaugurado o liberalismo.
Raras vezes ouvi falar, em minha juventude, neste nome: neoliberalismo. Os economistas, a mídia, as pessoas ligadas ao assunto, se não me engano (e costumo me enganar) começaram a usar a palavra e os conceitos com certa insistência há coisa de uns vinte, vinte e poucos anos para cá. Isso no Brasil.
A defesa do neoliberalismo resultou algumas atitudes até meio furiosas. Às vezes ridículas. O Estado, diziam e dizem os neoliberais, não têm nada que se meter na economia do país. Banqueiros, industriais, fazendeiros e seus asseclas sem poder, mas com vocação para puxar o saco de quem o tenha, organizaram um coro bem afinado para cantar um hino à liberdade total do mercado para resolver seus próprios problemas. As leis do mercado passaram a ser exaltadas, glorificadas. E o hino era de tal maneira belo que acabou encantando a todos. Ou quase todos.
Nos Estados Unidos da América, a segunda pátria do liberalismo (agora renovado), a coisa pegou de maneira brutal. E isso que por lá se apregoa o fim das ideologias. Qualquer interferência do Estado nas atividades econômicas sempre foi, no Tio Sam, taxada de atitude comunista. Os mecanismos do mercado sabem melhor do que nós como resolver os problemas. No verdadeiro capitalismo, o Estado deve ser diminuto, barato, e deve ficar fora das questões de produção, distribuição e consumo.
Bem, parece que as coisas andaram mudando por lá. A crise dos bancos hipotecários, a série de falências sucessivas mandou que os economistas por lá começassem a teorizar de maneira diferente. Os economistas daqui, depois de lerem o que disseram os economistas de lá, acho que também vão assimilar novas teorias.
Houve uma época em que os bancos especularam, esbanjaram, ganharam muito dinheiro. Bem como a agricultura brasileira. Nessas circunstâncias o Estado era um demônio que melhor mesmo seria nem existir. Lá como aqui. Novela vista vezes sem conta. Agora entraram em crise. Ficaram nervosos.
Sim, porque o mercado de vez em quando apresenta-se com uns chiliques de neurastenia que dá vontade de interná-lo na Casa Verde, do Machado.
E de demônio, que era, o Estado passa a anjo salvador. Ora, pra que tanto cinismo? Então isso não é pura e simplesmente a ação da ideologia? O que é bom pra mim, é bom pra sociedade. Em 1700 e nada a Inglaterra, a França e outros países mais já conheciam esse tipo de pensamento.
Lembro-me de um livro que li, do Celso Furtado, de que pouco entendi, mas de onde aprendi algumas lições. Falando dos cafeicultores brasileiros, Celso Furtado diz que eles sempre privatizaram os lucros. Isto é, no tempo das vacas gordas, ninguém mexesse no lucro deles. Era o sagrado direito à propriedade privada e seu uso livre de qualquer ingerência. Mas vinha o tempo das vacas magras, então a gritaria era grande, clamando pelo socorro do Estado. Ou seja, socializavam-se os prejuízos.
Ah, sim, porque uma empresa não pode falir. Se ela tem uma função social, como deixá-la ir à bancarrota?
Se os bancos, as lavouras, as indústrias só se lembram de sua função social quando estão no vermelho, exigindo que todos nós os socorramos, proponho que se estenda essa função social também para os períodos em que estão no azul, socializando igualmente seus lucros.
Não seria mais justo?
”Ele era um herói”. Assim se manifestou Bibi Ferreira, a diva do teatro brasileiro, diante do corpo inerte de Paulo Autran. Parecia inacreditável, mas o enfisema e o câncer de pulmão rancaram de todos nós o cadinho em que se forjaram nossos melhores atores. Neste instante, descasa ao lado de outros ícones do teatro brasileiro como Gianfrancesco Guarnieri, Vianinha e Nelson Rodrigues.
A data 12 de outubro ficará guardada na memória dos que apreciam teatro como o dia em que as cortinas se fecharam definitivamente para o “Senhor dos Palcos”, encerrando uma vida repleta, intensa, produtiva, que demandou 58 anos de carreira e mais de 90 peças teatrais montadas.
