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POR EM 27/10/2008 ÀS 12:21 PM

As minorias têm sempre razão

publicado em


Sou remanescente dos utópicos dos anos 70, aqueles que acreditavam que iam mudar o mundo com suas idéias e a prática delas. Digo remanescente porque até hoje acredito que o meu teatro pode incentivar as pessoas a pensar, desejar e trabalhar para um mundo melhor. Tem coisa mais utópica que fazer teatro num país onde os governos destinam verbas para a cultura duas vezes menor do que as que destinam aos carros oficiais? Os utópicos dos anos 70 adotaram um padrão de sonho: ter uma casa no campo onde pudessem compor muitos rocks rurais e reunir seus amigos, seus discos e livros...e nada mais. Acreditávamos em Carlos Castañeda que ensinava que cada homem precisa encontrar seu lugar de “poder” e só ali ser feliz para sempre. Nunca tive dinheiro suficiente pra comprar uma terrinha e nela praticar a harmonia entre bichos, plantas e homens e, pouco a pouco, caí na roda-viva do capitalismo desvairado que empurra qualquer homem para a periferia de si mesmo – ainda que permaneça fiel às suas idéias.

Reavivei meu sonho quando vim pra Goiás e conheci uma certa fazenda onde não se faz filosofia do sonho, mas onde se pratica a grande utopia através de parcerias e convergência de utópicos em geral.

Ela não queria ser propriedade exclusiva de um homem, seu dono, mas de todos que quisessem ajudar a fazer dela um ponto de poder onde arte, ecologia, produtividade sem ganância, evolução espiritual e harmonia com fauna e flora convivessem sem os grandes conflitos que acabam levando tudo de roldão. Os que acreditavam nisso eram, como de costume, tratados com condescendência como se tratam loucos mansos, inclusive o dono dela, maduro, rijo e forte como só os utópicos sabem ser.

Anos se passaram até que leio no livro do escritor alemão Wulfing Von Rohr, que pesquisa exatamente lugares no mundo onde se concentram esses pontos de poder e espiritualidade que a fazenda Santa Branca, situada no coração do Brasil, em Goiás, foi incluída como um dos 48 lugares onde o homem pode atingir esse grau de harmonia com a natureza e a elevação espiritual.

Estamos em boa companhia como a Ilha de Páscoa, o Monte Sinai, Santiago de Compostela, o Gran Canyon, Éfesos, e outros 48 etcs...

Na Áustria onde a cada ano se promove o prêmio Nobel alternativo para reconhecer homens e idéias inovadoras no mundo o nosso Leonardo Boff foi um dos premiados e a fazenda Sta Branca estará na lista no próximo ano, segundo o próprio Von Rohr. Os que conhecem a fazenda dirão que ela é também um empreendimento comercial situada entre os conhecidos lucros capitalistas.

Não se pode sobreviver de brisa e por isso ela fez parcerias que a sustentasse, mas deixo esse ângulo da história para a publicidade dos empreendedores porque não é a parte comercial que existe o que a fazenda tem de mais importante, mas sua sede freqüentada por gente do mundo inteiro.

O que é preciso dizer é que temos aqui, ao lado de Goiânia, o único ponto da América Latina onde se realizou o sonho de muitas gerações que é recorrente em várias culturas: permitir ao homem viver com dignidade sem que para isso tenha de subjugar a natureza e fazer dela um trampolim para as mais sórdidas ambições que se estabeleceram no pós-guerra.

Se tivermos muito do que nos orgulhar em Goiás, e temos, este é mais um motivo de orgulho: um novo modelo de uso da terra que desestabiliza o velho modelo rural que vem do colonialismo até os coronéis.

Esse parâmetro de uso da terra praticado nesta fazenda chega a ser revolucionário quando propõe parcerias que levam a um mundo mais justo onde a palavra companheirismo se reveste do seu significado real e ancestral.

Ali se realizam espetáculos teatrais, cursos e palestras sobre questões ambientais e psicosociais, sempre disponível para reunir gente aberta a novas idéias e encontros condizentes com pessoas inteligentes e sensíveis, antenadas com o que se faz de melhor no mundo em matéria de ecologia e evolução de valores humanos. Ali se celebra a vida e se cultiva a paz de espírito e a convivência entre os que acreditam que a vida não é só essa faixa estreita entre o consumismo, o poder, a aparência e a ostentação.

Se esse ponto de poder ainda é conhecido por alguns poucos apenas como um lugar onde se pensa, se medita, se discute, se renova, se areja, se harmoniza com a natureza está mais que na hora do leitor acreditar no alemão Von Rohr e mergulhar nesta nova visão de mundo que nos coloca ao lado de outros grandes sonhos realizados como as minorias utópicas sempre preconizaram.

Afinal, concordo com Henrik Ibsen, as minorias têm sempre razão.


