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POR EM 13/10/2008 ÀS 10:10 PM

Frango com ameixas

publicado em


Marjane Satrapi nasceu no Irã em 1968, viu com 10 anos a revolução islâmica, passou a adolescência na Alemanha e retornou à Teerã onde se formou na universidade de artes. Ela contou tudo isto no romance em quadrinhos “Persépolis” que, quando transposto para a tela do cinema, quase faturou o Oscar de melhor animação (perdeu para Ratatouille, veja a Bula 226).

Em sua mais recente “graphic novel”, “Frango com ameixas” (Cia. das Letras, 2008), ela volta a se basear nas lembranças de família e, assim, conta a história de seu tio Nasser Ali, um exímio tocador de Tar, um instrumento que parece um violão mas com braço mais longo e uma caixa menor.

A história se passa em 1958 e conta os últimos dias da vida de Nasser. Ele é casado com uma mulher que nunca amou, mas que é professora, mãe de seus quatro filhos e provedora do lar, pois ele é um músico profissional famoso, e como quase todos os brilhantes músicos do mundo, vive apertado.

Desta forma, a falta de jeito de Nasser com a vida prática, vai aos poucos causando desavenças com Nahi, sua esposa. Um dia (em 1958) cansada, irritada e nervosa, ela quebra o Tar do marido, que só faltou cantar “meu mundo caiu....”.

Segundo Marjane, normalmente os mestres em Tar ficam com o mesmo instrumento toda a vida e o passam a gerações posteriores de músicos. O Tar de Nasser, por exemplo, pertencera, ao mestre de seu mestre e, portanto, era praticamente membro da família.

Nasser sai em busca de um novo Tar. Experimenta vários, mas nenhum deles o satisfaz. Viaja quilômetros, paga uma fortuna por um, mas mesmo assim, o som do novo instrumento nunca estava bom. Imagine João Gilberto de mau humor...mas devo parar com as piadinhas.

Ele resolve morrer. Deita-se na cama e oito dias depois (22 de novembro de 1958) é enterrado ao lado mãe num cemitério ao redor de Teerã.

Começando pelo enterro do tio, Marjane constrói o romance imaginando o que ele deve ter pensado em cada um dos sete dias que passou em seu quarto antes da morte. No primeiro dia pensa em todas as formas de se matar e recebe a visita da filha querida Farzaneh, que reza pelo pai, como ele, Nasser, rezava pra sua mãe não falecer, até que o dia em que ela mesma lhe pede pra deixar de orar, já que ela queria morrer. Ele a obedece e a enterra seis dias depois.

No segundo dia, recebe a visita do irmão “bem de vida” e que sempre teve um desempenho escolar melhor que o dele. Depois o irmão virou comunista e a família foi obrigada a vender praticamente todos os bens para tirá-lo da cadeia. Nasser é cruel com o irmão: “Quando virou comunista, levou sua família em consideração?”. Eles ainda se abraçam e como recusara o convite para ir ao cinema ver a estonteante Sophia Loren, Nasser acaba, já com os primeiros sintomas da fome (Frango com ameixas era seu prato preferido), dormindo por entre os peitos da famosa musa italiana, um desenho que deve ter dado muito alegria a Marjane, já que na Universidade de Teerã, ela e seus colegas não podiam ver gente nua e muito menos pintá-las.

No terceiro dia ficamos sabendo que Nasser nunca amou sua esposa (ele diz isso a ela) e que queria casar com Irâne, mas o pai dela não aprovara o casamento com um músico profissional. No quarto dia vemos que ele tem pouca intimidade com os filhos que nunca buscaram o caminho das artes, enquanto no quinto dia ainda delira com suas lembranças.

No sexto, ele tem um diálogo inusitado com Azrael, o anjo da morte. Mas sua hora só iria chegar no sétimo dia, quando vemos que, na verdade, ele tocava para o grande amor (Irâne), que dois meses antes não o reconhecera na rua.

Viver para quê? Nasser cita o poeta iraniano Khayyam (1048-1131): “Os astros nada ganharam com a minha presença neste mundo. Sua glória não aumentará com sua derrocada, e meus ouvidos são testemunhas: Ninguém jamais foi capaz de me dizer por que me fizeram vir e por que me fazem ir embora”

Se isto for pro cinema com direção de Clint Eastwod e Daniel Day-Lewis no papel de Nasser, podem ter certeza que Marjane faturará seu primeiro Oscar.


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POR EM 13/10/2008 ÀS 07:52 PM

Ironias da guerra

publicado em


1.
Tomou, então, Jesus
os dois peixinhos
e distribuiu-os
a tantos quantos queriam.


Querido pai, querida mãe.
Tudo bem por aqui.
A guerra está uma beleza!
Esta tecnologia bélica é mesmo surpreendente.
Dá gosto ver os estragos que faz.
E tome goma de mascar com cocaína,
e baseados pra pitar, que ninguém é de ferro.
Quanto a mim, não se preocupem, estou legal.
Uma explosão me arrancou as pernas e os testículos.
Vão me mandar de volta pra casa,
acham que já dei uma boa contribuição em prol do nosso país.
Disseram que sou um patriota supimpa.
Só lamento minha cabeça
ter sido arrancada do corpo, numa explosão.
Serei despachado num saco de dormir.
Ah, não vejo a hora de rever vocês,
embora o estilhaços do petardo tenham me deixado cego.
Ainda bem que na hora eu estava sem o meu Ray-Ban,
senão teria perdido os óculos também.
E só não vou assinar esta carta porque perdi
um dos braços na batalha,
e o outro sofreu gangrena e teve de ser amputado
aqui na enfermaria do front.
Agora não vou mais pensar nestas coisas,
pois nem sei aonde foram parar meus miolos.
Mas, puta que pariu, estou muito feliz
com o que sobrou de mim!
2.
Quando todos se saciaram,
disse Jesus a seus discípulos:
Recolhei os pedaços que sobraram,
para que nada se perca.
Guardai-os para os cães
que virão depois de vós.