Paulo Autran era carioca e muito cedo se mudou para São Paulo. Aspirando a carreira de diplomata e estimulado pelo pai, cursou Direito, formando-se em 1945. Tanto a profissão de advogado como a intenção de seguir carreira diplomática jogou para o espaço. Quatro anos depois de formado na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, já estava apresentando seu primeiro trabalho como ator profissional – Um Deus dormiu lá em casa, de Guilherme Figueiredo - que rendeu o cobiçado prêmio da Associação Brasileira de Críticos Teatrais.
Encontrou um estilo de exercitar teatro que demandava longa concentração, meticulosos estudos, exaustivos e prolongados ensaios que o afastaram da televisão. Esta é a razão de tão poucas aparições na tv. Com ironia, não cansava de desdenhar o mais poderoso meio de comunicação de massas: “Cansei de fazer débil mental (...) Meu próximo projeto para televisão é não fazer televisão (...) Fazer TV é muito chato”. Sequer o cinema demoveu o gênio da interpretação de priorizar o teatro.
Porque foi um daqueles artistas especiais que encenadores de todos os tempos classificam como “nascido para a ribalta”. Como poucos compreendeu a dimensão e as infinitas possibilidades da voz e do gesto teatral. Utilizava com maestria as diversas entonações, explorando a carga dramática decorrente das pausas cuidadosamente construídas, meticulosamente inseridas entre uma fala e outra. Com o cadenciamento da respiração, imprimia diferentes ritmos aos diálogos, emprestava aos movimentos da face e do corpo expressividade intensa, em tudo singular, conduzindo a platéia à plenitude do ato teatral.
Muitos não entendem como um bacharel em direito foi capaz de alcançar a perfeição nos tablados sem jamais ter freqüentado uma escola de teatro. Ainda que não tenha freqüentado a escola convencional, desvendou os mistérios da milenar arte adotando um processo individual de preparação que envolveu a seleção dos maiores escritores e dos melhores textos já produzidos pela humanidade. Percebeu as vantagens da água cristalina e foi beber na fonte límpida, originária, nomeando Sófocles, Shakespeare, Moliére e Arthur Miller... seus professores preferidos.
A bagagem teórica adquirida de forma empírica com os clássicos da dramaturgia ocidental, o salvou do hermetismo improdutivo e da mediocridade acadêmica, e rendeu ao ator um temperamento forte, que o tornou verdadeiro, autêntico, mesmo nas tarefas mais rotineiras. Na defesa de valores não hesitava em – quando julgasse necessário – ultrapassar os marcos da razão. Certa vez, defendendo Tônia Carrero do que considerava injustiças escritas por Paulo Francis, rompeu os limites da boa convivência e cuspiu na cara do então crítico teatral. Era um dos momentos que recordava com um misto de orgulho e sarcasmo: “Juntei bastante cuspe e cuspi com prazer”, recordava em meio às gargalhadas. Seus entreveros com um dos papas do jornalismo brasileiro (Francis chegou a fazer teatro com Pascoal Carlos Magno e estudar com Bertolt Brecht e Eric Bentley) não pararam por aí. Em outra oportunidade tentou ir às vias de fato. Abrindo mão das artes teatrais, recorreu às marciais para aplicar um golpe certeiro no crítico teatral: “Nunca havia dado um soco em ninguém. É difícil, sabe? O corpo se contrai, o braço fica sem força” contava sempre bem-humorado.
Agarrou-se ao humor e prazer para dar contornos às suas escolhas. “Teatro para mim é paixão, sempre foi”, repetia incansavelmente.
A tolerância era outra de suas obsessões. Enquanto atuava em Visitando o Sr. Green deu um depoimento reiterando sua preocupação com o tema: “A peça discorre sobre a relação entre as pessoas, o respeito pelas idéias dos outros. Embora não concordemos sempre, temos que aceitá-las. Não podemos brigar com as pessoas porque são de um jeito ou de outro, porque têm uma ou outra religião. Temos que ser tolerantes. Depois que você assiste à peça, sai com vontade de perdoar, de compreender, de se dar bem com os outros. É uma das razões do sucesso dela.”.
