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EDIVAL LOURENÇO
EM 09/02/2012 ÀS 02:40 PM
Qualquer pessoa, minimamente perceptiva, que observar a realidade ambiental, haverá de descobrir que esta frágil placenta em torno do planeta, como um líquen envolvendo um rochedo, e que dá sustentação à vida, está passando por um processo de desgaste superior à sua capacidade de regeneração.
Sem o auxílio de equipamentos tecnológicos, nem estudos sistematizados, pode se ver os rios apodrecendo com nossos dejetos. Outros sendo assoreados até perder a calha para virar águas andarilhas, transformando vastas planícies em alagados inúteis. Terras antes férteis sendo levadas por erosões furiosas, cedendo lugar a ravinas que não param de crescer. A dizimação de áreas verdes, a poluição do ar, o calor crescente, as tempestades cada vez mais hostis. Córregos secando, desaparecimento de espécies num ritmo cada vez mais embalado. Tudo isso testemunha um desastre anunciado.
É possível também constatar, ou pelo menos deduzir num nível que se permite tirar conclusões bastante convictas, de que a ação do homem neste momento civilizatório tem o poder de acelerar ou retardar o processo de desordem nos sistemas de suporte da vida. Por isso os cientistas chamam este momento de Era Antropozóica. Quando se amplia os sentidos com as ferramentas de prospecção, ou se adiciona ao entendimento as informações sistematizadas e as conclusões das pesquisas científicas, a situação se apresenta escancarada: a continuar o modelo desenvolvimentista atual, é questão de décadas para que nossos biomas entrem em colapso. Se toda a população da Terra atingir o nível de vida (nível de consumo) dos americanos, precisaremos de 5,3 planetas para sobreviver. E o que é mais grave: não sabemos a hora exata em que ocorrerá o ponto de virada. Quando o próprio sistema de apodrecimento se auto-alimentará, sem nos dar chances de um arrependimento eficaz. Mais grave ainda: não localizamos meios ambientes alternativos, onde possamos resguardar os nossos descendentes.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 15/12/2011 ÀS 07:25 PM
Posso até estar enganado, mas não há um assunto mais importante e urgente para o governo, em parceria com toda a sociedade brasileira, do que promover ações efetivas para a redução nas emissões de CO2 e estabelecer políticas econômicas baseadas em sustentabilidade ambiental. No entanto, o governo anda ocupado demais com espumas para cuidar do caldo.
Por que essa urgência e essa importância? Ocorre que qualquer outra ação do governo que venha a se frustrar, o estrago advindo será menor do que aquele provocado por uma eventual ruína de nossos biomas. Afinal, constituímos um país em que a riqueza está basicamente amparada pelos recursos climáticos e naturais. É claro que em qualquer lugar do mundo o ambiente se constitui no suporte da vida. Mas no Brasil, além de ser o suporte da vida, é também o suporte da grana.
O governo Dilma herdou do governo Lula uma proposta, ainda que meia-boca, que tenta conciliar crescimento econômico com preservação ambiental, começando com a meta de reduzir 39% das emissões de carbono até o ano de 2020. Aliás, esta foi a bandeira que a então candidata Dilma abanou aos ambientalistas. Ao que parece, a presidente Dilma até agora não acordou para o problema. Ou pelo menos não tem conseguido se desvencilhar de questões supérfluas e menores, que vêm vampirizando seu sangue administrativo e exaurindo as forças de comando. Seu governo não consegue energia extra para aplicar à governança além das questões das demissões em série de seus ministros trapalhões. Foram sete rodados em 11 meses e é possível que mais um ainda rode para fechar o ano numa conta mais cabalista e simétrica, de um ministro defenestrado a cada 45 dias.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 29/09/2011 ÀS 07:36 PM
Com o aquecimento global, os furos na camada de ozônio e outros quizilas do planeta, a Teoria de Gaia de James Lovelock vem ganhando credibilidade junto à comunidade científica. Vamos aproveitar então admiti-la como válida.
Segundo essa corrente de ideias, a Terra seria um sistema auto-regulável de interações complexas entre organismos vivos e não-vivos. Assim como nosso corpo que tem parte orgânica e mineral, trocando figurinhas o tempo todo. É bom lembrar que a quase totalidade do planeta é constituída de material não-vivo e só uma pequena crosta, a biosfera, tem o dom especial de abrigar a vida. Para Lovelock a terra seria um bicho vivo, como um boi, um coral, um jumento ou um cupim.
