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POR EM 22/03/2008 ÀS 11:04 AM

Cai fora, mal educado!

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Herdeiro de Rodrigo S.M., o letrado brasileiro acha que as escolas do país são fábricas de Macabéas. Quando aparecem notícias de crianças aprovadas no vestibular, vem a manifestação de horror. Está tudo acabado, sentenciam. Tudo pode estar indo para o abismo, mas eu (letrado) estou a salvo como reserva moral e intelectual da nação. Essa figura é a parte da população que tem curso superior e está no topo da pirâmide de renda. Lá do alto, as coisas parecem bárbaras, feias e perigosas, e só resta dar o fora o mais rápido possível do Brasil ignorante e analfabeto. 

A vontade de se livrar do país vem de longa data. No final do século XIX, os escravos foram libertados e jogados ao deus-dará. O bisavô de Macabéa foi substituído por um imigrante estrangeiro – um gesto humanitário, bem ao estilo da responsabilidade social das empresas de hoje. Cem anos depois, o letrado do Brasil optou pelo “salve-se quem puder” da globalização e suas muitas viagens ao exterior e carros importados. As duas épocas evidenciam a cegueira dos civilizados brasileiros em entender o movimento do mundo. Adoram o capitalismo, mas não sabem por quê.
 
Nos próximos anos, haverá uma possibilidade de fuga da barbárie local. Rodrigo S.M. pode enfim se livrar de Macabéa sem a necessidade de amassar uma Mercedez Benz. Os letrados poderão jogar no lixo as escolas e matricular os “babies” e “teens” em Harvard ou “high school” californiana. Tudo sem sair de casa. Ao ridículo Custo Brasil de comer, morar e ter empregados em casa, nossos filhos serão finalmente alfabetizados em inglês, de acordo com os padrões competitivos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
 
O pulo-do-gato é o Acordo Geral para o Comércio em Serviços (Gats), em andamento na Organização Mundial do Comércio (OMC). Os países de língua inglesa conseguiram encaixar a Educação no rol dos serviços, junto aos produtos bancários. No futuro, a criança ou adolescente brasileiro estudará pela internet em escolas dos Estados Unidos, Austrália ou Nova Zelândia. Os três países investem pesadamente em escolas de educação à distância para atingir o mercado global. E governos do mundo a fora como o do Brasil serão obrigados a reconhecer os diplomas.
 
O modelo em questão segue a lógica do “outsourcing” usado hoje pelos norte-americanos em “call centers” e descrito por Thomas Friedman no livro “O mundo é plano”. Quando alguém nos Estados Unidos tem problemas com cartão de crédito, é atendido por um indiano em Bangalore. Obviamente, o salário na Índia é miserável. No caso da escola à distância, haverá o movimento inverso: os “serviços” serão fornecidos a partir países anglo-saxônicos. Está montado o cenário ideal para os letrados brasileiros se livrarem do país, por meio de um “outsourcing”.
 
O acordo de serviços na OMC é um dos mais importantes temas em discussão no mundo e recebe quase nenhuma atenção da mídia (sempre olhando as coisas do alto). Perto disso, aprovar criança no vestibular parece brincadeira de criança. Será criada uma elite ainda mais alheia à realidade local e com a pretensão de estar conectada ao mundo globalizado. No lugar de Piaget, a pedagogia terá seu grande guru em Peter Drucker. Em nome de conceitos inteligentérrimos como competitividade e globalização, vamos embarcar em mais uma jangada furada e disfarçada de iate.
 
Sergio Paulo Rouanet analisou em 1985 a catástrofe que havia sido a primazia dada às ciências (física, química, matemáticas) nas reformas educacionais dos anos 1970. Dizia-se que o Brasil precisava de mais engenheiros para acompanhar o progresso econômico. É o mesmo discurso do Banco Mundial de hoje: há muita ciência humana no ensino brasileiro. O grande capital (bancos, empresas globais) anda chateado com o governo Lula, que barrou a compra de faculdades por investidores estrangeiros, que continuam a fazer a cabeça dos descendentes de Rodrigo S.M..  

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POR EM 22/03/2008 ÀS 10:56 AM

A miragem

publicado em
 
Acabara de chover. Um menino caminhava dentro da enxurrada, água pelas canelas, chinelos nas mãos, e muita alegria no rosto. Sorrisos infantis jamais mentem: ele se divertia. Dentro do carro, preso num costumeiro congestionamento, dei trégua à angústia e ao cansaço e cheguei mesmo a pensar que a vida tinha jeito. Fechei os olhos: “...são as águas de março fechando o verão, é a promessa de vida no teu coração...”. Olha lá o menino, como ele brinca alheio aos dilemas. Pensei que bom seria voltar a ser criança, jamais ter crescido e descoberto que o mundo, no fundo, no fundo, é mau que nem as bruxas dos contos de fadas.
 
O moleque prosseguiu sua jornada rua abaixo, chutando água, brincando consigo mesmo (ou seria com seres imaginários?!) e com a minha inveja de não ser mais menino. Ele não sabia dos segredos dos bueiros, da força medonha dos redemoinhos, das ameaças hidráulicas dos temporais. Então, tropeçou, caiu, desapareceu da paisagem urbana. Sugado pela garganta da galeria pluvial?! Incrédulo, eu xinguei.
 
A gente reclama se o dia está quente. Reclama se o dia está frio. Reclama por causa da estiagem, da garganta seca e da baixa umidade relativa do ar. Reclama quando chove, mesmo se for chuva fraquinha, daquelas de molhar bobo. Reclama e quer tirar satisfação com Deus quando cai um temporal, revirando tudo, atrapalhando o trânsito, molhando bobina e apagando o motor do carro. Enfim, o ser humano é criatura insaciável. Insatisfeito por natureza, mesmo que ostente saúde plena, ou todo o conforto e mordomia que o dinheiro possa comprar.
 
