Autor: Marcelo Franco

“Querencia”: eu e Goiânia

“Querencia”: eu e Goiânia

Aqueles que me conhecem sabem: gosto imensamente de viajar. Não só da viagem em si, mas também da sua preparação e, depois, da sua recordação; por isso mesmo, aliás, leio guias de turismo como se fossem clássicos da literatura. Viajo, logo existo; contudo, a cada nova viagem e retorno, as agruras cotidianas desta cidade que consegue superar constantemente os seus próprios limites de desorganização me exasperam e me levam a me perguntar por que aqui permaneço.

Admito: sou interno de um hospício

Admito: sou interno de um hospício

Escrevi, numa “Carpe Diem” anterior, sobre inícios clássicos de livros; hoje, como prometido, volto ao tema com outros incipit (meu jovem editor: sem variação no plural aqui, por favor). Não são exatamente “clássicos” de melhores começos de livros, mas sim, digamos, parte da minha lista maníaco-idiossincrática.

A você, hipócrita leitor, meu igual, meu irmão (por supuesto!)

A você, hipócrita leitor, meu igual, meu irmão (por supuesto!)

Há algo de muito íntimo em receber um livro com dedicatória: nestes tempos dominados pelo computador e pela pressa, ler algo escrito de próprio punho por pessoa que se estima pode ser uma experiência rara e emocionante. E há sempre o prazer de tentar descobrir novos significados naquilo que a aparente simplicidade das palavras pode ocultar por tartufice.

É o tempo, estúpido: ainda ontem eu tinha 20 anos

É o tempo, estúpido: ainda ontem eu tinha 20 anos

O negócio é o seguinte: praticamente não me abalo da minha casa para ir a cinemas, mas acabei, quase por acidente, numa sala escura vendo “O Filme da Minha Vida”, dirigido por Selton Mello. Festa estranha com gente esquisita. Tudo o que costuma me afastar dessa atividade estava lá para ser enfrentado, gente falando ao telefone, comendo sanduíches gigantescos e tirando os sapatos, mas, reconheço, valeu o esforço. Fui, vi e venci. Venci principalmente o meu preconceito contra filmes brasileiros.

Orgia perpétua

Orgia perpétua

Ali pelo oitavo chope, chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis. Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Penso então em Dean Moriarty, penso no velho Dean Moriarty, o pai que jamais encontramos, penso em Dean Moriarty. Porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra. Ultima Thule. Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta. Amava o Grande Irmão.

No princípio, Deus criou os livros

No princípio, Deus criou os livros

“No princípio, Deus criou os céus e a terra.” Em matéria de abertura, meus crentes leitores, a Bíblia continua imbatível: quem a escreveu tinha um poder de síntese magnífico — é o “Vim, vi, venci” dos inícios de livros. Os incipit (plural sem variação, caro corretor) — como são chamados esses inícios de livros — dão muitas vezes o tom do livro. Creio mesmo já ter lido que existe um jogo de adivinhação de autores a partir dos seus incipit — se non è vero, è ben trovato.

Leio, logo tusso (carpe diem)

Leio, logo tusso (carpe diem)

Não sou moreno alto, bonito e sensual, mas garanto a vocês que leio. Vivo entre livros e papéis e tenho a casa hoje totalmente colonizada por livros — para ler todos, rogo para que exista em mim o gene da longevidade de Matusalém. “Leio, ergo sum” é o meu moto, e a minha baleia branca será sempre o próximo livro a ser lido. Posso não entender o que leio, mas venho tentando.