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POR EM 13/10/2008 ÀS 05:12 PM

A performance

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Pedro e Marta haviam combinado de irem juntos à abertura, cercada de mistério, da instalação do artista que estava causando sensação naquele momento na cidade. Mas Pedro tivera um problema no trabalho àquela tarde e chegara muito atrasado ao casarão transformado em galeria e local para exposições e performances como aquela. Chovia e ele procurou em vão Marta na pequena multidão que deixava o local às pressas, molhada e espavorida. Como não a encontrou, resolveu juntar-se ao segundo grupo que já se formava na fila de entrada.

O casarão ficava numa parte elevada e tinha uma construção bizarra por causa do terreno desnivelado. Antes de chegar à porta principal passava-se por uma piscina ladeada por paredes altas, localizada na parte abaixo do casarão, e um muro lateral por onde subia uma escada de degraus largos, cercada de jardins.

Passando pela porta, chegava-se às muitas salas. Um recepcionista mudo entregou o programa a que se deveria assistir. Setas e placas apontavam a direção. O programa dividia-se em duas partes. Na primeira, em uma sala de cinema especialmente preparada era projetado um documentário fictício em preto-e-branco sobre vítimas da ditadura em um país latino-americano. Nos dois lados da sala havia máquinas, em torno de dez, metade em cada lado, que Pedro notou serem imitações de aparelhos mata-moscas eletrônicos de luz negra, que no início da sessão permaneciam apagados.

No final do filmete, falado em espanhol e português, que durou 15 minutos, os personagens principais reapareciam na tela e os que haviam sido torturados até à morte diziam seus nomes e iam lentamente desaparecendo da tela, quando, para cada menção, se acendia o mata-moscas fazendo o barulho característico de eletrocussão e um cheiro de carne queimada era exalado.

Em seguida, ia-se a outra sala onde um outro filme mostrava o próprio artista caracterizado de Little Richard cantando acompanhado por uma banda de músicos vestidos como gângsteres. No meio do show, a apresentação era interrompida e em seu lugar eram exibidas imagens do lado de fora. As imagens focavam as pessoas que tinham saído da sessão anterior deixando o local apressadamente, ao som de uma música marcial, descendo os degraus da escada atabalhoadamente, alguns corriam.

Canhões laser disparavam finos feixes de luz vermelha sobre as pessoas. Os feixes de laser eram seguidos de sons que imitavam balas sendo disparadas e barulhos de detonação e pessoas gritando. No meio daquela confusão, Pedro pôde distinguir Marta, num momento em que quase caiu e olhou para trás, a câmera aproximou seu rosto num close.

Por fim, as luzes se acenderam, a música terminou e era a vez dos que tinham assistido ao filme sair para a rua. Pedro tentou ligar para Marta, mas do outro lado do celular ninguém atendeu a ligação.

Chovia mais forte quando ele deixou o casarão, o que tornou a “escapada” ainda mais dramática.

Pedro abriu o guarda-chuva preto iluminado por fora pelo canhão de luz vermelha em meio aos estampidos, silvos e gritos e forçou a passagem pelo grupo que ia mais à frente.


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POR EM 13/10/2008 ÀS 05:00 PM

As torres em setembro

publicado em


Das imagens que compartilhamos, a mais terrível de todas é sem dúvida a das torres gêmeas desabando no coração de Manhatan, como um simples castelo de areia ou um edifício da construtora Sersan do deputado Sérgio Naya. Um inferno de Dante com os efeitos especiais da animação.

Tragédia requer gritos, estrondos, sussurros, movimentos, cores, ritmo. Tecnologia em débâcle, mas com certa coreografia.

A propósito de tal imagem, não tardou para que os moldadores do acontecido identificassem um rosto por trás da tragédia: bin Ladem. Uma cara humana, terrivelmente doce, a ponto de ser messiânica.

Precisamos disso: um rosto. Até às forças cósmicas, que desde sempre dominam o cenário, atribuímos um nome e uma cara.

Mas o maior desastre ainda estava por vir. E como não poderia deixar de ser, teria de vir em setembro. É também na primavera que desabrocham as flores do mal.

Foi então que desabaram os pilares do mundo. Do mundo capitalista. Os senhores do universo estão mais tontos que um bêbado atropelado na noite escura.

E desta vez, pelo menos até agora, os moldadores do acontecido não acharam um rosto por trás das causas. Elas estão no próprio sistema. Há uma curuba secreta na canela do sistema e ele ruiu na surdina, sem que houvesse por trás um louco barbudo, comandando um batalhão de fanáticos embutidos em blusões de bombas, nem uma esquadrilha de aviões furiosamente atirados contra os pilares do sistema. Dessa vez o mal desabrochou em suspenso. Uma flor no ar. Sem ramos que a sustentasse. Sem tronco, sem raiz. Uma conseqüência sem causa. Um milagre estuporado.

Mas me foi dado conhecer dessas coisas antes que elas viessem a furo. Só não sabia exatamente como seria. Mas que seria uma desgraça de monta eu já sabia. Pois exatamente na tarde de 11 de setembro, o dia fatídico da história pós-moderna, eu esgueirava pelo cruzamento da Av. T-4 com a T-63.