Quando chove mais forte sobre as grandes cidades brasileiras, os transtornos são inevitáveis e algumas catástrofes se repetem. Quem disse que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar? Cai, sim. Então, a água encharca as encostas dos morros onde brotam barracos invasores, solapa e derruba um bocado deles. O povo afoga na lama. A televisão mostra tudo aos resignados expectadores debruçados no conforto das salas quentinhas e seguras. Tragédias anunciadas. São as mesmas notícias do ano passado, só que vítimas diferentes. O povo se comove e chora. Pessoas de alma boa organizam a coleta de donativos para aplacar a fome, o sofrimento e a penúria dos desabrigados. As igrejas fazem campanhas, novenas, bingos, ações entre amigos, jejum e outros sacrifícios da carne. Mas chega o estio e ninguém se move. Ninguém arreda pé. Eita, povo teimoso!
 
Os córregos sopitam de tanta água e lixo, arrastando uns casebres, inundando outros tantos, apavorando aquela gente pobre que mora nos piores lugares do mundo. Barranco de rio só é bom para se pescar. Para morar, não presta. Todo mundo sabe disso, mas ninguém se importa. Chega a enchente, que nem o ano passado. Aí a culpa é da prefeitura ou de Deus. A chuvarada termina, mas o povo continua despejando lixo dentro dos ribeirões, como se eles fossem tapetes onde se esconder porcarias. Sacos, carniças, garrafas, pneus, trastes em geral que já não servem para mais nada, senão para entupir os canais. A natureza, sempre que maltratada, dá o troco. Eita, povo deseducado!
 
Há poucos dias, sob esplêndida publicidade, a prefeitura local retirou dezenas de famílias que moravam em barracas de lona preta, margeando a ferrovia que corta a cidade, local com altíssimo risco de acidentes e tragédias. Os sem-teto foram assentados em casinhas simples e decentes, erguidas pelo poder público em local seguro. Poucos dias depois, já havia miseráveis novatos se aglomerando no local, cavoucando, erguendo acampamento. Eita, povo insistente!
 
Saltei do carro, incrédulo com a cena que acabara de presenciar. Corri sob a chuva fina, serpenteando no trânsito parado. E eu, que imaginava nem mais ter coração, sentia o danado quase vazando pela goela. Vasculhei a esquina. Nem sinal do menino. Sumira na correnteza forte. Desapareceu, instantaneamente, que nem a tênue fé que ainda há pouco faiscava no meu peito.

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POR EM 19/03/2008 ÀS 07:57 PM

Amor ao perigo e morte

publicado em
 
Escrito no século 2 antes de Cristo, o Livro Eclesiástico, que compõe o Velho Testamento, é um conjunto de advertências aos judeus sobre os perigos da adesão aos novos costumes mundanos, por influência da cultura grega. Uma das mensagens mais conhecidas desse livro é: quem ama o perigo, nele perecerá (Eclo 3,27).
 
Se trouxermos esta frase para o contexto atual, poderíamos imediatamente identificar semelhanças da situação do mundo de hoje com a de Jerusalém daquela época. Hoje o mundo, pelo menos em grande parte, vive sob forte influência cultural norte-americana. Sendo a sociedade de consumo a ponta de lança dessa cultura.
 
Tento aqui uma pequena diferenciação: sociedade de consumo e sociedade que consome. Sociedade que consome é aquela que usa parcimoniosamente os bens materiais para manter o seu metabolismo em equilíbrio, que consome para viver. Já sociedade de consumo é aquela que vive para consumir, até explodir-se pelo acúmulo da própria “gordura”. Na sociedade de consumo, consumir é um fim em si mesmo. Na sociedade que consome, o consumo é um meio de manutenção, equilíbrio e busca de um fim. Sob influência americana, o consumo está se tornando a razão de tudo. E, sendo a razão de tudo, o consumo acaba por esvaziar o sentido verdadeiro da vida. O ser humano se torna objeto, mercadoria descartável, coisa de vitrine. Metabolismo do capital.
 
Dentro desta sociedade de consumo em que vivemos, qual objeto mais amamos? Sem dúvida o automóvel é o ícone desse sistema. Amamos o automóvel acima de todas as coisas. O automóvel nos dá status, nos serve de vitrine, complementa a nossa parte mais sensível que é o ego (o bolso só é sensível porque é propriedade do ego). E eventualmente nos conduz de um lugar para outro.
 
Nosso amor ao carro chegou a tal ponto que para nós é mais importante andar num carro vistoso do que morar numa casa confortável. É preferível ter um carro do ano a uma família equilibrada. É mais legal ter um carrão luzidio que um coração saudável. Tal é o amor que devotamos ao automóvel.
 
Mas o automóvel é um perigo (como de resto a sociedade de consumo). E como diz a sentença do antigo sábio, que parece mais atual do que nunca, quem ama o perigo, nele perecerá. No tempo daquele sábio, o perigo era para Jerusalém. Hoje quem está em risco é o planeta.
 
Há exatos 100 anos que o automóvel entrou no cenário de nossas ilusões, com o Ford T. Segundo recentes pesquisas, a emissão de CO2 no século do automóvel foi superior ao que foi lançado na atmosfera em milhões de anos. O CO2 é exatamente o gás que acelera o processo de esquentamento do planeta. Se o fato fosse só esquentar uns grauzinhos a mais a gente até tolerava numa boa. Mas as conseqüências desse aumento de calor é um desastre sem tamanho. Mudam-se os regimes das chuvas, o ciclo de vida dos vegetais, espécies essenciais na cadeia da vida desaparecem, sobem as águas dos oceanos. Aparecem tufões indômitos, chuvas ácidas, zonas desérticas, provocando grandes levas de desabrigados. Microorganismos antes benignos ou inertes se tornam letais. Um horror.
 
