A história de três escritoras judias assassinadas pelo nazismo

A história de três escritoras judias assassinadas pelo nazismo

A literatura “do” Holocausto é vasta e, acima do lamento, é de alta qualidade. Primo Levi, Elie Wiesel, Paul Celan e Imre Kertész são autores de obras seminais de testemunho que também são literatura de primeira linha. “É Isto um Homem?” (Rocco, 256 páginas, tradução de Luigi Del Re), do italiano Primo Levi, é uma obra-prima. Se os homens foram consagrados — o húngaro Imre Kertész ganhou o Prêmio Nobel de Literatura —, cadê as mulheres? Para responder a pergunta, a crítica literária e escritora espanhola Mercedes Monmany escreveu o livro “Ya Sabes Que Volveré: Tres Grandes Escritoras Asesinadas en Auschwitz — Irène Nemirovsky, Gertrud Kolmar e Etty Hillesum” (Galáxia Gutemberg, 180 páginas).

A obra, resenhada por Inés Martín Rodrigo, do jornal “ABC”, da Espanha, não tem tradução prevista para o Brasil. “Nes­te gênero triste, que não deveria ter existido — a literatura do Holocausto —, prevalecem os grandes nomes, de homens, que se repetem de modo automático: Primo Levi, Elis Wiesel, Paul Celan e Imre Kertész… O único nome de mulher é o de Hannah Arendt, mas ela não passou pela perseguição cotidiana nem pelos campos de concentração — é uma pensadora”, sublinha a autora. A pesquisa é “uma homenagem a todas essas mulheres intelectuais de um grandíssimo nível”.

Etty Hillesum

Em 1943, de um trem que a levava para Auschwitz, a judia holandesa Etty Hillesum, de 29 anos, jogou um cartão postal, no qual escreveu: “Vai me esperar, verdade?” O micro texto era endereçado à amiga Christine van Nooten, que ficara em Amsterdam, e era uma súplica. A jovem escritora queria viver, mas, apesar do que anotou, sabia que caminhava para a morte.

Etty Hillesum: seus diários e cartas descrevem a vida em Amsterdã, durante a ocupação alemã

Etty Hillesum morreu, em novembro de 1943, aos 29 anos. Poderia ter escapado, pois tinha contato com a resistência ao nazismo. “Até o último momento, recomendarem-lhe que fugisse. Mas decidiu ficar com o pais”, afirma Mercedes Mon­many. Deixou um “Diário” tido como extraordinário, tão importante mas não tão famoso quanto o que escreveu Anne Frank. Em português, ao menos em sebos, pode ser encontrado o livro “Uma Vida Inter­rompida — Os Diários de Etty Hillesun: 1941-43” (Record, 260 páginas, tradução de Antônio C. G. Penna). Ela tinha interesse pela psicanálise, estudava a poesia de Rilke e apreciava a língua russa.

Mercedes Monmany afirma que as três escritoras foram vítimas do “irracionalismo e do ódio”. Irène Némirovsky é prosadora; Gertrud Kolmar, poeta; e Etty Hillesum, autora de diários. “Por intermédio de seu testemunho, as três se converterem em guardiãs da memória do futuro.” A crítica afirma que, paralelamente ao Holocausto dos corpos, há o que chama de “genocídio literário”. Vários dos que morreram, muitos deles ainda jovens, poderiam ter deixado obras em vários campos, como literatura e ciência. Há também aqueles que morreram, mas deixaram uma obra, que, porém, precisa ser resgatada do esquecimento. É o caso das três autoras. Curiosa ou sintomaticamente, as mulheres são as mais “esquecidas” e suas obras raramente são avaliadas.

Dickinson europeia

A judia alemã Gertrud Kolmar (1894-1943) era sobretudo poeta — escreveu 450 poemas —, mas também publicou prosa (“A Mãe Judia”, romance, e “Susana”, novela) e dramas. Era prima de Walter Benjamin, que se matou, por receio de cair nas mãos dos nazistas de Adolf Hitler, em 1940. O filósofo a considerava como sua “alma gêmea” (ele também escrevia poesia). “Era uma mulher retraída, tímida, a Emily Dickinson europeia, não participava dos grupos literários de sua época, numa Berlim frenética. Cria uma obra absolutamente encerrada em si mesma”, afirma Mercedes Monmany. Numa carta para a irmã Hilde, escreveu: “Sou uma mulher triste há muito tempo”. Noutra missiva a Hilde, assinalou: “Hoje eu sei, mesmo sem os críticos, o valor que tenho como poetisa… E que tive de pagar um preço muito alto para a realização de minha obra”. “Su­sana” foi escrita em 1939, em Berlim. Ela escreveu o livro à noite, num apartamento em que morava com outros judeus, já então segregados.

Livro da crítica e escritora espanhola Mercedes Monmany resgata a trágica história de três escritoras, Irène Némirovsky (franco-ucraniana, a única famosa), Gertrud Kolmar (alemã) e Etty Hillesum (holandesa)

Gertrud Kolmar poderia ter escapado para a Suíça, país neutro, com os irmãos. Havia a possibilidade de um contrato como preceptora na Inglaterra. Mas a escritora decidiu ficar para acompanhar o pai enfermo. Doutorando em literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina, Marcus Tulius Franco Morais frisa que a escritora “preferiu a emigração interior, e se entregou ao estudo do judaísmo e de sua língua sagrada, o hebraico”.