Certa moça agazelada, peitos altivos, nádegas abundantes, sensual e confiante atravessava na faixa, convertida em passarela. O mundo pára pra ver. Até o vento faz reverência. Mas quando a moça se acha no meio da rua, no ponto crucial, o taco de seu salto 15 solta, cepilhando no asfalto. As pernas gaguejam, mascando o discurso do próprio caminhar.

Num desgoverno medonho, as pernas espetaculares se digladiam, dão golpes nervosos, em falso, como lanças de alguma luta marcial. A moça se debate feito um bicho de muitas pernas e braços. Num instinto de proteção ainda atira o lep-top pro céu. Nisso se passa um tempão, como se uma força oculta a mantivesse pendurada no ar. Finalmente estatela-se na faixa, no meio da rua, já desprovida do temperamento forte, da dignidade arrogante de que são dotadas as mulheres bonitas.

O tombo da moça foi apenas o estopim que detonou a hecatombe financeira. Pelos princípios da física quântica, a força que a derrubou, ampliada exponencialmente pelos golpes que desferiu no ar, reverberou sem clemência pelo mundo, implodindo os mercados e outros valores da superstição humana.  Pressenti difusamente tudo isso quando vi a moça caindo.
 


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POR EM 13/10/2008 ÀS 04:54 PM

Educação em Goiânia: parece mas não É

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A afirmação é: a Rede Municipal de Ensino de Goiânia adotou o sistema de Ciclo de Desenvolvimento Humano como modelo pedagógico. Verdade ou mentira? Oficialmente “verdade”. É o que aparece nos relatórios, documentos oficiais e propaganda institucional. E na prática?  Parece mas não é.

Não vêm ao caso discutir se o Ciclo é um modelo bom ou ruim em sua totalidade. O fato é que, praticamente tudo, o que o Ciclo apresenta de positivo está sendo descaracterizado ou solenemente ignorado pela atual gestão da Secretária Municipal de Educação. Quero acreditar que se trata mais da dificuldade natural em administrar um modelo ainda experimental do que de má fé. Muitas vezes, uma desmedida vontade de acertar gera equívocos. Mas eles sempre podem ser corrigidos. Basta mudar de direção. Trabalhar com educação é isso. É preciso estar disposto a aprender com os erros.  

Desde que o Ciclo começou a ser implantado em Goiânia, ainda na década de 1990, aconteceram inúmeras mudanças. Nenhum ano letivo era igual ao outro. Ninguém parecia saber exatamente o que estava acontecendo. Apesar da confusão, uma coisa era certa: cada mudança proposta, por mais absurda que parecesse, como o fim da reprovação ou o agrupamento dos alunos por critério de idade, direcionava a RME para o modelo teórico do Ciclo. O equilíbrio, supunha-se, viria com o tempo.

Inexplicavelmente, na atual gestão, a grande maioria das mudanças propostas reaproxima o suposto Ciclo ao modelo tradicional da educação seriada. Cada vez mais, a palavra Ciclo deixa de ser uma tentativa de se criar uma realidade para se transformar em simples rótulo.
   
Os dois primeiros motivos são de ordem técnica. Primeiro: os professores foram formados na seriação e pensam conforme esse sistema. Somente uma vivência real do Ciclo pode, em médio ou longo prazo, mudar essa realidade. Segundo: não existe muito material didático disponível que se encaixe na proposta pedagógica do Ciclo. Os livros distribuídos pelo MEC nas escolas públicas obedecem à lógica da seriação.
   
Os outros motivos são de ordem administrativas. A RME, talvez por excesso de zelo, se esmera em restringir ao mínimo a independência das unidades escolares. O passo decisivo nessa direção foi à proibição das reuniões pedagógicas semanais, que eram realizadas nos dois últimos horários de sexta-feira. Diversos projetos nasciam e eram desenvolvidos ali. Com o fim das reuniões semanais, substituídas por parcos e preguiçosos quatro encontros anuais, realizados aos sábados, o trabalho coletivo, uma das bases do Ciclo, ficou desarticulado. Os professores tornaram-se verdadeiros estranhos entre si, mal se encontrando nos poucos minutos de intervalo entre as aulas.
   
A desculpa oficial é que, segundo a LDB, o aluno têm direito a 800 horas aulas anuais, distribuídas em 200 dias letivos. Alegam que as reuniões pedagógicas impediriam o cumprimento desse calendário.

Na verdade, trata-se de uma lei flexível, que pressupõe a organização interna de cada escola para cumpri-la, considerando suas particularidades, mas que é tratada como dogma de fé pela RME, engessando suas unidades. O tal postura for a correta implica dizer que a própria RME ficou na ilegalidade durante anos, assim como praticamente a totalidade das escolas particulares. 
   
Ao mesmo tempo, muitos dos pontos positivos desapareceram. A grade paritaria, por exemplo, não existe mais. Antes, seguindo o princípio da interdisciplinaridade, todas as matérias eram consideradas de modo equivalente. Agora, a distribuição das aulas não obedece mais nenhum critério lógico. Sei de turmas que assistem duas aulas de Matemática por semana, contra cinco de Educação Física.
   
