Somente o amor irá nos salvar de nós mesmos

Somente o amor irá nos salvar de nós mesmos

Eu estava lendo um livro na varanda de casa. Uma menina de cerca de 4 anos, pedalando sua pequena bicicleta com rodinhas, passou pela rua. Ela seguia independente e feliz. Por um segundo, pensei que estivesse sozinha, mas logo em seguida o pai apareceu correndo atrás dela. Ele parecia preocupado, mas não escondia o seu orgulho. Envolvida pela história que lia, resolvi me levantar para procurar respostas às perguntas que o livro me fazia.

Era domingo, final de tarde. O sol já estava fraco, e o cheiro do pé de goiaba do vizinho fazia parecer que a rua estava recheada de goiabada. Um gato subiu na árvore enquanto o cachorro de outro vizinho latia. Caminhei devagar para observar a vida que acontecia ao meu redor. Talvez assim eu pudesse compreender a vida que explodia dentro de mim.

A semana não tinha sido fácil. Uma saudade me acompanhou todas as manhãs. No desjejum, as mesmas notícias da desgraça humana: a mulher que prendeu um cão à sua moto por uma corda e o arrastou pelas ruas da cidade; o homem que matou a esposa e violentou o próprio filho; o menino que morreu de uma doença curável porque não tinha vaga no hospital público. Eu saía de casa com a sensação de chegar ao fim do dia sem entender por que o mundo anda tão complicado.

Duas mulheres caminhando a passos largos e apressados me trouxeram de volta à rua do meu bairro. Na calçada, um senhor de cabelos branquinhos regava suas plantas, conversando com elas. No final do quarteirão, encontrei-me com a senhora viúva que todos os dias sai de casa, naquele mesmo horário, para dar “uma esticada nas pernas”. Ela se alegrou ao ver o livro que eu carregava, dizendo que adorou tê-lo lido alguns anos atrás.

Perguntou se eu estava gostando e respondi que sim; então o abri em uma página que estava marcada e li para ela: “Eu não penso sobre toda a miséria, mas sobre a beleza que ainda permanece”. Ela concordou com a cabeça e, antes de seguir em sua caminhada, falou qual era o segredo para conseguirmos sorrir e seguir em frente: somente o amor irá nos salvar de nós mesmos.

Está escrito em “O Diário de Anne Frank”: “É difícil em tempos como estes: ideais, sonhos e esperanças permanecerem dentro de nós, sendo esmagados pela dura realidade. É um milagre eu não ter abandonado todos os meus ideais, eles parecem tão absurdos e impraticáveis. No entanto, eu me apego a eles, porque eu ainda acredito, apesar de tudo, que as pessoas são realmente boas de coração”.

Abracei meu livro como quem abraça um amigo querido. Senti uma energia boa me envolver a despeito das coisas ruins que, vira e mexe, invadem minhas ideias. Enquanto andava, agradeci à Anne por todas as cenas de afeto que ela descreveu em seu obscuro e difícil cotidiano.

Ao voltar para minha varanda, ri do gato que encarava o cão. Ouvi as palavras carinhosas do idoso para as suas flores. Inspirei o aroma das goiabas e me lembrei dos sonhos recheados com goiabada que minha avó fazia para mim. E pensei no desvelo do pai com sua filha na bicicleta.

Cuidar de alguém descomplica o mundo e torna menor a nossa própria angústia. Ao preparar o café da manhã pra quem amamos, ao ler para alguém um trecho do livro que adoramos e ao acolher um sofrimento alheio, estamos nos aproximando de nós mesmos e uns dos outros. É como assoviar uma melodia de cotidiano e esperança que nos traz à lembrança as palavras de Renato Russo: “Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver. O mundo anda tão complicado que hoje eu quero fazer tudo por você”.

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