Pequenos movimentos das coragens nossas de cada dia

A premência de atos de coragem se manifesta em nossas vidas desde o instante do nascimento. Ambos, o bebe e sua mãe, precisam de imensa determinação e desejo, para trocar, abandonar um ambiente aquoso, seguro e acalentador pela vinda à luz na terra dos homens. Mudar de hábitos, largar ambientes mornos por outros desconhecidos — ainda que anunciem o bônus de certa prosperidade, demanda entrega e decisão.

Prestemos atenção, pois o céu acaba de beijar a terra

O céu beija a terra e afaga as arestas do planeta muito mais vezes do que se imagina, no decorrer desta nossa curta existência. Quando o sol, ainda se espreguiçando cumprimenta gentil as novas alvoradas. Durante uma pesca silenciosa, quase um mantra para um pescador eterno banhado de luz em seu trajeto marinho. No exato instante em que uma flor, ainda em botão, larga seu título de menina — moça e desabrocha para as abelhas se banquetearem de alentos.

A inveja é um tapa na cara

Além de pegar a gente pelo pé, a inveja tem cara pra tudo. Cara de pau, de múmia, de paisagem, de quem-não-tá-nem-aí para as demandas do vizinho. Cara de quem só vive lá em cima, no alto do Himalaia — quase perto do olimpo. Cara de nariz em pé e torcicolo na ativa. Quem nasceu pra rei nunca esquece a majestade. Nossos tetravôs já sentenciavam. Quem se acha não se perde, nem fica dando bobeira ou ouvidos tortos para os Zé Manés plantados em cada esquina.

Quando a vida marca gol contra o que você faz?

Difícil responder de imediato. Sobretudo quando os imprevistos puxam o tapete da gente. As pegadinhas do acaso nos deixam de mãos nuas. Nossas pretensas certezas vão de repente para o ralo. Tudo pode acontecer a qualquer hora. Mas a gente nunca acha que o destino, ou o que seja, armará feio para o nosso lado. É o outro quem se arrebenta, machuca, quebra a cara, a coluna, fica em coma, adoece inexplicavelmente. É o outro quem morre.

Mãos ao alto! Isto é um abraço

É um desejo, quase um cansaço. Mãos ao alto! Isto é um amor escondido, um carinho perdido, uma promessa de estrelas. Prepare-se logo para novos assaltos, iluminados como jamais viu. Invasões nas quais trocam-se armas por flores, gritos por sussurros, defesas por clamores. Novas aventuras se aproximam. Nesse mundo de pedras e podres, alguém prega novos momentos e encontros brandos, assinalados um a um, no livro branco da paz. A imundície foi posta a nocaute.

Desligue o celular e olhe o céu

Os dias transcorrem, a alegria pisca à nossa volta, a paz acena lá de longe com um lenço branco. A felicidade passa por nós e sussurra algumas palavras em nossos ouvidos, ocupados demais com fones sofisticados e outras traquitanas tecnológicas para ouvi-las. Neste movimento de autorrecolhimento ou auto expulsão simultânea dos clamores do mundo exterior, nos enredamos em um útero ou uma bolha de propriedade exclusivamente nossa. Espaços volitivamente autistas. Impenetráveis.

Contradições acima de qualquer suspeita

Quem nunca afirmou detestar mulheres louras e, de repente, começa a desfilar com uma pantera platine blonde- tintura irretocável, nos volumosos cabelos? Te amo, te odeio. Não suporto peixes, adoro linguado assado. Não tolero homens falantes. Ah, me apaixonei por um deputado honestíssimo. Precisa ver como ele discursa. Pintar a boca de vermelho, jamais! Quero esse batom molhado cor de sangue, máxima duração. Lindo. Não imagino ter filhos e nem terei.

O que foi dito bêbado foi pensado sóbrio

Ah, quantos de nós temos coragem de traduzir em palavras as explosões de afeto, fúria ou ódio, claramente estampadas em nossos olhos. Quantos de nós se escondem atrás dos véus da conveniência, ardilosas maquiagens, máscaras de bem-se-relacionar no cotidiano, guardando tudo o que nos ameaça ou fragiliza no quarto escuro de emoções cansadas, amassadas e contraditórias. Francamente. Quase não há espaço para o amor e a ternura se acomodarem junto ao medo, a insegurança e a frieza, pois o quarto é diminuto — do tamanho de uma solitária prisional.

O silêncio também é resposta

O silêncio diz muito mais do que se costuma ouvir de bocas aflitas, que jorram aos borbotões palavras atrapalhadas. Discursos tolos, sem aroma, nem sumo. Por vicio ou pretensa natureza, estamos acostumados a nos relacionar com a boca. Dela emanam sons filosóficos, conexos ou desconexos. Em sua maioria vazios como bolinhas de sabão. Falas de acompanhar a gula de bolinhos de bacalhau, chopes gelados em série, alargando barrigas carentes e solitárias companhias.

Depois da tempestade vem a bonança

Se pegarmos carona na geografia iremos relembrar dos países mais propensos a serem atingidos por furacões, dentre as habituais intempéries. Os Estados Unidos, Canadá, a Austrália e o Japão colocam-se no topo da fila. Agora imagine que, por hipótese, você e eu habitemos a América do Sul. Para nós soa estranho, longínquo, ficcional até aventarmos uma tragédia dessas. Furacões, tornados, ciclones. Todos sinônimos, nos dicionários dos sustos.