O mesmo pode ser dito acerca das chamadas fichas avaliativas. Os professores são obrigados a escrevê-las usando um tipo de “Nova-língua” ao estilo do romance pessimista 1984, de George Orwell.

Mesmo que o aluno seja faltoso (ele pode faltar até 75% das aulas sem ser considerado desistente!!!!!), violento, desinteressado, apático etc, etc, etc, o professor está terminantemente proibido de descrever claramente a realidade. Por mais lamentável que seja a situação, é obrigado a usar uma terminologia politicamente correta, previamente determinada, que sustente a idéia de que o aluno está “em desenvolvimento” e nada mais. Afinal, como pode a escola ensinar o aluno a ser um “cidadão crítico” se os mestres estão oficialmente impedidos de exercer qualquer critério de julgamento crítico, nem mesmo sobre a disciplina nas quais se especializaram em nível superior?
   
Há outras anomalias. Por estranho que possa parecer, a realização de reuniões de pais ou responsáveis também foi proibida. Aliás, não totalmente proibidas, mas só podem acontecer em duas situações surreais: sem a interrupção das aulas ou fora do horário de aulas. No primeiro caso, os professores, ocupados lecionando, simplesmente não podem conversar com os pais ou responsáveis sobre as dificuldades ou méritos dos estudantes. A “reunião” passou a ser mera formalidade de entrega de resultados, realizada na secretaria da escola. No segundo caso, o professor deixa de ser um profissional para se transformar em um “amigo da escola”. Deve abdicar de seu pouco horário livre para servir à comunidade. Por que isso? Por que uma reunião de pais ou responsáveis não pode ser considerado um momento pedagógico?
   
Parece que estamos vivendo uma “ditadura do quadro-negro”. Atualmente, só consideram que o professor está trabalhando se estiver dentro de sala de aula, com um livro aberto e a mão suja de giz.

Qualquer coisa diferente disso é considerado malandragem. Até mesmo os jogos internos promovidos por diversas unidades escolares municipais sofrem restrições. As aulas não são interrompidas nem mesmo durante as competições, como acontece normalmente em algumas das melhores escolas particulares do Brasil. Para a RME de Goiânia, apenas os alunos que vão competir ganham permissão para sair da sala. Onde fica a interação das turmas? Esporte não é cultura? Esporte não é prática pedagógica? Por quê o que vale para a Rede Particular não vale para a Rede pública?  
   
Perguntas que não precisam apenas ser respondidas. Criar respostas burocráticas e legalistas é fácil. É necessária uma mudança de atitude. Ter a hombridade de voltar ao sistema de seriação, ao invés de apenas macaqueá-lo, ou ter a coragem de transformar o Ciclo de Goiânia em um Ciclo de verdade. Os gestores da RME não precisam ter medo dos professores. Reprimi-los não é a solução. É continuar alimentando uma inútil “guerra fria” entre grupos que deveriam ser aliados. Se o Ciclo é mesmo o futuro da educação, acreditem, os professores estão dispostos a ajudar.


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POR EM 07/10/2008 ÀS 03:27 PM

Autores e livros

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Um Nobel para o universal Philip Roth


Na quinta-feira, 9, a Academia Sueca divulgará o Prêmio Nobel de Literatura de 2008. Os escritores mais cotados são o francês Jean-Marie Le Clezio, o israelense Amós Oz, o americano Philip Roth e o japonês Haruki Murakami.

Se derem o Nobel a Le Clezio é porque querem fazer renascer a combalida literatura francesa. Ele não é ruim, é apenas filho da mediocracia do país de Balzac. Os franceses, desde Proust e Gide, não produzem nada de certa qualidade. Só um lixão incompreensível, experimentos de monturo, firulas literárias, e polemistas artificiais. Uma tristeza dos diabos. Talvez Satã tenha mesmo culpa, mas desconfio que os franceses copiaram James Joyce, via novo romance, e deram com os burros n´água. Joyce tem o condão de esterilizar seus imitadores. Faulkner, felizmente, não é uma imitação — é um par, digamos assim; num dia de mais ousadia, direi que é superior a Joyce, mas, em literatura, pega mal esse discurso de "superior" e "inferior", de "evolução". Se voltarem a Flaubert e a Proust, não para copiarem sua prosa, e sim para reinventá-la, se isto é possível, talvez descubram, mais uma vez, o caminho das Índias da qualidade literária. A França, em termos de literatura, está morta, como a Inglaterra, em termos coloniais. Mas, em termos de literatura, a Inglaterra é, hoje, a metrópole do mundo. Quem tem Ian McEwan, amigos, tem Deus. Por falar nisso, daria o Nobel a McEwan, pelo romance "Reparação", sua principal obra. Daria e aplaudiria, soltando foguetes. Assim como daria a Martin Amis, pela ótima prosa sobre o stalinismo. Amis escreveu um romance russo, "Casa de Encontros", com a leveza dos ingleses. Gostaria, muito, de saber como foi sua recepção na Rússia e nos outros países da extinta União Soviética.

