Tony Judt
O polêmico historiador inglês Tony Judt e as idiossincrasias dos intelectuais brasileiros
leia mais...
O polêmico historiador inglês Tony Judt e as idiossincrasias dos intelectuais brasileiros
Raúl Castro aposta que capitalismo pode salvar comunismo
Diz a lenda que a literatura brasileira contemporânea negligencia a classe média e só trata de pobres ao representar a sociedade. Para verificar esta e outras avaliações, um grupo de pesquisadores e estudantes da Universidade de Brasília (UnB) iniciou em 2003 uma ampla pesquisa das narrativas atuais. A coordenação do trabalho ficou a cargo da professora Regina Dalcastagnè...
Foram mapeados 258 romances publicados por três editoras (Companhia das Letras, Record e Rocco) publicados de 1990 a 2004. A segunda etapa do levantamento abrangerá as décadas anteriores e reunirá dados do cinema. Os primeiros resultados saíram no artigo “Personagens do romance brasileiro contemporâneo”, na revista “Estudos de Literatura Brasileira” Contemporânea. A íntegra do material pode ser consultada: Estudos de Literatura Brasileira” Contemporânea.

Leitores querem saber onde encontrar o romance “Duas Mulheres, Quatro Amores e uma Guerra Civil” (Cânone Editorial, 273 páginas), de Jailton Batista. Em Goiânia, vi na Livraria Saraiva, no shopping Flamboyant.
O romance conta histórias da guerra civil em Angola, país africano que fala português, e sobretudo histórias de indivíduos, como as bonitas Esperança e Fatu, que tiveram suas vidas devastadas pelo conflito que pôs irmãos contra irmãos.
Como em Henry James, as personagens femininas são mais bem-construídas do que as masculinas. Parece que é intencional, pois o autor faz questão de criar modelos caricatos como o general que pode e vê tudo, mas não tem nome. A guerra é um “instrumento” muito mais do mundo masculino do que do mundo feminino. A guerra é fálica, por assim dizer. Representa poder, potência. A impotência fica por conta dos seres frágeis, como mulheres, crianças e mesmo alguns homens.
No romance, nem todos os homens são cruéis, nem mesmo o capitão Kassinda, que atirou em António Sapolo, o Sapó, e depois casou-se com sua mulher, Fatu (a história é surpreendente e não convém revelá-la). As mulheres são mais generosas, mas há aquelas que fazem intrigas.
Sobre as razões da guerra, o narrador faz uma síntese política o mais imparcial possível (página 142): “São irmãos que lutam em posições tão opostas por causas ideologicamente tão distintas, como a implantação do marxismo materialista numa sociedade marcada por profundas raízes tribais e fortes diferenças étnicas, ou a instalação do capitalismo refinado numa nação que ainda pratica o escambo. Reis, sobas e feiticeiros conduzem o destino de muita gente, e a posse da terra se faz de acordo com a necessidade dos pastores”.
A impressão que tenho é que o livro vai fazer mais sucesso em Portugal e África de Língua Portuguesa do que no Brasil. Razão: Angola deveria dizer muito aos brasileiros, mas, em termos de informação, diz pouco, quase nada.
Detalhe: o livro de Jailton Batista é um romance, mas contém informações sobre a guerra entre o grupo marxista de Agostinho Neto e a, por exemplo, Unita de Jonas Savimbi. Não substitui uma obra histórica, e não é sua pretensão, especialmente porque atribui uma força vital ao indivíduo, mas é esclarecedor, mesmo quando sutil e irônico (diria que é mais compreensivo do que irônico, apesar do humor), a respeito das motivações da guerra.

AFORISMO SEM NENHUM PRÉ-JUÍZO (para Valdivino Braz)
Em terra de cego quem tem um olho é semi-ótico.
Guimarães Rosa não escondeu esqueletos no armário. A argumentação de Vilma Guimarães Rosa, fundamentando sua ação, trata de supostas incorreções na biografia por Alaor Barbosa. Mover ação por isso é idiossincrático e contraproducente. Trata-se de assunto para a crítica literária, e não para o Judiciário
![]() |
CLAUDIO WILLER
Décadas atrás, por volta de 1980, interessava-me por Dashiell Hammett, o pioneiro autor norte-americano de “O Falcão Maltês” e outras histórias de detetive. Escrevi um poema homenageando-o. Publiquei algumas páginas de ensaio (no então “Folhetim”, depois em mais alguns lugares). Interessava-me a inovação no gênero que Hammett promovera, enriquecendo-o: histórias de crime e detetive tornaram-se ambivalentes, menos lineares, e expressavam uma crítica e uma posição política (mais tarde, Hammett seria perseguido pelo macarthismo). Fascinava-me o mistério: como era possível, um detetive particular desempregado, sem formação literária, escrever tão bem? E como podia, saindo do nada, escrever uma obra em 12 anos, e depois silenciar, nunca mais produzir nada?