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POR EM 27/10/2008 ÀS 12:02 PM

Estética Anartista

publicado em


Abaixo a roupa de baixo, com babadinhos cor-de-rosa, da melosa poesiazinha de armazém zen! Abaixo os versiprosinhas de homenzinhos sozinhos, roedores de unhas no zumzum dos shoppings, caçando morfemas e semantemas — chifres em cabeça de égua — pra escrever poemas sem língua, que não dizem nada a ninguém!

E vê se toma jeito, sujeito. Se toca com autocrítica. Sem essa de tudo quanto é crítica receber, às pressas, a pecha de preconceito.

Quebra a porrete os ossos da linguagem. Subverte a grafia, desarticula a pronúncia, monta outro esqueleto com os ossos do dia. Pô!&Cia.

Cria a vertigem. Carnavaliza o código de (im)posturas. Inaugura a loja de (in)conveniências. Torções semânticas, fraturas na estrutura sintática, dissolução dos signos, dissonâncias polifônicas.

Poesia é poliedro de sentidos. Abaixo o poema que só mela o drama, melô de futilidades circunstanciais, da emoção artificial, do enjoativo lirismo-naftalina, ou naftalirismo. E fora com os artifícios da mesmice no edifício do poema acadêmico-anêmico, minimalista onanista, feto putrefato de proveta, arroto, vomitório de provectos poetas de laboratório.

Indigesta poesia, esta que não (se) pensa e não se presta ao ludismo a olho nu do leitor voyeur. Nonsense, o chiste, a paródia e outros rebites do intelecto e do imo-senso. Aqui um eco de Joyce, ali um quê de Mallarmé, um ki de kiwi, um Kid QI e outros cotiliquês (vá se saber) pra enfiar no seu — bolso de veludo-cotelê.

Quem te viu, quem te lê. Cummings around again. Um isto de Pound cai bem. Quem não futrica não trisca a isca elétrica da estética. Finca o obelisco da tua anarquia, e manda o censor tomar, todo santo dia, suco no oco do kiwi, e soprar ou sapear em outra freguesia. Os críticos medíocres nada criam, mas cricrilam, cricrilam, cricrilam, ca(n)gando grilos.

Poeta maldito que se presta não derrapa na pista, não bambeia a tarraxa, acelera e queima a borracha. Poeta maldito não dá ponto sem nó, não dá o pé feito mulata, não dá nó em gravata e nó não dá em gota d´água, nem morde cabeça de prego que não seja o incômodo signo do desassossego.

Iconoclasta, força e ofício da contundência, poeta de praxe bate nos rins, dá murro em ponta de faca, dá soco na boca do estômago, deixa hematomas verbais no queixo das consciências escrotas.

Se teu poema não é novo, se é dèjá vu, o que se há de fazer que não seja replay? Se o poema é tardo, torna-o petardo. Inventa o signo, inverta a língua, cometa a subversão do código. Bem pode que o bode não passe de experimento, mas o experimento é febril e faz a diferença. Uma rosa não é uma rosa.

Quem não ousa se esclerosa.

Levanta mais cedo, pega o pano e as barbatanas do guarda-chuva, cria asas e vira morcego. Está com medo? Não exite. Salte! Coragem! E atenta-te ao que digo: vertigo. Poesia é vertigem. O resto é viadagem. Boletim de ocorrência da vadiagem.

Há controvérsia. Aconselha-se a não construir em casa um desses petardos, uma asneira dessas. Se construir, mantenha a bomba caseira longe do alcance das crianças.


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POR EM 27/10/2008 ÀS 12:01 PM

Vá lamber sabão

publicado em


Quem nunca mandou alguém lamber sabão atire a primeira barra ou a primeira bola, neste caso do sabão de decoada. Ninguém sabe ou soube até hoje porque Limírio de Donta desde rapaz se encontrou com a mania de viver lambendo sabão e não havia o que se pudesse fazer, visto que nunca ninguém encontrou solução adequada para um caso desse, pois sabão se encontra em todo lugar.

Por aviso dos germes e outros entes micróbios, todos usamos sabão várias vezes ao dia, apesar de a gente saber e ver que tem muitas pessoas que vão ao banheiro e nem as mãos lavam. Muita gente já lambeu sabão na falta de um creme dental, é ou não é? No caso de Limírio, não, ele adorava viver literalmente lambendo sabão, tendo essa mania passado da fase de hábito para vício, porque dava prazer, da mesma forma que alguém se bota pro lado do cigarro ou da bebida alcoólica.

Para não ficar anti-social e nem causar espécie, Límirio levava para os botecos onde fazia farra com os amigos o seu inseparável sabãozinho, adrede bem guardado no bolso, porque era fisicamente impossível lamber, por exemplo, o sabão líquido dos banheiros. Aí não seria mais lamber, e,  sim,  sorver. No entanto, farreava numa boa, sem chamar a atenção, porque os amigos já sabiam e os outros nem percebiam. Às vezes, uma ou outra brincadeira, como o "já vai lamber sabão, né?", quando ele se dirigia ao banheiro.