O judeu Amós Oz é um escritor esplêndido, mas pode esperar um pouquinho mais e abrir espaço para o transcendental (ele detestaria a palavra) Philip Roth, autor dos seminais "O Complexo de Portnoy" e "O Teatro de Sabbath". Eu daria o Nobel a Roth, sem pensar meia vez. É o meu nome para este ano. Friso que Roth está se portando como esquerdista e que isto, para a Academia Sueca, é adequado. De bom-tom. Os politicamente corretos, que chamo de politicamente burricos, são prestigiados pelos suecos. Roth apóia o negro Barack Obama para presidente dos Estados Unidos. Se a Academia Sueca prestigiá-lo com o Nobel estará dando uma mãozinha a Obama. Por mais que não aprove Obama, espécie de embuste americano, fico na torcida pelo sucesso de Roth.

Depois de Roth, e acima um tiquinho de Amós Oz e David Grossman (que prezo pra caramba; "Desvario" é um belo livro, belíssimo. "Ver: Amor" é uma obra-prima — melhor do que muito do que Roth tem publicado nos últimos anos), exijo o Nobel para, empatados, Mario Vargas Llosa ou John Updike. Pelo conjunto da obra. São escritores notáveis, até brilhantes, e críticos do primeiro time. Updike escreve muito bem sobre variados assuntos, inclusive, e talvez sobretudo, artes plásticas — área na qual proliferam pseudos (alguns extorquindo os coitados dos artistas plásticos).

José Saramago, o escritor mais chato e pedestre de todos os tempos, ganhou o Nobel e, com isso, atrapalhou António Lobo Antunes, que escreve muito melhor, de modo mais literário e inventivo. Lobo Antunes talvez não ganhe o Nobel, porque dificilmente a Academia Sueca dará dois prêmios para autores de língua portuguesa num curto espaço de tempo. Lobo Antunes é o Roth de Portugal, quer dizer, aquele escritor nato, que não se consagrou às custas da patota comunista. Saramago é um filho tardio da Guerra Fria, escreve literatura como se fizesse relatórios para o PC. É um Jorge Amado um tantinho mais sofisticado.

Há outras apostas, às quais eu daria meu voto, sem medo de cometer injustiça: Don DeLillo e Thomas Pynchon. Este, autor difícil.  Joyce Carol Oates, uma das poucas mulheres cotadas, senão a única, escreve bem, mas, não sei por quê, torço o nariz para sua prosa, e não conheço a sua poesia.

Se Murakami ganhar, deixo de ler literatura por dois anos.

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POR EM 07/10/2008 ÀS 09:18 AM

Filmes

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Zona Mortal,
(2005). Dirigido por Aku Louhimies

Se você espera algum tipo de redenção por parte de algum personagem do filme, esqueça. Se você espera algum final feliz esqueça também. Com a sua narrativa não linear, permeada por sexo, depressão, drogas, desemprego, traição e tudo o que de pior pode acontecer na vida de um ser humano, Zona Mortal consegue, baseando-se na Teoria do Caos, incitar reflexões acerca do alcance de nossas ações e sobre nossa responsabilidade para com o próximo. Um filme negro e triste, para o qual contribui a escuridão do inverno finlandês e dos ambientes mal iluminados.

Link para o imdb

Trailer

 


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POR EM 07/10/2008 ÀS 09:12 AM

Síncope

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As pernas não respondiam. Por mais que tentasse, nada. Estavam ali imobilizadas, soltas, distendidas, presas à cama. Algo que ele demorou a compreender. Somente tomando consciência da real situação em que se encontrava, quando, num átimo, sentiu um leve formigamento na perna esquerda, o que o fez, subitamente, tentar tocá-la, mas não pôde, estava preso, do tronco para baixo, totalmente à mercê do que ele sempre temera: a total dependência dos outros.
 
O quarto velho e desgastado compunha um ambiente triste e desolador, imprimindo no branco manchado de suas paredes a história de muitas vidas que por ali passaram. Do teto, também pintado de branco, um pouco mais conservado, pendiam duas finas correntes, nas quais os tubos de soro eram fixados, servindo, muitas vezes, aos olhos toldados de algum paciente, como apêndice dos seus delírios.
 
Era longe demais para chorar, para lembrar-se de qualquer coisa que o tornasse ao comum, ao familiar. Uma feição grave se apossou do seu rosto, parecia desconhecer tudo, inclusive a si mesmo, de quem não lembrava o nome. Tudo era muito longe, diria distante, como os dedos dos pés que não se mexiam, não serviam para nada, totalmente inúteis. Quem o teria deixado ali, que mal fizera para que um filho da puta qualquer o imobilizasse daquela maneira? Se pelo menos ele pudesse se lembrar de alguma coisa, um nome que fosse; quem sabe o dele.
 
Um desespero tomou conta de si, precisava acalmar-se, o corpo estava molhado de suor. Alguém veio, caminhou em sua direção, estacou ali, bem próximo dele, mas nada disse. Uma fragrância silvestre invadiu o quarto. Tinha de se segurar, não havia nada a fazer, era só esperar. Talvez alguém que viera acabar de fazer o serviço. Bastariam mais dois passos, o travesseiro, e pá! Acabou. Um verdadeiro pânico sobre ele se abateu.
 