Lembre-se,pesquisas asseguram que o planeta Marte já teve fartura de água e presença de vida, pelo menos microscópica. No entanto, por alguma avaria climática, cuja causa ainda não se conhece, a água evadiu-se para local incerto e não sabido e a vida desapareceu por completo. Portanto não é alarme de ecologista sem noção de que a vida na Terra possa a qualquer instante entrar em declínio, por causas naturais ou por ação e mérito de seu habitante mais interventor: o homo Sapiens (eu, você, o Bill Gates, a Gisele Bündchen, o doidinho da carrocinha). Um bicho bruto como nós, é bem provável que habitamos o centro fabril do animal planetário: o sistema digestivo. Somos uma lombriga. Uma lombriga anfíbia que oscila entre as relações cooperativas e parasitárias.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 01/07/2011 ÀS 02:02 PM
Ainda na passagem do século 18 para o 19, o economista britânico Thomas Malthus (1766-1834) alertou o mundo sobre um horizonte sombrio à espreita do Homo sapiens. Bradava ele sobre os riscos de um crescimento exponencial da população diante de um crescimento apenas linear da produção de alimentos. Sua hipótese se assentou sobre o fato de que, diante de situações mais favoráveis que as da Idade Média, a população do planeta saltou de 500 milhões para um bilhão de habitantes em 200 anos, já àquela época comprometendo a segurança alimentar. Com a demanda maior que a oferta.
Mal sabia ele que nas décadas seguintes sua engenhosa hipótese cairia em descrédito, pelo fato de que a Revolução Industrial traria em sua esteira a redentora revolução verde, ou a segunda revolução agrícola. Com a adubação massiva, os defensivos, os equipamentos tecnologicamente avançados, a irrigação em larga escala e as novas cultivares mais resistentes, a lavoura foi avançando sobre campos áridos até então, e assim a agricultura de subsistência se transformou no que hoje se conhece como agronegócio. O mundo, confiante e extasiado, assistiu a produtividade se multiplicar por dez nas terras férteis e a produção em terras ácidas se igualar à das terras de cultura. Exemplo bem próximo de nós são os cerrados, que “não serviam nem para criar calangos”, no dizer dos fazendeiros. De repente, pelas suas safras-monstro, passaram e reivindicar o título portentoso de “o celeiro do mundo”.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 19/04/2011 ÀS 04:12 PM
O Homo sapiens, essa cereja do bolo do processo evolutivo, apesar de todo orgulho e jactância, não passa de um produto da Natureza, assim como a ameba, o mofo, a formiga, o ipê-roxo, o puma dos prados e tudo o mais quanto é ser vivente que há.
Como criatura da Natureza, somos oportunistas. Oportunista aqui no sentido de que só pudemos existir quando a Natureza criou as condições bastantes e necessárias para tal. E vamos deixar de existir quando a fila andar e a Natureza retirar as condições que nos permitem viver e alastrar o nosso processo cultural e civilizatório.
Muito antes de nós, os insetos e répteis habitavam este planeta conflagrado pelas intempéries. Havia rompimentos e colisões de placas tectônicas descomunais, com erupções vulcânicas repercutindo por todo o planeta, com alteridades climáticas impossíveis de ser toleradas pelos mamíferos. Havia trombadas de corpos celestes pelo universo afora, com estilhaços resvalando na Terra em toda parte. Inclusive a Lua seria um pedaço da terra que se soltou numa dessas colisões e acabou por acomodar-se num ponto de equilíbrio gravitacional sob influência de nosso planeta. Só para se ter uma ideia, a monumental fragmentação e colisão de placas, cerca de 23 milhões de anos atrás, fez levantar na planície amazônica de então a cordilheira dos Andes. Os rios daquela bacia enorme faziam a captação hidrológica de toda a região e desaguavam no pacífico. Com a muralha geológica que se levantou nesse período, formou-se um enorme lago aos pés dos Andes.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 31/01/2011 ÀS 05:36 PM

A todo instante os veículos de comunicação de massa despejam cachoeiras de notícias em nossos lares sobre os desastres do clima ao redor do mundo. São nevascas glaciais, chuvas despejadas provocando enchentes diluvianas, montanhas que surfam ladeira abaixo arrastando tudo o que há pela frente, regiões assoladas pela seca, incêndios descontrolados, ventanias descomunais, derretimento das calotas polares, morte coletiva de corais, proliferação de algas venenosas, desertificações de áreas agricultáveis, desaparecimentos de elos da cadeia ecológica etc. O homem, esse bicho da terra tão pequeno, como diria Camões, se vê impotente diante de tanta rebeldia do clima. O aquecimento global é o culpado recorrente de todos esses males que nos atribulam nesta fase geológica.