Pensar o ato de lamber sabão era um dos seus favoritos. Quem manda lamber sabão não escolhe marca e isso é o pior dos mundos. Mas lamber sabão pode ser também uma arte para o auspício dos mais criativos  e a veneranda vida dos que se prestam a isso, mesmo sem a aquiescência dos detratores. Certa feita, preparei um ritual para lamber sabão, que incluía um jogo de fazer bolinhas com a boca. Aprovei e recomendo, principalmente levando-se em conta seu aspecto lúdico.

O ato de lamber sabão traz intrínseco uma analogia de limpeza e é algo justamente assim que nossa sociedade estar a carecer nos dias de hoje, sodomizada no purgatório, no limbo e no inferno de corrupção, da poluição, das guerras, da desigualdade e injustiças sociais e da má educação. Esse ato poderia iniciar um processo de desinfecção humana, para um mundo mais cidadão e solidário.

O diferente em Limírio me faz vê-lo como uma pessoa que inconscientemente trilha um caminho nesse sentido, mesmo porque essa analogia apareceu em função disso que eu percebo nele, sendo um exemplo próximo,  e que me levou a partilhar aqui.  Percebo que,  para ele,  lamber sabão é um ato poético e primordial para a limpeza, uma limpeza que traz em si tudo de bom, a essência da remissão.

É isso que está me fazendo cada vez mais adepto do ato de lamber sabão, onde procuro purgar minhas mazelas e minimizar as merdas que eu expilo nas mazelas e monturos desse mundo. Por isso que, com orgulho, recomendo a você, caro leitor: vá lamber sabão.


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POR EM 20/10/2008 ÀS 06:35 PM

Plantar uma árvore, escrever um livro

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...e ter filhos. Completa-se desta forma a missão de todo ser humano na face da Terra. Diz-se. Livros, filhos e árvores são sementes lançadas. Frutificarão? Tornarão melhor a vida no planeta? No que tange às árvores, sim, não há dúvida que o verde é cenário ímpar do qual não prescindimos. Quanto aos demais, nem sempre.

Li no jornal de hoje que estão muito mais facilitadas e baratas as publicações de livros em Goiás. Nos últimos anos, motivada pela concorrência, a confecção de livros nas gráficas teria barateado, permitindo que centenas de escritores novatos realizassem os seus sonhos de, finalmente, publicarem um livro. Se o dinheiro compra tudo, por que não compraria um livro, ora bolas?

É fato que avalanches de livros soterram-nos impiedosamente. Haja olhos para tantas preciosidades...

Semanalmente, deparamo-nos com lançamentos em vários redutos da cidade, muitos deles salões elegantes que nada condizem com o mirrado conteúdo das publicações. E quase sempre os coquetéis servidos nestas ocasiões são indigestos, como os livros. Cerveja quente, empadinhas frias. Extrair boa seiva das publicações é como tirar água de pedra. Pior que tudo é tolerar os discursos das “autoridades” que enaltecem a pseudo-genialidade dos escritores festeiros.

O que fazer com tantos livros ruins? Felizmente, muitos deles encontram nas prateleiras empoeiradas o seu merecido jazigo, poupando os leitores do engodo e da chateação. Ademais, a distribuição de livros independentes em nosso meio praticamente inexiste. Isto frustra os escritores, especialmente os medíocres, que ousam torrar as suas economias bancando a própria vaidade. A maioria deles fica só no primeiro milheiro. Depois de vender cinqüenta exemplares na noite de lançamento, restam mais novecentos e cinqüenta para se enfiar dentro dos armários e das despensas. Cria-se um problema caseiro. Não há espaço onde socar tantos pacotes. As empregadas domésticas reclamam, ficam indóceis, e muitas pedem demissão ao terem que lidar com tamanho encalhe. Só as traças e ratos comemoram. É comida garantida para muitos anos.

Portanto, o simples fato do número de publicações ter crescido pouco representa, senão a pujança, competência e crescimento da indústria gráfica. Bom para ela, pior para as florestas. Desperdiça-se muito papel e tinta com bobagens. Publicar um livro, desde que se tenha algum dinheiro parado no banco, é mole. Duro mesmo é fazê-lo chegar às mãos dos leitores. Publicações independentes não têm espaço em livrarias. Não há prateleiras suficientes para tantos autores desconhecidos, e nem disposição para se apoiar os inéditos.

O grande dilema do autor é conseguir que uma editora leia a sua obra e se interesse em publicá-la e distribuí-la. O exercício da mendicância intelectual é extenuante. Façamos o exercício contrário. No contexto capitalista não há espaço para prejuízos. É natural que ninguém queira perder dinheiro. Por que uma editora deveria publicar um bom autor inédito, se ela pode publicar as memórias de uma ex-prostituta famosa que vão vender mais do que xoxotas em cabaré? Quando o mercado consumidor cisma em consumir porcaria, sai da frente, meu irmão. Ninguém segura.

