Às vezes tudo o que se precisa é de um emoticon

Parece absurdamente desumana a afirmação. Certo. Um banho de solvente eficaz no desmanche da espécie humana. Mais acertado ainda. A adesão total à cultura do amazing, dos likes virtuais. Eventualmente, por que não? Em algumas ocasiões o cafuné na rede vale tanto quanto entregar o corpo ao sol manhoso e adocicado de uma rede real, trançada com o carinho artesão de sorridentes nordestinas. Uma rede larga e colorida, afixada em coqueiros bem ao sabor do vento, naquela delícia de praia que é Jericoacoara, no Ceará. Eita malemolência safada.

A proposta é entregar-se ao embalo. Não exatamente aos embalos de sábado à noite, com o frenético astro do cinema John Travolta. Nem aos embalos de uma balada sensório-enlouquecida de uma cult-casa noturna, bombando feito coração-pop, por detrás do hard-som eletrônico que o estabelecimento oferece. Oh yeah.

Redbull na veia, meu camarada. Ou duas colheres assumidas de guaraná em pó na vida. Repetiremos a seguir a máxima do início do texto, com alguma variante: às vezes tudo o que nos falta é receber um singelo emoticon de um amigo ou até conhecido que surfe na web.

Entretanto, convém esclarecer, receber este agrado gráfico, não do jeito automático e desvitalizado de tantos emoticons sem pedigree, distribuídos à exaustão, a torto e a direito (mais a torto que a direito, bem entendido) nas redes sociais e e-mails do cotidiano.

Um emoticon amarelinho e vitaminado feito sumo de laranja espremida na hora, pelo seu Abílio da loja de sucos da esquina. Sol líquido. Vitamina C na gripe. Gosto de saúde na língua.

Livros de autoajuda espalham-se feito praga em prateleiras anódinas em qualquer calçada. Muletas aparentes para olhos cansados. Opacos talvez, de tanto enxergar a sensaboria da rotina. Vendem aos milhões. Viram Best Sellers da noite para o dia. A receita milagrosa para um despertar radiante na manhã seguinte.

Vamos combinar: ilusão concentrada em um único cérebro é que nem bala na agulha: se mirarmos bem o alvo aonde se localizam as lamentações de alguém não falha. É batata. Dá pra descascar e fritar como crocantes e salgadinhas chips. Morde essa, vai.

Autores mais compenetrados, como alguns indianos, budistas, outros ainda sob a chancela da psiquiatria, tentam lustrar, dar brilho a inúmeros neurônios cabisbaixos, com a flanela psíquica de sua sabedoria e prática de redentores divãs, assentados nos meandros da psicologia. Nesta lista, entram os ditames do zen budismo, aconchegos astrológicos, cafunés nas combalidas e errantes almas — que proliferam aos milhões no planeta — de massoterapeutas munidos de mágicas mãos e incensos de incríveis aromas.

Como assim? Nada substitui o abraço, um cheiro, um cochicho na orelha, uma estratégica mordidinha no pescoço. Um chega pra cá meu bem. Aquela pegada irresistível que te deixa com a respiração represada no ar da sedução.

Certas pegadas, aliás, provocam impressões singulares, customizadas não somente na pele arfante de quilométricas desejuras. Mas também no terreno cerebral aonde aterrissam lembranças e memórias aparentadas. Vários autores que tangenciam suas preferências por temas do pós-humano refutam decididamente a existência do corpo, em toda sua dinâmica visceralidade.

O corpo é um rascunho mal resolvido, alardearia tranquilamente David Le Breton, um pesquisador francês, autor de “Adeus ao Corpo” uma de suas seminais obras centradas na dissolução da carne, as anacrônicas vestes tissulares que nos recobrem os ossos.

Adeptos do transhumanismo defendem prolongamentos maquínicos acoplados à sua pobre e limitada compleição física. Como um terceiro braço enxertado de que se vale, por exemplo, em suas apresentações públicas o experimentalista Stelarc.

Ele próprio discute do alto dos seus mais de 60 anos, a incontestável, a princípio, posição de nossa cabeça, tronco e membros, com sua bio-localização afixada e pré-definida desde o nosso nascimento.

Assim, Stelarc resolveu implantar uma orelha no antebraço esquerdo. Porque afinal seus braços necessitam também de uma escuta particular, a despeito dos ouvidos, tão vizinhos dos nossos aquilinos e afoitos olhos. Alguma coisa está fora da ordem mundial, como diria Caetano em um trecho de uma de suas músicas. Felizmente. Suponha que tivéssemos nascido em blocos, módulos, com a possibilidade de nos encaixarmos e reencaixarmos como legos-humanos no decorrer de nossas existências. Uau.

Você gostaria de ter sido gestado e parido de pernas para o ar? Com seus pés-antenas, atuando como geolocalizadores do espaço em torno? A cabeça quase rente ao chão. Inundada de teluricidade. E os olhos necessitando empreender uma baita acrobacia, sempre que desejassem admirar a beleza do céu. Este teto universal, normalmente azulzinho da silva e que nos traz eventuais e apaziguadoras sensações de paz na terra, distribuída, democraticamente, aos homens de boa ou má vontade.

Quem sabe nossos dedos dos pés eretos, no alto de nosso alinhamento corporal, possuíssem, cada um, fibras nevrálgico-óticas as quais nos facultariam proezas como enxergar a transparência, quase invisível, de asas de magníficas, (porém tímidas) borboletas.

Break the rules. Quebre as regras como um lutador de karatê estilhaça de uma só vez uma pilha de tijolos, com a mesma facilidade como corta delicadamente uma apetitosa fatia de pudim de leite. Unham.

Mas é isso. Nem sempre a corporeidade é significativa em nossas trocas relacionais. Pois pode manifestar-se abúlica, anêmica, tediosa e desemocionada.

Maravilha seria se conseguíssemos encher os pneus de nossos esvaziados desejos, saberes e quereres do mesmo modo que o fazemos ao aprontar nossas eco-bikes para a frugalidade de passeios envoltos de brisa, verde e oxigênio da mais pura safra.

É bom soir, pedalando até à noite, sob o cumprimento de ciclistas franceses. É bom suar dirá nosso atento personal trainer. E é bom assoar — nos aconselhará o melhor otorrinolaringologista, visando expulsar bactérias intrusas do nosso frágil e contemporâneo organismo.

Vai que você esteja deficitário, em seus bélicos anticorpos sanguíneos, de robustos glóbulos brancos para defender-se de um aperto de mão contaminado. Ou de um beijo succional, mas não tão recomendável assim. Hein?