Mas tudo bem. O prazer de continuar consumindo carros compensa o sacrifício. Principalmente agora que há uma tendência de substituir gradativamente o petróleo combustível pelo etanol, que é menos poluente. Podemos continuar desfilando em nossos carrões e aliviando o efeito estufa.
 
Tudo bem uma pinóia! Os primeiros sinais perversos do uso do etanol já estão dando as caras. Começa com o avanço da agricultura sobre o restante das áreas verdes, como a Amazônia, por exemplo. Com o desvio de alimentos para a produção de combustível, o preço da comida ao redor do mundo está subindo numa escalada sem precedentes desde a Segunda Guerra. Em breve, contingentes enormes que hoje estão se alimentando com regularidade vão começar a passar fome, porque as terras que antes produziam alimento humano estarão voltadas exclusivamente para a produção de alimento veicular.
 
Enquanto isso, milhões de novos carros entulham as ruas do mundo diariamente. Nas grandes cidades o carro já está perdendo viabilidade como meio de transporte. Em São Paulo, por exemplo, já têm ocorrido congestionamentos-monstro de quase 200 quilômetros. Mas um carro no engarrafamento queima mais combustível do que desenvolvendo velocidade. A produção de etanol não será suficiente para atender ao crescimento da demanda. Sobretudo quando as sociedades reclamarem maior oferta de alimentos, a indústria do petróleo terá nova onda de crescimento, para suprir a falta de combustível renovável. Porque a gente ama o carro. E matéria prima não há de faltar. O derretimento dos gelos polares, provocado exatamente pela emissão de CO2 do carro, permitiu a descoberta de jazidas-gigante no pólo Ártico.
 
Quando voltarmos com gosto de gás (sem trocadilho) para o uso do petróleo, a curva do aquecimento global vai subir a olhos vistos. Aí sim, estaremos tomando banho de sol na praia em véspera de tsunâmi.
 
Quem ama o perigo, nele perecerá: a advertência de um certo Jesus ben Eleazar (que não é o Messias), continua reverberando na sociedade de consumo. Mas quem está ligando pra isso, se daqui a pouco vou desfilar minha figura impoluta na passarela das ruas e avenidas num carrão último tipo!
 
E assim vamos nós, tocando a vida em frente, rumo ao grande desastre. O homo sapiens, na verdade, não seria, digamos, o homo estupiens? 

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POR EM 19/03/2008 ÀS 07:56 PM

Aperta o cinto, a vida vai balançar

publicado em
 
 
“Onde está a resistência agora?”
 
“No desejo que silenciou; no branco do papel; na tela do computador; aonde você não chegou ?”
 
“Sempre ligado em aparências; não se deu conta que o poder toma tantas formas quanto necessita pra se reproduzir.”
 
“Morrer é ser excluído da vida. É preciso encontrar logo um lugar de onde falar. Qual função você quer desempenhar?”
 
“Não se trata de livre escolha. Aonde pode estar o sujeito de uma oração dentro de um mundo de pensamentos que devoram pensamentos, idéias que anulam idéias, dissonâncias, reverberações, ecos?”
 
“Eu sou um outro.”
 
“O apagamento do autor não exclui a intenção, o desejo. A própria idéia de sujeito se funda no direito jurídico da propriedade, no hábeas corpus, no direito de ir e vir. O estilo é a identidade. O jeito de falar. De se vestir. O corte de cabelo.”
 
“A escolha do perfume em vez de um perfume.”
 
“A biografia e a crítica literária determinam o valor do autor. De onde ele fala. Quem reconhece esse lugar de onde ele fala como um lugar que contem em si prestígio.”
 
“Que outras vozes estão associadas as suas? Quem são seus pares, suas fontes, suas referencias ?”
 
“Bricolagem”
 
“O autor é apenas uma testemunha.”
 
“Ser sujeito é estar no lugar do vazio”
 
“A descoberta do leitor”
 
“O leitor é o verdadeiro criador da obra ao criar possíveis interpretações para ela.”
 
"O que o leitor não lê pode ainda assim estar lá.”
 
“Uma obra tem valor quanto maior for a sua abertura. Quanto mais vozes ela puder ampliar, ressoar, evocar.”
 
“O significado não deveria ser explicito.”
 
“Nunca vivemos um tempo de tanta alienação.”
 
“Força alienada. Força banida. Força capital.”
 
“Você acha que sabe o que quer. Você pensa uma coisa e faz outra. Você acha que se conhece. Você não sabe o que faz.”
 
“Faz exatamente o que alguém quer que você faça achando que está fazendo o que você quer.”
 
“As palavras são vírus. Os pensamentos são vírus. Basta um comentário fora de lugar para te derrubar.”
 
"Há pessoas e pessoas. Pessoas que tem couraças tão estruturadas que se acham indestrutíveis. Passarão a vida como pedras no limbo.”
 
“É melhor correr o risco da loucura do que viver na segurança da servidão.”
 
“A liberdade flutua.”
 
“A liberdade é uma identidade flutuante.”
 
“A liberdade insiste em me sustentar.”
 
“Em vez de resistência porque não insistência.”
 
“Cuidado com a insistência. Ela pode virar compulsão.”
 
“Compulsão é a nossa cara.”
 
“Compulsão é a doença da contemporaneidade.”
 
“Nem toda repetição é compulsão.”
 
“A repetição tira a venda dos olhos.”
 
“A paciência de repetir velhas formas enquanto novas se fazem.”
 
“A repetição é um exercício.”
 
“O que seria dos atletas, dos músicos, dos acrobatas, sem os exercícios da repetição.”
 
“A repetição é a mãe da técnica. A repetição fortalece os músculos do atleta. A voz do cantor.”
 
“Não há improvisação sem repetição.”
 
“A improvisação quebra a norma e aponta novos caminhos.”
 
“Quem não improvisa se repete.”
 