Acenderam as luzes, e ele, como que aliviado, mas ainda sem saber de nada, contemplou os grandes olhos verdes da enfermeira que esboçara um sorriso, depositando a bandeja de remédios e seringas na mesinha ao lado da sua cama, quando, delicadamente e satisfeita, inoculou a agulha da seringa no tubo de soro, posteriormente prometendo que ele ficaria bom. Logo tudo acabará! Sentiu-se aliviado.
 
Por um momento, certo torpor, uma quentura percorrera-lhe o corpo, foi quando pôde divisar, do outro lado, numa cama parecida com a sua, um senhor de uns setenta anos, cabelo branco e escasso, todo entubado e amarrado pelos pulsos. Estava num sanatório, num hospício, pensou. Sua cabeça girou, sentiu o que lhe restava do corpo bambo, mas um sentir sem muita esperança. Um sentimento alheio a tudo, como aquele que se tem quando reencontramos pessoas que há muito não víamos, que por elas alimentávamos muita feição e encantamento, mas que, ao revê-las, descobrimos que o nosso poder criador é lastimável, o que amávamos era o longe, o distante. Naquele momento conseguimos varrer os últimos vestígios de uma existência, de um compartilhamento. Adormeceu.
 
Acordou com uma grande vontade de esvaziar a bexiga, foi ao desespero. Como? Como sairia dali para mijar? estava paralisado, preso duplamente pelas pernas e pelo soro que o obrigava a conservar a mão esquerda sobre o lençol, sobre o colchão da cama. Ouviu um som vindo de fora, percebeu que se tratava de um rádio, um programa religioso. Muita gritaria. Inquietou-se. Sua bexiga iria estourar, o que fazer? Tentou chamar a enfermeira, mas o som ficara preso na garganta, estava muito fraco, debilitado. Com uma mão começou a pressionar o pinto, que também estava adormecido. Que loucura! Do outro lado, o senhor da cama estrebuchava, tentava se soltar, fazendo um alarido estranho, um som esquisito, um piado, um chiado, sabe-se lá, eram espasmos seguidos, parecendo que após tamanho esforço, o homem não se restabeleceria, mas contrariando as previsões, ele se acalmara, o cansaço se esvaíra, e ele voltara a dormir.
 
Também não resistiu, deixou-se abater, mijou-se todo, mas também nada mais importava, estava ali mesmo, imobilizado, inútil, desprezado. Por um bom tempo quedou aliviado, era o que parecia. Uma sensação de bem estar, de alívio. Mas a felicidade durou pouco, fora arrastado por um sentimento de perda, de desprezo. O coração era puro ruído, como uma velha máquina de arroz, ia e vinha, parecendo querer arremessá-lo para outra realidade, talvez menos cruel. Não tinha certeza de qual. Viver era mesmo muito difícil, principalmente na condição em que se encontrava. Ali, preso, sozinho. Ao som do seu coração, mais uma vez adormeceu.
 
Bom dia! Bom dia! Fora acordado pelos berros do médico que o saudara. Como vai o meu paciente? Parece-me muito bem! Ouvia tudo aquilo ainda desconfiado, sem saber bem ao certo do que se tratava. Tentou virar-se subitamente, mas fora impedido por uma dor bem aguda, vindo da sua virilha; nisso percebeu que tinha conseguido mexer a perna, os dedos dos pés. Não podia acreditar naquilo que estava fazendo, ele que há tão pouco estivera em pânico, sem ninguém, imobilizado, a mercê dos outros. Agora ali, sentindo dor, mexendo com as partes baixas.
 
Levou a mão ao pinto, pôde senti-lo. Apalpou o saco, estava crescido, suado, grudado na sua perna nua. Um sentimento de alegria tomou conta de todo o seu ser. O médico a tudo assistia sem entender nada, estava ali, contemplando aquele homem que se redescobria. Mais uma vez falou: vejo que a anestesia já passou, deixe-me ver o corte, puxou de supetão o curativo. Perfeito! a cirurgia foi um sucesso, não há mais hérnia, agora é só repouso. Você está de alta, vou pedir a enfermeira para tirar o seu soro, na próxima semana você vem para tirarmos os pontos.
 
Um telefone tocou, deu-se conta que estava na mesinha ao lado da sua cama. Pôde reconhecê-lo como seu, um celular. Esticou o braço direito para pegá-lo. Alô! Disse ele. Uma voz melodiosa respondeu: Amor, estou indo buscá-lo, preparei um café da manhã delicioso para você. Por um momento, contemplou os raios de sol que entravam pelo velho vitrô, sorveu o ar da manhã e sorriu aliviado.

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POR EM 06/10/2008 ÀS 07:38 PM

A orquídea e o punhal

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I

Ora dirás (Orq): - Quando? 

Eu (Pun): - Sempre! Tua boca na minha, a brusca tensão dos corpos, um sobre o outro, chama! Ardência em numes de lusas esferas, sob castiçais e a extrema ternura dos beijos das partes se tocando, na ávida loucura dos querubins se possuindo entre a escuridão dos céus e a estranha luz dos infernos.
 