Sex Symbols

Bem que se quis um kiss
nos mamilos de Cássia,
mas, quem TViu, olhos que só lamberam
alvas mamas sem os caroços do câncer.
Sônia só braga e não braguilha,
Cláudia foge da raia no vídeo
com os seus molejos anelídeos,
de sorte que na bruneca não lombardi.
De sex symbols, o que se tem,
além do que se come com o olhar?
A ilusão do olhar,
o vazio da ilusão
e a solidão do telespectador.
Os seios, porém, sei-os,
que os mamei de mamãe,
e sei os de jasmim,
que os mamei também.

Retórica da guerrilha

Uma transa em academia de malhação
Hay que endurecerse
pero sin perder la ternura jamás.
Che Guevara.
E há que emagrecer-se,
não perder a cintura, jamais.
Chega a vara!

A peste


Pretensos, pseudos, poetastros,
o parto das oficinas de versos.
Feito espermatos afoitos, fervilham,
no afã da fecundação.
Não rimam sequer ervilha com virilha
de mulher de Sevilha,
e se acham por cima quando rimam
mamão com mão.
Que maravilha!
Aptos nem seriam à distinção,
em verso livre ou branco,
de um caco de fato e seu cacófato,
uma mão e um mamão.
Destarte, ó Morte, mate-os.
Apenas um, por certo que o tal de bissexto,
fecundará o óvulo da poesia.
Ou, quando muito – glorioso dia –,
os sêxtuplos de um mesmo útero.
O resto perder-se-á pelo árduo caminho,
senão que morrerá na praia de tanto nadar:
fraquinhos demais, os bardos, para tanto mar.

Corno Cow(ntry)

Os panacas corneados às pencas,
levando chifres de rosquinha,
de tal sorte que, se lhes cai um,
vem a consorte numa rapidinha
e tchum,
atarraxa outro,
com os cumprimentos do vizinho.
Corno-cow, ou country,
boi corno o dono do boi,
e o cowboy de asfalto.


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POR EM 13/10/2008 ÀS 07:52 PM

O Santo Graal

publicado em


"Hoje, existe uma espécie de menosprezo por essa coisa tão simples que antes era falar com propriedade. Quando eu era trabalhador, sempre tinha as ferramentas limpas e em bom estado. Não conheço uma ferramenta mais rica e capaz que o idioma. E isso significa que se deve ser elegante na dicção. Falar bem é um sinal de pensar bem".

José Saramago

O homem jamais se conformou com suas atividades instintivas. As reações efetuadas de forma mecânica - que dispensam o aprendizado e a reflexão crítica - como os atos de respirar, comer, defecar e se arrastar jamais satisfizeram o Homo sapiens.

Desde os primórdios sentiu a premência de avançar, de evoluir, de comunicar a experiência vivida, incorporando um discurso significativo. E neste contexto a aprendizagem está para a evolução da humanidade assim como o Santo Graal está para algumas seitas religiosas.

Aprender a dominar o fogo; dar novas formas à pedra, lascando-a; captar a forma de lidar com a argila, o ferro, o cobre, o aço... E transmitir o conhecimento adquirido, se diferenciando das demais espécies porque o que acumulou e acumula diuturnamente não depende exclusivamente das informações genéticas e do comportamento que se desenvolve automaticamente de sua relação com a natureza.

Portanto, uma característica fundamental do homem reside na capacidade de aprender, de processar as experiências e conhecimentos que recebe dos antecedentes e das antigas gerações para transmitir para os contemporâneos e para os que virão. É esta especial característica que elevou a espécie, possibilitando exercer completo domínio sobre o planeta, e que decorre da habilidade de criar sistemas de símbolos - sobretudo a linguagem - mecanismos de que se utiliza para dar significado às experiências vividas, transmitindo-as aos seus semelhantes.

Por esta razão, no planeta terra, tão somente ao Homo sapiens é dado pensar.

Todavia, no decorrer da evolução humana parece que modificações genéticas acometeram indivíduos e grupos deles, criando uma sub-espécie que cultua a mediocridade, a ignorância e a delinqüência intelectual. É deste grupo de pessoas – hoje tão numerosos que em alguns extratos sociais, amplamente majoritários – que se refere Saramago. De uma forma sentida, dolorida, num incontido desabafo, dá testemunho dos que menosprezam o idioma, a fala, o pensamento...

Porque a escalada dos que são incapazes de pensar e falar bem, parece não ter fim. Como pragas de vampiros vão galgando posições, ocupando todos os espaços, sugando todo o sangue e energia disponível à volta. São os dráculas modernos, arrogantes e presunçosos, artificiais e preguiçosos ao extremo, incapazes de ler um bom livro, freqüentar uma boa escola, encantar-se por um museu, um teatro ou um cinema.

Não desenvolveram a habilidade de escutar, de ouvir. Simplesmente simulam prestar atenção ao interlocutor porque todas as respostas já estão predefinidas, na ponta da língua, pronta para a erupção que exala estultícia, tolice.