Todo o processo de criação e aprendizagem de Paulo Autran decorre dos bons textos, da ótima literatura que sempre fez questão de cultivar e sorver. Em 1952 já estava às voltas com os clássicos gregos montando Antígona de Sófocles. Quatro anos mais tarde, foi-se encontrar com uma das mais expressivas obras dramáticas de todos os tempos, Otelo, o Mouro de Veneza, uma peça que retrata, com riqueza inesgotável, o brilhante universo de William Shakespeare.
Autran ia amadurecendo à medida que acessava os textos, que navegava na complexidade das personagens neles contidos.
Em 1965, por intermédio de Millôr Fernandes e Flávio Rangel, mergulhou na história universal montando o musical Liberdade, Liberdade, espetáculo que discorre sobre o pensamento de importantes personalidades sobre o assunto: Sócrates, Marco Antônio, Platão, Abraham Lincoln, Martin Luther King, Castro Alves, Anne Frank, Danton, Winston Churchill, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, Geraldo Vandré, Jesus Cristo, Shakespeare, Moreira da Silva, Carlos Drummond de Andrade. Naturalmente um brado, sua forma particular de resistir à ditadura militar.
Retorna, em 1967, às tragédias gregas de Sófocles e monta Édipo Rei, peça que Aristóteles cultuava como “o mais perfeito exemplo de tragédia grega”, ainda hoje esmiuçada dada a influência que exerce na cultura ocidental.
A Morte do Caixeiro Viajante — peça teatral de Arthur Miller —, escrita em 1949, e Rei Lear, de William Shakespeare, escrita nos idos de 1605, foram peças que ajudaram a estruturar a veia performática de Paulo Autran. Todavia, foi O Avarento — que Moliére escreveu inspirando-se em Aulularia, de Plauto — a obra escolhida para encerrar em alto estilo a carreira e a vida, mantendo-as, doravante, sob a luminescência de um spotlight que jamais se apagará. Com sua última apresentação, o ator conseguiu expressar tudo o que humanamente é possível aprender sobre a arte da interpretação.
No cinema a participação se circunscreveu a não mais que dez filmes, com destaque para Terra em Transe, de Glauber Rocha, filmado em 1967. Sua última aparição na tela grande se dá em O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias.
Com o falecimento de Paulo Autran fecha-se, no Brasil, um ciclo caracterizado por atores completos, brilhantes, que priorizaram o palco, o contato direto com a platéia, a criação meticulosa das personagens, deslocando para um enésimo plano as oportunidades oferecidas pelo cinema e, sobretudo, pela televisão. Sucessores? É o próprio ícone do teatro brasileiro quem aponta uma juventude ávida pela mais fina dramaturgia e menciona Lázaro Ramos e Wagner Moura. Atores que têm o teatro como referência, mas que aprenderam a conviver com a televisão, explorando toda a potencialidade que dela emana.
Antes de encantar quis deixar uma derradeira lição. E, num ultimo suspiro, solicitou que a mulher Karin Rodrigues retransmitisse suas últimas palavras: “Morri porque fumava e nunca consegui largar o vício”.
Um dia cansativo, hoje eu tive um dia cansativo. Onde? Um dia extremamente cansativo. Eu sou um corpo enterrado numa poltrona deste ônibus que transporta um corpo enterrado. Onde? Hoje eu tive um dia cansativo. Mal sinto um corpo enterrado numa poltrona sem conforto de um ônibus: este. Depois de um dia cansativo, preciso atravessar a cidade e onde? Meus dias são todos. Meu corpo, que não trago agora comigo por questão de esquecimento, sacoleja no banco sem conforto de um ônibus, depois de um dia cansativo, este.
Um corpo enterrado numa poltrona. Eu sou um corpo enterrado numa poltrona deste ônibus que transporta um corpo enterrado numa poltrona. Onde? Hoje eu tive um dia muito cansativo. E tedioso. Os postes e fios derramando luz sobre as ruas. E os ônibus sacolejantes. Meu corpo. Como chuva de claridade do céu. A luz que escorre dos postes entra pela janela do ônibus cansativo. Preciso atravessar a cidade antes. Dos postes ainda escorre uma luz por cima das ruas. Onde? Ônibus sacolejantes e automóveis.