“Um bom improvisador convive com os erros”
 
“Erros são acidentes de percurso que abrem os caminhos para que o artista não se repita.”
 
“O ato falho é sagrado”
 
“O acidente é um achado”
 
“Na matemática o discurso é fechado.”
 
“Dois mais dois jamais será cinco.”
 
“A matemática é arbitrária.”
 
“A mundo de hoje é matemática. Tecnologia binária.”
 
“Por isso os economistas gozam e os filósofos e poetas são foracluidos."
 
“A palavra foracluido é um paradoxo irresistível.”
 
“Mas não sejamos radicais, senão estaremos na mesma ordem dos discursos fechados. A física quântica é matemática porém interessante.”
 
“Tudo o que a filosofia ocidental produz de pensamento interessante já foi pensado antes pelos orientais.”
 
“O que se chama de intuição tem mais importância que conhecimento racional científico.”
 
“A consciência é uma experiência que se alcança no estado de repouso e na meditação.”
 
“O testemunho do ser, o terminal do leitor, tudo flui para esse espaço vazio aonde a projeção do desejo se dá.”
 
“O que é o desejo? Uma força que parece ser somente sua mas não é?”
 
Nesse momento se dá uma pequena pausa. O computador pifa só voltando a funcionar uma semana depois.
 
Continuando...
 
“Toda questão se dá no campo do poder.Não importa quem fala, nem o que é dito mas de onde, de que lugar e com que autoridade fala o sujeito.”
 
“Essa autoridade não é dada por quem fala e sim pelo conjunto de vozes que resguardam seus lugares dentro da cadeia produtiva do saber.”
 
“Guardiãs do conhecimento duramente conquistado através dos rituais e procedimentos legitimados pelas instituições oficiais.”
 
“O que está acontecendo com as milhares de vozes anônimas que estão surgindo a cada dia na Internet?”.
 
“A legitimidade desses novos produtores do saber não está passando pela mediação nem pela validação dos detentores institucionais do saber. Logo o que está sendo produzido não é moldado pelas regras, os mitos, as tradições e hierarquias oficiais”.
 
“Esse saberes não estão aí para perpetuar nem preservar esses valores.”
 
“Que valores?”
 
“Tradição. Família.Propriedade. Autoria.”
 
“Antes falavam de cinema aqueles que ascendiam à posição de críticos de cinema. Falavam de psicanálise aqueles que dominavam os jargões e conceitos da metalinguagem psicanalista. Para falar de alguma coisa era preciso ser autorizado legitimamente por alguém, pela sociedade. Agora não.”
 
“Isso é ruim ou bom ?”
 
“De certa maneira esse saber institucional exclui todos aqueles que não são suas crias.”
 
“E aí a pergunta que não quer calar. É possível produzir um pensamento interessante sobre cinema, música, artes plásticas, psicanálise, sem estar num lugar reconhecidamente como autoridade?”
 
“O leitor parece responder que sim.”
 
“O que interessa ao leitor não é o lugar de quem fala mais o que está sendo dito. O leitor quer ser incluído no discurso. Ele quer encontrar um espaço dentro da obra aonde ele possa refazer a sua trajetória.”
 
“Um espelho perfeito não cria espaço para mais nada.”
 
“É preciso então que a obra seja aberta a associações, a possibilidades de recriação por parte do leitor.”
 
“A possibilidade de recriação do real através da linguagem passa muito mais por uma democratização das falas, das trocas individuais e coletivas descentralizadas do que necessariamente pelos discursos estruturados dentro do poder oficial.”
 
“Talvez um diálogo entre os dois?”
 
“Até porque a tendência do poder é a exclusão. Para que alguns estejam dentro, tenham autoridade e esse prestígio como falantes, é preciso que outros estejam fora e sejam aqueles que serão falados, que terão seu discurso alienado.Aqueles que não terão um lugar e por isso serão excluídos da vida produtiva ou se tornarão, como acontece, na maioria dos casos, objetos da servidão voluntária, objetos do gozo dos outros.”
 
“A briga promete ser grande. Entre aqueles que já tem um lugar de autoria assegurado e aqueles que querem ser reconhecidos. É interessante porque isso colocará lado a lado quem tem poder com quem não tem. Caberá ao leitor, ao consumidor de conteúdo legitimar as melhores cabeças.”
 
“A ascensão e queda de certos mitos sustentados por impérios autorais/verbais é evidente.”
 
“Para muitos essa idéia é uma utopia.”
 
"Mas esses que falam estão também querendo colocar açúcar no próprio café.”
 
“Não sabemos quem está por trás desses conteúdos produzidos na web. Podem ser grupos de ativistas que não tem nada melhor para fazer. Não devemos confiar porque não sabemos quem está recomendando aquilo.”
 
“Eles são anônimos, podem estar tentando moldar nosso gosto de acordo com interesses particulares.”
 
“São jovens raivosos e radicais que não têm valores significativos para a nossa cultura. Jornalistas fracassados, gente que não conseguiu ser da mídia e por isso é ressentida.”
 
“Há muita picaretagem,”
 
“Os utópicos falam em democratização da mídia e do conteúdo, mas a conseqüência é uma nova oligarquia.”
 
“Tem muita gente ficando rica.”
 
“Quem tem ações do Google, YouTube, MySpace está ganhando uma fortuna.”
 
“Cuidado para não entrar de gaiato no navio.”
 
“Não há atalhos. Você tem que trilhar os caminhos. Passar pelo ritual de iniciante.”
 
“Mas pode brincar de vez em quando.”
 
“Brincadeira séria.”
 
“É o que todo artista faz.”
 
“Acho que é o que eu estou fazendo.”
 
“É aonde se dá a minha insistência agora.”
 
"É aonde se dá a minha existência agora."
 
"E a sua, onde está a sua insistência agora? Aonde foi que você chegou? Aonde é que você existe?"