Os néscios compõem uma caterva de malandros que avacalha o idioma, sempre testando nossa paciência para administrar o insuportável, o que afronta a harmonia e desequilibra, o que agride a lógica e aos ouvidos, o que distorce e desfigura a verdade.

Incapazes de compreender as virtudes do diálogo diplomático, discreto e de conteúdo, estão sempre como prolixos papagaios, repetindo citações imbecis e o que já foi dito e reiterado inúmeras vezes, falando alto e com estardalhaço.

Como não têm o poder da palavra, não dominam o idioma e ignoram a lógica, jamais alcançam o pensamento, o raciocínio, a reflexão. Então utilizam a verborragia dos retardados e, conseqüentemente, não convencem. Daí, para vencer, só pela força.

Como cansa escutar alguns políticos, alguns intelectuais, alguns professores,...broncos que infestam todas as categorias profissionais.

Jamais compreenderão o poder do silêncio, do instante mágico para processar o que se escutou, o que se viu, o sentimento que emergiu, quando as coisas se revelam em sua verdadeira intensidade. Quando sentimos a doce presença de Deus.


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POR EM 13/10/2008 ÀS 07:47 PM

Filmes

publicado em








Casa Vazia
, (2004). Dirigido por Kim Ki Duk

"É difícil dizer se o mundo em que vivemos é uma realidade ou um sonho."


Tae Suk, tem um costume um tanto quanto incomum: invade casas quando seus respectivos donos estão viajando. Não rouba nada, apenas come alguma coisa que está na geladeira e lava algumas roupas sujas. Certo dia, em uma de suas aventuras, é surpreendido por Sun Hwa, ex-modelo que tem uma vida bastante infeliz ao lado do marido violento. Cansada de ser tratada como objeto, Sun Hwa resolve fugir com Tae Suk e passa a acompanhá-lo em suas invasões cotidianas.

E assim começa uma belíssima estória, escrita e dirigida pelo diretor sul-coreano Kim Ki Duk, um explorador das infinitas possibilidades da linguagem cinematográfica.

Na ausência de diálogos entre os protagonistas, o diretor opta por transmitir tudo através das imagens, usando e abusando de símbolos, brincando com a capacidade de interpretação dos espectadores. O título Casa Vazia é uma metáfora da vida que levamos, uma vida que não nos pertence: ele, invadindo residências alheias, ela vivendo um casamento que detesta e nós levando uma vida onde não conseguimos nos enxergar, tentando preencher a qualquer custo o nosso vazio existencial.

O final é extremamente surpreendente e poético.
 

IMDB

Trailer


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POR EM 13/10/2008 ÀS 06:54 PM

Da noite para o dia

publicado em


Como a vida da gente muda da noite para o dia! Ainda ontem tudo ao meu redor parecia sem vida, tudo monotonamente normal, quando me assaltou novamente a idéia de remexer papéis velhos, um dos meus passatempos prediletos. Assim consigo também trazer de volta o passado. Às vezes é uma foto, outras uma carta, outras ainda uma poesia que rabisquei na adolescência. Mas desta vez não foi nada disso. Encontrei uma novela. Datilografada, ilustrada, com capa e tudo. Como um livro impresso. No fundo de uma gaveta, enrolada noutras folhas de papel. Retirei o invólucro e fui me lembrando da história daquela história. Era uma novela amorosa escrita por César e ilustrada por mim.

Datilografamos, fizemos uma bonita capa, grampeamos as folhas. Nesse tempo vivíamos de sonhar. Éramos estudantes do mesmo colégio, colegas de grêmio literário, de leituras, discussões acaloradas. Líamos Dumas, Camilo, Herculano, Alencar.

César sonhava com a glória literária. Ser membro da Academia, escritor de fama, ganhador do Nobel. Já meu sonho se contentava com as migalhas da simples publicação. Eu não tinha vocação literária, embora rabiscasse versos vez por outra. Aprazia-me mesmo era desenhar. Daí a capa do futuro livro de César e algumas ilustrações ao texto.

Iríamos trabalhar juntos sempre: ele como escritor de novelas, eu como ilustrador de seus livros. E nunca ele aceitaria outro ilustrador, nem eu ilustraria livro de outro escritor. Pacto de sangue, de morte, de amizade eterna.

Planejamos publicar a primeira novela. Cinqüenta mil exemplares na primeira edição. Ele havia sonhado com cem mil, até que o convenci a ser mais modesto. Iríamos ficar famosos da noite para o dia: ele como escritor, eu como ilustrador. Lidos e vistos em todo o Brasil. E depois em todo o mundo.

Inclusive na China. Falaríamos com Mao Tse-tung. A juventude chinesa precisava de ler textos mais do coração e não só o livrinho vermelho.

Enviamos cópias para algumas editoras. As respostas vieram desalentadoras: “livro pouco comercial”, dizia uma; “muitas obras no prelo nos impedem de dar publicação à sua novela”, esclarecia outra; “não estamos no momento publicando novelas”, explicava uma terceira; “livro não aprovado pelo nosso Conselho de Leitores”, resumia uma quarta. E outras do mesmo teor.

Algumas editoras nem sequer deram resposta. Fizemos então novos planos maravilhosos. Não iríamos precisar das editoras. Pouparíamos. Deixaríamos de fumar, beber, merendar, ir ao cinema, etc. César iria trabalhar e depositaria a maior parte do ordenado na caderneta. Meu pai não me deixava trabalhar, mas, em compensação, eu exigiria mesada mais gorda. Dela tiraria apenas o suficiente para os gastos mais necessários e depositaria o restante na poupança. Quando já tivéssemos alguns milhões, mandaríamos publicar a novela numa gráfica qualquer. Venderíamos os livros nas escolas, nos cinemas, nas ruas, lojas, repartições públicas, nos bares. Viajaríamos pelo interior. Com o dinheiro da venda mandaríamos publicar o segundo livro. Mas quando teríamos os milhões suficientes para pagar a primeira impressão? A esta pergunta perdemos o entusiasmo.