Na internet, pode ser lido o ensaio “Metamorfoses — Poema de Gertrud Kolmar: uma tradução comentada”, de Marcus Tulius.. Trata-se do poema que contém o belo verso “Quero envolver a noite em mim feito manto quente”, traduzido com leveza e perspicácia.

Marcus Tulius relata que encontrou-se, em Paraty (RJ), com Sabine Wenzel, sobrinha de Gertrud Kolmar. O pai desta era contista. “Em 1917, sem o conhecimento da filha, procurou uma editora e publicou o primeiro livro dela, ‘No Outono’. Em Berlim, dezessete anos depois, foi publicado ‘Brasões Prussianos’. Em 1936, três poemas de Kolmar saíram num jornal do Clube do Livro Judaico.” A “reunião de poemas ‘A Mulher e os Animais’” saiu em 1938.

A poesia de Gertrud Kolmar, avalia Marcus Tulius, “ecoa uma voz de indignação e impotência, revelada por imagens simbólicas. Uma tristeza infinda transcende e clama por esperança para si própria e para toda a humanidade. A poetisa mergulha sua pena nas tintas do Expressionismo para falar da atmosfera turbulenta dos seus dias. Os versos carregam traços do começo do século com seu lirismo elegíaco, marcado por intenções melancólicas, às vezes desesperadas, evocando imagens espantosas. Com sua sintaxe singular, as frases vão se sobrepondo e ocultando o sentido das palavras; desnudando, porém, uma biografia sobre uma vegetação rara”. A escritora alemã Nelly Sachs chamou-a de “a clarividente Gertrud Kolmar”. Num poema, Nelly Sachs sublinhou: “Onde para nós era ainda a noite,/tu já vias eternidade” (tradução de Marcus Tulius).

Prima de Walter Benjamin, Gertrud Kolmar se matou por receio de cair nas mãos dos nazistas de Adolf Hitler, em 1940

Leitora dos poetas simbolistas franceses, especialmente Charles Baudelaire, Gertrud Kolmar dizia que, apesar de se sentir próxima de Rainer Maria Rilke, conheceu sua poesia muito tarde e, por isso, não acolheu sua influência. “Li a Bíblia, de Lutero, durante toda a minha vida”, revelou. Marcus Tulius, que analisa o poema “Metamorfoses” de maneira primorosa, informa que, “em 1989, a Editora Pahl-Rugenstein publicou ‘Queimadas, Proibidas, Esquecidas — Pequeno Dicionário de Escritoras de Língua Alemã, de 1933 a 1945’, de Renate Wall. A obra apresenta 150 biobibliografias de mulheres que nesse período foram vítimas da política racial do Terceiro Reich. Muitas morreram prisioneiras em campos de trabalhos forçados; outras, que conseguiram fugir, morreram no olvido do exílio”.

Irène Némirovsky

Irène Némirovsky, a mais “reconhecida” das três escritores, foi assassinada em agosto de 1942, aos 39 anos, em Auschwitz. Nascida na Ucrânia, vivia na França quando foi levada para o campo de extermínio na Polônia. Mercedes Monmany assinala que seu “desaparecimento” equivale a “‘matar’ Doris Lessing ou Margaret Atwood em plena atividade”. A escritora optou por ficar com o marido, mas conseguiu salvar as duas filhas.

Irène Némirovsky: sua obra-prima é o livro Suite Francesa. Irène escreveu a história, à mão, nas páginas de um caderno, durante a ocupação da França pelos nazistas

“Suíte Francesa” (Companhia das Letras, 536 páginas, tradução de Rosa Freire d’Aguiar), o mais famoso romance de Irène Némirovsky, saiu na França em 2004 e ganhou uma adaptação para o cinema. Sua filha Denise Epstein-Dauplé disse: “É uma sensação extraordinária ter trazido minha mãe de volta à vida. Mostra que os nazistas não conseguiram de fato matá-la. Não sei se é uma vingança, mas é uma vitória”. No Brasil foram publicados “Calor do Sangue” (Record, 144 páginas, tradução de Vera Gertel) e “O Senhor das Almas” (Companhia das Letras, 232 páginas, tradução de Rosa Freire d’Aguiar).

Ao comentar “O Senhor das Almas”, o crítico Miguel Sanches Neto escreveu, na revista “Veja”, que o livro “dá motivos de sobra para a acusação de antissemitismo”. No prefácio, Irène Némirovsky escreveu: “Por que um povo se recusaria a ser visto tal como é, com suas qualidades e defeitos? Acho que alguns judeus se reconhecerão nos meus personagens. Sei que digo a verdade”. Há alguns anos, e não apenas devido ao romance “O Complexo de Portnoy” (Companhia das Letras, 264 páginas, tradução de Paulo Henriques Brito), o escritor americano Philip Roth foi tachado de “filonazista” por judeus que consideram os judeus como “intocáveis”. Não há nada de nazista na literatura do autor de “O Teatro de Sabbath” — antes, o que há é uma celebração da vida judaica de maneira nuançada, com virtudes e defeitos apresentados de maneira caprichada e, até, amorosa. O que há na prosa de Philip Roth, para além de sua ironia precisa, é um profundo humanismo. Não há, porém, uma gota de sentimento anti-judaico.