A cidade que tenho de atravessar antes lateja. O rumor. Só meus olhos e meus ouvidos? Latejante. Mal sinto um corpo enterrado numa poltrona sem conforto de um ônibus, apesar da claridade que chove dos postes, que desce do céu, mas sinto bem perto o cheiro forte do calor que exala das axilas. O cheiro da cidade no fim do expediente. Latejando? Algumas janelas fechadas impedem a entrada do ar e a saída do cheiro forte do calor que exala das axilas da cidade latejante.
Só chego em casa depois de atravessar a cidade. Preciso atravessar a cidade antes. Duas vezes. Na ida, a luz chove dos postes e o ônibus transporta meu corpo ainda quente do sono enterrado num banco sem conforto. Na ida, a cidade boceja com frio porque a aragem desce das montanhas de escuridão e cai sobre a luz que chove dos postes sobre as ruas. Ônibus e carros sacolejantes. Na ida, o frio. Na volta, o cheiro que exala das axilas da cidade no ônibus com várias janelas fechadas. Tem gente que viaja de pé porque precisa atravessar a cidade antes.
Em casa tem banho e jantar. O vapor sobe do prato. Mas preciso atravessar a cidade antes. Meu corpo viaja enterrado num banco sem conforto. Não sei onde fica meu corpo.
Um dia cansativo. Hoje tive um dia extremamente cansativo. O dia desce dos postes sobre a rua por cima de carros e ônibus. O dia. Um dia latejante, de calor e cheiro. O banco, debaixo de meu corpo, sacoleja por causa do ônibus.
A moça, de calça jeans e blusa de malha, quer descer e pede licença. A blusa azul tem manchas escuras na região das axilas. Ela pede licença e avança enfiando a cara e os braços pelas fissuras entre os passageiros. Pede licença e avança. Um pé, depois o outro, os braços e o corpo. A moça puxa sua mochila que também tem de descer e pede licença. Ela atravessou a cidade e precisa chegar em casa. Tem banho e jantar: o vapor sobe do prato. Ela avança devagar, mas não a vejo mais. Apenas seu pedido de licença dá existência à moça, de calça jeans e blusa de malha, que quer descer.
O ônibus parou e a moça deve ter descido para enfrentar a aragem da cidade latejante no fim do expediente, porque de sua voz só ficou um eco pedindo licença. .
Talvez eu não seja mais do que um corpo enterrado num banco sem conforto de um ônibus: este. Onde? Mas um corpo dotado de pensamento, capaz de em si mesmo, para si. Um corpo sendo carregado através da cidade latejante no fim do expediente. O calor e o cheiro. E meus dias todos. Na ida, a claridade chove dos postes sobre as ruas: ônibus e automóveis. E o frio. Na volta, a claridade chove dos postes sobre as ruas: ônibus e automóveis. E o calor. O calor e o cheiro que exala das axilas. Talvez.
O motor ronca. O motor que puxa o ônibus que me carrega ronca sua melodia. Meu corpo enterrado num banco sem conforto mergulha na melodia do motor e fica sonolento. O ronco do motor sacoleja na cidade latejante. É um rumorejo quente, com cheiro, que escurece o interior do ônibus. Onde? O banco debaixo de meu corpo ficou apenas como uma lembrança, um ser imaterial, evanescente. Na subida da ladeira o ônibus canta mais forte, oscilando. Esta ladeira está colocada antes, por isso é hora de pedir licença.
Um dia cansativo, hoje eu tive um dia cansativo.
Com aquele a soma iria para 853.82. Esqueceria tudo. O número de brochadas. Seu lado feminino.
Bebendo whisky a 37. O número que pegara Vanda com outro.
Vanda nada representa. Foi bom para você significa o mesmo que segue hoje, nos guinches dos correios. Precisa parar de perguntar. Afinal, conhece bem Vanda e os correios.
Agora a soma é 890.82. Todas as lembranças na mesma película. Pára no filme de terror da noite passada.
O massacre da serra elétrica. Mais comédia que terror. Braços e pernas decepados em extrato de tomate. Lembra aquele deputado que cuidava dos inimigos baseando-se no roteiro do filme.