Concluídos os estudos secundários, César deixou de estudar e arranjou emprego. Não para juntar dinheiro, mas para sobreviver. Seu pai mergulhava cada vez mais na pobreza. E não falamos mais na novela. Nossas relações pouco a pouco iam perdendo o calor, nossos encontros se distanciando no tempo. E, quando nos víamos por acaso, apenas nos cumprimentávamos.

Esqueci logo os desenhos, as ilustrações, os sonhos. E fui estudar Direito.

Um ano depois meu pai morreu. Estranhamente assassinado. Crime horrível – latrocínio. Morto e roubado. Encontraram seu corpo numa valeta a poucos quilômetros do centro da cidade. Um tiro no crânio. E o carro estacionado à margem da estrada. Nenhum vestígio do assassino.

Meu pai nunca teve inimigos, dava-se bem com todo mundo e quase toda a cidade o conhecia. Nós, os filhos, estudávamos nos melhores colégios. Minha mãe o adorava. A polícia ficou tonta. Não sabia a quem atribuir o crime. Nenhum indício, nenhum suspeito.

No dia de sua morte havia sacado uma grande soma em dinheiro ao banco, como sempre fazia. E seus negócios ele mesmo os resolvia. Deixava o carro estacionado nas proximidades do banco, levava uma pasta, um revólver e só. Não queria guarda-costas.

A polícia concluiu finalmente que o assassino só podia ser um assaltante comum. Foram então presos todos os ladrões e suspeitos de terem cometido crimes contra o patrimônio. A nenhum deles, porém, foi possível imputar o latrocínio.

Folheei a novela e por um bom tempo me deixei a cismar. Pensei no meu passado, em César, e quase não consegui dormir. E decidi que hoje procuraria saber onde vivia César. Queria recordar com ele todos os nossos sonhos, todos os nossos sofrimentos, ele por ter tido suas ilusões tão duramente mortas, eu por ter perdido meu pai de maneira tão bárbara e misteriosa. Como pudemos nos esquecer tão depressa, apesar daquela amizade quase apaixonada que nutríamos um pelo outro? Como somos fracos, débeis, inconstantes!

Onde, porém, eu poderia encontrá-lo? Detrás de um balcão de loja? Na cozinha de um restaurante? Ou teria conseguido realizar seus sonhos literários, pelo menos os mais modestos? Ou teria ido embora para bem longe? Talvez até estivesse morto.

Não, não adiantava fazer suposições. Mais fácil procurar seu nome na lista telefônica. Se não estivesse tão mal, certamente teria um telefone. Tentei lembrar-me de seu nome completo. Lamentei mais uma vez a fragilidade do coração humano. Como pude esquecer tão facilmente o nome de meu melhor amigo? Ainda bem que a novela se encontrava comigo, e, com toda certeza, nela estaria o nome inteiro, um sobrenome pelo menos. Corri os olhos e li: César Augusto dos Reis, no alto da capa.

Hoje disquei o número e atendeu uma voz grossa e autoritária. “Quero falar com o novelista César Augusto dos Reis”. A voz do outro lado se mostrou aborrecida: “Não existe nenhum novelista aqui. Quer deixar de brincadeiras, meu senhor.” Apresentei-me. Ele se fez de esquecido ou de fato não se lembrava mais de mim. Depois se disse surpreso: “Não sabia que você ainda era gente”. Conversamos mais. Quis saber de minha vida. “Sou advogado. E você?” Falou em barzinho, dificuldades, “aturando esses bêbados dia e noite”. Pedi o endereço.

O barzinho chama-se “Restaurant Carnivorous”, serve pratos da cozinha internacional, recebe a fina-flor da sociedade e é irmão de outros dois e de um prédio de doze andares.

César mandou dizer por um moleque de recados que não podia receber ninguém. Em um minuto deveria sair para compromisso inadiável. Não dei ouvidos ao recado e entrei no escritório. E só saí de lá uma hora depois.

Falamos da morte de meu pai, de comércio, de literatura e artes plásticas, do passado, de nossos sonhos, mil coisas, tudo de forma desordenada, como se quiséssemos falar todas as palavras ao mesmo tempo. Contou-me sua história: antes de adquirir o primeiro barzinho, trabalhou como garçom, copeiro e cozinheiro. O barzinho rendia alguma coisa, até se transformar num bar de verdade. O bar virou restaurante. “Tudo porque sou muito controlado e trabalhador. Não ando esbanjando dinheiro”.

Surpreendi-me diante de tanta riqueza e fui para casa desconfiado não sei de quê. E todo o passado voltou à tona, aos borbotões, feito vômito. Relembrei todas as nossas conversas, todos os sonhos, todos os projetos, a novela, tudo. E me interroguei com mil perguntas: por que César não publicou o livro, não virou o escritor que desejava ser, se tem tanto dinheiro? E se havia dito numa de nossas últimas conversas que nada o impediria de se transformar num grande homem, famoso, reconhecido por todos! Como um barzinho podia ter se transformado num restaurante daqueles em tão pouco tempo?

