Autor: Marcelo Franco

Mississippi: eu, Faulkner e Jack Daniel’s

Mississippi: eu, Faulkner e Jack Daniel’s

Leio e releio Faulkner constantemente, é faina para a vida toda. Se vocês não seguem essa dieta, estão perdendo um dos pontos altos da humanidade (Faulkner, aquedutos romanos, decisões da Suprema Corte americana, Capela Sistina, suítes de Bach para violoncelo, filmes de Sergio Leone, Ava Gardner, dribles do Garrincha, essas coisas): o homem vivia meio encharcado no seu estranho Deep South e ainda assim nos deixou uns três ou quatro romances que estão entre os melhores já escritos.

1621
Sobre Dórias e Grafites

Sobre Dórias e Grafites

Corre uma discussão sobre grafites, o que infelizmente desviou a minha atenção de assuntos mais importantes, como o diplomata que vai participar do BBB. Bem, nenhum homem é uma ilha, já se sabe, e por isso larguei a “História da Arte”, de Gombrich, que lia pela terceira vez, e apliquei as minhas células cinzentas ao caso. Vejamos. Acho grafite algo medonho. Grafite feio, aliás, é coisa mais comum no Brasil do que febre amarela e bócio. Naturalmente, portanto, aplaudi a ordem do Dória de tratorar a coisa toda em São Paulo.

Os melhores livros de 2016

Os melhores livros de 2016

Gosto de livros e gosto de listas (no Tinder dos pares perfeitos, lista de livros empata com queijo Stilton acompanhado de vinho do Porto). Nada de muito estranho, acredito: há quem goste de aquários, boliche e até — livrai-me, Senhor, de tamanho vício — de viver sem álcool e tabaco. No geral, é uma vida sem sobressaltos; porém, eu diria que existem, claro, épocas de tumulto e mesmo de sangue, suor e lágrimas. Em dezembro, por exemplo, as listas dos melhores livros publicados no ano me fazem passar horas buscando-as em jornais e revistas do mundo todo e as lendo com obsessão de Iago — nada de limitações geográficas, amigos, o verdadeiro viciado é cosmopolita e pedante. Infelizmente, é uma lástima que, apesar de tantas listas acumuladas na cachola, eu não consiga me desasnar mesmo gastando os tubos para comprar os livros indicados.

1506
Um tosco e uma Messias com laivos de Al Capone

Um tosco e uma Messias com laivos de Al Capone

Eleições nos Estados Unidos. De um lado, um sujeito vulgar; de outro, uma mentirosa contumaz. Trump é o cara que todos adoram odiar (um cacoete adolescente), mas é, apesar das matérias muito editadas do telejornais, articulado. Sua única ideia realmente estranha é o tal muro; sua construção, porém, poderá eventualmente ser barrada pelo Congresso e pela Suprema Corte. Com a vida vasculhada, descobriram que gosta de mulheres (sem comprovação de ataques físicos, ao contrário do sr. Clinton), usa mecanismos legais para não pagar impostos e tem um corte de cabelo ridículo, muito piorado pelo tom acaju, ofendendo assim o senso estético da intelligentsia.

Somos nós que mudamos os livros que lemos, inserindo neles as nossas vivências

Somos nós que mudamos os livros que lemos, inserindo neles as nossas vivências

Sim, os livros me deram rumos e gostos literários, mas meus defeitos e idiossincrasias estão ainda aqui, bem cultivados e inflacionados, obrigado, obrigado. Nenhuma mudança sísmica como aconteceu na vida dos autores desses textos; no máximo, orçamento deficitário para manter o vício das leituras desorganizadas e doenças respiratórias causadas pelo acúmulo de poeira nas pilhas de livros ainda por ler. Creio, inclusive, que somos nós que mudamos os livros que lemos, inserindo neles as nossas vivências (Otto Lara Resende dizia que todo leitor sempre lê a si mesmo, ou algo assim). Mas vá lá: se o freguês quer, assim é (se lhe parece) — escreverei sobre os livros que “mudaram” a minha vida.

Livros da infância: modos de usar

Livros da infância: modos de usar

Diferentemente do que ocorria há dez nos, o mundo me excede. Não sei quanto a vocês, leitores amigos, mas me sinto agredido diariamente por barulhos infernais de toda sorte de aparelhos e veículos, pelo medo constante de assaltos, pela ansiedade que tomou conta de nossas vidas de forma perene. Sim, as aflições cotidianas me esmagam. E também sei que mudei muito — essa é a nossa sina comum. Claro, já não passo horas esfolando os dedos em jogos de futebol no asfalto ou sentado, o mundo à espera, com amigos em calçadas poeirentas. Mas ainda tenho o consolo de poder buscar os livros da infância: leio-os e sou de novo um menino espantado.

A você, hipócrita leitor, meu igual, meu irmão (por supuesto!)

A você, hipócrita leitor, meu igual, meu irmão (por supuesto!)

Há algo de muito íntimo em receber um livro com dedicatória: nestes tempos dominados pelo computador e pela pressa, ler algo escrito de próprio punho por pessoa que se estima pode ser uma experiência rara e emocionante. E há sempre o prazer de tentar descobrir novos significados naquilo que a aparente simplicidade das palavras pode ocultar por tartufice.