Li toda a obra de Hammett. Examinei biografias. Na época, duas. Uma, a biografia autorizada, de autoria de Diane Johnson: contou com a colaboração da companheira e sucessora de Hammett, a dramaturga Lilian Hellman. Não gostei. Achei piegas, prolixa, e resenhei sua edição brasileira de modo bem crítico (no “Leia”). A outra, a biografia não-autorizada, “The Shadow Man”, de Richard Lyman. Gostei. Mais concisa e precisa que a de Johnson (hoje, Lyman está na praça, reeditado — Diane Johnson sumiu de vista). No prefácio, Lyman reclama de Lilian Hellman; na biografia, deixa-a em má situação (nenhum demérito para sua importante dramaturgia, nem para o modo corajoso como, por sua vez, enfrentou o macarthismo).
Imaginemos que tudo isso tivesse acontecido no Brasil. Que Hammett, Hellman e Lyman fossem brasileiros. Que as editoras fossem brasileiras. Qual a chance de Hellman mover uma ação, pedindo a retirada de circulação da biografia por Lyman? E, nesse caso, qual a chance de uma ação dessas prosperar, dar certo? Enorme, a julgar pelas vicissitudes enfrentadas por Ruy Castro com sua biografia de Garrincha, e pelo biógrafo de Roberto Carlos, Paulo César de Araújo. E, agora, por Alaor Barbosa com “Sinfonia de Minas Gerais — A Vida e a Literatura de João Guimarães Rosa” (LGE Editora, 2008).
Para quem ainda não soube: a biografia de Rosa por Alaor foi retirada de circulação pelo juiz da 24ª Vara Cível do Rio de Janeiro, atendendo a uma ação movida por Vilma Guimarães Rosa, sua filha e sucessora, alegando incorreções, erros do biógrafo, e pela editora de Rosa, a Nova Fronteira.
Parece estar-se firmando uma jurisprudência: aqui, no Brasil, biografia só pode circular se for autorizada pelo biografado ou por seus sucessores. Textualmente, na ação movida por Vilma Guimarães Rosa e pela Nova Fronteira (conforme o “Consultor Jurídico”): “A família, na qualidade de única responsável por zelar pela sua memória, deve ser consultada sobre qualquer utilização de sua imagem, nome e dados biográficos, com o objetivo de evitar abusos”.
É censura judicial. Apesar da censura ser expressamente proibida pela Constituição.
A censura no Brasil, hoje, não se restringe às biografias. Houve mostras de artes visuais interditadas. Tentativas de impedir que jornais publicassem notícias. Interpretações arbitrárias da legislação eleitoral, tentando cercear meios de comunicação. Há um projeto de regulamentação da internet que, aprovado, criaria o provedor informante policial e tornaria todo usuário da net culpado até prova em contrário. Recentemente, a 5 de outubro, foi noticiado e comentado (no suplemento “Mais!” da “Folha de S. Paulo”) o caso do professor demitido de um colégio por incluir poemas eróticos em seu blogue de poesia na internet. Tudo isso é censura tentando voltar pela porta dos fundos. Censores podem estar à sombra; mas não dormem.
Voltemos à hipótese dos Hammett, Hellman e Lyman brasileiros. Quais seriam as conseqüências de uma proibição de “The Shadow Man”? Uma delas, que eu ficaria sabendo menos sobre Hammett. Teria menos subsídios para pesquisá-lo. Eu e muito mais gente, é claro. Qualquer interessado no assunto. Haveria prejuízos à circulação de informação, à produção e transmissão do conhecimento.
Alguém poderia observar que minha argumentação não vale para as retiradas de circulação das biografias de Garrincha e Roberto Carlos, fora do campo dos estudos literários. Vale, sim. Obras sobre brasileiros de projeção informam sobre o Brasil. Interessam aos historiadores e sociólogos. E à crítica literária, na razão direta de seu valor literário, é claro.
Examinemos mais alguns casos de biografias. Daquelas relevantes, que efetivamente contribuíram para o conhecimento de algum autor.