Não durou muito aquele vômito e voltei ao restaurante. Da porta gritei: “César, você matou o meu pai”. Ele quis explodir, gritar, correr, agredir. Apontei-lhe o revólver e ele se rendeu.


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POR EM 13/10/2008 ÀS 06:51 PM

Cultura revigorada

publicado em


Um cartão postal apregoa por aí que a coragem não torna necessariamente as coisas mais fáceis, mas pode torná-las possíveis. Coragem é o que mais têm os artistas que fazem arte e cultura nesse Estado. Lendo nos jornais informações do governo de que serão ainda mais curtas as verbas para fomentar a cultura goiana imagino que tempos áridos virão por aí, se é que mais aridez ainda seja possível. Mas há uma saída honrosa e recorro a ela para sugerir aos artistas goianos que se atrevam corajosamente a colocar uns silicones básicos nos seus corpos e caras para verem como muda imediatamente o foco de interesse por suas criações – o público é louco por silicone, independente do que o artista faz.

Tem silicone? Entopem teatros, viram alvos de revistas, vendem CDs, atiçam a curiosidade das massas. É incontestável a atração que esse plástico sofisticado exerce nas pessoas no Brasil, qualquer idiota siliconada é elevada à condição de musa pelos órgãos de imprensa, alardeia sua “arte” em programas dominicais, eleva sua conta bancária em valores multiplicados em relação ao que gastaram com os mililitros de silicone, arrastam multidões, independem de verbas públicas para fazer cultura.  

Juro que não estou sendo irônico sou a favor, penso que o silicone está aí para nos promover, iluminar o que chamamos os “áridos caminhos da cultura”, resolver de vez a dificuldade de promover CDs, vender livros, atrair público aos cinemas e teatros, ganhar espaços nos segundos cadernos, galgar as coluninhas de fofocas televisivas e outras glórias.

Com uma mínima quantidade do produto injetado em alguma parte estratégica do corpo e fartamente noticiado, claro, um escritor não teria mais que fazer esforço para convidar pessoas e vender livros nos seus lançamentos – o silicone faria o milagre.

Todos os cantores goianos, cotizados, aplicariam litros divulgados com antecedência e já estariam garantidos vários shows com lotação esgotada; espetáculos teatrais também se beneficiariam dessa cirurgia simples para convencerem os espectadores de que um artista é tanto mais importante e atraente quanto a quantidade de silicone que consegue injetar na sua embalagem ambulante e assim, finalmente, o teatro alçaria vôo nesse Estado onde as águias siliconadas que vêm de fora teriam competidores à altura. Tão simples.

Pintores posariam ao lado de suas obras, inflados e inflamados de recentes e criativas aplicações em alguma parte de seus corpos, esses sim, transformados na própria obra de arte.  Quem não quereria ver esta “performance” moderníssima?

Em tempos bicudos vale qualquer coisa para atrair a atenção das massas e chega a ser irrisório o fato de que tenham sido pessoas tão tolas que nos deram a dica do que deveríamos ter feito há muito tempo. Siliconadas são pessoas sábias disfarçadas de gente burra para não despertar suspeitas.

Como explicar que artistas, verdadeiras antenas do mundo, não perceberam isso antes?! Só mesmo por preconceito, diga-se de passagem, coisa de intelectuais invejosos sem coragem de encarar até mesmo uma simples agulha de injeção, como o fazem tão corajosamente os famosos recheados por médicos ainda mais famosos. Sim, aplicar silicone e botox gera fama também pros médicos, é o efeito cascata.

É isso que falta ao interior do Brasil, às cidades médias como Goiânia que adoram cultuar, para além do silicone, pessoas que vêm de fora. Está aí a segunda sugestão para driblar a crise cultural: sair de Goiás, virar um artista “de fora”. É uma equação muito simples e observável a olho nu, basta um goiano sair daqui por alguns meses para viver em São Paulo ou Rio para, quando voltar, ser paparicado e incensado por jornalistas deslumbrados com sua coragem de fazer sucesso lá fora. Tão chique quanto ter silicone espalhado pelo corpo é goiano que vive fora de Goiás – transforma-se imediatamente em ícone da boa arte, paladino da cultura goiana a irradiar nosso progresso para o mundo. Uma cantora goiana que passou a vida aqui tentando cantar e gravar, enfrentando noites em bares com público distraído, fazendo serenatas em festinhas de aniversário, virou estrela luminosa com o simples toque cosmopolita de ir viver na Holanda com seu namorado. Se nunca foi notícia aqui, depois do advento holandês passou a ser freqüentadora assídua de colunas sociais goianas.

Silicone e fuga de sua terra, dois ingredientes poderosos para se fazer sucesso em Goiás.

Concordo que aplicar plástico no corpo pode ser menos dolorido que a constatação cruel de que só ausente da cidade, um artista consegue se tornar presente e motivar o público.

Se nenhum desses argumentos convencerem os artistas goianos, por falta de coragem de encarar uma seringa de injeção ou o desgosto de ter que viver fora de sua cidade, afirmo que a realidade está estampada em qualquer página de segundo caderno, em qualquer coluninha social ou bloco de entrevistas de algum telejornal daqui: o silicone e o auto-exílio parecem que são capazes de fazer com que uma pessoa preste enorme serviço de utilidade pública à cultura de seu Estado. E, afinal, o que interessa é parecer.

E, assim, ninguém sentirá falta do dinheiro que o governo não vai aplicar para fomentar a cultura e estamos conversados.

Pensando bem, que marketing pode ser mais poderoso que aplicar silicone e botox em cérebros atrofiados numa época dominada pelo marketing?