Passa a pedir cauboy. O gelo doía-lhe o fígado. 927.82. Quanto havia no bolso? Uma camisinha do Flamengo. Vermelho carmim na glande. Vanda tentando imitar Garganta Profunda. Não conseguia
metade.
Pontos na boca. Quantos? 1, 2, 3... Como poderia esquecer, os removera um a um. Cinco! Três no lado direito, dois no esquerdo. Nem a chuva tem a boca tão pequena. Ou seriam as mãos?
964.82. Esquecera a carteira no cesto de roupa suja. Bebia para esquecer. 1001.82, 1038.82, 1075.82, 1112.82, 1149.82. Esquecer o escritório, a agência dos correios vizinha à funerária... Vanda!
37 brochadas. A última, um Michelangelo dentro de uma calcinha de renda vermelha. Ela chega. Com aquele a soma é 1186.82. O carteiro entrega a conta. A boca pequena:
- Quanto?
Acabou o segundo turno das eleições municipais e o eleitor pôde escolher entre apenas dois candidatos. Entre duas opções igualmente satisfatórias para responder uma pergunta, qual você escolhe? William de Ockham (1285-1349) respondeu esta usando o seu próprio princípio metodológico de economia da explicação: “aquilo que pode ser explicado por menos premissas é explicado em vão por mais”.
Claro que o resultado de uma eleição reflete muito mais que o racionalismo do princípio conhecido por Navalha de Ockham: “entre duas respostas igualmente plausíveis para uma pergunta, escolha a mais simples”. Talvez, se este princípio fosse firmemente aplicado pelos eleitores, o candidato vencedor seria aquele que passasse a impressão que iria se meter menos na vida do cidadão. Mas, como o eleitor também busca um “salvador da Pátria”, então a resposta das urnas acaba sendo oposta a da navalha de Ockham.
Mas Ockham não é considerado um dos pais do nominalismo, movimento que negaria a realidade aos “universais” (o uso de uma designação geral não implica a existência de uma coisa geral por ela nomeada) apenas por isto. Uma outra importante contribuição deste franciscano é de que Deus pode realizar qualquer coisa cuja execução não envolva uma contradição. Um ponto importante em 1330 e muito tempo depois disto também.
Ainda, com sua teoria do conhecimento empirista, refutou Tomás de Aquino que defendia que a essência de uma coisa existente é diferente, embora não separável, de sua existência. Para Ockham, se essência e existência fossem realidades distintas, então não seria contraditório uma existir sem a outra, mas como é contraditório uma essência sem existência, então não há verdadeira distinção entre as duas.
Para ter chego neste ponto, o jovem Ockham entrou em Oxford e, por volta de 1310 tornou-se o chamado “inceptor”, pessoa que cumpriu todas as formalidades para exercer o magistério em teologia.
Faltava apenas a licença para lecionar, isto é, doutorar-se, mas como sua força argumentativa e originalidade tornaram-se polêmicas, foi acusado de praticar o heresia em suas aulas. Assim, nunca obteve a licença, e foi considerado o “venerável inceptor”, aquele que conquistou (por sua originalidade) o doutorado, mas que não levou.
Antes de ser formalmente condenado por apoiar o superior geral da ordem franciscana, na questão da pobreza dos religiosos, contra o papa João XXII, fugiu para a proteção do imperador Luís da Baviera, que tinha lá suas rusgas com o papa. Era 1330 e ele acabou excomungado por desobediência.
Morreu provavelmente em 1349, dois anos depois de seu protetor da Baviera. Entre a excomunhão e a morte escreveu tratados contra os poderes e funções do papa, e da autoridade imperial, sempre com força argumentativa: “Nada deve ser pressuposto como evidente, a menos que seja conhecido per se ou evidente por experiência ou demonstrado pela autoridade da Escritura”.
Marcel Proust matou-se, de tanto insistir na busca do tempo perdido; em seu gigantesco esforço para recuperar as emoções, paisagens e sensações de sua infância terna e feliz, enfermo e insone, criou, em duas mil páginas, uma das sagas romanescas mais importantes de toda a história da literatura.