Mas em verdade, o que é esse aquecimento? Há teorias para todos os gostos e conveniências. O ex-presidente neoconservador George W. Bush, por exemplo, se filia a uma ideia de que se trata de um fenômeno natural e cíclico, sobre o qual não podemos exercer nenhuma influência. E mais: estaríamos vivendo o fim da História nos moldes defendidos por Francis Fukuyama ao repisar Hegel e caberia ao Império americano não assinar o Protocolo de Kyoto de redução do efeito estufa, mas invadir o Iraque para debelar o eixo do mal. Sem contar que estaria unindo o útil ao agradável: cumpriria as profecias milenaristas, atenderia às empresas da família e dos patrocinadores de campanhas políticas, além de suprir o mercado americano de petróleo. Em seu realismo alucinado, acreditava simplesmente estar preparando o mundo para um reino de mil anos de paz e harmonia, nos moldes apregoados pelo cristianismo primevo e, sobretudo, medieval. Uma mistura filosófica com desvio supersticioso muito parecida com o amálgama que levou Hitler a empreender o seu malfadado III Reich.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 22/11/2010 ÀS 08:32 PM
A razão é um atributo do Homo sapiens, uma especificação de fábrica que nos distingue da fauna geral. A razão nos leva a certas práticas que são tipicamente humanas, tais como a cultura, o desenvolvimento do conhecimento e sua acumulação, a reflexão sobre as próprias atitudes e aprender com os erros próprios e dos outros, principalmente a melhoria da condição de vida através da capacidade empreendedora. Talvez seja por isso que ainda nos primórdios da civilização essa capacidade foi reconhecida e legitimada como um mandamento divino. Daí o Deus de Abraão ter ordenado em suas primeiras manifestações formais: Crescei e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra.
Este é por certo o mandamento que o homem mais vem cumprindo à risca. Até com certo garbo e arrogância. Porque aqueles outros (não matarás, não roubarás, não desejarás a mulher do próximo, respeitarás pai e mãe, não levantarás falso testemunho etc) o ser humano, como coletividade, não tem dado a mínima. E parece que enquanto mais avança no desenvolvimento das ferramentas, esses ditames ancestrais, que bem poderiam ser perenes, vão caindo no esquecimento coletivo. Já na questão de dominar a terra, de avançar sobre os bens naturais, sem ao menos os importar com os malefícios que nossas ações possam nos trazer, seja para a nossa geração, seja para as gerações futuras, temos sidos convictos, muito além da conta.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 25/10/2010 ÀS 01:54 PM
O Homo sapiens é um animau tão çinixtro que chega a pedir perdão pelos crimes que não cometeu. No entanto, em rituais festivos, roga fervorosamente a Deus que o abençoe, pelos crimes que de fato comete. Tentarei inicialmente justificar essas afirmativas, não com argumentos lógicos, como tem sido a praxe desta série de artigos. Mas sobretudo com uma cena que presenciei tempos atrás.