Nada, muito menos a arte.


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POR EM 13/10/2008 ÀS 05:30 PM

Mais, do mesmo

publicado em


Dezesseis dos trinta e cinco vereadores de Goiânia foram reeleitos nessas eleições. Dentre eles, os principais articuladores e votantes às escondidas do 14º e 15º salários, um privilégio, sem dúvida.

Trabalhador não sabe o que é isso. Sem hipocrisia, não acho que vereador ganha rios de dinheiro em função do que, em tese, representa: a coletividade. Acharia justo se ganhasse até mais do que hoje ganha, para cuidar da cidade. Quanto ganha, por exemplo, um atacante do Goiás? Ora, não acho que um atacante do Goiás seja mais importante do que um vereador. A riqueza de alguns parlamentares não deriva obviamente do que percebem de forma regular: é fruto de tudo aquilo que lucram por fora, através da corrupção – valores muitíssimo superiores ao vencimento em folha. Se, além disso, acumula privilégios – como o 14º e 15º mínimos -, então de fato enriquecem-se, tornando o cargo uma via de ascensão social.

No fundo, a maioria quer apenas isso mesmo: ganhar uma eleição para ficar rico e obter reconhecimento. É essa a mentalidade dos mentirosos.

Parece que o mal-caratismo é invisível aos olhos da mesma população que tanto diz odiar a política.

Insiste que odeia porque essa classe não presta!, porém, eterna contradição, a cada pleito os acusadores legitimam a bandalheira que condenam, votando nos mesmos que emporcalham a imagem do parlamento. Prova de que o povo está perdido. O povo não rebela-se, conforma-se: nunca vai ser uma ameaça aos que o exploram. Sua ignorância dispersa não pode com a inteligência dos bem articulados. Quem perde, todas as vezes, são os justos colocados na vala comum e o própria população, incapaz de fazer uma leitura minimamente crítica da realidade. Conclusão?, “é tudo igual!” É mais fácil reduzir tudo a uma sentença inócua do que defender os próprios interesses. Este ponto, aliás, não é tão simples.

Desde que se tenha dinheiro e disposição para comprar pessoas, pode um mandatário aprontar à vontade. Até porque, mesmo com as seguidas restrições impostas pela Justiça Eleitoral – que promete equalizar a disputa através de financiamento público – não se conseguiu debelar duas artimanhas de difícil correção: o favor político e a compra de votos. Destaque-se a primeira: o que a princípio parece correto – trocar o voto por benefícios – revela-se na verdade uma fonte de deturpação. Não se alterou a prática: o que mudou (ou acentuou-se) foi abdicar dos benefícios comuns em troca de favores estritamente particulares. E ai não importa o caráter do candidato, desde que resolva algum problema alheio. Um voto vale um monte de terra, um emprego para o filho, um estágio para si mesmo, uma quebra de multa, e por ai vai. A lista de interesses pessoais é generosa, não tem limite.

Porque o eleitor faz isso? Talvez porque, tendo perdido as esperanças, resolveu tirar proveito ao menos pra si. Toma lá dá cá, esquecendo-se de que seu erro implica prejuízo para todos. Corrompeu-se também: o voto não é uma arma, é uma moeda de troca. A vereança não existe para a cidade, nisso concordam certos eleitores e certos parlamentares: existe para, de um lado, ajudar fulano ou cicrano, de outro para ajudar o eleito, pelo roubo e pela fraude. A sociedade, de forma geral, é tão pragmática quanto seus representantes, tão suja quanto seus políticos. Salvo as exceções, ela também quer que se dane o interesse comum, desde que preserve o de certos membros seus. Ela é o eleitor ideal para o tipo de parlamentar que temos. Se não concordo que a sociedade tem o governo que merece, é porque me considero parte daquela exceção.

A parcela da sociedade na qual me incluo não merece a Câmara que elegemos, merece coisa melhor.

É uma parcela descontente, frustrada e perdedora. Perde todas as vezes, porque a ignorância do povo é terrível e avassaladora. Frustra-se porque tem a ilusão de que os interesses da sociedade se superpõem aos do indivíduo, quando os indivíduos levam sempre a melhor. Acha sinceramente que o eleitor, e não a política, é que não presta: faltou-lhe educação, ou sei lá o quê, para fazer escolhas conseqüentes.

Absurdo que ainda seja obrigatório o voto de tanta gente despreparada, quando o que uma eleição mais requer é responsabilidade!


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POR EM 13/10/2008 ÀS 05:19 PM

Roteiro do domingo de uma família verde e amarelo

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Um dia sem nuvens no céu, sem risco de chuva. Há quanto não chove? Mas ele estava feliz por hoje não chover. Acordou às cinco da manhã. Hoje é domingo. Para que acordar tão cedo? Mas hoje é um dia especial, dia de Formula I. Ah, sim! Hoje sim, hoje tem Copa do Mundo, jogo do Brasil na TV. Escancarou a janela, sentiu o doce aroma do esgoto a céu aberto. Respirou fundo, olhou pra rede, a mulher ainda dormia:

    - Acorda, mulher!
    - Porra homê, me deixa!
    - Acorda! Brasil, Brasil, acorda!

A mulher, cansada de passar roupa até tarde, não acordava. Resolve fazer um café. Na sala, rede pra tudo quanto é lado, passa por aqui, por acolá, chega à cozinha e é aquele mexe-mexe:

    - Pam! Pam! Prac! Pam!
    - Diabos, não tem pó!