Qual a saída, então, sabichão?! Muitos dos leitores me perguntariam, em tom de provocação. Ora, incrementar o número de concursos literários e publicar os melhores livros seria um caminho. Os concursos idôneos legitimam as boas obras e revelam autores competentes. Não me refiro, é claro, às disputas fajutas, arranjadas, arquitetadas maquiavelicamente.

As leis de incentivo à cultura (Rouanet, Goyazes e Municipal de Goiânia) também são ferramentas importantes à produção literária, mas colocam os seus usuários na mesma desconfortável situação: uma vez com os livros prontos em mãos, como fazer que cheguem aos leitores?

Certamente, as academias e associações de escritores poderiam fazer mais do que enviar pelos correios os boletos da anuidade, ou reunir os seus associados para saraus tediosos e chás-da-cinco.

Quem sabe, um conclave com os escritores goianos fosse útil para discutir o assunto e apontar as soluções. O problema não é só dos novatos, mas também dos veteranos, que amargam as faltas de espaço e de reconhecimento.Um festival anual de literatura também seria útil para fomentar debates e projetos. Virou moda nos últimos anos: há dezenas de festivais de gastronomia em Goiás. Por que não um evento de literatura?!

Num mundo onde o poder do dinheiro e o consumismo são tão peçonhentos, fica cada vez mais remoto o acesso ao bom livro. Primeiro porque os livros estão muito caros. Segundo porque há verdadeiras arapucas escondidas atrás das capas e orelhas. Quem vê capa, não vê coração. A mim parece que boas mesmo são as coleções de livros de bolso, publicações com acabamento em miniatura, com preços honestos, clássicos da literatura nacional e mundial. Outra opção é visitar os sebos do centro da cidade, como fazem regularmente os mofos e os bolores. Portanto, caros leitores, muito cuidado com as listas dos 10 mais vendidos. A próxima vítima poderá ser você. Afinal, livro ruim também faz mal à saúde, principalmente à saúde do seu bolso. Enquanto o cenário não muda, a gente vai usando mesmo a praga da internet para ler os textos inéditos. Sempre com aquela íntima convicção que nada substitui a tez e o cheiro de um bom livro.


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POR EM 20/10/2008 ÀS 06:25 PM

Filmes

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Cabra Cega
, (2004). Dirigido por Toni Venturi

Do mesmo diretor do excelente Latitude Zero (que também tem Débora Duboc como premiada atriz principal), Cabra-Cega é um bom representante da atual ótima safra de nacionais. Trata da angústia de um revolucionário na época da ditadura ferido em combate e escondido em um apartamento de um colaborador. Angústia da "prisão" em que se encontra e angústia por perceber que seu lado na guerra está perdendo (tema semelhante ao excepcional Na teia do sol, de Menalton Braff). O finalzinho é meio piegas, com a "redenção" do colaborador, até então resistente a pegar em armas.

IMDB

Trailer


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POR EM 20/10/2008 ÀS 05:49 PM

Computadores - entre o ensino e a delinqüência

publicado em


Para os mais dados à observação sempre esteve claro que alguma coisa anda ruim das pernas.

Sim, é verdade, não há quem não veja o esforço nacional pra dotar as escolas de melhores condições tecnológicas, sobretudo de computadores. Participa deste esforço não apenas o governo, mas também a sociedade organizada, empresas e fundações privadas, nacionais e internacionais.

O PC e a rede mundial de computadores são instrumentos imprescindíveis no mundo moderno. Estão para a vida contemporânea como a água e o alimento estão para o peixe. Definitivamente, não há como navegar pelo século XXI mantendo-se ao largo das tecnologias de informática, sobretudo quando o foco é o ensino, a educação.

Que educador em sã consciência pode ignorar ou desdenhar a importância do computador e da internet no aprendizado dos alunos? A praticidade, racionalidade, eficiência; o acesso ilimitado a dados e informações, o livre ingresso para freqüentar e desbravar universos antes intangíveis, a irrestrita disponibilidade de obras clássicas, acervos seletos e das melhores bibliotecas dos EUA e da Europa, tudo isso possibilitado pela existência da WEB. É o mundo na tela de um simples monitor.

Em que pese a velocidade - muito menor que a necessária - nossas escolas têm se adequado às demandas dos novos tempos. Investem na atualização dos hardwares, em redes, softwares e aplicativos mais eficazes, instalam espaços e laboratórios para otimizar a utilização, democratizar o conhecimento; promovem oficinas... E tudo parecia correr conforme o planejado até que começaram a surgir aqui e ali – ainda que de maneira assistemática, tímida e dispersa – estudos alertando que, ao contrário de ajudar, os computadores estão atrapalhando a vida dos estudantes brasileiros.

