Autor: Graça Taguti

Eu sofro de mimfobia. E você?

Eu sofro de mimfobia. E você?

Está na hora de colocar em pratos limpos tudo o que a gente guarda e esconde em nossa cozinha mental. Fobia é medo, terror, perna bamba, paralisia muscular repentina. E por aí segue lista da diversificada sintomatologia. Pra que negar. Eu sofro de mimfobia e morro de medo dos outros que moram dentro da minha cabeça e cutucam minhas ações e decisões, presentes ou futuras. E você?

O fazedor de amanhecer anoiteceu

O fazedor de amanhecer anoiteceu

Pensava pequenino, esse grande menino. Gostava de revirar pontuações nas poesias e na cabeça de pensamentos ondulantes. Engasgava na política dos pontos e vírgulas: sobrevoava os lentos e dúbios acasos das reticências infinitas. Duvidava de tudo, até das interrogações. Pois questionava o que já nascera pronto, rígido e sem jeito de mudar. Certas horas se interjeitava, segurando uma interjeição bem alta, quando um bambuzal resolvia assoviar pra ele. Namoros de recantos livres ao ar livre, que aconteciam mesmo sem vento nem abanos de alguma espécie. Sussurros já davam conta, assim semeados pelo caminho dos sonhos.

É hora de tirar os sentimentos das prateleiras

É hora de tirar os sentimentos das prateleiras

Imagine-se em um supermercado absolutamente vazio, porém com as prateleiras abarrotadas de produtos de diversas categorias. Nesta cena, apenas você desfila pelos corredores, deixando no ar a reverberação dos seus sapatos de couro. Aquele ruído, dentre tantos outros, que gostamos de ouvir num filme, enquanto devoramos pipocas no cinema. Já pensou nisso? Exercite suas fantasias então. Pense agora num filme sem barulhos, trilhas sonoras e outros fascinantes malabarismos das mixagens de áudio. Você estará assistindo a uma história agonizante, quase morta, que não nos toca, nem emociona de modo algum.

“Onde não puderes amar não te demores”

“Onde não puderes amar não te demores”

Sai, corre logo. Afasta-te das ventanias cruéis que ameaçam revirar-te a vida e os sonhos pelo avesso. Aqueles pedaços de histórias rotas e cerzidas, atiradas no cesto de roupas de sorrir — e que já usaste tantas vezes em festas enxovalhadas. Foge das tempestades. Das estradas sem rumo. Das folhas ressequidas, espalhadas em terrenos áridos e desconexos. Rejeita os lábios que não beijam mais e dos quais escorre apenas amargura, fel e impropérios. Sim. Tranca a porta, os ouvidos, a sensatez e vira as costas sem remorsos para tudo o que te causa mal e tristezas. Teus dias pinta-os com aquarelas leves e doces, mescladas a tons pastel.

Quando eu crescer vou virar criança

Quando eu crescer vou virar criança

Juro de pé junto, viu. Cruzo os dedos. A praga já está rogada por mim mesma, diante do espelho grande do meu quarto que oscila entre alheio-e-alienado. Envelheça quem quiser, a cada dia que passa. Eu não. Faço caras e bocas e me posiciono ereta desafiando a dona cronologia. Miro com um estilingue bem no meio dos olhos do tempo e pimba! Foi-se a desaceleração da vida, a palidez e tremulações, comuns ao avançar da idade.

Nosso medo é um tremendo tapa na cara

Nosso medo é um tremendo tapa na cara

Logo de saída, nas inúmeras situações em que ele se apresenta (ou se esconde) o medo, ou o Medão — pai de todos os medos, mesmo os mais chinfrins — se protege com um séquito de desculpas, as mais esfarrapadas. Ou deslavadas possíveis. A gente vive, desde pequeninos, fazendo de conta que o medo não é medo. É outra coisa. Veste nele uma fantasia de conveniência, explicações baratas, apaziguamentos fortuitos endereçados à nossa exasperada e sempre vigilante consciência.

Mostre quantas pessoas moram dentro de você

Mostre quantas pessoas moram dentro de você

Desde a mais tenra idade se habituou a gostar de misturas e de contrastes no seu dia a dia iluminado de curiosidade. As manias, obsessões, compulsões renitentes não interessavam a essa menina-menino. Considerava as repetições de qualquer ordem sempre previsíveis e esvaziadoras de sentidos maiores da vida. As experiências, ahhh, sim, as experiências alquimizavam as cores do horizonte dela-dele trazendo nuances de rosa, tons pastel em degrades delicados, quando se punha a pintar aquarelas para decorar seu quarto de sonhos.