Aquilo não o deixou desanimado. Bebe um copo d’água barrenta e sai mundo afora. Sete horas aquela confusão. Mijo de criança no meio da sala, choradeira, gritaria:

    - Mãe, tô com fome!
    - Não tem nada, menino!
    - Mãe, tô com fome!
    - Já disse que não tem nada, diabo ruim!

Meio-dia. Todo mundo já se roendo de fome, quando pinta na porta da casa aquele espigão de homem com um kilo de farinha e três rapaduras debaixo do braço. Lá pras tantas, todo mundo com a pança cheia de rapadura e farinha, é ligada a única coisa condigna daquela família, cujo pai tinha o maior orgulho. Uma televisão colorida, último modelo, controle remoto e tudo. A qual foi comprada em sete suaves prestações; como entrada usou seu fundo de garantia.

    Todo mundo sentado no chão:

    - Sai do meio, barriga de lama – grita o pai pro filho
           menor.
            
    “E rola a bola em Berlim...”.

Nesse domingo Felipe Massa ganhou na Formula I e a seleção brasileira ganhou de 5X0 da Alemanha. E nossa prezada família, o pai, o herói dessa crônica, sua esposa e seus nove filhos, dormiram sem jantar, adormeceram em suas redes saciados com as glórias do Brasil.


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POR EM 13/10/2008 ÀS 05:17 PM

Um segredo da liberdade

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O poeta se faz vidente no desregramento de todos os sentidos, escreveu o poeta Arthur Rimbaud, depois de sua estadia no inferno que o fez abrasar-se no fogo da criação. Sua alma antiga e cultivada teve clarões do esplendor, mas suas visões perderam todo o sentido, e ele se tornou vazio, oco por dentro, depois que teve ânsias de encontrar as esplêndidas cidades do eterno Natal.

Suas visões do infinito perderam, porém, todo o sentido, visto que o inefável será sempre indizível em palavras, ou por qualquer outro recurso que seja capaz de engendrar a mente humana. Assim, no ato mesmo de se saber gênio e vidente, Arthur Rimbaud, no esplendor da juventude, deserda de tudo, e a tudo renuncia, com a arrogância de um daimon dionisíaco, para quem nada importa, para além de sua fúria anárquica, e seu poder de construção e de destruição.

Henry Miller comenta, em A hora dos assassinos, um estudo sobre o gênio poético que a França deu ao mundo: "Como Lúcifer, Rimbaud consegue ser lançado ao céu, o céu da juventude. É vencido, não por um Arcanjo, mas pela própria mãe, que para ele personifica a autoridade. É um destino de que se acumplicia desde o início.

O jovem brilhante, detentor de todos os talentos, mas que os despreza, parte bruscamente a vida ao meio. É um ato ao mesmo tempo magnífico e horrível. O próprio Satã não poderia ter imaginado castigo mais cruel do que o que Arthur Rimbaud impõe a si mesmo com insuperável orgulho e egoísmo".

A partir desta ruptura radical com o seu próprio gênio poético, abandonado para sempre, junto às suas percepções de vidente, o aventureiro a que entrega o seu destino termina por encontrar a desgraça de sua existência - que ele buscou, talvez inconscientemente, na sede de ir sempre para mais longe, onde pudesse encontrar a aridez total, nos lugares mais inóspitos do planeta - Aden e Harar, ardentes desertos sem oásis, uma terra devastada cercada de muito nada por todos os lados.

O ficcionista/ensaísta Henry Miller fala, com admirável lucidez, da falsa liberdade que o ego quer para si - e nela se compraz, a configurar o auto engano que é seu natural meio ambiente: "A liberdade que Rimbaud exigia era para seu ego afirmar-se sem limites. Isso não é liberdade. Com esta visão, pode-se, vivendo o tempo suficiente, exprimir cada faceta de seu próprio ser, e ainda encontrar motivo para se queixar, pretexto para se rebelar.

É uma espécie de liberdade que nos dá o direito de protestar, de nos retirarmos, se necessário. Não leva em conta as diferenças alheias, somente as nossas. Jamais poderá ajudar alguém a encontrar o vínculo, a comunhão com toda a humanidade. Fica-se separado para sempre, em eterno sofrimento". Eis a liberdade do gênio rebelde sem causa. Tendo todos os motivos para escolher uma causa pela qual possa entrar em combate, armado com sua fúria e sua coragem camicase, ataca tudo o que encontra à sua frente, menos o seu ego inflacionado, que o faz ver-se perfeito.

A liberdade que o ego reivindica para si vem a ser a prisão por que se deixa possuir quem navega em tais águas ilusórias. Pois o que o ego (o falso Eu) deseja é continuar a se iludir. Vemos, assim, que a revolta de certos eternos rebeldes não passa de birra de criança, para chamar atenção da mãe. Talvez tenha sido falta de atenção materna (sua mãe sempre lhe foi dura e ríspida) que fez Arthur Rimbaud renunciar ao fogo criador de seu talento, passando a viver como um ambicioso comum, ávido por dinheiro, vivendo a mercadejar com tudo (dizem que até com armas).

Se sua mãe e sua irmã não se interessavam pelos produtos iluminados de seu estro, qual o sentido em continuar a cultivá-lo? Por isto declarou: "Odiarei para sempre o lugar em que nasci". É destino de uma pessoa (gênio criador, ou criatura dotada de inteligência comum) odiar o lugar onde não foi mimado.

