Há 22 anos morria Pio Vargas

Há 22 anos morria Pio Vargas

Pio Vargas seria o maior poeta de seu tempo. Mas morreu antes dele. A carreira meteórica do autor de “Anatomia do Gesto” e “Os Novelos do Acaso” foi interrompida tragicamente, aos 26 anos, por uma overdose de cocaína, na tarde de 8 de março de 1991. Pio Vargas foi apontado por Paulo Leminski como um dos mais criativos poetas de sua geração: “Pio Vargas tem um ‘eu’ coletivo tão forte que chego a vê-lo muitos. De sua poesia consigo extrair a certeza do que digo, insistente: há uma geração recente que usa e abusa da modernidade, fazendo dela o principal elemento a interferir na criação. Este Pio Vargas me trouxe uma poesia fascinante que não se atrela a falsos modelos de invenção, mas flutua, inventiva, com os mais amplos e possíveis signos do fazer poético”. 

A mulher que quero

Pio Vargas

Eu quero uma mulher de aço
que seja leve como a pena,
cujo sorriso seja um laço
a me prender como um poema.

Eu quero uma mulher madura
a me guiar durante o dia,
quando for noite ser vadia
a me domar sem armadura
e a me tomar como num sonho,
uma mulher que seja a lua
dentro do sol em que me ponho.

Eu quero uma mulher de ferro
com um aplauso pra quando acerto
e um perdão pra quando erro,
como alguém que seja o brilho
dentro do escuro em que me encerro.

Uma mulher que seja plena
uma amante de verdade
que seja motivo de lembrança
e um intervalo na saudade
que, diurna, me cuida,
mas que, noturna me invade.

Eu quero uma mulher-mãe
que seja vinho, cerveja,
refrigerante, champanhe,
que me entenda se viajo
e se fico me acompanhe.

Eu quero uma mulher toda
que me edifique como homem
e algo depois me exploda.

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