II
 
Ora, direi(Pun): - Queres?
 
Tu (Orq): - Sim! Com toda força, volúpia, ardor e sangue de tua boca, teu corpo, sinuosa serpente percorrendo suavemente os labirintos meus. O jardim, a muralha, o estóico arbusto de minha Casa.
 
III
 
Ora indagarei (Pun): - Amas-me?
 
Tu (Orq): - Por toda eternidade! E o éden redivivo da concha, do milagre escuso de minhas entranhas; Não, não somente assim, mas muito mais com o veludo e os pêssegos de minha língua sobre a tua pele, o intimo pais de teu incêndio! Sobretudo com minhas alvas mamas roçando tua face de cerâmica chinesa, teus lábios, tua Casa, a máscula extensão de teu império.
 
IV
 
Ora dirás (Orq): - Tens amor?
 
Eu (Pun): -Muito, como ninguém! Às vezes, como nunca alguém teve em toda a existência humana sobre a Terra! Como nunca mortal algum ousou ter; Assim, talvez, como um bicho, um animal selvagem lambendo sua cria, sua voraz e sacra sensibilidade anímica!
 
V
 
Ora direi(Pun): - Virás?
 
Tu (Orq): - Sim! Pelas manhãs bordadas em sangue, em girassóis luminosos, pelas manhãs derramadas em uvas em sangria de trompas romanas enchendo de sopro o ar, a danura dos arcanjos louros, da escandinava possessão de Deus e o Diabo!
 
Virei pelas manhãs de teus deuses ou teus demônios, sempre! Como a serpe e a sua sapiência milenar, corrompida pênsil a sua frágil tentação; E não haverá nessa a ausência senil do fogo, da tara, dos pêlos. Mais que isso, haverá muita sede, vontade e loucura abismal; E o fôlego dos súcubos com certeza dominará minha alma, Far-se-á sobre a sede medieval de minha carne minha natureza aberta, nua recendendo a figos, a cheiro da terra, servida, pois a teu jantar, e não haverá retorno e não haverá receio e não haverá suspeita; Apenas o teu corpo e o meu subirão aos céus, ao delírio ad-mortis do gozo, do prazer eterno!
 
VI
 
Ora dirás (Orq): - Quem?
 
Eu(Pun): - Aqui! Sempre eu, meu amor, minha divina escuridão de tua luz! Canto noturno, ò Orquídea, quebrando o cristal da infância de tua explosão carnal, teu infinito desejo!
 
VII
 
Ora direi (Pun): -Tesão?
 
Tu (Orq): - Chama! Fogo! Explosão de amor! Luxuria, queda, estrondo de pássaros, de asas se partindo, se arrastando nos parapeitos das janelas nos vitrais, nas correntes das águas inundando vales, os canais do coração!
 
VIII
 
Ora diremos (Orq e Pun): - Vamos! Entreguemo-nos! Tu e eu, Orquídea e punhal, nesta noite, neste tempo onde sombras, então perdidas nos lodos dos barrancos dos rios dardejam (em fúria) suas tempestades, seus pecados, a sórdida dor de suas taras rangendo sob as lunetas da tarde e suas alucinações!
 
IX
 
Ora dirás (Orq): - Até quando?
 
Eu (Pun): - Até sempre! Por toda a existência! Lado a lado, corpo a corpo pela maldita e divina ansiedade de nossas entranhas, de nós mesmos o Alfa e o Omega de nosso êxtase!
 
X
 
Ora diremos (Pun e Orq): - Sim, vamos! No ar, na obumbra luz deste amor terroso! Desta glória, ao sublime instante, agora! Ouve ò Orquídea nos aros da tempestade suas brigas de vento incendiadas, Noturno numero 2! Ouve, ò candura, é Chopin! Sim, é Chopin! Só mesmo Tu, ò clara natureza podes compreender este encanto, este inferno de prazer! Só mesmo tu!
 
Não, não tão rápido não somente assim; Ao contrário, muito mais do que nos entregarmos deste modo um ao outro melhor perpetuar o prazer, a caldeira descomunal de nosso desejo, aquela em que Deus num momento de insana “claridade” empurrou para sempre Lúcifer!
 
Melhor, sobretudo é sabermos.

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POR EM 06/10/2008 ÀS 07:16 PM

Uma pegada no meio do caminho

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“Pegada Ecológica”
é o termo criado por William Rees e Mathis Wackernagel, em 1996, para indicar o quanto as pessoas consomem de recursos naturais, isto é, o quanto “marcamos” o ambiente com a nossa passagem pelo planeta. Mais recentemente os ambientalistas adotaram a metodologia da “Pegada” (no original em inglês, “footprint”) para dizer que estamos “consumindo rapidamente o mundo”.

No cálculo da estimativa da Pegada Ecológica, são somadas todas as diferentes áreas necessárias para produzir um bem (e receber os resíduos de seu uso) que é consumido por uma pessoa ou um grupo específico (como um país). Desta forma, existem os conceitos de: i) terra bioprodutiva: para medir a extensão da área necessária para produzir os alimentos que você consome, incluindo o pasto que alimenta o gado, além de madeira; ii) terra de energia: para consumir o gás carbônico que a fabricação do produto que você consumiu expeliu; iii) mar bioprodutivo: para pesca e extrativismo; entre outros.