No topo da minha lista, colocaria “Federico García Lorca — Uma Biografia”, de Ian Wilson. Obra monumental, modelo de biografia literária, referência obrigatória em estudos lorqueanos. Wilson enfrentou dificuldades e correu riscos para levar sua pesquisa a cabo. Franquistas não gostaram nem um pouco de alguém remexer em esqueletos da Guerra Civil Espanhola, desvendando como foi o assassinato de Lorca (a pesquisa de Gibson foi na década de 1960, com Franco ainda no poder).
Ian Wilson tampouco recuou diante da vida íntima de Lorca. Da sua pederastia. Conta como foi sua paixão e seu relacionamento com Salvador Dalí. E os casos, com Emílio Aladrén e outros rapazes.
Interessa, isso? Claro que sim. Lorca, homossexual em uma Espanha machista, integrista, conservadora: isso não tem a ver com seu desespero, a sensação de ser um estranho no mundo? Não está na gênese de seu auto-exílio, do qual resultou “O Poeta em Nova York”? De sua euforia ao visitar Cuba, onde era tolerado o amor entre homens, resultando em um poema em homenagem à ilha?
Voltemos àquele exercício de imaginação. Se tudo isso fosse no Brasil. Com algum sobrinho ou sobrinho-neto querendo preservar a intimidade de Lorca, sua reputação.
Querem mais cases de biografias? Então prossigamos. Richard Ellmann, o grande biógrafo de James Joyce e W. B. Yeats. Em “Joyce — a Biography”, um guia para a leitura de “Ulisses”, ao confrontá-lo com a “Odisséia”. E, também, o autor de “Ulisses” caindo de porre, dormindo nas ruas, autodestruindo-se. Omisso diante do nazismo e dos horrores da Segunda Guerra Mundial. Desprezando Nora Barnacle, sua companheira. Joyce foi grande, literariamente. E foi mau caráter. Gênios podem ser complicados (pessoas comuns, também). E a filha de Joyce, irremediavelmente louca, que ele abandonou? Isso interessa? Em “Love’s Body” de Norman O. Brown (e certamente em outros autores: não sou especialista em Joyce), a hipótese: “Finnegan’s Wake” mimetiza a fala e o mundo esquizofrênico da filha de Joyce; é um acerto de contas com a loucura.
“Yeats — The Man and the Masks”, também de Ellmann. William Butler Yeats. Mago aos 30 anos de idade. Até casar-se, casto, ou quase isso. Aos 70 anos, celebridade, senador da Irlanda, Prêmio Nobel, após descobrir um precursor sucedâneo do Viagra, tornou-se um sátiro. Transava com todas as tietes. Belo final de vida. Que prato cheio para sucessores ciosos, empenhados na preservação da reputação ilibada de seus representados. Que prejuízo aos estudos literários, especialmente ao exame das relações entre esoterismo e criação poética, se fosse no Brasil.
Um pouco de teoria literária não fará mal a ninguém. Tenho defendido biografias de escritores, contrapondo-me ao vezo formalista do ‘recorte’ da obra, dissociando-a da vida; e, conseqüentemente, excluindo biografias dos estudos literários. Justifico a utilização da informação biográfica pela crítica, tomando como ponto de partida o que diz Antonio Candido sobre a relação entre texto e contexto em “Literatura e Sociedade”, criticando tanto o formalismo quanto o sociologismo redutor, mecanicista, ao mostrar que o contexto está “dentro” da obra. E afirmando que: “A obra depende estritamente do artista e das condições sociais que determinam a sua posição”. O que significa “do artista ‘e’ das condições sociais”? Este “e”, será conjuntivo ou disjuntivo? Autoria e biografia são históricas; portanto, um dado contextual. O artista está “dentro” da obra, nessa visão consistentemente dialética. Biografia, ponto de encontro do texto e do contexto.
Importa saber que Rimbaud efetivamente estudou alquimia na biblioteca de Charleville? Claro que sim. Justifica interpretações simbólicas de “Vogais” e outros de seus poemas. O que Baudelaire e seus amigos faziam no ateliê da Rue Pimondan? Mais ainda — vejam na mega-biografia de Baudelaire por Pichois e Ziegler, ou em “La Mystique” de Baudelaire de Jean Pommier, como viajar por paraísos artificiais está na gênese de “Correspondências” e de sua inovadora crítica de arte.
Imaginem, algum sucessor cioso proibindo que se dissesse que Baudelaire se drogava, era irresponsável com dinheiro e sifilítico... Alguém proibir de dizerem que Machado era epilético, que Raul Pompéia era doido e se matou, que Lima Barreto era alcoólatra, que....