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POR EM 19/03/2008 ÀS 11:51 AM

Frente a frente

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A ruptura não tinha sido percebida de imediato. Apesar de instalada entre eles, bem durante, Anselmo e Joana continuavam acreditando poder salvar alguma coisa do que fora seu amor, razão daquele casamento. Por dez anos, desde o nascimento do primogênito até a chegada da caçula, estiveram sempre empenhados na aprendizagem de alguma espécie de dor. A lenta aprendizagem que só é possível graças ao hábito de sofrer como se não houvesse outra saída. Foi aos poucos a descoberta do rancor que os unia. Devagar. 

Houve fraldas e óleos e conta-gotas, nesses dez anos. Dor de ouvido, diarréia, coqueluche e sarampo.  
 
O nascimento de Aninha marcou o último ato conjunto do casal. Já dormiam, então, em camas separadas. Fruto derradeiro.
 
– Nosso dever já está cumprido – repetiu Joana como um desabafo que pudesse sal-var suas vidas.
 
Na rua, além do jardim, o trânsito se aproximava da noite nos postes e nos faróis dos automóveis. Na lenta passagem do ônibus, difícil e sofrida por causa da ladeira, perderam o ritmo de sua respiração, como se estivessem de pulmões parados. Por isso, conferiram-se com olhos tímidos, quase extraviados, sem, contudo, se encontrarem. Joana, quando o ônibus desapareceu com seu fragor, ambos anoitecidos, recomeçou a respirar como sabia, que era de forma lenta e profunda, uma respiração que a defendia dos achaques e das manias do marido. Portanto, Joana respirava em sua própria defesa. Diferente de Anselmo, que tinha uma respiração curta e rápida e respirava para atacar.  
Dever cumprido.
 
Os quatro filhos cresceram em caldo azedo, onde todos os dias. E seu crescimento era o próprio ácido que se despejava no caldo. A vida estragava-se lenta sem atender aos apelos das idades sucessivas que se passavam irreversíveis. Foi assim que chegaram as rugas e os cabelos brancos e esmaeceram todos os cheiros e perderam o brilho todas as cores. Foi assim que o corpo começou a responder com dificuldade aos prazeres que a memória continuava teimando em manter vivos.
 
As estações se passavam, mas havia os filhos para criar, e criar os filhos era deixá-los formar suas próprias famílias. Dever de pais. Aninha, principalmente, parecia não ter pressa. Era a caçula, e o silêncio dos dois não conseguia perturbá-la. Acostumada ao caldo em que se criara, dele parecia não ter vontade de sair.
 
A varanda não era mais que um lugar, o lugar onde estavam. Os vasos de antúrios já não existiam àquela hora porque as sombras se apoderavam de tudo. Joana recolheu as mãos e cruzou os dedos no regaço. Além dos vestígios do trânsito ? ruídos e luzes ? ela não via nem ouvia mais nada. Então suspirou com o corpo todo para sentir que atingira totalmente a velhice. Seu peito murcho estremeceu, mas apenas uma vibração bem leve, porque já lhe faltava o vigor para os grandes gestos. Anselmo estava com o rosto mar-cado por vincos. Sua testa, suas faces, as crateras de seus olhos, lugar algum que não trouxesse as marcas impuras de uma vida sendo aos poucos desperdiçada em favor dos filhos: aquela idéia do dever. Sua respiração, com a lenta chegada da noite, começava a serenar como chaga em busca de cicatriz. De fato ele não estava agitado como era seu costume. Vontade nenhuma de dizer fosse o que fosse naquela primeira noite só deles, sem encargos, sem filhos por que responder. Estendeu os braços ainda cabeludos sobre a mesa, uma espécie de dominação territorial, mas então não os moveu mais, como se estivessem ali aguardando, um ao lado do outro, quase paralelos. 
 
Anselmo levantou-se como um vulto escuro e ficou parado, talvez esperando alguma pergunta, uma observação qualquer, que o ajudasse a decidir. Não foi muito o tempo que esperou, pois fazia trinta e tantos anos que já conhecia o resultado. Com a chave na mão deu o primeiro passo.
 
 Bem, está na hora de fazer minhas malas.

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POR EM 18/03/2008 ÀS 10:44 AM

The dance of the intellect among words

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Gertrude, Gertrude, não me ponhas em bocas matildes, pois uma rosa é uma rosa, outra coisa uma glosa, logopéia para Ezra Loomis Pound, pífias epifanias para Jesse James Joyce. A rose is a rose já é feijão com arroz, ou vinícia rosa com cirrose, e mais vale um pombo de chumbo voando rumo a Plutão, do que a glória de doze césares com osteoporose na mão.
 
Nada de novo no frontispício das obras, além dos fátuos frangos de vanguarda e um telhado de urubus po(u)sando de pombo. Tudo redondo feito losango. O ovo é o óbvio, cozido ou cru. A rosa é a roça do povo, a pedra, a vida, no caminho de Drummond. Oui, oui, o trem já passou por aqui — object-trouvé, dèjá vu —, c´est la vie que nem sempre é toujurs, e vamos todos plantar chuchu.
 
Contudo, um punhado de dedos dados ao lance é olho de lince na pinça da percepção: trespassa a mesmice — insossas conversas difusas — e mostra com quantas volutas se dança a valsa na rosca do parafuso. Mais que asas à imaginação, dê-se imaginação às asas — quase a mesma coisa, salvo a pendular sutileza.
 
Há uma festa nos refolhos da rosa, na íris inquieta do prisma, no caleidoscópio das coisas — voilà!, la même chose. A dança da rosa na rosca vertiginosa — as formas da dissonância, in essentia — tergiversa e faz a diferença.
 
Em face do que se me oferece, passo dois dedos de prosa da província e suas diversas espécies de carrapatos, algumas carcaças de tatus-ninja, uma rima fácil e um verso-fóssil: troco pelo salto-mortal duma pipoca, e um pouco de sal no algodão-doce.
 