Isolado do mundanismo de que fizera parte, como um cronista de amenidades (ou da sociedade dos ricos e bem nascidos) - como um Robinson Crusoé, em pleno turbilhão urbano de Paris, em seu quarto todo coberto de cortiça, buscou reencontrar, no espaço da memória, as emoções e os afetos que deram sentido à sua existência, mesmo sabendo que o tempo e o espaço não existem - são ilusões criadas pela humanidade, para não sucumbir ao horror e ao absurdo de existir para nada, em meio ao infinito vazio.
Pois Marcel Proust fez o gesto camicase, e nem todos os psiquiatras do mundo, reunidos, dariam conta de produzir a magistral poesia em prosa de uma só de suas páginas. Neste sentido, analisa André Maurois: " Um enamorado totalmente normal ama e não disserta sobre o amor. A família magnífica e lamentável dos nervosos é o sal da terra. São eles e não os outros que fundaram as religiões e compuseram as obras primas. O mundo nunca saberá o que lhes deve, nem sobretudo o que sofreram para lhes dar o que lhes deram.
Quase pode dizer que as obras, "como os poços artesianos, sobem mais alto à medida que o sofrimento tenha cavado o coração mais fundo". A doença, forçando Proust a enclausurar-se durante grande parte de sua vida, mais tarde a só estar com os amigos à noite, ou mesmo a não vê-los nunca, não lhe permitindo contemplar as macieiras em flor senão pelas vidraças de um carro, ou de um quarto, libertou-o por um lado das servidões da vida social e tornou-o disponível para a meditação, a leitura, a paciente procura das palavras e, por outro lado, deu para ele mais valor às coisas da natureza, tal como a tinha conhecido em sua infância feliz".
Sabendo existir um geometria do espaço, Marcel Proust tentou entender a psicologia do tempo: " Todos os seres humanos quer o aceitem ou não, estão imersos no tempo e são levados pela corrente dos dias. Toda sua vida é uma luta contra o tempo. Gostariam de se ligar a um amor, a uma amizade, mas estes sentimentos não podem manter-se à tona senão agarrados a pessoas que por sua vez se desagregam e se afundam, seja que morram, que desapareçam de nossa vida ou que nós mesmos mudemos. O olvido das profundezas sobe lentamente ao redor das mais belas e mais caras lembranças.
Chegará a hora em que, encontrando uma senhora gorda, em vão procuraremos em seus traços um nome que não mais encontramos, até que ela própria o diga e só então reconhecemos ali a moça que tanto amáramos". (...) Nosso eu apaixonado não pode sequer imaginar o que seria o nosso eu não apaixonado; nosso eu jovem ri das paixões dos velhos, que serão as nossas, quando entrarmos no foco do projetor da velhice. Já no fim de sua vida Proust ainda podia ouvir "o tilintar saltitante, ferruginoso, interminável, estridente e repetido da pequena sineta" quem, em sua infância, anunciava a partida de Swann. E o tempo que aparentemente se perdera volta a renascer.
Mas a busca do tempo perdido - assinala André Maurois - só pode ser empreendida em nós mesmos. Ir rever lugares de que já gostamos, ir à cata de lembranças pelo mundo real sempre será decepcionante: "Não existe esse mundo real. Nós mesmos é que o fazemos. E ele também passa sob os projetores das paixões que nos tomam.
Um homem que esteja amando achará maravilhosa uma região que a qualquer outro parecerá muito feia. A pessoa que tem vida interior tem visões, percepções, sensações que desconhece o homem bruto da rua, que vive somente para a satisfação de seus instintos primários - o homem sem estética, sem poesia e sem metafísica não sofre senão quando lhe falta água e comida que lhe satisfaçam a sede e a fome, pois reduz-se a ser "besta saciada que procria".