Guimarães Rosa não escondeu esqueletos no armário. A argumentação de Vilma Guimarães Rosa, fundamentando sua ação, trata de supostas incorreções na biografia por Alaor Barbosa. Mover ação por isso é idiossincrático e contraproducente. Trata-se de assunto para a crítica literária, e não para o judiciário. Agora, temos o juiz dublê de crítico literário: dupla usurpação, do nosso direito á leitura, do nosso direito ao julgamento. O certo, na hipótese de haver mesmo tais erros e imprecisões, teria sido convocar algum dentre os nossos bons especialistas em Guimarães Rosa, pedir-lhe um parecer, e divulgá-lo.
No caudal de obras sobre Guimarães Rosa — merecidamente, o mais estudado autor brasileiro da segunda metade do século XX — o trabalho Alaor Barbosa acaba por sobressair-se, ao tornar-se tema de debate jurídico. É bom lembrar: em 1956, ao ser liberado após uma tentativa de interdição, “Howl and other poems” (Uivo e Outros Poemas) de Allen Ginsberg imediatamente teve 250.000 exemplares vendidos. A censura, inadvertidamente, contribuiu para produzir a geração beat.
“Tutela antecipada”, o nome da medida que retirou esta obra de Alaor Barbosa de circulação: que termo antipático. Recuso-me a ser tutelado. Não precisa: sou adulto, minhas faculdades mentais estão em perfeito estado.
É isso o que a censura faz: equipara leitores e espectadores a um bando de retardados, incapazes de discernir, negando-lhes a capacidade de julgar ao subtrair-lhes o acesso á informação. Censura, em qualquer uma de suas modalidades, é um múltiplo desrespeito: à obra, a seu autor, ao leitor, à sociedade toda.
CLAUDIO WILLER é poeta, ensaísta, tradutor, doutor em Letras, ex-presidente e atual conselheiro da UBE — União Brasileira de Escritores.
Na França do século XVIII, um comerciante de nome Gournay levantou a bandeira do laissez-faire, que os fisiocratas empunharam imediatamente. Estava inaugurado o liberalismo.
Raras vezes ouvi falar, em minha juventude, neste nome: neoliberalismo. Os economistas, a mídia, as pessoas ligadas ao assunto, se não me engano (e costumo me enganar) começaram a usar a palavra e os conceitos com certa insistência há coisa de uns vinte, vinte e poucos anos para cá. Isso no Brasil.
A defesa do neoliberalismo resultou algumas atitudes até meio furiosas. Às vezes ridículas. O Estado, diziam e dizem os neoliberais, não têm nada que se meter na economia do país. Banqueiros, industriais, fazendeiros e seus asseclas sem poder, mas com vocação para puxar o saco de quem o tenha, organizaram um coro bem afinado para cantar um hino à liberdade total do mercado para resolver seus próprios problemas. As leis do mercado passaram a ser exaltadas, glorificadas. E o hino era de tal maneira belo que acabou encantando a todos. Ou quase todos.
Nos Estados Unidos da América, a segunda pátria do liberalismo (agora renovado), a coisa pegou de maneira brutal. E isso que por lá se apregoa o fim das ideologias. Qualquer interferência do Estado nas atividades econômicas sempre foi, no Tio Sam, taxada de atitude comunista. Os mecanismos do mercado sabem melhor do que nós como resolver os problemas. No verdadeiro capitalismo, o Estado deve ser diminuto, barato, e deve ficar fora das questões de produção, distribuição e consumo.
Bem, parece que as coisas andaram mudando por lá. A crise dos bancos hipotecários, a série de falências sucessivas mandou que os economistas por lá começassem a teorizar de maneira diferente. Os economistas daqui, depois de lerem o que disseram os economistas de lá, acho que também vão assimilar novas teorias.
Houve uma época em que os bancos especularam, esbanjaram, ganharam muito dinheiro. Bem como a agricultura brasileira. Nessas circunstâncias o Estado era um demônio que melhor mesmo seria nem existir. Lá como aqui. Novela vista vezes sem conta. Agora entraram em crise. Ficaram nervosos.
Sim, porque o mercado de vez em quando apresenta-se com uns chiliques de neurastenia que dá vontade de interná-lo na Casa Verde, do Machado.
E de demônio, que era, o Estado passa a anjo salvador. Ora, pra que tanto cinismo? Então isso não é pura e simplesmente a ação da ideologia? O que é bom pra mim, é bom pra sociedade. Em 1700 e nada a Inglaterra, a França e outros países mais já conheciam esse tipo de pensamento.