Esta metodologia mostrou que cada pessoa do mundo (contando 6 bilhões de habitantes, estimativa de 2004) teria o direito a 1,8 hectares, mas o consumo é, desde a década de 80, de 2,2 hectares.

Também é importante lembrar que moradores de países mais industrializados consomem mais recursos que as sociedades tradicionais. Assim, por exemplo, um americano gasta de 200 a 250 litros de água por dia, já um europeu consome entre 140 e 200 litros, enquanto moradores de certas regiões da África gastam apenas 15 litros. É interessante notar que para esta conta de água o uso indireto é fundamental, pois usamos água quando comemos vegetais e animais ou embalamos produtos.

Mas há problemas com esta metodologia. Neste ano, a prestigiosa “Ecological Economics” publicou um trabalho que compara a pegada de todas as nações. Sabem qual o país com pegada mais imperceptível? Cuba. Imagine uma nação atrasada, sem indústrias, sem transporte coletivo minimamente decente, sem internet ou mesmo computadores e principalmente sem liberdade....pois é, esta nação “respeita o meio ambiente”.

Alguns trabalhos já contestaram a metodologia da Pegada, mas agora, na mesma “Ecological Economics”, o pesquisador Nathan Fiala, da Universidade da Califórnia também levanta dúvidas, sobre a conversão de nosso consumo em área da Terra e seqüestro de gás carbônico.

Assim, por exemplo, quando se diz que uma cidade precisa de muito mais área para sustentá-la, como Vancouver que necessita de 174 vezes sua área para ser sustentável, a pergunta é: faz sentido a comparação? Ora, as pessoas moram nas cidades pois é mais eficiente que morar na zona rural e uma pessoa na cidade precisa de menos terra que uma pessoa vivendo no campo. Ou como se diria na economia: os bens são produzidos de acordo com a vantagem comparativa. Neste sentido, a Pegada mede muito mais a desigualdade do uso dos recursos do que a sustentabilidade de uma cidade ou nação.

Outro problema da “footprint” é a previsão. Muitas vezes, pensamos que “se todo o mundo consumir como um americano, o planeta não suporta”. Mas isto não leva em conta a tecnologia. Assim se os brasileiros aumentarem o consumo, é provável (e altamente desejável) que já se utilizem de novas tecnologias e desta forma, nossa pegada poderia ser comparativamente menor à americana. Isto, de fato, aconteceu com o uso dos celulares, pois vocês se lembram aquelas baterias horrorosas que não duravam nada e iam para o lixo? O celular, quando alcançou os milhões de usuários brasileiros já não precisava mais daquilo. Nas previsões do uso dos recursos, os ambientalistas usam a Pegada sem considerar a modernização da tecnologia.

Vejamos, ainda, a produção global de grãos. Ela aumentou entre 1961 e 2006, numa taxa anual de 2,17% enquanto a terra usada para tal produção aumentou numa taxa de 0,09%. Isto é, a produção intensiva, às vezes muito criticada por ambientalistas, têm se mostrado bastante “ecológica”. Aliás, maiores rendimentos de produção de cereais/área estão associados a menor degradação da terra e os EUA são os países mais produtivos por hectare de terra plantado.

Porém, a maior contribuição do trabalho de Fiala é quando ele relaciona a “footprint” dos países, com variáveis como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e o número de toneladas de carbono emitido por habitante, mostrando que são altamente correlacionadas, isto é, quanto maior a Pegada, maior o IDH e maior os níveis de carbono emitidos, mas a mesma medida de Pegada não guarda quaisquer relações com a degradação do solo ou a produção agrícola.

Afinal, o que a “footprint” mede? Desenvolvimento. Perceba, o leitor, que se ela inferisse realmente sobre sustentabilidade, seus valores teriam alta relação (negativa) com degradação do solo?

Nos últimos 50 anos, a humanidade comeu mais, permaneceu mais em escolas, morreu menos de epidemias, construiu mais saneamento básico e a expectativa de vida aumentou (claro, com as exceções de sempre). Sim, deixamos a nossa marca no Planeta, independente de como ela é medida. Mas olhando pra trás, será que não compensou?


Referências:

Fiala, N. 2008. Measuring sustainability: why the ecological footprint is bad economics and bad environmental science? Ecological Economics, 67: 519-525.

Moran, D.D. et al. 2008. Measuring sustainable development- nation by nation. Ecological Economics, 64: 470-474.


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POR EM 06/10/2008 ÀS 06:46 PM

Surfistas de Skate

publicado em


Prossegue a série da Folia Anartista.
Blocos desconexos entre a cabeça e o rabo do peixe.
E outros poemas de ocasião, como de praxe.


Surfistas de skate

O livro adotado é chato. Um saco. Um osso jurássico. Um pterodáctilo. Hábito de leitura? Delete. O barato é uma aventura com a musa da Internet. A bundinha redondinha de Lara Croft. Tomb Rider com chiclete. Se pluga. Pega uma onda de prancha e navega de skate.