- Mas como pode? É uma aberração, um acinte, uma aleivosia - apressaram-se em bradar os ‘entendidos’.

- Um computador, qualquer que seja a circunstância, jamais será um entrave para um estudante, esteja no Brasil, esteja na Cochinchina – completaram outros ‘especialistas’, ostentando a empáfia característica dos que acreditam que o mar se limita à crista das ondas.

Por outro lado, os adeptos das práticas conservadoras e avessos a tudo o que soe modernidade, não ficaram para trás:

- Com ábacos e os antigos instrumentos os alunos aprendem mais – e concluem frenéticos. – Vamos substituir os computadores por réguas de cálculo.

Este é um caso em que os ‘entendidos’ e os avessos à modernidade estão errados. Completamente errados.

Não faz muito tempo, o Ministério da Educação divulgou uma pesquisa demolidora sobre o assunto: a instalação de computadores, redes virtuais e laboratórios de informática em nossas escolas não têm agregado qualidade à educação, ao contrário, tem piorado o já deplorável ensino brasileiro.

Se o caro leitor acredita que a conclusão do MEC sobre o impacto do uso do computador em nossas escolas é de nocautear, então durma com essa: os alunos que costumeiramente utilizam o computador na escola estão seis meses atrasados nas disciplinas quando cotejados com os que não têm acesso ao equipamento.

Para alcançar este diagnóstico, os pesquisadores do ministério, utilizando as três últimas edições do Saeb – o exame aplicado para avaliar o ensino básico – lançaram mão dos modelos estatísticos mensurando o impacto da utilização do computador no aproveitamento pedagógico dos estudantes com acesso ao PC. E não custa registrar que nada menos que 38% das escolas públicas brasileiras contam com computadores instalados.

A questão central é que o aluno, sem um professor capacitado para guiar seus passos neste novo mundo, fica a mercê do efêmero, da mera diversão, e utiliza o tempo - que deveria destinar às tarefas, trabalhos escolares e aos estudos - para se aprimorar nos jogos virtuais ou esquentar conversa nos sites de relacionamentos, salas de bate-papos e similares. Quando não, o pior: inserir-se na rede de delinqüência que grassa na WEB.

Portanto, nem tanto o céu, nem tanto a terra. O PC não deve ser encarado como uma panacéia, mas também não deve ser subestimado. É obvio ululante que – no devido contexto – está a milhares e milhares de anos-luz da régua de cálculo utilizada por nossos avós.

Tão importante quanto prover as condições materiais e assegurar a instalação de wardwares e softwares em nossas escolas, é garantir um processo de educação específica para o professor. Só assim nosso estudante terá um supervisor habilitado para auxiliá-lo na travessia, no domínio e na conquista da nova tecnologia. Muitos de nossos educadores sequer conseguem ligar um computador e muitos outros nem se preocupam em esconder a aversão pelas novas tecnologias, sejam relacionadas à informática ou não. Refugam o novo como o diabo refuga a santa cruz.

Os países desenvolvidos conseguem extrair o máximo da relação tecnologias de informática/estudantes porque – além de investir no meio físico – investem também no professor, capacitam-no entusiasticamente e o utilizam para monitorar e supervisionar a incursão dos alunos pela rede.

É um modelo antigo, simples, exitoso e eficaz. Mas que as autoridades brasileiras só agora começam a se dar conta. Se existe algum consolo, vale um antigo ensinamento de nossos avós: antes tarde do que nunca.


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POR EM 20/10/2008 ÀS 04:37 PM

Com licença, isso é um assalto

publicado em


O mundo já não anda mais violento. Ele parou mesmo, de vez, num estado de truculência ampla, total e irrestrita que assola todas as sociedades. Imagina se isso ia passar longe da chamada sociedade de consumo. A qualquer instante do dia, você e eu estamos sujeitos a uma abordagem desesperada.

- Todo mundo aí parado que ninguém se machuca!

Se isso acontece no semáforo, na fila do banco ou na rodoviária à noite, talvez ninguém mais estranhe. Agora, num supermercado cheio de senhoras, às oito horas da manhã...

- Isso é um assalto, meu filho?
- Não, vovó. É uma promoção de vendas. Mão na bolsa! MÃO NA BOLSA!

Pobres senhoras. Vítimas de mais um ardil cruel, arquitetado por engenhosos profissionais de planejamento.

- O plano é o seguinte, cambada. Vamos entrar discretamente, misturados aos consumidores. A equipe de promoção será dividida em duplas, cada uma posicionada em um ponto estratégico do estabelecimento. Ao meu sinal, um de nós anuncia o golpe e as duplas atacam as freguesas em grupos pequenos, positivo?

- Mas e se elas correrem?

- Não se preocupe. No horário da nossa ação, só sexagenários freqüentam o supermercado. Se ainda assim alguém fugir, tente aplicar um carrinho por trás.

