Aquilo que o Salinger fala num conto

Aquilo que o Salinger fala num conto

Assisti ao Poderoso Chefão ontem.

Aquela suspirada que o Brando-Corleone dá quando o Tom Hagen conta pra ele que o Sony morreu, é a melhor atuação que qualquer um já fez em qualquer cena.

Você entende o que eu quero dizer?

Aquela… não é bem uma suspirada, é uma bufada, ele expele o ar que está no pulmão, ele meio que encobre um gemido com aquela expiração.

Aquilo.

Aquele segundo.

Brando é o melhor ator vivo ou morto por causa de uma respirada bem dada.

E fiquei pensando aqui comigo que, um dia, espero poder escrever assim.

Não quero descrever os dias, os meses, as gerações que vão passando, embora adore escritores que o façam.

Quero outra coisa.

O ‘turning point’, ou não, mas aquele momento.

Aquela gota, aquele drops de tempo, aqueles momentinhos, que juntos, fazem da sua vida isso que ela é, fazem de você isso que você é.

Porque, ao fim e ao cabo, é isso que somos todos. Momentos, segundos, gestos pequenos, pensamentos minúsculos, todos bem costuradinhos e macerados. É sobre isso que quero falar. Claro que amo o pratão de pudim, que o diga meu manequim 54. Mas minha perdição são os drops, aqueles quadradinhos coloridos embrulhados em papel celofane, que você carrega no bolso e que, de vez em quando, abre um e mete na boca. Não sinto a menor atração em falar sobre uma civilização ou um período. Talvez um pouco sobre uma vida específica, um pouco mais sobre uma fase da vida de alguém. Mais ainda: sobre um dia na vida do cara, sobre uma hora, dum determinado dia, numa determinada fase. Mas, mais do que tudo, estou sempre atrás daquele segundo, daquele suspiro, daquele gemido, daquela virada de cabeça. O que cruzou sua cabeça quando você estendeu a mão pra pegar a xícara? Qual foi seu primeiro espectro de pensamento quando você viu seu reflexo no espelho, ou virou uma esquina num corredor da faculdade e se encontrou com ela? Qual foi o primeiro sentimento dela quando te viu? Quando ela se reapaixonou pelo marido? No primeiro segundo em que soube que o amava de novo, ela sentiu o quê? O que passou pela cabeça dele, um centésimo de segundo antes do carro atingir o muro? O que aconteceu com meu coração no momento exato em que ele gritou comigo? O que significa o pequeno gesto com o qual ela arruma o brinco ou tira aquele pelinho imaginário do suéter? O que foi que eu senti quando ele partiu meu coração? O que veio no segundo de nada antes do sorriso? O que sentimos durante aquele breve abraço?

Não a explicação rebuscada e racionalizada de depois, não; naquele momento, naquele segundo, sentimos o quê? O quê? Quero esse mínimo, esse segundo, esse nada, essa piscada de tempo. Quero a cena congelada no tempo, aquela da qual a gente não se livra, aquilo que o Salinger fala num conto, sobre ter ficado com a sensação da cor amarela do vestido dela na palma da mão, cuja citação você me mandou trudia. Para citar algo que toca o seu coração, a seda azul do papel que envolve a maçã. Aquele esgar do querido Don Corleone veio de onde? Significando o quê? Um dia, em frases curtas, vou ser capaz de traduzir o gemido que o Brando não deu naquela cena, a frase que ele não disse, a praga que ele não jogou, as ameaças que ele não fez, a perda da jovem vida daquele filho boboca dele, que ele lamentou, mas não lamentou.

E é sobre isso que eu quero escrever.

*Texto publicado no livro “Sonhei Que a Neve Fervia”, editora Rocco.
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