Oh, não me tomem por insolente, antes pela inquietude impertinente, ou pertinência da arte. Por cacos de bricabraque, a louça de quem brinca, Mandrake, e amiúde se corta. O corte, que importa, se a morte é a vida que nos brinca? E como figurar-se, de resto, num velório de moscas, quando se trata de uma festa que se começa onde acaba e se acaba onde começa? Riverrun, Dublin, firinfinfinnegan.
 
Se sabonete vale quanto pesa, e vale uma grosa doze dúzias, pese-me o que valha a grisalha glosa — o gozo do ferro-gusa —, e me guarde o velho anjo da vanguarda, ou valha-me zombeteira gralha. Bumerangue não me jogue grogue no ringue, com a groselha de uma droga. Não me beba o sangue nenhum sargento-buldogue, a soldo de um dogma, nem me afogue no mangue uma gangue de dobermanns, e não me comam as sobras os açougues da vida.
 
Minha vida é um brinquedo, meu nome é Jó Zezinho. Brinco na dança do intelecto, brinca o homem com o poeta, e o menino se completa. Depois, vira passarinho. 
 
 
Prefiguração de sombras
 
Coisas de Mefisto, o mago, o bruxo de feltro negro, aba que se quebra sobre uns olhos de fogo azulego, pupilas pontiagulhas. Manto de azeviche que se abre e cobre os ombros de Fausto; la tête avec le chapeau et le fleur de Mefisto. Sombras-salamandras no texto sinistro, rastros que se alastram em fios de sutache. Livro dos pactuados, os iniciados da noite, os namorados da morte. Vende-se um caixão usado. Longa vida aos suicidas, que só dormem acordados.

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POR EM 18/03/2008 ÀS 09:25 AM

O sujo, o mal lavado e quem paga

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O que é o terrorismo? Faço a pergunta porque, segundo a mídia, as FARC são um grupo terrorista. Não sei se se pode acreditar em tudo o que a mídia vende. Terrorismo é um conceito político. Mas, entre um terror e outro, fica a pergunta: que impressão as famílias dos civis mortos no Iraque têm do exército “de libertação” norte-americano? Aposto que não é o da opinião pública norte-americana. Com efeito, o que vale: o conceito político ou a impressão das vítimas? Tomemos o partido das vítimas. O sofrimento humano não distingüe entre o “assassinato” perfeitamente legal (suspeito que não seja o caso da guerra contra o Iraque, uma vez que passaram por cima da ONU) e o assassinato promovido por grupos rebeldes. Quem morre morre do mesmo jeito, assim ou assado, e quem sofre idem. Não há diferença. Os mortos e feridos da Colômbia – que tanto “horrorizam” a mídia – equivalem, a meu ver, aos mortos e feridos do Iraque (mais de 30 mil civis inocentes, até agora!), entretanto, temos a ligeira impressão de que as coberturas jornalísticas em relação à guerra no Oriente Médio são mais condescendentes com o terrorista: os Estados Unidos da América.

Estou dizendo exatamente isto: que a ação norte-americana é também um ato terrorista. Saddam era um criminoso – não nos esqueçamos jamais de Tikrit – e, obviamente, detestamos os tiranos. Pena que os EUA não estavam ligando para Saddam, que aliás não era o único ditador sanguinário oriental, ou em todo o mundo. O problema de Saddam era ser inimigo dos EUA, por uma infelicidade conjuntural. Aí entrou em cena a mais destrutiva arma de guerra que existe: a mentira. Era estratégico angariar o apoio da opinião pública internacional e justificar a invasão. Vamos dizer que Saddam tem armas de destruição em massa. Quem vai desmentir os Estados Unidos no “mundo livre”? Ninguém, é claro, exceto um inspetor da ONU, Hans Blitz – mas a ONU não importa, muito menos um burocrata seu, metido a besta. O que queremos mesmo (imaginemos o que foi dito no Salão Oval e nos escritórios do Pentágono...) o que queremos mesmo é o petróleo, e que se dane o resto. De quebra, damos uma resposta à população norte-americana sobre o 11 de setembro: vamos lá e quebramos o pau, no melhor estile “big stick!”. Terrorismo.
 
Mudando de hemisfério e de lado – não se diga que somos parciais, portanto -, eu também acho que o que as FARC fazem com seus reféns na América Latina é terrorismo. É inexplicavelmente paradoxal que um movimento que se baseia numa ideologia que propõe um mundo justo – o marxismo – cometa tantas injustiças, tantas atrocidades como as que temos visto. Não parece razoável; é mesmo uma contradição em termos. A única diferença entre as FARC e os EUA é o leitmotiv: aquela age por ideologia num mundo sem ideologia, já aquele, pior ainda - mais primitivo -, age por puro instinto de sobrevivência. Noutras palavras, age simplesmente por interesse, por egoísmo. O fantasma de Schopenhauer, tão vivo quanto o de Darwin.
 
Se não convencem os EUA, tampouco as FARC. Não acho que é uma questão de dizer que um lado está certo e o outro errado. Os dois estão errados, na minha opinião. Eu jamais seria adepto das FARC, e na verdade passo a ter repulsa, embora reconheça que o movimento existe em permanente estado de guerra – o que justificaria seus atos de crueldade. A guerra, como sabemos, tem suas próprias leis. Durante sua existência cessam algumas prerrogativas da Declaração Universal dos Direitos do Homem, posto que cabem punições inimagináveis aos inimigos, como a tortura e a pena de morte. Estranho é que a União Soviética, então comunista (corria o ano de 1949), subscreveu esses direitos “enfatizando a libertação do medo e da penúria”, segundo Carl J. Friedrich (cf. Uma introdução à teoria política). O problema, de uma maneira ou de outra, não é simplesmente mais de discordância com as FARC ou com o gigante do norte – é de discordância final com a guerra, esse flagelo que assola não só a América Latina mas o mundo inteiro. Não importa quem faz a guerra: à direita ou à esquerda seu saldo é sempre a morte, a aniquilação da humanidade, que é quem paga o preço. A guerra é sempre um ato de terror, mesmo quando se manifesta em resposta a regimes inaceitáveis como o nazismo.