Um amigo me convidou para um churrasco na fazenda de um parente dele, que acabava de concluir uma fase importante num empreendimento agropecuário. Fomos, numa manhã de domingo. O local situava-se numa região onde eu conhecia bem e tinha para mim um alto valor afetivo, pois passara por ali a minha infância. Eu me lembrava que era uma paisagem idílica e exuberante. Um grande vale descansado, com campos limpos e arenosos a sumir de vista, entrecortados por riachos, por matas de galeria, matas de cerradão e vargedos de buritizais, povoado pelas araras, com seu festival de cores e gritos que ecoavam nas colinas levantadas aqui e ali, como espiões de torrão. No meio do cenário passava o rio, como que recolhendo em tributo as águas sempre claras dos ribeiros. De longe já pude perceber os destroços da terra arrasada. O novo proprietário mandara passar tratores de esteira atrelados com correntes brutais sobre a vasta região. Tudo caiu por terra na mesma levada: Cerrados, matas, árvores frutíferas, buritis. Não houve respeito às nascentes, às matas ciliares, aos declives das colinas, à terras úmidas, nem mesmo reserva legal havia, onde a vista pudesse alcançar. Meu amigo me contara antes que seu parente comprara numa região inóspita uma terra de pirambeira e dera aos órgãos de fiscalização do meio ambiente como reserva legal, compensado a que ele não deixara na propriedade.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 04/10/2010 ÀS 11:28 AM
Quem trabalha como assessor de um executivo, de uma autoridade, seja pública, seja privada, em algum momento, cedo ou tarde, terá a sensação de ser mais inteligente do que o chefe. Não raro este sentimento é sufocado pela ideia um tanto lógica de que se o assessor fosse de fato mais inteligente, por certo o assessor seria chefe, e o chefe seria o assessor. E estamos falados.
E assim o subalterno se recolhe à sua sombra de insignificância e legitima o chefe em seu pedestal. Mesmo quando o assessor seja uma espécie de braço-direito, daqueles que não descuidam de seu assessorado, escrevendo seus discursos, suas palestras, falando por ele nas entrevistas, dizendo-lhe como deve se portar, o que propor, que negócio fechar, que hora entrar, que hora sair de uma situação, daqueles que entregam o parecer finalizado, que levam o despacho pronto para colher assinatura no rodapé do imbróglio mais impermeável. Ainda assim, pela lógica da disposição das coisas, pelas posições no organograma, pelo status do cargo, pelo salário que recebe, o assessor, mesmo percebendo que sua lucidez possa ser maior do que a do assessorado, é levado a crer que alguma coisa do chefe (o músculo de tomar decisão, o tirocínio talvez) seja mesmo superior. Mas, convenhamos. Como não poderia Nicolau Maquiavel ter a sensação de ser mais inteligente do que Lourenço de Médici. Como não poderia José Bonifácio de Andrada e Silva considerar-se mais inteligente do que D. Pedro de Alcântara? Como não poderia Galileu Galilei sentir-se mais inteligente do que o grão-duque da Toscana? Como poderia Carlos Drummond de Andrade não sentir-se mais inteligente do que o Ministro Gustavo Capanema?
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EDIVAL LOURENÇO
EM 13/09/2010 ÀS 08:32 AM
Segundo a hipótese mais aceita nos meios científicos, a vida teria surgido há cerca de 3,5 bilhões de anos, possivelmente em algum lugar da Terra. Ou mesmo em algum planeta de um sistema próximo (em termos cosmológicos) e pode ter vindo parar aqui na garupa de estilhaços retirados de algum corpo celeste por cataclismos de dimensões interestelares. Deduz-se que a vida começou em um ambiente singular, cujas características o Homo sapiens ainda não logrou reconstituir e entabular uns serezinhos animados para concorrer aos já existentes.
Aquele foi um momento mágico de nossa ancestralidade, quando por confluência de condições especialíssimas, por mero acaso dos dados atirados pela Natureza cega e sem propósitos, pequenas porções de matéria, inertes e insensíveis, recebem uma chama, uma faísca interior e ganharam autonomia. Essa possibilidade, por exemplo, que tem um pássaro de, uma vez libertado da gaiola, pousar no fio de luz, num filete de antena, no galho de uma árvore próxima ou mesmo se embrenhar no mato num voo aparentemente descontrolado. Não só autonomia, mas também outros importantes atributos tais como: metabolismo, reprodução, nutrição, complexidade, organização, crescimento e desenvolvimento, conteúdo de informação,emaranhamento de software com hardware, além de permanência com mudança. Ufa! No poema OVNI, do livro “Na Vertigem do Dia”, Ferreira Gullar intui que “sou possivelmente/uma coisa onde o tempo/deu defeito”. E, também por mero acaso, esses seres microbianos dos primeiros dias, em demorados processos de tentativas e erros, acabaram por desenvolver as espécies, até chegar nos bípedes implumes dotados de inteligência e arrogância de hoje.
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