A busca do tempo perdido pode levar o buscador sensível e atento à percepção de que o tempo verdadeiro, aquele que não se reduz à percepção dos sentidos, é o tempo interior. Tempo é memória, a leitura de Proust e de Jidhu Krishnamurt, bem como dos grandes mestres da sabedoria eterna, leva-nos a compreender isto. Onde a memória se exaure, a imaginação insiste em prosseguir. Onde a memória é mãe da imaginação? Em que ponto a imaginação retroalimenta a memória? G. Bachelard nos diz, em sua Poética do Devaneio: "Só quando a alma e a mente estão unidas num devaneio, pelo devaneio mesmo, é que nos beneficiamos da união entre a imaginação e a memória. Não podemos dizer que estamos vivendo o passado. O nosso passado é que imagina-se vivendo de novo".
"Com o tempo, passa". "Como o tempo passa!". "Como custa a passar o tempo, quando estamos em sofrimento. E como passa, veloz, nas horas leves e alegres! O tempo, em si mesmo, não tem existência objetiva. Nós é que o criamos na mente, sendo o que chamamos de tempo apenas uma energia subjetiva, uma convenção a ser seguida para fins práticos de cumprimento de compromissos, ou para não nos perdermos de nossos endereços residenciais.
Nas perdas profundas o tempo é mais demoroso. Como custa a passar, tudo aquilo que nos é custoso! "Somos nós, é nosso desejo, nossa cultura que dão sua forma, ou seu valor às coisas". Uma vez perdido o tempo de ser feliz nunca mais o teremos de volta, a não ser em forma de lembrança, em meio a longas e saudosas viagens aos caminhos da memória. Ao final de sua hercúlea jornada criativa, Marcel Proust viu-se consolado pela certeza de ter criado uma catedral memorialística que ocuparia lugar de destaque no tesouro literário e artístico da humanidade. Seu esforço de Sísifo não foi em vão. Valeu a pena não ter a alma pequena.
Sua busca do tempo perdido levou-o da angústia ao êxtase. O tempo reencontrado pelo Ser individuado (ou realizado) leva à percepção de que o tempo que buscamos dentro de nós atualiza a experiência. Torna próximo o distante, une o imanente e o transcendente.
Assim como o oceano, somos feitos de movimento e estabilidade. Há uma ordem implícita, a reger o eterno mistério da vida. Sofrimento e esplendor fizeram foram alimentos essenciais à aventura criativa de Marcel Proust, o gênio literário francês. Resume (ou ilumina) a saga de herói por que passou (e que o imortalizou) uma frase do poeta Wordsworth: "Como é estranho que todos os erros, dores e infelicidades, remorsos, vexações, cansaços misturados em minha mente, tiveram sempre participação necessária, da vida tranqüila, na composição que é minha, quando sou digno de mim".
Os urbanóides somos uns pobres diabos. Quando inseridos na paisagem silenciosa do campo, apenas duas atitudes nos são factíveis: ou contemplamos a natureza com um ar apalermado (os ribeirinhos, então, riem-se de nós), ou ansiamos voltar correndo para o purgatório das cidades com seus shoppings e lojas de conveniências edificados com os mais caros e frios mármores. A maioria de nós, ainda que escravos do trabalho e do dinheiro, segue a primeira opção e se entrega à calmaria do verde, absolutamente aliviados da correria enlouquecedora do cotidiano.
Brasileiro adora feriado. No último deles, estive em Corumbazul, um pacato lugarejo situado no interior de Goiás, perto da cidade de Buriti Alegre (que sorte ter um nome assim...). Tudo ficará belo para sempre? Enquanto navegava pelas águas sossegadas do Lago das Brisas, fiquei absorto em reflexões que, embora dramáticas, não me tornaram mais amargo do que o habitual. Assim como a minha auto-estima, o nível da água era baixo, resultado da longa estiagem, das mudanças climáticas profundas e irreversíveis que, sim, tudo indica estejam em voga. Quando o lago artificial foi criado, cobriu centenas de hectares de terra, deixando submersa toda a flora e parte da fauna que não conseguiu escapulir das estripulias humanas. Galhos e troncos de árvores mortas esticam-se fora d’água como esqueletos, vestígios da mortandade impingida por uma causa coletiva maior (será?!).
Pássaros de várias espécies faziam vôos rasantes sobre mim. Um pica-pau picotava um tronco seco em busca de larvas e outros insetos. Sorte a minha ele não ter me enxergado, eu, verme servil da cidade grande. No barranco árido, uma seriema, ave símbolo do cerrado, piou com formosura. Leitor, você já teria ouvido, além das buzinas e das sirenes industriais, o canto de uma seriema? Ele se parece com uma gargalhada, pode acreditar. E aquela ave ria de mim, tive a certeza.