Preocupante é concluir que a tradição oposta, a de homens como H. D. Thoureau, Gandhi e Luther King soa risível aos nossos ouvidos. Estamos mesmo muito longe da razão.

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POR EM 18/03/2008 ÀS 09:13 AM

Versões convenientes

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No começo deste mês de março em “Noviorque” (by Paulo Francis) ocorreu a Conferência Internacional do Clima de 2008, que aprovou a Declaração de Manhattan. O leitor que acompanha assuntos sobre o aquecimento global, mas não é um voraz internauta, deve estar se perguntando como esta notícia lhe passou despercebido, já que a mídia em geral quase não deu nenhum destaque para esta reunião com cerca de 500 autoridades (13 países) e 29 instituições, incluindo as mais famosas (Harvard, Pauster de Paris, etc...).
 
Bom, é que a Declaração de Manhattan diz que além de não haver consenso entre os especialistas sobre o aquecimento global, afirma que “não há nenhuma prova convincente de que as emissões de CO2 das atividades industriais, passadas e presentes, sejam a causa das variações climáticas catastróficas”.
 
Ainda, a Declaração aponta que os novos regulamentos que restringirão as emissões de CO2 retardarão também o desenvolvimento das nações, sem impacto significativo nas variações climáticas, mas com reduções consideráveis na prosperidade futura e na capacidade das cidades de se adaptarem as mudanças, aumentando, e não diminuindo, a vida humana na Terra.
 
Outra notícia recente, mas também pouco divulgada, é que os últimos dados do NOAA (Serviço Americano de Informação Ambiental) mostram que o gelo que havia derretido entre janeiro e outubro de 2007, no pólo norte já está de volta e na Antártica a camada de gelo está 1/3 acima dos níveis considerados normais. Al Gore aproveitou imagens deste ciclo natural de derretimento/congelamento para ganhar o Oscar de melhor documentário em 2007.
 
Aliás, Al Gore e os cientistas do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) receberam o Nobel da Paz em 2007, pois a Academia Sueca repetiu o que fez em 1985, quando a médica Helen Caldicott e a instituição “Médicos pela prevenção da guerra nuclear” foram laureadas com o mesmo prêmio, pelo grande ativismo no movimento anti-nuclear mundial. E desde então, a humanidade estagnou sua produção elétrica por usinas nucleares em 6%, pois tem pavor deste tipo de geração de energia.
 
O fato é que todo este medo não se justifica. Relatório de 2001 do Instituto Paul Scherrer na Suíça, compara o número de mortos de cada uma das principais fontes geradoras de energia elétrica, padronizados por terawatts/ano (1 terawatt é 1 bilhão de watts): o carvão matou 6.400 pessoas, o gás natural 1.200, a hidroeletricidade, 4.000 e a “terrível” energia nuclear, 31 (incluindo Chernobil)!
 
Vinte e sete anos após o prêmio de D.Helen e seus médicos, alguns importantes ambientalistas encaram a energia nuclear como a única solução rápida, para diminuição dos atuais níveis de emissão de gás carbônico. Porém, quem é que vai encarar ter uma usina nuclear no perto de casa, depois de todo medo que nos embotaram? Muita gente ainda acha conveniente que mantenhamos este temor.
 
Como as outras alternativas energéticas (biocombustíveis, solar, eólica) não substituirão, no curto prazo, o carvão e o petróleo que emitem muito CO2, a Declaração de Manhattan realisticamente diz que será necessário diminuir a prosperidade futura, o consumo, o bem estar, etc... e então, dentro de 27 anos (2034) o medo do CO2 já estará tão entremeado em nossas mentes, que não importa se ele será ou não o verdadeiro culpado, pois é conveniente, que as versões sejam sempre mais importantes que os fatos. 

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POR EM 15/03/2008 ÀS 02:26 PM

Paradoxos da Tropa de Elipse

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 Mãos na cabeça! Pro chão! Todo mundo pro chão! De bunda pro céu! E você aí, tá olhando o quê? Pá! — a mão no “pé-da-oreia” e o “elemento” catando cavaco — É a polícia, vagabundo!  

Mas o que é isso? Mistura de ação policial, simulada, com filme de bandido? Que nada. Foi só a chegada da Tropa de Elipse, no sentido greco-etimológico do termo, para “omissão”. Certo, mas omissão da parte de quem? Do comando geral da polícia? Do governo estadual? Do governo federal? Ou da própria sociedade? Omissão ou inoperância de todos, sim senhor.
 
Gramaticalmente, omissão de palavra que se subentende. Estamos entendidos? Pra quem sabe ler, um pingo é arma obsoleta. O bandido vem com tecnologia bélica e a polícia ainda vai de escopeta ferrugenta. Só falta ir de estilingue para o confronto desigual. E assim vai indo o sistema de segurança nacional.
 
Quem tem medo da polícia? “Não tenha medo da polícia, mas respeite as instituições policiais”. Palavras oriundas dos comandos policiais. Com isso, procura-se, no primeiro segmento da mensagem, tranqüilizar e conclamar a população a participar mais do processo de segurança pública na baleada e combalida República. Implicitamente, reitera para a opinião pública as reais funções das polícias, no sentido de combater o crime, garantir a ordem e a segurança mesma. No segundo segmento, observava — e adverte, subliminarmente — o respeito devido pelos cidadãos aos policiais, na forma de reconhecimento e colaboração. E quem está respeitando quem, a esta altura de capar o gato, ou do campeonato?
 