Presa fácil, a clientela se submete à investida dos agentes sem qualquer resistência.

- A senhora já provou esse novo suco, provou?
- Não.
- Então vai provar agora – responde o agente, um segundo antes de atravancar a mulher pelo pescoço, apertar o seu nariz e enfiar-lhe o tal produto goela abaixo.

Tem também a ação-pegadinha das novas toalhas umedecidas. Um promotor aguarda a consumidora com uma torta cremosa nas mãos e começa a história.

- Já provou essa tortinha, senhora?
- Não.
- Então tó!

E manda o prato de massa mole na cara da criatura indefesa, como nas velhas comédias pastelão. Tudo para, em seguida, oferecer à desacorçoada dama uma amostra grátis da nova toalha umedecida descartável, criada com a mais alta tecnologia para limpar a sujeira que surge em momentos inesperados.

As abordagens estão cada vez mais variadas. Se o horário e o local da ação forem outros, com um público-alvo formado por pessoas mais fortes, jovens, dispostas a fugir do ataque ou partir para cima do agressor, a mecânica do contato muda por completo.

- O senhor gostaria de provar esse novo requeijão?
- Não, obrigado.
- Não mesmo? - insiste a promotora, enquanto alisa a lâmina de uma enorme faca.

Pouca gente não sucumbe de cara.

- Olha. O produto é bom, eu sei. Mas hoje não me interessa. Já jantei.
- O senhor tem certeza? Peço que reconsidere. Aliás, é melhor pedir do que roubar.

E o esforço é concluído, vitorioso.

Mas aí tem uma coisa: na reunião com o cliente para apresentar os resultados, o diretor de marketing discorda, grita, xinga e decreta que as vendas estão muito, mas muito abaixo do que ele esperava.

- Nossa agência está fazendo de tudo, doutor. O que mais podemos inventar?
- Sei lá, pô! Tentem uma abordagem mais agressiva.


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POR EM 20/10/2008 ÀS 04:15 PM

O round da política

publicado em


Antes de meados de 2008, milhões de pessoas no mundo já passavam fome, bilhões padeciam as piores condições de pobreza e miséria. Mas ninguém, nem mesmo por isso, falava em “crise”, em “socorro” a quem precisa do Estado: não era a economia que necessitava dele, apenas... pessoas de carne e osso! Até dia desses, só se ouvia falar em prosperidade, conclusão lógica de um sistema financeiro mundial com “saúde de ferro”. (Não importa se o sistema financeiro mundial serve a apenas alguns milhares de indivíduos podres de rico.)

De repente, os lobos vestiram a pele do cordeiro; se dizem preocupados com o homem comum, com o aumento do “desemprego” e do “custo de vida”, e tudo porque o seu sistema de lucros exorbitantes entrou em crise. Suspeito que a sociedade entrou nesse papo foi de álibi. Ela sofrerá, sim, as piores conseqüências, mas, como desta vez não vai sozinha para o buraco – está levando consigo um punhado de banqueiros -, acharam perversamente que era hora de apelar para os bons sentimentos e argumentar que a população mundial será castigada nos próximos anos. É a desculpa que o mercado precisa para garantir recursos para si mesmo. Faz lembrar a cena do afundamento do Titanic, o filme, onde o nobre (e canalha) inglês usa uma criancinha para garantir vaga num bote de salvamento, na hora crítica.

Desde os anos oitenta – precisamente Era Ronald Reagan / Margareth Thatcher – os ultra-liberais iniciaram na prática o encolhimento do Estado, seguido depois pelos países em desenvolvimento, entre os quais o Brasil. Sobretudo depois da ruína do leste europeu, a sociedade passou a acreditar que o mercado havia triunfado absolutamente. Isso converteu-se numa crença radical e religiosa – tão religiosa quanto o comunismo -, como se, de fato, houvéssemos alcançado o último estágio de uma suposta evolução, a parusia, mesmo sabendo que a história real não tem relação com a fábula cristã: começo, meio e fim. O extremo oposto dessa evolução era a política. O “Fim da história” propalado por Francis Fukuyama foi interpretado como fim das contradições no reino humano, fim das lutas sociais e, conseqüentemente, fim da ideologia.

Como – e com ingênuos que ares de desforra! – ouvimos no dia-a-dia, mesmo dos colegas de trabalho, a cantilena dominante de que a ideologia havia acabado, como se tal crença não fosse, ela própria, a ideologia do mercado. Caíram todos como patinhos no conto do vigário, e mais uma vez prevaleceu a fórmula de Goebels: uma mentira repetida mil vezes torna-se uma verdade.