Tantos se tornaram gênios, por não terem tido um colo quente e amoroso, que os acolhesse e alimentasse. Goethe, Arthur Rimbaud, Machado de Assis, cuja mãe faleceu quando ele mal deixara a infância. Henry Miller assinala, a propósito desta abissal solidão, geradora, no entanto, de iluminadas inspirações artísticas: "Não é de admirar que fique afastado da mãe. Nem se repara nela, a não ser como obstáculo. Quer-se o conforto e a segurança do seu útero, aquela escuridão e sossego que para o feto equivale à luz e à aceitação do recém-nascido".

Mais adiante, o autor de A crucificação encarnada assinala: "Pode-se ser aclamado como um grande rebelde, mas jamais ser amado. E para o rebelde, mais que para todos os homens, é necessário conhecer o amor, e dá-lo mais que recebê-lo. E ainda mais que dar, Ser o Amor".

Movido pela parte de si mesmo que é pequena e míope, se para uma coisa esta revolta cega serve, é para fazê-lo beirar abismos. Mas o gênio que alcança a façanha de individuar-se, tornar-se pessoa inteira, ao ter abertas as portas da percepção, pode, na visão de William Blake, ver a eternidade em um segundo, e o universo em um grão de areia.

Seguindo a parte de si que é infinita, se for artista, não fará de seu trabalho uma fogueira das vaidades. Ao contrário, conseguirá fazer com que seja veículo da compaixão, beleza e bondade em que vive tudo o que existe intocado pela inversão de consciência a que nos conduz o ego. Saberá, então, como escreveu Edgar Allan Poe, que "Só existe a Vida - a menor dentro da maior, e todas dentro do espírito divino".

Com outras palavras, igualmente belas, a poetisa Elisa Lucinda fala do compromisso essencial de todo aquele que se diz ou se queira poeta ou artista: "É da vocação da vida a beleza/e a nós cabe não diminuí-la, não roê-la/ com nossos minúsculos gestos ratos/nossos fatos apinhados de pequenezas./Cabe a nós enchê-la/cheio que é o seu princípio/". 


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POR EM 13/10/2008 ÀS 05:13 PM

Médicos escritores?

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Quando passei pela faculdade, há vinte anos, fiquei conhecendo um acadêmico de medicina fora dos padrões. Seu apelido era Jotinha. Dentre tantas esquisitices, certo dia o sujeito apareceu lá no Hospital das Clínicas com um álbum de fotografias enfiado no sovaco. Eram fotos da noiva vestindo um biquíni de oncinha num ensaio, digamos assim, sensual. Saltava aos olhos a naturalidade da moça, provavelmente, uma profissional das lentes e das gaiolas. O “book” fez um sucesso danado no meio estudantil. Muito estranho o Jotinha ficar expondo a noiva daquela forma, mostrando suas curvas, cicatrizes e celulites. Mas se ele, que era o maior interessado, não estava nem aí com a paçoca, por que haveríamos de nos preocupar com as questões morais?!

Dizia-se, à boca miúda, que o sujeito, mesmo sendo estudante, já atendia em consultório médico, fazia uma grana com prática do aborto clandestino e, de vez em quando, abusava sexualmente da clientela.

Como é que o povo ficava sabendo daquelas coisas eu nunca soube. Boataria?! A verdade é que o Jotinha formou-se, caiu no mercado de trabalho e foi preso há poucos dias por prática de pedofilia, estupro, atentado violento ao pudor e favorecimento à prostituição infantil. Pau que nasce torto, até as cinzas são tortas... É difícil aceitar que uma entidade pública educacional de nível superior libere um profissional com este perfil psicológico no mercado. Por causa de seu estilo bizarro, Jotinha não fez amigos na faculdade, era discriminado pelos colegas, e gastou quase dez anos para se formar em medicina (o curso normal tem seis anos de duração). Esconderijos da mente humana ou negligência dos educadores?!

Mas, falemos de coisas boas... No mês de outubro, como parte das comemorações do Dia do Médico (dia 18), acontecerá um evento na Associação Médica de Goiás chamado FESTMEDICO. Trata-se do maior evento artístico e cultural brasileiro destinado a médicos e acadêmicos de medicina. É muito provável que não exista nada igual no restante do planeta. Durante o festival, os doutores debulharão seus talentos além das pinças e dos bisturis, nas modalidades: canto, música instrumental, literatura, dança e artes visuais (fotografia, pintura e escultura). Nada mal para uma classe que tem fama de “sangue frio”. O evento encontra-se na sua sexta edição e é organizado pela seccional goiana da SOBRAMES (Sociedade Brasileira de Médicos Escritores), uma associação sexagenária presente em quase todos os estados brasileiros, e que reúne médicos e estudantes de medicina adeptos das artes em geral, com especial ênfase em literatura, literatura não científica. O festival, dentre outras coisas, visa ao congraçamento da classe médica, tão esculhambada nos últimos anos por causa de escândalos como os do Jotinha, dos planos de saúde mercantilistas, das avalanches de processos ético-legais (a maioria deles uma imoral caça ao dinheiro), da desvalorização do trabalho médico e da insuficiência de investimentos na saúde por partes dos nossos governantes.

Tem um punhado de médicos escritores (ou escritores médicos) com destaque na literatura universal, como Guimarães Rosa, Pedro Nava e Arthur Conan Doyle, para citar apenas três. Se a SOBRAMES nos brindará com algum novo ícone literário, é uma incógnita. Mas também, se isso não acontecer, não tem problema algum. Em seu estatuto, a entidade não almeja a fama e glória dos associados. Aqueles doutores querem apenas deixar bem claro à sociedade que têm sangue correndo nas veias, e não é frio, não senhor. É pura ebulição.


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