Pertinente é que se harmonizem ou se equilibrem o senso comum e o consenso geral — como se diz —, numa sociedade abalada pelo inchaço populacional das cidades, gerando bolsões de misérias sociais — em (des)níveis econômicos e cultural — e, conseqüentemente, fomentando a criminalidade, mãe da violência. A essa violência acrescenta-se aquela cometida pelos próprios policiais, via de regra pela arrogância, prepotência, exibicionismo — andam a ver filmes americanos e policialescos por demais —, abuso de autoridade. Atos inaceitáveis, pois ferem os direitos e asfixiam o clichê da liberdade aos cidadãos de bem, contribuindo para acentuar a tensão social e o clima de uma sociedade irrespirável.
 
Vai-se preso e é-se desacatado por um-nada, por conta do arbitrário recurso ou argumento do “desrespeito à autoridade”, sem se falar em outros expedientes igualmente condenáveis, senão piores. Daí deriva-se o primeiro medo da população diante do policial, num paradoxo absurdo. Não fosse o medo de cada um, sobretudo o medo de represálias, muitos cidadãos contariam o que sabem e o que sofrem aí pelas ruas de suas cidades, amiúde na calada da noite, de forma até sorrateira, com os faróis das viaturas apagados e as sirenes emudecidas, para não chamar a atenção das vizinhanças. De tal sorte, numas horas dessas é que o cidadão, indefeso, desamparado e desesperado, se pergunta se Deus também está dormindo.
 
Um segundo medo se origina nos desvios de conduta do policial que se bandeia e se corrompe, passando a desempenhar duplo papel, atuando também como bandido, absurdo dos absurdos, avesso do avesso e agravamento do insustentável caos social. Cumpre à sociedade colaborar, denunciando, sem medo — esse é o nó da questão, por razões óbvias, e até mesmo na denúncia sob anonimato —, para se resgatar a credibilidade das instituições policiais, na parte podre que as denigre perante a opinião pública.
 
Bom seria, para ambas as partes — polícia e sociedade —, a suprema observância aos direitos e deveres. Uma crescente participação social no processo de segurança pública tenderia a amainar o chavão de que a polícia é um mal necessário; o inverso seria que a polícia é um bem social, até porque, lamentavelmente, por conta de índoles individuais ou coletivas — muitas vezes por culpa das contradições sociais —, o homem não é um ser plenamente autogovernável, no sentido essencial e universal da palavra.
 
A mais dolorosa verdade, em tudo isso, é a impunidade de quem quer que seja no contexto da segurança pública, a par com o cômodo silêncio, a criminosa omissão ou conivência das autoridades que representam os poderes constituídos. Cega, a própria Justiça, às vezes, por suas próprias conveniências.
 
Mãos na cabeça! Pro chão! Todo bode expiatório tem a cara safada do cidadão, a vítima.
 


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POR EM 15/03/2008 ÀS 02:16 PM

Pessoas chocantes

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Pessoa chocante não é a que tem por mau costume chocar as outras pessoas. É a que persiste no vício enclausurante de não chocar a si mesma, dando á luz ou ao novo que tem o dever de fazer aflorar em si. Há criaturas (bípedes pensantes) cujas vidas entram em paralisia de pântano. Sua estagnação vem da recusa em chocar a vida nova, enclausurada na casca de ovo que são - e toda criatura o é, em um sentido simbólico.
           
 Recusar-se a romper as estruturas do medo de viver é manter-se em morte viva de normose ou mesmice. Não irromper da rigidez para o movimento, permanecer em antecipado rigor mortis, antes de passar pela leveza permeável e flexível das crianças, é uma forma de antecipar em nós os poderes da morte. Significa enclausurar-se em caverna escura, de onde nada sai, e onde nada penetra.
           
Não sair do ovo, temendo os perigos do mundo, é retroagir a ave futura em ovo goro - por medo ou pirraça mantendo a si mesmo como sub-ser cavernoso - milagre falhado, sem serventia para os outros, desprovido de futuro para o mundo - para que foi nascido —  e até para si mesmo demitido de sentido.
 
A vida enxota os que entulham os seus caminhos. Viver é colocar-se em marcha - não estancar o fluxo do eterno movimento de tudo o que vive. Pois, nesta vida, segundo Heráclito, tudo muda o tempo todo. Só a mudança não muda nunca. Vida é movimento. Quanto mais muda um ser humano, mais vitamina a si mesmo. Se for artista, ao conceber uma divina canção, abraça a si mesmo, na intenção universal de abraçar o mundo.
 
                                              
Vertigens de ventríloquos
 
           
Há por toda parte uma triunfante e vertiginosa exaltação do poder que nos dá o fato de ser bem informados. Poder para que? Há de se perguntar, uma vez que quanto mais informação rola pelos megabytes das mídias eletrônicas (para não falar das outras, mais lentas), mais desastres e absurdos são provocados por pessoas tidas como bem informadas.
           
Esquecem de informar os idólatras dos super-poderes da informação que acreditar não é saber. Cultura não é saber por ouvir dizer. Um saber não processado torna-se um caos desenxavido, sem alinhavo ou cerzido que lhe dê algum sentido. Tem o valor protéico de um veneno bem ou mal digerido. Informação só dá poder quando se processa o que se sabe - e quando se acredita porque se sabe.
           
Montanhas de informação não processadas vêm da vala rasa da cultura inútil, sem conexão com as leis que regem a vida. Não resultam em cultura, e menos ainda em sabedoria. Têm a duração de um punhado de algodão doce na chuva. Naqueles, néscios bem informados que as acumulam, restam acúmulos ridículos de vaidosura. E a doce ilusão de terem se beneficiado daquilo que não podem digerir. Pior é que passam por sábios, feito ventríloquos tagarelas, papagaios rastaqueras, e esgoelar-se em tagarelices, enquanto propagam à praça que são os novos reis da cocada preta. 

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