Lembro-me de um livro que li, do Celso Furtado, de que pouco entendi, mas de onde aprendi algumas lições. Falando dos cafeicultores brasileiros, Celso Furtado diz que eles sempre privatizaram os lucros. Isto é, no tempo das vacas gordas, ninguém mexesse no lucro deles. Era o sagrado direito à propriedade privada e seu uso livre de qualquer ingerência. Mas vinha o tempo das vacas magras, então a gritaria era grande, clamando pelo socorro do Estado. Ou seja, socializavam-se os prejuízos.
Ah, sim, porque uma empresa não pode falir. Se ela tem uma função social, como deixá-la ir à bancarrota?
Se os bancos, as lavouras, as indústrias só se lembram de sua função social quando estão no vermelho, exigindo que todos nós os socorramos, proponho que se estenda essa função social também para os períodos em que estão no azul, socializando igualmente seus lucros.
Não seria mais justo?
”Ele era um herói”. Assim se manifestou Bibi Ferreira, a diva do teatro brasileiro, diante do corpo inerte de Paulo Autran. Parecia inacreditável, mas o enfisema e o câncer de pulmão rancaram de todos nós o cadinho em que se forjaram nossos melhores atores. Neste instante, descasa ao lado de outros ícones do teatro brasileiro como Gianfrancesco Guarnieri, Vianinha e Nelson Rodrigues.
A data 12 de outubro ficará guardada na memória dos que apreciam teatro como o dia em que as cortinas se fecharam definitivamente para o “Senhor dos Palcos”, encerrando uma vida repleta, intensa, produtiva, que demandou 58 anos de carreira e mais de 90 peças teatrais montadas.
Paulo Autran era carioca e muito cedo se mudou para São Paulo. Aspirando a carreira de diplomata e estimulado pelo pai, cursou Direito, formando-se em 1945. Tanto a profissão de advogado como a intenção de seguir carreira diplomática jogou para o espaço. Quatro anos depois de formado na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, já estava apresentando seu primeiro trabalho como ator profissional – Um Deus dormiu lá em casa, de Guilherme Figueiredo - que rendeu o cobiçado prêmio da Associação Brasileira de Críticos Teatrais.
Encontrou um estilo de exercitar teatro que demandava longa concentração, meticulosos estudos, exaustivos e prolongados ensaios que o afastaram da televisão. Esta é a razão de tão poucas aparições na tv. Com ironia, não cansava de desdenhar o mais poderoso meio de comunicação de massas: “Cansei de fazer débil mental (...) Meu próximo projeto para televisão é não fazer televisão (...) Fazer TV é muito chato”. Sequer o cinema demoveu o gênio da interpretação de priorizar o teatro.
Porque foi um daqueles artistas especiais que encenadores de todos os tempos classificam como “nascido para a ribalta”. Como poucos compreendeu a dimensão e as infinitas possibilidades da voz e do gesto teatral. Utilizava com maestria as diversas entonações, explorando a carga dramática decorrente das pausas cuidadosamente construídas, meticulosamente inseridas entre uma fala e outra. Com o cadenciamento da respiração, imprimia diferentes ritmos aos diálogos, emprestava aos movimentos da face e do corpo expressividade intensa, em tudo singular, conduzindo a platéia à plenitude do ato teatral.
Muitos não entendem como um bacharel em direito foi capaz de alcançar a perfeição nos tablados sem jamais ter freqüentado uma escola de teatro. Ainda que não tenha freqüentado a escola convencional, desvendou os mistérios da milenar arte adotando um processo individual de preparação que envolveu a seleção dos maiores escritores e dos melhores textos já produzidos pela humanidade. Percebeu as vantagens da água cristalina e foi beber na fonte límpida, originária, nomeando Sófocles, Shakespeare, Moliére e Arthur Miller... seus professores preferidos.
