Frango com ameixas
Marjane Satrapi nasceu no Irã em 1968, viu com 10 anos a revolução islâmica, passou a adolescência na Alemanha e retornou à Teerã onde se formou na universidade de artes. Ela contou tudo isto no romance em quadrinhos “Persépolis” que, quando transposto para a tela do cinema, quase faturou o Oscar de melhor animação (perdeu para Ratatouille, veja a Bula 226).
Em sua mais recente “graphic novel”, “Frango com ameixas” (Cia. das Letras, 2008), ela volta a se basear nas lembranças de família e, assim, conta a história de seu tio Nasser Ali, um exímio tocador de Tar, um instrumento que parece um violão mas com braço mais longo e uma caixa menor.
A história se passa em 1958 e conta os últimos dias da vida de Nasser. Ele é casado com uma mulher que nunca amou, mas que é professora, mãe de seus quatro filhos e provedora do lar, pois ele é um músico profissional famoso, e como quase todos os brilhantes músicos do mundo, vive apertado.
Desta forma, a falta de jeito de Nasser com a vida prática, vai aos poucos causando desavenças com Nahi, sua esposa. Um dia (em 1958) cansada, irritada e nervosa, ela quebra o Tar do marido, que só faltou cantar “meu mundo caiu....”.
Segundo Marjane, normalmente os mestres em Tar ficam com o mesmo instrumento toda a vida e o passam a gerações posteriores de músicos. O Tar de Nasser, por exemplo, pertencera, ao mestre de seu mestre e, portanto, era praticamente membro da família.
Nasser sai em busca de um novo Tar. Experimenta vários, mas nenhum deles o satisfaz. Viaja quilômetros, paga uma fortuna por um, mas mesmo assim, o som do novo instrumento nunca estava bom. Imagine João Gilberto de mau humor...mas devo parar com as piadinhas.
Ele resolve morrer. Deita-se na cama e oito dias depois (22 de novembro de 1958) é enterrado ao lado mãe num cemitério ao redor de Teerã.
Começando pelo enterro do tio, Marjane constrói o romance imaginando o que ele deve ter pensado em cada um dos sete dias que passou em seu quarto antes da morte. No primeiro dia pensa em todas as formas de se matar e recebe a visita da filha querida Farzaneh, que reza pelo pai, como ele, Nasser, rezava pra sua mãe não falecer, até que o dia em que ela mesma lhe pede pra deixar de orar, já que ela queria morrer. Ele a obedece e a enterra seis dias depois.
No segundo dia, recebe a visita do irmão “bem de vida” e que sempre teve um desempenho escolar melhor que o dele. Depois o irmão virou comunista e a família foi obrigada a vender praticamente todos os bens para tirá-lo da cadeia. Nasser é cruel com o irmão: “Quando virou comunista, levou sua família em consideração?”. Eles ainda se abraçam e como recusara o convite para ir ao cinema ver a estonteante Sophia Loren, Nasser acaba, já com os primeiros sintomas da fome (Frango com ameixas era seu prato preferido), dormindo por entre os peitos da famosa musa italiana, um desenho que deve ter dado muito alegria a Marjane, já que na Universidade de Teerã, ela e seus colegas não podiam ver gente nua e muito menos pintá-las.
No terceiro dia ficamos sabendo que Nasser nunca amou sua esposa (ele diz isso a ela) e que queria casar com Irâne, mas o pai dela não aprovara o casamento com um músico profissional. No quarto dia vemos que ele tem pouca intimidade com os filhos que nunca buscaram o caminho das artes, enquanto no quinto dia ainda delira com suas lembranças.
No sexto, ele tem um diálogo inusitado com Azrael, o anjo da morte. Mas sua hora só iria chegar no sétimo dia, quando vemos que, na verdade, ele tocava para o grande amor (Irâne), que dois meses antes não o reconhecera na rua.
Viver para quê? Nasser cita o poeta iraniano Khayyam (1048-1131): “Os astros nada ganharam com a minha presença neste mundo. Sua glória não aumentará com sua derrocada, e meus ouvidos são testemunhas: Ninguém jamais foi capaz de me dizer por que me fizeram vir e por que me fazem ir embora”
Se isto for pro cinema com direção de Clint Eastwod e Daniel Day-Lewis no papel de Nasser, podem ter certeza que Marjane faturará seu primeiro Oscar.
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