O que você viveu ninguém rouba

O que você viveu ninguém rouba. Seus amores secretos, tempestades e estiagens, sonhos alagados de ideais, as vezes tão pueris e ingênuos. Seu pendor artístico, os gestos incompletos, sorrisos entregues às luzes do anoitecer, pálpebras que piscam com suavidade, mistérios da alvorada. Todas estas riquezas lhe pertencem. Esta é a sua abastada herança, que se manterá pulsante, enquanto você, com suas vestes de carne fresca ou amadurecida, deslizar entre a terra dos homens.

Ninguém consegue viver de janelas fechadas

Imagine abrir sua janela ao acordar e, do mesmo modo que as lagartas magicamente se borboleteiam pelas paisagens da vida, encontrar uma fruta que se oferece a você. Clama por seu gesto de sorvê-la inteira. Entregando assim sua gratidão a um dos tantos presentes que a natureza diariamente lhe dá, sem exigir nada em troca. Saber receber é uma arte. Abrir os braços, o sorriso, o corpo e o coração e dispor-se aceitar quem estende o afeto a você. Receber exige coragem. Integridade. Desejo. Iniciativa. Transparências do querer genuíno.

O coração anda molhado. Mas a boca está seca

Muitos de nós vivem com o peito mais encharcado que roupa esquecida na máquina de lavar, com a torneira aberta. Mais inflado que chester do almoço de domigo.Tem afeto chorando lá dentro, declaração de amor enxovalhada. Raiva presa com rolha na garganta. Desejos desnutridos. Saudade e lembranças mergulhadas em um balde de água sanitária. Tudo para esquecer, eliminar manchas de experiências marcantes e sensações da história pessoal.

“Você disse some e eu somei. Eu disse some e você sumiu”

A matemática do amor e dos relacionamentos em geral é complicada. Cada um de nós tem um jeito único de ver e entender as coisas. Encara as próprias equações e se atrapalha. Quando é pra somar, divide ou multiplica. Faz isso, conforme a quantidade de minhocas passeando nos neurônios recheados de esquisitices. Fato é que mora em nossas cabeças um perseguidor implacável. Ainda que o escondamos. O asfixiemos com as mágoas do coração. Finjamos ser ele nosso melhor amigo. O algoz existe e respira feroz.

As histórias de cada um de nós passeiam pela vida afora

Logo no início da sessão ela teve vontade de falar do mar, da selvagem vitalidade que encontrava ao se entregar inteira às espumas. Vontade de esmiuçar as danças sinuosas nascidas das ondas, agitadas como serpentes, os polvos imensos, regentes das profundezas melódicas com seus tentáculos de maestros das águas. Ela quis comentar dos mares antigos, desbravados por navegadores desejosos por lamber novas terras recendendo à coragem e à sabedoria de conchas ancestrais.

Tem gente que confunde alegria com alergia

A princípio parece que um termo não tem nada a ver com o outro. Alegria é sentimento. Alergia é sintoma. Mas na realidade os dois frequentemente se misturam. Ou a gente troca um pelo outro sem se dar conta. Os médicos, muitos deles, correm atrás das causas da alergia, e dizem que ela pode resultar de estados emocionais, aflições, angústias. Podem decorrer de gula extrema por doces, salgados e que tais. Funcionar ainda como uma catarse, se somatizar no corpo.

Se falta luz ao fim do túnel, acenda uma lanterna

Atravessar túneis longos e escuros, reais ou imaginários, acreditando haver luz ao término do percurso é no mínimo algo ingênuo. A não ser quando se trata de vencer enormes desafios íntimos. Pois a morte, em aparente desgoverno, dissimulada como o véu preto e soturno que a recobre, pode cruzar conosco. Assim é preciso estar atento e forte. Não acreditar em milagres a torto e a direito já é um passo e tanto. Porque muitas vezes eles precisam das nossas mãos do nosso cérebro e do nosso coração para se manifestarem.

O homem não tem poder sobre nada enquanto tem medo da morte

As pessoas não sabem que perderam suas asas desde que colocaram os pés nesta terra. Elas perseguem o definitivo, o concreto, o seguro e o assentado, logo que aterrissaram neste planeta. As únicas mudanças aceitas, durante sua trôpega, minguada e inexpressiva existência, residem no meticuloso planejamento financeiro do seu cotidiano mesquinho. Ninguém se dá conta, porém, de que quanto mais nos rendemos ao fascínio daquilo que consideramos como poder, mais nos afastamos da nossa tão sonhada e pouco tangenciada liberdade.

Crescer é aprender a dizer adeus para certas coisas

Aprende-se a viver mais de mansinho, a morrer sem estardalhaço, a trocar a costumeira arrogância por duas doses de humildade. A trancar mentiras feias nas gavetas da consciência. Aprende-se a buscar rotinas mais éticas, um corpo mais harmonioso, relações mais mágicas e férteis, no amor e no trabalho. Aprende-se a dançar um tango vertiginoso, embebido em estrógenos e testosteronas que circulam sem parar pelos salões da tentação.

“Educação para a vida deveria incluir aulas de solidão”

Quem nunca sentiu em plena luz do dia o mundo cinzento e circunspecto à sua volta, levante a mão. As palavras saindo da boca sem ordem e sem juízo. O discurso atrapalhado, estendendo os braços por detrás de sentenças inteiras sobrepostas umas sobre as demais. Brincadeira ainda verde de cabra-cega, esgueirando os restos de infância através de um corpo decididamente maduro. Quem nunca ansiou compor de quietude seus gestos e de apaziguamento sua mente? Confesse enquanto há tempo.