A bagagem teórica adquirida de forma empírica com os clássicos da dramaturgia ocidental, o salvou do hermetismo improdutivo e da mediocridade acadêmica, e rendeu ao ator um temperamento forte, que o tornou verdadeiro, autêntico, mesmo nas tarefas mais rotineiras. Na defesa de valores não hesitava em – quando julgasse necessário – ultrapassar os marcos da razão. Certa vez, defendendo Tônia Carrero do que considerava injustiças escritas por Paulo Francis, rompeu os limites da boa convivência e cuspiu na cara do então crítico teatral. Era um dos momentos que recordava com um misto de orgulho e sarcasmo: “Juntei bastante cuspe e cuspi com prazer”, recordava em meio às gargalhadas. Seus entreveros com um dos papas do jornalismo brasileiro (Francis chegou a fazer teatro com Pascoal Carlos Magno e estudar com Bertolt Brecht e Eric Bentley) não pararam por aí. Em outra oportunidade tentou ir às vias de fato. Abrindo mão das artes teatrais, recorreu às marciais para aplicar um golpe certeiro no crítico teatral: “Nunca havia dado um soco em ninguém. É difícil, sabe? O corpo se contrai, o braço fica sem força” contava sempre bem-humorado.
Agarrou-se ao humor e prazer para dar contornos às suas escolhas. “Teatro para mim é paixão, sempre foi”, repetia incansavelmente.
A tolerância era outra de suas obsessões. Enquanto atuava em Visitando o Sr. Green deu um depoimento reiterando sua preocupação com o tema: “A peça discorre sobre a relação entre as pessoas, o respeito pelas idéias dos outros. Embora não concordemos sempre, temos que aceitá-las. Não podemos brigar com as pessoas porque são de um jeito ou de outro, porque têm uma ou outra religião. Temos que ser tolerantes. Depois que você assiste à peça, sai com vontade de perdoar, de compreender, de se dar bem com os outros. É uma das razões do sucesso dela.”.
Todo o processo de criação e aprendizagem de Paulo Autran decorre dos bons textos, da ótima literatura que sempre fez questão de cultivar e sorver. Em 1952 já estava às voltas com os clássicos gregos montando Antígona de Sófocles. Quatro anos mais tarde, foi-se encontrar com uma das mais expressivas obras dramáticas de todos os tempos, Otelo, o Mouro de Veneza, uma peça que retrata, com riqueza inesgotável, o brilhante universo de William Shakespeare.
Autran ia amadurecendo à medida que acessava os textos, que navegava na complexidade das personagens neles contidos.
Em 1965, por intermédio de Millôr Fernandes e Flávio Rangel, mergulhou na história universal montando o musical Liberdade, Liberdade, espetáculo que discorre sobre o pensamento de importantes personalidades sobre o assunto: Sócrates, Marco Antônio, Platão, Abraham Lincoln, Martin Luther King, Castro Alves, Anne Frank, Danton, Winston Churchill, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, Geraldo Vandré, Jesus Cristo, Shakespeare, Moreira da Silva, Carlos Drummond de Andrade. Naturalmente um brado, sua forma particular de resistir à ditadura militar.
Retorna, em 1967, às tragédias gregas de Sófocles e monta Édipo Rei, peça que Aristóteles cultuava como “o mais perfeito exemplo de tragédia grega”, ainda hoje esmiuçada dada a influência que exerce na cultura ocidental.
A Morte do Caixeiro Viajante — peça teatral de Arthur Miller —, escrita em 1949, e Rei Lear, de William Shakespeare, escrita nos idos de 1605, foram peças que ajudaram a estruturar a veia performática de Paulo Autran. Todavia, foi O Avarento — que Moliére escreveu inspirando-se em Aulularia, de Plauto — a obra escolhida para encerrar em alto estilo a carreira e a vida, mantendo-as, doravante, sob a luminescência de um spotlight que jamais se apagará. Com sua última apresentação, o ator conseguiu expressar tudo o que humanamente é possível aprender sobre a arte da interpretação.
No cinema a participação se circunscreveu a não mais que dez filmes, com destaque para Terra em Transe, de Glauber Rocha, filmado em 1967. Sua última aparição na tela grande se dá em O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias.
Com o falecimento de Paulo Autran fecha-se, no Brasil, um ciclo caracterizado por atores completos, brilhantes, que priorizaram o palco, o contato direto com a platéia, a criação meticulosa das personagens, deslocando para um enésimo plano as oportunidades oferecidas pelo cinema e, sobretudo, pela televisão. Sucessores? É o próprio ícone do teatro brasileiro quem aponta uma juventude ávida pela mais fina dramaturgia e menciona Lázaro Ramos e Wagner Moura. Atores que têm o teatro como referência, mas que aprenderam a conviver com a televisão, explorando toda a potencialidade que dela emana.
Antes de encantar quis deixar uma derradeira lição. E, num ultimo suspiro, solicitou que a mulher Karin Rodrigues retransmitisse suas últimas palavras: “Morri porque fumava e nunca consegui largar o vício”.