Os melhores livros de 2016

Os melhores livros de 2016

Gosto de livros e gosto de listas (no Tinder dos pares perfeitos, lista de livros empata com queijo Stilton acompanhado de vinho do Porto). Nada de muito estranho, acredito: há quem goste de aquários, boliche e até — livrai-me, Senhor, de tamanho vício — de viver sem álcool e tabaco. No geral, é uma vida sem sobressaltos; porém, eu diria que existem, claro, épocas de tumulto e mesmo de sangue, suor e lágrimas. Em dezembro, por exemplo, as listas dos melhores livros publicados no ano me fazem passar horas buscando-as em jornais e revistas do mundo todo e as lendo com obsessão de Iago — nada de limitações geográficas, amigos, o verdadeiro viciado é cosmopolita e pedante. Infelizmente, é uma lástima que, apesar de tantas listas acumuladas na cachola, eu não consiga me desasnar mesmo gastando os tubos para comprar os livros indicados. Cumpro, contudo, a minha sina, uma espécie de síndrome de Gabriela: eu nasci assim, vou ser sempre assim. Sim, amigos, é um trabalho duro e bem que eu poderia estar contente porque consegui comprar um Corcel 73, mas é melhor não reclamar.

O Gene: Uma História Íntima Siddhartha Mukherjee Companhia das Letras
O Gene: Uma História Íntima
Siddhartha Mukherjee
Companhia das Letras

A verdade é que cultivo com cuidado estas minhas obsessões. Gostar de listas é doença classificada no CID; já leitura desenfreada é puro masoquismo — com algumas vantagens, é verdade: lendo, I celebrate myself and sing myself, and what I assume you shall assume etc. etc. Vocês entendem, não? Enfim, confiteor — e, feito o diagnóstico, junto os vícios e faço a minha própria lista (se eu estivesse no modo piadista, diria que o melhor livro do ano foi o último CD — ainda se fazem CDs? — do Bob Dylan. Estou, porém, em fase melancólico-nostálgico-mesoclítica. Poupá-los-ei). A lista tem suas peculiaridades, evidentemente, pois tenho tido com frequência alguns sestros literários — li pouca ficção, por exemplo, mas me dediquei com afinco aos meus novos temas de predileção (mantendo o gosto pelas manias arraigadas, como livros sobre a Segunda Guerra, pois que a vida é sonho e os sonhos, sonhos são). Sou um tipo estranho, bem sei, daí porque a minha estante cresceu, neste ano, com uma coleção de livros sobre lógica (principalmente sobre o estudo de falácias, fundamental para a leitura dos artigos de “especialistas”, praga que empata com os gafanhotos e águas corrompidas em poder de destruição), vieses cognitivos, Direito Constitucional inglês e israelense, a invasão holandesa no Brasil, jogos de tabuleiro e sua história (saber jogar Go é um projeto de vida), relatos pessoais sobre campanhas eleitorais americanas… E ainda me empolgo com coisas um tanto indigestas, a exemplo da Revista Trimestral de Jurisprudência do Supremo Tribunal, que leio aos domingos de manhã para me curar das libações de sábado. Ah, Senhor, miserere me, por que eu?

Viva a Língua Brasileira Sérgio Rodrigues Companhia das Letras
Viva a Língua Brasileira
Sérgio Rodrigues
Companhia das Letras

Encerrado o nariz de cera, vamos aos ditos. Um aviso, entretanto: não vou verificar os títulos e autores, fio-me na minha erodida memória. Pois bem. Quem nunca leu alguma biografia de Churchill é ruim da cabeça e doente do pé, mas há cura: a biografia em dois volumes por Martin Gilbert, traduzida neste ano aqui no Florão, é minuciosa e complementa, eu diria, a de Roy Jenkins, esta publicada há alguns anos. Outra boa biografia lançada neste ano foi a de Zózimo Barrozo do Amaral, “Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança”, de Joaquim Ferreira dos Santos. Escrever sobre Zózimo é também falar do Rio dos anos 1950 e 60, onde morei e tomava pileques colossais com Paulo Francis, amigo que ganhou, aliás, uma nova antologia dos seus textos pela Três Estrelas (houve uma primeira publicada há dois ou três anos). Bons tempos aqueles — como nasci para ser professor de latim do Pedro II, de plastrom, pincenê e bengala, pergunto-me: damnosa quid non imminuit dies? Já que a resposta é dizer que tudo se esvai, leiamos ainda duas outras biografias deste ano para fingir que temos algum controle sobre o tempo, a de Roberto Civita e uma parcial de Ronald Reagan, escrita por Bill O’Reilly e um outro coautor, que, mesmo longe de ser a melhor obra sobre o presidente americano, supre uma lacuna em português.

Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança Joaquim Ferreira dos Santos Intrínseca
Enquanto Houver Champanhe, Há Esperança
Joaquim Ferreira dos Santos
Intrínseca

Adiante que São Paulo não pode parar. Dois livros soberbos sobre a inculta e bela: “Viva a Língua Brasileira”, de Sérgio Rodrigues, e “História Sociopolítica da Língua Portuguesa”, de Carlos Alberto Faraco, deram bagno, opa, banho nos anarquistas disfarçados de cultores da língua. Como vivemos em tempos interessantes, segundo a expressão chinesa, é preciso também conhecer a Operação Mãos Limpas, tarefa a que a Editora CDG se propôs publicando a sua história completa, um calhamaço de autoria coletiva. Para a turma conservadora (meus irmãos, meus semelhantes!), sempre tem havido publicação de livros de Roger Scruton, Theodore Dalrymple e Thomas Sowell — e não percam, please, a biografia intelectual de Edmund Burke por Russell Kirk. “Gene, uma História Íntima”, de Siddhartha Mukherjee (este eu conferi), que talvez mereça o primeiro lugar de 2016, conta de forma magnífica os nossos segredos hereditários. Elio Gaspari completou a sua história da ditadura com “A Ditadura Acabada” (lendo a obra de Gaspari, pergunto-me: quem nos dará uma biografia do grande Petrônio Portella?); Simon Sebag Montefiore escreveu uma soberba história dos Románov, um tour de force impecável (o capítulo final dessa saga pode ser lido num lançamento estrangeiro, o imperdível “Lenin on the Train”, de Catherine Merridale, sobre a viagem do líder soviético de Zurique a São Petersburgo, onde discursaria na agora famosa Estação Finlândia, em 1917, para tomar o poder. Tradutores, habilitam-se?).

O Tribunal Da Quinta-feira Michel Laub Companhia das Letras
O Tribunal Da Quinta-feira
Michel Laub
Companhia das Letras

Há mais? Há mais. Eu disse que leio pouca ficção, mas Michel Laub escreveu um livrinho curioso sobre o tribunal da internet e a santimônia dos seus inquisitores, “O Tribunal da Quinta-Feira”, que certamente vale a leitura. Mas a melhor ficção — ficção em termos, pois calcada na experiência do autor nos campos de concentração da Sibéria — foi a publicação de “Contos de Kolimá”, de Varlam Chalámov (ou isso foi em 2015, memória minha?), obra que será publicada em cinco volumes (ou seis? Tá difícil escrever com esta preguiça de fazer consultas).

Creio que seja isso. Opa, não: como gosto de listas, “100 Melhores Filmes Brasileiros”, de autor e editora que se perderam nos debris acumulados da minha memória, francamente em processo rápido de desbarrancamento (e já que falei em cinema, cito também “A Odisseia do Cinema Brasileiro”, livro evidentemente escrito por um francês, Laurent Desbois, já que a nossa elite intelectual está patrioticamente ocupando prédios públicos e discutindo a reforma previdenciária). Ah, lembrei-me agora de Edson Aran e seu “O Livro das Conspirações”, um livro de difícil classificação, digamos que seja um dicionário de bizarrices conspiratórias mescladas com o humor de Aran — em tempos bicudos, navegar é preciso, rir é mais do que preciso (para quem não respeita humor como literatura, corram a Philip Roth e seu “O Complexo de Portnoy” e ao “A Vida e Opiniões de Tristam Shandy”, de Laurence Sterne, livro que, a propósito, me ensinou a usar travessões nos meus textos — abundantemente e sem muitas regras). É isso? É — houve muitos outros, claro, mas o retrato deste ano de bruxas soltas, por assim dizer, é este.

O Livro das Conspirações Edson Aran Companhia das Letras
O Livro das Conspirações
Edson Aran
Suma de Letras

Bom, e aqueles livros que não foram traduzidos? Ah, os melhores do ano comentados pelos grandes jornais e revistas dos países canalhas e imperialistas… Não percam, não percam — aliás, leiam essas listas genuflexos e contritos. Não os comentarei aqui; recomendo apenas que busquem as listas do “New York Times”, “Washington Post”, “Guardian”, “Times Literary Magazine” e outros jornais e revistas da “grande mídia que não mostra isso, aquilo e aqueloutro”.

Ars longa, vita brevis. Também com preguiça de procurar outros livros nas minhas desorganizadas pilhas (uma metáfora quase perfeita da minha vida) para mais comentários, encerro. Meus editores (eu os tenho!) corrigirão os títulos e acrescentarão as editoras e autores, tenho certeza, porque, sendo curta a vida e vã a nossa filosofia, precisão técnica é algo que eliminei das minhas agonias. Licht, sempre mehr Licht, amigos — pode ser o antídoto para aquela vontade de opinar raivosamente nas redes sociais. Marcelo dixit, ademã.

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