Por mais de duas décadas, soou extemporâneo defender a presença e a atuação do Estado na economia, orientado a cortar investimentos na área social, em nome do “equilíbrio das contas públicas”. Era a teoria do Estado mínimo, de alguns economistas brilhantes dos anos 70. Sujeito às leis do mercado, cada membro da sociedade que se virasse por si mesmo, rico ou pobre. O mercado proveria. A crença, algo totalitária, era de que o agente econômico poderia tudo, e que qualquer coisa fora dele era bobagem, incluindo a política e suas representações simbólicas. O problema dos que pensavam assim é que o bote salva-vidas, ai de cima, é o Estado: restou em último caso apelar para ele, provando, entre outras coisas, que a entidade política nunca deixou de existir nem nos países centrais do Ocidente, entre eles os Estados Unidos.

O Estado existe e é robusto. A diferença é que se tornou uma mega-instituição com atribuições específicas, demandadas pelo setor privado, e só pode entrar em ação para socorrer o mercado. Afinal, quando foi que viram-no sacar três trilhões de dólares para fazer justiça social e distribuir riqueza?

Os últimos acontecimentos levam a crer que os governos funcionam, hoje, como eficientes coletores de impostos, destinados a transferir recursos do contribuinte para instituições privadas e seus sócios irresponsáveis, se necessário. Única explicação para o colossal paradoxo do ultra-liberalismo, ao fazer com que o Estado use recursos públicos para tornar-se sócio de grandes instituições financeiras, à beira da falência. Parece programa econômico daquela esquerda que, até a bem pouco, foi tachada de retrógrada e obsoleta, pela direita. Mas é pior do que isso, pois os fins são privados: França e Inglaterra acabam de gastar meio trilhão de dólares comprando papéis pobres de alguns bancos particulares.

Compulsoriamente, o risco foi partilhado com os contribuintes e eleitores de um regime que se diz democrático, obrigados a pagar o preço da farra generalizada do capital nas últimas três décadas. É bem pior.

Celso Furtado tinha razão, quando dizia que neste sistema os lucros são privatizados e os prejuízos socializados. Mas a grande lição que fica é esta: a política – isto é, o Estado, o governo e a ideologia – não são coisa do passado. A história é cíclica e nada em seu vórtice é para sempre: é pena que, por enquanto, a ação dos governos tenha sido de conluio com a jogatina. Wall Street sempre soube que podia contar e, mais esperto que todo mundo, vendeu um peixe no qual nunca acreditou: a noção de triunfo final da economia sobre a responsabilidade dos homens.

Infelizmente, o mundo real é mais cruel que o Titanic: nele, um bando de ricaços é que entra no bote salva-vidas (portanto, o Estado), embora façam uso do inocente.  Alegam, comovidos, que o fazem inclusive para salvar este inocente, em seus braços. Mas ninguém, na verdade, está nem ai para o tal do inocente. O bando quer salvar é a si mesmo, e que se dane o resto. Caso contrário, o exército ocidental, capitaneado pelos Estados Unidos, já teria invadido alguns países da África e quebrado o pau – com ou sem a promessa de lucros.


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POR EM 20/10/2008 ÀS 04:15 PM

Carnavalha

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“Ô jardineira por que está tão triste /mas o que foi que aconteceu?”. Uma enorme massa disforme se revolvia no pequeno sofá-cama. Sábado de carnaval, dez da manhã. E aquele ectoplasma (coincidência ou não, a TV estava ligada justamente no desenho dos Caça-fantasmas) se mexia no sofá, procurando não escutar as marchinhas de carnaval que se repetiam todos os anos e que acabara de acordá-lo.

“Foi a Camélia que caiu do galho /deu dois suspiros /e depois morreu”. Trezentos e setenta e oito kilos, o rei Momo mais pesado e simpático do Rio de Janeiro. Mas hoje era sábado de carnaval e seu reinado se esfarinhara havia anos. Há anos que não atirava pó, farinha nos foliões cariocas.

Tudo começou na repartição daquele bendito jornal. Ele então com os seus cento e cinqüenta e dois kilinhos. Saiu direto da seção do horóscopo para as ruas do carnaval carioca. Foi eleito, por unanimidade, pela redação do jornal, o mais elegante rei Momo do Rio. Pedia licença até para atirar farinha.

“Vem jardineira /vem meu amor”. Tinha então vinte anos quando começou a estagiar no “Correio do Brasil”. Era um menino, um menino bobo e gordo. O sorriso mais alvo do carnaval carioca. Seus melhores anos. Duas décadas e meia de coroa, cetro e muito samba no pé. Vinte e cinco anos onde alegria e obesidade mórbida sambavam na “Marques de Sapucaí”.

“Não fique triste /que esse mundo é todo seu”. Engordava a cada reinado. Dos cento e cinqüenta e dois kilos do primeiro ano de Momo aos trezentos e vinte e oito do último ano. O ano mais trágico de sua vida. O ano em que foi flagrado enrabando a rainha do carnaval carioca. Onde estava com a cabeça? Melhor! Por que fora enfiar seu pinto na bunda da rainha? Tanto lugar para acomodar seu piu-piu, seu pintinho blasé, que, a bem da verdade, nem tinha certeza onde se metia.