Ó criatura, se isso aí não é um papo de pulgas! Daí vem o vestibae te pega. Tu levas pau em literatura.

Charges de Charles Chaplin Dj de Janis Joplin

O professor de literatura, que figura! Um ser insone e descabelado. Um homem fino, feito folha de papel vista de lado. O nariz de estile, num perfil de sulfite. Magro, enfronhado em seus panos amarrotados. Um terno de linho desbotado e puído, de cor indefinida, meio cor de moranga, meio furta-cor, meio pardo, meio-tom de burro fugido. Lâmina de alumínio que se amarrota de um prato de self service: o rosto do mestre. Em brochura ou capa dura, o cardápio. Moinhos de vento, a marmita do marmota. Um homem amarrotado, de fato. Um tipo com a roupa de seu estereótipo. Sobrecarregado de livros. Os bolsos do paletó abarrotados de pocket books. Shakespeare! Saúde, professor.

O dia em que o boneco Chuck deu um teco no rinoceronte de ionesco

Um poliglota, o Hipólito. O hipopótamo. Cheio de línguas. Latim. Grego. Um esnobe. Uma íngua. Um chato de galocha. Etílicos, inchados, os olhos-bulbos. Um sábio com a boca cheia de vocábulos. Por mares nunca dantes. Hipólito Sanchez, a pança. Ordenança de Quixote, citando Oscar Wilde: Toda arte é absolutamente inútil. Dose pra elefante. Dá-lhe agulha hipodérmica nos glúteos. Daí deu a louca no Chuck, o mais foliento do grupo. Não estuda. Rodou na matéria sobre o teatro do absurdo. Fora de prisma, foi um zero à esquerda no comentário sobre surrealismo. Levou zero como refresco no texto sobre a peça de Ionesco. Dançou com o rinoceronte. Daí deu um teco na nuca do Hipólito. Nonada. Tiro que se ouvi foi de escopeta, não. Foi saco de pipoca.

Enigma no planeta dos teletubes

Estranho mundo novo. Aonde foi o povo? Estranha paisagem. Coelhos e meninos felpudos
habitam o mundo silencioso do tubo de imagens. O mundo tele-entubado, de bebês clonados. Que meninos são esses, fofos, feito casulos de estufa? Roxo, vermelho, verde, amarelo, são cores de que bandeira? Boa coisa não me cheiram essas criaturinhas macias, com essa alegria meio que artifício de dentifrício e fantasia. De novo! Aonde foi o povo? Onde estão as pessoas? Estão ocultas na toca do coelho? Ou tudo não passa de paranóia de Alice no país das maravilhas, com a pulga atrás da orelha?

Caravelas d'além-mar

Santa Maria, Pinta e Nina. Caravelas do descobrimento. Colombo se perdeu das Índias e encontrou o penico da América. Meleca!, impreca o cidadão careca. Senta, Maria, pinta as meninas do teu olhar, e deixa o pau comer. Caveiras e caras velhas ao vento d´além-mar. Esquadra de Cabral avista o Monte Pascoal e logo empina o pau da bandeira na Terra de Santa Cruz. O boga nativo se desprega na piroga. As indiazinhas se rasgam sangrentas. Urucum no corpo, o sangue do estupro. De ufanos quinhentos anos, navegamos e celebramos o matrimônio. Somos o que herdamos. Enfim, sós(ias) da Colônia.

Um rango no Mc Donalds

Detona um sanduba no McDonalds e se dá ares de status. Mostarda, catchup e maionese à vontade — tudo a que tem direito, o sujeito —, como de praxe num x-tudo snob. E lá se vai o sit-pass. Simbora a pé pra perifa, de volta ao muquifo dos mosquitos. Mas o que é isso? O moço leva no rosto um pedaço de folha de alface. Leva de lembrança? Houvesse mais grana, comeria uma vaca, o cardápio, o guardanapo e a mina com o nome do McDonalds no bolso do uniforme. O homem e sua fome de logomarcas.


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POR EM 06/10/2008 ÀS 06:37 PM

Wally Salomão

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Estava no embarque, com a Patrícia Pilar logo a minha frente sendo paparicada por fãs, do aeroporto internacional Pinto Martins, aqui de Fodaleza, quando soube da viagem, só de ida, do Waly Salomão para outras paragens. De súbito, saquei a caderneta de anotações e fiz, como se não tivesse ninguém ao meu entorno, o poema abaixo. Lembro que quando concluí o poema e guardei a caderneta, a Patrícia Pilar olhava para mim com curiosidade. Mal sabe ela que fui tocado pelo anjo-demônio da poesia:

                                                                                  
                                                                        a Wally Salomão

           não vou cheirar meca por Wally
           caiu uma Aliá em minha cabeça
           e daí?
           não vou ser engraçadinho
           e me candidatar ao posto
           vago
           apesar,
           de passar com
           o
           piano
           nas costas
           várias vezes por Alí
           não,
           não vou chorar por Wally
           ele não queria
           vou mais é
           dançar um rock
           me procurar
           sambar com Wally
           porque agora
           quero sim
           minha outra
           face
           rindo pra mim.


*meca é uma gíria para cola de sapateiro


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