Por que Deus permite que as mães vão-se embora?

Por que Deus permite que as mães vão-se embora?

— Se Jesus tivesse voltado, se estivesse entre nós de novo, certamente, já teria metido o pé nas bancas desse padre caipira, como fez com os vendilhões do templo em Jerusalém, há dois mil anos — eu disse. Meu objetivo era a comédia, era pura provocação.

Minha mãe tem quase oitenta e fica enfezada, não gosta nem um pouco do jeito desbocado com o qual lhe testo a fé e a paciência. Faço isso de propósito, para atazanar na dose certa, para exercitar os seus neurônios e coronárias. É preocupante: ela anda com lapsos de memória e palpitações.

Enquanto esperamos os biscoitos assarem no forno, assistimos a mais um, dentre tantos programas religiosos que passam nos canais da TV aberta, cujo apresentador é um padre que foge dos estereótipos: ele é bonito, risonho, carismático, espadaúdo; ele se veste ao estilo caubói, chapelão branco socado na cabeça; ele canta, prega o evangelho e vende mercadorias aos telespectadores.

— Não sei como o Vaticano permite esse tipo de coisa. Queria ver esse sujeito vendendo picanha no meu estabelecimento — cutuquei.

Ela fica furiosa. Definitivamente, mamãe não aprova quando eu caçoo do seu padre cantor predileto. Então, levanta, vai coar um café a meu gosto: forte e com pouco açúcar. Ela usa um coador de pano encardido, enfiado dentro de um bule surrado que, de tão antigo, parece ter pertencido a Cora Coralina, antes dela se tornar uma poeta famosa.

— Mãe, você devia usar coadores de papel, aqueles descartáveis, sabe como é? Ninguém mais usa coadores de pano.

— Prefiro o meu. Não erro a receita e o café sai mais gostoso. Vai começar a reclamar do meu café também? — ela revida.

— A gente pode acabar pegando um tétano com esse bule, mãe. Lembra da esposa do doutor Luís. Ela morreu da doença ao lidar com as flores do canteiro. Dizem que espetou a mão em espinho.

— Você é médico, sabe muito bem que ferrugem não transmite tétano. Deixa de conversa fiada. Vem lanchar.

Apesar do coador de pano, o café estava delicioso, como sempre. Abracei-a com cuidado, com receio de machucar. Tá parecendo um saquinho de ossos: magricela, frágil, como uma das rosas do canteiro da casa do doutor Luís, cuja esposa morreu mesmo de tétano, ao se ferir praticando jardinagem. Mamãe goza de saúde regular, mas, não se entende bem com a comida. É meio neurótica, ansiosa, acho que tem um pezinho na anorexia.

— Mãe, é preciso se alimentar melhor, se hidratar. Comida é remédio.
Ela sofre de surdez seletiva. Quando o assunto não lhe interessa, simplesmente finge que não ouve e muda de assunto. Prática irritante bastante utilizada nos últimos anos.

— Você viu? O Jerry Adriani morreu — desconversa. Gostava muito dele. Já tinha cantado pra gente num encontro da Melhor Idade lá em Pirenópolis. Adorava quando ele cantava “O bom rapaz”.

— Você tá confundindo, mãe. Foi Wanderley Cardoso, o maior rival de Jerry Adriani na Jovem Guarda, que gravou “O bom rapaz”.

— Não foi o Wanderley. Foi o Jerry. Tenho certeza.

— Tá bom, mãe. Eu não curto as músicas do Jerry Adriani. Mesmo assim, sempre fico triste quando morre um artista.

— Toda morte é triste, até de gente que não presta, já reparou?

— O Belchior também morreu. Lembra do Belchior, mãe? Um cantor cearense que usava bigode.

— Aquele que tinha medo de avião? — então, ela cantarola um trechinho de “Medo de avião”, desafinada, engraçada à beça.

— Esse mesmo. Desse eu gostava, mãe. Toco bem umas vinte canções dele no violão.

— Eu tava pensando: das moradoras antigas aqui da rua, só restamos eu, a Iolanda e a Elza.

— Tem a dona Mirtes também, mãe.

— A Mirtes ficou demente, então, é como se tivesse morrido, certo? Coitada da Mirtes. Não reconhece mais nem mesmo a comida que lhe colocam na boca.

— Você vai longe, mãe.

— Também acho. Tia Antonieta fez 101 na semana passada. Chegou na festa de Fordinho. Uma beleza. Você perdeu, filho.

— A gente sempre perde alguma coisa, mãe.

Lavava os utensílios com uma delicadeza singular. Apesar da fragilidade e da notória decadência física, havia viço de sobra naquela mulher. Anotei numa cartolina a lista dos inúmeros medicamentos que ela tomava, marcando os horários, para evitar confusão e esquecimento.

— Amanhã começam as aulas de dança do ventre.

— Acho que não fica bem a senhora, nessa idade, sair por aí fazendo dança do ventre, mãe.

— Não vou sair por aí fazendo dança do ventre. As aulas acontecem no SESC. Fiz compromisso com a professora de me matricular mais um semestre. Dei a minha palavra.

— Sei.

— Tem também a dança de salão com o Silvio, às quintas. E as aulas de teatro no Centro Livre de Artes, segunda e quarta de manhã.

— Cuidado com os tangos, mãe. Não quero a senhora usando de novo aqueles sapatos com salto muito alto. Já pensou? Se cair, é bem capaz de quebrar um osso e, se quebrar osso, já sabe: não cola mais.

— Eu não vou cair. Só quero dançar.

— Pode dançar, mãe. Mas, dá pra diminuir a altura dos saltos?

— Tá certo.

— Então, tá.

Nesse ínterim, recebo a mensagem de uma colega pelo telefone celular: “Triste, muito triste. Mamãe foi morar com os anjos do céu. Velório no Cemitério Jardim das Palmeiras. O sepultamento será às cinco”.

— Preciso ir embora, mãe.

— Tá cedo. Come pudim. Fiz hoje cedo.

— Depois eu como, mãe. Deixei tudo anotadinho sobre a mesa.

— Letra de médico ou letra de gente?

— A caligrafia tá perfeitamente legível, mãe. Leia com cuidado, presta atenção pra não bagunçar os remédios.

— Não vou bagunçar. Não sou boba.

— Então, tá, mãe. Tchau.

— Deus te abençoe.

Sim, poeta Drummond: Deus existe, é temperamental e leva embora as mães num simples estalar de dedos. Para sempre.

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