Meus amigos me perguntaram se eu não queria saltar ali mesmo, no meio do lago. Companheiros de agonia, ainda não quero me matar, eu lhes disse. Estranhei a proposta, afinal, a profundidade do lago passa de cem metros, em vários pontos. Iam me arrastar por uma corda, como um reboque, um esquiador sem esqui. Não tinha perigo, não senhor. Podia vestir o colete salva-vidas, pular n’água e segurar na ponta da corda que me puxariam com o maior cuidado, devagar, e que o efeito da brincadeira seria semelhante ao de uma hidromassagem. Aceitei a provocação da turma e tibum! Lancei meu corpo magro dentro do lago. Por segundos, eu me recordei daquele menino que foi arrastado pelas ruas do Rio de Janeiro atado ao cinto de segurança por um bando de facínoras.
Procurei me desvencilhar da inconveniente comparação. Pensei então nos rios e ribeirões que cortam a minha cidade. São cursos de água pútridos e sem peixes. São líquidos aberrantes que, após submetidos às decantações e técnicas de tratamento com produtos químicos potentes, transformam-se na água supostamente potável que escoa pelas torneiras, gargalos e goelas de Goiânia. Esforcei para não me lembrar de outras sandices da cidade. Tarefa fácil quando se é arrastado por uma lancha dentro de um lago azul com água refrescante.
Gente gosta de por defeito em tudo. Somos assim mesmo. Nem tudo estava nos conformes. O visual era lindo. O clima, agradável. Contudo, por mais que eu tentasse, não consegui fisgar um só peixe.
Enquanto pelejava para esquecer a vida tola que levo, troquei a vara, mudei o molinete, tentei uma carretilha, experimentei uma linha mais fina, uma linha mais grossa e anzóis de todos os modelos e tamanhos. Nada. Nem mesmo uma beliscadinha. O fracasso da pesca esportiva não me diminuiu. Na roça, reconheço, sou quase um alienígena.
Retornei com os amigos para a sede da chácara construída às margens do lago. Já era noite e um gourmet se esmerava no preparo de um arroz-de-carreteiro. Pude sentir o cheiro da carne de sol fritinha que se mesclava aos aromas do cerrado. O teto negro sem lua estava salpicado de estrelas, planetas e, garantem os cientistas, satélites enxeridos que imitam estrelas e bisbilhotam nossas vidas. Quantas delas há no espaço? Milhares? Milhões? Há mais estrelas no céu do que moedas evaporadas nas desventuras das bolsas de valores mundo afora? As constelações possuem mais estrelas que os bilhões derramados pelos vários governos em reações apavoradas? O céu infinito, mesmo sem o adjutório da lua, não condizia com crise alguma, a não ser as existenciais, como a minha. Duas estrelas caíram do teto escuro. Seguindo a tradição, fiz dois pedidos, um para cada estrela.
Há anos não fazia um passeio tão bucólico. Vi e ouvi tantos passarinhos que quase me perco. Muitos vociferam pela preservação do meio ambiente, dos mananciais de água, da fauna e flora que ainda resistem a tantas matanças e devastações. Trata-se de um tema atualíssimo, principalmente em cenários onde a vida moderna degradou as reservas naturais de forma irreversível, como os países industrializados e as grandes cidades brasileiras. Nosso comportamento é um lixo difícil de ser reciclado.
Felizmente, as novas gerações estão crescendo muito mais conscientes, no que tange à educação ambiental e cidadania. Aprendem estas coisas desde pequeninos nas escolas, através internet e até na TV, quando as emissoras fazem tréguas nas suas programações imbecilizantes. Do ponto de vista pedagógico, nada me parece mais eficaz do que catar fruta no pé, pisar em bosta de vaca, pescar no corregozinho ou tomar banho de rio. Dá até pra se esquecer do dinheiro que os investidores desperdiçam nas bolsas de valores. Pode crer, ele vale bem menos que um por do sol no Lago das Brisas.