“Tu és muito mais bonita que a Camélia que morreu”. Seus trezentos e vinte e oito kilos o impediam de ver seu piu-piu. Sua gorda mão pegava em seu pinto e ele lhe parecia de brinquedo. Fora por isso que a bela e jovem rainha do carnaval não resistira aquele alvo sorriso, aquele pintinho da Estrela. E já na quarta-feira de cinzas, não respeitaram nem as cinzas, sua foto enrabando a rainha estampavam todas as bancas de revistas do país. A rainha, só ganhou com isso, era seu primeiro reinado. Agora ele, o rei Momo mais festejado do Rio, em seu vigésimo quinto ano de rei, encerrava ali sua carreira. A cidade não o perdoara e jamais o perdoaria.

“Ô lalaôôôôô /Atravessei o deserto do Saara”. Manhã de sábado de carnaval e nosso querido Momo teria que aturar até quinta todas as possíveis marchinhas carnavalescas do país. “O sol estava quente e queimou a minha cara”. Esse era o sexto ano seguido que seu vizinho, um magro e simpático velhinho, lhe torrava o saco (de brinquedo) com aquelas infernais marchinhas. “Chegou, a turma do funil”. Trezentos e setenta e oito kilos se levantam com dificuldade do sofá-cama e se olham no espelho. Vêem apenas massa disforme, uma geléia de ectoplasma, de seu alvo sorriso restou somente uma podridão amarela.

“Todo mundo bebe”. Que mal há em enrabar, com um brinquedinho inofensivo, o rabo de uma pobre e triste rainha de um carnaval carioca qualquer? “Mas ninguém dorme no ponto”. Afinal, a diferença entre cagar e dar o cu é meramente vetorial. “Ninguém dorme no ponto!”. Tirou da gaveta a velha e enferrujada navalha que herdou do pai barbeiro e passou com força no pulso esquerdo. “Se você pensa que cachaça é água”. A velha, enferrujada e cega navalha só deixou em seu pulso uma marca vermelha. “Cachaça não é água não!”. Passou novamente com mais força...


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POR EM 20/10/2008 ÀS 04:01 PM

A briga com a égua negra e esquiva da forma

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Não se faz só por fazer, não se monta só por montar, mas para ser o que há de ser e não se sabe o que será, a não ser que não seja, senão que a coisa já feita, a saber-se a coisa certa. O que é, o que é? Que será, que será? Entenda-se. Não se confunda “coisa já feita” com coisa-feita de macumba.

O fruto ao palato do leitor. O caroço e sua jaça ao olho de lince do mestre, o senhor, que o trespasse com a pinça da devassa. O mestre peca por devasso e por conta de seus excessos. A seu próprio talante, o poeta se submeta, como de fato e com efeito se submete, contanto que para tanto se habilite.

Pobres rimas pobres! Poesia tensa, estressada, exacerbada, extravagante, essa que pensa e se extravasa. ”Exageradamente metafórica e lamurienta”, resmunga ali a crítica ressequida e acadêmica, dessas que a tudo dissecam com a lâmina fria do intelecto. Disseca a emoção como quem disseca um inseto. Vade retro!

Por certo que o sentido do poema é o fundo do sentimento, e este se conforma com a forma que vem de dentro. Toda forma é forma própria e se conforma ao seu poeta. Isso precisa ser visto e levado em conta, a saber se a forma assim o confirma. Se a égua rima o verso da água de cima com a água de baixo, vice-versa a mesma coisa e a régua mesma com as asas das coisas em cada casa. Se água que se bebe ou terra que se come e morre à míngua de boa aguada, se a vontade com a fome. Ordinariamente, mas nada ou nem tudo necessariamente nessa ordem.

O que se faz vem de dentro. Cá fora, no entanto, outra forma se impõe a outros contornos, e são outros quinhentos, um outro inferno.

A forma exterior se forja em seus fornos e no malho de sua bigorna. A forma em sua fôrma se enforma, se molda e se afirma. A forma é a têmpera e o suporte, a força do poema em que se bebe poesia.

Siderurgia e suor. Beber dessa água salgada. Domar a égua da forma. Domá-la pela brida, tê-la sob domínio, é o mínimo que se espera. O máximo é o que seria poesia. E o que será da poesia? Vai lamber a ferrugem da metalinguagem? Vai perder-se de si mesma? Sumir-se aos poucos nos vocálicos cubículos do minimalismo? Esfinge que se atira no abismo?

Vontade, força, empenho, diligência. A forma se conforma aos moldes de sua própria norma e ciência.

A égua esquiva escorrega na pedra lisa de sua água. Não se lhe dê trégua às rédeas. O poeta intenta cavalgá-la e subjugá-la daqui até a próxima primavera. Mas isso é uma outra história.


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